Ao ver-te, vejo-me. Ou: a eterna busca da imagem própria nos outros

      Fenômeno dos dias atuais, praga da modernidade, conseqüência da exacerbação e da extensão do próprio umbigo, meta dos incluídos, quimera dos excluídos, Santo Graal dos fanáticos por celebridades, é de fácil constatação. O sujeito, ou a “sujeita”, em tudo o que faz, em tudo o que pretende fazer, em tudo o que fará, quer se ver “refletido” e “refletida” no outro. Quer um espelho no outro. Quer que tudo e todos sejam apenas e tão-somente um reflexo, uma extensão e um prolongamento de si mesmos. Pode-se argumentar que tal “prática” existe desde que o mundo é mundo. Concordo. Mas acho que a situação degringolou, tomou ares de pandemia. Se procuro uma “tribo”, ela tem que ter elementos de mim. Se freqüento “panelinhas”, é porque elas trazem em sua essência algo que está entre os elementos que me definem. Os amigos e amigas apenas o são pelo fato de serem antes sósias meus, gêmeos e caras-metades meus e minhas. Até aí nada que seja o fim do mundo. O problema está na intensidade que tal transferência se dá. O amor, por exemplo. Claro, isso não é novidade para ninguém: ama-se porque o objeto de nosso amor é, na verdade, alguém que traz em si algo que me diz respeito. (Falemos claramente: amamos na verdade a nós mesmos). Mas, reconheçamos: sempre foi assim. Ok. Mas recomendo fazer uma análise do seu objeto de afeição: tem um dedo seu ali, há uma partícula de você ali, há um elemento que lhe diz respeito ali. Não custa nada. É fácil.
      Mas voltando ao assunto. Quase todos nós, hoje em dia, queiramos ou não, chafurdamos nessa busca pela própria imagem nos outros. Ou seja, pela desesperada procura da ressonância de nosso próprio eu no mundo, nos outros. Quem estaria imune a esse “distúrbio” seriam os magnânimos, os desinteressados deste mundo, os abnegados convictos. Sim. Eles e elas existem!  Palmas para esse povo!
      No entanto, faça uma análise (palavrinha mágica) e você constatará tal fenônemo. Muito provavelmente a abnegação passa longe de você. Sorry…

Gianfrancesco, o Grande

   Gianfrancesco Guarnieri morreu ontem aos 71 anos. Figura carismática, dramaturgo engajado, ator genial. Não vi a peça. Mas o filme Eles Não Usam Black-Tie, do começo dos anos 80, é um clássico.

   Eis duas frases desse milanês de nascimento:
  “A questão da transformação, eu acho que continua. Não escrevo nada que não vá transformar. Agora, ao mesmo tempo, não posso me esquecer daquela tendência à ingenuidade na nossa juventude. De achar que vai dar tudo certo, é assim mesmo, ah, não tem galho, porque a gente sempre termina ganhando. Depois, percebemos que não era nada disso. O que realmente não admito é deixar a bola cair. Há momentos em que cai; puxa, tudo é uma bosta. Mas isso é um momento e, depois, deixa de frescura, bicho, vai em frente”.

  ”E tem o lado que eu me preocupo cada vez mais, que é com as grandes questões filosóficas, os porquês disso, daquilo. De onde vem a vida? Vou lá saber… Aí começo a rir. Perguntar para mim mesmo é covardia. E é lindo você pensar de onde veio e para onde vai. Eu talvez me preocupe mais para onde vou. Mas sei que para onde vou terei uma calma. Se você me perguntar se tenho medo da morte, não tenho, me enturmo com o que vier. Eu tenho medo do sofrimento. Eu sei que o que vier vem de bom”

  Humaníssimo! Ciao, Francesco!

