AUTOCONSTRUCTO

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Ficções, tentativas de crônicas, resenhas de filmes, elucubrações, livros, artes: um blog sobre tudo e nada.

O potencial das memórias descartadas.

   O texto que segue – totalmente fictício - foi outra tentativa vã deste humilde escriba incompetente (ainda que incansável) para emplacar no concurso mensal da revista piauí. O mote deste mês foi a frase inicial (em negrito) de José e seus Irmãos, romance de Thomas Mann. Como de costume, todos os textos - independentemente da qualidade ou falta de - que não ganham o concurso (o vencedor aparece na versão impressa da revista) ficam durante um mês no site da publicação.

 

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   O potencial das memórias descartadas: a técnica de prospecção mnemônica para trazer à luz a solução dos problemas que afligem o ser humano moderno : uma breve apresentação.


   Doutor Philip Podvodník, Ph.D.

 

   Senhoras e senhores, até mesmo para os rasos de espírito, para os simplórios, para os náufragos da vida, profundo é o poço do passado. E de lá resgatar as mais recônditas lembranças e fazê-las úteis para a vida cotidiana é algo que está ao alcance de qualquer um. Tão abissal é aquele poço, tão vasto é nosso mundo formado por imagens, conceitos, palavras, vivências, pessoas que há muito se foram, gostos, cheiros, sons, enfim, tão absurdamente amplo e diversificado é aquele caleidoscópio que trazemos em nossa memória, que só temos uma insuficiente ideia dele. Somos constituídos de camadas e mais camadas de reminiscências. Desperdiçar todo esse potencial é de fato algo lastimável.
   Sim, lastimável. Pois sabem a tão almejada solução para aquele problema intrincado que atualmente enfrentam? Ela pode estar em vocês, se assim o desejarem, eis a revolucionária descoberta.
   Aquela luz para solucionar enigmas pode estar perdida nas memórias desativadas e dormentes de seu poço profundo.
   Como sabem, minhas técnicas para acessar e resgatar tudo isso estão sendo adotadas cada vez mais por artistas, líderes políticos, intelectuais, cientistas, estudantes etc. Elas são fruto de toda uma ciência testada e reconhecida para fazer com que venha à tona desde o primeiro beijo até, o que mais importa aqui, aquele insight necessário para equacionar os problemas mais complexos similares ou não a outros que já se teve num passado não tão próximo.
   Senhoras e senhores, moças e moços em cujos olhos vejo o brilho do interesse mais genuíno, todos vocês estão a um passo, a um só passo de uma mudança de qualidade de vida, de um salto para uma nova ordem das coisas numa escala pessoal, social e humana.
   Minha técnica é muito mais científica do que o ultrapassado e precário “método” de degustação de bolinhos para abrir o baú de uma ou outra reminiscência pálida, sem vida, tediosa. Agora para desencadear todo um mundo represado de memórias vibrantes e úteis que precisam apenas de uma técnica apurada para saírem do escuro daquele poço rumo à luz radiante de suas consciências, eis que lhes ofereço minha técnica, a mais avançada que já existiu.
   Não há mágica. Há, isso sim, procedimentos experimentais testados e retestados com voluntários dos quatro cantos do mundo e enfim patenteados.
   Aos interessados em fazer daquela lembrança descartada e enferrujada uma peça azeitada na engrenagem de sua psique, deixo este pedido: por favor, só não se esqueçam daquele antigo hábito de jogar moedas em poços. No caso, lembrem-se de jogar em seu poço profundo das memórias reativadas algumas, se não moedas, mas notas de dinheiro reservadas a este que vos fala. Quanto mais altas as notas, mais profundamente se vai na prospecção do passado e, consequentemente, maior será sua qualidade de vida. Sem ser irônico: não se esqueçam disso.
   Obrigado pela atenção.

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Ao som do CULTURA JAZZ, da Rádio Cultura FM de São Paulo (que saudade do jazz concert, com Carlos Conde!)

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Das mil faces da tragédia.

    

    A ideia de que a tragédia tem que ser necessariamente algo grandioso, épico, está tão impregnada no inconsciente coletivo que, por qualquer motivo besta, usamos a palavra “trágico” e seus familiares semânticos com um misto de espanto compatível com a grandiosidade suposta de um acontecimento que nos deixe meio nocauteados.

    Na verdade, a vida é composta de micro-tragédias, tão pequeninas que, na correria nossa de todo dia, passam quase despercebidas. Uma árvore moribunda é uma tragédia. Assim como um sonho desfeito. Igualmente um amor que se torna um desamor. Outra coisa não é o abandono dos projetos pessoais, nem as mil maneiras de se morrer para aquilo que há pouco nos era valioso, nem o choque entre a realidade brutal com os ideais agora ridicularizados, nem a percepção do efeito deletério do tempo sobre nossas falsas certezas de perenidade, nem a não-equivalência entre o que vivemos interiormente e o que se passa fora de nós, nem a nossa absurda transitoriedade, nem o choque com os outros, nem um rol infindável de outras minúsculas tragédias de que é composta a vida.

    Mas o que mais é fascinante é se dar conta de que, se delas, as tragédias, somos cercados, temos nelas também, potencialmente, uma chance de nos superarmos, de irmos além de nós mesmos, de nos projetarmos para um além de nossa suposta “natureza humana”; é a oportunidade que temos de nos engrandecermos perante o atrito com aquelas tragédias e delas retirarmos não uma lição de vida nem tampouco todo aquele papo clichê de “crescer com as adversidades”.

