Analisar a própria vida? Mande-me um e-mail sobre isso: estarei analisando a viabilidade técnica e a utilidade prática disso no longo prazo na minha vida profissional e corporativa. Obrigado.
A vida não analisada não merece ser vivida.
Aí está a frase de um grande filósofo grego que cito de memória.
Nos tempos superficiais em que vivemos, na era das especializações em que estamos, toda perda de tempo, afirma-se por aí, é prejuízo monetário. Tudo que não nos lance no turbilhão do mundo produtivo há de ser eliminado. Aquilo tudo que não nos traga dividendos, promoções no trabalho, um upgrade no currículo, que nos “agregue” alguma coisa em termos produtivos, tudo isso tem de ser evitado, varrido do mapa, extinto da face da terra.
Desse modo, os momentos em que saímos dessa correria toda e nos fazemos perguntas que não tenham nada a ver com aquilo tudo acima mencionado são vistos como a confissão clara de que somos ou perdedores, ou inaptos para a vida nestes tempos pragmáticos.
Analisar a própria vida? Quem hoje se dá a tal empreitada? Quem lá quer saber de pesar as próprias ações, corrigir rumos, repensar em novas bases críticas a vida que é levada, as atitudes que são tomadas, as escolhas que são feitas? Quem quer ter como base de suas ações uma linha de conduta coerente? Quem se dá ao luxo de desperdiçar o precio$o tempo para esquadrinhar e retificar o próprio viver, enriquecendo-se com ideias de filósofos e artistas mortos de tempos idos? Por que as ciências humanas, sobretudo em bolsões de tecnologia e saber prático e instrumental, perdem cada vez mais espaço? Por que muitos se contentam com sua área de atuação e só com ela acham que estão equipados para a mais complexa das ações a que seres pensantes podem se entregar: o viver? Por que cada vez menos pessoas têm um interesse múltiplo por artes e humanidades? E se falando em arte, por que o cinema atual e mais lucrativo é aquele que só se preocupa com os efeitos especiais cada vez mais deslumbrantes para mascarar a pobreza de histórias cada vez mais rasas e maniqueístas? Estou pensando em AVATAR, que não troco por um Antonioni de começo de carreira. Por que o cinema que se propõe a vasculhar a vida humana e o homem em busca de um significado, por exemplo, é mais raro de ter um público que realmente por ele se interesse? Por que tão poucos não se preocupam em ler, pesquisar, refletir sobre aquilo que se assiste, aprender com os mestres do passado, em vez de se dizerem cinéfilos só porque assistiram a quase todos os filmes do cinemão dos últimos 25 anos?
Não há uma resposta só. Mas uma grande candidata a fechar a questão, ou pelo menos dar uma explicação que cubra quase toda a matéria em tela seria essa: Porque quase ninguém vai além dos estereótipos difundidos. Porque para isso tempo dispendido em pesquisas, em reflexão e aprendizado é necessário. Porque pensar é incômodo. Ler é uma tarefa árdua, para muitos, falemos claramente. Fazer comparações e ir a fundo em conceitos exige esforço, paixão e muita, muita força de vontade, expressão essa tão gasta hoje em dia.
E não analisar a própria vida então é uma ação que está inserida no Zeitgeist da modernidade, a saber: o apelo ao mais fácil, a tudo aquilo que nos poupe tempo, o Tempo, essa entidade cruel que exige de nós mais do que um culto. Exige de nós nossa vida, nossa capacidade reflexiva e crítica e, como se não bastasse tudo isso, nossas almas também.
Pensar hoje, quando muito, só o pensar prático, apenas aquilo que nos abra as portas do mercado de trabalho, que nos amplie a network, que, em suma, nos torne cada vez mais parecidos com robôs programados para nunca ir além, nunca ver além do que todos veem, do que todos pensam.
Analisar a própria vida? Isso me trará aquela promoção? Não? Então esquece: não tenho tempo a perder. E não se fala mais nisso.
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Ao som de Madeleine Peyroux, Instead
Add comment fevereiro 9, 2010
Este blog chega ao seu 4° ano. Rumo ao Jubileu de Ouro!
No post abaixo, me esqueci de mencionar o fato de que este blog, nesta semana, está completando exatos 4 anos.
Sim, sim, eu sei: fato totalmente irrelevante. Mas, numa época em que se comemora tudo, até o que não deveria ser comemorado, também acho justo eu fazer uma festinha para celebrar 4 anos de textos tão diversos, textos esses que, ainda que muitos deles péssimos, outros constrangedores de tão fracos, são só meus… Terei, na velhice, um bom passatempo ao lançar os olhos por estas palavras e frases perdidas nestes 807 posts…
1 comment fevereiro 8, 2010
Este blog besta há de bestamente persistir em sua assumida besteira, trolólós pseudofilosóficos e pseudoliterários. Respeitemos.
Este, digamos por falta de termo melhor, blogueiro, há de continuar. Ele há de insistir em vomitar seus textos rasos, mal-escritos. Suas análises e elucubrações pretensiosas de filmes que quase ninguém assiste. Cada vez mais raros serão, contudo, os textos mais elaborados (sei que você não perderá nada com isso, leitor): já calejado, o autor deste blog acredita, ilusoriamente, claro, que um dia os textos nos quais ele gasta suas cada vez mais raras sinapses e sensibilidade de quinta, possam participar de antologias, ou, num futuro mais longínquo do que o dia em que o Irã for um país pacífico, serem reunidos em livros autônomos, tais como uma seleta (alguém usa ainda essa palavra aí?) do gênero conto, por exemplo.
Ele bate o pé. Abre seu laptop, se isola do mundo cada vez mais, se torna cada dia um sujeito mais e mais antissocial, e só tem prazer em escrever. Ainda que, pelos motivos expostos, não publique tudo que escreve.
Deixemos o coitado na sua ilusão de que está fazendo algo importante. Deixemos o infeliz brincar de escritor. Não façamos nada que tire de sua caixola a certeza ilusória de que alguém se importa com aquilo que ele aqui ou em outro lugar escreve. Ele é um sujeito pacato, nada hostil. Um inocente.
Mas ele insistirá, seja a que preço for, em juntar palavras, tecer comentários sobre aquilo pelo qual sua cambiante personalidade e curiosidade se interessem.
Analisemos esse caso raro de paranoia no conforto de nossos lares. Afinal, cada um estraga a vida do jeito que bem entender. Uns consomem craque, outros investem na Bolsa, outros se locupletam na política. E outros sonham com a glória literária, ou com o dia em que verão seus nomes impressos em livros expostos em livrarias onde eles serão chamados para ser a estrela numa noite de autógrafos…
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Add comment fevereiro 8, 2010
Uma noite estrelada de verão numa cidade de um país na região sul do planeta Terra e o que ela suscita em espíritos indagadores e sensíveis.
Lá estão as estrelas. As mesmas estrelas. Da minha infância. Da Idade Média. Da época dos gregos. Dos nossos ancestrais nas savanas. As mesmas que estavam lá quando o primeiro ser vivo surgiu por aqui. Minha vida, a vida de um plebeu em plena Revolução Francesa, a vida de um escravo na Roma Antiga, a vida de Gengis Khan, a de Homero, se é que ele existiu, a vida do faraó Ramsés II: vidas plenas e vazias de significado, obscuras ou célebres: todas feitas da mesma matéria. Tudo está como antes. A permanência das coisas relevantes, é o que conta. Pois tudo o que realmente é importante perdura no tempo e no espaço. Só o que é passageiro, transitório, efêmero são aquelas coisas ínfimas. “Se muito entendi, sou um ser ínfimo, logo, sou transitório, é isso o que você quer dizer, caro cronista de meia tigela?”
É e não é, caríssimo e obtuso leitor.
A coisa é mais profunda do que supõe sua vã cegueira…
O que quero dizer com isso, ó alma simplória, é que por trás da imensa transitoriedade de tantas coisas, entre elas Wall Street, a Muralha da China, a Torre Eiffel, você, eu, o Obama, o Pedro de Lara e a Gisele Bündchen, é que existem outras coisas, por outro lado, que são permanentes, como a Natureza, as estrelas, o firmamento, os astros. Tudo bem que estamos (estamos mesmo?) exaurindo nossos recursos naturais. Mas aí a coisa já tem outro viés: a Natureza sempre deveria estar ali. E estará mesmo até que, dentro do próprio processo inerente ao funcionamento da própria Natureza, algo faça com que ela cesse, pare e finalmente entre em colapso. Podemos acelerar esse processo. Pelo menos é o que dizem muitos cientistas.
E pensar que alguns minutos atrás eu estava vendo as estrelas despreocupadamente, de papo para o ar e sentindo uma brisa e pensando o quão ridícula é nossa pretensão de perenidade, seja dentro de um carro do ano, de uma mansão, com nosso alto cargo e salários idem, ou por nos acharmos especialíssimos em qualquer coisa…
Somos pó, poeira, grãos. Qualquer vento nos leva. Nossa efemeridade, nossa absurda e constrangedora efemeridade, só nos deveria lembrar disso tudo.
As estrelas estão lá há milênios. Estamos aqui, em comparação, e falando em termos proporcinais, há um dia, quando muito.
Quer ser eterno, meu velho? Vire uma estrela. E estrela do Big Brother não vale. Do contrário, contente-se com a precariedade intrínseca ao viver neste mundo imperfeito e instável.
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Ao som de Led Zeppelin, Black Dog
1 comment fevereiro 8, 2010
Em defesa da ficção (nossa) de cada dia.
Todos temos necessidade da ficção. Seja pela literatura, pelo cinema, pelas telenovelas, pelo teatro, seja por qual via for, todos temos, em diferentes medidas, a fortíssima e indestrutível urgência de vivermos vidas que não as nossas, de nos perdermos em universos que não aqueles com os quais estamos habituados.
Estava eu dia desses conversando com um amigo sobre isso. Mais precisamente, sobre como, nos dias de hoje, temos uma verdadeira “fábrica de ilusões” azeitada por milhares de dólares, com mão de obra especializada, com interesses milionários. E essa imensa engrenagem não pode parar. A fornalha deve ser continuamente alimentada sob pena de aquela necessidade bem nossa de ilusão não ser atendida e cairmos, assim, na vala das neuroses. Sob o risco de sairmos por aí qual alcoólatras em crise de abstinência: “Uma novelinha, pelo amor de Deus!”, “Oh, eu vendo carro, casa e tudo que for necessário por uma reles personagenzinha de dramalhão mexicano”, “Que larica! Tô começando a divagar, a ‘castelar’ com seres que saem da minha cabeça e começam a escalar postes, socorro!”…
Claro que a imagem é hiperbólica e com um pé na fantasia. Mas, vejam como aqui se apelou justamente para a imaginação para se falar de um aspecto essencial em nossas vidas, não importa o quão “corridas” elas sejam: ou seja, ela própria, a imaginação e tudo aquilo que a alimente, que a fortaleça e por fim a satisfaça.
Mas o que me chama a atenção de forma não menos acentuada é o fato de que, ao consumirmos a ficção pela via do cinema, da literatura (nela incluído o teatro) e de que onde mais venha, estamos, na verdade, consumindo aquilo que já vem pronto, vem de outra fonte, é algo externo às nossas vivências. E isso não é algo ruim, pelo menos a priori.