Presságio

       Filomeno saiu mais cedo para o trabalho naquele dia. Até que tô disposto, hoje. Como de costume, fez suas orações em frente da imagem do santo que ficava no canto da sala. Sentou-se à mesa. Seus quatro filhos beijaram-lhe a mão. Rezaram em agradecimento ao café da manhã que Deus nos deu, a gente tem que agradecer sempre, amém! E levantou-se. Beijou a mulher. Despediu-se de cada um dos garotos. Pegou o guarda-chuva e a bolsa. E partiu para a construção. Era pedreiro.       

     Chegando à rua, sentiu algo diferente no ar. Ao passo que avançava, e cruzava com gente a caminho do trabalho, bom dia!, foi pensando no quê poderia de haver de tão diferente, era mais um dia como outros, não tô vendo nada de mais!     

     Quando chegou ao ponto de ônibus lotado, foi ficando mais sombria sua carantonha inchada. Tô devendo pra alguém? Tô. Mas tá tudo em dia, então não sei. Matei alguém? Roubei? Não! E quanto mais ele analisava as coisas, mais perdido ficava, pois a sensação de estranhamento continuava à espreita. O coletivo chegou. Abarrotado. Foi, por sorte, um dos primeiros a subir. Todo mundo mal-humorado. Mal se olhavam. Uma nuvem a pairar por cima daquela gente. E partiu o ônibus. Lá ia a boiada. Para o abatedouro. Mais um dia começava para valer. E nada de Filomeno descobrir o motivo daquela sensação angustiante de estranhamento. Mas será um mau pressentimento que tô tendo, Santo Deus? Me cobre com teu sangue, Jesus! E o ônibus cruzava a cidade. Letreiros. Placas. Comércio de todo tipo. E vou descer no próximo ponto, ufa, parece uma lata de sardinha isso. Pronto. Sinal dado. Tô descendo. Eu e mais aquela mulher mais gorda que … deixa pra lá.     

     Na rua. Ia descendo a ladeira. Entrou numa rua grã-fina. De longe viu a construção em que estava trabalhando. Que crescia do dia para a noite. Essa gente que tem dinheiro consegue fazer as coisas, é só elas quererem mesmo, Santo Deus! Olha só: isso era só mato esses dias.     

     Foi o primeiro a chegar. Sentou-se numa tora de madeira. Pegou a bolsa. Dentro dela, o rádio de pilha. Ligou-o. “… de uma leitora que assina com o nome de Deusa Apaixonada. Ela quer ouvir…”. A canção saltou do rádio. Espalhou-se pela construção. Foi até o outro lado da rua. Filomeno ficou ali, olhando para o monte de pedra e areia. Com o pensamento perdido. Mas ainda não passou essa sensação! Que é isso, Virgem Amada, nunca fui dessas coisas! Parece um não sei o quê! Minha família não tem carência brava de nada. A gente vai se virando como pode. Os meninos tão na escola. A mulher ajuda na igreja. A gente até mesmo às vezes ajuda os mais carentes. Eu mesmo já fiz várias ações na igreja, sempre quando posso. Meus filhos não têm do que reclamar do pai. Nem da mãe. A vida a gente encara. Medo de gente não tenho. Nem do batente. Vou ensinar para os meus filhos a minha profissão pra que eles tenham um ganha-pão certo e garantido, com a ajuda de Deus. Trabalho pra mim não falta. Vivo com dignidade. A gente é pobre mas não miserável. A gente pode ficar de cabeça em pé. Não tem por que se envergonhar de nada. A gente anda na linha. E respeita as regras da sociedade. Todo domingo é nós na igreja. Mas… mesmo assim. Mesmo assim essa sensação cá dentro, uma coisa ruim, é como se … num sei, tô fazendo tanta coisa neste mundo, me desdobrando, me matando de trabalhar… É como se eu quisesse de repente largar tudo. Ir pra outro lugar. Ver outra gente. Viver outra vida. Credo, o que tô falando, Virgem Santa! Mas… que é verdade, caramba! Tô cansando dessa vidinha, dessa merda toda, cara de desconfiança dos outros quando entro numa loja, pensam que não reparo o jeito deles me mirar da cabeça aos pés? Tô é cansado de encher laje, misturar areia e cimento, carregar saco de cimento, ralar no sol mais bravo do meio-dia. O Zeca meu filho me contou que na escola a professora disse que os sapatos dele já tinham nascido com ele, vejam só… Mas, Virgem Santa, quanta baboseira passa na minha cabeça. Isso tudo num leva a nada. Assim Deus quis, assim será. A gente não tem que se revoltar com isso não. Do contrário a gente só se ferra. É só ver o exemplo desse bando de revolucionário que só se ferra, que vive indo pro xilindró por causa de protestar, de ir contra o chefe, essa baboseira toda! Mas no fundo é isso: eu que sou um frouxo, eu que sou um acomodado, eu que num sirvo pra defender meus companheiros, quero tudo já feitinho, tenho mais é que lutar, xingar esses exploradores, bando de salafrários, que só sabem nos ferrar, enquanto os filhos e as mulheres deles tão lá no bem bom… Meu Deus, tô ficando louco? Cadê a bondade, a humildade que os santos ensina pra gente, cadê? Acho que dormi muito tarde ontem e de bucho cheio. Deve ser isso. Dormi porcamente!      

