Os disseminadores do caos.

   Um flagelo dos tempos modernos? Fácil, companheiro.

   (Antes, um aviso: o que segue é apenas um desabafo, sem preocupações sociológicas ou pretensamente detentoras da razão absoluta).

   Celulares que tocam MP3 (a maioria) na mão de desequilibrados e desajustados e sabe-se lá quais outras patologias mais.

   Vai vendo: o sujeito, a “sujeita”, ouvindo sua (chamemos assim) “música” numa altura selvagem, totalmente desproporcional – como achando (muitos desses homens e mulheres-bomba de fato têm a convicção de que todos, ou seja, você, eu, o cara ali da esquina etc, queremos mesmo) que os pobres infelizes aos quais levam o caos sonoro desejassem ouvir aquilo que escutam em suas armas de destruição em massa portáteis –, agem como estivessem sozinhos no mundo, como se a rua, o lugar público, seja lá onde estejam, fosse uma extensão de sua casa.

   E nem falemos dos ringtones monstruosos com os quais somos “brindados” pela vida afora.

   Respeito mínimo, educação zero, egoísmo na estratosfera, assim como lá estão os decibéis com os quais “emporcalham” o ambiente.

   E o mais “curioso”. Mesmo que soe elitista e preconceituoso dizer isso, que pareça: se fizerem uma pesquisa com aqueles perpetradores do caos, aqueles destruidores sonoros (como se já não bastassem todos os tipos de poluição na atualidade, ainda disseminam em altíssimos decibéis o detrito sonoro que consomem e obrigam os outros a ouvir), ficará constatado que o nível qualitativo daquilo que ouvem, a tal da “música” (haja aspas) é inversamente proporcional à intensidade sonora com que esta última é difundida para os pobres ouvidos alheios.

   Trocando em miúdos, gente boa, e falando mui claramente: quanto mais alto, mais “lixo” é.

   São letras de funk indigentes (opa, eis um pleonasmo!), ritmos selvagens (não no nobre sentido antropológico do termo), pieguice a perder de vista, refrões paupérrimos e “colantes”, entre outras porcarias. Claro que tudo isso é indicativo do atraso cultural e de extrema indigência em que a grande maioria chafurda, muitas vezes por puro comodismo e tal.

   Não precisa nascer em berço de ouro para se cultivar o gosto.

   Mas, mesmo assim, suponhamos que o fulano saiba de tudo isso e mesmo assim esteja satisfeito com seu funk ou outro equivalente. Mas aí se concentra mesmo minha crítica: achar que todos querem ouvir aquilo que se ouve, ou pouco se importar com o próximo, é de fato considerado um ato de violência, ainda que muitos não vejam assim.

   Atirar goela abaixo do outro suas preferências é sinal claro de egoísmo pueril, falta de educação ao extremo e mostra de uma indigência mental absoluta.

   Se isso, em suma, se limitasse ao universo particular de cada um, ainda iria. Afetar, no entanto, a liberdade do outro é algo de total condenação.

   O que deveria ser exceção se torna, infelizmente, a regra.

   Eis aí um flagelo da atualidade, meu caro. Pelo menos nos lugares onde o respeito pelo próximo ainda é uma coisa distante.

Do porquê deste blog insistente.

Pra quê mantenho este blog? Será que penso que alguém o lê?

A resposta para a primeira pergunta: escrevo aqui como uma forma de manter uma janela para o mundo. Uma forma de fixar alguma coisa que passa pelas minhas retinas. Um testemunho, mesmo que ligeiro, de coisas que, ainda que pareçam por demais insignificantes aos outros, a mim não o são, visto que as coloco aqui. Uma resposta circular, como se pode ver. Cretina, talvez. Mas de uma cretinice menos deletéria do que as que vemos por aí.

Bem… quanto à segunda pergunta: sim, este blog é lido. Sei que há pessoas que acompanham o que escrevo mas preferem não se manifestar, seja quais forem seus motivos. E outra: vendo os acessos diários, percebo que muita gente vem parar aqui, na sua grande maioria, graças a alguns textos que escrevi sobre filmes. Nota importante: não são críticas, ou resenhas críticas. Trata-se tão-somente de minha opinião, a opinião de um cara que não acredita que para emitir um ponto de vista sobre uma dada arte, sobre um filme, no caso (poderia ser um livro, um quadro, um poema, o que for), seja necessário mostrar credenciais intelectuais. Mas que escreva com a sinceridade, com a franqueza, guiado pela razão e também, por que não, pela emoção. Aquela emoção que nasce da identificação com uma dada obra de arte. Fazendo a devida ressalva, obviamente: aquilo que escrever deve ter um fundamento, um argumento, motivações que respeitem a inteligência daquele que o lê. Coisa que a quase dúzia de textos abordando filmes que aqui escrevi parecem ter, visto que já recebi elogios, muitos, de leitores. O que já diz tudo.

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Ao som de John Coltrane, Naima

Efeitos perniciosos da lua e das estrelas em almas impressionistas.

Lição 6. Da subliteratura lunar e estelar. E onde condenamos enfaticamente a pseudoliteratura cibernética.

Há muito é sobejamente conhecido o efeito que os astros, sobretudo a lua, exercem sobre pseudopoetas e escritores de quinta categoria, todos eles almas impressionistas ao extremo, na acepção mais pejorativa da palavra: impressão como algo que não passa pela chancela do intelecto, da razão, vindo direto do mais “emotivo”, mais primitivo dos órgãos humanos, a saber: o coração. Neste capítulo de Como Ser Escritor em 37 Lições, edição revista e ampliada, resultado dos mais avançados estudos feitos pelos nossos eruditos da Snobfield University, apresentamos a nossos leitores e alunos um caso exemplar do fenômeno em tela. Veremos, em linhas de péssima qualidade literária, um autor assaz desconhecido e indubitavelmente uma dessas almas pusilânimes e sugestionáveis que grassam por este mundo – sobretudo de alguma região do inóspito e atrasado mundo em desenvolvimento – discorrer sobre os condenáveis efeitos supracitados e sua tentativa ridícula de dourar a pilúla. O que se verá em seguida também é um exemplo cabal da subliteratura que pseudoautores cometem no vasto e caótico mundo cibernético. Pedimos desculpas aos nossos leitores pela baixeza qualitativa e pobreza artístico-conceitual do anônimo autor. Que esse esforço, contudo, sirva como contraexemplo do que deve ser a genuína Literatura. Por vias tortas, é o que lhes desejamos. Caro escritor/a talentoso/a, motivo de orgulho futuro para as letras, oxalá aquinhoado/a com o futuro Nobel ou o vindouro Pulitzer, fuja de tal exemplo de subliteratura, nunca é por demais repetir. Boa leitura, o que vem apenas a ser uma mera formalidade.

