Regime de castas: yes, nós temos

A questão do salário pornográfico dos 2.978 funcionários da Justiça chega às raias do escárnio. Num país de tantas mazelas [Vejam bem: de tantas mazelas é diferente de com tantas mazelas. Essa última construção passa a idéia de uma possível transitoriedade, de algo que pode ser sanado, ao passo que a primeira, que é o caso do Brasil, mostra um problema crônico, estrutural, permanente e mais arraigado], das mais variadas formas, esses magistrados, pensionistas e servidores da ativa e aposentados, bem como desembargadores, que ganham acima, muito acima do teto, se acham especiais demais, o supra-sumo do gênero humano. Eles refletem uma “disfunção” bem nossa conhecida. Ganhar tanto assim, até R$ 34.814,61 (Na boa, sem demagogia: estes centavinhos fazem falta para muita gente), é desfrutar de uma série de mordomias de uma casta privilegiadíssima de seres humanos. Nossos marajás têm mais vigor, mais status, mais grana e mais suntuosidade do que os de lá, da Índia. E muito mais insensibilidade também. Mas acabam aqui as comparações. Naquele país asiático, a divisão da sociedade em castas está associada a um aspecto histórico-cultural-religioso-sociológico e pode ser compreendida nesse âmbito. Ao passo que aqui, nesta terrinha brasilis, a clivagem se dá na base da esperteza, da institucionalidade do jeitinho, graças à interpretação pseudocientífica da lei. É todo um aparato para legitimar a velha e boa vigarice. Vá ver se em país sério acontece isso. É mais um produto com a marca registrada deste imenso, feliz, carnavalesco, pujante e lindíssimo país do futuro. País de frouxos.

Com brasileiro, não há quem possa. Nem o risco remotíssimo de darmos certo…

Sem título. Pois sem sentido.

 

Uma vez, apenas uma vez, eu a vi sozinha. Sempre estivera rodeada de amigas. Puxa-sacos. Admiradores. Baba-ovos. Pretendentes. Baladeiros de todas as tribos. No entanto, daquela vez, milagrosamente, “desnaturalmente” (contra-senso monstruoso!), ela estava só. Ninguém mais a não ser sua sombra a acompanhava. Fiquei a olhá-la de longe. Ela caminhava meio cabisbaixa. Faltava-lhe um elemento. Ela estava destituída de sua essência: os outros. Eles a completavam, a afirmavam, a definiam. Sem eles, ela apenas vagava, perambulava e flanava amorfamente, sem uma identidade certa. Era o vácuo. E nele, e com ele, ela seguia em frente. De vez em quando olhava ao redor, como a implorar que devolvessem, sim!, de-vol-ves-sem o que lhe pertencia! Mas não. Ninguém a conhecia. Era mais uma anônima. Mais um fantasma vagando. Sem personalidade.

Eu a vi só. Tive esse privilégio.

Que não durou muito.

Ela caminhava. Parou em frente a uma loja de espelhos. Mirou-se. Daquele jeito que as mulheres fazem tão bem. E aconteceu: ela riu para si mesma. E mandou um beijo. Para ela mesma. E riu de novo. E sacudiu os cabelos. E os prendeu. De novo daquele jeito femininamente fatal. Transfigurara-se: não podia ser mais a mesma de poucos minutos atrás!

E de certa forma não era mesmo.

Girou nos calcanhares. E se foi. Busto erguido. Impavidamente feminina.

Daquele momento em diante, os outros eram os outros. Era como se ela, epifanicamente, tivesse se conhecido naquele instante único. Aliás, todos os instantes são únicos.

Nunca mais a vi.

Dizem que ela, hoje, está se tratando. Sofre de narcisismo agudo. Falam que mata…

 

Baseado livre e porcamente no conto O Espelho, do Machadão (só para os íntimos).