    Nada disso. Ou não necessariamente.

    É aproveitarmos as brechas que nos são abertas, verdadeiras frestas através das quais há, em cada momento “trágico”, seja de que intensidade for, uma nova janela de vivências repletas de possibilidades. A cada “tragédia” – aqui no sentido multifacetado -, a teia infindável do possível, do acaso, do contingente, do que seja lá o que for que nos recoloca perante o mar do possível. Que nos franqueia um universo de potencialidades, de caminhos que se bifurcam, de paralelas que se cruzam, de linhas tortuosas que se juntam e se tornam por fim um retilíneo caminho. A via das possibilidades infinitas. Caminho esse que pode ter um início lá naquela “tragédia” longínqua no tempo ou no espaço de nossas vidas atribuladas.

    E ainda há quem ache que tragédias só as de Ésquilo, Sófocles e Shakespeare…

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Espinosa: um filósofo apaixonante.

Filósofo holandês do século XVIII, a descoberta de suas ideias atuais causa muita surpresa nestes tempos modernos. Por intermédio de Ollivier Pourriol, em seu “Cinefilô”, estou descobrindo encantado aquele pensador ainda tão desconhecido de muita gente. Suas ideias e concepções filosóficas são altamente apaixonantes. Ele que discorreu tanto sobre as “paixões” e a questão da liberdade. Ainda quero nessas férias que estão chegando, ou até o fim deste ano, ler seu livro “Ética”. Enquanto isso, vou buscando em meus livros de filosofia, entre outras fontes, informações (tudo que posso!) sobre sua vida, obra e pensamento.
Aqui estão vídeos sobre Baruch de Espinosa. O primeiro é de uma aula universitária, (não consegui descobrir o nome do ótimo professor) sobre a questão da liberdade e do conhecimento na filosofia do holandês. O segundo é uma recriação da vida e da atitude política de um pensador que passou a vida polindo lentes. Bem sintomático: é essa a exata sensação que temos ao travar conhecimento com seu pensamento. A de que com ele podemos nos desvencilhar de (e superar) ideias feitas, falsas certezas e todo um sem-número de coisas que nos impedem de ter uma visão mais apurada da vida e seus desafios.

http://tinyurl.com/aulasobreespinosa

http://tinyurl.com/especial-espinosa

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“Yes, I’m a great pretender…”