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Eu queria (quem me dera!) escrever um texto, um conto, um poema, uma crônica, o que fosse, em que conseguisse expressar em palavras – fixar por intermédio delas – toda a gama de matizes e nuances de ideias, pressentimentos e idiossincrasias que me despertam essas estrelas e essa lua.

Ao mesmo tempo, porém, a certeza de que tudo já foi expresso antes, por alguém mais competente, ou menos inseguro, me impede de seguir adiante. É a convicção de que tudo se esvai e de que nada vale a pena mais ser expresso. De que tudo é gasto, visto, superado. E também a de que quem porventura lesse aquilo riria do total de pieguices e sentimentalismos chinfrins.

Mas mesmo assim, apesar do pessimismo, apesar dessa coisa que me tolhe, que me faz imaginar todos esses impedimentos, aquele desejo continua lá, intacto. Algo que grita. Algo que se recusa a ficar apenas e tão-somente no campo daquilo que tem chances (muitas vezes, apenas remotas) de ser expresso. No âmbito das virtualidades. Naquele limbo onde um dia estiveram tantos textos alheios que hoje são conhecidos, discutidos e que já despertaram em tantas pessoas as mais variadas experiências de identificação. Textos que partiram exatamente daquele estranhamento pessoal, anônimo, perdido entre tantos outros estranhamentos cuja grande maioria se esvai justamente nos ralos daquele mesmo pessimismo.

O mundo interior, o das sensações, o dos mais profundos sentimentos, é a todo instante instado, estimulado, provocado pelos mais variados e diversos acontecimentos. Nosso filtro interno não para nunca. Precisamos, a todo momento, nomear, mensurar, analisar, graças a nosso discurso interior, aquilo tudo que nos acontece e que presenciamos e que conosco mexe, desde as coisas mais (supostamente) comezinhas até aquelas que consideramos (não menos supostas) relevantes.

A mesma lua e as mesmíssimas estrelas da nossa infância estão lá, indiferentes a nossas cabeçadas, a nossos triunfos, a nossos pequenos grandes feitos, a nossas mancadas, a nossos momentos de iluminação, àquelas ocasiões de mergulho no mais profundo e escuro poço onde o desalento, a angústia e o medo fazem morada.

Só que somos constituídos, ao mesmo tempo, de mudanças e de permanências. Somos e não somos os mesmos. Camadas e mais camadas de sedimento formado de vivências as mais diversas foram sendo ali colocadas. Fazendo uma prospecção nesse grande campo que representa nosso “eu” que foi se constituindo no decorrer do nosso tempo individual, podemos ver ali nossa essência, independentemente daquilo tudo que vivemos até o momento. E é olhando para essa lua e para essas estrelas que podemos ver o fio que perpassa toda nossa vida. Em outras palavras: vemos ali, no fundo daquele rio, metaforicamente falando, o leito que sempre esteve no mesmo lugar. É vendo as estrelas e a lua, é recebendo as mesmíssimas impressões de finitude e transitoriedade que nos caracteriza, que podemos atar as duas pontas da vida: o que fomos e o que somos.

E eis que o receio do ridículo do lugar-comum se vai. Já aliviado, concluo que na verdade somos um lugar-comum: nossos ancestrais temiam o mesmo que nós e em muitos aspectos não mudamos nada. Não criamos nada de novo, essencialmente e que funcione de forma eficaz para todos nós, com o fim de amenizar essa sensação de finitude que temos, por exemplo, ao fixar nossa atenção nos astros do firmamento. Somos e não somos os mesmos. Graças a esse precedente, todos os textos-chavões estão liberados e justificados. Como este.

Reflexões de um celibatário idoso:

 

“Sempre que ouço uma carreata com buzinaço anunciando um casamento, me lembro das trombetas do Juízo Final”.

Questões literárias

 

Cadernos de Não-Ficção, uma revista literária feita por um pessoal talentosíssimo lá do sul e que vale a pena ler, apreciar, baixar e colecionar. Um primor.

 

http://www.naoeditora.com.br/projetos/

Quem não vai a Yale…

 

… vai ao YouTube. São várias aulas (e em diversas áreas do saber) em vídeo que pretendo (pelo menos uma grande parte) assistir na íntegra nestas férias. Adoro e sempre fui apaixonado por filosofia:

 

 

Diário de bordo.

Trabalhando no momento (entre outros textos) em um relato apresentado por uma voz angustiada e um tanto desconexa, com ritmo crescente de suspense, de um fugitivo (apenas no fim se sabe o motivo da fuga). Só estou procurando o tom exato para imprimir a essa voz. Trabalheira. Eu bem que poderia me conformar em ser somente (o "somente" sem juízo de valor) um professor de inglês. Mas meu inner little devil se recusa a tal. Escrever é preciso. Sempre.

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Bem que esse show poderia rolar na semana que vem, quando começam minhas férias. Mas, não, tinha que ser justamente hoje!

http://www.vnews.com.br/noticia.php?id=98369&id2=5

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A unidade da Wizard em que dou aulas em São José dos Campos terá, a partir de agosto, câmeras com microfone super potentes em todas as salas de aula. Chegou o momento de aparecer no YouTube, uhulllll! E nada de clean the room mais, chaps!

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Na escuta: o álbum Blue Bell Knoll do Cocteau Twins

Notas de um constipado.

se vai o feriadão. Não arredei o pé de casa: uma forte recaída do resfriado me deixou a garganta congestionada, tossindo como um daqueles tísicos do Dostoiévski e quase afônico. Por sorte, nesta noite de domingo tudo vai voltando ao normal e amanhã poderei iniciar minha última semana de aulas antes das tão desejadas férias. Ufa!

