Vamos lá, não nos resta outra alternativa

Lá se vai mais um ano cheio de altos e baixos. Para mim, foi um ano de vazio de realizações significativamente positivas. Tropecei algumas vezes, conheci gente nova, aprendi a aprender, desaprendi um bocado de coisas, me desfiz de algumas ilusões, criei outras, me deparei com palavras novas, conceitos novos, filmes novos, livros novos, autores e autoras novas, ouvi muita música, encasquetei com algumas coisas, mandei outras para a Ponta da Miçonga do Jabaculanga. Em suma: estou mais rodado, como todo mundo.

O que gostaria de ter feito e não fiz: lido mais, visto mais filmes, escrito mais, viajado mais. Bem, acho que foi só. Só?!

Agora sério:

Em vez de arrolar aqui meus projetos, prefiro crer que há um imenso horizonte ainda a ser desbravado. Que há a necessidade de me desvencilhar um pouco do passado. Captar a essência da jogada: que viver é um ato contínuo, que tudo é uma página em branco, que as possibilidades de que a vida é fértil são uma inspiração, são aliados, são nosso consolo. Ou não, o que para alguns pode ser trágico.

Em outras palavras, à massa amorfa composta pelas circunstâncias, pela mais variada e inimaginável combinação de circunstâncias, a isso tudo, a esse contingente “selvagem” e cego, acrescentar nossa capacidade de dar sentido àquilo que se encontra aparentemente além de toda e qualquer definição. Definida, domada, toda contingência passa a estar (dentro do possível) a nosso favor, a gerar todo um novo mundo de possibilidades, ao infinito, num círculo nada vicioso que nos é, em último grau, danação ou alento, limitação ou virtude, Tânato ou Eros, morte ou vida.

Garanto-lhes que a alternativa ao viver não me atrai em nada!

Portanto, mãos à obra! Nada mudará no cosmo infinito, nas conjunções dos astros, mas a mudança de approach com relação à complicada arte de viver, uma mudança para melhor, nunca pode ser subestimada.

Eis um momento propício.

Saudações ao deus-Tempo. Que é implacável e tirânico!

 

Ao som de: João Gilberto, Stan Getz e muito blues de John Lee Hooker

McLuhan, ok: vou seguir teu conselho. De novo!

Estou procurando um novo template. Pela nonagésima nona vez, este blog vai mudar de fisionomia.
Busco um tema que tenha algo a ver com o “espírito” do Idiocosmoblog: algo nada a ver, entenderam?
Claro que vou deixar para mudar no primeiro dia do ano.
Milhares de anos de civilização e a gente se apega ainda a simbolismos… vou te contar, viu? Ô, povinho!

O que se passava na mente do ex-sátrapa da Mesopotâmia?

Estava ele com o, bem, vocês sabem, na mão? Aquela expressão bem nossa para momentos de grande pavor…
Ou estava ele sonhando e já quase apalpando as virgens do paraíso? Sim, porque na visão tacanha dele, era o que esperava a ele, soi disant “mártir”…
Ou não estava nem um pouco preocupado com sua suposta vida de além? Seria Saddam um cínico materialista enrustido, que manipulava a milenar religião de Maomé para fins escusos? Pensava ele que era só uma questão de segundos e tudo acabar, sem dor, um suspiro, um crééék e ponto final?
Como último ato, no qual se pôde ver um fiapo da arrogância do passado, ele recusou o uso do capuz… Queria ele mostrar dignidade? O que vem a ser dignidade para alguém que tem a vida tirada por outro alguém? O que é vingança? Ele não pensou nos próprios atos quando os cometeu? Foi “marmelada” o tal julgamento? E os curdos? A justiça chegou a eles? O que fazer com os outros processos: perderão o efeito?
Oh, perguntas, oh, curiosidade…

Escrevamos algo!

Tenho que desvirginar esta tela em branco!
Estou há cinco dias sem escrever aqui, como podem perceber. Vendo minha paisagem mental,o que vislumbro? Um imenso mar sem fim, tudo é uma massa de água, não há nada no horizonte, nada que se sobressaia. Em compasso de espera pelo novo ano? Que nada: preguiça de existir, apenas!
Aos fiéis leitores, sorry por qualquer coisa.