Ao som de John Matisse Coltrane, A Love Supreme e Countdown

A arte de John Coltrane e uma reflexão acerca da estultice louçã

 

Ouvir John Coltrane é renovar continuamente nossos conceitos do que é sonoridade inventiva. É se deparar com uma riqueza musical altamente criativa e genial. Você percebe as nuances, as fugas do lugar-comum, a mente privilegiada de um artista em forma musical, borbulhando, at work. Houvesse uma escala literária para julgar outras artes, Coltrane sem dúvida estaria no mesmo patamar que James Joyce. A linguagem musical daquele jazzista é um mergulho profundo, como o do irlandês, num mundo de arabescos, labirintos e caleidoscópios expressivos.

E olha que tem gente que acha “esses caras que tocam jazz no sax um bando de ultrapassados músicos de baile da terceira idade“. Foi o que ouvi ao “provocar” um roqueiro esses dias. Ele tem por volta de vinte anos. Ao perguntar o que ele achava do jazz, ele me saiu com a frase acima. Há argumentos, pergunto, contra a estultice? A idade, claro, não é critério para nada. Há pessoas que conseguem, precocemente, ter uma maior sensibilidade para as artes. Mas são poucas.

Ah, para se entender de arte tem que se ter acesso a ela, não se limitar a estereótipos…

Mas, aos vinte, ainda tem-se o direito de ir com a manada.

Ao som, claro, de Coltrane, Acknowledgement (live) e Pursuance (live)

Existe remédio para a superficialidade?

Eis uma pergunta que me faço constantemente. Está aí um mal que aflige a “humanada” (termo cunhado pelo meu amigo Sérgio Pontes, do blog coletivo - clique: - Máscaras Óbvias): a superficialidade. Todo mundo hoje tem seu momento “asco à profundidade”. Uns mais, outros menos. O que nos leva a agir assim? A pressa inerente a esses tempos modernos? Acho que não necessariamente. Ser supérfluo é uma condição sine qua non (ok: uma condicionante intrisecamente ligada a seu predecessor argumentativo… Melhorou, vai!) para se viver nesta selva? O que você, caro leitor, meiga leitora, que venha a se deparar com este blog sui generis e metido a besta, acha (m) sobre tal candente assunto? Tem remédio para essa praga moderna?

Quer exemplo do mal em questão? Vá a uma livraria. Disfarça. Veja que a maioria das pessoas manuseia apenas os livros de auto-ajuda, que não são necessariamente um poço de profundidade analítica. Outro: faça uma experiência na porta de um cinema comercial da vida. Peça uma opinião a alguém sobre o filme que acaba de ser visto. A não ser que o Sol esteja girando ao redor da Terra (para o Copérnico girar na tumba também), muito provavelmente, com honrosas exceções (e bota honrosas nisso!), você será agraciado (a) com as respostas mais… superficiais. Tal mal (olha o eco [e a sinestesia imprópria também!], escriba de meia-tigela! Cadê o estilo?) atinge gente de todos os credos, de todos os níveis sociais, nacionalidades etc…

Bem, o post vai ficando longo. É que tentei não parecer superficial.

Continuo o assunto em breve. Mas, se quiser, deixa um comentário aí. QUAL O ANTÍDOTO PARA ESSA SÍNDROME DO SUPERFICIAL? COMO FUGIR DESSA PRAGA DO EGITO?

PS.: Sobre o assunto, tenho cá minha opinião (de)formada por muita refleksssção. E essa acontece nos momentos mais impróprios, juro.

 

Ao som de Coltrane, Impressions, Cousin Mary e Giant Steps

Por que…

… eu tenho que conviver comigo mesmo? O meu “eu” resume-se a isso com o qual estou tão acostumado, ou é apenas a ponta de um iceberg: é tão-só a manifestação restrita de um fenômeno maior, mais amplo e imensurável? Trago em mim outros “eus” mais toleráveis?

