Carta aberta a Ingmar Bergman.

    Caro Bergman,

    Sei que estás pairando por aí em algum lugar da tua querida ilha de Farö.

    Falemos, aqui, daquilo em que fostes um mestre: o cinema.

    Tu deves ter falado com o grande Michelangelo Antonioni, que partiu no mesmo dia que ti (dizem que vós combinaste e até jogaste uma longa partida de Xadrez), sobre a decadência do cinema que vós tão bem representastes: o cinema de autor, o cinema que nos faz pensar, que nos deslumbra e que é um estímulo ao nosso senso estético e intelectual. E por favor, manda saudações ao inesquecível Tarkovski, outro da tua turma de cineastas pensadores-filósofos-poetas.

    Sim, Ingmar, a situação do cinema que vós três fazíeis é deveras triste. Quase nenhum diretor da atualidade tem a intenção de perder os polpudos lucros das bilheterias. Sei, eu sei, caro Mestre, qual é a desculpa que eles constantemente dão: a de que o cinema é uma indústria e precisa de lucros, pois é isso que a move. Como coisa que no teu tempo o cinema era uma indústria beneficente…

    O que falta na cabeça destes autores de cinema e roteiristas? Será que não surgirão vossos seguidores? Isso é saudosismo? É falta de maturidade intelectual? É falta de senso de progresso quanto àquilo que o cinema representa hoje?

    Quando da morte física de ti e do Antonioni, críticos escreveram que vós fostes os últimos representantes de uma era, pode uma coisa dessas?

    Como se ver o cinema não só como uma indústria mas como uma arte que busca atingir o universal, ainda que girando em torno de temas locais, fosse uma ideia datada, algo pertencente a uma outra era distante da nossa.

    Caro Ingmar, já assisti praticamente a todos os teus filmes e aos do Antonioni e todos os do Tarkovski. Não quero nem nunca quis ser especialista em vossa obra ou de quem quer que seja. Mas o fascínio que o cinema dos senhores exerce sobre mim só me faz cada dia louvar e divulgar mais e mais o fruto de vosso labor artístico: vossos filmes (que estou sempre revendo, em vez de ir assistir, salvo raras exceções, aos filmes da atualidade que estão em cartaz), tão diferentes, sim, mas unidos que são no propósito de nos enlevar, edificar (não no sentido, perdoa-me pela vulgaridade da palavra, “careta”) e nos trazer questionamentos de nossa própria condição humana. Bergman, Antonioni, Tarkovski e, agora, um diretor que também estou descobrindo: Valerio Zurlini. Eis a tropa de choque dos cineastas-pensadores.

     Espero que vossos seguidores ganhem voz e consigam furar esse e$quema que cria em série arremedos de cinema que enchem as bilheterias e que enganam milhões ao redor do mundo ao fazê-los crer que estão consumindo cultura, quando na verdade são apenas correias de transmissão do pensamento padronizado, uniformizado, fútil e imbecilizante.

     Descansa na tua paradisíaca Farö, Ingmar Bergman. E não te esqueçe de nós.

     De um agnóstico, como tu.

5 coisas para as quais estou sem o menor saco.

1- De falar. Sim, quanto menos puder falar, melhor. Falar tem me cansado demasiadamente. Não que eu tenha algum dia sido um tagarela. Mas ultimamente, emitir palavras pela via oral, falar, gastar saliva, tem me cansado mortalmente. Cansei da minha própria voz, pode uma coisa dessas? Também estou sem paciência para gente que só fala, fala, fala, sobretudo sobre assuntos que não “acrescentam” nada. Mas, vejam bem, não é apenas uma preguiça física. A coisa é mais profunda, digamos. É como se tudo que realmente importante para ser dito já tivesse sido. Como se perder tempo falando, sobretudo de amenidades, fosse um crime. Não me convidem para um bate-papo num barzinho ou outro lugar propício para isso. Se eu quiser algo aprofundado terei que buscar outras fontes. Sei, sei: estou virando um misantropo total, eu que antes era tão paciente para com os outros agora vivo bocejando imaginariamente ao ter que fingir que estou prestando atenção no que me dizem. Tudo me tem cansado quando o assunto são as convenções sociais.

2- De conhecer pessoas. De ter que bancar o sociável. De ter que sempre ter um sorriso no rosto. De fingir que sou um cara legal, boa gente, entre outras baboseiras. Não sou legal coisa nenhuma! Sou mal-humorado, muito mais ultimamente. Não levem a sério esta cara de boa gente, de “bonzinho” que infelizmente eu tenho. Possuo um monte de defeitos. E como criancinhas na sopa, ok?

3- De gente superficial que só abre a boca para falar platitudes. Daquela gente sem o mínimo de interesse pelas coisas que vão além das superfícies. Por gente que só se expressa por meio de chavões, ou que, quando o assunto é arte, por exemplo, tem preguiça mental para ir além do óbvio, do “feijão com arroz”, do trivial. Sei também que isso será considerado intolerante da minha parte, ou esnobe, ou preconceituoso. Mas quem disse que prego a extinção desse tipo de gente? Que apenas fiquem bem longe de mim, só isso; fiquem frios que não haverá derramamento de sangue nem ranger de dentes…

4- De tanta mediocridade.

5- De gente achando que o CQC é um programa inteligente, de humor refinado… Poupem-me!

Pequena (ou grande?) história (Conto? Estória? Parábola?) de um homem notável (ou lamentável?)

   Ele não tinha amigos porque, ou eles seriam bons e deixariam de criticá-lo quando necessário, sendo que a bondade deles não veria nem mesmo um bom motivo numa crítica, principalmente construtiva, ou eles lhe dariam sempre motivos para que ele os criticasse, uma vez que tudo que eles fizessem, sendo maus, seria reprovável por parte dele.

   Não tinha namorada pelo simples motivo de que, se ela fosse por demais boazinha, ela o seria com todos. Quem diabos gostaria de ter uma namorada que fosse sempre bondosa para com todos, sobretudo nesses tempos de infidelidade? Fosse ela má, como poderia ele ter sossego se alguém tão próximo dele, tão íntimo dele, estivesse sempre a lhe querer o pior?

   Não estudava mais visto que de que adianta estudar se o mal e o bem, desses dois incansáveis inimigos, estão a todo o momento a disputar a alma humana? Do que adianta o conhecimento em um mundo onde os seres são meras marionetes de forças arquetípicas e avassaladoras?

   Não queria mais viver porque, se quisesse a vida, a morte seria sempre uma desmancha-prazeres a lhe lembrar que a finitude humana é o que nos resta; tampouco queria a morte porque, para desejá-la com toda intensidade, é necessário que a vida seja negada e, para negar a vida, pensava ele, é preciso primeiro vivê-la intensamente.

   Assim estava nosso maniqueísta radical. Nosso mestre dos paradoxos. O rei do relativismo. Ainda que anônimo.

   Ele que, por pensar demais, em tudo via o oposto de tudo. Que relativizava tudo que houvesse. Que vivia com suas aporias, seus immpassess lógicos, seus dilemas metafísicos, suas simplificações e paradoxos sem fim.

   Um dia, ele foi morto num cruzamento ao ficar pensando se o verde e por fim o vermelho – “Olha o sinal, cara!” – que ele via eram o mesmo verde e o mesmo vermelho – “Cuidado!” “Ah, pegou” – que outros viam. E lá se foi nosso herói do relativismo e do maniqueísmo.

   Talvez ele esteja agora no céu. Ou no inferno. Um dia saberemos. Ou não.

   Aqui termina essa triste história. Ou ela terminou desde o momento em que começou? Sabe-se lá. Ou não.

Efemérides didáticas ou o que eu fazia quando o Muro de Berlim caiu…

Essas efemérides…

E não é que  hoje faz exatos 20 anos (!!!) do colapso do Muro de Berlim e de tudo que ele representou?

É curioso e altamente didático poder ver com outros olhos acontecimentos que mexeram com a configuração política do mundo e que, na época, éramos ou jovens ou desinteressados demais por tais assuntos.

Lembro vagamente daquele 9 de novembro de 1989. Enquanto na televisão, rádio, jornais e imprensa em geral não se falava em outra coisa, este pobre datilógrafo que ensina também a conjugar o verbo TO BE estava mais interessado – apesar de sua então (mais acentuada) timidez – em correr atrás de algumas saias, ou na tresloucada procura de si mesmo típica da adolescência. Leia-se: baladas, amizades perigosas e rebeldia sem causa. Alguma coisa me vem daqueles dias que seguiram à derrocada do Muro: as imagens daqueles europeus, muitos extremamente jovens, com picaretas colocando abaixo aquele marco da divisão (imbecil) humana. Eu era tão avoado naqueles idos dos anos 80 que não entendia muito o porquê de um muro (“Ora, um muro, pô, meu!”) ter tanta importância a ponto de ser a atenção do planeta todo.

Bem, os anos se passaram e com eles eis que deixei de lado as minhas preocupações provincianas e criei uma maior consciência e interesse pelo mundo em que habito, e com eles, meus horizontes se ampliaram. E muito. Não tanto quanto eu gostaria, mas o suficiente a ponto de eu mal me ver naquele garoto de vinte anos atrás.