Atenção! Isso não é conversa mole de ressentido. Não mesmo. Há muito eu queria escrever sobre o que está nas linhas abaixo. Talvez por influência dos “Concertos de Brandenburgo“, de Bach, que passei o dia ouvindo, a verdade é que estou prestes a rabiscar alguma coisa sobre mim mesmo (vide o post abaixo para saber o porquê da relação Bach/idéias). Já que este blog também é um diário muito do incompetente, ainda assim é meu. Daqui a cinquenta anos, quando eu estiver nos cueiros novamente, quem sabe não passe aqui e, caquético, mas ainda assim emotivo, não lembre com saudades o cara tão sem graça que fui…
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Sei que não sou um sujeito lá muito convencional. Mas nenhum Michael Jackson, claro. Fiquem tranquilos.
Extremamente tímido entre gente que não conheço, muitas vezes avesso a falar muito, outras um pouco expansivo; em certas horas “na minha”; em outras, gregário como um comerciante na CEAGESP (gostaram do símile altamente literário? Tenho mais deles, tá?) entre outros traços psicóticos, digo, normaizinhos.
Bem, falemos sério. Se tem uma verdade sobre mim é essa: muita gente ( e o “muita” faz toda diferença: se eu usasse “todo mundo” ou “todos” estaria extrapolando a tênue fronteira entre a normalidade e a paranóia) superficial que adora se prender a estereótipos percebe: eu incomodo esse povo.
Bem, sou um cara que não é afetado por pompas e circunstâncias, títulos honoríficos, nobiliárquicos etc.
Já percebi que quando começo a falar algo, muita gente me acha um pedante, ou um cara que quer se mostrar. O que dá na mesma, claro. Como percebo isso? Simples: olhares enviesados; olhares em busca de outros olhares; mas, acima de tudo, é a reação verbal da pessoa: uma certa pressa e superficialidade no falar, como se o assunto ali fosse uma “batata-quente”; uma certa necessidade, em outro momento, de querer suplantar aquilo que eu dissera. Lamentável…
Na verdade, por meios tortuosos, consigo, pela atitude de pessoas que assim me julgam, ter delas uma visão certeira.
(Importante: friso bem que não é todo mundo com quem falo assim, desse modo. Já travei conhecimento com gente que procura conversar de igual para igual comigo, nem vê como uma afronta uma observação menos superficial que eu faça, um ângulo menos prosaico de se enxergar as coisas etc. E quando aquela pessoa diz algo também menos superficial, procura enxergar as coisas de forma menos estreita, etc, eu também não vejo motivo para tomar aquilo como uma afronta. Simples assim. Pelo contrário: tenho prazer em aprender com o que acabou de me ser dito).
Voltando aos meus “detratores”. Ledo engano, o deles (Relativizemos: na atitude humana, entra sempre uma certa vaidade, afinal, somos a projeção de nós mesmos naquilo que os outros captam da gente). Aquelas pessoas têm uma visão estreita demais dos outros. Já conheci, repito, gente extremamente interessante e inteligente que não o olha como se você fosse um marciano só porque você acabou de falar sobre Nietzsche; ou comentou sobre algum outro pensador; ou fez uma analogia com uma certa personagem literária, ou do cinema, por exemplo; ou usou uma palavra menos gasta, ainda que não rebuscada. Tudo, claro, com um senso de oportunidade. De repente, só para competir com você, aquele sujeito diz algo (finge) sobre o que afirmou um famoso filósofo (é patente a “forçação de barra”) ou que fez tal e tal curso (como se não houvesse outras formas de aprendizado) ou que “minha mãe é doutora”, ou “Ah, meu pai é um gênio!” (argh! falado por uma criança até que vai. Mas por um adulto… E outra: isso tem de ser dito da forma mais blasé possível. Dessa forma, o efeito será acachapante, pensa-se) ou ainda que… Ah, são tantas coisas… Isso já me aborreceu bastante. Hoje não mais. Me resignei com o fato de que vou sempre encontrar esse tipo de gente. Bem diferente daquele outro tipo com o qual é tão prazeroso estabelecer um contato: gente que não diz lugares-comuns e não se prende por exterioridades. Gente que não quer a todo momento te impressionar com realizações de terceiros. Gente que sabe que um diploma, no mundo competitivo do mercado de trabalho, é relevante. Mas que, no mundo das idéias que há nas obras artísticas, da cultura, do conhecimento não-instrumental, não é o diploma que vale: é a capacidade de relacionar conceitos; de fazer pontes entre assuntos só aparentemente desconexos; é a busca pelo saber que abre portas para outros saberes, através de muita leitura, numa rede infinita feita de curiosidade, de não-conformismo com o que vem muito fácil; um mundo franqueado a todos que dispoem de uma massa cinzenta e queiram empregá-la apropriadamente; coisa de gente que não se apega a estereótipos bestas e quadrados. Como todos os estereótipos.
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A tempo. Se tem uma coisa que me fascina é me apropriar da cultura (literatura, filosofia, cinema, artes em geral), “deglutir” tudo, tornar aquilo “meu” e usar o produto dessa “deglutição” de forma mais natural possível, até mesmo no meu dia-a-dia, fazendo os mais improváveis “links” em termos de assuntos. Sou fascinado por essa “apropriação” criativa!
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Acontece que não costumo baixar minha cabeça para ninguém, nem me deixo impressionar por gente despeitada. E nem fico mais “grilado” com aqueles que se espantam com meu jeito (Ah, nem tampouco fico envergonhado de usar a expressão meio démodé “grilado”…).
Meu jeito: me interessar por vários assuntos, ter uma curiosidade inesgotável para aprender certos assuntos que me encantam etc. E nem por isso querer saber tudo: não cairia num erro tão crasso. O que me move justamente é a certeza de que preciso saber mais ainda sobre uma trezentas mil coisas ainda enquanto por aqui estiver.
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Voltando. É como se eu tivesse que sempre “pisar em ovos”: se digo algo “suspeito”, já desperto olhares cismados de gente tacanha que acha que estou querendo me mostrar quando discorro sobre assuntos variados, fruto de leituras, de reflexões. Não que eu seja um falador. Longe disso. Mas as coisas que me empolgam costumo sobre elas falar com convicção e energia. Aí que as pessoas fazem uma “leitura” errada. Elas interpretam essa convicção e energia com arrogância!
Aliás, as pessoas neste país geralmente têm uma fixação pelo “grau de doutor”, de alguma coisa que comprove que alguém, para falar de um filósofo, de um cineasta, de um escritor, de um assunto da geopolítica, por exemplo, NECESSARIAMENTE tem que ter um atestado, algo que comprove que ali estamos diante de uma sumidade em tal assunto. Daí, só daí é franqueada a porta para aquele sujeito poder falar sobre o que quiser…
Não sou contra a formação intelectual, já disse isso aqui neste blog. Obviamente que não sou. E manda a sinceridade dizer o seguinte: fiz até o segundo ano de Letras, além de ter feito alguns meses de Jornalismo. Nem por isso um dia deixo de querer voltar à faculdade. Nem por isso minha liberdade intelectual é tolhida por quem quer que seja. Não busco saber mais do que quem estudou um dado assunto numa faculdade. Achar que o saber é uma espécie de contêiner que deve ser abarrotado de forma atabalhoada é de uma cegueira e supercialidade sem tamanho. Mas eis o ponto crucial: isso – o fato de não me ver como uma forma de mártir dos pobres autodidatas sem eira nem beira, longe disso! – não é motivo algum para que eu não saia do meu conforto e não busque, a duras penas, como sempre fiz, ler, me informar, correr atrás de todos aqueles assuntos que tanto me atraem. Sem ter que buscar o aval de quem quer que seja. Sem me sentir inferiorizado, tampouco.
E com aquela gente para quem tanto incômodo eu causo – não que aquelas pessoas percam o sono por mim nem tentem se matar por minha culpa, só pudera! – já tenho um novo approach: finjo-me agora de morto. Perto delas eu me encolho, não como subserviência, mas como tática: ao fazer isso, passo a agir, ao menos num nível superficial, do jeito que elas querem. Dessa forma, me regozijo por dentro: ao constatar o quanto “oca” é aquela pessoa, eu passo a não ter nenhum prazer na sua companhia. Elas vêem em mim a imagem delas refletida. E nem percebem.
Vou dormir. Boa noite, seu João Sebastião Bach. Obrigado pela força!
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Ao som de Bach: Concerto de Brandenburgo nº5, em ré maior, índice BWV 1050, movimento Affettuoso.