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Gente, juro que não bebo nem consumo nada ilegal a não ser meus devaneios…

 

Ao som de Thelonious Genial Monk, Functional

Billie era (é) única


BILLIE HOLIDAY. É difícil acreditar que tal ser divino passou por aqui, esta terrinha fútil, frágil e abarrotada de mesquinharias. Mas ela existiu. Ela foi uma exceção. E viveu de forma louca. E sofreu um bocado. E superou sua condição de mulher e negra, no início do século passado, num país então provinciano, racista, tolo e puritano. Mas ela insistiu. Foi enganada por maridos cafajestes, alcoólatras, drogados, espertalhões, entre outros. Pequena, foi obrigada a prostituir-se. Foi estuprada. Viu  e viveu o diabo neste mundo. Mas persistiu, não de forma moralista. Cantou a alma de forma pungentemente atormentada. Fez disso arte pura. Viveu o que cantou.

Nunca vi uma cantora que soube , como ela, com as nuances melódicas, os gestos, o olhar, a voz (a voz!) enfim, expressar tanto a alma humana, ou a ruína que pode alcançar a alma humana. Ela era e é única. Tornou-se um mito. Para mim, seu lugar é lá no Olimpo. Ao lado de todas as divindades. À altura de todos os deuses. Quaisquer deuses.
As drogas e a bebida (cujos efeitos devastadores já são visíveis aqui, na voz e no olhar de Billie) a levaram. Sua vida sempre foi em descompasso com o mundo, mas no ritmo da vida.
A letra de STRANGE FRUIT (veja aqui), que ela canta (que conceito limitado quando se trata de Billie Holiday!), para quem não sabe, é de uma poesia atroz. Há um pouco de tudo ali. Uma das mais complexas canções americanas.
Para quem nunca viu Lady Day atuando (sim, deuses são performáticos), eis uma raridade.

Goebbels faz escola e o respeito às criaturinhas mimosas, fofas e meigas

No ESTADÃO de hoje:

 “Garcia rejeita tese de ‘despetização’ do governo”

Para presidente petista, campanha se baseia na idéia, segundo ele falsa, do aparelhamento

Na primeira reunião do diretório do PT após a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o presidente interino do partido, Marco Aurélio Garcia, minimizou a tese sobre ‘despetizar’ o governo. ‘Fala-se dessa despetização quase como se tratasse de desratizar algo’, reagiu. [Assinante Estadão pode ler a íntegra aqui]

 

Comentário: A tal da idéia falsa sobre a qual fala o sr. Marco Aurélio é tão falsa mas tão falsa que é realmente uma calúnia com o “pobre” Partido dos Trabalhadores. Tadinho do PT! Vítima outra vez da mídia burguesa…

Cinismo assim nunca vi! Os caras (me refiro aos petistas, claro), por onde passam, aparelham tudo. E ainda não vêem o óbvio. Mentem, mentem, mentem compulsivamente que chegam a fingir que é mentira o que de fato é mentira!

Quanto ao termo despetização versus desratização, calma lá! Os queridos animais roedores não podem ser rebaixados assim. Respeito é bom e vamos manter o nível. Igualar categorias tão distintas assim é uma afronta aos animaizinhos…

 

Ao som de Claude Debussy, Préludes I: La fille aux cheveux de Lin

Só se surpreende quem era por demais ingênuo

Editorial da FOLHA deste domingo é leitura obrigatória. Retrata muito bem o momento pelo qual passa nosso Grande Guia. Trechos em azul abaixo.

Minha opinião: Há alguma coisa errada com ele? Não. Tudo sempre esteve ali às claras, só não viu quem não quis. Ou era por demais ingênuo. Essas idas e vindas do Apedeuta; esses discursos populistas e demagogos; esse falso messianismo; essa mania de grandeza; essa “postiça franqueza” sobre o desconhecimento de soluções para os mais que necessários crescimento e desenvolvimento econômicos; essa ladainha toda é um epifenômeno apenas de uma tragédia maior: é a pura constatação da mediocridade de um Presidente que só sabe manipular os mais fracos, engabelar os pseudo-sábios, irritar aqueles que têm discernimento crítico e encher as burras de uma minoria.