     E assim Filomeno foi aos poucos saindo do transe. Aumentou o radinho. Uma música em outra língua dizia I just called to say I love you e que fez Filomeno se lembrar da infância. Eu lembro dessa música, faz tempo. Nessa época eu só soltava pipa… Não queria muito saber de escola. E olha o resultado.       

     Os outros trabalhadores chegaram. A labuta começava. O trabalho rendia. O suor aumentava.

     A fome também. Filomeno pegou a marmita e foi para debaixo de uma árvore. E pôs-se a comer. Ao terminar a refeição, a sensação de estranhamento voltou. Mais intensa. Não sei o que é mesmo. Alguma coisa me incomoda. E muito!   

     Voltou ao trabalho, contudo.    

     Por volta das três horas, sol inclemente, quando Filomeno terminava a décima-primeira fiada de blocos de uma parede, em pé num andaime, ouviu a parada brusca de um carro. Filomeno parou o serviço. Viu que alguém do outro lado da construção acenava para ele. Desceu do andaime. Ainda incerto se era com ele mesmo. Ao chegar perto do carro branco com placas oficiais, na porta a inscrição SERVIÇO SOCIAL. A SERVIÇO DA PREFEITURA, uma mulher bem vestida veio ao seu encontro.     

     - O senhor é o Filomeno Rodrigues de Souza?   

     - Sim, senhora.   

     - Pode nos acompanhar? Somos do Serviço Social. É sobre sua família.     

     Um raio caiu nele.    

     - O que..      

     – Seja forte, sr. Filomeno.   

     - Mas…   

     Ele entrou no carro. O motorista o olhou com compaixão. Entre, seu Filomeno. No banco de trás, teve ainda num relance a visão de seus colegas de trabalho paralisados, um com a enxada nas mãos, outro apoiado na pá, outro pendurado num fio, outro em cima da construção, todos olhando, todos imaginando o pior, todos sentindo-se um só na certeza de que algo muito ruim acontecera com um deles, podendo muito bem ter sido um deles.     

     - Sr. Filomeno, sua casa desmoronou hoje, na hora do almoço. Todos que estavam na casa, reunidos à mesa, vieram a falecer. A prefeitura lamenta e irá lhe prestar todo o apoio neste momento tão difícil.   