" I feel goooood! "

Homem tira foto de estátua de James Brown no centro de Augusta, na Geórgia
  
 
 
 
 
De todos os amantes da música negra,  daqueles que trazem no sangue o soul e toda a sua força libertadora, daqueles que são brancos mas por dentro são (ou gostariam de ser!) negros, enfim, de todos esses, uma homenagem ao grande artista que foi James Brown, o ”Pai do soul”, e sua arte arrebatadora. Ele sai de cena. Mas seu grande legado ficará em cada pista de dança. Cada vez que sacolejarmos o esqueleto ao som de uma música bem dançante, teremos algo em comum com ele.

Tarantino and Rodriguez are back

Chama-se Grindhouse o trabalho da dupla. São dois longas dentro de um filme só, um ”double feature“. No final, ambos se encontram. Trata-se de uma homenagem aos filmes b.
Os dois longas são:  ”Death proof“, de Quentin Tarantino e “Planet Terror“, de Robert Rodriguez.
Aguardemos. Mas o trailer já pode ser visto aqui.

Justificando-me

Tenho estado às voltas, nestes dias, como disse num post abaixo, com (re)leituras (peças de Shakespeare* e Sófocles*, contos de Checkhov*, ensaios de Marcuse, de Camus e de Montaigne), dvds (Jazz, de Ken Burns) e, finalmente, com uma melancolia vaga que me visita nesta época do ano. Por isso, e também por um “bloqueio” intelectual, não tenho escrito aqui.
Sossegai, fiéis três ou quatro leitores: este blog é “imorrível” enquanto eu for “vivível” e vocês, invulneráveis a atos alheios de pura indigência mental e incompetência intelectual…

* A literatura é o meu refúgio por excelência.

 

Ao som de Samba SaravahFrancis Lai – Baden Powell – Vinícius de Moraes

Tristeza do Jeca – Yamandu Costa

A Sétima Arte para a web

Está rolando, até o dia 19 de fevereiro, o 6º Festival de Cinema na Net. São 38 filmes de 15 países. Pode-se assistir a todos os trabalhos, na íntegra, sem frescuras e ainda participar das votações. Libere o crítico em Cannes que há em você…
São os novos rumos da Sétima? Quem viver, verá!
Para quem ficou interessado, clique aqui.

Ao som de Creedance Clearwater RevivalHave your ever seen the rain –

Essa quem ganhou fomos nós! Não foi dessa vez que o desbunde vingou.

Câmara adia para 2007 definição sobre aumento nos salários de deputados. Folha online

 

Valeu pela pressão. Ainda mais com a “ajuda” do STF. Bem, o que importa é que a canalhice que era o reajuste pornográfico dos salários dos deputados federais e senadores foi por água abaixo. Agora, no entanto, fiquemos de olho: quando menos esperarmos, algum luminar do distinto Congresso brasileiro, numa jogada subreptícia, para não dizermos mafiosa, tentará, novamente, cometer o mesmo crime.
Fez-se justiça. Engula essa, senhor Renan Calheiros!

Macbeth, de Roman Polanski, 1971

 

          

Life’s but a walking shadow, a poor player

That struts and frets his hour upon the stage

And then is heard no more: it is a tale

Told by an idiot, full of sound and fury,

Signifying nothing. [Macbeth]

 

Acabei de ver esse longa fielmente adaptado da obra de Shakespeare. Não é o melhor Polanski, mas adaptar o Bardo com tal senso de fidelidade, sem perder-se em pieguices e concessões, não é nada fácil. Vemos todo o drama existencial que corrói as duas personagens que mais sintetizam, a meu ver, em toda a literatura ocidental, o conceito de maquiavelismo e de total entrega ao mal, ao projeto de destruição alheia em busca da própria satisfação. Polanksi é bem pessimista ao retratar aquilo que traz à tona a verdadeira natureza humana: a gratuidade e o nonsense da vida que leva à queda das máscaras que o ser humano usa. Ou seja: vemos o aflorar de todo o mal que se encontra em estado de potência, latente, esperando apenas o momento propício para se fazer visível.

Cenas realistas, pesadas às vezes, mas nunca exageradas, jamais descontextualizadas ou gratuitas. Cenário deslumbrante, quase que somos transportados àquela época, a Escócia do século 11. As cenas dos delírios de Macbeth e de Lady Macbeth, o esconderijo das bruxas, e toda aquela atmosfera medieval, enfim, causaram em mim uma sensação deveras forte. Shakespeare em estado puro e adaptado à altura de sua grandeza.