O rap da empulhação

Lula venceu, pede propostas, pede mais crescimento, não sabe a quem, não sabe como e gira em círculos

VITORIOSO NAS eleições, o presidente Lula passou a trilhar nas últimas semanas um percurso melancólico. Investe o capital obtido nas urnas em promessas vagas e messiânicas de aceleração do crescimento econômico, enquanto a realidade dos acordos partidários se impõe no tráfico fisiológico de sempre. [...] O lema da retomada do crescimento se repete com a monotonia de um rap, de uma ladainha, de uma ação de graças: Lula venceu, quer o crescimento, não sabe como, pede propostas, ministros virtuais se apressam, são tímidos e medíocres, Lula não está contente, Lula pede mais propostas, seus aliados pedem mais cargos, Lula pede mais crescimento, não sabe a quem, não sabe como.
Nesse nauseante bate-estaca se apresenta, enfim despojado dos marqueteiros, o político que a maioria reconduziu ao Planalto: desnorteado e conciliatório, vago de propostas e confuso, girando em torno do próprio eixo no ritmo da empulhação.

A íntegra para assinantes FOLHA está aqui.

Ao som de Joseph Haydn, Sinfonia nº 96, “Milagre”

Nulidades

O que fazer quando vemos a tela em branco, o papel vazio? As idéias não vêm. Não sabemos de onde partir. Em que naco de realidade (tão vasta, tão multifacetada!) nos concentrarmos?

Ok: vou escrever sobre este vazio. Aliás, sobre o Vazio. Este post é  uma metáfora dos tempos modernos, nada menos do que isso. Tal ousadia não é ousadia coisa nenhuma. É ver apenas o óbvio. É enxergar com óculos que nos possibilitam ver o que é patente. A saber: o vazio em que vivemos, o pós-tudo, o mal do século XXI é este: parte-se do nada, caminha-se por coisa nenhuma e chega-se ao vazio total de propósitos.

O resto é (veja a concordância conceitual!) lacunas, labirintos. Variações do nada.

Frases geniais – 2

Sabemos dizer: ‘Cícero diz assim’; ‘eis as regras de Platão’, ‘são as próprias palavras de Aristóteles’. Mas e nós, o que dizemos nós mesmos? o que pensamos? o que fazemos? Um papagaio falaria igualmente bem. [...] Atentamos para as opiniões e o saber dos outros, e isso é tudo. É preciso fazê-los nossos. [...] Tanto nos deixamos levar nos braços de outros que anulamos nossas forças. Desejo armar-me contra o temor da morte? faço-o à custa de Sêneca. Quero obter consolação para mim ou para um outro? tomo-a emprestada de Cícero. Tê-la-ia buscado em mim mesmo se me tivessem treinado para isso. Nâo gosto dessa competência relativa e mendigada.

Mesmo que pudéssemos ser eruditos com o saber de outrem, pelo menos sábios só podemos ser com nossa própria sabedoria.”

                                Michel de Montaigne

Trecho de Ensaios

Abaixo gente-esfinge!

Tem gente que se esmera na arte de ser esfinge: nada de um simples sorriso, um singelo balançar de cabeça, um reles esboço de contentamento ao ouvir o interlocutor.

Um mal-humor crônico. Uma capacidade imensa de irradiar antipatia, caretice. Uma não menos incomensurável incapacidade de mostrar empatia; de que aquilo que o intelocutor diz tem o mínimo de importância, mesmo que seja para discordar, para dizer, pelo gesto: “Ok, o que você diz, o que você faz, tem importância para mim. Você, como meu semelhante, mesmo que tenha opiniões contrárias às minhas, mesmo que seja diferente de mim exteriormente, mesmo que não tenha nada de nada, mesmo que na escala de valore$ humano$ tenha participação irrisória, mesmo assim, pode falar, pode fazer o que estava fazendo, eu estou aqui para te passar um retorno.”