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Se não saí de casa fisicamente, de outra forma estive ausente: pela via da leitura. Li praticamente de uma assentada só As Armas Secretas (Civilização Brasileira, 192 páginas), do Julio Cortázar. Correção: reli. Mas fazia tanto tempo (lá se vão quase quinze anos) e na época não pude ter a dimensão exata da importância dos cinco contos ali reunidos.

O Perseguidor, inspirado na vida de Charlie ‘Bird’ Parker, é o melhor conto que já li nesta vida.

homenaje-banfield-julio-cortazar-3Julio Cortázar, fã de jazz e que escreveu o texto ficcional – ainda que muitas passagens da vida de Charlie Parker apareçam como de fato aconteceram, segundo os biógrafos – definitivo sobre o gênero.

O extenso conto em questão é narrado por Bruno, um jornalista que vem a ser amigo e biógrafo do saxofonista de jazz Johnny Carter.

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Charlie Parker: “Ninguém sabe quantos instrumentos já [Johnny Carter/Parker] perdeu, empenhados ou quebrados. E em todos eles [ele] tocava como eu penso que somente um deus pode tocar um sax alto, supondo que tenham renunciado às liras e às flautas”. Trecho de “O Perseguidor”.

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O que Cortázar consegue com esse conto é simplesmente fascinante: uma metáfora do artista em busca da expressão (e da vivência existencial que vem a reboque disso tudo) que mais o aproxime daquilo que para ele, artista, seja o real de sua obra. Ou seja: a busca pela abstração de todas as contingências da vida: a expressão de sua obra tal seus critérios estéticos e o inconsciente elaboram, sem deixar se “macular” pelas durezas do existir, mesmo que se vá de encontro com o que as convenções sociais determinam como o comportamento padrão. Claro que isso tem um preço. Claro que Johnny Carter/Charlie Parker era um artista que tinha na intuição pura sua fonte de criação.  E, nessa perseguição, é inevitável encontrar a dor de descobrir que o mundo é feito de imperfeições que estão a todo momento o colocando (a ele, artista, e desse modo podemos ampliar para todo e qualquer tipo de expressão artística) numa situação de frustração contínua: aquela que sempre busca pressionar/destruir/calar/silenciar todo aquele que tenta ir em sentido inverso numa frustração contínua.

Conto para ler e reler. E refletir muito. E para se inspirar. Para transcender e crescer intelectual, artística e conceitualmente.

As Babas do Diabo – só para ficar em mais um dos contos –, que inspirou o Antonioni a criar o roteiro de Blow Up, é um convite à resolução de um enigma: cada leitor tira sua conclusão e vai preenchendo as lacunas como bem quiser, desde que se baseie, claro, na estrutura sugerida pelo autor.

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Leitura já engatada: Um, Nenhum e Cem Mil, de Luigi Pirandello. Adoro a temática desse grande romancista/dramaturgo italiano que gira em torno dos eventos que acabam por colocar em risco os precários fundamentos daquilo que chamamos de nosso mais profundo “eu”, nossa identidade mais guardada em sete chaves.

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Semana passada li Como Morrem os Pobres e Outros Ensaios, do George Orwell – Já tinha lido no mês passado Na Pior em Paris e Londres, do mesmo autor.

Caramba! Orwell escreve com tanta sinceridade, sem afetações, sem pieguices, que a leitura de seus textos é altamente inspiradora. O que falar de seu ensaio A Política e a Língua Inglesa? Ele não dá receitas para escrever bem, mas indica caminhos e mostra de forma muito enfática, dando exemplos práticos na sua própria escrita, o que se deve evitar a todo custo: a disparidade entre o que é observado e o que é escrito. Ou seja: acima de tudo deve-se buscar incansavelmente a honestidade na observação, o termo correto; deve-se fugir do lugar-comum e se entregar à luta constante contra os termos e expressões que de tão usadas já não significam mais nada.

Textos para ler e reler por toda a vida!

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Filmes revistos no feriadão que vai indo pelo ralo: Mouchette, do Bresson, sobre o qual já escrevi aqui, e Noites de Cabiria, do Fellini.

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Sobre música: ouvindo coisas variadíssimas, desde King Oliver, Al Jolson e Bing Crosby, passando por Jimi Hendrix, Enio Morricone, Fleetwood Mac, 10,000 Maniacs, Carlos Santana, Charlie Parker (depois do conto do Cortázar, é impossível ouvi-lo da mesma forma!), Genesis, Chopin (os noturnos, principalmente), Dire Straits e muito mais. Essa miscelânea me alimenta o espírito!

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Pretendo passar as quase três semanas de férias em casa mesmo.

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Continuo escrevendo esboços de contos, muito a conta-gotas. Perdi aquela pressa em querer escrever doidamente, anarquicamente, abestalhadamente, além dos meus limites, até porque agora os conheço plenamente. Fico até horas para burilar um parágrafo. Não se trata de preciosismo. Mas preciso sentir que o que escreve reflita ao máximo o que de fato penso. Tenho observado mais, refletido mais, anotado mais em bloquinhos de papel, feito ruminações mil, associações de ideias diversas.

Publicar aqui? Quem sabe um dia em que eu exagerar no vinho…
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Ao som de Time Table, do Genesis

Destino (quase) cego.

Fulano conheceu Fulana na festa de Beltrana, mulher quase cega que adorava juntar seus convidados e os separava e formava casais aleatoariamente em suas incontáveis e concorridas brincadeiras. Viram-se, miraram-se, desejaram-se, conheceram-se, dançaram, passaram a noite juntos, começaram o namoro, noivaram, casaram-se, viajaram pelo mundo, criaram família, tiveram netos, bisnetos, envelheceram, morreram, estariam juntos até hoje, na escuridão e na quietude eternas de seu rico mausoléu, passados tantos anos, não fosse um terremoto que destruiu o cemitério e separou para sempre o que a velha e praticamente cega Beltrana, ao acaso, havia juntado.

Está aberta a temporada de caça a ditadores.

