Todas as artes me completam.

Não sou especialista em nenhuma arte. Nem pretendo ser. Deus me livre de ser um desses experts em determinada área das artes ou da cultura. Sigo apenas minha intuição e por isso não preciso de aval de quem quer que seja para me interessar pela pintura de Bosch, por um solo de Charlie Parker, Lester Young e John Coltrane, um conto de Chekhov, uma peça de Arthur Miller, ou de Maupassant, a música de Haendel, uma sinfonia de Mozart, uma cancão de Cartola, um concerto de Bach, um noturno de Chopin, a voz de Billie Holiday, o cinema de Bergman, a filosofia de Schopenhauer, a voz de Sinatra, o virtuosismo de Jimmy Hendrix, o som e as letras de Pink Floyd e Radiohead, a fúria de AC/DC, os scats de Ella Fitzgerald, o trompete de Armstrong, Miles e Chet, o som do New Order, a arte barroca, o canto de Elis, o Renascimento, o Impressionismo, o Surrealismo, as letras de Arnaldo Antunes, a guitarra de John Lee Hooker, Stevie Ray Vaughan, Muddy Watters, Buddy Guy, as montagens de Einsenstein, o estilo de Montaigne, o cinema de Chaplin, o humor do Monty Python, a análise da alma humana na obra de Dostoiévski, o estilo único de Nietzsche, o universo de Kafka,  os textos de Freud, o estilo de Dalton Trevisan, as peças de Sófocles, os romances e contos de Machado, a poesia do Bandeira, a excentricidade criativa de David Lynch, a irreverência de Fellini e Buñuel, a perfeição de Vivaldi, as performances de Janis Joplin, Freddy Mercury e Tom Zé, o pessimismo de Antonioni, o perfeccionismo de Kubrick, as pinceladas de Renoir e Van Gogh etc etc.
Não quero jamais perder esse gosto intuitivo que me leva a tudo que a arte, todas as artes, tem de melhor. Essa intuição, esse faro para descobrir a essência de um artista, a obra seminal de um escritor; esse dom para captar aquilo que de mais característico há na criação dos muitos gênios das artes.
Não estou preocupado com tecnicismos. Nem tampouco com análises sociológicas. O que amo, o que torna esta minha vida plena de sentido, de significado, é esse envolvimento, em grande parte autodidático, com as artes, com o conhecimento. Essa mistura altamente democrática, caótica. Que é um pálido reflexo, na verdade, do meu vasto, mutável e hipersensível mundo interior. E sensível não no sentido de algo por demais especial. Mas no de algo profundamente humano, demasiadamente humano.

E arte, para mim, tem uma base epistemológica: um pé na questão do conhecimento. Arte, como a vejo, é conhecimento. E vice-versa!

Tudo o que há de elevado no mundo das artes me interessa. De todas capto algo e torno só meu. Meu apetite é infindável. Todas as artes, para mim, se complementam.
E me completam.
E sempre o farão. Ainda que a vida cotidiana, sentimental, financeira ou o que quer que seja, esteja uma porcaria.
A arte, enfim, me humaniza.
Sou um humanista deslocado no tempo e no espaço que, por força das contingências da vida, veio parar por aqui. Neste lado íngreme da vida e do mundo. Nestes tempos de superficialismos.

A arte e o conhecimento são minha religião. O meu ópio. O resto é pano de fundo.

Nota de Falecimento

Morreu hoje em São José dos Campos, São Paulo, aos 88 anos, por falência múltipla dos órgãos, em virtude de um câncer de mama, a atriz, bailarina, artista e cadela da raça sabe-deus-qual, Capitulina Araújo, a Capitu.

Seu dono, o autor deste blogue, profundamente emocionado, não quis entrar em detalhes. De óculos escuros e aspecto de pura consternação, apenas disse ao nosso repórter que em sua família o dia é de tristeza profunda, afinal, foram quase 14 anos de uma amizade sem limites, "tal qual jamais tive com qualquer ser humano".

E também que “Ela adorava a voz da Billie e o sax do Paul Desmond. Pegava no sono rapidamente ao ouvir jazz em geral. Quando eu tinha nas mãos um jornal ou um livro e ia para a poltrona ler, ela gostava de ficar por perto. Odiava barulho e vozes altas. Abominava a solidão. Aos dois anos, foi atropelada e milagrosamente resistiu. Só faltava falar”.

Nesses anos, Capitu foi o centro da atenção da casa. Durante o auge da juventude, a cadelinha amarela de focinho preto e rabo espetado para cima em forma de ponto de interrogação, aprontou tudo e mais um pouco. Sempre arteira e nada convencional, merece uma biografia canina.
Seu nome, de inspiração claramente machadiana, em nada deixa a desejar à sua famosa homônima literária no que se refere ao quesito complexidade. Ainda que complexidade canina…
É com profundo pesar que lamentamos o passamento de tão estimado animal.
O enterro foi na manhã deste sábado.

Capitu (*1996 – 2009)

Pequena crônica de uma vida bandida

 

- Geziel, não rouba, não, pois o Papai do Céu tá vendo tudo, menino!
- Tá nada. Já devem ter roubado o óculos do véinho, mãe, deixa de ser boba.

*******

- Geziel, calma, amor, você trouxe a camisinha?
- Tô com uma caixa aí, mina. Serve?
- Onde você arrumou isso tudo, posso saber?
- Tá ligada a farmácia do Tonico? Fui eu e o Pedreira que roubou. Agora senta no colinho do seu homem, senta. Vai ter camisinha pra essa vida e pra outra…

*******

- O senhor, Geziel Pereira Souza, roubou a própria sogra, viúva e inválida?
- Então, chefia, a véia vacilou.

*******

- E como você conseguiu escapar daquela cadeia do Monte Azul, ô Geziel?
- Foi uns esquema aê, meu.
- Já matou quanto?
- Vixe, cara! Perdi as conta, aê.

*******

- Ai, Geziel, comporte-se. Olha o padre ali.
- Ah, muié. Fica quietinha aê.
- O que você tá fazendo agora?
- O que é de Deus ao homem pertence, oras.
- Mas isso é o dízimo, seu bronco.
- Isso, sua carola, é meu sustento. E nem um pio ou senão vou te denunciar pro corno do seu marido. E tô indo embora! Me enjoei de você, baranga!

******

- Depois de uma vida de excessos, irmão Geziel, arrependa-se de seus pecados.
- Ô pastor, me diz uma coisa [Tosse, tosse e mais tosse. O moribundo. A cama. A pobreza. Um hospital de indigentes anexo a uma penitenciária].
- Diga, ser digno de compaixão.
- No céu tem cofre?
- Sim, seu Geziel, se você for lavado e remido de seus pecados, haverá um tesouro com o bem mais valioso te esperando: a vida eterna ao lado do Criador.
- E no inferno, pastor?
- Ali só há dor, sofrimento, gritos e outras coisas de horror inimaginável.
- Então vou ser bom.
- Muito bem, meu caro. Assim que se diz. Os anjos agora dizem "Amém".
- Que nada, pastor. É só eu arrombar aquele cofre, catar o que tem, afinal, é muita coisa: porque é o cofre do paraíso, aê. Já imaginou como deve ser? Daí, eu saio vazado e vou continuando a passar a mão em tudo que eu encontrar pela frente, saca?
- Que Deus se compadeça de tua alma, escarnecedor.
- Taí. Roubo do céu pra vender no inferno. Pronto. Vou ficar com a vida ganha. E não se fala mais nisso.  Até porque Deus não tem mais óculos e não enxerga lá muito bem.

De febre, Geziel delirou toda a noite. No outro dia, foi enterrado na mais pobre e modesta das valas.  Sua ficha policial tinha metros a perder de vista. De óculos ou sem.

O mundo está cada vez mais chato.

Chato é tudo que é plano, que não tem níveis, desníveis, planícies, altos nem tampouco baixos. É a planificação da mesmice, que segue numa paisagem a perder de vista em que nada se sobressai. Daí, a palavra passou para a linguagem cotidiana e serve para se referir a tudo que é tedioso, sem vida, sem sobressaltos, sem novidades, sem estímulo etc.

E nunca esteve tão chato viver neste mundo planificado e uniformizado. Não que alguma vez a vida neste planeta tenha sido assim uma experiência permanentemente instigante. Não acho que se deve ter nostalgia por tempos remotos, sobretudo aqueles nos quais não estávamos presentes. Mas ainda acho que, para um homem das savanas, a planície era muito mais escarpada do que para o homem do século 21.

O que acontece é que nos dias que correm, a sensação de mesmice prevalece. Independentemente da sua conta bancária ou do seu cartão do Bolsa Família, a impressão que se tem é que o tédio anda sempre à espreita, pronto para nos prender em seus tentáculos e nos devorar. Para fugir desse monstro onipresente, buscam-se grandes doses de emoções efêmeras, de atitudes que tentam, em vão, nos dar a ilusãozinha nossa de cada dia de que o mundo é um grande barato, de que a vida neste planeta fadado à derrocada é algo que compensa as frustrações e reveses às quais estamos todos inexoravelmente condenados.
Parece que tudo é uma grande corrida em busca da Terra Prometida das emoções baratas. Baratas pois são inevitavelmente transitórias, ilusórias e verdadeiros simulacros de "felicidade".
Tudo chega até nós facilmente. Na ponta dos dedos. Está tudo ali, naquele site, naquela igreja, naquele livro, naquele guru, naquele cargo, naquela faculdade, naquela viagem, naquele carro, naquela casa, naquele apartamento, naquela mulher, naquele homem. Essa sensação de que só nos resta um passo, uma ousadia, nos faz cegos. Nos hipnotiza. Nos arrebata a visão do todo. A rapidez de tudo que acontece, a avalanche de informações inúteis, de ocorrências corriqueiras que acabam potencializadas pela mídia, de seres vazios e rasos que se tornam imbecis celebridades, tudo isso nos faz ter a sensação que estamos sempre aquém. Que estamos incompletos enquanto não nos arremessarmos rumo à obtenção daquilo que supostamente nos traria – ilusoriamente, claro – a sensação de completude.