A queda do Muro de Berlim foi um motivo de alívio para o mundo, como se sabe. Afinal, ali ficavam as ilusões de um mundo planificado, autoritário e que negava ao homem o desabrochar de suas capacidades empreendedoras e outras não menos relevantes.

E é ótimo poder aprender sobre o mundo e suas complexidades, o ser humano e suas façanhas, tanto as dignas de aplauso quanto as que merecem nossa eterna desaprovação. Até para que não se cometam tantas asneiras que fizemos, fazemos e, queiramos ou não, ainda faremos neste planeta hoje tão interligado, tão desafiador e hostil.

Com essas efemérides, podemos lançar um olhar naquilo que fomos e naquilo que nos transformamos com vistas ao que poderemos ser.

O porquê deste blogue.

Este blogue é besta como seu dono. Como ele, é ciclotímico. Obedece aos movimentos da maré, às fases da lua e, last but not least (só pra manter a picaretagem, in ingrish, you know), à química cerebral do autor.

Aqui se tem de tudo. Tem “crítica” (pobre André Bazin, deve estar sambando na tumba) de cinema, tem baboseiras mil, tem pieguices, tem assassinatos literários, pra não ter que usar palavras de baixo calão, caro leitor, mimosa leitora. Este blogue é inútil. Ele só existe por pura birra, por teimosia, por obsessão, ok, vocês entenderam…

Enfim, recomendo: pare de tentar entender qualé a deste espaço virtual, perdido neste mar cibernético. Jamais tente compreender o cérebro por trás dele, se é que há um cérebro funcional por aqui. Este blogue é incoerente, bi (tri, hexa, multi) polar, pernóstico, pedante, lastimável.

Clique no X no canto superior direito da sua tela, caro (caríssima) internauta. Poupe seu tempo, não estrague sua vida assim, aqui, no meio destas palavras dementes.

E o pior é que este blogue (atenção, Academia Brasileira de Letras, veja só, já está se aqui usando a forma aportuguesada da palavra blog, vocês repararam, não? Não???) já vai fazer 4 anos. Isso mesmo! Serão daqui a 3 (três) meses, 48 meses (que construção digna de um Machado!) de pura demonstração de inabilidade literária, de puro amadorismo, de puro diletantismo! Até do cinema de um Tarkovski e de um Bergman já se cometeu a heresia de se escrever por aqui… Realmente, o ego do blogueiro não tem limites… Aproveitando que quem escreve, justiça seja feita, é um ghost-writer, pode-se aqui falar (mal) do dono do (que cacófato ma-ra-vi-lho-so!) blog, ooops, BLOGUE pois, além de analfabeto funcional, ele mal lê gibis e, portanto, não lerá estes comentários…

Paremos por aqui. Acho que já dei o recado, não? Este blogue é ruim de doer. E parece que irá, contra todas as previsões e maldições e prognósticos, durar pela eternidade dos séculos sem fim amém.

Atenciosamente,

Elienai Araújo, ghost-writer.

Não se faz aniversário como antigamente (Dedicado aos “soi disant” misantropos. Ou àqueles nem tanto).

Foi-se o tempo em que fazer anos era uma coisa assim marcante.

Antes, o aniversariante podia, se não totalmente se isolar do mundo, ao menos ter a certeza de que não ligaria um aparelho chamado computador por meio do qual gente distante, próxima – ou nem uma coisa nem outra – iria lhe enviar “Parabéns pra Você” em formas de cartões eletrônicos com luzinhas piscando e musiquinhas de gosto duvidoso, e-mails, mensagens escritas (“oh, céus!”) ao seu telefone, que era, então, vejam só, ágrafo.

Os tempos mudaram e, na esteira deles, um monte de coisas . Por exemplo, a possibilidade de viver o “seu dia” de forma discreta. Aquele dia em que você, alguns (ou muitos e muitos) anos atrás, havia nascido. Claro, havia o perigo da “ovada” e outras zoações. Mas nada que se compare com a zoeira eletrônica (e-mails, torpedos de celular, Skype, MSN, Orkut, Facebook, Twitter etc) que temos hoje em dia. E o pior: vindo de pessoas que não são necessariamente seu amigos, ou parentes, ou seja lá quem for que você considere alguém realmente que está sendo sincero ao lhe desejar um “Feliz Aniversário”, um “Te desejo tudo de bom” e tal.

Antes, nos idos do século passado, digo eu, do milênio passado, era restrito o círculo daqueles que você realmente considerava (e que de fato tinham você em alta conta, a ponto de ir pessoalmente lhe dar um abraço, ou lhe telefonar expressando algo genuinamente caloroso) e que se lembravam de você. Hoje, a maioria lhe deseja um “Feliz Aniversário” assim como se cumprimenta na rua alguém que conhecemos só superficialmente: não há calor humano, não há sinceridade alguma na coisa.

E, tão importante quanto, você tinha, se não todas, mas a maior parte das horas do seu dia sem se distrair grudado na tela de um computador verificando quem “se lembrou” de você. Uma lembrança postiça: no Orkut, por exemplo, é um tal de frases feitas e lugares-comuns de pessoas que só estão lhe enviando aquelas pérolas de puro fingimento só porque o site as avisa que você é o aniversariante da vez.

Com menos distrações vindas de fora, você podia realmente se esbaldar com aquelas interiores: era a chance para fazer um balanço, para revisitar outros aniversários, outras épocas, lembrar-se de rostos do passado, fantasmas, como queiram, ou apenas fazer aquelas comparações (nós humanos não resistimos a elas, não tem jeito): como se era numa época anterior, como se é agora; o que foi feito daqueles projetos, sonhos e desejos passados; o que em você mudou, o que permanece, entre outras operações mentais e de fundo emotivo ou nem tanto que só num dia que nos representa tão bem – afinal nascemos naquele dia, há alguns (ou muitos e muitos, frisemos) anos – pode nos proporcionar de forma mais acentuada.

Com a balbúrdia da vida atual, quando não se tem mais o prazer de passar uma data tão especial – ao menos simbolicamente, claro está – a sós, perdeu-se aquela experiência de ineditismo, de algo especial. Quando se perde o foco no próprio “eu”, o ser humano perde a dimensão de si próprio. Quando se vulgariza algo que não deveria ser vulgarizado, lá se foi a graça da coisa.

A tempo: meu aniversário foi no dia 12 passado. Como se sabe, é feriado nacional. Assim, ao menos no meu dia, como de costume, posso amenizar um pouco a cacofonia de muitas “vozes” (sendo feriado, restringem-se as chances de se encontrar muita gente não nessariamente “bem-vinda”) que me desejam algo que não é sincero. E, de quebra, tenho a chance de passar um dia (ou grande parte dele) a sós comigo mesmo.

Não se faz mais aniversário como antigamente, reconheçamos.
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Ao som de Madeleine Peyroux, “Instead”.


A marcha.

    Perdido, o Homem marcha. Continua sua longa caminhada às mais longínquas e inóspitas regiões. A ele, só resta andar ao léu. De vez em quando, ao lançar olhares para trás, é com um sentimento estranho que revê caminhos já trilhados. Voltando à paisagem que ele tem ao seu redor, descortina supostos novos acidentes geográficos, plantas supostamente nunca vistas, pedras talvez exóticas, riachos e rios e mares porventura jamais conhecidos.

    E, apesar de toda “mudança”, tudo o entedia. Nunca mais aqueles deslumbres de outrora, adeus àquelas sensações de que tudo é verdadeiramente novo.

    O cético e desiludido Viajante, que se dá conta de que há, volta e meia, circunstanciais companheiros a seguir seu rumo, como ele, pode intuir agora a existência de um fio condutor, uma linha imaginária a passar por toda aquela extensão. Ele não sabe exatamente o que é, qual a natureza ou o que representa aquilo. Ele só segue.

    E segue com a certeza de que algo muito superior a ele, não um deus, mas a ineroxabilidade da Natureza, faz com que a todos só reste a certeza de que tudo é efêmero. De que tudo já é conhecido. De que nada novo há naquela trilha. Assim foi. Assim será.

    O Viajante segue. A sumir de vista. Até o fim dos tempos. Até o fim do seu tempo.

Ode à vingança, segundo Quentin Tarantino.