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In Bach I trust

Que música é essa que me entra pelos poros, invade minha corrente sanguínea e chega ao meu cérebro com a potência de mil megatons, onde minhas pobres células cerebrais, indefesas, apenas vêem tudo ali se transformar? Que música é essa que me leva a sonhar acordado, a ver o que não pode ser visto, a sentir o que está além de qualquer intelecção ou explicação que se queira cietífica? Que música é essa que me faz visualizar coisas que minha mente passa a criar ali, no ato? Que bendito som é esse que traz uma onda de energia, um não sei o quê de auto-satisfação, de potência até então latente? De quem são essas melodias, esses contrapontos, essa escala caleidoscópica de matizes sonoros os mais diversos mas que, não obstante toda a “cacofonia” ali, é de uma ordem mística, sobrenatural, transcendental, seja o que for?
É Bach, é ele!
São seus Concertos de Brandenburgo. É o que ouço neste instante e me fazem criar este texto que vai assim mesmo, sem revisão e que com certeza está muito, mas muito aquém da sensação de se ouvir um gênio que não pertence a nenhum credo, nenhuma raça, a não ser a humana e que, 259 anos após, está vivo, aqui mesmo neste meu computador, nestes fones de ouvido.
In Bach I trust!

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Michael Jackson

“Thriller”, “Beat It” e “Billie Jean”: eu era pequeno para poder entender a importância de tudo aquilo. Demorei pra sacar a coisa. Aqueles videoclipes hipnotizantes em nada lembram o cara que ontem faleceu. Na verdade, há muito Michael Jackson, o artista, já não existia. Depois do álbum “Bad”, de 1987, nada mais ele criou à altura. Daí em diante, foi apenas um espectro do que fora. O resto foi um longo processo de queda.
Os talentos gigantescos cobram um preço não menos gigante. Aí entra o aspecto humano. Só os muito bons mesmo conseguem se manter criativos.

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Ode ao efêmero.

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Do dicionário Houaiss:

Etimologia: gr. ephêmeros,os,on ‘que dura um dia’, pelo lat. ephemèron,i ‘lírio branco, silvestre; animal que nasce e morre no mesmo dia’; nas acp. de angios, pelo lat.cien. gên. Ephemerum (1754); f.hist. 1712 ephemero

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Ainda bem que há o efêmero.

Fôssemos eternos, a certeza do fruir contínuo e do sofrer sem fim seria uma espécie de buraco negro a sugar toda nossa energia, nossa psique. A planificação de tudo, nem um ponto alto, nem tampouco declives, uma paisagem  que se tornaria inóspita de tanto tédio: seria o que teríamos.

Os vaivéns da vida só nos fortalecem. É aquilo que nos sustenta, e até mesmo nos derruba às vezes, mas, paradoxalmente, serve como uma forma de nos proporcionar momentos de “enfrentamento”  individual: aquela hora em que constatamos o quanto temos que nos livrar de padrões de conduta e de hábitos que vêm da ilusão de perenidade, de continuidade. É quando o auto-engano se despedaça, perde terreno:  uma forma de catarse, como queiram.  Guardadas as devidas proporções, não é nada não é nada equivale a ler Sófocles! Ou os estóicos.  

Naquela montanha-russa que tanto nos ajuda a nos constituir, na interiorização das vivências mais diversas (e no fundo todas elas têm uma ressonância considerável, por mais que achemos erroneamente que nem tudo nos “toque” num primeiro momento), temos uma oportunidade valiosa para corrigir planos de vôo, revermos comportamentos, redimensionarmos o próprio “eu” em contato com aquelas coisas que nos afetam e sobretudo podermos nos desvencilhar da falsa ideia de que o gozo contínuo seria o Santo Graal do ser humano. Ainda há quem duvide do valor de tudo isso?

Antes o real efêmero que falsas eternidades.

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Atenção, si vous plaît! Este texto, que não é de autoajuda, pode ser resultado dos prenúncios de um resfriado (ou gripe? ou peste bubônica? ou toxoplasmose? ou “só porque vos vi, minha Senhora?“, ou aquela pizza que não me caiu bem? ou seja lá o que for!).
Observações: 1º) que não seja o vírus da gripe suína. 2º) que seja um “inofensivo” resfriado muito do efêmero!
O resto é espirro.

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Outro texto para o concurso da “piauí” (com minúscula!)

 NOTA DO AUTOR: ATENÇÃO, TALIBÃS DA INTERPRETAÇÃO: POR FAVOR, FAÇAM UM ESFORÇO PARA LER ESTE TEXTO (COMO QUASE TUDO AQUI NESTE BLOG) COM OS ÓCULOS DA IRONIA.

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NOTAS DE UM PERDEDOR

  Do livro de moralidades: contra-exemplos do bom proceder que devemos incutir em nossos jovens para que eles não façam o mesmo e possam trilhar o caminho da Luz e da Sabedoria.