Acontece que temos todos em nós a capacidade de vivenciar NOSSAS próprias ficções, seja de onde viermos, tenhamos as vidas que tivermos. Somos, em outras palavras, ficcionistas. E não apenas ficcionistas em potencial. Inventamos, mesmo no nível inconsciente, mesmo sem nos darmos conta, nossas próprias ficções, personagens (geralmente são variações de nossas próprias personas), vidas, acontecimentos etc. Tudo em forma de quimeras, de divagações, de pequenas fugas da realidade. E assim, de uma forma muito eficaz, podemos reavaliar nossas vidas, obter novas perspectivas de nossas próprias ações, readequar-nos e readaptarmo-nos às circunstâncias que nos cercam, entre outras nobres e imprescindíveis virtudes de nossa, chamemos assim, “psique de ficcionista”. E por que não exercitarmos esse potencial, essa habilidade só muito superficialmente usada?
Claro que o talento, a intensidade expressiva para criar e expor vidas, enredos, peripécias e saber o meio mais apropriado para expressar tudo isso (Romance? Conto? Peça teatral? Roteiro de Cinema?, entre muitos outros), são coisas que variam imensamente de pessoa para pessoa. Mas o ponto nevrálgico da questão toda não muda, não se altera de forma alguma. Ou seja, somos todos criadores de universos particulares, e todos, sem exceção, temos essa necessidade, por mínima que seja, de sair, de transcender suas próprias circunstâncias e criar, inventar, fabular e tecer, mesmo de forma superficial, vidas que não as nossas, seres que não aqueles que nos cercam, acontecimentos que jamais acharíamos que aconteceriam conosco e por aí vai…
Liberemos o ficcionista que há em nós. Reelaboremos todo aquele material que vem da própria vida. Façamos desse inesgotável material a matéria-prima para um mero poema que jamais será mostrado para alguém, um conto que nunca será publicado, um romance que dia algum será lido por muitos. O saber técnico se aprende. Mesmo que não nos preocupemos em dar nomes técnicos àquilo que criamos, nem tenhamos a pretensão de sermos autores badalados, roteiristas famosos, compositores e poetas e dramaturgos reconhecidos, não limitemos nem desperdicemos nosso dom natural (pois é algo intrínseco à nossa própria constituição psíquica) de “mentir”. Mas de mentir de uma maneira que não busca a burla, o engodo: trata-se de uma mentira benéfica. Aquela que libera nossos fantasmas, nosso vasto e complexo mundo interior. Nosso labirinto interior.
Criemos seres de mentira. Mas nossos, projeções e elaborações de nossas próprias mentes.
Vamos consumir as ficções alheias, como fazemos há séculos. Mas que cada um de nós saiba que pode também dar corpo e forma às suas próprias ficções, às suas próprias mentiras.
E o bom de tudo é que, no final, seremos universais se formos autenticamente específicos.
Add comment janeiro 27, 2010
Overdose de cinema.
Nas duas semanas que passaram, tenho assistido a filmes que há muito gostaria de ter visto. Entre eles, e só para citar alguns: O DESERTO DOS TÁRTAROS e MULHERES NO FRONT, de Valerio Zurlini, TUDO VAI BEM, do Godard, SALÓ, do Pasolini, A PAIXÃO DE ANA e VERGONHA, de Bergman, ZABRISKIE POINT, do Antonioni e, vendo aos poucos, um por dia para poder saborear com calma: O DECÁLOGO, do Kieslowski.
Nos próximos dias verei se deixo aqui uns textos sobre alguns deles. É tanta coisa boa! Tanta coisa que me chamou a atenção…
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Estou relendo o delicioso A ARTE DE ESCREVER, do velho Schopenhauer, meu eterno filósofo favorito. Releio também contos do Tcheckov, Maupassant e Dalton Trevisan.
E lendo com afinco, estudando detalhadamente, DA CRIAÇÃO AO ROTEIRO, de Doc Comparato. Um mergulho no mundo da escrita de roteiro de cinema (que me atrai) e televisão (quase nada).
Add comment janeiro 10, 2010
O Reino do Tudo Igual (revisited)
Escrevi esta crônica em formato de conto de fadas há mais de três anos, no auge da campanha eleitoral para presidente de 2006. Para quem se importa com política tupiniquim, e a acompanha, o viés crítico-político dela é evidente. E permanece atualíssimo. Infelizmente.
Ei-la, com algumas pequenas alterações de sintaxe e de vocabulário.
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Havia, há muitos e muitos anos, um reino chamado Tudo Igual. Por decreto real, os tudoiguaisenses tinham que ser parecidos em tudo, obviamente. Nos gostos, nas roupas, na forma de falar! Um dia, vindo de terras distantes, um cavaleiro extraviado foi parar naquele reino da igualdade. Nos trajes, na forma de cavalgar, em tudo ele era diferente. O espanto e o pasmo nos rostos dos tudoiguaisenses foram enormes. Com o tempo, o que era novidade foi-se tornando comum: primeiro um, depois outro, em seguida outros, outras, dentro de pouco tempo quase todos estavam a se portar, a se vestir, a viver de forma diferente, cada um seguindo seus gostos, suas inclinações, suas tendências. A notícia de tal ousadia e infração às leis reais chegou de forma trágica aos ouvidos do rei.
– Alvíssaras, Alteza!
– Como é que é? Neste reino jamais ninguém usou tal expressão. Matem-no!
– Mas…
Decapitaram o mensageiro encarregado de trazer as velharias e que por um lapso trouxe uma novidade, algo inimaginável naquelas terras. O Rei se acomodou no trono, visivelmente preocupado.
– Ouvi dizer que neste reino andam fazendo coisas diferentes das quais estamos acostumados. Ou seja, andam fazendo coisas que nunca aqui foram feitas, fugindo, pois, do que está determinado, do que temos há muitos e muitos anos, geração após geração, ano após ano, graças a meu decreto iluminado, estabelecido em tintas eternas.
Os dias passaram. O rei saiu a campo para constatar com seus próprios olhos o que diziam. E ao atravessar uma ponte, algo lhe chamou a atenção. Os trabalhadores que se esfalfavam na construção usavam métodos diferentes (que escândalo!) de engenharia. Curioso, o rei ordenou que parassem a carruagem. Desceu dela. Ao se dirigir ao capataz:
- Ou muito me engano, ou esse método de construção é diferente.
- Sim, Vossa Alteza está certo.
- Exijo uma explicação.
- Sim, Alteza. Quando nosso partido chegou ao poder, tudo era diferente, como todos sabem. Pregávamos a mudança. Críamos em nosso potencial de mudança, em nossa capacidade gigantesca de unir corações e mentes num projeto de mudanças, de revisão dos processos até então vistos como certos, mas que eram de fato ineficazes. Passamos a implementar nossos métodos, que em quase nada diferiam daqueles que nos antecederam. Erramos. Também não fomos bem-sucedidos. Passamos a usar e abusar da regra segundo a qual tudo que diferisse do que acreditávamos era errado, falho, imperfeito e visto como uma infração às regras do reino do Tudo Igual. Agora, hoje, temos visto que não estamos condenados a viver sob o manto da mesmice, do previsível, que temos mais, muitas outras maneiras de fazer as coisas, outros métodos, Alteza.
O Rei, atônito:
-Tragam meu rifle de caças!
No que foi desobedecido. Ao se voltar, viu, em sua frente, uma multidão armada até os dentes e logo atrás uma guilhotina. Dizem que antes de morrer, o rei implorou que não o matassem. Que ele mudaria e baixaria um decreto estabelecendo o livre-pensar. Mas era tarde demais.O reino mudou não apenas de nome. Mudou em todos os aspectos.
E prosperou.
Add comment janeiro 4, 2010
Como Zaratustra, coloquemos nossas barbas de molho.
Tudo muito bom, tudo muito bem. Após todas as cenas emotivas de fogos de artifício, abraços muitas vezes forçados, risos muito dos amarelos, eis que tudo volta à normalidade. Coloquemos os pés no chão e ali os finquemos, para que evitemos expectativas por demais altissonantes.
Lembro de um trecho de Assim Falou Zaratustra, do tão citado e hoje na moda Nietzsche, filósofo que está na boca sobretudo de gente que nunca o leu, em que Zaratustra, depois de ficar “chumbado”, doente, por sete dias, recebe a visita de seus animais e eles lhe dizem algo que podemos aplicar a nós mesmos nesses dias de promessas de renovação, de sonhos novos etc. São palavras duras, ainda que sabiamente realistas. Amargas, porém de grande valor para quem delas se munir contra as vãs ilusões.
“És o mestre do eterno retorno; ensinas que há um ano descomunal de grande, que deve, qual ampulheta, virar-se e revirar-se sem cessar, a fim de começar e acabar de escoar-se; de tal sorte que esses anos todos são iguais a si mesmo, nas coisas maiores e nas coisas menores”.
Add comment janeiro 4, 2010
A toast to 2010!
E chegou o tão esperado ano de 2010. Eleições (sou serrista xiita!), Copa do Mundo, projetos, sonhos, metas. Livros que serão lidos, filmes que serão vistos, músicas que serão ouvidas. Novos relacionamentos, novas amizades, novos ares. Está na hora de dar um pontapé no baixo-astral. Ainda que só chutemos o vácuo.
Já é alguma coisa. Pelo menos se evita de pensar nas próprias mancadas do ano finado.
Um brinde a 2010! Bebamos todas! (“E comamos todas também, uhuuu!” Tsc, tsc. Gente, esse foi meu id que se empolgou. Foi mal).
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E contra todas as expectativas, e humilhando de Nostradamus a Mãe Dinah, bem como todos os saravás, eis que este blogue nada a ver entra em seu quinto ano de vida. De cinco em cinco anos, nessa brincadeira, já já que ele chega a meio século. E olha que este blogueiro quase o extinguiu algumas vezes. E este é o post de número 800…
Ah, por falar em 2060: tomara que até lá o funk carioca (santista, gaúcho, marroquino, marciano, seja lá qual for) esteja totalmente extinto da face da Terra. Quem viver, verá.
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Este texto foi escrito em 29 de dezembro de 2009 e sua publicação, agendada automaticamente. O autor está viajando e só retorna na segunda semana do novo ano. Um ótimo 2010 a todos.
Add comment janeiro 1, 2010
Notas subjetivas (e errantes, ou “nada a ver”) sobre cinema.
Quem lê meus textos sobre cinema deve achar estranho que não exista por aqui nenhum que realmente seja crítico, que vaie ou que “detone” um filme. Nem um sequer!
“Que crítico é esse, afinal?”, podem perguntar por aí.
Simples, ladies and gentlemen: não sou crítico de cinema, nem de literatura, nem de coisa nenhuma. O que escrevo aqui são apenas minhas impressões sobre obras de arte a que, felizmente, tenho acesso. Nada mais. Para me levar a me sentar em frente do computador e elaborar análises muito das subjetivas e capengas sobre o que quer que seja, só mesmo algo que tenha me arrebatado ou em mim despertado alguma fagulha de inspiração, seja pela via da identificação temática, seja por qualquer outro motivo.
