Uma massagem retroativa no ego, isso existe???

Num exercício de solipsismo explícito, de narcisismo desenfreado e de mania de grandeza em último grau, eis que fiz uma procura sobre mim mesmo (você leu certo!) no Google. Eis que, num texto publicado pelo jornal de São José dos Campos,  o Vale Paraibano, de exatos 9 anos atrás, eu, euzinho e outros somos mencionados como novas revelações da literatura!!! Para quem não acredita, dê uma olhada aqui e fique de queixo caído…

Agora sério: ah, se eu tivesse me dedicado mais… Mas haverá tempo ainda?

O que acham?

Ah, esqueci que falo comigo mesmo neste blog. Não tem jeito: olha o egocentrismo de novo…

 

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Ao som de João Sebastião Ribeiro, pouco conhecido músico. Outros o conhecem como Johann Sebastian Bach, Cantata nº 147.

Olha, cansei!

Ficar olhando para a tela em branco, ameaçadora, zombeteira, humilhante, cínica, ah, isso que não vou! “Escuta” aqui, ô tábula rasa, ausência do tudo, resumo do nada, metáfora do não-ser, símbolo do tudo às avessas: eu vou te submeter ao meu escrutínio, entendeu? Falta de idéias, de você vou fazer meu assunto. Estou “invocado” com essa pasmaceira. Meus leitores e leitoras imaginários sedentos por um post deste blog e eu, a imagem da submissão ao nada, com uma enganadora sensação efêmera de falta de assunto…

O negócio é o seguinte: quem manda aqui sou eu! E escrever sobre o nada bem que pode ser a metáfora de um mundo precário, transitório, ameaçador. Domar essa sensação de vazio, de não ter sobre o quê escrever, pois bem, isso é o ideal.

O nada na tela apenas e tão-somente é um epifenômeno de um nada maior, que, por sua vez, vem da sensação de se saber num mundo condenado ao irrisoriamente passageiro, fútil e pleno de mesmice.

Juro que não bebo.

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Ao som de J.S.Bach

Mãe Joana se despede

  De hoje em diante, eu, Joana, a dona da casa outrora de pernas para o ar (a casa, não eu, pois sou uma senhora recatada, até onde permite meu caos interior, claro), pois bem, casa onde qualquer um entrava, onde reinava a bagunça homérica, eu em pessoa proclamo a todos que fechei minha famigerada propriedade. Meus filhos e netos me imploraram, rogaram para que eu não tomasse essa atitude drástica. Mas não houve como. Reconheço, aqui, perante o mundo, neste blog acessado por multidões diariamente, este blog escrito por um rapaz tão gente fina (com um talento fabuloso para a confusão e falta de ordem), que a concorrência foi grande. Saio do ramo, triste, desiludida com o gênero humano, de forma geral.

  Um certo país da América do Sul, cujo nome não quero citar, porque assim seria o cúmulo da ironia: estaria eu fazendo propaganda daquele que suplantou minha criação, que conseguiu (ai, como dói!) levar a arte da casadamãejoanice ao paroxismo, pois bem, aquele país, reconheço, teve a façanha de me derrotar, naquilo em que minha distinta casa sempre foi exímia: a total falta de ordem, o estado poético e, diria eu, metafísico da absoluta e mais completa ausência de regras, a arte de se desviar delas, bem como de previsões bobocas oriundas da observância das leis, quaisquer que sejam elas. Aquele país bárbaro acabou com minha contribuição à bagunça geral. Estou arrasada. Eu que já tinha entrado para alguns dicionários, estava na boca do povo, há muitos anos fui a figura arquetípica da zona, da porra-louquice, da foda-se-a-ordem, eu sou agora apenas uma sombra para aquele gigante em berço esplêndido, atualmente conhecido como o lugar mais refratário às leis, à ordem e à previsibilidade, tudo aquilo de que eu e minha habitação fomos a prória personificação.

 Adeus, amigos. Parto, de coração apertado, para algum lugar fora deste mundo. Quem sabe, nas lonjuras do universo, encontre eu um planeta onde eu seja respeitada e valorizada.