Confesso que vejo com apreensão cada vez maior o desenrolar das revoltas no norte da África e nos países árabes. Apreensão misturada com uma pitada de esperança, claro. Esperança de que aqueles que viveram calados tanto tempo sob a ditadura de canalhas que não dão a mínima pelo seu povo possam enfim desfrutar da liberdade para decidir seu próprio destino como povos, não como manada ou massa de manobra. Eu nunca tinha tido até então, contudo, muita simpatia por tais movimentos, não por me identificar com convervadorismo de qualquer quilate. Mas, contudo, todavia…
Eis que uma sensação de alívio toma conta de mim ao ver e acompanhar, nos mínimos detalhes, no calor da hora, as notícias que vêm daquela parte do mundo. Claro que humanamente a mim me desagrada ver tanta gente perdendo suas vidas –eis o motivo da apreensão – de forma tão heroica (afinal, enfrentar o status quo, sob a mira de armas e blindados, não é necessariamente algo para covardes). Mas, pela empatia, de forma vicária, posso igualmente ter a sensação de assistir a um filme ultrarrealista no qual povos até então tratados como mero detalhe conseguem, mesmo que com o custo de vidas humanas, dar o seu recado, mandar a todos aqueles ditadores incompetententes (eis um pleonasmo) um aviso, um anátema, mesmo que sob a forma de pedradas e pauladas e cusparadas e palavras de ordem.
O que virá depois disso tudo ninguém sabe. Se a democracia ali se instalará, eis uma incógnita. Mas esse não é ponto central. O que realmente conta é que o momento para arregaçar as mangas e enxotar aqueles sátrapas atrasados chegou. Não há, pelo menos do meu ponto de vista e de muitos outros cidadãos do mundo, nesses tempos de informação instantânea e capacidade de arregimentação cada vez maior, não há como não me sentir um pouco egípcio, tunisiano, líbio etc etc.
Quixotismo? Utopia? Ingenuidade?
Que seja! Mas prefiro ver como janela de oportunidade para que cada vez mais povos sintam o sabor do que é ter a liberdade de se expressar, de decidir seus próprios destinos, até onde as contingências e vicissitudes da vida permitem.
Exatamente como acaba de fazer este blogueiro bissexto.
Que mais pedras voem. Que cada vez mais Mubaraks e Zine al-Abidine Ben Alis caiam e sejam escorraçados.

De livrarias, livros e blogs.

Acabei de chegar da livraria, onde passei uma manhã agradabilíssima. Vasculhei praticamente todas as estantes que continham assuntos do meu interesse. Ou seja: quase todas. Acho que rejuvenesço uns 200 anos (hipérboles são para os fortes) cada vez que entro numa livraria e ali passo horas e horas. Faxina mental é pouco!

Hoje trouxe livros para auto-estudo de francês, revistas e, claro, livros. Adquiri (fazia tempo que prentendia comprá-lo) Uma Breve História do Mundo, de Geoffrey Blainey, a biografia do Oscar Wilde que acaba de sair pela L&PM e,last but not least, o Passageiro do Fim do Dia, do Rubens Figueiredo (Companhia das Letras): li resenhas altamente diversas sobre esse romance. A maioria delas, a favor. A história passa quase totalmente na cabeça da personagem durante seu percurso em um ônibus. Não vejo a hora de começar!

Bem, falando em “hora”, é tempo de corrigir tarefas de inglês. Aulas de noite. Minhas segundas e quartas estão bem “tranquilas”. Já minhas terças, quintas e sextas…

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Mas preciso só dizer brevemente algo sobre a escrita.

Se fiquei um bom tempo sem escrever aqui, isso não quer dizer que não continuei escrevendo: só cheguei à conclusão segundo a qual um blog exige textos diferenciados, com um ritmo e temática também diferentes. Não caio mais naquela de publicar textos altamente burilados (muitos deles, pedantes e pretensiosos). Aqueles de maior fôlego, prefiro manter no anonimato do meu HD ou impressos e guardados em pastas para as futuras e inevitáveis reescritas. E como eu os reescrevo! Não por querer bancar o autorzinho atormentado. Mas, quando escrevo textos que procuro tratar com mais cuidado, mais elaboração, o que tenho em mente de  fato é o ritmo das palavras, muito mais do que o conteúdo. Neles, estou sempre procurando a frase perfeita (a meus olhos, claro), o encadeamento preciso, a palavra mais apropriada àquele contexto. Para mim, as palavras são geradoras de conteúdo.

Só que…

Só que em blogs acho mesmo que isso é uma perda de tempo e um risco. A perda de tempo: na web, a maioria das pessoas procura por algo mais ligeiro (não necessariamente superficial, claro!), mais leve.

O risco: o roubo de ideias. Sim, é isso mesmo. De que adianta me esfalfar para criar personagens, situações dramáticas etc (só para ficar no âmbito da ficção) se tudo que está na web pode ser criminosamente apropriado por outros. E o que é mais grave: sem a devida remuneração ou o merecido reconhecimento? Não que eu seja tolo o suficiente de pensar que tudo o que me esforço para escrever com mais labor mental seja sempre o suprassumo da qualidade. Não se trata disso. Escrever com vistas a algo muito mais do que a mera fixação de fatos, pelo que entendo de literatura, é uma atividade como outra qualquer na qual há suor, há esforço, há entrega e há sobretudo muito do próprio autor. Escrever e publicar e deixar que isso apenas seja entregue ao acaso do mundo caótico da internet é um trabalho em vão.

Trocando em miúdos: a partir de agora, tudo que será publicado aqui vai seguir essa ideia: a de algo menos elaborado (mas não fruto do desleixo) mas que seja mais compatível com este mar de hipertextos que é a rede mundial.

E se for para usar clichês, seja lá qual for a intenção ao lançar mão deles, usarei. Não quero mais textos pedantescos e soporíferos como vejo por aí. Como eu mesmo “cometi” (Basta uma procura no “Baú” à direita). A partir de agora, neste blog, minha escrita será livre de toda e qualquer literachatice. Fodam-se os pruridos. Danem-se os pseudocríticos e pseudoliteratos…

Este espaço passa a ser, depois de cinco anos, realmente um blog.

Este autor não almeja, com este espaço, nada mais do que isso: a leveza de espírito.

Stevie Ray Vaughan.

Stevie Ray Vaughan: sua música, mesmo mais de duas décadas depois de sua morte, ainda nos dá um “estalo”.