E outra: não faço, diferentemente de muita gente, distinção entre aquilo que alguns provincianos chamam pejorativamente de cinema antigo e o tal do incensado cinema atual. Para mim, falando do ponto de vista de um mero apreciador da arte cinematográfica, e mais amplamente, da arte narrativa, pouco importa que o filme tenha sido feito há alguns meses ou um filme de Eisenstein, da década de 20 do século passado. A impressão que ambos causam em mim, na maioria das vezes, pode ser equivalente. O que acontece é que o cinema feito atualmente, na sua grande parte, não me atrai, seja no que se refere ao tratamento temático, seja por outro qualquer. E esse “na sua grande parte” me impede de cair na vala comum da simplificação excessiva daqueles a que me referi: os que dividem o cinema em grandes blocos temáticos, fronteiras estanques, ou seja, o Passado e o Presente.
Me poupem. Sei reconhecer, com minha intuição, onde há algo que pode arrebatar a minha sensibilidade. E, reconheçamos, muito sintomaticamente esse algo não tenho encontrado muito nos filmes recentes. Não com a intensidade e frequência com que tenho me deparado nos filmes de alguns (ou muitos) anos passados.
E para se ter realmente a noção do que é o cinema (e isso vale para toda arte) hoje, não há outro jeito: tem que se ter uma visão diacrônica, holística desse ramo da arte. Não pense que você é cinéfilo só porque vai toda semana ao Cinemark da vida e acompanha tudo sobre o que “rola” atualmente no cinema e coloca uma venda nos olhos, ficando cego para o cinema antigo, “aquelas velharias, aqueles filmes em preto-e-branco, coisa mais antigona…tá ligado?” Assumindo essa visão, você está sendo um preconceituoso, um jeca que quer ser moderninho, descoladinho, mas cujo círculo de ideias e experiência cinematográfica e cultural são mais estreitos do que o teclado deste notebook que já está me enchendo o saco…
Preciso comprar um teclado, ah, se preciso…
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Este texto foi escrito em 23 de dezembro de 2009 e sua publicação, agendada automaticamente. O autor está viajando e só retorna na segunda semana do novo ano. Um ótimo 2010 a todos.
Add comment dezembro 31, 2009
“A História de Adèle H.” (de François Truffaut, 1975): o colapso da razão sob as lentes de um sensível incorrigível.
1863. Baseado na história verídica de Adèle Hugo, filha de Victor Hugo, o célebre autor de Os Miseráveis, filmada com paixão e narrada com perfeição pelo enfant terrible do cinema francês, François Truffaut – que faz uma ponta à la Hitchcock, seu grande ídolo –, o filme nos faz mergulhar no mundo mental gradativamente em colapso daquela jovem cujo grande “pecado” foi amar demais. Sem pieguices ou concessões a saídas narrativas batidas, o diretor de Os Incompreendidos e Jules et Jim coloca na tela todo o eclipse da razão da protagonista, que vai atrás do homem que ela desesperadamente (e esse não é apenas um advérbio surrado, no caso), o tenente inglês Albert Pinson (Bruce Robinson), que ela segue onde quer que ele se encontre. Ele não a ama mais e vemos que se trata de um sujeito sem o mínimo de sensibilidade para com o drama de Adèle. Ele está mais preocupado com seu status no exército inglês, que manda seu batalhão para Halifax, no Canadá, durante a Guerra Civil norte-americana, e com as mulheres que lhe aparecem pelo caminho. Adèle escreve longas cartas a seus familliares nas quais distorce aos poucos a realidade. Ou seja, as cartas são mais projeções dos seus anseios do que a realidade factual. E a perda gradual da razão de Adèle é extremamente convincente, não tendo como não ficarmos tocados com aquela vida que se esvai aos poucos em nome de algo tão abstrato e tão etéreo, um sentimento que acaba fazendo com a jovem mergulhe em seus devaneios e alucinações, nos quais começa a se identificar com a imagem de uma irmã morta afogada e tenha toda a sua psique erodida e por fim destruída. A cena final: Adèle (a lindíssima Isabelle Adjani), agora uma maltrapilha nos confins da África, com os olhos abertos mas vazios de toda expressão, sinal maior da perda de toda consciência do seu próprio “eu”, passa por Albert, que a chama, e ela não o reconhece, continuando a andar como um zumbi.
Quanto às saídas narrativas, aos macetes que os roteiristas, um deles o próprio Truffaut, usaram para fazer a história andar, dois que me chamaram a atençâo. Ambos usaram de gráficos, no primeiro caso um mapa e no segundo um jornal fixado num lugar de acesso público. No caso do mapa, vemos a imagem de águas, que seriam de um navio em alto mar, tendo ao fundo um mapa, mostrando o deslocamento da correspondência de Adèle aos pais da América para a Europa; no caso do jornal narrando a morte da esposa de Victor Hugo e outra notícia, um pouco mais acima, informando da mudança do local onde estaria baseada a infantaria do qual Albert faz parte, no caso, para a África. Há um corte e ficamos sabendo assim, graças a elementos narrativos simples mas extremamente eficazes, para onde rumaria nossa agora totalmente insana e patética Adèle, uma figura que nos remete à Ofélia, de Hamlet.
A caracterização da protagonista, como disse, é convincente. Adjani nos deixa apaixonados, tontamente enlevados por sua fragilidade e ao mesmo tempo sua ousadia, que logo se torna uma faceta da loucura, da obsessão. Intuímos qual será seu fim. Mas – aqui entra o grande artista, o grande narrador – somos persuadidos de que de fato estamos diante de um ser fictício complexo, cheio da fúria e da ânsia do viver e cujo destino, ainda que possamos prever, ainda assim nos dá a esperança de que terá uma saída para fora do labirinto em que se encontra.
Elogiar Truffaut é muito fácil. Muitos já fizeram. Seus filmes são realmente apaixonantes. Mas o que é fascinante na arte, seja qual for, é a possibilidade justamente de, cada um à sua maneira, sentir as ressonâncias que só os gênios conseguem despertar em nós. Reconhecer o talento do diretor francês, que sabia tudo e mais um pouco de sua arte e ter acesso a ela nestes tempos superficiais que vivemos, é um exercício de sensibilidade que só nos desintoxica dessa épóca de cinema padronizado, de pensamento estandardizado. Sensibilizar-se com seus filmes, hoje em dia, revendo-os ou tendo acesso a eles pela primeira vez, é quase uma questão de sobrevivência mental.
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Este texto foi escrito em 23 de dezembro de 2009 e sua publicação, agendada automaticamente. O autor está viajando e só retorna na segunda semana do novo ano. Um ótimo 2010 a todos.
Add comment dezembro 30, 2009
“Quem tem medo de Virginia Woolf?” (de Mike Nichols, 1966): o potencial destrutivo das palavras exposto de maneira crua.
Há filmes que nos fazem “entrar” neles, ficar colados às personagens, vivenciar seus dramas, sofrer, rir e ter um vislumbre de nós mesmos, sobretudo de
nossas próprias mesquinharias e defeitos mil. Representar um naco da vida, expor os sentimentos extremos, nos fazer olhar dentro de nós mesmos: o teatro grego, lá nas suas origens, já fazia isso, bem sabemos. O conceito de catarse, segundo o ponto de vista da tragédia grega, é a purificação, uma espécie de faxina mental que fazemos ao observarmos nossos conflitos interiores representados num drama. Ao vê-los ali, obtemos uma perspectiva crítica e podemos, assim, repensar nossas atitudes e muito da nossa visão das coisas. Ampliemos a definição e a adaptemos ao cinema, essa arte hoje em dia cada vez mais técnica e cheia de efeitos especiais – o que não vem a ser necessariamente algo negativo, pelo menos no que se refere ao cinema de entretenimento – e que pode, quando realmente assim deseja, expressar o vasto mundo interior do ser humano e iluminar as áreas sombrias de nossa psique. Quando um filme nos coloca face a face com o que há de pior em nós, quando somos forçados a compartilhar o desnudamento frio e sincero de vidas que se pautam pelas aparências; quando uma obra cinematográfica nos coloca em contato direto com diálogos que ferem, palavras que envenenam, gestos que humilham, silêncios interiores que dissecam a alma humana; quando, por fim, ficamos contrangidos com o que há de vil em nós – pela via da representação dramática de outros seres –, quase sempre em estado de potência, temos a certeza, então, que estamos diante de uma obra atemporal e universal.
Quem tem medo de Virginia Woolf, de Mike Nichols (A Primeira Noite de um Homem e Closer -Perto Demais), em duas exatas horas de duração, nos faz ter a impressão que estamos ali, bem próximos de toda aquela ação, que não é exatamente ação, mas mais precisamente às voltas com as palavras e seu potencial devastador. Como naqueles versos de Cecília Meirelles ("Palavras, palavras, que estranha potência, a vossa!"), saímos daquele universo ficcional certos de como as palavras podem revelar o interior de quem as usa e expor o que há de mais sujo nos relacionamentos, desvendando toda a teia de pequenas mentiras e fachadas que estão implícitas em nossa convivência social. Saímos dali exaustos, terrivelmente exaustos. Mas enriquecidos, na mesma proporção.
Um casal de meia-idade, George (Richard Burton) e Martha (Elisabeth Taylor), sai de uma festa às duas da manhã e volta para casa, que fica no campus de uma universidade. Ele, professor, ela, filha do manda-chuva da tal instituição, ambos chegam e começam o que então parece ao espectador um daqueles inofensivos duelos verbais que tantos casais gostam de ter. Ela diz a ele que em instantes chegará um jovem casal. Ele mostra seu desagrado com a notícia. Mas ela diz que seu pai, o chefe de seu marido, pediu a eles para serem simpáticos com os visitantes.
E eles chegam, e já na porta percebem a troca áspera de palavras entre o casal anfitrião. Nick (George Seagal) e Honey (Sandy Dennis) logo percebem o quão exótico e ao mesmo tempo um tanto assustador é aquele casal mais velho. A anfitriã insiste em humilhar o marido na frente dos visitantes e começa a se insinuar ao atraente e educadíssimo – pelo menos no começo – Nick, também professor na universidade. Sua esposa, a tolinha Honey, percebe mas finge que está tudo bem. A ação toda se passa nessa madrugada. E como bebem, aqueles seres! A bebida é um catalisador, uma espécie de mecanismo que dispara e potencializa as falas, que são o que movem a história. Como nas peças e contos de Tchekhov, nada acontece. Pelo menos não no sentido das ações grandiloquentes. Mas muita coisa está acontecendo no mundo interior das personagens, das palavras que são como dardos invisíveis, ah, como está!
E o que vemos é, num crescendo, a luta, o duelo, a carnificina, a guerra total entre aquele casal que recepciona seus visitantes. Estes últimos, também constatamos, tem lá seus podres. E estes, os podres de todos, são expostos impiedosamente ao espectador.