O roteiro notável, próximo da perfeição, de “Bastardos Inglórios” consumiu de Tarantino dez anos. E valeu pela espera. Tudo bem arramado, os quatro capítulos iniciais convergindo para o quinto, o ápice, o desfecho surpreendente.  
Brad Pitt com seu personagem com sotaque do Tennessee está já naquela antologia das grandes atuações do cinema. Só que seu antagonista, o ator alemão Christoph Waltz, com seu personagem Caçador de Judeus, consegue a proeza de se fixar de forma mais perene no inconsciente do espectador do que o astro americano. E isso não é nenhum demérito para Pitt, pois o desempenho do ator da terra de Hitler é simplesmente sensacional: nada estereotipado e cheio de nuances que em certos momentos, efêmeros, na verdade, faz com que o espectador nutra por ele uma certa simpatia. Falando no Führer, não podia faltar na imaginação deliciosamente delirante de Tarantino, esse que entrou para o inconsciente coletivo como a encarnação do mal supremo: o líder nazista, numa liberdade poética, digamos, do diretor, e que tem sua aparição e seus trejeitos imitados à perfeição, tem um destino cruel nas mãos do diretor americano. A cena na qual Hitler é metralhado (isso, Quentin, realiza nosso desejo de vingança!) pelos capangas do personagem de Pitt está entre aquelas reinvenções mais geniais que já presenciei. Nosso desejo, nesse momento, ao ver o líder nazi ser metralhado num cinema lotado numa Paris ocupada, é a sensação suprema que o cinema nos proporciona: a liberdade de criar um mundo de ilusão, de fantasia, que só para alguns parece incompreensível ou, o que é pior, um erro factual.

A próposito, havia um casal de idosos ao meu lado. Ao final, o senhor disse, parece que todo orgulhoso, algo como "Não era Hitler, era um sósia!"…

Fazendo parênteses. Acho que o apego excessivo aos fatos é uma coisa que impede muito a fruição de um filme, de um livro, da arte, de forma geral. Acho que aquele senhor esperava um tipo de filme mais para documentário do que para a obra de um diretor polêmico, irrequieto, irreverente e inventivo como é o diretor de Pulp Fiction e Cães de Aluguel. Pobre senhor (que pouco antes da exibição falava frases em inglês para a mulher, provavelmente sua esposa. Ela, por sua vez, passou toda a aparição dos créditos repetindo os nomes!!!), alguém deveria ter lhe ensinado alguma coisa sobre Tarantino…

 

A violência está lá, tarantinamente inimitável. Estilização da crueldade e brutalidade humanas, para alguns. Para outros, o talento inegável para captar aquela brutalidade toda e filtrá-la de uma forma que só o cinema consegue fazer. Trilha sonora de filme de Tarantino é um lugar-comum elogiar. Sua intuição absurda para casar imagem e som, cena e música, o fato narrado com uma roupagem sonora que em tudo combina, é coisa de gênio: algo que parece tão "no ponto", tão bem dosado, que a gente chega a se espantar se alguém tirasse dali alguns daqueles elementos!

A sequência inicial de tirar o fôlego; as cenas nas quais em questão de minutos vamos do sublime ao horripilante, como a cena da cabine de projeção, durante a qual a personagem proprietária do cinema mata um nazista e (sentimos perfeitamente) sua consciência a acusando: por fim ela demonstra um resquício de comiseração por aquele moribundo que emite um sussurro de quem está nas últimas. Ao se aproximar dele, ela é alvejada mortalmente… Tudo isso em slow motion e com a trilha que parece que estava lá desde a invenção da trilha sonora no cinema!

A cena final é de uma ironia bem de Tarantino. Ele nunca é convencional, mesmo quando parece estar sendo.

Outro dado interessante é a usina de citações cinematográficas que Tarantino conseguiu encaixar no roteiro. Foram tantas as pistas que esse diretor fissurado por cinema nos deixa esparramadas pelo longa…

Um filme de guerra que já foi feito sob o signo da universalidade. Universalidade só acentuada pelo tema que perpassa todo o filme: o da vingança. Segundo o próprio Tarantino tão bem acabou de dizer numa entrevista: o que nos move, mais do que o amor, é a sede de vingança. Seja ela sob a forma impactante de um escalpe, seja mais "amena", sob a forma de um desejo de superação para suplantar, por exemplo, uma grande humilhação.

Além de tudo, Tarantino é filósofo!

Imperdível!

Só espero que você que lê este texto e que ainda não tenha visto esse filme seja mais sortudo do que este pobre mortal e tenha como vizinho de cadeira no cinema senão um André Bazin, ao menos alguém que saiba captar as ironias e a liberdade criativa de um dos grandes diretores da atualidade. Ou, melhor ainda, fique calado durante a sessão.

O blogueiro está vivo com seus moinhos de vento…

Aos três ou quatro leitores deste blog:

O autor lhes acena um “olá” meio sem graça, assim como a pessoa dele. E lhes diz que está deveras “encalacrado” com questões “metafísicas”: tudo isso é eufemismo para “envolvimento num grau profundo com a vida”. Em português decente, de gente: ele, o (ir)responsável por este AUTOCONSTRUCTO, anda bem ocupado. Fazendo o quê? Ora, vivendo, já não é uma grande e hercúlea tarefa?

Vamos indo! Cada um com seus moinhos de vento.

Até qualquer dia…

 

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Ao som de Johann Sebastian Bach, Concerto de Brandemburgo nº5, em ré maior, índice BWV 1050, allegro,

Confessionário (Solilóquios nada edificantes – 3)

A gente vai se conhecendo à medida que vive, seu repórter.

Juro que não queria mandá-lo para a puta que pariu. Juro que não tinha intenção de mandá-lo se foder. Até que eu tinha em mente fazer aquele vigarista endireitar na vida, ou ao menos tentar, ainda que isso seja arrogância das grossas: querer fazer alguém mudar seu jeito, sua maneira de ser. Que tosca que eu sou!

Mas pra resumir: ele foi me buscar na faculdade aquele dia. Atrasado. Como sempre, depois de meses de transa, saídas, viagens, muita curtição, carreiras e mais carreiras, baseados e mais baseados. Depois de um certo tempo os homens se tornam tão hostis para nós, as mulheres que caímos na besteira de querer discutir a porra da discussão! Eles vêm, se empaturram da gente, fazem o que bem querem e um belo de um dia começam a ficar apáticos, com cara de bundões, cocozinhos ambulantes, um bando de putos!

Mas aquele dia aquele desgraçado foi me pegar na faculdade. Só fiquei lá eu, no banco do pátio, olhando os olhares nada sutis do vigilante que, volta e meia, me perguntava se tava tudo bem. Tava sim! Se tava! Até que, já não aguentando mais ser comida com aqueles olhos pastosos e nojentos, eis que chegou o pulha.

Entrei no carro, mal nos cumprimentamos. Fui logo o mandando para a casa do caralho. Ele mal me ouvia. Dirigia e de vez em quando passava as mãos nos cabelos, fazia aquela carinha de fresco dele pensando que me assustaria com aquela demonstração de filhinho mimado levemente contrariado. Foi quando tive a ideia: eu o mandei entrar numa espécie de floresta que tem ali nos arredores. Ele não entendeu, o pacóvio; deixei claro que era um dos meus caprichos de pura libido. Fingi que era o que ele pensava. E eu já não pensava nas consequências: só o mandava ir reto, quanto mais isolado e mais escuro, melhor. Só as estrelas nos iluminavam. Foi quando o carro parou. E eu pedi pra ele pegar meu celular que tinha caído aos pés dele. Ele me obedeceu. E então, reunindo todo meu ódio represado e a força por ele gerada, descarreguei o pequeno extintor em sua nuca, uma, duas, três, várias e várias vezes. Ele apenas soltou um gemido, logo abafado pelos meus gritos, que aumentavam de intensidade em mistura com uma risada histérica que a muito custo pude acreditar que vinha de mim. Ele tombou de vez. Ergui sua cabeça. A encostei no banco. Ele ficou idiotamente com aquela cara limpinha parada: não pensei duas vezes e mais uma vez, numa pontaria que até agora me deixa orgulhosa, acertei sua testa com um violento golpe. Ele soltou cuspe pela boca subitamente aberta. Abri a porta. Dei a volta. Abri a outra, pela qual seu corpo caiu. Arrastei-o até a frente do carro. Mirei certinho: dei partida e passei devagarzinho: ouvi um estalo que nunca ouvi na vida. Olhei pelo retrovisor. Deixei o carro ali. Peguei minha bolsa.

Fui pela estradinha que conheço tão bem. Cheguei à rodovia. Uma mulher num Corsa me ofereceu carona. Entrei. Disse a ela que meu namorado havia morrido, que havia sido brutalmente assassinado. Ela quis contactar a polícia. Eu disse que não precisava. Agradeci pela carona. Desci. Fui a pé até em casa.

Morando sozinha, não se tem tantas preocupações. No outro dia, a polícia veio me buscar: tudo havia sido descoberto. Condenada, fui uma péssima presa. Tanto que matei outra por estrangulamento porque um dia ela me chamou de mimadinha burguesa. E aqui estou eu, um dia uma promissora psicóloga, eu, que sempre me autoconheci tão bem.

Que não me venham mais com essa balela de natureza humana, algo imutável. A gente vai se conhecendo à medida que vive. Não ando pra brincadeiras, pois agora sei do que sou capaz. Se sei!

Enfim me conheço, seu repórter.

Um Dell ou um Sony Vaio? (E outras amenidades nulas).

Um Dell ou um Sony Vaio?

 É…, minhas indagações, aspirações e dilemas costumavam ser mais metafísicos.