Só assim para termos uma ilha de fortes emoções cercada pelo tédio. Só assim para esquecermos por um momento a frustração que vem justamente dessa nossa cada vez maior dependência – exatamente como outra dependência, a química – de sucedâneos para aquele grande e almejado estado de regozijo total. Vamos nos trucidando, nos desrespeitando um ao outro, nos fechando em nós mesmos para fugir do tédio. Daí a achar que a vida está, de forma geral, algo cada vez mais tedioso, é um passo. E isso justamente por sabermos, mesmo num nível inconsciente, que aquilo do qual dependemos para nos manter "vivos" está assentado em bases falsas, independentemente daquilo que nos cerca e que constitui nossa fachada social, nossa máscara, nossa persona.

Viver neste mundo célere, de relacionamentos superficiais, de gente robotizada, de eternos insatisfeitos – pois perdemos a noção do geral, aquela que nos proporciona a certeza de que tudo está interligado, e não fragmentado, como somos condicionados a pensar -, de busca desenfreada por emoções fortes, de dependência cada vez maior às exterioridades plenas de significações sociais, é de fato um porre. Tudo está às claras. Mistério? Coisa de místicos e malucos. Preocupação com o espiritual? Coisa de religiosos… O que conta mesmo hoje em dia é, segundo as concepções que nos guiam, criar ilhas da fantasia em série. É nos autoenganarmos ininterruptamente. Uma vez expirado o prazo de validade dessas ilusões, o que resta é só o vazio, o tédio. Como é impossível ter essas ilusões o tempo todo, ou, melhor, como é inviável haver uma contínua equivalência entre nossas quimeras pessoais (infinitas) e aquilo que as fundamente na vida real (finito), o que prevalece são os momentos de pura frustração, de perda do ânimo para a vida. Afinal, ânimo para quê se esta minha vida deixa a desejar? Se apesar de tudo o que tenho, de tudo que ostento por aí, sei, lá no âmago de mim mesmo, que tudo está calcado em coisas contigentes e passíveis de serem de mim surrupiadas?
Eis aí a gênese dessa sensação de tédio absoluto. Que nada mais é, afinal, do que nossa rendição, de nossa capitulação, de nosso processo de falimento. Moral, mas efetivo e desalentador como tudo que já faliu.
O mundo (entenda-se: a experiência humana) está cada vez mais chato. Mais padronizado. Mais superficial. Mais célere. Somos continuamente condicionados. Teleguiados. Cobaias num grande laboratório de lavagem cerebral. Emburrecemos globalmente. Nos deslumbramos com as maravilhas do mundo moderno e nos esquecemos de que interiormente estamos cada vez mais embotados, paupérrimos, fossilizados e tolhidos em nossa potencialidade imensa de seres pensantes.
Feliz chateação para você.

Pequena entrevista imaginária com escritor fictício: no avesso da verdade convencional, para além dos convencionalismos supostamente realistas, ou através da mentira da ficção, haveria, de acordo o veterano autor, o segundo em língua portuguesa a ganhar o prêmio Nobel de Literatura, a vida em estado mais puro.

 

Por que o Senhor insiste em criar seres que pouco têm a ver com o comum dos mortais?

Elienai Araújo: Não me interessa a realidade crua. Minhas personagens não circulam no mundo dos fatos como eles são na realidade. Eu crio uma suprarrealidade e ali jogo aqueles seres que você tão simplistamente considera tão distantes dos comuns dos mortais, e ali os deixo viver e os fico observando. Não estou preocupado com o verossímil. Estou mais atento às mentiras que dizem a verdade, que a apresentam ao avesso mas que, por isso mesmo, conseguem captar aquilo que está num nível de apreensão incompatível com a forma rasa de se contar uma história que há tanto tempo se convencionou chamar de tradição narrativa.

Então do seu ponto de vista podemos deduzir que retratando a mentira de forma radical, o escritor pode atingir uma verdade? Desculpe-me mas não vejo nexo no que o Senhor diz.

E.A.: Em primeiro lugar, você deduz o que bem entender daquilo que eu, ou quem quer que seja, diz. Mas só cuidado para não distorcer o fruto do labor mental alheio. Em segundo lugar, em nenhum momento mencionei qualquer coisa parecida com a sua expressão "retratando a mentira de forma radical". Em terceiro e último lugar, essa mania de ver nexo em tudo, de se sobrepor a toda incoerência inerente ao próprio viver uma regularizadora e castradora Grande Razão que a tudo abrange, quem me deve desculpas é você: não seria isso limitador e simplista demais e uma atitude acomodada perante o desafio constante que o viver nos apresenta constantemente? O que me interessa é o mentir, é o inventar seres, vidas, acontecimentos. Sou um mentiroso desde que pela primeira vez descobri que, inventando, criando, eu podia transcender uma realidade castradora, friso esse termo. E há várias camadas de realidade que constituem a experiência humana. A mentira da ficção pode se tornar, assim, a verdadeira realidade.

Como o Senhor conclui sua entrevista para a revista Literatura em Foco?

E.A.: O mais importante é que através da mentira chegamos ao avesso dessa tal realidade primeiramente nos dada. Ao me aproximar dela lançando mão da mentira, da ficção, que fique bem entendido, pois bem, ao me acercar dela pelo avesso, pela negação mesmo dela, eu podia, como tenho feito nesses quase cinquenta anos de ficcionista, viver vidas que poderiam ter sido as minhas, me enriquecer, me tornar múltiplo sendo um.

“Matrix”: dirigido e estrelado por Charles Chaplin.

Como seria “Matrix” na era do cinema mudo? Esta paródia russa pega dois clássicos, o gênio Chaplin e seu personagem imortal e o mais bem acabado filme de ficção científica de todos os tempos. O resultado é bem bacana.

No Velório

- Taí um homem que foi santo.

- Alma que nem essa…

- Tá pra nascer amigo tão dedicado.

- Fazia o bem sem olhar a quem.

- Olha só pra ele: parece que tá rindo.

- Que nada: parece que tá dormindo.

- E morreu como um justo que era: tranquilamente.

- Perda irreparável.

- Essa chuvinha é o céu chorando.

- São os anjos.

- Durma, amigo, durma o sono dos bons.

- Esse mundo era imperfeito demais pra você.

- Era sempre brincalhão.

- Verdade. Não perdia uma chance de nos pregar peças.

- Uma vez ele me passou um trote dizendo que era um marciano, vão vendo. E não é que o danado conseguiu me pegar?

- E outra vez ele fingiu que era um mendigo numa rua de granfa pra ver como era a sensação de ser rejeitado pelos outros.

- Um mestre dos disfarces.

- Pena que nunca casou, nem cheiro de parentes tem. E vou dizer: ele teria sido um pai-modelo. É bem capaz que ele tenha deixado um documento declarando a doação de tudo que tinha para os pobres.

- Eu não duvido, não. Porque alma boa tava ali.

- Ou tá aqui, vai se saber.

- É… Mas chegou a hora mesmo, meu amigo. Vai em paz. Que o Senhor te receba com seus anjos.

- Vai fazer muita falta.

- Se vai.

Aos poucos, os amigos se calaram e ficaram naquele silêncio de respeito pelo falecido. As velas, as coroas de flores, tudo acentuava aquela atmosfera de contrição e solenidade que só a morte proporciona.

O tempo passava. A madrugada chegava. Cada um dos amigos se muniu de café e biscoitos que eles mesmos prepararam na cozinha do morto. Cada um sentado sozinho, ficaram todos vasculhando a memória para achar tudo que se referia àquele que estava no caixão lacrado, sendo que apenas o visor permitia que fosse visto. Imagens, frases, acontecimentos, tudo isso desfilava por aquelas cabeças já grisalhas. Tempos de outrora que passavam por suas retinas interiores.

- Alma boa, descansa mesmo, meu velho. Todos estamos aqui pra te prantear.

- Ser que nem esse, nunca mais…

- Nunca mais uma ova!

Susto. O torpor cedeu e com ele aquele desfile de frases feitas que vinham mais embaladas pelo sono do que por qualquer outra coisa. Todos se olharam. Quem estava quase dormindo despertou subitamente ao ouvir aquela frase tão destoante da choradeira geral.

Quem dissera aquilo? Quem não dissera?

- Foi você?

- Eu, não!

- Foi você, Fulano!

- Até parece. Vou brincar com coisa séria nada!

Todos estavam nessa tentativa de descobrir quem fora o responsável por aquela frase, quando, todos, paralisados, viram a tampa do caixão se levantar. O “ex-morto”, agora sentado, apontando o fundo falso que permitia a entrada do ar, apenas disse para os companheiros que não sabiam se gritavam, se corriam ou faziam o que diabos tinha para ser feito:

- Eu sempre quis ver se meu enterro, caros amigos, seria uma ocasião para tantos lugares-comuns hipócritas. E de fato foi, como vimos aqui nesta noite. Mas que bando de bundas-moles são vocês. Nem uma frase de efeito original, nenhum elogio sincero, nenhuma crítica, uma que fosse, mas que ainda assim fosse verdadeira. Agora morro feliz. Se não hoje, logo, aos poucos, de desgosto…

Dizendo isso, saltou do caixão e foi logo, aos gritos, escorraçando aqueles falsos amigos que, ainda tontos pela surpresa, não reagiram e foram, aos poucos, um por um, indo embora.

Dizem que o “defunto” viveu muito tempo. Mas em outra cidade. Mas tudo podiam ser boatos infundados. A verdade é que ali naquela região ele nunca mais foi visto.

“O ar que te enchia agora enche somente meus pulmões”: poeta chora a perda de sua amada.