Ser frio, ponderado, enigmático é uma coisa. Ser desrespeitosamente frio é outra bem diversa. Ser (ou querer) blasé a ponto de humilhar outros é intolerável.

E aqui não vale apelar à tolerância acima. Tais pessoas são uma exceção àquela regra: ao anular o outro a priori, as pessoas em questão perdem o direito de usar tal justificativa.

Lembremos o Imperativo Categórico de Kant: “Age de tal forma que a norma de tua conduta possa ser tomada como lei universal”.

Imaginaram um mundo de gente-esfinge? Totalmente inviável…

Receita para uma vida tranqüila

 

  • Suspenda o senso crítico. Se não o tiver, nem ouse buscar adquiri-lo.
  • Jamais tente ir além dos seus parcos recursos intelectuais.
  • Nada daquele papo de transcender aquilo que o glorioso determinismo mais reducionista nos impõe: o meio em que você está inserido e sua “história de vida” determinam o que você é. Traduzido em termos de mpb: “Eu nasci assim, vou ser sempre assim, Gabriela…”.
  • Fuja e corra da leitura dos grandes autores; do cinema que faz pensar (ok, reclamações e contestações ao bispo); da arte, enfim, que conteste, que critique, que ponha no chão as certezas e os dogmas empoeirados.
  • Leve os desaforos para casa. Dê carinho a eles. Alimente-os. Faça amor com eles.
  • Se entupa de fast food. Fume e beba em demasia, se imaginando uma estrela de filme noir
  • Freqüente bailes funk e de pagode.
  • Evite a parcimônia. Em tudo.
  • Leia mais blogs como este.
  • Faça meditação ao som de Tiririca.

Se não surtir efeito, mude a ordem. Até dar certo. Se der, não esqueça de me pagar os direitos autorais.

O que fazer quando…

• você está caminhando numa rua movimentada e acha (ou melhor: TEM CERTEZA!) que seu zíper está aberto?

• encontra um conhecido (a) cujo nome você, pobre coitado (a), por nada neste mundo, é capaz de lembrar?

• está numa livraria e sua grana tá curtíssima (as usual!), o que o (a)impede de levar aqueles dois livros que você acha (ou melhor: TEM TOOOOODA CERTEZA!) que estão ali justamente pra você?

• acabam os créditos do telefone (no celular ou no público), e você está no meio de um monte de gente desconhecida? Xingar? Fingir uma tosse?

• seu amigo, conhecido, seja o que for, lhe recomenda “aquele” filme: um enlatado e grande representante do cinemão americano? Dizer para o interlocutor que tua praia é Truffaut, Bergman, Godard, Antonioni et caterva…?

• ouvir no rádio do ônibus ou da van um funk de quinta? Ou um pagode insuportável? Descer do veículo e mandar todos para o Miles que os pariu? Ou para o Haydn que os parta?

Da necessidade de ostentação.

Há, atualmente, uma necessidade incoercível de ostentação. Buscamos, de todo modo, de todas as maneiras, sempre, a qualquer hora, e lugar, mostrar nossa suposta superioridade em algo. Nossa suposta importância. O quão especiais somos. O quão distantes estamos do rés-do-chão. Da gentalha. Do vulgo. Dos destituídos de tudo. Seja a “disputa” mais fútil (minha bolsa é de marca, enquanto a sua…) até a mais “superior” (somos bem-sucedidos em tudo, os aristocratas do gênero humano, o ápice na escala de “valores” humanos).

Mesmo que não tenha nada de nada, desde que eu tenha um amigo, uma amiga, dono ou proprietária de alguma coisa supostamente valiosa, de um bem qualquer, eu, o pé-rapado, passo, por transferência, a estar no patamar dos importantes. Supostamente importantes. Eis algo que pode ser constatado a qualquer momento. Em qualquer lugar.