O mais curioso é que você sabe que é um filme mas que também não deixa de ser uma peça de teatro! Os diálogos, a cadência das palavras, tudo isso como que ressalta essa sensação dupla, ambiguamente fascinante. Obviamente, são artes que usam um suporte diferente, mas quando há, como é o caso neste filme, a conjunção exata entre cinema e teatro, um complementando o outro, quem sai enriquecido de tal fruição é o espectador. Duplamente enriquecido.

A degeneração que ora nos aflige é a regra, meus caros

 
Minha leitura do caso do aumento estratosférico no salário dos congressistas é de que presenciamos, de forma geral, um reflexo dos tempos em que vivemos nestas bandas para cá dos trópicos. É, em outros termos, apenas a ponta de um iceberg colossal.
A degeneração institucional; a completa falta de sintonia entre o cidadão e seus governantes (governantes apenas no nome, mas isso é uma outra questão); o desprezo pela opinião pública; o pouco caso para com o mundo real do cidadão, e não apenas com o mundo edulcorado das cidades cenográficas no horário eleitoral (horário esse que nos custa os olhos da cara!); as mazelas que decorrem disso tudo, estão aí, perdoem-me pelo pessimismo, para ficar. A menos que… a menos que se subverta toda essa ordem de coisas. A menos que haja uma conscientização, a menos que se invista muito mais em educação, a menos que a leitura seja acessível à maioria, a menos que os índices de analfabetismo, sobretudo o funcional, caiam a uma velocidade significativa.
Outro grande problema é o fato de que na ponta lá de cima, no topo da pirâmide, as autoridades relapsas que nos representam têm-nos na mais ínfima conta. 
Gera-se, assim, um monstro que se auto-alimenta: por um lado, autoridades incompetentes fingem que nos governam e nós, por outro, fingimos que está tudo no melhor dos mundos. Uma parte não influencia a outra. No fim, há apenas acomodação, resignação com o medíocre, com o insatisfatório, com o meia-boca.
Uma maior participação popular é mais que necessária para que se cortem as asas daquela corja que insiste em ver a planície como um rebanho de pacóvios, sem capacidade de reação, sem o prazer pelo conhecimento, sem senso crítico e, finalmente, sem massa cinzenta.
Até lá, num futuro não muito distante, bem, acho que estaremos todos mortos. Mas muito entre nós já o estão. Pelo menos criticamente.

 

Ao som de Baden Powell, Chão de Estrelas

Aquecendo as turbinas

Me aquecendo para assistir logo mais Macbeth, de Roman Polanski, filme de 1971. Como fã das obras do bardo de Stratford, tenho muitas expectativas.
Amanhã, vou assistir De Crápula a Herói, de Roberto Rossellini, com Vittorio De Sica como o protagonista.
Tenho para ler uma pancada de revistas (isso que dá assiná-las em profusão!), uns quatro livros e acabar de ver mais de 9 horas do documentário JAZZ, de Ken Burns. Quase tudo acumulado por conta da correria. Este ano, para mim, foi muito atribulado.
Ah, nada melhor que as férias (as minhas começam mesmo amanhã) para manter os neurônios em dia e não os deixar emperrar.
Sem falar da leitura dos jornais, são dois, diariamente, a Folha e o Estadão.
Tempo não é problema quando é bem aproveitado, sobretudo com arte, informação e cultura.

 

Ao som de Ella Fitzgerald e Sarah Vaughan

Dá-lhe, Inter!

Como sou avesso a bairrismos e mesquinharias, torço  pelo Internacional, que joga neste instante contra o Barcelona, no Japão. Foi esse mesmo Inter que eliminou o meu São Paulo. Poderia ser, portanto, o Tricolor jogando lá. Mas, coisas da vida. Ou de mérito. No caso, ele é todo do Inter, que faz jus ao lugar em que está. O importante, agora, é que o Internacional é Brasil. Este Brasil tão desprezado pelos políticos de sempre.
Sou um  paulistano colorado desde sempre!

Você tem a certeza de que vive em um país surreal quando lê estas duas notícias

Ambas estão na Folha de S.Paulo de hoje. Assinante UOL ou do jornal, clicando nelas, pode lê-las na íntegra.