Baseado na peça homônima de Edward Albee, o filme deu o que falar naqueles anos sessenta. A linguagem, vulgar muitas vezes -para a época, frisemos -, a menção à sexualidade, ao adultério, às consequências do alcoolismo, aos vários conflitos humanos, muitos nunca expostos, grosso modo, por Hollywood até então, fez com que o filme alcançasse um sucesso, assim como a peça alguns anos antes, baseado justamente nesse potencial de levantar questões vistas como tabus na sociedade americana daquele tempo. E naquele mesmo ano, Bergman lançava Persona e Antonioni o seu Blow Up, filmes também polêmicos. O do diretor sueco talvez tenha alguns pontos em contato com o filme de Mike Nichols no desnudamento de almas. Desnudamento esse que se dá por meio das palavras.
Quem tem medo de Virginia Woolf está abarrotado de diálogos. Prepare-se, se você ainda não viu, para a charada que está implícita -e cuja resolução só virá na cena final, ainda que haja como "matá-la" um pouco antes- naquele mar de palavras pronunciadas com as mais variadas das entonações. E no quesito “interpretações”, o que vimos é uma briga de titãs: de um lado, uma Elisabeth Taylor que engordou muito para o papel de uma megera envelhecida – e a atriz tinha ainda trinta e poucos anos- e um Richard Burton perfeito, soberbo. Seus papéis demandam muito talento e muita técnica para que aqueles seres complexos, cheio de nuances, críveis, realistas mesmo, possam ganhar força, como de fato fazem, na tela. Foram das mais fascinantes interpretações que já vi na minha vida, com toda certeza. É de se ficar basbaqueado com Taylor, que é magnética, que nos deixa tontos com tantas camadas, com tantas facetas de sua Martha. Não menos surpresos ficamos com as transições sutis, que vão da arrogância ao humor e à ironia mais debochada, à comiseração, à raiva, à admiração, da personagem de Burton, aquele professor, aquele intelectual que, quando começa para valer a responder às provocações de sua esposa, o faz com o empenho, com perdão da expressão e da imagem, como um urubu entre os restos de um animal em putrefação. Não há limites para a violência das palavras que ele despeja, que ele dispara. E nem os visitantes passam incólumes à sua metralhadora verbal, ao seu cinismo e ao seus jogos de palavras engenhosos.
Quanto ao título, muitos podem se perguntar o que a escritora inglesa Virginia Woolf tem a ver com o enredo. Na época em que a peça foi escrita por Edward Albee, havia o desenho animado da Disney "Os Três Porquinhos", cuja música-tema -baseada numa canção de domínio público muito conhecida – era Who’s afraid of the Bad Big Woolf? Para não entrar em conflito de direitos autorais, trocou-se a letra. O dramaturgo chegou a pedir autorização ao viúvo da escritora. E a canção alterada virou uma brincadeira entre os universitários. E é cantada algumas vezes. No início, é uma brincadeira. No fim do filme, tem ressonâncias dramáticas e existenciais.
A fotografia em preto-e-branco, ousada para a época, é de fato lindíssima.
Há muito mais o que falar. Mas paro por aqui. Se você ainda não assistiu a esse clássico, corra e veja. Você mudará sua concepção do que são personagens de ficção bem elaborados, diálogos certeiros e interpretações mais do que convincentes.

Add comment dezembro 29, 2009
“Ken Park”, 2002, de Larry Clark: não é um pesadelo; a vida pode ser pior.
O filme tem apenas 90 minutos. Mas é o suficiente para o espectador ter a mais das idílicas sensações: a de que sua vida, comparada com aquilo que acabou de ser mostrado ali, é de uma paz só. Uma sensação efêmera, por bem da verdade.
O plano-sequência inicial já dá mostras do que virá pela frente. O adolescente Ken Park passeia com seu skate pelas ruas de Visalia, pequena cidade da Califórnia. Som de rock pesado. Chega até a praça dos skatistas, faz algumas manobras. Senta no alto de uma rampa, tira sua mochila. Dela, saca uma filmadora. Filma a si mesmo. Tira uma arma, olha para os lados. Fica pensativo. Com ar blasé aponta para a cabeça. Dá um sorriso. Câmera lenta. Disparo da arma. O tiro lhe atravessa o crânio. Seu corpo desaba. Tudo ali mesmo, naquela manhã ensolarada, no meio de vários outros jovens distraídos em seus skates. Tudo muito natural.
Shawn, Tate, Claude e Peaches: três garotos e uma garota. Cada um, em seu universo particular, vive sua vida apática.
Shawn transa com a mãe de sua namorada, Tate só sabe se masturbar e viver às turras com os avós, que o criam, Claude tem um pai machista e uma mãe quase omissa e Peaches é surpreendida pelo pai, cristão fundamentalista, transando com o namorado.
Vidas em ciranda, famílias disfuncionais, jovens vidas jogadas no lixo e o sexo sendo o fio condutor, uma espécie de válvula de escape, juntamente com as drogas e a bebida, para as frustrações. E que frustrações!
Depois de assistir a esse verdadeiro torpedo, a essa bomba com efeitos retardados, a gente se dá conta de que a arte, mesmo aquela que busca retratar com realismo assombroso a vida como de fato ela é, pode, por vias tortas, nos colocar num patamar de pura reflexão. Um filme que nos leva inevitavelmente a uma tomada de consciência, ainda que tal expressão soe moralista. Mas não se trata de moralismo. E a tal da tomada de consciência em questão é a constatação de que somos, quando expostos às mais deletérias das condições, meras marionetes da libido, da violência e de todo um rol de condicionantes.
E o pior que, ao contrário de um pesadelo, nem podemos dizer que a realidade é bem diferente do que vemos nesse filme. Não é. Só os ingênuos pensam assim
Add comment dezembro 28, 2009
“A Última Noite de Boris Grushenko” (“Love and Death”, Woody Allen, 1975): o humor fino, mesmo com pastéis.
Um amigo diz que não gosta da fase pastelão do diretor norte-americano, pois em sua opinião seria uma versão gringa de “Didi Mocó”…
Achei graça na coisa.
Mas não concordo. Woody Allen é um artista tão completo que é daqueles que mudaram tanto e se aperfeiçoaram notavelmente em sua arte que com eles só podemos ficar basbaqueados por reunirem tantos talentos. E já estão na estrada há muito tempo. E quem deve ter se inspirado, mas não aprendido muita coisa, foi o tal do eterno trapalhão, constatação só reforçada sobretudo quando se assiste a dois minutos de seu programa atual…
Abrindo parênteses. No caso do diretor de Hannah e suas irmãs, acho que o termo “pastelão” não é pejorativo. Quando se sabe aquilo que ele iria criar, os filmes que ele iria dirigir, é ótimo constatar o quão essa fase de humor escancarado serve de contraponto a seus filmes “sérios”, fazendo com que esses últimos sejam apreciados por sabermos que por trás deles está um artista tão multifacetado e que sabe tudo de seu metiê. Parênteses devidamente fechados.
Bananas e O Dorminhoco, outros de sua fase mais antiga, me fazem rir e gargalhar cada vez que os vejo. É realmente coisa de gênio o humor, as caras, as gags, os diálogos redondos, as saídas visuais que ele bola, as citações a filósofos, escritores, artistas em geral, tudo tão fluido, tão deliciosamente amarrado em roteiros cerebrais, ainda que tenham a intenção de nos divertir, que estão num patamar artístico elevadíssimo. E como nos divertem!
O enredo se passa no início do século XIX, no auge das guerras napoleônicas. Na Rússia czarista, Boris (Allen) é mandado para a guerra para “matar quantos franceses puder”. Diane Keaton está como sempre inspirada. Seus diálogos com Allen são hilários, mas para poder fruí-los na íntegra é bom conhecer uma coisa ou outra de filosofia…
Narrado em voz off, pelo próprio Boris, que foi condenado à morte por tentar assassinar ninguém menos que Napoleão Bonaparte, há citações espalhadas de Sergei Eisenstein (Outubro e O Encouraçado Potemkin) e sobretudo Ingmar Bergman e seu O Sétimo Selo, diretor, aliás, que é um dos ídolos do velho Woody. Para ser mais preciso: a cena inicial e a final são uma piscadela bem humorada a esse filme do mestre sueco.
1 comment dezembro 27, 2009
“Short cuts”, Robert Altman, 1993: instantâneos de vidas que se cruzam.
Baseado em contos de Raymond Carver, o longa que se propôs a ser um painel da vida norte-americana no início da década passada, já se tornou um clássico. E muitos roteiristas e diretores foram por este filme de 3 horas influenciados nestes anos todos. Só para citar um: “Magnólia”, de Paul Thomas Anderson, de 1999.
E a influência se deu naquilo que no jargão de roteiristas ficou conhecido como “multiplot”, ou, em bom português, e simplificando bem as coisas, os enredos múltiplos, que se cruzam. O risco de se perder a mão é grande. Mas, como no caso de Altman, quando se trata de um diretor que conhece do traçado, a coisa ganha proporções de obra de arte.
Vidas que se cruzam, desenvolvimentos simultâneos de conflitos e de perfis de personagens, um verdadeiro mosaico de seres humanos perdidos em suas mesquinharias, patifarias, sonhos, frustrações, medos, fobias, traumas, pequenas felicidades etc: é o que vemos em 180 minutos que mal percebemos passar. O desfecho, apoteótico, no qual deságuam todos os outros núcleos dramáticos, é a assinatura de um mestre. Famílias disfuncionais, pais e mães ausentes, a busca desenfreada pelo prazer, da libido ou não, filhos e filhas mortos em vida, jogos de aparências, o desvelamento da hipocrisia que perpassa os relacionamentos humanos, pequenas maldades, a inveja, o descaso, humor, dissimulações, falsas pistas para desvendar personagens, tudo isso faz com que este filme seja mais do que indicado para todos que querem não apenas conhecer o atual American way of life mas, indo mais longe, ter um vislumbre – sem conceções ao falso moralismo, ao puritanismo e à praga do politicamente correto – da vida em sociedade. Seja ela qual for.
Neste exato instante, pulverizados pelo mundo afora, muitos daqueles dramas estão acontecendo. Robert Altman, revisitando os escritos de Carver, um cara que escrevia de forma seca e que radiografou com precisão o mundo e os “seres pensantes” que nele habitam, nos brinda com um filme merecidamente considerado uma das obras-primas do cinema da década de 90. E das que vêm pela frente também.
Add comment dezembro 26, 2009
Tentativa frustrada de entrevista com Papai Noel
Sim, este blogue bem que tentou. Mas o ex-Bom Velhinho está cada vez mais estressado e amargurado. Uma pena:
- O senhor parece de saco cheio, senhor Noel.
- Tô, tô sim, pior que tô! Me esqueçam, pô. Eu não existo, entendeu? Eu não e-xis-to, cacete!
Add comment dezembro 25, 2009
“Naked Lunch”, de David Cronenberg, 1991: quando o surreal encontra o existencial.