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Sim, registrou-se o recorde de hibernação de blogs! O prêmio vai para este mesmo. Foram incríveis cinco dias de sono reparador…

Para quem não entendeu bulhufas: cinco dias atrás, deixei aqui um post (já devidamente apagado) no qual eu dizia que este blog passaria por um período de “hibernação”, eufemismo pra dizer que não saberia quando voltaria a escrever por aqui. Pois bem. Cinco dias se passaram e o tal do sono reparador etc e tal… Sacaram? É ou não é caso raríssimo de hibernação-relâmpago?

Ou de instabilidade mental, ouço algumas más línguas dizendo…

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Minha amiga e colega Marcela Barzola, conterrânea de Borges e (gosh!) Maradona, me emprestou ontem os Cuentos Completos de Julio Cortázar, volume 1. Bem, vou reler agora, depois de tanto tempo, os contos Las Babas del Diablo (no qual se baseou Michelangelo Antonioni para escrever o roteiro do genial Blow Up) e El Perseguidor, baseado na figura do “Bird“: Charlie Parker. Ah, o conhecimento… Travar contato com pessoas com interesses e gostos parecidos com o nosso só nos faz bem…

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Deletei minha conta do Twitter. Acabou asssim minha participação no admirável mundo moderno. Agora já posso voltar para minha caverna, digo, a este meu blog…

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Logo mais, o glorioso Tricolor do Morumbi vai pegar o Palmeiras. Agora, no momento em que escrevo, às 9h45 da matina deste domingo ensolarado (enfim começo, acho eu, a sair da ruindade da gripe, não a suína), tenho um palpite: vai ser um jogo duríssimo, uma batalha, mas o São Paulo ganha. Arrisco tudo, pronto.

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Ao som da banda de Count Basie, Now’s the time.

Sísifo liberto.

Ele só ia até onde lhe haviam permitido. Só via e ouvia e escutava e sentia e compreendia e vivenciava e experimentava e aprendia e apreendia e provava daquilo que estava ao alcance de sua limitada e exígua e estreita e viciada visão de mundo. Nuances, matizes? Ele não os conhecia. Gradações, relativismos de qualquer ordem? Nunca neles ouvira falar! Era-lhe possível ir só até aonde alguém como ele, vindo de onde vinha, era permitido ir. Não mais. Nada de ousadias. Nada de desejos de transcendência. Nem tampouco demonstrações de bravura. Nada. Limite riscado a giz, ai dele se dali escapasse; pobre dele se esboçasse mesmo qualquer intenção, mínima que fosse, de ir além do que a ele estava reservado desde que o mundo é mundo; desde que seu destino fora traçado por um ser magnânimo o suficiente a ponto de lhe conceder aquela “parte que lhe cabia naquele latifúndio”: o espaço no qual devia ele viver.

Um dia, cansado da mesma visão, da repetição ad nauseam de reações, de cadeias de ideias, eis que ele, o circunscrito, o limitado, amanhecera com a tresloucada intenção de mandar às favas todas as recomendações, todas as ameaças divinas, as terrenas e as de todos os tipos. Não se vendo como um bravo, mas tampouco como um resignado, lá foi ele, Sísifo liberto, primeiro com um leve palpitar no coração, depois com a convicção, em seguida a firmeza dos que arrostam monstros imaginários,  rumo ao desconhecido. Conseguira passar o até então intransponível. Dali para a frente ele seguiria reto, sem receios, sem algemas mentais, sem apreensões pelo futuro incerto.

Até hoje, quando dele se pergunta, aqueles que ali ficaram só apontam para o horizonte. Em seus olhares, a inveja mastigada. Dele, só isso que restou nos outros.

Dos outros, nele, o que houve foi somente comiseração. Nem isso, talvez.

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Ao som de Chet Baker, I fall in love too easily.

Confessionário (Solilóquios nada edificantes) – 2

É pra eu falar o que me vier à cabeça a partir da sua pergunta? Como se eu tivesse me confessando? Ok: vamos ver o que vai dar. A primeira vez que odiei alguém? Nossa… Agora você me pegou. Olha, seu repórter, faz tempo! Tipo assim: quando eu tento puxar pela memória mais antiga, entende?, eu já me vejo querendo o mal para alguém. Sério. Não se espante. Quando eu era só uma garotinha mimada eu já era exímia na arte de guardar rancor, de torcer para que os outros se dessem mal, coisas do tipo. Acho que sempre tive no sangue um ódio descomunal. Devo ter nascido sob o signo de algum mau espírito, entende?

Tinha uma japonesinha na minha sala da primeira série que era a mais paparicada, a mais fresquinha de todas as meninas. Não que eu não fosse paparicada em casa, entende? Mas, saindo da barra da minha mãe, no mundão mesmo, eu não me conformava em ser tratada como todo mundo. Eu queria porque queria que o ambiente aqui fora fosse uma extensão daquilo que eu tinha de sobra no meu lar. Se fui filha única? Fui sim. Mas você cortou o que eu ia dizendo… Ah, sim! Eu, ainda que criança de tudo, não aguentava aquela coisa de ser vista como normal, eu, a queridinha!, eu, o centro das atenções da família, eu, que com dez ou doze anos já era bolinada por tios, principalmente meu tio mais velho, que, fingindo me dar carinho, me colocava no colo e ficava passando a barba na minha nuca. Eu não entendia direito mas achava que aquilo era mais uma demonstração da minha especialidade, essas merdas todas. Claro que depois odiei todos, familiares ou não. Todos eram vítimas do meu rancor calado, meu ódio engolido com lágrimas e fel. Eu queria que todos morressem! Ah, se queria. Eu odeio tudo que me faça me sentir desconfortável. Estou odiando essa entrevista. Odeio os médicos que me tratam aqui. Odeio esses corredores escuros. Não suporto dormir com outra paciente, ainda bem que  me reservaram um quarto separado. Porque eu não sei do que seria capaz de fazer se eu visse alguma outra pilantra aqui neste espaço que é só meu, eu, que tenho que ser o centro de tudo, entende? Já vai indo então? Mas, moço, apesar de tudo, e pensando bem, na boa: eu não odiei você por vir me entrevistar aqui não. Afinal, quem é entrevistado é que está em evidência, não é? O senhor quer um pedaço de bolo que me mandaram de casa? Toma, pegue, é uma delícia. Mais gostoso, só ódio. Vai por mim.

Confessionário (Solilóquios nada edificantes) – 1

Me sinto impossibilitado de seguir. Meus pés pesam. Meus membros se encolhem. Minha cabeça ferve. No meu cérebro, o centro da tomada de decisões se tornou estéril, sem vida, engrenagem fantasmagórica, coberta por teias de aranha. E sinto esses terríveis aracnídeos com suas patas de veludo a passearem pelo meu crânio! Para onde olho vejo só coisas mortas, ausência de pulsão de vida, ecos distantes de gritos de moribundos. Tanatos me acompanha, eu sei, por isso vejo mortos-vivos. Vejo atos sem explicação onde outros veriam risos. Vejo o medo por toda a parte. Vejo minha persona submergir num oceano de ameaças escondidas, traiçoeiras. Tento a última saída: quem sabe um urro, um urro vindo das profundezas de mim mesmo, quem sabe isso me chacoalhe, me desperte? Pois só posso estar sonhando, isso só pode ser um pesadelo de uma noite mal-dormida, a agonia de uma consciência atribulada, os espasmos da culpa, do arrependimento, algo assim. Mas é em vão: nada que eu faça me tira dessa imobilidade, desse mergulho na matéria mais viscosa do meu ser em putrefação, da minha morte adiada, que agora enfim chega. Tratarei de me resignar. O fim seria a redenção. O esquecimento eterno. A decomposição de átomos que uma vez concentraram meus sonhos, minhas quimeras, meus receios e tudo aquilo que um dia formou o meu eu que agora se desfragmenta, estilhaça, definha e some.

Sob a inspiração (e as bençãos pagãs) de um mestre.

Sempre que tenho um tempo, abro ao acaso o livreto Sem Trama e Sem Final (Editora Martins Fontes), de um dos meus ídolos, Anton Tchékhov, e me deparo com trechos de sua farta correspondência. Neles, há conselhos para aspirantes a escritores. Ele escrevia de forma tão compromissada com sua própria visão, com suas convicções, que só nos causa espanto o quanto esse autor, vivesse hoje, seria tachado de tudo, menos de íntegro. Nossa era voltada às superficialidades e desprezo total por tudo que seja um maior esforço mental é refratária a caras como ele.

 O trecho de carta que acabo de (re)ler diz algo que tem muitíssimo a ver com o “espírito” deste blog e também deste que vos escreve. No capítulo O QUE E COMO ESCREVER, Tchékhov nos ensina:

“Escreva sobre temas variados, ridículos e lacrimogêneos, bons e maus. Mande contos, cenas, anedotas, chistes, trocadilhos etc. etc”.

 

Sob o resguardo e as bençãos de um Tchékhov, amém.

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Ao som de Ella Fitzgerald, Lullaby of Birdland

(Ar)risque (Estreando a série: “Essa merda é autoajuda ou o quê afinal?”).