Já fez, como este que “vos” fala, sua ostentaçãozinha hoje? Vai lá! Depois você escreve relatando seu testemunho nas mensagens deste post. Aproveita que a audiência é planetária.

Sob a luz de Hopper

 

Poucos retrataram a solidão, o vazio e o nonsense existencial da vida urbana de forma tão magistralmente realista como Edward Hopper. E tudo filtrado por uma luz que remete a uma melancolia poética.

Suas landscapes são também de tirar o fôlego. Ao apreciar seus quadros, não há como não se ver “dentro” deles.

Para descobrir o nome e o ano de cada trabalho, descanse o cursor sobre a imagem. E boa viagem! 

New York Movie, 1939

 

Rooms by the sea, 1951 

 

Sunday, 1926

 

Nighthawks, 1942

 

Cape Cod Afternoon, 1936

 

Chop Suey, 1929

Voltando ao normal

Ontem, o Windows Live Writer estava com um problema sério. Depois de reclamar  em um fórum da Microsoft, parece que, graças à ajuda de colegas que usam o WLW pelo mundo afora, e que tinham o mesmo problema, as coisas voltaram ao normal. A união fez a força… once again.

Do mais, nada de novo. Mais um domingo tranqüilo. Ontem assisti a dois filmes: Os Sonhadores, de Bertolucci e Estorvo, de Ruy Guerra. Ambos originais.

Prossigo com a leitura de jornais e do velho Sig.

Ao som de Norah Jones, “Feels Like Home”.

Leituras 1

A Interpretação dos Sonhos, de Sigmund Freud

 

Trecho que (entre muitos outros) me chamou a atenção até o momento:

 

O modo como a memória se comporta nos sonhos é, sem sombra de dúvida, da maior importância para qualquer teoria da memória em geral. Ele nos ensina que “nada que tenhamos possuído mentalmente uma vez pode se perder inteiramente” (Scholz, 1893, 59); ou, como o exprime Delboeuf [1885, 115], “Que qualquer impressão, mesmo a mais insignificante, deixa um traço inalterável, indefinidamente passível de voltar à luz”.

Volume IV, Primeira Parte, Capítulo 1: O Material dos Sonhos – A Memória nos Sonhos

A eterna nova ordem

 

 

Sou da geração que, em meados dos anos 80, saía dos cueiros e começava a cair na noite, ficava até tarde fora, freqüentava as casas noturnas, e, em suma, curtiu um bocado os estertores da “década perdida”. Certo: hoje tudo isso é trivial. Mas naquela época, com a ditadura já como uma lembrança agourenta, para nós que tivemos uma educação aburguesada, certinha, quase mimada, ser movido à música e viver de dance music, vivendo loucamente as noites da vida, com a febre dos djs (aliás, ser dj foi, durante um tempo da minha vida, um sonho bestinha. Nada contra os djs: é que para um tímido incorrigível, como eu, seria algo meio surreal), aquilo tinha um gostinho de rebeldia. Na trilha sonora daqueles tempos já (precocemente) tão distantes, sem dúvida a banda inglesa New Order (que está no Brasil e faz show neste instante no Rio) com os vocais inconfundíveis de Bernard Sumner, tem um lugar privilegiado na minha memória afetiva. Sucessos como Blue Monday, The Perfect Kiss, Round & Round, True Faith (nessa eu delirava!) Bizarre Love Triangle, entre outros, marcaram toda uma geração. Ah, elas, essas músicas, são as minhas madeleines sonoras, repercutindo proustianamente, entre muitas outras… E tem mais: foram com elas que comecei a me alfabetizar no inglês, idioma que faz exatos oito anos que ensino.
Gee, como uma coisa puxa outra…
Abaixo, um trecho de Bizarre Love Triangle. Cansei de “cantá-la” naqueles idos de 88 e 89.
Ah, old times…

 

