Fenômeno dos dias atuais, praga da modernidade, conseqüência da exacerbação e da extensão do próprio umbigo, meta dos incluídos, quimera dos excluídos, Santo Graal dos fanáticos por celebridades, é de fácil constatação. O sujeito, ou a “sujeita”, em tudo o que faz, em tudo o que pretende fazer, em tudo o que fará, quer se ver “refletido” e “refletida” no outro. Quer um espelho no outro. Quer que tudo e todos sejam apenas e tão-somente um reflexo, uma extensão e um prolongamento de si mesmos. Pode-se argumentar que tal “prática” existe desde que o mundo é mundo. Concordo. Mas acho que a situação degringolou, tomou ares de pandemia. Se procuro uma “tribo”, ela tem que ter elementos de mim. Se freqüento “panelinhas”, é porque elas trazem em sua essência algo que está entre os elementos que me definem. Os amigos e amigas apenas o são pelo fato de serem antes sósias meus, gêmeos e caras-metades meus e minhas. Até aí nada que seja o fim do mundo. O problema está na intensidade que tal transferência se dá. O amor, por exemplo. Claro, isso não é novidade para ninguém: ama-se porque o objeto de nosso amor é, na verdade, alguém que traz em si algo que me diz respeito. (Falemos claramente: amamos na verdade a nós mesmos). Mas, reconheçamos: sempre foi assim. Ok. Mas recomendo fazer uma análise do seu objeto de afeição: tem um dedo seu ali, há uma partícula de você ali, há um elemento que lhe diz respeito ali. Não custa nada. É fácil.
Mas voltando ao assunto. Quase todos nós, hoje em dia, queiramos ou não, chafurdamos nessa busca pela própria imagem nos outros. Ou seja, pela desesperada procura da ressonância de nosso próprio eu no mundo, nos outros. Quem estaria imune a esse “distúrbio” seriam os magnânimos, os desinteressados deste mundo, os abnegados convictos. Sim. Eles e elas existem! Palmas para esse povo!
No entanto, faça uma análise (palavrinha mágica) e você constatará tal fenônemo. Muito provavelmente a abnegação passa longe de você. Sorry…
Arquivado como:Indagações supérfluas, Reflekissões