Risque. Risque tudo que for inútil. Risque o vivido de forma supérflua. Os pontos mortos, que são muitos. As planícies, que quase predominam. Risque as asneiras. Bem como as toupeirices. As bolas fora. Vai riscando: siga em frente. Risque as escolhas mal-feitas. As tagarelices. Os momentos de impulsividade. As canalhices minúsculas. Sobretudo as gigantescas. Risque o que tanto se quis. O que ainda tanto se quer mas que você sabe que não tem a mais remota chance de vir a acontecer. Risque amigos falsos. Formalidades estéreis. Tralhas feitas de hábitos vencidos, ações repetidas e que já não rendem mais nada, a não ser a camisa-de-força da rotina. Risque, continue riscando. Deletando. Apagando. Desvencilhe-se de tranqueiras. As materiais e sobretudo as psíquicas. Faça com que as últimas percam a ressonância que atualmente elas têm. Risque os riscos infrutíferos, a impossibilidade da transcendência de todos os limites, a paralisante falta de ousadia, os temores insistentes e que só existem na escuridão e no recôndito da noite. Risque tudo que pode ser um peso. Risque tudo que impossibilita o susto, o espanto, do qual nascem as mudanças de rota. E quando a paisagem estiver debastada dos excessos, quando tudo que a vista descortinar for uma clareira infindável, é hora de você seguir em frente.

A um passo de Hollywood, do Oscar, de Cannes, da Lua, de Mercúrio, do Sol…

Acabou o suspense: este blogueiro bissexto e mais sete outros malucos de várias partes do país vamos ter a honra, em setembro, de participar da oficina de roteiro da Rede Globo. Claro, o título aí em cima é uma grande brincadeira, fruto da alegria pela qual passa o autor destas mal-traçadas. No final do ano passado, participei, juntamente com alguns outros aspirantes a roteiristas, de uma oficina com alguns autores, entre os quais havia alguns “olheiros” da emissora global. Na ocasião, nos foram dadas informações gerais sobre a feitura de um roteiro de cinema e sobretudo de programas e esquetes de televisão. Cada um de nós ficou de desenvolver uma sinopse, coisa simples, de um roteiro, poderia ser até mesmo o de um curta.  Confesso que já tinha até perdido a esperança, após constantes adiamentos por parte dos organizadores. Qual não foi minha surpresa ao receber ontem de noite o e-mail:  do universo de  vinte e poucos malucos, eu e mais outros sete, como disse acima, tivemos nossos rascunhos despretensiosos selecionados. Resumo: em setembro, durante quatro dias, teremos aulas, workshops ou oficinas, como queiram, teóricas e práticas. A chance de arrumar um lugar ali pode ser pequena. Talvez eu até não seja um dos poucos a serem efetuados. Não importa. Só de estar ali entre gente ligada a uma área que acho fascinante já “está valendo”. E, claro, sempre aprender algo já me deixa deveras empolgado.

Não poderia não estar muito contente.  Bem que me diziam que a persistência valia alguma coisa. Ela sempre vale, velho.

Amém!

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E estou participando também do concurso de curtas do portal Tela Crítica.

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Ouvindo algumas Mazurcas e Sonetos de Chopin para ficar literalmente pianinho…

O potencial das memórias descartadas.

   O texto que segue – totalmente fictício - foi outra tentativa vã deste humilde escriba incompetente (ainda que incansável) para emplacar no concurso mensal da revista piauí. O mote deste mês foi a frase inicial (em negrito) de José e seus Irmãos, romance de Thomas Mann. Como de costume, todos os textos - independentemente da qualidade ou falta de - que não ganham o concurso (o vencedor aparece na versão impressa da revista) ficam durante um mês no site da publicação.

 

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   O potencial das memórias descartadas: a técnica de prospecção mnemônica para trazer à luz a solução dos problemas que afligem o ser humano moderno : uma breve apresentação.


   Doutor Philip Podvodník, Ph.D.

 

   Senhoras e senhores, até mesmo para os rasos de espírito, para os simplórios, para os náufragos da vida, profundo é o poço do passado. E de lá resgatar as mais recônditas lembranças e fazê-las úteis para a vida cotidiana é algo que está ao alcance de qualquer um. Tão abissal é aquele poço, tão vasto é nosso mundo formado por imagens, conceitos, palavras, vivências, pessoas que há muito se foram, gostos, cheiros, sons, enfim, tão absurdamente amplo e diversificado é aquele caleidoscópio que trazemos em nossa memória, que só temos uma insuficiente ideia dele. Somos constituídos de camadas e mais camadas de reminiscências. Desperdiçar todo esse potencial é de fato algo lastimável.
   Sim, lastimável. Pois sabem a tão almejada solução para aquele problema intrincado que atualmente enfrentam? Ela pode estar em vocês, se assim o desejarem, eis a revolucionária descoberta.
   Aquela luz para solucionar enigmas pode estar perdida nas memórias desativadas e dormentes de seu poço profundo.
   Como sabem, minhas técnicas para acessar e resgatar tudo isso estão sendo adotadas cada vez mais por artistas, líderes políticos, intelectuais, cientistas, estudantes etc. Elas são fruto de toda uma ciência testada e reconhecida para fazer com que venha à tona desde o primeiro beijo até, o que mais importa aqui, aquele insight necessário para equacionar os problemas mais complexos similares ou não a outros que já se teve num passado não tão próximo.
   Senhoras e senhores, moças e moços em cujos olhos vejo o brilho do interesse mais genuíno, todos vocês estão a um passo, a um só passo de uma mudança de qualidade de vida, de um salto para uma nova ordem das coisas numa escala pessoal, social e humana.
   Minha técnica é muito mais científica do que o ultrapassado e precário “método” de degustação de bolinhos para abrir o baú de uma ou outra reminiscência pálida, sem vida, tediosa. Agora para desencadear todo um mundo represado de memórias vibrantes e úteis que precisam apenas de uma técnica apurada para saírem do escuro daquele poço rumo à luz radiante de suas consciências, eis que lhes ofereço minha técnica, a mais avançada que já existiu.
   Não há mágica. Há, isso sim, procedimentos experimentais testados e retestados com voluntários dos quatro cantos do mundo e enfim patenteados.
   Aos interessados em fazer daquela lembrança descartada e enferrujada uma peça azeitada na engrenagem de sua psique, deixo este pedido: por favor, só não se esqueçam daquele antigo hábito de jogar moedas em poços. No caso, lembrem-se de jogar em seu poço profundo das memórias reativadas algumas, se não moedas, mas notas de dinheiro reservadas a este que vos fala. Quanto mais altas as notas, mais profundamente se vai na prospecção do passado e, consequentemente, maior será sua qualidade de vida. Sem ser irônico: não se esqueçam disso.
   Obrigado pela atenção.

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Ao som do CULTURA JAZZ, da Rádio Cultura FM de São Paulo (que saudade do jazz concert, com Carlos Conde!)

Das mil faces da tragédia.

    

    A ideia de que a tragédia tem que ser necessariamente algo grandioso, épico, está tão impregnada no inconsciente coletivo que, por qualquer motivo besta, usamos a palavra “trágico” e seus familiares semânticos com um misto de espanto compatível com a grandiosidade suposta de um acontecimento que nos deixe meio nocauteados.

    Na verdade, a vida é composta de micro-tragédias, tão pequeninas que, na correria nossa de todo dia, passam quase despercebidas. Uma árvore moribunda é uma tragédia. Assim como um sonho desfeito. Igualmente um amor que se torna um desamor. Outra coisa não é o abandono dos projetos pessoais, nem as mil maneiras de se morrer para aquilo que há pouco nos era valioso, nem o choque entre a realidade brutal com os ideais agora ridicularizados, nem a percepção do efeito deletério do tempo sobre nossas falsas certezas de perenidade, nem a não-equivalência entre o que vivemos interiormente e o que se passa fora de nós, nem a nossa absurda transitoriedade, nem o choque com os outros, nem um rol infindável de outras minúsculas tragédias de que é composta a vida.

    Mas o que mais é fascinante é se dar conta de que, se delas, as tragédias, somos cercados, temos nelas também, potencialmente, uma chance de nos superarmos, de irmos além de nós mesmos, de nos projetarmos para um além de nossa suposta “natureza humana”; é a oportunidade que temos de nos engrandecermos perante o atrito com aquelas tragédias e delas retirarmos não uma lição de vida nem tampouco todo aquele papo clichê de “crescer com as adversidades”.

    Nada disso. Ou não necessariamente.

    É aproveitarmos as brechas que nos são abertas, verdadeiras frestas através das quais há, em cada momento “trágico”, seja de que intensidade for, uma nova janela de vivências repletas de possibilidades. A cada “tragédia” – aqui no sentido multifacetado -, a teia infindável do possível, do acaso, do contingente, do que seja lá o que for que nos recoloca perante o mar do possível. Que nos franqueia um universo de potencialidades, de caminhos que se bifurcam, de paralelas que se cruzam, de linhas tortuosas que se juntam e se tornam por fim um retilíneo caminho. A via das possibilidades infinitas. Caminho esse que pode ter um início lá naquela “tragédia” longínqua no tempo ou no espaço de nossas vidas atribuladas.