Every time I think of you
I get a shot right through into a bolt of blue
It’s no problem of mine but it’s a problem I find
Living a life that I can’t leave behind
There’s no sense in telling me

The wisdom of a fool won’t set you free

But that’s the way that it goes

And it’s what nobody knows

And every day my confusion grows

Every time I see you falling

I get down on my knees and pray

I’m waiting for that final moment

You’ll say the words that I can’t say

 (…)
 
 E o refrão de Round & Round:
 
The picture you see is no portrait of me

It’s too real to be shown to someone I don’t know

And it’s driving me wild

It makes me act like a child

Para os sétimo-selistas e bergmaníacos doentes

 

   

  Tal montagem foi escaneada da revista Piauí do mês de outubro. Quem assistiu O SÉTIMO SELO de Ingmar Bergman várias vezes  e é absolutamente fanático (o caso deste que “vos fala“) por eles (o filme e o diretor), vai “sacar” toda a seqüência.

  Taí: me deu vontade de revê-lo…

 

  Ao som de Art Tatum, Where or When

e Billie Holiday, Strange Fruit

Schopenhauer e Legião Urbana: tudo (é dor) a ver

Se o sentido mais próximo e imediato de nossa vida não é o sofrimento, nossa existência é o maior contra-senso do mundo. Pois constitui um absurdo supor que a dor infinita, originária da necessidade essencial à vida, de que o mundo está pleno, é sem sentido e puramente acidental. Nossa receptividade para a dor é quase infinita, aquela para o prazer possui limites estreitos. Embora toda infelicidade individual apareça como exceção, a infelicidade em geral constitui a regra.

Para o filósofo, meu preferido, o fim primordial da vida é o sofrimento. Imaginar o contrário é ir contra a razão. Para ele, a existência da dor infinita que surge de uma condição inerente à vida, ao existir, não pode ser em vão, sob risco de estarmos, assim, anulando aquela condição. Viver é estar constantemente preso à condição de necessitar da dor, precisar dela de todos os modos e seria absurdo separar a condição que a gera (o viver) da situação que surge dessa condição (a necessidade de sofrimento). Não podemos, pois, separar coisas que estão visceralmente ligadas, numa simbiose total. Nossos mecanismos para mensurar a dor, o sofrimento e a angústia são tão desenvolvidos, tão perfeitos, tão, enfim, aptos a captar as mais sutis formas de contrariedades sem fim, que a se nossa existência não tivesse como seu maior sentido, seria outro motivo para o espanto. Ao passo que aqueles mecanismos que possuímos para mensurar e captar o sofrimento são desenvolvidos ao extremo, o mesmo não acontece com nosso aparato para mensurar o prazer.
Ainda que as formas particulares do sofrer pareçam apenas e tão-somente limitadas no plano individual, podemos declarar que a infelicidade, o sofrimento e a dor no plano geral é que são a regra, e jamais a exceção.

 

E aqui poderíamos fazer um gancho com o clássico da Legião Urbana, Quando o Sol Bater na Janela do Teu Quarto, mais precisamente o trecho:

Tudo é dor
E toda dor vem do desejo
De não sentirmos dor.

De tais considerações, podemos estabelecer a seguinte generalização: a vida é dor. O viver é dor. Dor é viver. Vida: sofrimento. Felicidade? Pequenos parênteses numa frase gigantesca. Ou, dito de outro modo: a felicidade vem em pequenos espasmos, soluços, pílulas. A dor, no sentido do sofrimento, perpassa tudo. Ela é o substrato sobre o qual se fundamenta a vida humana.

Pessimista este post, bem o sei.

   

Ao som de Billie Holiday, Blue Moon

Um dia especial

Aniversário de mãe é sempre especial.

 

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Domingo tranqüilo. Lendo os jornais. Por agora, apenas uma leve vontade de me esticaaaaaaaar….

 

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 Ouvindo Stan Getz e Chet Baker