Sobre os vários eus

 

“Esses eus de que somos feitos, sobrepostos como pratos empilhados nas mãos de um empregado de mesa, têm outros vínculos, outras simpatias, pequenas constituições e direitos próprios – chamem-lhes o que quiserem (e muitas destas coisas nem sequer têm nome) – de modo que um deles só comparece se chover, outro só numa sala de cortinados verdes, outro se Mrs. Jones não estiver presente, outro ainda se se lhe prometer um copo de vinho – e assim por diante; pois cada indivíduo poderá multiplicar, a partir da sua experiência pessoal, os diversos compromissos que os seus diversos eus estabelecerem consigo – e alguns são demasiado absurdos e ridículos para figurarem numa obra impressa”.

Virginia Woolf, in ‘Orlando’

2 Respostas

  1. Mr. Elienai, repito-lhe:

    “Sou composição de outros vários
    Ser colcha de retalhos…”

    Porém acho que os Eus não são absurdos e ridículos para figurarem numa obra impressa, pelo contrário, talvez seja o melhor lugar para eles poderem figurar, se-não, onde? Talvez num cômico manicômio… O que se chama de arte é o meio de expressão dos Eus absurdos e ridículos… Mas isso, cá entre nós, depende bem do ponto-de-vista dentro de dada cultura, não? Quer mais absurdo e ridículo do que a própria vida! Talvez o menos ridículo e absurdo seja justamente o oposto… Ah, sei lá – aliás, “sei lá” está na moda… Basta. Abraço.
    Excelente imagem a do blog…

  2. Brilhante, Sr. Sérgio!
    Agora, felizes, no sentido não-consumista e pequeno-burguês do termo, são aqueles hóspedes dos manicômios deste vasto mundo, pois estão livres das amarras conceituais que nos agrilhoam. Podem ser o que quiserem: Napoleões, Hitlers, Generais, o que bem desejarem, mesmo que apenas no plano imaginário, seja lá o que isso significar para quem tem as faculdades mentais comprometidas. Enquanto que nós, os racionais, os supostamente racionais, temos, sob nossas cabeças, a espada do dever: temos que, cada um, lançar mão de nossas limitadas máscaras, nossa persona, e sermos apenas um neste imenso baile de máscaras que é a farsa desta vida em sociedade.
    Quanto à proximidade arte-loucura, procuro ficar cada vez mais insano. Quero a loucura total! Vive la art!
    Um abraço!

    PS.: atendendo a pedidos, sobretudo já antecipando o trabalho dos historiadores e arqueólogos cibernéticos da posteridade, estou escrevendo, como deve ter percebido, com mais freqüência aqui. Mas acredito que eles, se se basearem neste blog, vão ter uma visão no mínimo sui generis da humanidade… E nada otimista.
    E o MÁSCARAS ÓBVIAS anda nada óbvio. Parabéns!
    Elienai Araújo

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