Tateam o escuro minhas mãos. Por aquele corpo que tantas vezes toquei e apalpei elas procuram. Apurado está meu olfato, ainda acostumado à fragrância que dela vinha; ele ainda em busca de qualquer odor que me faça dela lembrar. Por sua voz em vão meus ouvidos procuram. Meus olhos, esses, fechados, com a ajuda da memória, a vêem. E são seus cabelos o que mais eles acentuam. Aqueles cabelos castanhos pelos quais eu quis morrer. E que tantas vezes beijei e nos quais me perdi e com tanto ardor acariciei e imenso carinho penteei. Ela não está em nenhum lugar. Paira seu espírito, contudo, sobre o meu ser. Posso sentir seu corpo cada vez que a rememoro, bem como sua fragrância, seus olhos e seus adorados cabelos. Em mim ficou sua essência. Morrer, ela não o fez, bem o sei, ó senhores que me lêem. Sua morte física, talvez, aconteceu. Mas pude, ah, se pude!, assimilar dela sua essência, repito. Ela morreu fisicamente para dentro de mim viver. Ainda me lembro daquele momento trágico, horripilante: foi um estrondo só. O susto. A desfiguração. Por isso, ninguém melhor do que eu para ser o receptáculo de sua alma. Foi a mim que ela confiou sua lembrança nesta terra. Eu que a fiz tantas vezes ganhar vida. Aqui estou para perpetuar sua passagem por este mundo. E por mais tempo que passe, por mais que os acontecimentos da vida moldem o meu caráter, mesmo assim, arrostando toda e qualquer contingência e finitude, hei de estar à altura daquilo que ela me incumbiu.

Jamais, amada, nunca, idolatrada minha, tu que foste meu sonho realizado, a imagem da mulher perfeita, jamais deixarei que um dia passe, um único dia, sem que a tua lembrança eu não traga à memória daqueles que te conheceram ou mesmo dos que não tiveram esse inominável privilégio. Passe o mundo, passe tudo, mas nunca há de passar meu incomensurável amor, afeto e idolatria por ti, alma boníssima!

O ar que te enchia agora enche somente meus pulmões. Descansa em paz”.

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Texto encontrado em um manicômio hoje desativado. Há nele, logo abaixo, o desenho de uma boneca. Ao que tudo indica, inflável [N. do A.].

Escrever, descobrir, ler, pensar.

Escrevo em todo lugar que posso e sempre que posso. No computador, em cadernos, em blocos de anotações, em pedaços de papel etc. Todo lugar em que há a possibilidade de deixar registrado pela palavra escrita tudo que me chamar a atenção sob o sol será sempre um aliado.

A escrita, já disse muitas vezes aqui, só é aprimorada pela prática, pela constância. E não há universidade no mundo que ensinará alguém a escrever no sentido amplo do termo. Quem sabe o lado técnico, o conhecimento científico: aquilo que se pode aprender nos livros, sem a necessidade, sem a obrigação de se estar numa instituição de ensino superior, desde que haja empenho, um mínimo de bagagem intelectual e interesse para aprender. Mas a intuição, a sensibilidade e o esforço intelectual que há no ato de fixar pela palavra escrita os mais variados e complexos assuntos, isso nem a mais requisitada universidade do mundo vai – e se for idônea, almeja – ensinar.

Nestes tempos de tantos estímulos sonoros e visuais incompatíveis com a necessária calma e tranqüilidade que os atos de escrever e de ler exigem, a palavra escrita, em sua forma mais nobre, a literária, perde cada vez mais espaço.

Assim, não é de se espantar o quão mal se escreve hoje em dia. E paradoxalmente, nunca se escreveu tanto! E-mails, blogues, programas de troca instantânea de mensagens, entre outros “fenônemos” atrelados à expansão e conseqüente popularização da internet, são quase todos dependentes da palavra escrita. Contudo, o que poderia ser uma oportunidade valiosa para se difundir uma conscientização do potencial da escrita, torna-se, desse modo, um exemplo acabado do mau uso de uma ferramenta expressiva e comunicativa como poucas vezes vimos na história turbulenta da humanidade.

Agora, a eficiência máxima todos querem. O conteúdo é estudado, analisado, cuidadosamente estruturado. Mas, por outro lado, esquece-se da forma, do instrumento pelo qual aquilo tudo terá um sentido. Esquece-se da unidade básica de sentido, a matéria prima da comunicação humana: as palavras. Nestes tempos céleres em que vivemos, quem lá quer saber de procurar a palavra exata? Quem se importa com o ritmo, a “música” das palavras? Quem perde seu sono com a boa estruturação das idéias, com a concatenação dos argumentos, com a harmonia e coerência do todo, com a correção daquilo que é expresso por escrito?

São poucos, sabemos. Escrever bem, não almejando necessariamente o plano estético, literário, mas no sentido do respeito e do infindável aprendizado do potencial das palavras, é algo cada vez mais raro. E, sobretudo, visto com maus olhos pelos que “torcem o nariz”, têm verdadeira urticária a tudo que esteja elaborado ou seja complexo, que exija reflexão, no que se refere à construção argumentativa, ao plano do intelecto. Ou ao da busca pela palavra bem usada.

Escrevo cada vez mais com freqüência. Reescrevo não menos. Corto tudo que posso. E leio, leio muito, não para ostentar erudição, ainda que a ame. Não a erudição gratuita, mas sim aquela que nos proporciona uma visão efêmera do desconhecido; aquele conhecimento que não se fecha em áreas estanques do saber e que tem como combustível a curiosidade intelectual, a humildade por se saber ignorante e, por último mas não menos importante, aquele cabedal de conhecimento graças ao qual deslumbramos nossa finitude e entramos, ao mesmo tempo, em contato com nosso potencial e engenho humanos.

Escrevo para descobrir. Leio para pensar, me enriquecer e ampliar meu repertório. Penso ao escrever. Descubro ao aprender.

Está tudo assim: interligado.

Um escritor terminal.

Escrevendo, ele exorcizava todas aquelas coisas, aquelas tranqueiras que insistiam em atravancar sua cabeça com tanta negatividade e irrelevâncias. Escrevendo, ele reassumia o controle sobre sua vida; ele a podia ver de uma nova perspectiva; de um prisma a partir do qual tudo assumia uma característica de algo passível de controle. Escrevendo, ele como que se vingava. Escrevendo, ele crescia, e assumia uma voz, uma dimensão que ele não tinha quando estava com os outros. Esses sempre o esmagavam. A ele e sua sensibilidade à flor da pele. Escrevendo, o tempo parava, a vida sossegava, ele via como que tudo em câmera lenta e podia, assim, analisar e ponderar e perceber todos os nuances daquilo que se convencionou chamar de vida cotidiana. Escrevendo, tudo se fazia mais claro. Tudo ganhava em transparência, em luminosidade. Das trevas, tudo vinha à claridade da razão. Os vultos se tornavam então o que de fato eram: apenas entidades feitas de sombra. Escrevendo, esses vultos desapareciam sob o peso da razão mais fria.
Escrevendo, ele se projetava no tempo. Escrevendo, ele se eternizava. Escrevendo, ele podia olhar ao mundo como um fenômeno simples como qualquer outro da natureza.
E pensar que ele ficara tanto tempo (quase a vida toda, quase sessenta e cinco anos) sem escrever.
O grande lance a se lamentar era que, agora, ele estava em estado terminal. Logo, até mesmo a escrita de nada adiantaria.
Mas já era um alento.

Barraco no talk show.

Voz em off:

Na edição de hoje de The Special Minds, temos a honra de receber

Jurandir Menezes, especialista em… especialistas!  Uma salva de palmas para ele… [Musica que lembra um jazz dixie. O apresentador, magérrimo, usando óculos com aro de tartaruga, dá um sinal e instantaneamente a musica pára].

- Jurandir Menezes… Estamos curiosos para saber o que vem a ser um especialista em especialistas… Seja bem-vindo. Nos conte, nos conte.

- Olá, Lô. Em primeiro lugar é um prazer estar aqui neste auditório tão animado e neste programa tão influente… Posso mandar um alô para o meu povo lá de São José dos Campos?

- Pode, pode [meio contrariado].

- Minha professora Lurdes Tavares que foi a primeira a me introduzir (sic) nas artes da especialidade em agora estou. Foi ela que me ensinou a ver com meus próprios olhos a imensa variedade de especialistas sobre tudo neste mundo. E para o meu pai, mãe, irmãos e parentes, ah, meus vizinhos também. Pronto, Lô.

- Prossiga… por favor.

- Bem, Lô, neste mundo de especialistas em tudo, nesta época que pede de todos, quer dizer, quase todos, um enfoque, um approach [sic], um corte e-pis-te-mo-ló-gi-co, entendem, vocês da platéia?

[Caras a ver navios. Ou de paisagem. Apenas alguém lá no fundo emite um “A-hã” não muito convincente].

- … Pois bem. Neste cipoal, nesta cacofonia de especialidades, nesta balbúrdia que é o mundo das especialidades infinitas, pois infinito é o espírito humano, tinha que haver alguém especialista em especialistas, ora. Por que não um especialista especial [sic], um profissional de sensibilidade apurada, de interesses multifacetados, que categorizasse e colocasse ordem, através de sofisticadas ferramentas taxonômicas, neste caos? Quais seriam, responderia esse profissional altamente útil para a ordem pública, os tipos de especialistas? Pois, vejam bem, aqueles profissionais especialistas nos mais vastos campos do saber que frequentemente são chamados para dar palpites em nossos programas televisivos, muitos deles não sendo nada idôneos para a empreitada, e isso percebemos com dois minutos de fala, realmente sabem aquilo que alegam saber? Falta um profissional que fiscalize essa gente toda, alguém que, ainda que não tenha o saber total de uma área, mas que tenha um feeling, um faro para a coisa, saiba detectar os charlatães que grassam por aí, sobretudo aqueles que vêm de universidades de fundo de quintal, nenhum deles de uma USP, UNICAMP, Harvard já seria pedir demais, não, enfim, os autodidatas fajutos e mequetrefes, com perdão da palavra horrorosa, que estão aí em busca dos holofotes.

- Quer dizer que o senhor ganha a vida em busca dos falsos especialistas?

- Isso e muito mais, não seja tão simplista, Lô, por favor.

- Não, não estou sendo simplista.

- Está sim.

- Não, não estou. Apenas quis colocar as coisas de uma forma que nossa atenta platéia aqui e de casa possa entender.

- Você adora tutelar seus espectadores, diga-se.

- Senhor Menezes, por favor.

- E por falar nisso, senhor Lô, estamos há muito tempo de olho em você.

