Filomeno saiu mais cedo para o trabalho naquele dia. Até que tô disposto, hoje. Como de costume, fez suas orações em frente da imagem do santo que ficava no canto da sala. Sentou-se à mesa. Seus quatro filhos beijaram-lhe a mão. Rezaram em agradecimento ao café da manhã que Deus nos deu, a gente tem que agradecer sempre, amém! E levantou-se. Beijou a mulher. Despediu-se de cada um dos garotos. Pegou o guarda-chuva e a bolsa. E partiu para a construção. Era pedreiro.
Chegando à rua, sentiu algo diferente no ar. Ao passo que avançava, e cruzava com gente a caminho do trabalho, bom dia!, foi pensando no quê poderia de haver de tão diferente, era mais um dia como outros, não tô vendo nada de mais!
Quando chegou ao ponto de ônibus lotado, foi ficando mais sombria sua carantonha inchada. Tô devendo pra alguém? Tô. Mas tá tudo em dia, então não sei. Matei alguém? Roubei? Não! E quanto mais ele analisava as coisas, mais perdido ficava, pois a sensação de estranhamento continuava à espreita. O coletivo chegou. Abarrotado. Foi, por sorte, um dos primeiros a subir. Todo mundo mal-humorado. Mal se olhavam. Uma nuvem a pairar por cima daquela gente. E partiu o ônibus. Lá ia a boiada. Para o abatedouro. Mais um dia começava para valer. E nada de Filomeno descobrir o motivo daquela sensação angustiante de estranhamento. Mas será um mau pressentimento que tô tendo, Santo Deus? Me cobre com teu sangue, Jesus! E o ônibus cruzava a cidade. Letreiros. Placas. Comércio de todo tipo. E vou descer no próximo ponto, ufa, parece uma lata de sardinha isso. Pronto. Sinal dado. Tô descendo. Eu e mais aquela mulher mais gorda que … deixa pra lá.
Na rua. Ia descendo a ladeira. Entrou numa rua grã-fina. De longe viu a construção em que estava trabalhando. Que crescia do dia para a noite. Essa gente que tem dinheiro consegue fazer as coisas, é só elas quererem mesmo, Santo Deus! Olha só: isso era só mato esses dias.
Foi o primeiro a chegar. Sentou-se numa tora de madeira. Pegou a bolsa. Dentro dela, o rádio de pilha. Ligou-o. “… de uma leitora que assina com o nome de Deusa Apaixonada. Ela quer ouvir…”. A canção saltou do rádio. Espalhou-se pela construção. Foi até o outro lado da rua. Filomeno ficou ali, olhando para o monte de pedra e areia. Com o pensamento perdido. Mas ainda não passou essa sensação! Que é isso, Virgem Amada, nunca fui dessas coisas! Parece um não sei o quê! Minha família não tem carência brava de nada. A gente vai se virando como pode. Os meninos tão na escola. A mulher ajuda na igreja. A gente até mesmo às vezes ajuda os mais carentes. Eu mesmo já fiz várias ações na igreja, sempre quando posso. Meus filhos não têm do que reclamar do pai. Nem da mãe. A vida a gente encara. Medo de gente não tenho. Nem do batente. Vou ensinar para os meus filhos a minha profissão pra que eles tenham um ganha-pão certo e garantido, com a ajuda de Deus. Trabalho pra mim não falta. Vivo com dignidade. A gente é pobre mas não miserável. A gente pode ficar de cabeça em pé. Não tem por que se envergonhar de nada. A gente anda na linha. E respeita as regras da sociedade. Todo domingo é nós na igreja. Mas… mesmo assim. Mesmo assim essa sensação cá dentro, uma coisa ruim, é como se … num sei, tô fazendo tanta coisa neste mundo, me desdobrando, me matando de trabalhar… É como se eu quisesse de repente largar tudo. Ir pra outro lugar. Ver outra gente. Viver outra vida. Credo, o que tô falando, Virgem Santa! Mas… que é verdade, caramba! Tô cansando dessa vidinha, dessa merda toda, cara de desconfiança dos outros quando entro numa loja, pensam que não reparo o jeito deles me mirar da cabeça aos pés? Tô é cansado de encher laje, misturar areia e cimento, carregar saco de cimento, ralar no sol mais bravo do meio-dia. O Zeca meu filho me contou que na escola a professora disse que os sapatos dele já tinham nascido com ele, vejam só… Mas, Virgem Santa, quanta baboseira passa na minha cabeça. Isso tudo num leva a nada. Assim Deus quis, assim será. A gente não tem que se revoltar com isso não. Do contrário a gente só se ferra. É só ver o exemplo desse bando de revolucionário que só se ferra, que vive indo pro xilindró por causa de protestar, de ir contra o chefe, essa baboseira toda! Mas no fundo é isso: eu que sou um frouxo, eu que sou um acomodado, eu que num sirvo pra defender meus companheiros, quero tudo já feitinho, tenho mais é que lutar, xingar esses exploradores, bando de salafrários, que só sabem nos ferrar, enquanto os filhos e as mulheres deles tão lá no bem bom… Meu Deus, tô ficando louco? Cadê a bondade, a humildade que os santos ensina pra gente, cadê? Acho que dormi muito tarde ontem e de bucho cheio. Deve ser isso. Dormi porcamente!