     Numa fração de segundos, Filomeno percebera tudo: a casa estava comprometida nas estruturas, com rachaduras sérias. Na semana anterior, ficara sabendo que no terreno vizinho ao seu, iriam, naquele dia, pôr abaixo uma construção de dois andares, para, no lugar, construir uma casa nova. Ele, como pedreiro experiente, sabia que sua habitação não iria resistir aos solavancos e golpes das máquinas demolidoras. Não dissera nada a ninguém da família, nem sobre a necessária mudança, visto que seria impossível conseguir dinheiro em tão pouco tempo para a reforma que impediria o desabamento. Nem o tempo hábil para a reforma em si. Mas poderia, isso sim, tirar a família dali ao ver a movimentação das demolidoras. De forma que fora por sua culpa, por sua cabeça fraca, que sua família teve o fim que teve.     

     Ao chegar, viu o monte de entulhos que se transformara sua casa. Carro de bombeiros. Polícia. Muitos curiosos. Mas não era visto com reprovação por ninguém. Pois ninguém sabia da verdade.     

     - Seu Filomeno, diz uma palavrinha para a TV Jopeabá, por favor.      

     Flashes. Rostos estranhos. Sol. Calor. Tontura. Fraqueza súbita. Desmaio.

   - Pobre homem, mas não teve culpa nenhuma, coitado.

O conflito israelo-libanês

   

   Israel foi atacado na quarta-feira, 12, quando o Hezbollah invadiu o norte do país, matou 8 soldados e capturou outros dois, exigindo em troca a libertação de presos. De lá para cá, como se tem visto, Israel vem atacando o Líbano como uma forma de punição por Beirute ter supostamente dado abrigo à facção xiita. Mas, ao invés do Hezbollah, é a população civil libanesa que tem tido as maiores baixas. Já foram cerca de 300 mortos (8 brasileiros) nesta que é talvez uma das mais fortes reações israelenses. Por outro lado, civis israelenses também perderam suas vidas, como conseqüência dos atos tresloucados do Hezbollah de lançar foguetes (mais de 1500) sobre as cidades de Israel. Agora, qualquer “preferência” por um dos lados é algo extremamente delicado. Mas fica no ar a pergunta: não estaria Israel sendo radical demais, ao atacar de forma desproporcional o Líbano? (Israel faz um jogo de palavras dizendo que a proporcionalidade se dá não entre os fatos mas entre a ameaça representada pelo Hezbollah e o direito israelense de se defender (sofisma sutil). Ou seja: arrasar a infra-estrutura libanesa é a melhor maneira de liqüidar o grupo xiita? Que culpa têm os civis, de ambos os lados, frise-se? Não acho, contudo, que igualar o Hezbollah e o governo de Israel seja algo vantajoso para se entender o conflito. Israel é uma nação que tem todo direito à existência, isso é ponto pacífico entre aqueles que buscam ser honestos na análise. E o país tem o direito de se defender. Mas acredito que há limites impostos pelo bom senso, pelo senso de humanidade e acima de tudo pelo respeito aos povos. Que Israel está sendo atacado de forma covarde pelos foguetes do Hezbollah não há como negar. E fica cada vez mais claro quem está por trás mesmo desse ato criminoso xiita: o Irã e a Síria.

   A situação é grave. Morrem inocentes. De ambos os lados. Mas um dos agressores são fanáticos destituídos de qualquer preocupação com o respeito ao próximo, cegos que estão e imbuídos pelo ódio mais reprovável e mesquinho. De outro lado, temos uma nação que respeitamos, um povo de uma tenacidade admirável. Mas cujo governo mancha essa imagem quando move mundos e fundos para resgatar dois militares ao preço de quase 300 vidas e, segundo Israel, para se autodefender. E me pergunto: se o Hezbollah é tão conhecido assim, há tanto tempo, como o Mossad, o serviço secreto israelense, tão sofisticado, não detectou neste tempo todo onde de fato estão as forças do grupo xiita? Ou seja, com tanta parafernália moderna e de última geração (e pensemos nos satélites cada vez mais precisos) e com tanto tempo para espionar o “Partido de Deus”, qual a razão dos ataques a esmo, a fazer sofrer uma nação que estava com muitas dificuldades se reerguendo depois de quinze anos de guerra civil?  Só para mostrar força? Só por causa da pusilanimidade de seu governo essa população, a libanesa, tem de sofrer todos esses horrores?   O Hezbollah tem que ser extinto. Seja pela via da força, mas de forma precisa, cirúrgica, o que é desejável, seja pela via da diplomacia, o que é quase quase impossível. Israel tem que ser protegido. Mas não com esses ataques que apenas fazem sofrer uma população indefesa, que não pode pagar por viver lado a lado com facínoras xiitas.  