- Jura? Que bom! Estou na televisão desde… nossa, há muitos anos!

[Explosão de gargalhadas. Assobios. Algumas pessoas chegam a chorar. Por alguns minutos o caos reina. Enfim, a calmaria volta]

- [Impassível] Há muito nossa célula de estudos [sic], senhores espectadores, chegou à conclusão, já que estamos tendo a oportunidade de falarmos aqui de forma transparente, se o senhor me permite…

- … Claro, claro!

- … pois bem, há muito chegamos à conclusão de que o senhor, lamento dizer isso, mas temos uma obrigação de prestação de serviço público…

- Diga, senhor Menezes, o Brasil quer saber. Te peço por gentileza para prestar esse serviço.

- Chegamos à conclusão de que o senhor é um pedante e falso especialista nos mais variados assuntos.

[Um “Ohhhhhhh” se condensa e se materializa. Pode-se senti-lo no ar. Os rostos ficam petrificados. O apresentador recebe como um golpe baixo aquilo. O ar azeda. Definitivamente].

- Quer dizer que o senhor vem ao meu programa, falar com a minha platéia, no meu espaço, para me ofender?

- Apenas disse a verdade. Era minha obrigação.

- Obrigação, sua obrigação.

- Confesse, o senhor nunca entendeu de acasalamento de marimbondos nem tampouco de literatura guatemalteca nem de cinema afegão. Seu conhecimento de jazz é cheio de lacunas. Seu inglês tem erros crassos. O senhor finge bem. Seu ego é desproporcional ao seu físico.

[ As pessoas não piscam. Os câmeras não sabem quem focalizar em busca do maior efeito. O entrevistado agora saca de seu laptop e começa a ler alguma coisa. Todos ouvem. O entrevistador faz cara de poser. Por dentro, é nítido seu rancor].

- “Confundiu o primeiro ministro da Bielo-Rússia com um ator pornô. Confundiu as capitais do Zimbábue com a de Ruanda. Inventou um movimento cinematográfico que não existiu na China. Trocou os nomes de escritores, telas de pintores, deu um passado guerrilheiro a Bach, entre outras atrocidades”. É por essa e por outras, senhor Lô Varela, que eu, em nome de todos os especialistas em especialistas, te dou este cartão vermelho simbólico. Passe muito bem!

[Letreiros sobem. Chamada do próximo programa. Quem está no estúdio fica atônito ao ver o entrevistador ser contido à força, gesticulando e totalmente alterado. O entrevistado, conversando ao celular, recebe parabéns dos quatro cantos do país. Ele vira um herói entre a platéia, que é persuadida de tudo que ele disse. E é requisitado sempre que se precisa desvendar os falsos especialistas. Esperamos que ele venha a conhecer este blogue. Só assim o autor deste espaço será impedido de continuar com estes posts tão imaginativos, mas tão bestas].

OS TEMPOS LOUCOS (Conto à la Pier Paolo Pasolini)

UM HOMEM ESBAFORIDO e desalinhado tentou um refúgio numa igreja. Era um final de manhã de segunda-feira, período em que os fiéis quase não apareciam.

O padre aquela hora estava exausto depois de uma noite que passara com a família de um homem em estado terminal. Após a extrema-unção, abençoara a todos, tomara conta das formalidades para o velório e o enterro e finalmente tomara o rumo da sua pequena sala na igreja. Ali, cochilara por meras duas horas e fora então acordado pela algazarra dos pássaros, o barulho dos motores e vozes matinais.

Após suas abluções costumeiras, foi até a cozinha comer algo. Esticando-se, cantarolou baixinho algum cântico e foi para a nave principal. Ao chegar lá, notou apenas o homem esbaforido que parecia assustado, ainda que sentado silenciosamente. Padre há muitos anos, não demorou para notar que o acuado ser de aparência desleixada não rezava coisa alguma. O religioso apenas tossiu baixinho e começou a fazer suas rezas, não sem manter um olho de soslaio na intrigante figura.

De repente, o solitário visitante emitiu um som, uma espécie de resmungo. O padre imediatamente se levantou e foi ao encontro do homem.

      • Bem, em que posso te ajudar, em nome do Senhor? – disse o padre.
      • Padre, o mundo tem que parar!

    E o representante de Deus na Terra viu naquele par de olhos o desespero, o brutal desespero. Sem saber o que lhe responder, primeiro achando que aquele homem estava possuído por alguma entidade maligna, para logo em seguida ver ali apenas a angústia mais exacerbada. Uma alma doente, apenas aquilo.

      • Como podemos, meu filho, querer parar o mundo? Deus o pôs para girar e só nos cabe fazer o que Ele nos manda: viver aqui e seguir suas ordens.
      • Não, padre, o mundo está louco. O mundo está doente. E com ele, todos nós. Essa monstruosidade que assola o mundo é consequência direta dessa loucura que está entre os quatro cantos deste planeta habituado por essas criaturas, nós, padre, nós! Todas as loucuras podem acontecer sob o sol, todas!

    Foi o suficiente para o padre, disfarçadamente, apertar um botão de emergência para que o segurança, escondido em algum lugar, ficasse atento. O homem em desespero olhava nervosamente para as mãos calejadas e não dizia nada mais. Ficou observando as imagens e os vitrais e apenas se via o ritmo alterado de sua respiração.

      • Meu filho, só nos resta rezar. O mundo é isso. Sempre foi assim.
      • Não, não é! – despertou o homem, gritando e gesticulando. Não é mesmo. Somos joguetes de nossa própria psique doentia, de nossa própria doença que é só nossa, padre, só nossa! Nos habituamos a isso, mas temos que voltar às origens, temos que começar do zero, entendeu? Do zero, só nos resta isso!
      • Quem lhe colocou isso na cabeça?
      • Do zero, padre. E não tente fugir das consequências. Você e a sua religião e todas as outras dos quatro cantos deste mundo vil tentam colocar na cabeça de todos que este mundo é assim e sempre será apenas para servir aos interesses de suas religiões, só isso!
      • Você blasfema na casa do Senhor!
      • Não blasfemo. A blasfêmia é contra o ser humano, essa é a maior blasfêmia que existe. E é tudo que as religiões fazem! Blasfemam contra o ser humano ao tentar enquadrá-lo num estado de coisas que não condiz com a realidade. Tentam encaixar os pobres mortais em suas – de vocês, religiosos! -, concepções alienantes e, através das repetições, inculcar em todos a patranha, a baboseira, o nonsense que o mundo é assim, que vivemos em um mundo que funciona assim, loucamente. Pra vocês, a loucura é intrínseca ao mundo. Quando na verdade não é. Somos nós que estamos doentes. Portanto, já estou terminando, não precisa ficar tremendo, padre, portanto, dizia eu, a doença está em nós, é algo contingente, não estamos fadados a viver nesse caos para o resto de nossas vidas. E não temos o porquê de…

    Foi quando, saindo de trás de uma das pilastras, estimulado pelo olhar de consentimento do padre, um imenso segurança, chegando por trás do homem, o agarrou e, lhe dando uma “gravata”, o impediu de concluir o que dizia. Rendido, ele só pôde olhar o padre e arremessar um projétil em forma de saliva. O segurança lhe apertou o braço e assim, vencido pela dor, foi arrastado para fora da igreja. Curiosos haviam chegado. O padre, assustado e vermelho, quase oprimido por um violento tremor interno, sentou-se numa cadeira e logo uma mulher idosa lhe veio abanar. Mais uma vez, agora já distante, ele ouviu a voz do homem. Ele só não entendia o que aquele ser tão alucinado em suas certezas dizia. Em breve, o som de sirenes de polícia o fizeram ter a certeza que enfim as coisas estavam voltando ao seu normal.

    Mas elas não estavam. Naquela noite, depois de se debater na cama por horas a fio e suar muito febrilmente, mesmo com o sono acumulado, o padre foi à rua. O vento e a chuva não o impediram de sair. Caminhando em direção ao centro, praticamente o único vulto a vagar por ali, ele foi direto a uma casa mal iluminada por fora. Entrando pelos fundos, captou o som de vozes, mulheres, principalmente, que riam. Som de música profana, palavrões aterrorizantes, fumaça de cigarro, tudo lembrava que ali era uma casa de tolerância. Ao se deparar com alguns bêbados na porta, o padre abaixou a cabeça e, no escuro, aproveitou para entrar. Dali, foi direto a um quarto que dava para uma escadaria. Ele foi subindo, num escuro total, apalpando o corrimão. Ao entrar numa sala mal iluminada, não viu ninguém ali. Sentou-se a uma poltrona e pôs-se a meditar. Era evidente que conhecia o lugar. De repente, uma voz feminina perguntou pelo seu antigo codinome.

      • Sim, sou eu.
      • Mas quanto tempo, o que te fez assim se lembrar das minhas adoráveis amigas? E o senhor não tinha se arrependido? Bom filho à casa volta, não? – perguntou ela, com o deboche tomando a forma de um sorriso quase sem dentes.
      • Me traz a mais novinha!
      • Como?
      • A mais novinha.
      • Mas o senhor costumava dizer que sua consciência não permitia tanto. O senhor dizia que nunca ia querer uma das meninas abaixo dos quinze. O que te fez mudar de ideia, homem de Deus?
      • Anda logo.
      • Peraí, um momento. E como saber que o senhor não vai pifar? -, disse ela, rindo baixinho.
      • Tenho pouco tempo, anda, criatura!
      • Tá, tá, entendi. Mas…
      • … mas coisa nenhuma!
      • Bem, é que a mais novinha aqui tava reservada pro dono da padaria da praça.
      • Qual a idade dela, qual a idade dela?
      • 16, senhor. Nossa, ui, como estamos!
      • Me traz, pago mais que ele.
      • Sendo assim…

    Depois de perceber que o homem estava falando sério, a mulher foi buscar a garota. Não demorou muito, ambas apareceram. A cafetina falou qualquer coisa em particular para a garota e por fim a deixou com o homem.

      • Minha filha, vem aqui, seja boazinha. Não tenha medo, o padre vai te dizer uma coisa nos seus ouvidos, vem. O mundo está louco, é por isso que estamos aqui.