    E ainda há quem ache que tragédias só as de Ésquilo, Sófocles e Shakespeare…

Espinosa: um filósofo apaixonante.

Filósofo holandês do século XVIII, a descoberta de suas ideias atuais causa muita surpresa nestes tempos modernos. Por intermédio de Ollivier Pourriol, em seu “Cinefilô”, estou descobrindo encantado aquele pensador ainda tão desconhecido de muita gente. Suas ideias e concepções filosóficas são altamente apaixonantes. Ele que discorreu tanto sobre as “paixões” e a questão da liberdade. Ainda quero nessas férias que estão chegando, ou até o fim deste ano, ler seu livro “Ética”. Enquanto isso, vou buscando em meus livros de filosofia, entre outras fontes, informações (tudo que posso!) sobre sua vida, obra e pensamento.
Aqui estão vídeos sobre Baruch de Espinosa. O primeiro é de uma aula universitária, (não consegui descobrir o nome do ótimo professor) sobre a questão da liberdade e do conhecimento na filosofia do holandês. O segundo é uma recriação da vida e da atitude política de um pensador que passou a vida polindo lentes. Bem sintomático: é essa a exata sensação que temos ao travar conhecimento com seu pensamento. A de que com ele podemos nos desvencilhar de (e superar) ideias feitas, falsas certezas e todo um sem-número de coisas que nos impedem de ter uma visão mais apurada da vida e seus desafios.

http://tinyurl.com/aulasobreespinosa

http://tinyurl.com/especial-espinosa

“Yes, I’m a great pretender…”

Atenção! Isso não é conversa mole de ressentido. Não mesmo. Há muito eu queria escrever sobre o que está nas linhas abaixo. Talvez por influência dos “Concertos de Brandenburgo“, de Bach, que passei o dia ouvindo, a verdade é que estou prestes a rabiscar alguma coisa sobre mim mesmo (vide o post abaixo para saber o porquê da relação Bach/idéias). Já que este blog também é um diário muito do incompetente, ainda assim é meu. Daqui a cinquenta anos, quando eu estiver nos cueiros novamente, quem sabe não passe aqui e, caquético, mas ainda assim emotivo, não lembre com saudades o cara tão sem graça que fui…
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Sei que não sou um sujeito lá muito convencional. Mas nenhum Michael Jackson, claro. Fiquem tranquilos.
Extremamente tímido entre gente que não conheço, muitas vezes avesso a falar muito, outras um pouco expansivo; em certas horas “na minha”; em outras, gregário como um comerciante na CEAGESP (gostaram do símile altamente literário? Tenho mais deles, tá?) entre outros traços psicóticos, digo, normaizinhos.
Bem, falemos sério. Se tem uma verdade sobre mim é essa: muita gente ( e o “muita” faz toda diferença: se eu usasse “todo mundo” ou “todos” estaria extrapolando a tênue fronteira entre a normalidade e a paranóia) superficial que adora se prender a estereótipos percebe: eu incomodo esse povo.
Bem, sou um cara que não é afetado por pompas e circunstâncias, títulos honoríficos, nobiliárquicos etc.
Já percebi que quando começo a falar algo, muita gente me acha um pedante, ou um cara que quer se mostrar. O que dá na mesma, claro. Como percebo isso? Simples: olhares enviesados; olhares em busca de outros olhares; mas, acima de tudo, é a reação verbal da pessoa: uma certa pressa e superficialidade no falar, como se o assunto ali fosse uma “batata-quente”; uma certa necessidade, em outro momento, de querer suplantar aquilo que eu dissera. Lamentável…
Na verdade, por meios tortuosos, consigo, pela atitude de pessoas que assim me julgam, ter delas uma visão certeira.
(Importante: friso bem que não é todo mundo com quem falo assim, desse modo. Já travei conhecimento com gente que procura conversar de igual para igual comigo, nem vê como uma afronta uma observação menos superficial que eu faça, um ângulo menos prosaico de se enxergar as coisas etc. E quando aquela pessoa diz algo também menos superficial, procura enxergar as coisas de forma menos estreita, etc, eu também não vejo motivo para tomar aquilo como uma afronta. Simples assim. Pelo contrário: tenho prazer em aprender com o que acabou de me ser dito).
Voltando aos meus “detratores”. Ledo engano, o deles (Relativizemos: na atitude humana, entra sempre uma certa vaidade, afinal, somos a projeção de nós mesmos naquilo que os outros captam da gente). Aquelas pessoas têm uma visão estreita demais dos outros. Já conheci, repito, gente extremamente interessante e inteligente que não o olha como se você fosse um marciano só porque você acabou de falar sobre Nietzsche; ou comentou sobre algum outro pensador; ou fez uma analogia com uma certa personagem literária, ou do cinema, por exemplo; ou usou uma palavra menos gasta, ainda que não rebuscada. Tudo, claro, com um senso de oportunidade. De repente, só para competir com você, aquele sujeito diz algo (finge) sobre o que afirmou um famoso filósofo (é patente a “forçação de barra”) ou que fez tal e tal curso (como se não houvesse outras formas de aprendizado) ou que “minha mãe é doutora”, ou “Ah, meu pai é um gênio!” (argh! falado por uma criança até que vai. Mas por um adulto… E outra: isso tem de ser dito da forma mais blasé possível. Dessa forma, o efeito será acachapante, pensa-se) ou ainda que… Ah, são tantas coisas… Isso já me aborreceu bastante. Hoje não mais. Me resignei com o fato de que vou sempre encontrar esse tipo de gente. Bem diferente daquele outro tipo com o qual é tão prazeroso estabelecer um contato: gente que não diz lugares-comuns e não se prende por exterioridades. Gente que não quer a todo momento te impressionar com realizações de terceiros. Gente que sabe que um diploma, no mundo competitivo do mercado de trabalho, é relevante. Mas que, no mundo das idéias que há nas obras artísticas, da cultura, do conhecimento não-instrumental, não é o diploma que vale: é a capacidade de relacionar conceitos; de fazer pontes entre assuntos só aparentemente desconexos; é a busca pelo saber que abre portas para outros saberes, através de muita leitura, numa rede infinita feita de curiosidade, de não-conformismo com o que vem muito fácil; um mundo franqueado a todos que dispoem de uma massa cinzenta e queiram empregá-la apropriadamente; coisa de gente que não se apega a estereótipos bestas e quadrados. Como todos os estereótipos.
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A tempo. Se tem uma coisa que me fascina é me apropriar da cultura (literatura, filosofia, cinema, artes em geral), “deglutir” tudo, tornar aquilo “meu” e usar o produto dessa “deglutição” de forma mais natural possível, até mesmo no meu dia-a-dia, fazendo os mais improváveis “links” em termos de assuntos. Sou fascinado por essa “apropriação” criativa!
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Acontece que não costumo baixar minha cabeça para ninguém, nem me deixo impressionar por gente despeitada. E nem fico mais “grilado” com aqueles que se espantam com meu jeito (Ah, nem tampouco fico envergonhado de usar a expressão meio démodé “grilado”…).
Meu jeito: me interessar por vários assuntos, ter uma curiosidade inesgotável para aprender certos assuntos que me encantam etc. E nem por isso querer saber tudo: não cairia num erro tão crasso. O que me move justamente é a certeza de que preciso saber mais ainda sobre uma trezentas mil coisas ainda enquanto por aqui estiver.
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Voltando. É como se eu tivesse que sempre “pisar em ovos”: se digo algo “suspeito”, já desperto olhares cismados de gente tacanha que acha que estou querendo me mostrar quando discorro sobre assuntos variados, fruto de leituras, de reflexões. Não que eu seja um falador. Longe disso. Mas as coisas que me empolgam costumo sobre elas falar com convicção e energia. Aí que as pessoas fazem uma “leitura” errada. Elas interpretam essa convicção e energia com arrogância!
Aliás, as pessoas neste país geralmente têm uma fixação pelo “grau de doutor”, de alguma coisa que comprove que alguém, para falar de um filósofo, de um cineasta, de um escritor, de um assunto da geopolítica, por exemplo, NECESSARIAMENTE tem que ter um atestado, algo que comprove que ali estamos diante de uma sumidade em tal assunto. Daí, só daí é franqueada a porta para aquele sujeito poder falar sobre o que quiser…
Não sou contra a formação intelectual, já disse isso aqui neste blog. Obviamente que não sou. E manda a sinceridade dizer o seguinte: fiz até o segundo ano de Letras, além de ter feito alguns meses de Jornalismo. Nem por isso um dia deixo de querer voltar à faculdade. Nem por isso minha liberdade intelectual é tolhida por quem quer que seja. Não busco saber mais do que quem estudou um dado assunto numa faculdade. Achar que o saber é uma espécie de contêiner que deve ser abarrotado de forma atabalhoada é de uma cegueira e supercialidade sem tamanho. Mas eis o ponto crucial: isso – o fato de não me ver como uma forma de mártir dos pobres autodidatas sem eira nem beira, longe disso! – não é motivo algum para que eu não saia do meu conforto e não busque, a duras penas, como sempre fiz, ler, me informar, correr atrás de todos aqueles assuntos que tanto me atraem. Sem ter que buscar o aval de quem quer que seja. Sem me sentir inferiorizado, tampouco.
E com aquela gente para quem tanto incômodo eu causo – não que aquelas pessoas percam o sono por mim nem tentem se matar por minha culpa, só pudera! – já tenho um novo approach: finjo-me agora de morto. Perto delas eu me encolho, não como subserviência, mas como tática: ao fazer isso, passo a agir, ao menos num nível superficial, do jeito que elas querem. Dessa forma, me regozijo por dentro: ao constatar o quanto “oca” é aquela pessoa, eu passo a não ter nenhum prazer na sua companhia. Elas vêem em mim a imagem delas refletida. E nem percebem.
Vou dormir. Boa noite, seu João Sebastião Bach. Obrigado pela força!
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Ao som de Bach: Concerto de Brandenburgo nº5, em ré maior, índice BWV 1050, movimento Affettuoso.