Ouço música barroca e é a mesma coisa. É só ouvir Bach ou Vivaldi e pronto: uma sensação para lá de agradável me domina. A mesma coisa com um solo de Miles Davis, a voz de Billie Holiday. Com o jazz em geral. A mesma coisa quando ouço blues. Ou qualquer coisa de Cartola. Ou de Adoniran. Ou de Elis. Sem querer carregar nas tintas do ecletismo musical, se cito tantos gêneros e artistas diferentes é porque há um substrato, um fio condutor comum que perpassa todas as minhas experiências de consumo consciente de música.

A sensação é quase indefinível: é como se de repente eu me sentisse (e de fato sou) “alimentado” por um ânimo novo, uma alma, vá lá, novinha em folha. Algo sem dúvida poderoso ocorre em nosso aparato psíquico quando ouvimos música que nos agrada: deixemos para os neurocientistas definirem com exatidão o que vem a ser isso. Fiquemos aqui apenas com o lado lírico da coisa.

Ouvir um solo de SRV é a experiência mais próxima do consumo de uma droga potente que nos coloca num âmbito novo, numa dimensão toda especial. Sua música tem a capacidade de nos proporcionar uma “pegada” para a vida (mesmo que seja algo efêmero, mas mesmo assim inegável), talvez pelo fato de que, quando tocava e cantava, o cara realmente entrava em transe, tal sua entrega visceral: talvez tal “força” criativa se reflita e se perpetue em sua obra meteórica mas absolutamente vigorosa. Seu virtuosismo é um fenômeno à parte.

Claro que outros artistas da música podem nos proporcionar tal experiência.

Mas hoje (e por muito tempo) fico com o endiabrado Stevie Ray. Que tanta falta faz.

Se já morto há um certo tempo sua música nos embriaga de tal forma, imagine se vivo fosse…

Ultimamente, tenho ouvido tudo do cara. Uma forma bem eufemística de dizer que tenho “me drogado” (no melhor dos sentidos!) pacas!

Uma droga que pode ser consumida ao gosto do freguês.

Tentando seguir o conselho do mestre.

 

Este blog faz neste mês exatos 5 anos. Meia década. Eu poderia ter escrito mais aqui. Mais resenhas de filmes, mais contos, crônicas, ou seja lá o que for. Contudo, simplesmente perdi até pouco tempo atrás o tesão por escrever aqui. Mas quem sabe a fase de jejum deste blog não tenha passado?

Fazendo um retrospecto de que tudo que escrevi neste espaço, claro que ficaria espantado até há pouco tempo: como pude publicar tanta baboseira? Tanta coisa ingênua, às vezes pretensiosa, às vezes o oposto disso? Como?

Mas hoje sei que é escrevendo, é arriscando, é perdendo todo o pudor, sempre experimentando, é só assim que se pode aperfeiçoar a escrita. Tchekhov dizia algo parecido.

Tentando seguir o conselho do mestre, vou mover mundos e fundos para, durante o máximo de dias que eu puder, deixar algo aqui: seja qual for o assunto, por mais trivial que possa parecer (e na verdade não acho que algum assunto seja trivial, irrelevante ou coisa parecida: tudo pode gerar um novo enfoque, ser um pretexto para a escrita, água para o moinho etc ), vou escrever sobre ele sem censuras, sem neuras, sem falsos pruridos e usando meu ponto de vista todo idiossincrásico (quanto tempo não usava tal termo!) para tanto.

Aos caros leitores e encantadoras leitoras que aqui aportarem, meus boas-vindas de volta.

Escrevamos, escrevamos, só assim podemos fixar nossas impressões sobre este cambiante e por isso fascinante mundo.

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ao som de stevie ray vaughan “voodoo child”

8 anos depois…

Ideia/argumento para um cartunista:

Um aquário público enorme. Muitas pessoas visitando o local. Entre várias espécies, chama a atenção uma lula gigante, com seus 8 tentáculos esticados no máximo, cada um fazendo força para não soltar o que tentam lhes tirar. Embaixo, a legenda/diálogo: “Ei, moço, olha! Por que aquele ali não quer largar as coisas que estão tirando dele?” – “Bem, é que alguns representantes dessa espécie, vejam só, podemos dizer que são um tanto emotivos e acabam se apegando às coisas. Dão um trabalho…”.

4 meses depois…

… eis-me aqui escrevendo novamente. Em 120 dias tantas coisas acontecem. Tantas ilusões são desfeitas, outras, feitas, outras ainda, descartadas. Mudamos de pele, morremos para algumas coisas e pessoas, nascemos para outras.

Qual a razão de ser deste blog? Por que ainda o autor insiste em mantê-lo no ar? Por que esse apego piegas a um espaço tão irregular, tão a “cara” de seu dono: tão cheio de variações, nuances e arroubos?

Nestes últimos 4 meses quebrei a cara como muitos. Me iludi. Me entediei. Vibrei com coisas mínimas. Tive acesso a informações novas, me livrei de quimeras e utopias. Em suma: vivi, como bilhões estão neste exato instante fazendo.

(É algo meio assustador o quão vulneráveis somos às artimanhas do acaso, do contingente, do efêmero, da precariedade do mundo).

Pronto: era para ser um post despretensioso e eis-me aqui com essas filosofices de botequim…

Querido blog, este post é só pra dizer que nem em sonho pretendo me livrar de você. Pois aqui estão reflexos da vida. A minha, por mais trivial que seja.

Chega de pieguice e vamos procurar um tema para o próximo post. Que pode levar mais 4 meses para surgir.

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Ao som da Rádio Eldorado FM: http://www.territorioeldorado.limao.com.br/player/player6.htm

Uma Weltanschauung: azeda, mas minha.

Vivemos na era da avacalhação, do desbunde, da superficialidade, do meia-boca; somos teleguiados por modas, modinhas, tendências; procuramos e consumimos produtos que proclamem aos quatro cantos do mundo o que pensamos; queremos nos enquadrar em moldes: vou consumir tal marca de cigarro, de café, de perfume, de comida, para que todos saibam o que sou; para que eu não precise me declarar: a coisa  declara tudo por mim.