    A cama rangendo, a luz apagada, o suor, a luz fraca que vinha da janela, uma nesga do céu, galhos de uma árvore sacolejando ao vento, o ronco de desejo cego do homem, os gritos abafados de uma menina, as pernas velhas entre as dela, a dor, o cheiro de perfume antigo, a carne flácida contra a carne jovem, o grito, a dor, o peso em cima dela, o corpo de velho que parara de respirar, o grito de desespero da menina, a porta que se abre, a luz que se acende, gente que entra, espantos ao reconhecer o homem morto, vítima de um esforço físico imenso, a garota nua, com o lençol cobrindo suas partes íntimas, o crucifixo no peito do morto, o escândalo, os tempos loucos.

    Pensamentos em off (ou nem tão off assim).

    Reflexão a propósito de nada.

    Não tem jeito. Sempre teremos que conviver com pessoas que nunca perderão a oportunidade de nos rotular, de nos simplificar, de nos enquadrar em tal ou qual categoria. E jamais elas terão como nos conhecer como de fato somos. Sobretudo pessoas de mente estreita sempre estarão em nosso caminho. Contudo, longe de nos acharmos seres especiais, que vivem numa espécie de ilha da fantasia, numa torre de marfim, sempre distante das imperfeições dos que nos desagradam de certa forma e que nos cercam, é importante ver o que há em nós, em nossas atitudes, que vemos, imputamos e condenamos no outro.
    De forma que negar às pessoas a chance para que elas sejam sempre mais do que nós enxergamos delas, não aceitar o fato de que elas são dotadas de uma complexidade, pois todos o são, é uma atitude aética e egocêntrica.

    Conceder ao outro aquilo que queremos a nós mesmos é a negação mesma de toda mesquinharia, de todo apego ao próprio umbigo.

    Da potencialidade de tudo que existe e está por existir.

        Tantas coisas a serem ditas e que ainda insistem em permanecer naquele limbo do inexprimível. Tantas perguntas a serem feitas e que continuam sem ter quem as formule corretamente. Tantos mistérios a serem desfeitos, tantas coisas a serem aprendidas, tantos sentimentos a serem esquadrinhados, tantos mitos a serem desmentidos, tantas verdades ainda não reconhecidas, tantas palavras a serem criadas, tantas outras a serem descartadas. Tantas epifanias ainda ocultas, tantos clichês a serem implodidos, tantos sustos a serem tomados, tantas obras de arte a serem criadas, tantas outras a serem fruídas, outras tantas a serem descobertas, tantos livros a serem lidos, tantos filmes a serem apreciados, tantas decepções a serem evitadas, tantas mentiras a serem desmentidas, tantas desilusões a serem desfeitas no nascedouro, tantos crimes a serem evitados, tantos equívocos a serem adiados, tantas mancadas a serem postergadas, tantos adiamentos a serem adiantados, tantos rostos a serem conhecidos, e vozes, e corpos, e abraços, e braços, e olhos, e tantas outras coisas, mil outras coisas, a ainda serem feitas e vistas e entendidas e aprendidas e apreciadas sob o sol e a lua e as estrelas, que só de pensar dá o que pensar.

    Auto-de-fé.

    Ele não sabia aonde as palavras o levariam. Ele apenas seguia o impulso incoercível de pôr na tela do computador o que seu inconsciente lhe ditava. Seus personagens nasciam de frases que ficavam a martelar em sua cabeça durante o dia e que só sossegavam quando ele passava a colocá-las sob a forma da palavra escrita. Seus enredos nasciam na hora, do próprio processo de escrita. O tom daquilo que escrevia geralmente, quase sempre, melhor dizendo, nascia também do próprio escrever. Escrever para ele era saltar no escuro, sem medos e receios infantis de ficar evitando os temíveis lugares-comuns. Ela respeitava toda e quaisquer palavras que nasciam de sua mente, sobretudo aquelas que vinham em estado bruto. Ele obtinha um imenso prazer em vê-las brigando, se engalfinhando, procurando a primazia da expressão. Tudo ele usava como água para o moinho da sua escrita. Perfis de pessoas que ele observava, frases ouvidas, trechos de filmes, letras de música, quadros de arte, enfim, TUDO era passível de ser transfigurado, filtrado por sua ótica e aproveitado para a sua arte, que ainda procurava uma voz, um tom. Ele tinha certeza que, enquanto vivesse, ele estaria condenado a lutar com as palavras. Que o tempo seria sempre escasso. Que escrever demandaria o desapego a convenções sociais, muitas vezes. Que escrever não seria sempre uma ação prazerosa, mas, isso sim, na maioria das vezes, algo dolirido, extenuante e que, principalmente, nem sempre, talvez nunca, seria reconhecido. Que no mundo moderno, com todas as suas distrações e engenhocas e “facilidades”, poucos seriam os que têm na palavra escrita, na literatura, mais que uma distração: um alimento do espírito, uma forma de problematização da existência, um parêntese para análise do viver, do estar-no-mundo. Ele queria se expressar. Ele queria fazer da palavra escrita uma ponte entre aquilo que era o profundo solipsismo nos qual a maioria dos seus semelhantes vivia e aquilo que era ao mesmo tempo um lembrete do quão ainda se pode aperfeiçoar a vida humana, a vida do espírito. Ainda que ele não soubesse exatamente onde as palavras o levariam, na verdade ele sabia onde elas NÃO o levariam: ao sentimento de nulidade, a covarde e acomodada nulidade dos que, mesmo respirando, falando, andando, comendo, já estão há muito mortos. Escrever para ele era um salto no escuro. Mas um salto num terreno muito bem conhecido: o do humanamente passível de aperfeiçoamento.

    It happened 11 years ago.

    Foi num sábado como hoje, dia 14 de novembro do ano até então sem graça de 1998, que  comecei a dar aulas de inglês. Gosh, estava eu na metade dos vinte anos! Foi há milênios, como podem perceber…

    Naquela longínqua época da história humana sobre a face da Terra, mais tímido do que uma donzela medieval (hoje, minha timidez se limita ao trato com pessoas desconhecidas), este datilógrafo, encarando uma turma pela primeira vez, teve a sua mais tenebrosa experiência de auto-superação. Não sei até hoje como consegui falar mais de uma hora em inglês, tendo que controlar e conduzir aquela aula interminável. Não ficaram sequelas traumáticas. Acho. Não, não ficaram.

    Acabei, isso sim, me tornando uma espécie estranha: um sujeito pessoalmente na minha, sem muita expansividade mas que, quando está no centro das atenções, se torna articulado, quase um animador, quem diria!, de auditório ou entrevistador de talk show. Por falar nisso, não foram poucas as pessoas que já me disseram que tenho uma “jeitão” (sic) de entrevistador, sabendo deixar todos à vontade…

    Hoje, só não danço e canto e me esperneio em sala de aula mais (como cheguei a fazer algumas vezes) porque, porque, sei lá o porquê!

    O saldo foi positivo: devo muito às aulas uma maior sociabilidade. Eu que fui uma criança isolada, quase sempre calada. Repito: com exceção das situações em que não conheço o ambiente e as pessoas ao meu redor.

    Fica registrada aqui a efeméride que, como tudo que há neste blogue, só a mim e ao meu mundinho pertence.

    Que Shakespeare me perdoe.

    Pronto, vulgarizaram tudo.

    O Twitter está na boca do povo. O que era algo diferenciado se tornou a regra. Hoje, tem todo tipo de gente por lá, usando aquilo para os fins mais diversos. Não, isso, dependendo do ângulo pelo qual se analise, não é ruim, eu sei. O diabo é que tudo que se difunde aos quatro cantos do mundo, como uma febre, e é adotado de forma acrítica, me causa uma imensa antipatia.  Estou enjoando daquilo. Para mim, perde a graça na proporção exata da enxurrada de usuários que a cada dia entram para a mais nova colônia tupiniquim no mundo da Grande Teia. Assim como o Orkut, logo logo o Twitter irá se tornar uma ferramenta majoritariamente usada por brasileiros. E em breve, em vez de encontrar seu vizinho pessoalmente, você vai se deparar com ele entre um twit e outro.

    João, manda um abraço pra Maria! @joaodasilva

    Pedro! quanto tempo! ontem te vi lavando o carro. Parabéns pelo carango importado! @pedrosouza

    E assim vai…

    E entre um twit aqui, outro acolá, vamos, no fim de tudo,  nos comunicar até o máximo de 140 caracteres…

    Claro, hoje tudo se massifica, diriam alguns. Tudo, nestes tempos céleres, tem o potencial de se tornar conhecido pelo mundo afora dentro de pouco tempo. É algo inerente a esses dias de comunicação instantânea e ampliação do acesso ao mundo digital. E também por causa da necessidade de pertencimento a uma realidade maior que os seres humanos têm. Leia-se: o velho e outrora eficaz mecanismo de adaptação, o famigerado espírito de manada na sua forma mais escancarada.

    Por um lado, para algumas coisas, repito, sabe-se até que pode ser bom. Em outras, nem tanto. Ou nada. Para mim, desviar da direção da manada é sempre um imenso prazer. Sobretudo quando se vulgariza e massifica algo de cuja utilidade a maioria não sabe desfrutar.

    Nossa, esse último parágrafo extrapolou o limite de 140 caracteres, droga…

    Carta aberta a Ingmar Bergman.

        Caro Bergman,

        Sei que estás pairando por aí em algum lugar da tua querida ilha de Farö.

        Falemos, aqui, daquilo em que fostes um mestre: o cinema.

        Tu deves ter falado com o grande Michelangelo Antonioni, que partiu no mesmo dia que ti (dizem que vós combinaste e até jogaste uma longa partida de Xadrez), sobre a decadência do cinema que vós tão bem representastes: o cinema de autor, o cinema que nos faz pensar, que nos deslumbra e que é um estímulo ao nosso senso estético e intelectual. E por favor, manda saudações ao inesquecível Tarkovski, outro da tua turma de cineastas pensadores-filósofos-poetas.