Escritores em crises de criatividade, os famosos “bloqueios’”, já foram muito retratados em filmes e peças de teatro. Mas o que diretor canadense David Cronenberg faz em “Naked Lunch” (no Brasil: “Mistérios e paixões”, um título bem “nada a ver”), baseado no clássico homônimo do beatnik William Burroughs (1914-1997), é uma metáfora alucinada daquela experiência de encarar a página em branco e simplesmente “travar”. Viagem psicodélica, drama existencial, narrativa empolgante, seres frutos do mais puro desligamento daquilo que poderia ser chamado de “realidade”, surrealismo, figuras fálicas, vício em psicotrópicos, criação de uma atmosfera kafkiana (e Kafka é literalmente citado por uma das personagens), tudo isso com um fundo de jazz acidental (com o sax de Ornette Coleman, criando uma aura onírica e meio decadente na caracterização da atmosfera) que só torna este filme um cult, baseado numa obra cult, de um autor não menos cult, ainda que “maldito” e, para muitos, um verdadeiro pária literário. Lances autobiográficos, como a “brincadeira” à la Guilherme Tell, com consequências trágicas, estão ali.
O escritor Bill Lee (alter ego, obviamente, de Burroughs, interpretado por Peter Weller) em crise, exterminador de insetos, passa por maus momentos no trabalho. Sua esposa (Judy Davis) se torna viciada no produto que ele usa para matar baratas. Ela começa a ter alucinações e leva o marido a experimentar. Ele o faz e vem a conhecer um inseto falando durante aquilo que seria pura alucinação. O ser bizarro tenta o convencer a matar a esposa, que seria uma inimiga infiltrada. Por engano (será mesmo?), ele mata a esposa ao tentar alvejar um copo sobre a cabeça dela. Sua máquina de escrever se transforma num monstro falante. Então, desiludido, passa a viver numa região chamada Interzone e entra em contato com seres de comportamento estranho e meio mafiosos. Ali, naquele universo surreal, ele terá uma chance de rever e resgatar sua esposa. A cena final, no entanto, traz uma surpresa frustrante…
Aí está um resumo do enredo. Ainda que muito superficial.
É aquilo tipo de filme que exige do espectador uma abertura total. Do contrário, dez minutos de projeção farão qualquer Descartes ter acesso de raiva.
Tem um ator que rouba a cena: Ian Holm, no papel de um dos mais bizarros personagens que vi no cinema: Tom Frost. Sua interpretação, apesar de não ser extensa, é intensa, perfeita e digna de um ator. Ator na mais pura acepção da palavra.
Gostei. Entrei na onda do diretor. Apesar de não ter lido o livro do Burroughs, e talvez justamente por isso, uma vez que eu não tinha expectativas no que se refere àquilo que o diretor poderia descartar ou não do romance beatnik, sei que foi uma aproximação do universo literário alucinante de um escritor que tirou, da própria crise criativa, elementos para criar a obra em si. Coisa na qual os grandes criadores são mestres.
P.S.: Dois dos grandes diretores da atualidade, continuadores, a seu modo, daquilo que Buñuel e Dalí fizeram décadas atrás, têm o mesmo prenome: David. O Cronenberg e o Lynch. E muitos momentos desse filme me fizeram lembrar de um longa do diretor norte-americano. Por exemplo: aquelas criaturas bizarras em “Naked Lunch” me remeteram diretamente ao bebê-monstro de Eraserhead. Curiosidades…
Add comment dezembro 25, 2009
Todas as artes me completam.
Não sou especialista em nenhuma arte. Nem pretendo ser. Deus me livre de ser um desses experts em determinada área das artes ou da cultura. Sigo apenas minha intuição e por isso não preciso de aval de quem quer que seja para me interessar pela pintura de Bosch, por um solo de Charlie Parker, Lester Young e John Coltrane, um conto de Chekhov, uma peça de Arthur Miller, ou de Maupassant, a música de Haendel, uma sinfonia de Mozart, uma cancão de Cartola, um concerto de Bach, um noturno de Chopin, a voz de Billie Holiday, o cinema de Bergman, a filosofia de Schopenhauer, a voz de Sinatra, o virtuosismo de Jimmy Hendrix, o som e as letras de Pink Floyd e Radiohead, a fúria de AC/DC, os scats de Ella Fitzgerald, o trompete de Armstrong, Miles e Chet, o som do New Order, a arte barroca, o canto de Elis, o Renascimento, o Impressionismo, o Surrealismo, as letras de Arnaldo Antunes, a guitarra de John Lee Hooker, Stevie Ray Vaughan, Muddy Watters, Buddy Guy, as montagens de Einsenstein, o estilo de Montaigne, o cinema de Chaplin, o humor do Monty Python, a análise da alma humana na obra de Dostoiévski, o estilo único de Nietzsche, o universo de Kafka, os textos de Freud, o estilo de Dalton Trevisan, as peças de Sófocles, os romances e contos de Machado, a poesia do Bandeira, a excentricidade criativa de David Lynch, a irreverência de Fellini e Buñuel, a perfeição de Vivaldi, as performances de Janis Joplin, Freddy Mercury e Tom Zé, o pessimismo de Antonioni, o perfeccionismo de Kubrick, as pinceladas de Renoir e Van Gogh etc etc.
Não quero jamais perder esse gosto intuitivo que me leva a tudo que a arte, todas as artes, tem de melhor. Essa intuição, esse faro para descobrir a essência de um artista, a obra seminal de um escritor; esse dom para captar aquilo que de mais característico há na criação dos muitos gênios das artes.
Não estou preocupado com tecnicismos. Nem tampouco com análises sociológicas. O que amo, o que torna esta minha vida plena de sentido, de significado, é esse envolvimento, em grande parte autodidático, com as artes, com o conhecimento. Essa mistura altamente democrática, caótica. Que é um pálido reflexo, na verdade, do meu vasto, mutável e hipersensível mundo interior. E sensível não no sentido de algo por demais especial. Mas no de algo profundamente humano, demasiadamente humano.
E arte, para mim, tem uma base epistemológica: um pé na questão do conhecimento. Arte, como a vejo, é conhecimento. E vice-versa!
Tudo o que há de elevado no mundo das artes me interessa. De todas capto algo e torno só meu. Meu apetite é infindável. Todas as artes, para mim, se complementam.
E me completam.
E sempre o farão. Ainda que a vida cotidiana, sentimental, financeira ou o que quer que seja, esteja uma porcaria.
A arte, enfim, me humaniza.
Sou um humanista deslocado no tempo e no espaço que, por força das contingências da vida, veio parar por aqui. Neste lado íngreme da vida e do mundo. Nestes tempos de superficialismos.
A arte e o conhecimento são minha religião. O meu ópio. O resto é pano de fundo.
2 comments dezembro 10, 2009
Nota de Falecimento
Morreu hoje em São José dos Campos, São Paulo, aos 88 anos, por falência múltipla dos órgãos, em virtude de um câncer de mama, a atriz, bailarina, artista e cadela da raça sabe-deus-qual, Capitulina Araújo, a Capitu.
Seu dono, o autor deste blogue, profundamente emocionado, não quis entrar em detalhes. De óculos escuros e aspecto de pura consternação, apenas disse ao nosso repórter que em sua família o dia é de tristeza profunda, afinal, foram quase 14 anos de uma amizade sem limites, "tal qual jamais tive com qualquer ser humano".
E também que “Ela adorava a voz da Billie e o sax do Paul Desmond. Pegava no sono rapidamente ao ouvir jazz em geral. Quando eu tinha nas mãos um jornal ou um livro e ia para a poltrona ler, ela gostava de ficar por perto. Odiava barulho e vozes altas. Abominava a solidão. Aos dois anos, foi atropelada e milagrosamente resistiu. Só faltava falar”.
Nesses anos, Capitu foi o centro da atenção da casa. Durante o auge da juventude, a cadelinha amarela de focinho preto e rabo espetado para cima em forma de ponto de interrogação, aprontou tudo e mais um pouco. Sempre arteira e nada convencional, merece uma biografia canina.
Seu nome, de inspiração claramente machadiana, em nada deixa a desejar à sua famosa homônima literária no que se refere ao quesito complexidade. Ainda que complexidade canina…
É com profundo pesar que lamentamos o passamento de tão estimado animal.
O enterro foi na manhã deste sábado.
Capitu (*1996 – †2009)
Add comment dezembro 5, 2009
Pequena crônica de uma vida bandida
- Geziel, não rouba, não, pois o Papai do Céu tá vendo tudo, menino!
- Tá nada. Já devem ter roubado o óculos do véinho, mãe, deixa de ser boba.
*******
- Geziel, calma, amor, você trouxe a camisinha?
- Tô com uma caixa aí, mina. Serve?
- Onde você arrumou isso tudo, posso saber?
- Tá ligada a farmácia do Tonico? Fui eu e o Pedreira que roubou. Agora senta no colinho do seu homem, senta. Vai ter camisinha pra essa vida e pra outra…
*******
- O senhor, Geziel Pereira Souza, roubou a própria sogra, viúva e inválida?
- Então, chefia, a véia vacilou.
*******
- E como você conseguiu escapar daquela cadeia do Monte Azul, ô Geziel?
- Foi uns esquema aê, meu.
- Já matou quanto?
- Vixe, cara! Perdi as conta, aê.
*******
- Ai, Geziel, comporte-se. Olha o padre ali.
- Ah, muié. Fica quietinha aê.
- O que você tá fazendo agora?
- O que é de Deus ao homem pertence, oras.
- Mas isso é o dízimo, seu bronco.
- Isso, sua carola, é meu sustento. E nem um pio ou senão vou te denunciar pro corno do seu marido. E tô indo embora! Me enjoei de você, baranga!
******
- Depois de uma vida de excessos, irmão Geziel, arrependa-se de seus pecados.
- Ô pastor, me diz uma coisa [Tosse, tosse e mais tosse. O moribundo. A cama. A pobreza. Um hospital de indigentes anexo a uma penitenciária].
- Diga, ser digno de compaixão.
- No céu tem cofre?
- Sim, seu Geziel, se você for lavado e remido de seus pecados, haverá um tesouro com o bem mais valioso te esperando: a vida eterna ao lado do Criador.
- E no inferno, pastor?
- Ali só há dor, sofrimento, gritos e outras coisas de horror inimaginável.
- Então vou ser bom.
- Muito bem, meu caro. Assim que se diz. Os anjos agora dizem "Amém".
- Que nada, pastor. É só eu arrombar aquele cofre, catar o que tem, afinal, é muita coisa: porque é o cofre do paraíso, aê. Já imaginou como deve ser? Daí, eu saio vazado e vou continuando a passar a mão em tudo que eu encontrar pela frente, saca?
- Que Deus se compadeça de tua alma, escarnecedor.
- Taí. Roubo do céu pra vender no inferno. Pronto. Vou ficar com a vida ganha. E não se fala mais nisso. Até porque Deus não tem mais óculos e não enxerga lá muito bem.
De febre, Geziel delirou toda a noite. No outro dia, foi enterrado na mais pobre e modesta das valas. Sua ficha policial tinha metros a perder de vista. De óculos ou sem.
Add comment dezembro 4, 2009
O mundo está cada vez mais chato.
Chato é tudo que é plano, que não tem níveis, desníveis, planícies, altos nem tampouco baixos. É a planificação da mesmice, que segue numa paisagem a perder de vista em que nada se sobressai. Daí, a palavra passou para a linguagem cotidiana e serve para se referir a tudo que é tedioso, sem vida, sem sobressaltos, sem novidades, sem estímulo etc.
