Não sou especialista em nenhuma arte. Nem pretendo ser. Deus me livre de ser um desses experts em determinada área das artes ou da cultura. Sigo apenas minha intuição e por isso não preciso de aval de quem quer que seja para me interessar pela pintura de Bosch, por um solo de Charlie Parker, Lester Young e John Coltrane, um conto de Chekhov, uma peça de Arthur Miller, ou de Maupassant, a música de Haendel, uma sinfonia de Mozart, uma cancão de Cartola, um concerto de Bach, um noturno de Chopin, a voz de Billie Holiday, o cinema de Bergman, a filosofia de Schopenhauer, a voz de Sinatra, o virtuosismo de Jimmy Hendrix, o som e as letras de Pink Floyd e Radiohead, a fúria de AC/DC, os scats de Ella Fitzgerald, o trompete de Armstrong, Miles e Chet, o som do New Order, a arte barroca, o canto de Elis, o Renascimento, o Impressionismo, o Surrealismo, as letras de Arnaldo Antunes, a guitarra de John Lee Hooker, Stevie Ray Vaughan, Muddy Watters, Buddy Guy, as montagens de Einsenstein, o estilo de Montaigne, o cinema de Chaplin, o humor do Monty Python, a análise da alma humana na obra de Dostoiévski, o estilo único de Nietzsche, o universo de Kafka, os textos de Freud, o estilo de Dalton Trevisan, as peças de Sófocles, os romances e contos de Machado, a poesia do Bandeira, a excentricidade criativa de David Lynch, a irreverência de Fellini e Buñuel, a perfeição de Vivaldi, as performances de Janis Joplin, Freddy Mercury e Tom Zé, o pessimismo de Antonioni, o perfeccionismo de Kubrick, as pinceladas de Renoir e Van Gogh etc etc.
Não quero jamais perder esse gosto intuitivo que me leva a tudo que a arte, todas as artes, tem de melhor. Essa intuição, esse faro para descobrir a essência de um artista, a obra seminal de um escritor; esse dom para captar aquilo que de mais característico há na criação dos muitos gênios das artes.
Não estou preocupado com tecnicismos. Nem tampouco com análises sociológicas. O que amo, o que torna esta minha vida plena de sentido, de significado, é esse envolvimento, em grande parte autodidático, com as artes, com o conhecimento. Essa mistura altamente democrática, caótica. Que é um pálido reflexo, na verdade, do meu vasto, mutável e hipersensível mundo interior. E sensível não no sentido de algo por demais especial. Mas no de algo profundamente humano, demasiadamente humano.
E arte, para mim, tem uma base epistemológica: um pé na questão do conhecimento. Arte, como a vejo, é conhecimento. E vice-versa!
Tudo o que há de elevado no mundo das artes me interessa. De todas capto algo e torno só meu. Meu apetite é infindável. Todas as artes, para mim, se complementam.
E me completam.
E sempre o farão. Ainda que a vida cotidiana, sentimental, financeira ou o que quer que seja, esteja uma porcaria.
A arte, enfim, me humaniza.
Sou um humanista deslocado no tempo e no espaço que, por força das contingências da vida, veio parar por aqui. Neste lado íngreme da vida e do mundo. Nestes tempos de superficialismos.
A arte e o conhecimento são minha religião. O meu ópio. O resto é pano de fundo.
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