        Sim, Ingmar, a situação do cinema que vós três fazíeis é deveras triste. Quase nenhum diretor da atualidade tem a intenção de perder os polpudos lucros das bilheterias. Sei, eu sei, caro Mestre, qual é a desculpa que eles constantemente dão: a de que o cinema é uma indústria e precisa de lucros, pois é isso que a move. Como coisa que no teu tempo o cinema era uma indústria beneficente…

        O que falta na cabeça destes autores de cinema e roteiristas? Será que não surgirão vossos seguidores? Isso é saudosismo? É falta de maturidade intelectual? É falta de senso de progresso quanto àquilo que o cinema representa hoje?

        Quando da morte física de ti e do Antonioni, críticos escreveram que vós fostes os últimos representantes de uma era, pode uma coisa dessas?

        Como se ver o cinema não só como uma indústria mas como uma arte que busca atingir o universal, ainda que girando em torno de temas locais, fosse uma ideia datada, algo pertencente a uma outra era distante da nossa.

        Caro Ingmar, já assisti praticamente a todos os teus filmes e aos do Antonioni e todos os do Tarkovski. Não quero nem nunca quis ser especialista em vossa obra ou de quem quer que seja. Mas o fascínio que o cinema dos senhores exerce sobre mim só me faz cada dia louvar e divulgar mais e mais o fruto de vosso labor artístico: vossos filmes (que estou sempre revendo, em vez de ir assistir, salvo raras exceções, aos filmes da atualidade que estão em cartaz), tão diferentes, sim, mas unidos que são no propósito de nos enlevar, edificar (não no sentido, perdoa-me pela vulgaridade da palavra, “careta”) e nos trazer questionamentos de nossa própria condição humana. Bergman, Antonioni, Tarkovski e, agora, um diretor que também estou descobrindo: Valerio Zurlini. Eis a tropa de choque dos cineastas-pensadores.

         Espero que vossos seguidores ganhem voz e consigam furar esse e$quema que cria em série arremedos de cinema que enchem as bilheterias e que enganam milhões ao redor do mundo ao fazê-los crer que estão consumindo cultura, quando na verdade são apenas correias de transmissão do pensamento padronizado, uniformizado, fútil e imbecilizante.

         Descansa na tua paradisíaca Farö, Ingmar Bergman. E não te esqueçe de nós.

         De um agnóstico, como tu.

         ________

    A primeira de quatro partes de um documentário da BBC sobre o diretor sueco:

    5 coisas para as quais estou sem o menor saco.

    1- De falar. Sim, quanto menos puder falar, melhor. Falar tem me cansado demasiadamente. Não que eu tenha algum dia sido um tagarela. Mas ultimamente, emitir palavras pela via oral, falar, gastar saliva, tem me cansado mortalmente. Cansei da minha própria voz, pode uma coisa dessas? Também estou sem paciência para gente que só fala, fala, fala, sobretudo sobre assuntos que não “acrescentam” nada. Mas, vejam bem, não é apenas uma preguiça física. A coisa é mais profunda, digamos. É como se tudo que realmente importante para ser dito já tivesse sido. Como se perder tempo falando, sobretudo de amenidades, fosse um crime. Não me convidem para um bate-papo num barzinho ou outro lugar propício para isso. Se eu quiser algo aprofundado terei que buscar outras fontes. Sei, sei: estou virando um misantropo total, eu que antes era tão paciente para com os outros agora vivo bocejando imaginariamente ao ter que fingir que estou prestando atenção no que me dizem. Tudo me tem cansado quando o assunto são as convenções sociais.

    2- De conhecer pessoas. De ter que bancar o sociável. De ter que sempre ter um sorriso no rosto. De fingir que sou um cara legal, boa gente, entre outras baboseiras. Não sou legal coisa nenhuma! Sou mal-humorado, muito mais ultimamente. Não levem a sério esta cara de boa gente, de “bonzinho” que infelizmente eu tenho. Possuo um monte de defeitos. E como criancinhas na sopa, ok?

    3- De gente superficial que só abre a boca para falar platitudes. Daquela gente sem o mínimo de interesse pelas coisas que vão além das superfícies. Por gente que só se expressa por meio de chavões, ou que, quando o assunto é arte, por exemplo, tem preguiça mental para ir além do óbvio, do “feijão com arroz”, do trivial. Sei também que isso será considerado intolerante da minha parte, ou esnobe, ou preconceituoso. Mas quem disse que prego a extinção desse tipo de gente? Que apenas fiquem bem longe de mim, só isso; fiquem frios que não haverá derramamento de sangue nem ranger de dentes…

    4- De tanta mediocridade.

    5- De gente achando que o CQC é um programa inteligente, de humor refinado… Poupem-me!

    Pequena (ou grande?) história (Conto? Estória? Parábola?) de um homem notável (ou lamentável?)

       Ele não tinha amigos porque, ou eles seriam bons e deixariam de criticá-lo quando necessário, sendo que a bondade deles não veria nem mesmo um bom motivo numa crítica, principalmente construtiva, ou eles lhe dariam sempre motivos para que ele os criticasse, uma vez que tudo que eles fizessem, sendo maus, seria reprovável por parte dele.

       Não tinha namorada pelo simples motivo de que, se ela fosse por demais boazinha, ela o seria com todos. Quem diabos gostaria de ter uma namorada que fosse sempre bondosa para com todos, sobretudo nesses tempos de infidelidade? Fosse ela má, como poderia ele ter sossego se alguém tão próximo dele, tão íntimo dele, estivesse sempre a lhe querer o pior?

       Não estudava mais visto que de que adianta estudar se o mal e o bem, desses dois incansáveis inimigos, estão a todo o momento a disputar a alma humana? Do que adianta o conhecimento em um mundo onde os seres são meras marionetes de forças arquetípicas e avassaladoras?

       Não queria mais viver porque, se quisesse a vida, a morte seria sempre uma desmancha-prazeres a lhe lembrar que a finitude humana é o que nos resta; tampouco queria a morte porque, para desejá-la com toda intensidade, é necessário que a vida seja negada e, para negar a vida, pensava ele, é preciso primeiro vivê-la intensamente.

       Assim estava nosso maniqueísta radical. Nosso mestre dos paradoxos. O rei do relativismo. Ainda que anônimo.

       Ele que, por pensar demais, em tudo via o oposto de tudo. Que relativizava tudo que houvesse. Que vivia com suas aporias, seus immpassess lógicos, seus dilemas metafísicos, suas simplificações e paradoxos sem fim.

       Um dia, ele foi morto num cruzamento ao ficar pensando se o verde e por fim o vermelho – “Olha o sinal, cara!” – que ele via eram o mesmo verde e o mesmo vermelho – “Cuidado!” “Ah, pegou” – que outros viam. E lá se foi nosso herói do relativismo e do maniqueísmo.

       Talvez ele esteja agora no céu. Ou no inferno. Um dia saberemos. Ou não.

       Aqui termina essa triste história. Ou ela terminou desde o momento em que começou? Sabe-se lá. Ou não.

    Efemérides didáticas ou o que eu fazia quando o Muro de Berlim caiu…

    Essas efemérides…

    E não é que  hoje faz exatos 20 anos (!!!) do colapso do Muro de Berlim e de tudo que ele representou?

    É curioso e altamente didático poder ver com outros olhos acontecimentos que mexeram com a configuração política do mundo e que, na época, éramos ou jovens ou desinteressados demais por tais assuntos.

    Lembro vagamente daquele 9 de novembro de 1989. Enquanto na televisão, rádio, jornais e imprensa em geral não se falava em outra coisa, este pobre datilógrafo que ensina também a conjugar o verbo TO BE estava mais interessado – apesar de sua então (mais acentuada) timidez – em correr atrás de algumas saias, ou na tresloucada procura de si mesmo típica da adolescência. Leia-se: baladas, amizades perigosas e rebeldia sem causa. Alguma coisa me vem daqueles dias que seguiram à derrocada do Muro: as imagens daqueles europeus, muitos extremamente jovens, com picaretas colocando abaixo aquele marco da divisão (imbecil) humana. Eu era tão avoado naqueles idos dos anos 80 que não entendia muito o porquê de um muro (“Ora, um muro, pô, meu!”) ter tanta importância a ponto de ser a atenção do planeta todo.

    Bem, os anos se passaram e com eles eis que deixei de lado as minhas preocupações provincianas e criei uma maior consciência e interesse pelo mundo em que habito, e com eles, meus horizontes se ampliaram. E muito. Não tanto quanto eu gostaria, mas o suficiente a ponto de eu mal me ver naquele garoto de vinte anos atrás.

    A queda do Muro de Berlim foi um motivo de alívio para o mundo, como se sabe. Afinal, ali ficavam as ilusões de um mundo planificado, autoritário e que negava ao homem o desabrochar de suas capacidades empreendedoras e outras não menos relevantes.

    E é ótimo poder aprender sobre o mundo e suas complexidades, o ser humano e suas façanhas, tanto as dignas de aplauso quanto as que merecem nossa eterna desaprovação. Até para que não se cometam tantas asneiras que fizemos, fazemos e, queiramos ou não, ainda faremos neste planeta hoje tão interligado, tão desafiador e hostil.

    Com essas efemérides, podemos lançar um olhar naquilo que fomos e naquilo que nos transformamos com vistas ao que poderemos ser.

    O porquê deste blogue.

    Este blogue é besta como seu dono. Como ele, é ciclotímico. Obedece aos movimentos da maré, às fases da lua e, last but not least (só pra manter a picaretagem, in ingrish, you know), à química cerebral do autor.

    Aqui se tem de tudo. Tem “crítica” (pobre André Bazin, deve estar sambando na tumba) de cinema, tem baboseiras mil, tem pieguices, tem assassinatos literários, pra não ter que usar palavras de baixo calão, caro leitor, mimosa leitora. Este blogue é inútil. Ele só existe por pura birra, por teimosia, por obsessão, ok, vocês entenderam…

    Enfim, recomendo: pare de tentar entender qualé a deste espaço virtual, perdido neste mar cibernético. Jamais tente compreender o cérebro por trás dele, se é que há um cérebro funcional por aqui. Este blogue é incoerente, bi (tri, hexa, multi) polar, pernóstico, pedante, lastimável.