E nunca esteve tão chato viver neste mundo planificado e uniformizado. Não que alguma vez a vida neste planeta tenha sido assim uma experiência permanentemente instigante. Não acho que se deve ter nostalgia por tempos remotos, sobretudo aqueles nos quais não estávamos presentes. Mas ainda acho que, para um homem das savanas, a planície era muito mais escarpada do que para o homem do século 21.
O que acontece é que nos dias que correm, a sensação de mesmice prevalece. Independentemente da sua conta bancária ou do seu cartão do Bolsa Família, a impressão que se tem é que o tédio anda sempre à espreita, pronto para nos prender em seus tentáculos e nos devorar. Para fugir desse monstro onipresente, buscam-se grandes doses de emoções efêmeras, de atitudes que tentam, em vão, nos dar a ilusãozinha nossa de cada dia de que o mundo é um grande barato, de que a vida neste planeta fadado à derrocada é algo que compensa as frustrações e reveses às quais estamos todos inexoravelmente condenados.
Parece que tudo é uma grande corrida em busca da Terra Prometida das emoções baratas. Baratas pois são inevitavelmente transitórias, ilusórias e verdadeiros simulacros de "felicidade".
Tudo chega até nós facilmente. Na ponta dos dedos. Está tudo ali, naquele site, naquela igreja, naquele livro, naquele guru, naquele cargo, naquela faculdade, naquela viagem, naquele carro, naquela casa, naquele apartamento, naquela mulher, naquele homem. Essa sensação de que só nos resta um passo, uma ousadia, nos faz cegos. Nos hipnotiza. Nos arrebata a visão do todo. A rapidez de tudo que acontece, a avalanche de informações inúteis, de ocorrências corriqueiras que acabam potencializadas pela mídia, de seres vazios e rasos que se tornam imbecis celebridades, tudo isso nos faz ter a sensação que estamos sempre aquém. Que estamos incompletos enquanto não nos arremessarmos rumo à obtenção daquilo que supostamente nos traria – ilusoriamente, claro – a sensação de completude.
Só assim para termos uma ilha de fortes emoções cercada pelo tédio. Só assim para esquecermos por um momento a frustração que vem justamente dessa nossa cada vez maior dependência – exatamente como outra dependência, a química – de sucedâneos para aquele grande e almejado estado de regozijo total. Vamos nos trucidando, nos desrespeitando um ao outro, nos fechando em nós mesmos para fugir do tédio. Daí a achar que a vida está, de forma geral, algo cada vez mais tedioso, é um passo. E isso justamente por sabermos, mesmo num nível inconsciente, que aquilo do qual dependemos para nos manter "vivos" está assentado em bases falsas, independentemente daquilo que nos cerca e que constitui nossa fachada social, nossa máscara, nossa persona.
Viver neste mundo célere, de relacionamentos superficiais, de gente robotizada, de eternos insatisfeitos – pois perdemos a noção do geral, aquela que nos proporciona a certeza de que tudo está interligado, e não fragmentado, como somos condicionados a pensar -, de busca desenfreada por emoções fortes, de dependência cada vez maior às exterioridades plenas de significações sociais, é de fato um porre. Tudo está às claras. Mistério? Coisa de místicos e malucos. Preocupação com o espiritual? Coisa de religiosos… O que conta mesmo hoje em dia é, segundo as concepções que nos guiam, criar ilhas da fantasia em série. É nos autoenganarmos ininterruptamente. Uma vez expirado o prazo de validade dessas ilusões, o que resta é só o vazio, o tédio. Como é impossível ter essas ilusões o tempo todo, ou, melhor, como é inviável haver uma contínua equivalência entre nossas quimeras pessoais (infinitas) e aquilo que as fundamente na vida real (finito), o que prevalece são os momentos de pura frustração, de perda do ânimo para a vida. Afinal, ânimo para quê se esta minha vida deixa a desejar? Se apesar de tudo o que tenho, de tudo que ostento por aí, sei, lá no âmago de mim mesmo, que tudo está calcado em coisas contigentes e passíveis de serem de mim surrupiadas?
Eis aí a gênese dessa sensação de tédio absoluto. Que nada mais é, afinal, do que nossa rendição, de nossa capitulação, de nosso processo de falimento. Moral, mas efetivo e desalentador como tudo que já faliu.
O mundo (entenda-se: a experiência humana) está cada vez mais chato. Mais padronizado. Mais superficial. Mais célere. Somos continuamente condicionados. Teleguiados. Cobaias num grande laboratório de lavagem cerebral. Emburrecemos globalmente. Nos deslumbramos com as maravilhas do mundo moderno e nos esquecemos de que interiormente estamos cada vez mais embotados, paupérrimos, fossilizados e tolhidos em nossa potencialidade imensa de seres pensantes.
Feliz chateação para você.
Add comment novembro 26, 2009
Pequena entrevista imaginária com escritor fictício: no avesso da verdade convencional, para além dos convencionalismos supostamente realistas, ou através da mentira da ficção, haveria, de acordo o veterano autor, o segundo em língua portuguesa a ganhar o prêmio Nobel de Literatura, a vida em estado mais puro.
Por que o Senhor insiste em criar seres que pouco têm a ver com o comum dos mortais?
Elienai Araújo: Não me interessa a realidade crua. Minhas personagens não circulam no mundo dos fatos como eles são na realidade. Eu crio uma suprarrealidade e ali jogo aqueles seres que você tão simplistamente considera tão distantes dos comuns dos mortais, e ali os deixo viver e os fico observando. Não estou preocupado com o verossímil. Estou mais atento às mentiras que dizem a verdade, que a apresentam ao avesso mas que, por isso mesmo, conseguem captar aquilo que está num nível de apreensão incompatível com a forma rasa de se contar uma história que há tanto tempo se convencionou chamar de tradição narrativa.
Então do seu ponto de vista podemos deduzir que retratando a mentira de forma radical, o escritor pode atingir uma verdade? Desculpe-me mas não vejo nexo no que o Senhor diz.
E.A.: Em primeiro lugar, você deduz o que bem entender daquilo que eu, ou quem quer que seja, diz. Mas só cuidado para não distorcer o fruto do labor mental alheio. Em segundo lugar, em nenhum momento mencionei qualquer coisa parecida com a sua expressão "retratando a mentira de forma radical". Em terceiro e último lugar, essa mania de ver nexo em tudo, de se sobrepor a toda incoerência inerente ao próprio viver uma regularizadora e castradora Grande Razão que a tudo abrange, quem me deve desculpas é você: não seria isso limitador e simplista demais e uma atitude acomodada perante o desafio constante que o viver nos apresenta constantemente? O que me interessa é o mentir, é o inventar seres, vidas, acontecimentos. Sou um mentiroso desde que pela primeira vez descobri que, inventando, criando, eu podia transcender uma realidade castradora, friso esse termo. E há várias camadas de realidade que constituem a experiência humana. A mentira da ficção pode se tornar, assim, a verdadeira realidade.
Como o Senhor conclui sua entrevista para a revista Literatura em Foco?
E.A.: O mais importante é que através da mentira chegamos ao avesso dessa tal realidade primeiramente nos dada. Ao me aproximar dela lançando mão da mentira, da ficção, que fique bem entendido, pois bem, ao me acercar dela pelo avesso, pela negação mesmo dela, eu podia, como tenho feito nesses quase cinquenta anos de ficcionista, viver vidas que poderiam ter sido as minhas, me enriquecer, me tornar múltiplo sendo um.
Add comment novembro 25, 2009
“Matrix”: dirigido e estrelado por Charles Chaplin.
Como seria “Matrix” na era do cinema mudo? Esta paródia russa pega dois clássicos, o gênio Chaplin e seu personagem imortal e o mais bem acabado filme de ficção científica de todos os tempos. O resultado é bem bacana.
Add comment novembro 23, 2009
No Velório
- Taí um homem que foi santo.
- Alma que nem essa…
- Tá pra nascer amigo tão dedicado.
- Fazia o bem sem olhar a quem.
- Olha só pra ele: parece que tá rindo.
- Que nada: parece que tá dormindo.
- E morreu como um justo que era: tranquilamente.
- Perda irreparável.
- Essa chuvinha é o céu chorando.
- São os anjos.
- Durma, amigo, durma o sono dos bons.
- Esse mundo era imperfeito demais pra você.
- Era sempre brincalhão.
- Verdade. Não perdia uma chance de nos pregar peças.
- Uma vez ele me passou um trote dizendo que era um marciano, vão vendo. E não é que o danado conseguiu me pegar?
- E outra vez ele fingiu que era um mendigo numa rua de granfa pra ver como era a sensação de ser rejeitado pelos outros.
- Um mestre dos disfarces.
- Pena que nunca casou, nem cheiro de parentes tem. E vou dizer: ele teria sido um pai-modelo. É bem capaz que ele tenha deixado um documento declarando a doação de tudo que tinha para os pobres.
- Eu não duvido, não. Porque alma boa tava ali.
- Ou tá aqui, vai se saber.
- É… Mas chegou a hora mesmo, meu amigo. Vai em paz. Que o Senhor te receba com seus anjos.
- Vai fazer muita falta.
- Se vai.
Aos poucos, os amigos se calaram e ficaram naquele silêncio de respeito pelo falecido. As velas, as coroas de flores, tudo acentuava aquela atmosfera de contrição e solenidade que só a morte proporciona.
O tempo passava. A madrugada chegava. Cada um dos amigos se muniu de café e biscoitos que eles mesmos prepararam na cozinha do morto. Cada um sentado sozinho, ficaram todos vasculhando a memória para achar tudo que se referia àquele que estava no caixão lacrado, sendo que apenas o visor permitia que fosse visto. Imagens, frases, acontecimentos, tudo isso desfilava por aquelas cabeças já grisalhas. Tempos de outrora que passavam por suas retinas interiores.
- Alma boa, descansa mesmo, meu velho. Todos estamos aqui pra te prantear.
- Ser que nem esse, nunca mais…
- Nunca mais uma ova!
Susto. O torpor cedeu e com ele aquele desfile de frases feitas que vinham mais embaladas pelo sono do que por qualquer outra coisa. Todos se olharam. Quem estava quase dormindo despertou subitamente ao ouvir aquela frase tão destoante da choradeira geral.
Quem dissera aquilo? Quem não dissera?
- Foi você?
- Eu, não!
- Foi você, Fulano!
- Até parece. Vou brincar com coisa séria nada!
Todos estavam nessa tentativa de descobrir quem fora o responsável por aquela frase, quando, todos, paralisados, viram a tampa do caixão se levantar. O “ex-morto”, agora sentado, apontando o fundo falso que permitia a entrada do ar, apenas disse para os companheiros que não sabiam se gritavam, se corriam ou faziam o que diabos tinha para ser feito:
- Eu sempre quis ver se meu enterro, caros amigos, seria uma ocasião para tantos lugares-comuns hipócritas. E de fato foi, como vimos aqui nesta noite. Mas que bando de bundas-moles são vocês. Nem uma frase de efeito original, nenhum elogio sincero, nenhuma crítica, uma que fosse, mas que ainda assim fosse verdadeira. Agora morro feliz. Se não hoje, logo, aos poucos, de desgosto…
Dizendo isso, saltou do caixão e foi logo, aos gritos, escorraçando aqueles falsos amigos que, ainda tontos pela surpresa, não reagiram e foram, aos poucos, um por um, indo embora.