 

“O apetite dos parlamentares não vai se esgotar com 91% de aumento salarial. O próximo passo será uma campanha pela realização de obras orçadas em R$ 110 milhões, que incluem reforma de gabinetes e apartamentos, construção de um minishopping e de uma nova biblioteca e até a abertura de um túnel sob a Esplanada dos Ministérios. Um lobby particularmente ativo é o que visa a construção de 71 banheiros em gabinetes que não dispõem desse conforto”. Coluna Painel

 

E como surrealismo de menos é bobagem…:
 
Pesquisa aponta Lula como melhor presidente do país

 

É por essas e outras que tenho ganas de sumir deste país. Pudesse, estaria em Londres. Um dia hei de!

 

Ao som de Pixinguinha, Carinhoso

Vamos infernizar a vida deles

Quer protestar contra o aumento salarial faraônico e covarde dos congressistas? Eis aqui a relação de nomes dos integrantes dessa que é a maior lambança política dos últimos tempos em nosso país. Se porventura você achar que é uma perda de tempo, que eles nem lêem, etc e tal, mesmo assim faça sua parte: não deixe passar em brancas nuvens!

Estes são os homens “probos” que nos envergonham:

 

Aldo Rebelo (PC do B-SP) – dep.aldorebelo@camara.gov.br – Presidente da Câmara, autor da proposta

Ciro Nogueira (PP-PI) – dep.cironogueira@camara.gov.br – Corregedor da Mesa

Jorge Alberto (PMDB-SE) – dep.jorgealberto@camara.gov.br – suplente da Mesa

Luciano Castro (PL-RR) – dep.lucianocastro@camara.gov.br – líder

José Múcio (PTB-PE) – dep.josemuciomonteiro@camara.gov.br – líder

Wilson Santiago (PMDB-PB) – dep.wilsonsantiago@camara.gov.br – líder

Miro Teixeira (PDT-RJ) – dep.miroteixeira@camara.gov.br – líder

Sandra Rosado (PSB-RN) – dep.sandrarosado@camara.gov.br

Colbert Martins (PPS-BA) – dep.colbertmartins@camara.gov.br

Bismarck Maia (PSDB-CE) – dep.bismarckmaia@camara.gov.br

Rodrigo Maia (PFL-RJ) – dep.rodrigomaia@camara.gov.br – líder

José Carlos Aleluia (PFL-BA) – dep.josecarlosaleluia@camara.gov.br – líder

Sandro Mabel (PL-GO) – dep.sandromabel@camara.gov.br

Benedito de Lira (PP-AL) – dep.beneditodelira@camara.gov.br

Givaldo Carimbão (PSB-AL) – dep.givaldocarimbao@camara.gov.br

Arlindo Chinaglia (PT-SP) – dep.arlindochinaglia@camara.gov.br – líder

Inácio Arruda (PC do B-CE) – dep.inacioarruda@camara.gov.br – líder

Carlos Willian (PTC-MG) – dep.carloswillian@camara.gov.br

Mário Heringer (PDT-MG) – dep.marioheringer@camara.gov.br – suplente da Mesa

Inocêncio Oliveira (PL-PE) – dep.inocenciooliveira@camara.gov.br – primeiro-secretário da Mesa

Renan Calheiros (PMDB-AL) – renan.calheiros@senador.gov.br – presidente do Senado, autor da proposta

Demóstenes Torres (PFL-GO) – demostenes.torres@senador.gov.br

Efraim Moraes (PFL-PB) – efraim.morais@senador.gov.br – primeiro-secretário da Mesa

Tião Viana (PT-AC) – tiao.viana@senador.gov.br – vice-presidente do Senado

Ney Suassuna (PMDB-PB) – neysuassun@senador.gov.br – líder

Ideli Salvatti (PT-SC) – ideli.salvatti@senadora.gov.br – líder

Botemos a boca no trombone!

Reclamemos. Xinguemos. Vamos escrever para os jornais. Em nossos blogs. Onde for possível! A grita tem que continuar. Os deputados (exceções das exceções!) Fernando Gabeira, Raul Jungmann, entre outros, vão entrar na justiça e reclamar da inconstitucionalidade do aumento  pornográfico que os deputados e senadores se auto-concederam. Torcemos! Isso não pode ficar assim. Fomos achincalhados pela alta cúpula do Congresso Nacional. Tal atitude foi uma bofetada em nós. Não iremos tolerar. Vamos entupir a caixa de e-mails deles! Senhor Aldo Rebelo, senhor Renan Calheiros, a vingança virá. E da forma mais democrática possível!

