Um soneto de Camões e um trauma da adolescência

Este de Camões é, definitivamente, o meu predileto. Aos 15 anos tentei declamá-lo para uma garota. Daquele dia em diante, passei a crer que a insensibilidade para a arte não é “privilégio” dos esteticamente desprivilegiados…

 

Tanto de meu estado me acho incerto,

que em vivo ardor tremendo estou de frio;

sem causa, juntamente choro e rio,

o mundo todo abarco e nada aperto.

 

É tudo quanto sinto, um desconcerto;

da alma um fogo me sai, da vista um rio;

agora espero, agora desconfio,

agora desvario, agora acerto.

 

Estando em terra, chego ao Céu voando,

num’hora acho mil anos, e é de jeito

que em mil anos não posso achar u’hora.

 

Se me pergunta alguém porque assim ando,

respondo que não sei; porém suspeito

que só porque vos vi, minha Senhora.

            Luis de Camões

2 thoughts on “Um soneto de Camões e um trauma da adolescência

  1. Belíssimo. Só os nobremente sensíveis, e, portanto, seletos, e, no entanto, fantoches da existência, compreenderão, em essência, tal soneto e sentido.

  2. Pois é, meu caro. Na vida, quase nada, como bem sabes, é perfeito.
    Apenas o próprio nada, que engloba o tudo às avessas. E o tudo, nada ao contrário.
    Isso foi, se muito me engano, apenas um indício do sono que chegou… Vou sonhar com a Anita Ekberg, Sophia Loren, Jeanne Moreau e Monica Vitti. Olha o que dá assistir em seqüencia: A Noite e os episódios de Boccaccio’70, sobre o qual vou escrever em breve…
    Um abraço!

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