In Bach I trust

Que música é essa que me entra pelos poros, invade minha corrente sanguínea e chega ao meu cérebro com a potência de mil megatons, onde minhas pobres células cerebrais, indefesas, apenas vêem tudo ali se transformar? Que música é essa que me leva a sonhar acordado, a ver o que não pode ser visto, a sentir o que está além de qualquer intelecção ou explicação que se queira cietífica? Que música é essa que me faz visualizar coisas que minha mente passa a criar ali, no ato? Que bendito som é esse que traz uma onda de energia, um não sei o quê de auto-satisfação, de potência até então latente? De quem são essas melodias, esses contrapontos, essa escala caleidoscópica de matizes sonoros os mais diversos mas que, não obstante toda a “cacofonia” ali, é de uma ordem mística, sobrenatural, transcendental, seja o que for?
É Bach, é ele!
São seus Concertos de Brandenburgo. É o que ouço neste instante e me fazem criar este texto que vai assim mesmo, sem revisão e que com certeza está muito, mas muito aquém da sensação de se ouvir um gênio que não pertence a nenhum credo, nenhuma raça, a não ser a humana e que, 259 anos após, está vivo, aqui mesmo neste meu computador, nestes fones de ouvido.
In Bach I trust!

Michael Jackson

“Thriller”, “Beat It” e “Billie Jean”: eu era pequeno para poder entender a importância de tudo aquilo. Demorei pra sacar a coisa. Aqueles videoclipes hipnotizantes em nada lembram o cara que ontem faleceu. Na verdade, há muito Michael Jackson, o artista, já não existia. Depois do álbum “Bad”, de 1987, nada mais ele criou à altura. Daí em diante, foi apenas um espectro do que fora. O resto foi um longo processo de queda.
Os talentos gigantescos cobram um preço não menos gigante. Aí entra o aspecto humano. Só os muito bons mesmo conseguem se manter criativos.

Ode ao efêmero.

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Do dicionário Houaiss:

Etimologia: gr. ephêmeros,os,on ‘que dura um dia’, pelo lat. ephemèron,i ‘lírio branco, silvestre; animal que nasce e morre no mesmo dia’; nas acp. de angios, pelo lat.cien. gên. Ephemerum (1754); f.hist. 1712 ephemero

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Ainda bem que há o efêmero.

Fôssemos eternos, a certeza do fruir contínuo e do sofrer sem fim seria uma espécie de buraco negro a sugar toda nossa energia, nossa psique. A planificação de tudo, nem um ponto alto, nem tampouco declives, uma paisagem  que se tornaria inóspita de tanto tédio: seria o que teríamos.

Os vaivéns da vida só nos fortalecem. É aquilo que nos sustenta, e até mesmo nos derruba às vezes, mas, paradoxalmente, serve como uma forma de nos proporcionar momentos de “enfrentamento”  individual: aquela hora em que constatamos o quanto temos que nos livrar de padrões de conduta e de hábitos que vêm da ilusão de perenidade, de continuidade. É quando o auto-engano se despedaça, perde terreno:  uma forma de catarse, como queiram.  Guardadas as devidas proporções, não é nada não é nada equivale a ler Sófocles! Ou os estóicos.  

Naquela montanha-russa que tanto nos ajuda a nos constituir, na interiorização das vivências mais diversas (e no fundo todas elas têm uma ressonância considerável, por mais que achemos erroneamente que nem tudo nos “toque” num primeiro momento), temos uma oportunidade valiosa para corrigir planos de vôo, revermos comportamentos, redimensionarmos o próprio “eu” em contato com aquelas coisas que nos afetam e sobretudo podermos nos desvencilhar da falsa ideia de que o gozo contínuo seria o Santo Graal do ser humano. Ainda há quem duvide do valor de tudo isso?

Antes o real efêmero que falsas eternidades.

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Atenção, si vous plaît! Este texto, que não é de autoajuda, pode ser resultado dos prenúncios de um resfriado (ou gripe? ou peste bubônica? ou toxoplasmose? ou “só porque vos vi, minha Senhora?“, ou aquela pizza que não me caiu bem? ou seja lá o que for!).
Observações: 1º) que não seja o vírus da gripe suína. 2º) que seja um “inofensivo” resfriado muito do efêmero!
O resto é espirro.

Outro texto para o concurso da “piauí” (com minúscula!)

 NOTA DO AUTOR: ATENÇÃO, TALIBÃS DA INTERPRETAÇÃO: POR FAVOR, FAÇAM UM ESFORÇO PARA LER ESTE TEXTO (COMO QUASE TUDO AQUI NESTE BLOG) COM OS ÓCULOS DA IRONIA.

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NOTAS DE UM PERDEDOR

  Do livro de moralidades: contra-exemplos do bom proceder que devemos incutir em nossos jovens para que eles não façam o mesmo e possam trilhar o caminho da Luz e da Sabedoria.

    Eu gostaria que meu pai ou minha mãe, ou os dois, já que ambos tinham a mesmíssima responsabilidade, houvessem refletido sobre o que estavam fazendo quando decidiram me conceber. Sim, eu os culpo por tudo. Se naquela fração de segundo que antecedeu a minha concepção eles tivessem parado com tudo… Seria eu agora, neste instante, uma não-coisa. Antes isso do que a vida de desgostos e infelicidade que tive. Vejam vocês, tirem suas conclusões.

    Tudo começou quando, muito pequeno, caí do berço. Fraturei a cabeça. Dizem que só não virei um vegetal por puro acaso. Isso me deixou levemente retardado. Mas só levemente, pois não me impediu de saber ser infeliz. Que talento!

    Com os anos, até que recobrei o tempo perdido. Lá fui eu insistindo na farsa da existência. Meus pais negaram a mim o que concederam a meus não-irmãos: sou filho único. Aos oito, fiquei órfão: lá se foram os meus progenitores num desastre de trem. Fui para a rua. Sem parentes, vaguei pelo mundo. Conheci alguém que me resgatou e me deu um lar. E outro que me deu filhos, dali a alguns anos. E uma família. Estudei um tanto para ter uma profissão. Passados alguns anos, minha esposa e filhos morreram todos em um acidente de carro. De novo fiquei só. De novo arrasado. Um trapo humano.

    Casei novamente, com uma colega de trabalho. Quase tivemos uma filha: que não chegou a nascer pela simples razão de que a mãe, numa complicação do parto, foi mais ligeira e partiu antes.

    Entrei na de beber: lá veio a cirrose. Perdi emprego. Dos poucos amigos, a maioria se foi desta pra outra melhor. Graças a um golpe de uma quadrilha especializada em Previdência Social, me levaram tudo. Até agora espero por justiça. Ganhei um câncer de esôfago. Fui despejado. Mendiguei. Me arrastei pelos becos. Acho que tenho sífilis. Meus rins estão em petição de miséria. Meus dentes também não podem dar o ar da graça simplesmente porque já não existem. Tenho reumatismo até na alma. Hoje, aqui num abrigo para os sem-nada, com um fígado em frangalhos, mal tenho força pra escrever estas linhas. Daqui vejo um casal de índios maltrapilhos que veio de longe e é assim recepcionado pela bondade do homem branco e civilizado e consegue um teto num lugar decadente, mal-cheiroso e com camas sujas e lençóis há muito tempo sem ver água. Sem falar da farsa que chamam de comida. Nem tampouco dos funcionários que, quando não estão, pelos cantos, nos espancando a qualquer sinal de algum mal-entendido de nossa parte, estão se pegando lá na cozinha, em cima das mesas do refeitório, de madrugada, quem sabe gerando outros que nem eu. Não, eu não creio em livre-arbítrio nem nada dessas baboseiras. É época de Natal. Fizeram uma árvore bem da cafajeste, que mais parece um troço obsceno. As velhinhas ficam olhando ali e dão risadinhas escrotas.

    Uma roda de desgraças. Este velho aqui só crê que tudo poderia ser evitado lá atrás se meus pais, aqueles paspalhos…

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Texto com o qual participei do concurso literário da revista “piauí” e publicado no site daquela publicação em fevereiro deste ano. A frase em negrito, de autoria de Laurence Sterne, em A Vida e as Opiniões de Tristram Shandy, foi o mote a partir do qual o texto tinha que se desenvolver.