Clique aqui e reclame mesmo! Escreva para eles.

O horror, o horror!

Manchete da Folha de São Paulo de hoje:
Congressistas aumentam o próprio salário em 91%
Diante disso, o que dizer para as crianças? O que dizer para nossos amigos estrangeiros? Como crer neste país? Onde encontrar ânimo para trabalhar, camelar, estudar, ao vermos tal vigarice, a pior delas, aquela que é institucionalizada, que tem a chancela dos poderes constituídos, ser remunerada por nós, pacóvios cidadãos e cidadãs brasileiros?
Diante disse, não resisto, perdi todas os meus pruridos. Peço perdão aos leitores, pois não é do meu feitio. Mas não resisto:
Senhores deputados e senadores da amada república brasileira, surrupiadores das esperanças, mercenários, larápios engravatados, VÃO PARA AS PUTAS QUE TIVERAM A INFELICIDADE (SOBRETUDO PARA NÓS!) DE OS PARIR!!!!!!

História concisa da satrapia de Lisarb, de seu Sátrapa* nada-esclarecido, Laul, e de seu infortunado povo, no ano da (des)graça de 006.

 

  “Há muitos e muitos anos, numa satrapia…

   – Não quero ser incomodado de jeito nenhum. Estou pensando! Não estou nem para o Papa, entenderam?
   – Mas, Excelência…
   - Acordei invocado hoje!
   O Sátrapa se encontrava circunspecto e irritado naquelas semanas que antecediam sua posse. Digamos melhor: sua segunda posse. Sua Excelência estava a refletir profundamente em uma maneira de fazer sua satrapia crescer economicamente e, vejam só, os lisarbianos pararem de lhe incomodar com  as promessas que ele havia lhes feito havia pouco tempo antes. Num de seus discursos diários, o Sátrapa dos sátrapas havia reconhecido humildemente, por fim,  que não sabia a fórmula mágica que faria o reino de Lisarb progredir e, junto com ele, seu povo sofredor e paupérrimo.
   Qual não foi a surpresa quando o Sátrapa, que tinha o carinhoso apelido de Laul, declarou o seguinte alguns dias depois: usando de seus poderes diplomáticos entre os grandes do mundo – e também da sua ‘extraordinária’ biografia, que nunca houvera antes ‘naquele reino’ -, ele, do alto de sua magnitude e da sua surpreendente capacidade de discernimento e total empatia com o povo de Lisarb (pois dele viera), tinha a certeza da data em que ele, mágica e messianicamente, obteria, por artimanhas as mais misteriosas, o conhecimento das medidas para fazer Lisarb finalmente crescer de forma sustentada.
   O pasmo no reino foi enorme: na praça central, houve discussões calorosas, mas muito poucas entre elas eram céticas. Estas foram prontamente neutralizadas pelas competentes e altamente aparelhadas ERCI e CDCP (Esquadra Real de Contra-informações e Central de Divulgação de Cascatas e Patranhas, respectivamente).
   A grande data era o primeiro dia do ano de 007, quando ele, Alul, de forma consagradora, receberia dos lisarbianos mais quatro décadas para gerir os destinos da satrapia.
  (Outros governantes de países com déficit de crescimento econômico também queriam saber como fazer para receber os ensinamentos. Seriam do além?, perguntavam eles.)
   Passados mais alguns dias, Laul disparou: não devia sua condição de soberano a ninguém, algo inimaginável alguns meses atrás, quando ele, então a humildade em pessoa, dizia que precisava dos votos da plebe, alimentada pelo PRDAF (Programa Real de Distribuição de Algibeiras Furadas), para ser, por mais oito longuíssimos lustros, seu guia e benfeitor.
   O dia da posse chegava e, à medida que o tempo passava, todos se admiravam (quer dizer: com exceção dos caçados dia e noite livres-pensadores, prontamente enforcados em praça pública pelo aparelho repressor do regime, pois eram seres críticos o suficiente para não se engabelar pelos disparates de Alul e seu séquito de bajuladores), se admiravam, dizíamos nós, com a sapiência que mostrava o Sátrapa para, num exemplo de sua excepcionalidade, ter o dia e a hora para anunciar, com toda pompa e circunstância, as esperadas, sonhadas e há muito desejadas medidas que tirariam Lisarb da condição de ‘satrapia do futuro’.
   Mas poucos eram aqueles que se perguntavam: por que Laul, que já havia sido governante (se os leitores não tiverem uma concepção muito ortodoxa do termo, obviamente!) nas quatro décadas anteriores, não apresentara antes a tal da fórmula misteriosa, aquela que resgataria Lisarb da ignomínia de patinar nos medíocres 2% e qualquer coisa de crescimento econômico, crescimento esse em muito superado pelo País da Seda, pelo País das Vacas Sagradas e pelo País da Vodka, nações que aproveitavam a calmaria dos mercados?
   E por que aquela data cabalística?
   Ninguém jamais soube.
   Lisarb continuou a Lisarb de sempre pelos quatro decênios restantes. A satrapia teve que se contentar com o fato de ser exímia apenas no jogo de pelota e na dança das ancas desnudas”.
 