   Que se encontre uma saída. Tão logo quanto possível!                        

O domador de palavras

 

  Li na Folha nesta quinta que Mr. Lula da Silva disse anteontem que desaprendeu a fazer campanha, visto que o exercício da função de presidente é por demais absorvente de sua atenção. Ele disse isso com outras palavras, mas o sentido é esse. Bem, podemos tirar várias conclusões dessa fala presidencial. Primeira: imagina se ele não tivesse se desdobrado tanto, se esfalfado tanto, coitado, o governo correria o sério risco de ser menos eficiente, já imaginou que trágico? Segunda: vai imaginando se ele aprender a fazer campanha. Terceira: ele tem um talento nato para a semântica: consegue distorcer o sentido das palavras. O menos vale mais, o mais vale menos e assim vai… Quarta:juro que não pensei sob estímulos etílicos. Estou sóbrio ao traçar estas linhas. Eu. Quinta: começou para valer o show. Sexta: eu acredito em duendes. Sétima: Zinedine Zidane fecha em segredo um contrato com o time do São José. Oitava: o presidente apenas estava lendo o manifesto do Surrealismo redivivo.   E la nave va…

Shit happens

Para quê todo o espanto sobre o que revelaram os indiscretos (seria obra dos fantasmas da KGB?) microfones russos durante a reunião do G8? Ali apenas pudemos ver com mais precisão e surpreendente franqueza nas mãos de quem estamos: George Walker Bush, o mais intelectualizado, o mais sutil e articulado imperador que o mundo já teve, digo, presidente americano que já passou pela Casa Branca. Saudades daqueles imperadores do antigo Império Romano! Eles pelo menos teriam uma visão mais apurada e elegante dos seus dominados… E olha que não tinham ar-condicionado nem a parafernália civilizatória de hoje…

De sanguessugas, atual legislatura e outras coisas repugnantes

  Manchete do Estadão de ontem: Sanguessugas: Para CPI, Todo o Congresso é Suspeito

  Eis minha pequena contribuição à discussão transcendental da política de Pindorama:

 (Mas antes um aviso àqueles que lêem as coisas literalmente. Os que não têm um tantico só de convivência com o irônico. Essas frases são apenas uma brincadeira, uma invenção, não refletem minha opinião. São fictícias, certo? De mentirinha. Até porque eu usaria melhor a Última Flor do Lácio).

    “Ouvi dizer que tem uma categoria que está para entrar na justiça pedindo ressarcimento por danos de imagem: o SSPG, o Sindicato das Sanguessugas e Parasitas em Geral. A categoria está possessa. ‘Uma infâmia!’ Juro!” 

  “Quem elege tal Congresso por tal Congresso será f*d*d*” 

   “Diga-me quem tu elegeste que direi que culpa tens no cartório”. 

  “A democracia no Brasil está nas últimas mesmo: ela foi levada de ambulância para o pronto-socorro. Dizem que não tem jeito pra ela não! Coitadinha, viveu tão pouco!” 

  “Nada de pessimismo, gente: há sempre a esperança de a próxima legislatura ser melhor. Na ruindade”. 

  “Somos os melhores no que há de deplorável na pior das políticas”. 

  “Esta legislatura não existe. É um pesadelo coletivo. Tem que ser!” 