Para entender melhor Darwin.

Neste artigo esclarecedor da Scientific American, lemos sobre alguns mal-entendidos que rondam as idéias centrais de Charles Darwin. Em inglês.

Boa noite, pai.

  Querido pai: você me perguntou recentemente por que eu afirmo ter medo de você.
  Vou me sentar aqui do seu lado e explicar tudinho. Prometo ser breve.
  Sabe, desde muito pequeno aprendi a conviver com este sentimento relacionado a sua pessoa. Mas, apesar desse aprendizado de longos anos, posso lhe dizer que sim, tal medo primário se transformou em outra forma de medo e só aumenta a cada dia. Já faz muito tempo que me desvinculei do Complexo de Édipo. Faz tempo também que não te vejo mais como um “concorrente”. De modelo no qual deveria eu me inspirar a essa figura aterrorizante de hoje, muita coisa já passou. Anos de sermões, de surras, de “pitos” homéricos, tudo isso só acentuou a sensação de medo, compreende? Mas não é mais ao medo físico, o medo da dor corporal, a que me refiro. Não. Mas ao medo, em suma, de que eu, por conviver todos estes anos contigo, me transforme no mesmo pulha, no mesmo asqueroso ser que você, estimado pai. Sua presença no mundo, miasma a soltar as mais fétidas e repugnantes emanações, apenas me enche de receio de me achar um belo dia uma cópia sua, sabe? E quem me diria que já não me tornei isso? Meu medo é esse: virar uma versão sua, piorada. É o risco iminente de cometer as mesmas merdas que você cometeu. As mesmas canalhices. Os mesmíssimos crimes. E sobretudo de terminar assim, nesse estado lastimável em que você se encontra.
   Mas não sou nenhum desmiolado: o que temo é bem possível de vir a acontecer. Tem casos e casos por aí que não me deixam mentir. Não estou exagerando, não!
   Pai do meu coração – porque no coração não tem só coisa boa, não é? -, só existe apenas uma maneira de abortar essa catástrofe. Sei que aqui, nesta cama, inválido, apenas com estes olhos idiotas a fitar o mundo, só se comunicando com esse último por meio desses sinais que apenas as enfermeiras entendem – e eu vi seus olhos nos seios daquela morena, a do turno da manhã -, você já não oferece riscos a quem quer que seja. Pelo contrário: a muitos você só causa a mais profunda pena.
   Mas não a mim! Não mesmo! Enquanto vivo você for, sempre terei que conviver com sua presença que a mim só traz lembranças desagradáveis, entende? E é como se eu te visse e na mesma hora visse o que me aguarda. Tente me entender ao menos uma vez na vida!
   Por isso, meu velho progenitor, causa de muitas das minhas desgraças, é com muito, mas muito pesar que eu – sim, já adivinhou, não? Pode me olhar espantado, afinal você me ouve e entende muito bem, não? –, pra não te ter mais como um fantasma a me rondar, um lembrete físico do que posso me tornar, é por isso que vou desligar essa maldição de aparelho que te mantém vivo. É doloroso, eu sei. Mas muito menos do que o fardo de te ver e automaticamente me lembrar de tudo que você fez ou deixou de fazer neste mundo. E correr o risco de eu repetir, por imitação, tudo isso!
   Durma bem, velho. Espero ter respondido tua pergunta. É a minha sensação de paz interior, acima de tudo, o que busco. Você é um empecilho, uma pedra e tanto no meu caminho.
   Ah, sim. Vai ter só uma escuridãozinha. E um silêncio bom. Até que estou sendo camarada, não?
   Boa noite, pai.

 

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Texto com o qual participei do concurso literário da revista “piauí” (com minúscula) e publicado no site daquela publicação em abril deste ano. A frase em negrito, de autoria de Franz Kafka, em Carta ao Pai, foi o mote a partir do qual o texto tinha que se desenvolver.

Vidas Cruzadas?

   Ela fechou a porta com vagar extremo e se afastou, furtiva, como quem abandona um doente que acaba de adormecer à meia-noite.        

   Livre de qualquer comiseração, desimpedida para fazer o que ela mal conseguia crer que iria fazer e também no que tinha acabado de realizar, tomou o rumo da Estação Edgar Lynch. O sol ia embora mais uma vez. A noite dava seus primeiros sinais. Com passo firme, passando por pessoas que saíam do trabalho às pressas, mendigos em bancos de praça, pombos aos magotes, ela seguia apenas o rumo de sua idéia fixa: livrar-se daquilo. O quanto antes. Sem peso na consciência. Nessa espécie de antecipação do prazer, na qual se via mais “leve, livre e solta”, ela se concentrava apenas nos aspectos positivos, ou, pelo menos, naquilo que pensava que seriam as coisas depois do grande ato. “Retomarei as rédeas da minha vida!”.                      

   Chegando à estação, foi logo passando pelo guichê. O trem não demorou. Ao entrar, foi se sentando. Com a cabeça apoiada no encosto, fechou os olhos. De novo ela antevia tudo: os detalhes mais irrisórios, a execução do ato, o tempo que levaria. Quando deu por si, já estava próximo o seu ponto de parada. A voz metálica anunciou seu destino.

   Desceu. Pegou a escada-rolante. Fora, ainda havia uma tênue luz solar. Na semi-escuridão, ela viu os letreiros. Instintivamente levou as mãos até a bolsa. Apressou-se. Esbarrou num homem. Ouviu um assobio.

   Chegando à marquise do prédio com aspecto decadente, foi logo subindo as escadas. As sombras a envolveram. Segurando no corrimão, subia. Chegara. Apartamento 19. Bateu na porta. Uma viva-alma no corredor. Alguém atendeu.

    Ela entrou. A porta se fechou. Um ruído seco, um estampido, mal foi ouvido do lado de fora. Gritos abafados. Choro. Palavrões.

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Notícia de jornal: A polícia ainda não tem resposta para o duplo assassinato ocorrido quase simultaneamente ontem. Duas mulheres de aparentemente 30 anos foram encontradas baleadas e mortas em diferentes regiões da cidade. Segundo investigadores, o que mais chama a atenção é a extrema semelhança entre as vítimas e a principal suspeita. Ainda não se sabe se elas se conheciam. Uma mulher “muito atraente”, também parecida com a segunda mulher morta, nas palavras de um transeunte, morador daquela região – um senhor que trabalha na Pastoral dos Bons Costumes e que prefere não ter seu nome identificado –, foi vista andando às pressas nas imediações do apartamento da segunda vítima. “Eu cheguei a esbarrar nela. Mas logo tomei meu rumo”. Na cena do crime, os policiais encontraram um bilhete escrito às pressas com os seguintes dizeres: “SEI QUE VOCÊS USURPARAM A MINHA VIDA”.  “Não temos certeza se elas se conheciam, as vitimas. Quanto à terceira mulher, muito parecida com as duas, é quem mais nos intriga. Segundo testemunhas, também foi vista mais de uma vez perto da residência das vítimas. Parece que se fazia passar por conselheira espiritual ou algo do tipo. O que teria feito com que ganhasse a confiança de ambas”, disse o delegado.

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Texto com o qual participei do concurso literário da revista “piauí” (com minúscula) e publicado no site daquela publicação em março deste ano. A frase em negrito, de autoria de Antonio Muñoz Molina, em Beatus Ille, foi o mote a partir do qual o texto tinha que se desenvolver.

Que diria? Um blog em favor da vida! (Era só o que me faltava)

Volta e meia me divirto com as frases por causa das quais as pessoas vêm parar neste blog. Já teve gente que veio aqui para, segurem o riso aí!,  ”Aprender a viver”, “Como analizar (sic!) um conto Machado de Assis”, “Bergman Persona Filmes Parados”, “Como não ser enganado pelos cafajestes de nossos políticos”, “Conhaque com cocaína”, “O que diabos é capenga” e por aí vai. Só para ficar no que me mostra hoje o WordPress.

Uma fresquinha: “Como faço para sair dessa porra de vida“. Bem, se você quiser mesmo saber como sair dessa fantástica e magnífica experiência chamada “porra de vida”, chegou ao lugar errado! Pois se não vejamos: se você ler estes textos meia-boca religiosamente, logo, garanto!, você irá se deparar com o seguinte questionamento: “Que merda tem na cabeça um cara pra escrever coisas tão desgraçadas de ruins, tediosas e vazias? Eu aqui, querendo me matar, dar um fim em tudo, e outros vivendo num nível mais lamentável que o meu, desperdiçando o tempo, que é tão escasso! Como sou ingrato com você, Vida! Ah, EU QUERO CONTINUAR VIVO!

De onde se conclui que este é um blog, por vias tortas, em prol da vida, contra o suicídio, definitivamente incompatível com o “impulso de morte”.

Vinde todos aqueles que estão desesperançosos que este blog irá vos restituir a coragem para encarar os desafios do viver! Ah, a generosidade da vida…

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Louvar a grandeza da vida: nunca foi outra a razão de ser deste blog. Quer dizer, acho.

 

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Ao som de Thelonious Monk, Epistrophy