              * * * *

 Sátrapa:             

1 Rubrica: história.
na antiga Pérsia, governador de uma satrapia
2 Derivação: sentido figurado.
indivíduo muito poderoso e arbitrário; déspota
_____________________

Fonte: Dicionário Houaiss

A sensibilidade, algo cada vez mais raro

 Falemos claramente: hoje, a sensibilidade está sem viço. Murchou. Fossilizou-se. Tornou-se múmia. Fantasma do que já foi, habita apenas algumas cabeças teimosas.

 Espantar-se com esses casos? Eu, hein? De quê vai adiantar a minha indignação? Logo…

 A verdade é que a capacidade de se chocar com a monstruosidade cometida por bárbaros que um dia foram humanos está se extinguindo. A reação à selvageria que vimos em Bragança Paulista mostra o quanto estamos anestesiados pela banalização da violência explícita.

Ah, foi vingança [como se o ato de ser um ato vingativo fosse uma atenuante moral, digamos, quase uma licença para matar], [sic] explicado Aqui, é possível arriscar uma interpretação: lê-se nas entrelinhas desse raciocínio cínico e calhorda que, uma vez que eu não me envolva com tal gente e com tal risco de ser vítima de uma vingança qualquer, isso NUNCA vai acontecer comigo.

Ou ainda: Bem-vindos ao século XXI, dizem os fossilizados. É o outro lado da moeda do capitalismo selvagem, do neoliberalismo, da má distribuição de renda, do Estado mínimo, do laissez-faire egoísta, do Consenso de Washington, do FMI, de Wall Street, afirmam outros não menos anestesiados. Esses últimos são piores pois “politizam” pacoviamente uma questão seriíssima. Esses deviam ser moralmente fuzilados.

 Prender seres humanos num carro e incendiá-los é o ápice do inaceitável. Chegou a hora de um basta (não venham falar que isso é utopia!) para esse descalabro que se tornou a realidade brasileira. Chegamos ao máximo da bestialidade? Esse ato que atinge o paroxismo da covardia, insensibilidade, crueldade e malignidade, sintetiza muito bem os tempos em que vivemos. Maldade sempre existiu, obviamente. Mas nunca, nunca mesmo, vimos a reação a ela se tornar tão hipocritamente nula, tão pífia, enfraquecida que foi pela rotina, pela vulgarização da barbárie e, o que mais repudia àqueles que temos ainda um fio de sensibilidade, o quão o anormal se transforma no normal, a exceção, na regra, o espanto, num arremedo de indignação.

 A capacidade de alguns para o mal é inversamente proporcional à  capacidade humana de agregação para superar aquele mesmo mal, que, no fim das contas, é cometido  e executado por uma (frisemos bem) minoria. Mas uma minoria que se impõe por sua truculência. 

 Até quando?

 Essa minoria calhorda e bestial vai, então, prevalecer? Deixaremos isso acontecer? Ou nos limitaremos a fazer passeata, todos vestidos de branco, com flores? Em vez de apenas sermos da paz, devemos ser a paz, sermos a personificação dela nos nossos mais prosaicos atos e, sobretudo, inculcá-la nas novas gerações, através dos exemplos que, ainda jovens, temos a oportunidade de demonstrar com atitudes concretas.

Esta é minha casa: é desnecessário dizer quem é o responsável pela decoração.