  “Fala a verdade: eles são insuperáveis!”

Já me enchi!

   Que tal a imprensa gastar menos tinta com o caso Suzane? Tudo bem que é um caso que mexe com um sem-número de questões complexas. Mas que tal enxergarmos outras tantas coisas que nos atravancam o caminho? Certo. O papel da imprensa é informar, concordo. Mas que há um exagero isso há. Ela e os dois irmãos fizeram uma coisa erradíssima, injustificável sob todos os aspectos, selvagem e cruel. Que paguem por isso. Agora, a vida continua. Há coisas mais relevantes a se tratar. Para mim, basta!

Ela é cool!

  Começa a esquentar a corrida eleitoral. Com a pesquisa Datafolha desta quarta-feira, ficamos quase combinados que teremos segundo turno. Quanta gentileza, dona Helô! A senhora é um amor! Desse jeito viro seu fã. Continue tirando votos do Apedeuta, combinado?

Política é tudo. Tudo é política.

   Para a maioria dos brasileiros, política é algo distante e que não lhe diz respeito. É artigo de luxo para os “desocupados lá de Brasília”. Experimente fazer o seguinte: pegue um ônibus, sente-se confortavelmente, até onde isso for possível, abra seu jornal na parte de política e mergulhe na leitura. Em pouco tempo, você será olhado como um marciano. Na concepção popular, nada mais destoante: um sujeito lendo sobre política num ambiente popular, refúgio dos homens e mulheres do povo, essa abstração generalizadora e por isso mesmo equivocada. Pois o povo é constituído de gente de todas as esferas sociais, de todos os extratos de que se compõe uma sociedade. Mas, em que pesem alguns clichês naquela visão de um “coletivo popular”, o que talvez seja reduntante, como a Meca do povo, o que há, vimos bem, é o contraste entre a concepção da política do “homem da rua”, e tudo que diz respeito a essa idéia prenhe de equívocos, e a condição mesma, a “vida como ela é” desse ser destituído (sempre segundo os estereótipos) de preocupações abstratas que é esse homo popularis.
   Se isso é deletério entre adultos, imagine entre os jovens!
   Acompanhar política é um dever de todos nós. Aqui, eu poderia lançar mão daquele poema do Bertolt Brecht ultraconhecido, que, resumidamente, nos mostra que a política está por trás de tudo que fazemos, sobretudo daquelas coisas que nos afetam como cidadãos. Por isso, neste ano eleitoral, e não apenas nele, devemos erguer nossas antenas, captar o que dizem os políticos, o que fazem, o que deixam de fazer, o que diz a imprensa, vasculhar as coligações partidárias, escarafunhar “aquele” político, o passado “daquela” prefeita, o que disse lá atrás aquele candidato a reeleição etc. Devemos também estar de olho, de preferência sempre, nas questões geopolíticas. Tudo isso é política. Tudo isso nos diz respeito. E é tudo que os maus políticos não querem que façamos. Eles querem a visão popular da política como algo do interesse privativo de uma minoria e escandalosamente incompatível com a vida atribulada e terra-a-terra dos mortais cá fora, longe daquele lugar, Brasília e seus prédios míticos, vistos como uma miragem, tão distantes da vidinha severina do povo. Distância essa tanto física quanto abstrata. “Esquecem-se” eles, os maus políticos, que tudo aquilo está a nosso serviço, pago pelo dinheiro de nossos impostos.
   Portanto, arregaçe as mangas. Informe-se sobre política. Leia a parte de política antes de qualquer outra. E faça-o na presença de outras pessoas, se puder. Talvez seu exemplo, mínimo que seja, leve outras pessoas a ver a política não como picuinhas inúteis, mas como um instrumento de mudança, de aperfeiçoamento e de engrandecimento das nossas instituições, que se não forem objeto de nosso zelo, talvez sejam apropriadas pelos maus políticos. Do contrário, teremos a política que merecemos.
   Politize-se!