    Eu gostaria que meu pai ou minha mãe, ou os dois, já que ambos tinham a mesmíssima responsabilidade, houvessem refletido sobre o que estavam fazendo quando decidiram me conceber. Sim, eu os culpo por tudo. Se naquela fração de segundo que antecedeu a minha concepção eles tivessem parado com tudo… Seria eu agora, neste instante, uma não-coisa. Antes isso do que a vida de desgostos e infelicidade que tive. Vejam vocês, tirem suas conclusões.

    Tudo começou quando, muito pequeno, caí do berço. Fraturei a cabeça. Dizem que só não virei um vegetal por puro acaso. Isso me deixou levemente retardado. Mas só levemente, pois não me impediu de saber ser infeliz. Que talento!

    Com os anos, até que recobrei o tempo perdido. Lá fui eu insistindo na farsa da existência. Meus pais negaram a mim o que concederam a meus não-irmãos: sou filho único. Aos oito, fiquei órfão: lá se foram os meus progenitores num desastre de trem. Fui para a rua. Sem parentes, vaguei pelo mundo. Conheci alguém que me resgatou e me deu um lar. E outro que me deu filhos, dali a alguns anos. E uma família. Estudei um tanto para ter uma profissão. Passados alguns anos, minha esposa e filhos morreram todos em um acidente de carro. De novo fiquei só. De novo arrasado. Um trapo humano.

    Casei novamente, com uma colega de trabalho. Quase tivemos uma filha: que não chegou a nascer pela simples razão de que a mãe, numa complicação do parto, foi mais ligeira e partiu antes.

    Entrei na de beber: lá veio a cirrose. Perdi emprego. Dos poucos amigos, a maioria se foi desta pra outra melhor. Graças a um golpe de uma quadrilha especializada em Previdência Social, me levaram tudo. Até agora espero por justiça. Ganhei um câncer de esôfago. Fui despejado. Mendiguei. Me arrastei pelos becos. Acho que tenho sífilis. Meus rins estão em petição de miséria. Meus dentes também não podem dar o ar da graça simplesmente porque já não existem. Tenho reumatismo até na alma. Hoje, aqui num abrigo para os sem-nada, com um fígado em frangalhos, mal tenho força pra escrever estas linhas. Daqui vejo um casal de índios maltrapilhos que veio de longe e é assim recepcionado pela bondade do homem branco e civilizado e consegue um teto num lugar decadente, mal-cheiroso e com camas sujas e lençóis há muito tempo sem ver água. Sem falar da farsa que chamam de comida. Nem tampouco dos funcionários que, quando não estão, pelos cantos, nos espancando a qualquer sinal de algum mal-entendido de nossa parte, estão se pegando lá na cozinha, em cima das mesas do refeitório, de madrugada, quem sabe gerando outros que nem eu. Não, eu não creio em livre-arbítrio nem nada dessas baboseiras. É época de Natal. Fizeram uma árvore bem da cafajeste, que mais parece um troço obsceno. As velhinhas ficam olhando ali e dão risadinhas escrotas.

    Uma roda de desgraças. Este velho aqui só crê que tudo poderia ser evitado lá atrás se meus pais, aqueles paspalhos…

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Texto com o qual participei do concurso literário da revista “piauí” e publicado no site daquela publicação em fevereiro deste ano. A frase em negrito, de autoria de Laurence Sterne, em A Vida e as Opiniões de Tristram Shandy, foi o mote a partir do qual o texto tinha que se desenvolver.

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Para entender melhor Darwin.

Neste artigo esclarecedor da Scientific American, lemos sobre alguns mal-entendidos que rondam as idéias centrais de Charles Darwin. Em inglês.

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Boa noite, pai.

  Querido pai: você me perguntou recentemente por que eu afirmo ter medo de você.
  Vou me sentar aqui do seu lado e explicar tudinho. Prometo ser breve.
  Sabe, desde muito pequeno aprendi a conviver com este sentimento relacionado a sua pessoa. Mas, apesar desse aprendizado de longos anos, posso lhe dizer que sim, tal medo primário se transformou em outra forma de medo e só aumenta a cada dia. Já faz muito tempo que me desvinculei do Complexo de Édipo. Faz tempo também que não te vejo mais como um “concorrente”. De modelo no qual deveria eu me inspirar a essa figura aterrorizante de hoje, muita coisa já passou. Anos de sermões, de surras, de “pitos” homéricos, tudo isso só acentuou a sensação de medo, compreende? Mas não é mais ao medo físico, o medo da dor corporal, a que me refiro. Não. Mas ao medo, em suma, de que eu, por conviver todos estes anos contigo, me transforme no mesmo pulha, no mesmo asqueroso ser que você, estimado pai. Sua presença no mundo, miasma a soltar as mais fétidas e repugnantes emanações, apenas me enche de receio de me achar um belo dia uma cópia sua, sabe? E quem me diria que já não me tornei isso? Meu medo é esse: virar uma versão sua, piorada. É o risco iminente de cometer as mesmas merdas que você cometeu. As mesmas canalhices. Os mesmíssimos crimes. E sobretudo de terminar assim, nesse estado lastimável em que você se encontra.
   Mas não sou nenhum desmiolado: o que temo é bem possível de vir a acontecer. Tem casos e casos por aí que não me deixam mentir. Não estou exagerando, não!
   Pai do meu coração – porque no coração não tem só coisa boa, não é? -, só existe apenas uma maneira de abortar essa catástrofe. Sei que aqui, nesta cama, inválido, apenas com estes olhos idiotas a fitar o mundo, só se comunicando com esse último por meio desses sinais que apenas as enfermeiras entendem – e eu vi seus olhos nos seios daquela morena, a do turno da manhã -, você já não oferece riscos a quem quer que seja. Pelo contrário: a muitos você só causa a mais profunda pena.
   Mas não a mim! Não mesmo! Enquanto vivo você for, sempre terei que conviver com sua presença que a mim só traz lembranças desagradáveis, entende? E é como se eu te visse e na mesma hora visse o que me aguarda. Tente me entender ao menos uma vez na vida!
   Por isso, meu velho progenitor, causa de muitas das minhas desgraças, é com muito, mas muito pesar que eu – sim, já adivinhou, não? Pode me olhar espantado, afinal você me ouve e entende muito bem, não? –, pra não te ter mais como um fantasma a me rondar, um lembrete físico do que posso me tornar, é por isso que vou desligar essa maldição de aparelho que te mantém vivo. É doloroso, eu sei. Mas muito menos do que o fardo de te ver e automaticamente me lembrar de tudo que você fez ou deixou de fazer neste mundo. E correr o risco de eu repetir, por imitação, tudo isso!
   Durma bem, velho. Espero ter respondido tua pergunta. É a minha sensação de paz interior, acima de tudo, o que busco. Você é um empecilho, uma pedra e tanto no meu caminho.
   Ah, sim. Vai ter só uma escuridãozinha. E um silêncio bom. Até que estou sendo camarada, não?
   Boa noite, pai.