 

Coloquei um filtro para os comentários por aquele motivo bem conhecido: é para evitar que os talibãs e míopes (trata-se daquele outro tipo de miopia, bem entendido) da vida não achincalhem meu espaço virtual. Em outras palavras: não fosse o filtro mencionado, ler-se-iam aqui despautérios, indelicadezas, despeito, disparates do tipo: “meu caro, use teu blog pra algo valioso“. Ora, para um esquimó a neve é algo valiosíssimo; para um índio, a natureza; para um acionista, suas ações na Bolsa; já para um “blogueiro” que escreve sobre seu cosmo particular (Idio + cosmo), suas (as dele) impressões pessoais e visão de mundo vêm a ser algo igualmente valioso. Portanto…

Houve outro que escreveu: “Mais um diário!” Peço aos digníssimos que pesquisem este blog, vasculhem seus posts, o conteúdo deles, para poder ter uma visão do todo, do macro. E também pesquisem por aí a etimologia da palavra blog.

Se esta é minha casa, a decoração, a mobília, as cores das paredes, tudo isso acredito meio ingenuamente que cabe a mim.

A não ser que já criaram alguma lei obrigando os blogs a: 1) seguirem um padrão (imposto por quem mesmo?); 2) serem sempre: engraçadinhos, moderninhos, estilososoriginais ;e por aí vai.

Se souberem de tal lei, por favor, me avisem!

Comentários como os de cima continuarão a ser solene e respeitosamente ignorados.

 

Ao som de The Beatles, Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band e Here comes the sun

Dois filmes que há muito queria ver…

 

… pude assistir ontem. O primeiro deles foi O Terceiro Homem (1949), de Carol Reed, com o gênio Orson Welles e Joseph Cotten. Sombrio nos momentos certos, objetivo e surpreendente. A cena final da perseguição nos esgotos de Viena é fantástica!

 

 

O outro foi, acreditem, Blade Runner – O Caçador de Andróides (1982), de Ridley Scott, na versão do diretor, com Harrison Ford. É um filme para o qual torci o nariz por um bom tempo. E me dei mal, ou melhor, bem, depois que o vi. Uma visão futurista pessimista, com efeitos bem bacanas, atuações notáveis e, last but not least, tudo muito convincente, verossímil. Queimei a língua!

 

Ao som de The Beatles, Octopus’s Garden e Leit it Be

O maior documentário já feito sobre jazz

 

 Trata-se do grandioso e soberbo JAZZ, do genial documentarista Ken Burns. Tal empreitada  consumiu 5 anos e a bagatela de 13 milhões de dólares. E tem a grife BBC. São 4 dvds que trazem toda, eu disse, TODA a história do jazz, desde a transição do século XIX para o XX, até quase os dias atuais. Sociologia musical, pode-se dizer que se trata. Apresenta, com fartura de imagens raríssimas, muita (claro!) música, biografias das grandes personalidades dessa que é a mais genuína forma de arte norte-americana, muito mais que um estilo musical. Além dos estilos, os conceitos técnicos, a ”filosofia” por trás do jazz. São quase 13 horas de um mergulho na história norte-americana, passando pelo ragtime, blues, pelo jazz mainstream. Tudo começou com os afro-americanos, teve a contribuição de gente de todo o mundo e hoje é tão complexo, mas tão complexo, que temos que falar em várias vertentes, mas todas sempre bebendo na fonte da liberdade, do aprimoramento musical, da genialidade individual e coletiva que faz do jazz algo que transcende muito os estereótipos que tentam limitá-lo a uma espécie de museu. Eis uma forma de arte única. O capítulo dedicado à Era do Jazz, os anos 20 do século passado, é espetacular. Ao mesmo tempo em que outras artes estavam a mil, a lei seca, os gângsteres, a literatura, o cinema, tudo isso é o pano de fundo em que transcorreu aquela época tão saudosa. Sim, eu tenho saudades de um tempo em que não vivi. E a trilha sonora, o jazz, o fabuloso jazz…

Estou nas nuvens! Nas férias, vou me deliciar ao ver os outros 3 dvds. E que estarão sempre à mão. Meu Papai Noel é fã de jazz!

 

Ao som de: Jelly Roll Morton, que se intitulava nada mais nada menos que o “inventor” do jazz (um exagero, claro), numa gravação de… 1925: Georgia Swing e New Orleans Jazz Band, When the saints go marching in

 …………………………………………………………………………….