Tudo se inverteu: se antes as coisas eram por nós usadas, hoje somos usados pelas coisas. Elas nos manipulam. Não as manipulamos mais. A música que ouço, o filme que assisto, o bar que frequento, os amigos que tenho, as pessoas com quem convivo, o trabalho que faço, o carro que dirijo, tudo, toda uma imensa lista de coisas desse gênero pode me controlar, me usurpar o direito inalienável que seria só meu de controlar minha própria vida. Tudo tem que trazer um subtexto: sou assim, sou assado, curto isso, odeio aquilo.

Ninguém quer complexidade – ninguém quer perder seu precioso tempo, afinal -. Todos buscam o já mastigado, o já experimentado, o já pensado, o já visto, ouvido, tocado. Todos querem o mesmo. Por isso tudo se planifica, torna-se raso, superficial, ralo. A lei da oferta e da procura impera, extrapola para outros âmbitos mais gerais: o que mais se consome acaba sendo o que prepondera. As estatísticas nos pautam. Perdemos o tesão pelas próprias buscas. Já temos tudo na ponta dos dedos. Ninguém quer mais se ver às voltas com caminhos ainda a serem explorados. Tudo funciona seguindo a lei do menor esforço. Nada mais tem encanto nesse mundo cinza, planificado, sem abismos, todo certinho, cartesiano. No tempo das celebridades instantâneas, da potencialização ao infinito da informação, a mais irrelevante que seja, perdemos o elã, a força vital, o timing, o prazer, a libido, a vontade para ir além do que está estabelecido. Nos tornamos robôs. Nos coisificamos. Nos perdemos em alguma infovia qualquer.

Temos caracteres contados para nos expressarmos. Temos todos nossos avatares em mil redes sociais. Redes sociais essas que nos enredam num mar sem fim de rostos, sorrisos amarelos, fotos de mau gosto, cosméticos que disfarçam rugas, corações tristonhos, amargurados e todo um rol de doenças silenciosas que devemos fazer de tudo para que não aflorem. Para que não aflorem e não quebrem a ilusão de uma perfeição só imaginária.

25 de julho, Dia do Escritor.

A todos aqueles que escrevem (e que publicam ou não); que têm consciência ou não de que o ato de criar está aí a todos, velhos e novos, nem tão velhos e nem tão novos; que sabem ou não que sua ação solitária e silenciosa – longe dos holofotes e do reconhecimento de pseudo-especialistas – lhe cobra uma vida mais distante das badalações; que sabem que sua produção não necessita da chancela de figurões ou moderninhos com suas pós e doutorados em seja o que for, mesmo que seja nas mais badaladas universidades do planeta; àqueles que têm fascínio pelas possibilidades expressivas da língua portuguesa e demonstram isso nas mais simples frases, pois sabem que o idioma é a ferramenta essencial de seu trabalho, além de nela se poder expressar com mais precisão sua visão de mundo, visto que o idioma nativo, muito mais do que fatalidade, é algo que nos define, queiramos ou não; a todos que se aventuram na efêmera mas intensa experiência de dar vida à vida, de criar personagens e situações interessantes, de, enfim, criar um mundo que transcenda a prosaica realidade e a leve a um grau maior de complexidade e de problematização, a todos nós um Feliz Dia do Escritor, uma das poucas datas que reconheço como válida.

Abrem-se as cortinas e começa o desfile de lembranças…

Mas se tem algo que em mim jamais mudará, é essa predileção por épocas de Copa do Mundo. Lá vêm as lembranças de outros torneios. O primeiro de que me lembro, pelo menos umas imagens esfumaçadas, é o de 1982. Criança de tudo, como chorei ao ver desclassificada aquela seleção que jogava sob toque de mágica.  Hoje, ao ver essa seleção da nova Era Dunga, fica um misto de apreensão e esperança. Mas vamos lá. Não deixa de ser diversão. Ótima desculpa para colocar em dia nossa inescapável condição de seres gregários. Mas que faltou o Ceni na seleção, ah, isso faltou…

De mudanças e outras coisas inevitáveis.

São tantas as mudanças interiores pelas quais passo, no momento, que já me desconheço no espelho. São tão intensas as alterações que em mim acontecem que quase acredito que a vida é uma coisa assim… assim… assim, entendem? Não? Nem devem. Meras idiossincrasias de um deslumbrado com o ritmo enlouquecedor das coisas demasiadamente humanas.

Reflexões em torno da inconstância humana.

Ah, a inconstância humana, essa velha bruxa. Uma bruxa muito da constante, diga-se. Sempre a nos lembrar da finitude de tudo.

Mas se não fosse ela, nos veríamos a todo momento presos a um só objetivo, a uma só ideia, a uma só concepção de mundo. Graças a ela, temos o progresso. E todo progresso nasce da necessidade de transcender um dado conhecimento. De aperfeiçoar e melhorar aquilo que já existe. Sobretudo aquilo que existe de forma precária.

Demos todas as vivas a ela por nos colocar constantemente em um ponto de não-aceitação daquilo que tentam nos impor como limites. A ela prestemos honrarias por nos jogar a todo momento na selva do mundo, onde temos que vagar, perambular e nos movimentar para que nos desviemos dos alçapões e armadilhas que nascem da sensação de que tudo já se viu, de que tudo já foi conhecido, e vivido, e sentido.

É a inconstância humana que nos faz mover. Que nos ejeta, à força, do casulo que vamos estabelecendo pela vida afora. Que nos tira da crosta, das teias de aranha que vão surgindo pelos cantos esquecidos de nossa vida interior. Hábitos que vão sendo sedimentados. Lembranças que vão formando camadas. Camadas que se tornam mais espessas. Mais espessas e por isso mesmo limitadoras de nossa, vá lá, caminhada. Sei que essa metáfora da caminhada já está gasta. Mas fiquemos com ela.

É por causa da inconstância que toda vida, a mais infeliz, a mais monótona de todas, ainda sim tem uma margem de manobra, de potencial mobilidade. A inconstância abre frestas e veredas. Graças a ela nossos caminhos (de novo!) não são tomados por um matagal sem fim…

Louvemos todos a inconstância, antes de maldizê-la. Graças a ela as nuances de cor são captadas. Passos são dados. Novos vislumbres e clarões riscam o céu mais carregado de nuvens.

Ah, a inconstância humana, essa fada. Sempre a nos lembrar da infinitude de tudo.