 

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Texto com o qual participei do concurso literário da revista “piauí” (com minúscula) e publicado no site daquela publicação em abril deste ano. A frase em negrito, de autoria de Franz Kafka, em Carta ao Pai, foi o mote a partir do qual o texto tinha que se desenvolver.

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Vidas Cruzadas?

   Ela fechou a porta com vagar extremo e se afastou, furtiva, como quem abandona um doente que acaba de adormecer à meia-noite.        

   Livre de qualquer comiseração, desimpedida para fazer o que ela mal conseguia crer que iria fazer e também no que tinha acabado de realizar, tomou o rumo da Estação Edgar Lynch. O sol ia embora mais uma vez. A noite dava seus primeiros sinais. Com passo firme, passando por pessoas que saíam do trabalho às pressas, mendigos em bancos de praça, pombos aos magotes, ela seguia apenas o rumo de sua idéia fixa: livrar-se daquilo. O quanto antes. Sem peso na consciência. Nessa espécie de antecipação do prazer, na qual se via mais “leve, livre e solta”, ela se concentrava apenas nos aspectos positivos, ou, pelo menos, naquilo que pensava que seriam as coisas depois do grande ato. “Retomarei as rédeas da minha vida!”.                      

   Chegando à estação, foi logo passando pelo guichê. O trem não demorou. Ao entrar, foi se sentando. Com a cabeça apoiada no encosto, fechou os olhos. De novo ela antevia tudo: os detalhes mais irrisórios, a execução do ato, o tempo que levaria. Quando deu por si, já estava próximo o seu ponto de parada. A voz metálica anunciou seu destino.

   Desceu. Pegou a escada-rolante. Fora, ainda havia uma tênue luz solar. Na semi-escuridão, ela viu os letreiros. Instintivamente levou as mãos até a bolsa. Apressou-se. Esbarrou num homem. Ouviu um assobio.

   Chegando à marquise do prédio com aspecto decadente, foi logo subindo as escadas. As sombras a envolveram. Segurando no corrimão, subia. Chegara. Apartamento 19. Bateu na porta. Uma viva-alma no corredor. Alguém atendeu.

    Ela entrou. A porta se fechou. Um ruído seco, um estampido, mal foi ouvido do lado de fora. Gritos abafados. Choro. Palavrões.

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Notícia de jornal: A polícia ainda não tem resposta para o duplo assassinato ocorrido quase simultaneamente ontem. Duas mulheres de aparentemente 30 anos foram encontradas baleadas e mortas em diferentes regiões da cidade. Segundo investigadores, o que mais chama a atenção é a extrema semelhança entre as vítimas e a principal suspeita. Ainda não se sabe se elas se conheciam. Uma mulher “muito atraente”, também parecida com a segunda mulher morta, nas palavras de um transeunte, morador daquela região – um senhor que trabalha na Pastoral dos Bons Costumes e que prefere não ter seu nome identificado –, foi vista andando às pressas nas imediações do apartamento da segunda vítima. “Eu cheguei a esbarrar nela. Mas logo tomei meu rumo”. Na cena do crime, os policiais encontraram um bilhete escrito às pressas com os seguintes dizeres: “SEI QUE VOCÊS USURPARAM A MINHA VIDA”.  “Não temos certeza se elas se conheciam, as vitimas. Quanto à terceira mulher, muito parecida com as duas, é quem mais nos intriga. Segundo testemunhas, também foi vista mais de uma vez perto da residência das vítimas. Parece que se fazia passar por conselheira espiritual ou algo do tipo. O que teria feito com que ganhasse a confiança de ambas”, disse o delegado.

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Texto com o qual participei do concurso literário da revista “piauí” (com minúscula) e publicado no site daquela publicação em março deste ano. A frase em negrito, de autoria de Antonio Muñoz Molina, em Beatus Ille, foi o mote a partir do qual o texto tinha que se desenvolver.