 Adeus!

 M.J.

 

 Faixa de Gaza, 12 (ou 3?) de março (não seria julho?) de 200… alguma coisa, p.!

Sobre "protestos" e nossa "jequice imitativa"

Passada a tumultuada visita de George W. Bush a São Paulo, abaixada a poeira, e mesmo este blogueiro, após suas ironias esquálidas e não-compreendidas por muitos, pois bem, após a overdose midiática de uma visita de trabalho do homem mais poderoso do planeta (isso é uma constatação, não uma espécie de adoração subliminar a quem quer que seja), analisemos friamente o que vimos, e veremos em escala muito maior na Colômbia.

Protestos públicos, o direito de fazê-lo, é e sempre será um direito. Aqui não se discute o ato de protestar, mas a forma como muitos o fazem quando é para se protestar contra a política dos EUA.

O governo Bush, como todos sabem, merece toda crítica por Guantánamo, a invasão do Iraque, o não-comprometimento e vinculação ao Protocolo de Kyoto, por todo seu aparato bélico, por sua, enfim, arrogância sem limites.

Agora, protestos inúteis, totalmente contraproducentes, infantilóides, carnavalescos, juntando “causas” (digamos assim) as mais diversas (sem nenhum nexo entre si, a não ser o ódio pueril e ridículo e a capacidade de muitos ali apenas almejarem as lentes, ou mesmo por um impulso incontrolável do desejo de imitar aqueles protestos áureos que pertencem apenas ao passado, como o Maio de 68 em Paris, o arquétipo de todo aquele que protesta), tudo isso é de uma jequice imitativa absurda, uma tendência para macaquear o quem vem de fora. 

 

Tenho três perguntas:

 

  1. Não seria mais sábio buscar a participação de setores mais amplos da sociedade, setores esses menos afeitos ao oba-oba e mais sensíveis à sensatez, que buscam a discussão civilizada e organizada, em detrimento dos desmiolados que arriscam a própria vida às vezes na “defesa” de uma causa que se baseia apenas no ódio?
  2. E onde estavam mesmo todos esses que saíram a protestar a esmo quando o caso do mensalão, dos sanguessugas e outros happenings escabrosos de nosso cenário político foi acompanhado de perto pela imprensa? Por que, em outras palavras, não canalizar toda aquela energia para protestar contra nossas mazelas: educação, saúde, corrupção…? Por quê? É a jequice!
  3. Por que se dobrar ao fácil modismo do antiamericanismo? Só para mostrar que somos descolados, que acompanhamos o que se passa lá fora no que diz respeito ao know-how da arte de protestar por protestar?

 

Em vez da perda de tempo com esses atos tresloucados que na verdade não são protestos coisa nenhuma, apenas circo, festa, balada, ostentação de uma oca modernice jeca e infantil, em vez de dispersar energia com essas demonstrações de imaturidade, que se chame a sociedade, que a população como um todo tenha voz, se informe e participe de discussões mais amplas, porque organizadas e, portanto, intelectualmente mais próximas à resolução dos problemas.

Essa minoria do oba-oba não vai mudar o mundo coisa nenhuma!

E a nota mais deprimente foi ver até um governador, o do Maranhão, fotografado malhando um boneco de Bush. Olha só o nível! Me digam em quê isso ajuda alguma coisa!

Contra a insensatez de um governo em muitos aspectos insensato, os “protestos” deveriam ser de ordem mais estratégica, afinal, do outro lado, o “inimigo” tem o poder político. Contra a truculência e o obscurantismo de um governo medieval em muitos aspectos, que se apele à razão.

E não é com a intensidade dos gritos e sim com a força das idéias que podemos mudar alguma coisa.

Que Maio de 68 permaneça nos livros de história.

Enquanto isso, naquela limusine…

Carros da comitiva de Bush passam por favela na avenida Jornalista Roberto Marinho, no caminho da Transpetro para o hotel (Folha Imagem)

 

 

 

 

 

- Fancy that! What on earth is that, James?