 

Abismos

   Ao som de Coltrane, a fumaça do cigarro baila languidamente. Trago e prendo, no mais recôndito dos meus pulmões estropiados, o veneno com suas inúmeras substâncias cancerígenas. Penso na iminência do fim de tudo. É aí que trago mais fundo. Para me auto-imolar? Para me deparar com o irremediável o mais breve possível? Não sei. Aliás, não me importo. Há quem se importe com este monte de ossos e nervos e mazelas existenciais, este caco humano? O senso de gratuidade e inutilidade que perpassa tudo e todos me atordoa. Faço um passeio mental e (re)vejo e (re)vivo cada instante desta minha existência inútil. O absurdo dela. Os coices levados. As porradas tomadas e as desferidas. As vingançazinhas nunca realizadas. Os projetozinhos natimortos. As balelas de crenças estúpidas. A tacanhice alheia. A minha própria. Os rancores mal-sanados. As energias mal-canalizadas. As frustrações bem-delineadas. As carências mal-resolvidas. Os temores acalentados. As esperanças tornadas latrinas. As palavras pseudo-românticas. As canalhices. As ações supérfluas, as próprias e as de outrem. As amizades falsas. As inimizades verdadeiras. As agressões contidas. A inabilidade para lidar com o normal, com tudo aquilo que esteja dentro dos limites do previsível. As putarias representadas pela fatuidade que sempre me caracterizou tão bem. Os ressentimentos de toda ordem. Os despeitos de todo tipo. Os ensaios de gratidão para com a humanidade. Todos falhos. As demonstrações de apreço tornado fel. Os sorrisos forçados. As formalidades sempre odiadas mas mesmo assim seguidas à risca. E os arrependimentos mil. E a total ciência da absurda impossibilidade de voltar atrás. A negação da chance de se consertar as asneiras. E, acima de tudo, o raio que cai: a sensação opressora de que tudo há de voltar, de que todas as fraquezas humanas hão de se repetir e se renovar apenas na aparência. O que nos espera é a certeza de que estamos presos a um ciclo de misérias. É a perenidade do precário inerente ao nosso existir, neste mundo, o único mundo, palco de infelizes, onde os atores são tão reais que radicalizam o conceito aristotélico de mimese. Somos atores fadados a representar ad infinitum nossa própria miséria.   

Esvazio a garrafa de uísque. Abro o segundo maço de cigarros. Olho a vagabunda que achei na noite imunda. Ela dorme sem consciência da pobreza existencial que nos ronda a todos.    

 Pego o notebook no criado-mudo. Abro-o. Num instante estou online. Entro num site de busca. Procuro um site de uma igreja, qualquer igreja, pois todas não se igualam na quimera de possuir a resposta para a dor da existência? Acho o site de um padre. Deixo uma mensagem no fórum de leitores. Minha pergunta modesta: “Escórias! Não há como vocês pararem com esta embromação toda? Vocês sabem, têm que saber, que a vida é só dor, auto-enganação, absurdo, que a crença no além e num ente superior é fraqueza de caráter!  Passem a se ver como são: poeira cósmica, títeres do acaso, pumpets das contingências! TEM COMO?” ************************************************************     O TEXTO ACIMA FOI ENCONTRADO NO DISCO RÍGIDO DO COMPUTADOR DO DR. ANTÔNIO SIMPRANO, RENOMADO PSICANALISTA, AUTOR DE VÁRIOS LIVROS SOBRE JACQUES LACAN. SUA MORTE, EM DECORRÊNCIA DO ATO TRESLOUCADO DE SE ARREMESSAR SOB AS RODAS DE UMA CARRETA NA VIA DUTRA, A TODOS CHOCOU.   A ÚLTIMA FRASE DO MATERIAL COLHIDO PARA ANÁLISE É DE UMA OBSCURIDADE ÍMPAR: “Vou provar a gratuidade de tudo e de quão submissos estamos às circunstâncias atrozes. Serei alçado à categoria de mártir!”.