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Que diria? Um blog em favor da vida! (Era só o que me faltava)

Volta e meia me divirto com as frases por causa das quais as pessoas vêm parar neste blog. Já teve gente que veio aqui para, segurem o riso aí!,  ”Aprender a viver”, “Como analizar (sic!) um conto Machado de Assis”, “Bergman Persona Filmes Parados”, “Como não ser enganado pelos cafajestes de nossos políticos”, “Conhaque com cocaína”, “O que diabos é capenga” e por aí vai. Só para ficar no que me mostra hoje o WordPress.

Uma fresquinha: “Como faço para sair dessa porra de vida“. Bem, se você quiser mesmo saber como sair dessa fantástica e magnífica experiência chamada “porra de vida”, chegou ao lugar errado! Pois se não vejamos: se você ler estes textos meia-boca religiosamente, logo, garanto!, você irá se deparar com o seguinte questionamento: “Que merda tem na cabeça um cara pra escrever coisas tão desgraçadas de ruins, tediosas e vazias? Eu aqui, querendo me matar, dar um fim em tudo, e outros vivendo num nível mais lamentável que o meu, desperdiçando o tempo, que é tão escasso! Como sou ingrato com você, Vida! Ah, EU QUERO CONTINUAR VIVO!

De onde se conclui que este é um blog, por vias tortas, em prol da vida, contra o suicídio, definitivamente incompatível com o “impulso de morte”.

Vinde todos aqueles que estão desesperançosos que este blog irá vos restituir a coragem para encarar os desafios do viver! Ah, a generosidade da vida…

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Louvar a grandeza da vida: nunca foi outra a razão de ser deste blog. Quer dizer, acho.

 

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Ao som de Thelonious Monk, Epistrophy

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A Mosca e o Presidente (Infelizmente, uma história verídica).

Baseado em notícia do UOL News: Obama mata mosca durante entrevista

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Naquele dia, comum como os outros, a Mosca saiu de casa e deixou suas mosquinhas vendo tevê: ia buscar algo para alimentar sua cria. O marido, esse ninguém sabia por onde andava com suas asas: diziam que fora visto com uma varejeira ainda menor de idade. Mas a Mosca, digna e lutadora que era, mesmo assim procurava bater suas asinhas: a vida não era fácil!

Era para ela se tornar a mais famosa das moscas que jamais houve. E de fato se tornou.  Só que sua fama fora menos rápida que as ágeis mãos do homem mais poderoso do planeta. Errando pelo vasto mundo humano, a Mosca fora parar justamente num estúdio de tevê onde estava o presidente com o qual ela sonhara por tanto tempo, chegando mesmo a pedir votos para ele no mundo dos insetos. Cruel e desalmado destino!: ao se aproximar, não sem se achar em um sonho, do seu tão estimado presidente, ela tentou, em vão, dizer algo (as moscas expressam suas ideias pelo bater das asas, linguagem totalmente inacessível aos humanos: sim, até o mais fotografado homem do mundo é humano) ao primeiro mandatário negro do país do jazz e eis que (ó, como nos dói relatar isso!), irritado, ele tentou, golpes atrás de golpes, acertar a pobre Mosca. Ela, atônita, ainda conseguiu se desviar deles mas eis que o derradeiro, aquele que abreviou seus dias na terra, chegou: imprensada por um par de gigantes mãos, asfixiada, a morte lhe chegou instantânea. Seu corpo despencou aos pés do presidente-assassino (sim, ele nunca poderá negar que jamais matou uma indefesa mosca: a imagem estará lá para a posteridade) que, com um sorriso insano de matador nada arrependido, vendo prazer e orgulho em seu gesto, ainda pediu para filmarem e exibir para o planeta aquela que só queria lhe fazer um agrado e também reivindicar, como representante deles, uma vida melhor e um futuro menos sombrio para todos os de sua espécie. Esse foi o triste fim de uma mosca de fama fugaz. Que seus momentos finais de vida sirvam como exemplo para meditarmos na transitoriedade de tudo. Eis a cena de uma tristeza atroz, pungente, desoladora. Se você for corajoso o suficiente, assista. Não é recomendável para pessoas facilmente impressionáveis.

Veja aqui.

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Cinema e filosofia….

Sou apaixonado por tal dobradinha. Estou lendo com prazer redobrado “Cinefilô”, do Ollivier Pourriol. Aliás, ele estará na FLIP, em julho. Pena que não estarei lá…

Quanta coisa bacana no livro! Descartes e Spinoza, quem diria, têm mais a ver com X-Men e Blade Runner do que supõe nossa indigente crítica cinematográfica…

Em breve faço um apanhado daquilo que mais me interessou, quer dizer, quase tudo.

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Deu pane no Twitter!

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Ao som de Charlie Parker, Parker’s Mood

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Nobody deserves it!

Tem gente que parece atrair certas coisas. Eu, por exemplo, tirando a superstição toda, sou um desses pobres diabos nos quais os acasos (ok, não existe acaso: o que há mesmo são probabilidades imprevistas, digamos assim) da vida vira e mexe pregam uma bela de uma peça. Entrando no meu msn antigo, o qual fazia milênios que eu não abria, encontrei alguém justamente que não gostaria de encontrar, não por odiar essa pessoa ou coisa parecida. Mas é alguém que tem lá sua vida, assim como eu tenho a minha. Vestígios de um passado, capisce? E a tal pessoa foi logo me dando um tchau e tascando alguns lugares-comuns de uma superficialidade beirando a hipocrisia, que lá fiquei eu com cara de tacho, sem poder esboçar nenhuma reação. Ou seja: ficou aquela impressão – que sempre me persegue! – de estar atrás de alguém! Gee! Eu mereço mesmo!