E assim Filomeno foi aos poucos saindo do transe. Aumentou o radinho. Uma música em outra língua dizia I just called to say I love you e que fez Filomeno se lembrar da infância. Eu lembro dessa música, faz tempo. Nessa época eu só soltava pipa… Não queria muito saber de escola. E olha o resultado.
Os outros trabalhadores chegaram. A labuta começava. O trabalho rendia. O suor aumentava.
A fome também. Filomeno pegou a marmita e foi para debaixo de uma árvore. E pôs-se a comer. Ao terminar a refeição, a sensação de estranhamento voltou. Mais intensa. Não sei o que é mesmo. Alguma coisa me incomoda. E muito!
Voltou ao trabalho, contudo.
Por volta das três horas, sol inclemente, quando Filomeno terminava a décima-primeira fiada de blocos de uma parede, em pé num andaime, ouviu a parada brusca de um carro. Filomeno parou o serviço. Viu que alguém do outro lado da construção acenava para ele. Desceu do andaime. Ainda incerto se era com ele mesmo. Ao chegar perto do carro branco com placas oficiais, na porta a inscrição SERVIÇO SOCIAL. A SERVIÇO DA PREFEITURA, uma mulher bem vestida veio ao seu encontro.
- O senhor é o Filomeno Rodrigues de Souza?
- Sim, senhora.
- Pode nos acompanhar? Somos do Serviço Social. É sobre sua família.
Um raio caiu nele.
- O que..
– Seja forte, sr. Filomeno.
- Mas…
Ele entrou no carro. O motorista o olhou com compaixão. Entre, seu Filomeno. No banco de trás, teve ainda num relance a visão de seus colegas de trabalho paralisados, um com a enxada nas mãos, outro apoiado na pá, outro pendurado num fio, outro em cima da construção, todos olhando, todos imaginando o pior, todos sentindo-se um só na certeza de que algo muito ruim acontecera com um deles, podendo muito bem ter sido um deles.
- Sr. Filomeno, sua casa desmoronou hoje, na hora do almoço. Todos que estavam na casa, reunidos à mesa, vieram a falecer. A prefeitura lamenta e irá lhe prestar todo o apoio neste momento tão difícil.
Numa fração de segundos, Filomeno percebera tudo: a casa estava comprometida nas estruturas, com rachaduras sérias. Na semana anterior, ficara sabendo que no terreno vizinho ao seu, iriam, naquele dia, pôr abaixo uma construção de dois andares, para, no lugar, construir uma casa nova. Ele, como pedreiro experiente, sabia que sua habitação não iria resistir aos solavancos e golpes das máquinas demolidoras. Não dissera nada a ninguém da família, nem sobre a necessária mudança, visto que seria impossível conseguir dinheiro em tão pouco tempo para a reforma que impediria o desabamento. Nem o tempo hábil para a reforma em si. Mas poderia, isso sim, tirar a família dali ao ver a movimentação das demolidoras. De forma que fora por sua culpa, por sua cabeça fraca, que sua família teve o fim que teve.
Ao chegar, viu o monte de entulhos que se transformara sua casa. Carro de bombeiros. Polícia. Muitos curiosos. Mas não era visto com reprovação por ninguém. Pois ninguém sabia da verdade.
- Seu Filomeno, diz uma palavrinha para a TV Jopeabá, por favor.
Flashes. Rostos estranhos. Sol. Calor. Tontura. Fraqueza súbita. Desmaio.
- Pobre homem, mas não teve culpa nenhuma, coitado.