    Clique no X no canto superior direito da sua tela, caro (caríssima) internauta. Poupe seu tempo, não estrague sua vida assim, aqui, no meio destas palavras dementes.

    E o pior é que este blogue (atenção, Academia Brasileira de Letras, veja só, já está se aqui usando a forma aportuguesada da palavra blog, vocês repararam, não? Não???) já vai fazer 4 anos. Isso mesmo! Serão daqui a 3 (três) meses, 48 meses (que construção digna de um Machado!) de pura demonstração de inabilidade literária, de puro amadorismo, de puro diletantismo! Até do cinema de um Tarkovski e de um Bergman já se cometeu a heresia de se escrever por aqui… Realmente, o ego do blogueiro não tem limites… Aproveitando que quem escreve, justiça seja feita, é um ghost-writer, pode-se aqui falar (mal) do dono do (que cacófato ma-ra-vi-lho-so!) blog, ooops, BLOGUE pois, além de analfabeto funcional, ele mal lê gibis e, portanto, não lerá estes comentários…

    Paremos por aqui. Acho que já dei o recado, não? Este blogue é ruim de doer. E parece que irá, contra todas as previsões e maldições e prognósticos, durar pela eternidade dos séculos sem fim amém.

    Atenciosamente,

    Elienai Araújo, ghost-writer.

    Não se faz aniversário como antigamente (Dedicado aos “soi disant” misantropos. Ou àqueles nem tanto).

    Foi-se o tempo em que fazer anos era uma coisa assim marcante.

    Antes, o aniversariante podia, se não totalmente se isolar do mundo, ao menos ter a certeza de que não ligaria um aparelho chamado computador por meio do qual gente distante, próxima – ou nem uma coisa nem outra – iria lhe enviar “Parabéns pra Você” em formas de cartões eletrônicos com luzinhas piscando e musiquinhas de gosto duvidoso, e-mails, mensagens escritas (“oh, céus!”) ao seu telefone, que era, então, vejam só, ágrafo.

    Os tempos mudaram e, na esteira deles, um monte de coisas . Por exemplo, a possibilidade de viver o “seu dia” de forma discreta. Aquele dia em que você, alguns (ou muitos e muitos) anos atrás, havia nascido. Claro, havia o perigo da “ovada” e outras zoações. Mas nada que se compare com a zoeira eletrônica (e-mails, torpedos de celular, Skype, MSN, Orkut, Facebook, Twitter etc) que temos hoje em dia. E o pior: vindo de pessoas que não são necessariamente seu amigos, ou parentes, ou seja lá quem for que você considere alguém realmente que está sendo sincero ao lhe desejar um “Feliz Aniversário”, um “Te desejo tudo de bom” e tal.

    Antes, nos idos do século passado, digo eu, do milênio passado, era restrito o círculo daqueles que você realmente considerava (e que de fato tinham você em alta conta, a ponto de ir pessoalmente lhe dar um abraço, ou lhe telefonar expressando algo genuinamente caloroso) e que se lembravam de você. Hoje, a maioria lhe deseja um “Feliz Aniversário” assim como se cumprimenta na rua alguém que conhecemos só superficialmente: não há calor humano, não há sinceridade alguma na coisa.

    E, tão importante quanto, você tinha, se não todas, mas a maior parte das horas do seu dia sem se distrair grudado na tela de um computador verificando quem “se lembrou” de você. Uma lembrança postiça: no Orkut, por exemplo, é um tal de frases feitas e lugares-comuns de pessoas que só estão lhe enviando aquelas pérolas de puro fingimento só porque o site as avisa que você é o aniversariante da vez.

    Com menos distrações vindas de fora, você podia realmente se esbaldar com aquelas interiores: era a chance para fazer um balanço, para revisitar outros aniversários, outras épocas, lembrar-se de rostos do passado, fantasmas, como queiram, ou apenas fazer aquelas comparações (nós humanos não resistimos a elas, não tem jeito): como se era numa época anterior, como se é agora; o que foi feito daqueles projetos, sonhos e desejos passados; o que em você mudou, o que permanece, entre outras operações mentais e de fundo emotivo ou nem tanto que só num dia que nos representa tão bem – afinal nascemos naquele dia, há alguns (ou muitos e muitos, frisemos) anos – pode nos proporcionar de forma mais acentuada.

    Com a balbúrdia da vida atual, quando não se tem mais o prazer de passar uma data tão especial – ao menos simbolicamente, claro está – a sós, perdeu-se aquela experiência de ineditismo, de algo especial. Quando se perde o foco no próprio “eu”, o ser humano perde a dimensão de si próprio. Quando se vulgariza algo que não deveria ser vulgarizado, lá se foi a graça da coisa.

    A tempo: meu aniversário foi no dia 12 passado. Como se sabe, é feriado nacional. Assim, ao menos no meu dia, como de costume, posso amenizar um pouco a cacofonia de muitas “vozes” (sendo feriado, restringem-se as chances de se encontrar muita gente não nessariamente “bem-vinda”) que me desejam algo que não é sincero. E, de quebra, tenho a chance de passar um dia (ou grande parte dele) a sós comigo mesmo.

    Não se faz mais aniversário como antigamente, reconheçamos.
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    Ao som de Madeleine Peyroux, “Instead”.


    A marcha.

        Perdido, o Homem marcha. Continua sua longa caminhada às mais longínquas e inóspitas regiões. A ele, só resta andar ao léu. De vez em quando, ao lançar olhares para trás, é com um sentimento estranho que revê caminhos já trilhados. Voltando à paisagem que ele tem ao seu redor, descortina supostos novos acidentes geográficos, plantas supostamente nunca vistas, pedras talvez exóticas, riachos e rios e mares porventura jamais conhecidos.

        E, apesar de toda “mudança”, tudo o entedia. Nunca mais aqueles deslumbres de outrora, adeus àquelas sensações de que tudo é verdadeiramente novo.

        O cético e desiludido Viajante, que se dá conta de que há, volta e meia, circunstanciais companheiros a seguir seu rumo, como ele, pode intuir agora a existência de um fio condutor, uma linha imaginária a passar por toda aquela extensão. Ele não sabe exatamente o que é, qual a natureza ou o que representa aquilo. Ele só segue.

        E segue com a certeza de que algo muito superior a ele, não um deus, mas a ineroxabilidade da Natureza, faz com que a todos só reste a certeza de que tudo é efêmero. De que tudo já é conhecido. De que nada novo há naquela trilha. Assim foi. Assim será.

        O Viajante segue. A sumir de vista. Até o fim dos tempos. Até o fim do seu tempo.

    Ode à vingança, segundo Quentin Tarantino.

    O roteiro notável, próximo da perfeição, de “Bastardos Inglórios” consumiu de Tarantino dez anos. E valeu pela espera. Tudo bem arramado, os quatro capítulos iniciais convergindo para o quinto, o ápice, o desfecho surpreendente.  
    Brad Pitt com seu personagem com sotaque do Tennessee está já naquela antologia das grandes atuações do cinema. Só que seu antagonista, o ator alemão Christoph Waltz, com seu personagem Caçador de Judeus, consegue a proeza de se fixar de forma mais perene no inconsciente do espectador do que o astro americano. E isso não é nenhum demérito para Pitt, pois o desempenho do ator da terra de Hitler é simplesmente sensacional: nada estereotipado e cheio de nuances que em certos momentos, efêmeros, na verdade, faz com que o espectador nutra por ele uma certa simpatia. Falando no Führer, não podia faltar na imaginação deliciosamente delirante de Tarantino, esse que entrou para o inconsciente coletivo como a encarnação do mal supremo: o líder nazista, numa liberdade poética, digamos, do diretor, e que tem sua aparição e seus trejeitos imitados à perfeição, tem um destino cruel nas mãos do diretor americano. A cena na qual Hitler é metralhado (isso, Quentin, realiza nosso desejo de vingança!) pelos capangas do personagem de Pitt está entre aquelas reinvenções mais geniais que já presenciei. Nosso desejo, nesse momento, ao ver o líder nazi ser metralhado num cinema lotado numa Paris ocupada, é a sensação suprema que o cinema nos proporciona: a liberdade de criar um mundo de ilusão, de fantasia, que só para alguns parece incompreensível ou, o que é pior, um erro factual.

    A próposito, havia um casal de idosos ao meu lado. Ao final, o senhor disse, parece que todo orgulhoso, algo como "Não era Hitler, era um sósia!"…

    Fazendo parênteses. Acho que o apego excessivo aos fatos é uma coisa que impede muito a fruição de um filme, de um livro, da arte, de forma geral. Acho que aquele senhor esperava um tipo de filme mais para documentário do que para a obra de um diretor polêmico, irrequieto, irreverente e inventivo como é o diretor de Pulp Fiction e Cães de Aluguel. Pobre senhor (que pouco antes da exibição falava frases em inglês para a mulher, provavelmente sua esposa. Ela, por sua vez, passou toda a aparição dos créditos repetindo os nomes!!!), alguém deveria ter lhe ensinado alguma coisa sobre Tarantino…

     

    A violência está lá, tarantinamente inimitável. Estilização da crueldade e brutalidade humanas, para alguns. Para outros, o talento inegável para captar aquela brutalidade toda e filtrá-la de uma forma que só o cinema consegue fazer. Trilha sonora de filme de Tarantino é um lugar-comum elogiar. Sua intuição absurda para casar imagem e som, cena e música, o fato narrado com uma roupagem sonora que em tudo combina, é coisa de gênio: algo que parece tão "no ponto", tão bem dosado, que a gente chega a se espantar se alguém tirasse dali alguns daqueles elementos!

    A sequência inicial de tirar o fôlego; as cenas nas quais em questão de minutos vamos do sublime ao horripilante, como a cena da cabine de projeção, durante a qual a personagem proprietária do cinema mata um nazista e (sentimos perfeitamente) sua consciência a acusando: por fim ela demonstra um resquício de comiseração por aquele moribundo que emite um sussurro de quem está nas últimas. Ao se aproximar dele, ela é alvejada mortalmente… Tudo isso em slow motion e com a trilha que parece que estava lá desde a invenção da trilha sonora no cinema!