Dizem que o “defunto” viveu muito tempo. Mas em outra cidade. Mas tudo podiam ser boatos infundados. A verdade é que ali naquela região ele nunca mais foi visto.
Add comment novembro 22, 2009
“O ar que te enchia agora enche somente meus pulmões”: poeta chora a perda de sua amada.
“Tateam o escuro minhas mãos. Por aquele corpo que tantas vezes toquei e apalpei elas procuram. Apurado está meu olfato, ainda acostumado à fragrância que dela vinha; ele ainda em busca de qualquer odor que me faça dela lembrar. Por sua voz em vão meus ouvidos procuram. Meus olhos, esses, fechados, com a ajuda da memória, a vêem. E são seus cabelos o que mais eles acentuam. Aqueles cabelos castanhos pelos quais eu quis morrer. E que tantas vezes beijei e nos quais me perdi e com tanto ardor acariciei e imenso carinho penteei. Ela não está em nenhum lugar. Paira seu espírito, contudo, sobre o meu ser. Posso sentir seu corpo cada vez que a rememoro, bem como sua fragrância, seus olhos e seus adorados cabelos. Em mim ficou sua essência. Morrer, ela não o fez, bem o sei, ó senhores que me lêem. Sua morte física, talvez, aconteceu. Mas pude, ah, se pude!, assimilar dela sua essência, repito. Ela morreu fisicamente para dentro de mim viver. Ainda me lembro daquele momento trágico, horripilante: foi um estrondo só. O susto. A desfiguração. Por isso, ninguém melhor do que eu para ser o receptáculo de sua alma. Foi a mim que ela confiou sua lembrança nesta terra. Eu que a fiz tantas vezes ganhar vida. Aqui estou para perpetuar sua passagem por este mundo. E por mais tempo que passe, por mais que os acontecimentos da vida moldem o meu caráter, mesmo assim, arrostando toda e qualquer contingência e finitude, hei de estar à altura daquilo que ela me incumbiu.
Jamais, amada, nunca, idolatrada minha, tu que foste meu sonho realizado, a imagem da mulher perfeita, jamais deixarei que um dia passe, um único dia, sem que a tua lembrança eu não traga à memória daqueles que te conheceram ou mesmo dos que não tiveram esse inominável privilégio. Passe o mundo, passe tudo, mas nunca há de passar meu incomensurável amor, afeto e idolatria por ti, alma boníssima!
O ar que te enchia agora enche somente meus pulmões. Descansa em paz”.
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Texto encontrado em um manicômio hoje desativado. Há nele, logo abaixo, o desenho de uma boneca. Ao que tudo indica, inflável [N. do A.].
1 comment novembro 21, 2009
Escrever, descobrir, ler, pensar.
Escrevo em todo lugar que posso e sempre que posso. No computador, em cadernos, em blocos de anotações, em pedaços de papel etc. Todo lugar em que há a possibilidade de deixar registrado pela palavra escrita tudo que me chamar a atenção sob o sol será sempre um aliado.
A escrita, já disse muitas vezes aqui, só é aprimorada pela prática, pela constância. E não há universidade no mundo que ensinará alguém a escrever no sentido amplo do termo. Quem sabe o lado técnico, o conhecimento científico: aquilo que se pode aprender nos livros, sem a necessidade, sem a obrigação de se estar numa instituição de ensino superior, desde que haja empenho, um mínimo de bagagem intelectual e interesse para aprender. Mas a intuição, a sensibilidade e o esforço intelectual que há no ato de fixar pela palavra escrita os mais variados e complexos assuntos, isso nem a mais requisitada universidade do mundo vai – e se for idônea, almeja – ensinar.
Nestes tempos de tantos estímulos sonoros e visuais incompatíveis com a necessária calma e tranqüilidade que os atos de escrever e de ler exigem, a palavra escrita, em sua forma mais nobre, a literária, perde cada vez mais espaço.
Assim, não é de se espantar o quão mal se escreve hoje em dia. E paradoxalmente, nunca se escreveu tanto! E-mails, blogues, programas de troca instantânea de mensagens, entre outros “fenônemos” atrelados à expansão e conseqüente popularização da internet, são quase todos dependentes da palavra escrita. Contudo, o que poderia ser uma oportunidade valiosa para se difundir uma conscientização do potencial da escrita, torna-se, desse modo, um exemplo acabado do mau uso de uma ferramenta expressiva e comunicativa como poucas vezes vimos na história turbulenta da humanidade.
Agora, a eficiência máxima todos querem. O conteúdo é estudado, analisado, cuidadosamente estruturado. Mas, por outro lado, esquece-se da forma, do instrumento pelo qual aquilo tudo terá um sentido. Esquece-se da unidade básica de sentido, a matéria prima da comunicação humana: as palavras. Nestes tempos céleres em que vivemos, quem lá quer saber de procurar a palavra exata? Quem se importa com o ritmo, a “música” das palavras? Quem perde seu sono com a boa estruturação das idéias, com a concatenação dos argumentos, com a harmonia e coerência do todo, com a correção daquilo que é expresso por escrito?
São poucos, sabemos. Escrever bem, não almejando necessariamente o plano estético, literário, mas no sentido do respeito e do infindável aprendizado do potencial das palavras, é algo cada vez mais raro. E, sobretudo, visto com maus olhos pelos que “torcem o nariz”, têm verdadeira urticária a tudo que esteja elaborado ou seja complexo, que exija reflexão, no que se refere à construção argumentativa, ao plano do intelecto. Ou ao da busca pela palavra bem usada.
Escrevo cada vez mais com freqüência. Reescrevo não menos. Corto tudo que posso. E leio, leio muito, não para ostentar erudição, ainda que a ame. Não a erudição gratuita, mas sim aquela que nos proporciona uma visão efêmera do desconhecido; aquele conhecimento que não se fecha em áreas estanques do saber e que tem como combustível a curiosidade intelectual, a humildade por se saber ignorante e, por último mas não menos importante, aquele cabedal de conhecimento graças ao qual deslumbramos nossa finitude e entramos, ao mesmo tempo, em contato com nosso potencial e engenho humanos.
Escrevo para descobrir. Leio para pensar, me enriquecer e ampliar meu repertório. Penso ao escrever. Descubro ao aprender.
Está tudo assim: interligado.
1 comment novembro 21, 2009
Um escritor terminal.
Escrevendo, ele exorcizava todas aquelas coisas, aquelas tranqueiras que insistiam em atravancar sua cabeça com tanta negatividade e irrelevâncias. Escrevendo, ele reassumia o controle sobre sua vida; ele a podia ver de uma nova perspectiva; de um prisma a partir do qual tudo assumia uma característica de algo passível de controle. Escrevendo, ele como que se vingava. Escrevendo, ele crescia, e assumia uma voz, uma dimensão que ele não tinha quando estava com os outros. Esses sempre o esmagavam. A ele e sua sensibilidade à flor da pele. Escrevendo, o tempo parava, a vida sossegava, ele via como que tudo em câmera lenta e podia, assim, analisar e ponderar e perceber todos os nuances daquilo que se convencionou chamar de vida cotidiana. Escrevendo, tudo se fazia mais claro. Tudo ganhava em transparência, em luminosidade. Das trevas, tudo vinha à claridade da razão. Os vultos se tornavam então o que de fato eram: apenas entidades feitas de sombra. Escrevendo, esses vultos desapareciam sob o peso da razão mais fria.
Escrevendo, ele se projetava no tempo. Escrevendo, ele se eternizava. Escrevendo, ele podia olhar ao mundo como um fenômeno simples como qualquer outro da natureza.
E pensar que ele ficara tanto tempo (quase a vida toda, quase sessenta e cinco anos) sem escrever.
O grande lance a se lamentar era que, agora, ele estava em estado terminal. Logo, até mesmo a escrita de nada adiantaria.
Mas já era um alento.
Add comment novembro 20, 2009
Barraco no talk show.
Voz em off:
Na edição de hoje de The Special Minds, temos a honra de receber…
Jurandir Menezes, especialista em… especialistas! Uma salva de palmas para ele… [Musica que lembra um jazz dixie. O apresentador, magérrimo, usando óculos com aro de tartaruga, dá um sinal e instantaneamente a musica pára].
- Jurandir Menezes… Estamos curiosos para saber o que vem a ser um especialista em especialistas… Seja bem-vindo. Nos conte, nos conte.
- Olá, Lô. Em primeiro lugar é um prazer estar aqui neste auditório tão animado e neste programa tão influente… Posso mandar um alô para o meu povo lá de São José dos Campos?
- Pode, pode [meio contrariado].
- Minha professora Lurdes Tavares que foi a primeira a me introduzir (sic) nas artes da especialidade em agora estou. Foi ela que me ensinou a ver com meus próprios olhos a imensa variedade de especialistas sobre tudo neste mundo. E para o meu pai, mãe, irmãos e parentes, ah, meus vizinhos também. Pronto, Lô.
- Prossiga… por favor.
- Bem, Lô, neste mundo de especialistas em tudo, nesta época que pede de todos, quer dizer, quase todos, um enfoque, um approach [sic], um corte e-pis-te-mo-ló-gi-co, entendem, vocês da platéia?
[Caras a ver navios. Ou de paisagem. Apenas alguém lá no fundo emite um “A-hã” não muito convincente].
- … Pois bem. Neste cipoal, nesta cacofonia de especialidades, nesta balbúrdia que é o mundo das especialidades infinitas, pois infinito é o espírito humano, tinha que haver alguém especialista em especialistas, ora. Por que não um especialista especial [sic], um profissional de sensibilidade apurada, de interesses multifacetados, que categorizasse e colocasse ordem, através de sofisticadas ferramentas taxonômicas, neste caos? Quais seriam, responderia esse profissional altamente útil para a ordem pública, os tipos de especialistas? Pois, vejam bem, aqueles profissionais especialistas nos mais vastos campos do saber que frequentemente são chamados para dar palpites em nossos programas televisivos, muitos deles não sendo nada idôneos para a empreitada, e isso percebemos com dois minutos de fala, realmente sabem aquilo que alegam saber? Falta um profissional que fiscalize essa gente toda, alguém que, ainda que não tenha o saber total de uma área, mas que tenha um feeling, um faro para a coisa, saiba detectar os charlatães que grassam por aí, sobretudo aqueles que vêm de universidades de fundo de quintal, nenhum deles de uma USP, UNICAMP, Harvard já seria pedir demais, não, enfim, os autodidatas fajutos e mequetrefes, com perdão da palavra horrorosa, que estão aí em busca dos holofotes.
- Quer dizer que o senhor ganha a vida em busca dos falsos especialistas?
- Isso e muito mais, não seja tão simplista, Lô, por favor.
- Não, não estou sendo simplista.