E chega de metáforas, demasiadamente constantes neste texto…

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Ao som de Cartola, “O mundo é um moinho”.

Com a palavra: Wilde

Eu estava assistindo ao ótimo e já tradicional PROVOCAÇÕES, do Abujamra, e, ao final do programa, quando ele lê versos famosos, fui bombardeado pelo poema a seguir, do Wilde. Na hora me identifiquei. Há muitas passagens nele que refletem exatamente a minha opinião. Não pensei duas vezes: correndo vim postá-lo como uma forma de fixá-lo na minha memória.

 

                  Loucos e Santos

                                 OSCAR WILDE

Escolho meus amigos não pela pele ou outro arquétipo qualquer, mas pela pupila.
Tem que ter brilho questionador e tonalidade inquietante.
A mim não interessam os bons de espírito nem os maus de hábitos.
Fico com aqueles que fazem de mim louco e santo.
Deles não quero resposta, quero meu avesso.
Que me tragam dúvidas e angústias e agüentem o que há de pior em mim.
Para isso, só sendo louco.
Quero os santos, para que não duvidem das diferenças e peçam perdão pelas injustiças.
Escolho meus amigos pela alma lavada e pela cara exposta.
Não quero só o ombro e o colo, quero também sua maior alegria.
Amigo que não ri junto, não sabe sofrer junto.
Meus amigos são todos assim: metade bobeira, metade seriedade.
Não quero risos previsíveis, nem choros piedosos.
Quero amigos sérios, daqueles que fazem da realidade sua fonte de aprendizagem, mas lutam para que a fantasia não desapareça.
Não quero amigos adultos nem chatos.
Quero-os metade infância e outra metade velhice!
Crianças, para que não esqueçam o valor do vento no rosto; e velhos, para que nunca tenham pressa.
Tenho amigos para saber quem eu sou.
Pois os vendo loucos e santos, bobos e sérios, crianças e velhos, nunca me esquecerei de que "normalidade" é uma ilusão imbecil e estéril.

 

Escrevamos algo, qualquer coisa que…

… justifique a existência deste blog funéreo.

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No momento, às voltas com aulas de inglês e agora francês também. Muitas turmas, muitas tarefas, muitas aulas para preparar. Por isso, parei, por uns tempos, com os filmes e a “alimentação” deste ENTRE A GALHOFA E A MELANCOLIA. Estou, contudo, na primeira versão de um conto com o qual pretendo participar do concurso da OFF-FLIP, evento paralelo à FLIP, a famosa e badalada FESTA LITERÁRIA DE PARATY. As inscrições vão até 31 de maio e verei o que sai até lá.

E exatamente por essa época, mais precisamente no último fim de semana de maio, vai rolar a terceira edição de outro festival dedicado às letras. Dessa vez, me refiro ao delicioso Festival da Mantiqueira, na aconchegante São Fransciso Xavier, subdistrito da minha cidade, São José dos Campos. No ano passado, fui e passei horas agradabilíssimas assistindo às palestras de Luis Fernando Verissimo e à dedicada a novos escritores. E também, claro, zanzando pela livraria montada pela Saraiva. A próxima edição, que terá a Livraria da Vila, e contará com Arnaldo Antunes, entre outros, não irá decepcionar os entusiastas desse evento que se fixa a cada ano no calendário literário do estado de  São Paulo.

E já estou reservando meus caraminguás para trazer sacolas de livros. Quem me mandou ser um pobre diabo com veleidades literárias e gosto por conhecimento?

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Tenho lido pouca literatura. Apenas jornais, revistas e os sites de notícias. Acompanho, na medida do possível, as movimentações da embrionária campanha política em nossa terra brasilis.

Quando fico um certo tempo sem ler literatura, parece que estou cometendo um grande crime de lesa-humanidade. Tenho a sensação nada agradável de estar encolhendo, me empobrecendo mentalmente, sei lá. Uma coisa muito da incômoda. Mas muito em breve retomo as leituras que me aguardam. Afinal, a lista de livros do desejo cresce a cada dia…

E a partir deste post esta será a fonte a ser usada por aqui.

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Do mais, “o pulso ainda pulsa”.

“Graças a Deus não perdi meu bigode, mas ainda estou com algumas restrições na articulação das palavras”

As palavras acima são de José Sarney. Após passar por uma cirurgia para tirar um tumor no lábio superior, o Charles Foster Kane do Maranhão reapareceu hoje todo pimpão.

E pensar que, alguns meses atrás, ele quase foi defenestrado da cadeira de Presidente do Senado… Bem, podemos dizer que, com o cargo e o bigode intactos (e seu querido lábio, claro), ele pode ser considerado um homem de sorte, não é mesmo? O que é a restrição temporária na pronúncia das palavras diante de tudo que chegou perto de perder?

Dostoiévski, meu velho, o mundo hoje está totalmente padronizado.

Chove pacas nesta terça-feira. Aqui em São José dos Campos, desde cedo, é sem parar. Enquanto corrijo tarefas de inglês e preparo a aula de francês para o próximo sábado, estou passeando por rádios online de todo o mundo. Fui ao Oriente Médio, dei um rolê pela Oceania, França e África. No momento, estou ouvindo uma de São Petersburgo, a Eldo FM. O que chama a atenção é o fato de tocar músicas dançantes, a maioria dos anos 80 e 90, e, grande parte delas, americanas. E fico a me perguntar: isso seria possível nos tempos bicudos da Guerra Fria? Jamais! Os titios Khrushchov e Brejnev não iam gostar nada.

Como o mundo mudou! (Sim, tenho vivido neste planeta os últimos anos. O espanto é apenas uma liberdade, digamos, poética, vá lá). Quer dizer: padronizou-se! E o que acharia o mais célebre russo daquelas paragens? Me refiro a Fiódor Dostoiévski. Imaginem o espanto que ele, nacionalista que era, não teria ao constatar o quanto se descaracterizou sua amada Rússia… Imaginem o criador de Crime e Castigo e Os Irmãos Karamázov cofiando a barba e batendo o pé ao som de uma música dançante do “Ocidente em decadência”…

O locutor agora diz algo no que parece ser propaganda de alguma coisa.