 

Quando a derrota é nobre

 Tivesse jogado a seleção “canalhinha”, digo, a seleção canarinho, 1% do que jogou Portugal, seria o paraíso.

 Não deu, Lusos irmãos. Não deu, Felipão. Vocês, contudo, perderam,  mas não se entregaram; não estão na final, mas deram o máximo, mostrando disciplina tática e espírito de equipe. Parabéns para todo o povo da Terrinha.  Seus atletas serão recepcionados como heróis, não como estrelas  decadentes, destituídas de tudo aquilo que chamamos de brio. (Atenção: não generalizo nas minhas críticas à seleção. A essa altura, todos sabem quem ali pipocou, quem lutou, quem, enfim, “honrou a camisa”).

 Agora é a final entre a “zurra” e os “bleus”, que jogaram hoje bem menos do que contra o Brasil, mas ainda assim de forma hercúlea.

 Sou “azurra” pelo povo italiano, expansivo e cordial, com sua cultura, sobretudo seu cinema fantástico. Dá-lhe Itália!!!

O osso escafóide

      Era um osso escafóide. Que havia se cansado de sua reles condição. Almejava uma nova carne. Readaptar-se a uma estrutura tenra. Perder-se numa imensidão frouxa. Ajustar-se a um contexto maleável. CARNALIZAR-SE. Assim, numa odisséia irrefreável, o osso lançava mão de sua vontade de poder. Era tudo ou nada! Lá foi o osso em busca de uma carne, de um novo hábitat, de uma dimensão à qual pudesse pertencer e, pertencendo, integrar-se a uma estrutura que solapasse sua tendência de outrora à auto-marginalização.

     O osso não conseguiu seu intento, não exatamente. Fora parar na boca fétida de um vira-latas em Munique. Não era necessariamente o que almejava há tanto tempo. Mas, eis que o osso foi triturado. Dividido em vários. Fragmentou-se. E dessa maneira, vingou-se do animal e do mundo: a lasca daquilo que um dia fora um osso, e que guardava a consciência pregressa do osso-em-si, fincou-se na garganta do cão que, tendo uma hemorragia, foi-se desta para outra pior ainda.

      O osso escafóide, quem diria!, o osso, ou aquilo que fora um osso, jaz, hoje, no fundo da terra, destino de todas as carnes. Todas!

A vitória da persistência e da técnica sobre a moleza e a ruindade

Não foi possível parar os bleus. Aliás, não foi possível, ao time brasileiro, jogar futebol, mostrar raça, empenho e buscar o gol. A França fez por merecer. Cobrança de falta do artista-mor, Zidane, Henry, livre na área, vindo de trás, um salto, um golpe certeiro e lá se foi o sonho do hexa.

Agora será um show de lavagem de roupa: vamos ver nos próximos dias os supostos “podres” virem à tona. Refiro-me àquela busca tradicional pelos “culpados”: pressões externas, “panelinhas”, patrocinadores descontentes e por aí vai. Menos o essencial: o fato patente da péssima atuação, de novo diante da França, que, aliás, jogou com garra, com objetividade, não se curvou à superioridade chinfrim do time canarinho.

Parreira, por sua vez, demorou em mexer no time. Quando o fez, já era tarde. Tragicamente tarde.

Mas, daqui a alguns anos, quando eu me lembrar desta Copa, rapidamente virá à minha memória as atuações de Zé Roberto e Lúcio, gigantes, gerreiros.

Agora é voltar para casa.

Agora é voltar para a vida.

Sou Portugal desde pequeno, ora, pois!

Você merece, Felipão!!!

Parabéns, França. Mas você não será páreo para o Povo da Terrinha.

Sou mais Camões!

“As armas e os barões assinalados…”.