- Está sim.
- Não, não estou. Apenas quis colocar as coisas de uma forma que nossa atenta platéia aqui e de casa possa entender.
- Você adora tutelar seus espectadores, diga-se.
- Senhor Menezes, por favor.
- E por falar nisso, senhor Lô, estamos há muito tempo de olho em você.
- Jura? Que bom! Estou na televisão desde… nossa, há muitos anos!
[Explosão de gargalhadas. Assobios. Algumas pessoas chegam a chorar. Por alguns minutos o caos reina. Enfim, a calmaria volta]
- [Impassível] Há muito nossa célula de estudos [sic], senhores espectadores, chegou à conclusão, já que estamos tendo a oportunidade de falarmos aqui de forma transparente, se o senhor me permite…
- … Claro, claro!
- … pois bem, há muito chegamos à conclusão de que o senhor, lamento dizer isso, mas temos uma obrigação de prestação de serviço público…
- Diga, senhor Menezes, o Brasil quer saber. Te peço por gentileza para prestar esse serviço.
- Chegamos à conclusão de que o senhor é um pedante e falso especialista nos mais variados assuntos.
[Um “Ohhhhhhh” se condensa e se materializa. Pode-se senti-lo no ar. Os rostos ficam petrificados. O apresentador recebe como um golpe baixo aquilo. O ar azeda. Definitivamente].
- Quer dizer que o senhor vem ao meu programa, falar com a minha platéia, no meu espaço, para me ofender?
- Apenas disse a verdade. Era minha obrigação.
- Obrigação, sua obrigação.
- Confesse, o senhor nunca entendeu de acasalamento de marimbondos nem tampouco de literatura guatemalteca nem de cinema afegão. Seu conhecimento de jazz é cheio de lacunas. Seu inglês tem erros crassos. O senhor finge bem. Seu ego é desproporcional ao seu físico.
[ As pessoas não piscam. Os câmeras não sabem quem focalizar em busca do maior efeito. O entrevistado agora saca de seu laptop e começa a ler alguma coisa. Todos ouvem. O entrevistador faz cara de poser. Por dentro, é nítido seu rancor].
- “Confundiu o primeiro ministro da Bielo-Rússia com um ator pornô. Confundiu as capitais do Zimbábue com a de Ruanda. Inventou um movimento cinematográfico que não existiu na China. Trocou os nomes de escritores, telas de pintores, deu um passado guerrilheiro a Bach, entre outras atrocidades”. É por essa e por outras, senhor Lô Varela, que eu, em nome de todos os especialistas em especialistas, te dou este cartão vermelho simbólico. Passe muito bem!
[Letreiros sobem. Chamada do próximo programa. Quem está no estúdio fica atônito ao ver o entrevistador ser contido à força, gesticulando e totalmente alterado. O entrevistado, conversando ao celular, recebe parabéns dos quatro cantos do país. Ele vira um herói entre a platéia, que é persuadida de tudo que ele disse. E é requisitado sempre que se precisa desvendar os falsos especialistas. Esperamos que ele venha a conhecer este blogue. Só assim o autor deste espaço será impedido de continuar com estes posts tão imaginativos, mas tão bestas].
Add comment novembro 19, 2009
OS TEMPOS LOUCOS (Conto à la Pier Paolo Pasolini)
UM HOMEM ESBAFORIDO e desalinhado tentou um refúgio numa igreja. Era um final de manhã de segunda-feira, período em que os fiéis quase não apareciam.
O padre aquela hora estava exausto depois de uma noite que passara com a família de um homem em estado terminal. Após a extrema-unção, abençoara a todos, tomara conta das formalidades para o velório e o enterro e finalmente tomara o rumo da sua pequena sala na igreja. Ali, cochilara por meras duas horas e fora então acordado pela algazarra dos pássaros, o barulho dos motores e vozes matinais.
Após suas abluções costumeiras, foi até a cozinha comer algo. Esticando-se, cantarolou baixinho algum cântico e foi para a nave principal. Ao chegar lá, notou apenas o homem esbaforido que parecia assustado, ainda que sentado silenciosamente. Padre há muitos anos, não demorou para notar que o acuado ser de aparência desleixada não rezava coisa alguma. O religioso apenas tossiu baixinho e começou a fazer suas rezas, não sem manter um olho de soslaio na intrigante figura.
De repente, o solitário visitante emitiu um som, uma espécie de resmungo. O padre imediatamente se levantou e foi ao encontro do homem.
-
- Bem, em que posso te ajudar, em nome do Senhor? – disse o padre.
- Padre, o mundo tem que parar!
E o representante de Deus na Terra viu naquele par de olhos o desespero, o brutal desespero. Sem saber o que lhe responder, primeiro achando que aquele homem estava possuído por alguma entidade maligna, para logo em seguida ver ali apenas a angústia mais exacerbada. Uma alma doente, apenas aquilo.
-
- Como podemos, meu filho, querer parar o mundo? Deus o pôs para girar e só nos cabe fazer o que Ele nos manda: viver aqui e seguir suas ordens.
- Não, padre, o mundo está louco. O mundo está doente. E com ele, todos nós. Essa monstruosidade que assola o mundo é consequência direta dessa loucura que está entre os quatro cantos deste planeta habituado por essas criaturas, nós, padre, nós! Todas as loucuras podem acontecer sob o sol, todas!
Foi o suficiente para o padre, disfarçadamente, apertar um botão de emergência para que o segurança, escondido em algum lugar, ficasse atento. O homem em desespero olhava nervosamente para as mãos calejadas e não dizia nada mais. Ficou observando as imagens e os vitrais e apenas se via o ritmo alterado de sua respiração.
-
- Meu filho, só nos resta rezar. O mundo é isso. Sempre foi assim.
- Não, não é! – despertou o homem, gritando e gesticulando. Não é mesmo. Somos joguetes de nossa própria psique doentia, de nossa própria doença que é só nossa, padre, só nossa! Nos habituamos a isso, mas temos que voltar às origens, temos que começar do zero, entendeu? Do zero, só nos resta isso!
- Quem lhe colocou isso na cabeça?
- Do zero, padre. E não tente fugir das consequências. Você e a sua religião e todas as outras dos quatro cantos deste mundo vil tentam colocar na cabeça de todos que este mundo é assim e sempre será apenas para servir aos interesses de suas religiões, só isso!
- Você blasfema na casa do Senhor!
- Não blasfemo. A blasfêmia é contra o ser humano, essa é a maior blasfêmia que existe. E é tudo que as religiões fazem! Blasfemam contra o ser humano ao tentar enquadrá-lo num estado de coisas que não condiz com a realidade. Tentam encaixar os pobres mortais em suas – de vocês, religiosos! -, concepções alienantes e, através das repetições, inculcar em todos a patranha, a baboseira, o nonsense que o mundo é assim, que vivemos em um mundo que funciona assim, loucamente. Pra vocês, a loucura é intrínseca ao mundo. Quando na verdade não é. Somos nós que estamos doentes. Portanto, já estou terminando, não precisa ficar tremendo, padre, portanto, dizia eu, a doença está em nós, é algo contingente, não estamos fadados a viver nesse caos para o resto de nossas vidas. E não temos o porquê de…
Foi quando, saindo de trás de uma das pilastras, estimulado pelo olhar de consentimento do padre, um imenso segurança, chegando por trás do homem, o agarrou e, lhe dando uma “gravata”, o impediu de concluir o que dizia. Rendido, ele só pôde olhar o padre e arremessar um projétil em forma de saliva. O segurança lhe apertou o braço e assim, vencido pela dor, foi arrastado para fora da igreja. Curiosos haviam chegado. O padre, assustado e vermelho, quase oprimido por um violento tremor interno, sentou-se numa cadeira e logo uma mulher idosa lhe veio abanar. Mais uma vez, agora já distante, ele ouviu a voz do homem. Ele só não entendia o que aquele ser tão alucinado em suas certezas dizia. Em breve, o som de sirenes de polícia o fizeram ter a certeza que enfim as coisas estavam voltando ao seu normal.
Mas elas não estavam. Naquela noite, depois de se debater na cama por horas a fio e suar muito febrilmente, mesmo com o sono acumulado, o padre foi à rua. O vento e a chuva não o impediram de sair. Caminhando em direção ao centro, praticamente o único vulto a vagar por ali, ele foi direto a uma casa mal iluminada por fora. Entrando pelos fundos, captou o som de vozes, mulheres, principalmente, que riam. Som de música profana, palavrões aterrorizantes, fumaça de cigarro, tudo lembrava que ali era uma casa de tolerância. Ao se deparar com alguns bêbados na porta, o padre abaixou a cabeça e, no escuro, aproveitou para entrar. Dali, foi direto a um quarto que dava para uma escadaria. Ele foi subindo, num escuro total, apalpando o corrimão. Ao entrar numa sala mal iluminada, não viu ninguém ali. Sentou-se a uma poltrona e pôs-se a meditar. Era evidente que conhecia o lugar. De repente, uma voz feminina perguntou pelo seu antigo codinome.
-
- Sim, sou eu.
- Mas quanto tempo, o que te fez assim se lembrar das minhas adoráveis amigas? E o senhor não tinha se arrependido? Bom filho à casa volta, não? – perguntou ela, com o deboche tomando a forma de um sorriso quase sem dentes.
- Me traz a mais novinha!
- Como?
- A mais novinha.
- Mas o senhor costumava dizer que sua consciência não permitia tanto. O senhor dizia que nunca ia querer uma das meninas abaixo dos quinze. O que te fez mudar de ideia, homem de Deus?
- Anda logo.
- Peraí, um momento. E como saber que o senhor não vai pifar? -, disse ela, rindo baixinho.
- Tenho pouco tempo, anda, criatura!
- Tá, tá, entendi. Mas…
- … mas coisa nenhuma!
- Bem, é que a mais novinha aqui tava reservada pro dono da padaria da praça.
- Qual a idade dela, qual a idade dela?
- 16, senhor. Nossa, ui, como estamos!
- Me traz, pago mais que ele.
- Sendo assim…
Depois de perceber que o homem estava falando sério, a mulher foi buscar a garota. Não demorou muito, ambas apareceram. A cafetina falou qualquer coisa em particular para a garota e por fim a deixou com o homem.
-
- Minha filha, vem aqui, seja boazinha. Não tenha medo, o padre vai te dizer uma coisa nos seus ouvidos, vem. O mundo está louco, é por isso que estamos aqui.
A cama rangendo, a luz apagada, o suor, a luz fraca que vinha da janela, uma nesga do céu, galhos de uma árvore sacolejando ao vento, o ronco de desejo cego do homem, os gritos abafados de uma menina, as pernas velhas entre as dela, a dor, o cheiro de perfume antigo, a carne flácida contra a carne jovem, o grito, a dor, o peso em cima dela, o corpo de velho que parara de respirar, o grito de desespero da menina, a porta que se abre, a luz que se acende, gente que entra, espantos ao reconhecer o homem morto, vítima de um esforço físico imenso, a garota nua, com o lençol cobrindo suas partes íntimas, o crucifixo no peito do morto, o escândalo, os tempos loucos.
Add comment novembro 18, 2009