    A cena final é de uma ironia bem de Tarantino. Ele nunca é convencional, mesmo quando parece estar sendo.

    Outro dado interessante é a usina de citações cinematográficas que Tarantino conseguiu encaixar no roteiro. Foram tantas as pistas que esse diretor fissurado por cinema nos deixa esparramadas pelo longa…

    Um filme de guerra que já foi feito sob o signo da universalidade. Universalidade só acentuada pelo tema que perpassa todo o filme: o da vingança. Segundo o próprio Tarantino tão bem acabou de dizer numa entrevista: o que nos move, mais do que o amor, é a sede de vingança. Seja ela sob a forma impactante de um escalpe, seja mais "amena", sob a forma de um desejo de superação para suplantar, por exemplo, uma grande humilhação.

    Além de tudo, Tarantino é filósofo!

    Imperdível!

    Só espero que você que lê este texto e que ainda não tenha visto esse filme seja mais sortudo do que este pobre mortal e tenha como vizinho de cadeira no cinema senão um André Bazin, ao menos alguém que saiba captar as ironias e a liberdade criativa de um dos grandes diretores da atualidade. Ou, melhor ainda, fique calado durante a sessão.

    O blogueiro está vivo com seus moinhos de vento…

    Aos três ou quatro leitores deste blog:

    O autor lhes acena um “olá” meio sem graça, assim como a pessoa dele. E lhes diz que está deveras “encalacrado” com questões “metafísicas”: tudo isso é eufemismo para “envolvimento num grau profundo com a vida”. Em português decente, de gente: ele, o (ir)responsável por este AUTOCONSTRUCTO, anda bem ocupado. Fazendo o quê? Ora, vivendo, já não é uma grande e hercúlea tarefa?

    Vamos indo! Cada um com seus moinhos de vento.

    Até qualquer dia…

     

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    Ao som de Johann Sebastian Bach, Concerto de Brandemburgo nº5, em ré maior, índice BWV 1050, allegro,

    Confessionário (Solilóquios nada edificantes – 3)

    A gente vai se conhecendo à medida que vive, seu repórter.

    Juro que não queria mandá-lo para a puta que pariu. Juro que não tinha intenção de mandá-lo se foder. Até que eu tinha em mente fazer aquele vigarista endireitar na vida, ou ao menos tentar, ainda que isso seja arrogância das grossas: querer fazer alguém mudar seu jeito, sua maneira de ser. Que tosca que eu sou!

    Mas pra resumir: ele foi me buscar na faculdade aquele dia. Atrasado. Como sempre, depois de meses de transa, saídas, viagens, muita curtição, carreiras e mais carreiras, baseados e mais baseados. Depois de um certo tempo os homens se tornam tão hostis para nós, as mulheres que caímos na besteira de querer discutir a porra da discussão! Eles vêm, se empaturram da gente, fazem o que bem querem e um belo de um dia começam a ficar apáticos, com cara de bundões, cocozinhos ambulantes, um bando de putos!

    Mas aquele dia aquele desgraçado foi me pegar na faculdade. Só fiquei lá eu, no banco do pátio, olhando os olhares nada sutis do vigilante que, volta e meia, me perguntava se tava tudo bem. Tava sim! Se tava! Até que, já não aguentando mais ser comida com aqueles olhos pastosos e nojentos, eis que chegou o pulha.

    Entrei no carro, mal nos cumprimentamos. Fui logo o mandando para a casa do caralho. Ele mal me ouvia. Dirigia e de vez em quando passava as mãos nos cabelos, fazia aquela carinha de fresco dele pensando que me assustaria com aquela demonstração de filhinho mimado levemente contrariado. Foi quando tive a ideia: eu o mandei entrar numa espécie de floresta que tem ali nos arredores. Ele não entendeu, o pacóvio; deixei claro que era um dos meus caprichos de pura libido. Fingi que era o que ele pensava. E eu já não pensava nas consequências: só o mandava ir reto, quanto mais isolado e mais escuro, melhor. Só as estrelas nos iluminavam. Foi quando o carro parou. E eu pedi pra ele pegar meu celular que tinha caído aos pés dele. Ele me obedeceu. E então, reunindo todo meu ódio represado e a força por ele gerada, descarreguei o pequeno extintor em sua nuca, uma, duas, três, várias e várias vezes. Ele apenas soltou um gemido, logo abafado pelos meus gritos, que aumentavam de intensidade em mistura com uma risada histérica que a muito custo pude acreditar que vinha de mim. Ele tombou de vez. Ergui sua cabeça. A encostei no banco. Ele ficou idiotamente com aquela cara limpinha parada: não pensei duas vezes e mais uma vez, numa pontaria que até agora me deixa orgulhosa, acertei sua testa com um violento golpe. Ele soltou cuspe pela boca subitamente aberta. Abri a porta. Dei a volta. Abri a outra, pela qual seu corpo caiu. Arrastei-o até a frente do carro. Mirei certinho: dei partida e passei devagarzinho: ouvi um estalo que nunca ouvi na vida. Olhei pelo retrovisor. Deixei o carro ali. Peguei minha bolsa.

    Fui pela estradinha que conheço tão bem. Cheguei à rodovia. Uma mulher num Corsa me ofereceu carona. Entrei. Disse a ela que meu namorado havia morrido, que havia sido brutalmente assassinado. Ela quis contactar a polícia. Eu disse que não precisava. Agradeci pela carona. Desci. Fui a pé até em casa.

    Morando sozinha, não se tem tantas preocupações. No outro dia, a polícia veio me buscar: tudo havia sido descoberto. Condenada, fui uma péssima presa. Tanto que matei outra por estrangulamento porque um dia ela me chamou de mimadinha burguesa. E aqui estou eu, um dia uma promissora psicóloga, eu, que sempre me autoconheci tão bem.

    Que não me venham mais com essa balela de natureza humana, algo imutável. A gente vai se conhecendo à medida que vive. Não ando pra brincadeiras, pois agora sei do que sou capaz. Se sei!

    Enfim me conheço, seu repórter.

    Um Dell ou um Sony Vaio? (E outras amenidades nulas).

    Um Dell ou um Sony Vaio?

     É…, minhas indagações, aspirações e dilemas costumavam ser mais metafísicos.

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    Sim, registrou-se o recorde de hibernação de blogs! O prêmio vai para este mesmo. Foram incríveis cinco dias de sono reparador…

    Para quem não entendeu bulhufas: cinco dias atrás, deixei aqui um post (já devidamente apagado) no qual eu dizia que este blog passaria por um período de “hibernação”, eufemismo pra dizer que não saberia quando voltaria a escrever por aqui. Pois bem. Cinco dias se passaram e o tal do sono reparador etc e tal… Sacaram? É ou não é caso raríssimo de hibernação-relâmpago?

    Ou de instabilidade mental, ouço algumas más línguas dizendo…

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    Minha amiga e colega Marcela Barzola, conterrânea de Borges e (gosh!) Maradona, me emprestou ontem os Cuentos Completos de Julio Cortázar, volume 1. Bem, vou reler agora, depois de tanto tempo, os contos Las Babas del Diablo (no qual se baseou Michelangelo Antonioni para escrever o roteiro do genial Blow Up) e El Perseguidor, baseado na figura do “Bird“: Charlie Parker. Ah, o conhecimento… Travar contato com pessoas com interesses e gostos parecidos com o nosso só nos faz bem…

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    Deletei minha conta do Twitter. Acabou asssim minha participação no admirável mundo moderno. Agora já posso voltar para minha caverna, digo, a este meu blog…

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    Logo mais, o glorioso Tricolor do Morumbi vai pegar o Palmeiras. Agora, no momento em que escrevo, às 9h45 da matina deste domingo ensolarado (enfim começo, acho eu, a sair da ruindade da gripe, não a suína), tenho um palpite: vai ser um jogo duríssimo, uma batalha, mas o São Paulo ganha. Arrisco tudo, pronto.

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    Ao som da banda de Count Basie, Now’s the time.

    Sísifo liberto.

    Ele só ia até onde lhe haviam permitido. Só via e ouvia e escutava e sentia e compreendia e vivenciava e experimentava e aprendia e apreendia e provava daquilo que estava ao alcance de sua limitada e exígua e estreita e viciada visão de mundo. Nuances, matizes? Ele não os conhecia. Gradações, relativismos de qualquer ordem? Nunca neles ouvira falar! Era-lhe possível ir só até aonde alguém como ele, vindo de onde vinha, era permitido ir. Não mais. Nada de ousadias. Nada de desejos de transcendência. Nem tampouco demonstrações de bravura. Nada. Limite riscado a giz, ai dele se dali escapasse; pobre dele se esboçasse mesmo qualquer intenção, mínima que fosse, de ir além do que a ele estava reservado desde que o mundo é mundo; desde que seu destino fora traçado por um ser magnânimo o suficiente a ponto de lhe conceder aquela “parte que lhe cabia naquele latifúndio”: o espaço no qual devia ele viver.

    Um dia, cansado da mesma visão, da repetição ad nauseam de reações, de cadeias de ideias, eis que ele, o circunscrito, o limitado, amanhecera com a tresloucada intenção de mandar às favas todas as recomendações, todas as ameaças divinas, as terrenas e as de todos os tipos. Não se vendo como um bravo, mas tampouco como um resignado, lá foi ele, Sísifo liberto, primeiro com um leve palpitar no coração, depois com a convicção, em seguida a firmeza dos que arrostam monstros imaginários,  rumo ao desconhecido. Conseguira passar o até então intransponível. Dali para a frente ele seguiria reto, sem receios, sem algemas mentais, sem apreensões pelo futuro incerto.

    Até hoje, quando dele se pergunta, aqueles que ali ficaram só apontam para o horizonte. Em seus olhares, a inveja mastigada. Dele, só isso que restou nos outros.

    Dos outros, nele, o que houve foi somente comiseração. Nem isso, talvez.

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    Ao som de Chet Baker, I fall in love too easily.