E eu jurava que havia excluído a pessoa há priscas eras…

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Elienai Araújo

e-mail: elienai.araujo@folha.com.br

LIVROS LIDOS OU RELIDOS EM 2009:

1- PERGUNTE A PLATÃO (Lou Marinoff) 2 -FABULÁRIO GERAL DO DELÍRIO COTIDIANO (Charles Bukowski) 3- GUIA ILUSTRADO FILOSOFIA (Stephen Law) 4- A EXPRESSÃO DAS EMOÇÕES NO HOMEM E NOS ANIMAIS (Charles Darwin) 5 - UM ANTROPÓLOGO EM MARTE (Oliver Sacks) 6- HUMANO, DEMASIADO HUMANO (Friedrich Nietzsche) 7- ADEUS, COLUMBUS (Philip Roth) 8- RICARDO III (W. Shakespeare) 9- COMO VENCER UM DEBATE SEM PRECISAR TER RAZÃO (Arthur Schopenhauer) 10- VIVER E ESCREVER VOL.1 (Org. Edla van Steen) 11- O LIVRO COMPLETO DA FILOSOFIA (James Mannion) 12- O LIVRO DA MITOLOGIA (Thomas Bulfinch) 13- O QUE SÓCRATES DIRIA A WOODY ALLEN- CINEMA E FILOSOFIA (Juan Antonio Rivera) 14- O DESESPERO HUMANO (Soren Kierkegaard) 15- MISTO-QUENTE (Charles Bukowski) 16- HOLLYWOOD (Charles Bukowski) 17- PARA QUE SERVE TUDO ISSO? (Julian Baggini) 18- FIRMIN (Sam Savage) 19- O BEIJO E OUTRAS HISTÓRIAS (Anton Tchekhov) 20- A VIDA SECRETA DOS GRANDES AUTORES (Robert Schnakenberg) 21- QUEM SOU EU? E, SE SOU, QUANTOS SOU? (Richard David Precht) 22- ENSAIO SOBRE A ANÁLISE FÍLMICA (Francis Vanoye e Anne Goliot-Lété) 23- O CAPITÃO SAIU PARA O ALMOÇO E OS MARINHEIROS TOMARAM CONTA DO NAVIO (Charles Bukowski) 24 - O CINEMA PENSA - UMA INTRODUÇÃO À FILOSOFIA ATRAVÉS DOS FILMES (Julio Cabrera) 25 - CONTOS FILOSÓFICOS DO MUNDO INTEIRO (Jean-Claude Carrière 26- OFICINA DE ESCRITORES (Stephen Koch) 27- NOVELAS NADA EXEMPLARES (Dalton Trevisan) 28 - BANQUETE COM OS DEUSES (LUIS FERNANDO VERISSIMO) 29 - CINEFILÔ (Ollivier Pourriol) 30 - A PESTE (Albert Camus) - 31 - A QUEDA (Albert Camus) 32 - CONTOS COMPLETOS DE VIRGINIA WOOLF -atualmente

FILMES ASSISTIDOS (OU REVISTOS) EM 2009:

1- O CONFORMISTA (Bernardo Bertolucci) 2- CRIMES D'ALMA (Michelangelo Antonioni) 3- O BANDIDO DA LUZ VERMELHA (Rogério Sganzerla) 4- ERASERHEAD (David Lynch) 5- VELUDO AZUL (David Lynch) 6- BANANAS (Woody Allen) 7- ANA E OS LOBOS (Carlos Saura) 8- MATCH POINT (Woody Allen) 9- CONTOS DE TÓQUIO (Yasujiro Ozu) 10- A ÚLTIMA SESSÃO DE CINEMA (Peter Bogdanovitc) 11- O FANTASMA DA LIBERDADE (Luis Buñuel) 12- AS AMIGAS (Michelangelo Antonioni) 13- O SACRIFÍCIO (Andrei Tarkovski) 14- IMPÉRIO DOS SONHOS (David Lynch) 15- TRISTANA (Luis Buñuel) 16- VIA LÁCTEA (Luis Buñuel) 17- CIDADE DOS SONHOS (David Lynch) 18- O INQUILINO (Roman Polanski) 19- CRÍA CUERVOS (Carlos Saura) 20- MOUCHETTE (Robert Bresson) 21- A ÚLTIMA GARGALHADA (F.W.Murnau) 22- DA VIDA DAS MARIONETES (Ingmar Bergman) 23- AS AFINIDADES ELETIVAS (Paolo e Vittorio Taviani) 24- A HORA DO LOBO (Ingmar Bergman) 25- O OVO DA SERPENTE (Ingmar Bergman) 26- 1984 (Michael Radford) 27- CONTOS DE CANTERBURY (P.P.Pasolini) 28- SÓCRATES (Roberto Rossellini) 29- WEEKEND À FRANCESA (Jean-Luc Godard) 30- CENAS DE UM CASAMENTO 1 (Ingmar Bergman) 31- EXÓTICA (ATOM EGOYAN) 32- FANNY & ALEXANDER (INGMAR BERGMAN)

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