E tomem outro George, o Benson desta vez. E Glenn Medeiros… Uau. De volta à adolescência!

A tempo. Há de se manter uma certa “dignidade”: os locutores traduzem o título das músicas para o russo.

Lá vem Elton John, com sua Circle of life, que, em “bom” russo, deve ser: Circlelóvski ofski lifeslóvski…

De volta às ocupações.

O potencial benigno dos grandes micos.

Há fases da vida da gente nas quais, quando agora delas nos lembramos, parece termos vivido sob algum tipo de “feitiço”. Ou pior ainda: parece que estávamos então meio loucos ou quase isso. É quando, hoje constrangidos, reconhecemos, ainda que não muito à vontade, a nós próprios. Pessoas com as quais tivemos algum contato, ou com as quais agimos tão idiotamente, frases que um dia dizemos, coisas que outrora fizemos, enfim, é um monte de lembranças e associações de ideias passadas que, vistas agora, quando estamos supostamente mais calejados e mais experientes, quando temos um tipo de clarão a iluminar aqueles momentos sombrios, nos dão a impressão de que, falando popularmente, pagamos um belo de um mico. Ok,  sei que não há como voltar ao passado e apagar todas nossas asneiras e coisas do tipo. Temos, isso sim, que assimilar tudo aquilo e lá dentro de nós transformar em água para o moinho que move nossas vidas. Sim, sei muito bem disso. “Então por que diabos você está reclamando?”, perguntaria o leitor. Acontece que não estou reclamando. Apenas externei uma idiossincrasia que todos têm. Uns de forma mais intensa do que outros.

Mas tudo não deixa de ser muito esclarecedor do quão complexos somos todos. E da natureza múltipla que nos forma. Quando toda essa variedade de experiências – sejam ou não motivo de desconforto para nós atualmente -acabar, é sinal de que a vida está por um triz, não é?

Longe da Grande Teia Mundial por pura vontade própria.

Conforme o prometido aí embaixo, vou ficar desconectado durante este feriadão. Já são quase duas horas da manhã dessa sexta. Portanto, hora de me despedir. Pretendo ficar três dias longe do mundo online. Deve ser bom para arejar a caixola. Bergman, Fellini, Tchekhov, entre outros, me esperam.

Segunda estou de volta. Ótima Páscoa para os meus 4 fiéis leitores.

Sobre jornais

A reformulação do projeto gráfico pela qual passou o ESTADÃO, juntamente com seu site, ficou bem do meu agrado. Dois novos cadernos da versão impressa, o SABÁTICO, dedicado aos livros, e o CADERNO 2 +MÚSICA, já estão entre os meus favoritos.

De forma geral, a  fonte, a diagramação, tudo fez com que a leitura fique mais arejada e as notícias, bem distribuídas.

Vamos esperar agora pela mudança que a FOLHA vai sofrer a partir de maio. A conferir.

Como assinante de ambos, fico cada vez mais satisfeito com a rivalidade entre eles. Quem ganha são os leitores que fizemos da leitura atenta dos grandes fatos pelo mundo afora muito mais do que um hábito. Uma verdadeira religião diária…

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Já o jornal ValeParaibano… Esse acaba de lançar uma revista que promete… Espere aí. Promete o quê? Se for o mesmo jornalismo provinciano que o principal e maior diário do Vale do Paraíba (por pura falta de opções) faz, então eu pergunto: Qual a razão de tanto estardalhaço? Um jornal cujo caderno de cultura é uma lástima, com cronistas ruins de lascar, com raras exceções, claro, vai trazer o que de novidades? Falta muito, mas muito para esse jornaleco alcançar o nível de uma FOLHA e de um ESTADÃO.

Essa é a opinião de um leitor de já longa data de jornais. Trata-se de uma opinião subjetiva. Cartas de reclamações ao Procon, por favor.

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Ao som da Eldorado FM

Nostradamus cofia a vetusta barba e strikes again: Vai dar Serra!

Hoje é dia de desincompatibilização para todos aqueles que vão concorrer a um cargo diferente daqueles que exercem. Ou seja, hoje José Serra deixa o governo de São Paulo para, tal qual oito longínquos anos atrás, concorrer à presidência. E meu Nostradamus interior não resiste. Exatamente como quase dois anos atrás, quando este blog foi o primeiro do universo (isso mesmo, tá?) a prever a vitória de Mr. Obama, cravarei agora sem hesitar, com a ajuda de um balde de água furado: José Serra será o novo presidente do Brasil daqui a seis meses e alguns dias.

Escrevam aí: este post será citado pela posteridade… Sacaram o trocadilho genial?

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Ao som de Bobby McFerrin, Don’t worry, be happy (Dedicated to Dilma Rousseff)

Marina Silva acerta no alvo.

A pré-candidata do PV, Marina Silva, foi felicíssima ontem em mais uma estocada no governo federal. Disse que o tal PAC (Programa de Aceleração do Crescimento) 2 mais parece “uma marmita requentada” e que a nova multa aplicada pelo TSE a Mr. Silva, por propaganda política antecipada, preocupa pelo fato de o mau exemplo vir da parte de quem deveria ser exemplo, no caso, o presidente da república.

Dois comentários pessoais. Primeiro: o PAC, a imprensa já mostrou à exaustão, é só o nome para um monte de projetos pretensiosos cuja maioria ainda não saiu do papel. Com o PAC 2, teríamos o PAC do PAC . Ou seja: algo que aceleraria o que deveria ter sido aceleredo algo antes. Entenderam? Imagine a esdrúxula imagem de um acelerador de aceleradores com falha ou avariados. É mais ou menos isso. O governo meia-sola ainda acha que engana quem?

Segundo: se continuar nesse ritmo de multas frequentes ao nosso Grande Líder, quando chegar lá por outubro ele terá ido à bancarrota. O que é muito bem feito.

E li na Folha hoje também, aliás, que o PT está à procura do PSDB para que este amenize um pouco na justiça as constantes queixas na justiça, por parte dos tucanos, com relação às não menos constantes afrontas à lei por parte de Lula.

Como simpatizante do PSDB, se houver esse acordo, será uma vergonha para a oposição. Tem que azucrinar mesmo, usando os meios legais, para contestar nos fóruns apropriados, cada ato ilegal por parte do governo petista.

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