- That’s a pretty funny kind of dwelling place, sir.

- Look! They don´t have a small garden!

- Yes, sir. I mean, no, sir.

- These Brazilians… They´re so exotic!

- They really are, sir!

Parem com essas arruaças, desalmados e ingratos!

       Neste instante, São Paulo pára para receber nosso soberano, George W. Bush. Mas este blogueiro que “vos fala”, zapeando pela Grande Teia, lê que há seres de coração duro e amargo de ingratidão neste país, verdadeiras almas mesquinhas. Eu pergunto: isso lá são modos de receber nosso rei? Digam-me o porquê de tal deselegância. Chegar ao ponto de haver escaramuças entre a polícia e revoltosos, esses últimos usando tênis Nike e ouvindo ipods, invenção de nossos colonizadores do norte, isso é o cúmulo! Essa gente só nos enche de vergonha perante o mundo!
Deveríamos, isso sim, estender um enorme tapete vermelho pelas ruas de São Paulo para recepcionar tal figura eminente. Mas não: o complexo de vira-latas às avessas nos impede de reconhecer que somos dependentes, cultural, econômica e estruturalmente dos yankees.  

Obs.: este post e muitos outros neste blog devem ser lidos com o sensor de captação de ironias esquálidas (S.C.I.E.) ativado.

Vassalos colonizados, uni-vos! Eis que chega nosso soberano

 

  Como antecedeu este blog em primeira mão ontem, talvez o maior furo já feito por outro blog neste ano,  Jorge Caminhante Moita, mais conhecido pela alcunha de George Walker Bush, estará chegando (will be arriving: pois à submissão diplomática, econômica, cultural deve corresponder, também, a submissão vernacular) amanhã à sua colônia de número 123, mais conhecido como Brasil. Outros preferem chamar de quintal tropical do Tio Sam. Não importa. O mais importante mesmo é que prestemos a devida vassalagem ao nosso suserano, soberano, imperador, chefão…. Bem, entenderam.

Então, amanhã está combinado: todo mundo com a Stars and Stripes, a querida bandeira daquele invejável país. Vale qualquer referência a ela. Peças íntimas, lenços, meias, pulseiras, enfim, qualquer referência.

Como este blog está consciente da importância de tal evento, a visita de nosso Magnânimo, o leitor mais atento, mas só ele, perceberá a tocante homenagem ao dono do mundo (representante da nação mais adorada, até entre os árabes!) que nós, digo, eu, fiz. O resultado está no começo e fim deste post.

Diga sim amanhã ao American way of life. Assumamos nossa condição de periféricos! Ave, George W. Bush!

Nós, quer dizer, eu,  já fiz minha parte, agora falta você. Obviamente sua homenagem não precisa ter a mesma originalidade que a nossa, digo, a minha, em termos pictóricos… Uma simples lembrança serve. É só para não passsar em brancas nuvens a visita raríssima de nosso rei.

                  

                                         

                                

                                                    

Ele estará entre nós

Com todo o aparato de segurança, ele, George Walker Bush, nosso chefe, vai estar entre nós a partir da quinta-feira próxima até o dia seguinte. Tem que estar tudo nos trinques para o nosso soberano ficar numa redoma de proteção. Com a inusitada “tentativa de atentado” (esse pessoal fundamentalista às vezes tem senso de humor) que sofreu o vice-presidente Dick Cheney em Cabul na semana passada, os americanos estão ressabiados. Vai imaginando se (não me chamem de agourento) o hómi é morto aqui por uma célula da Al-Qaeda… A muvuca que seria! BUSH MORRE NO BRASIL EM ATENTADO ASSUMIDO PELA REDE TERRORISTA DE OSAMA BIN LADEN. Imaginaram? Carácoles, só de pensar…

Bem, este post foi um atentado, mas ao bom senso. Tantas coisas sobre as quais se escrever, tantas questões urgentes, tantos mistérios, tantos, enfim, assuntos mais candentes, e este blogueiro de meia pataca resolve pôr para fora suas mais enfermas e furadas previsões… O horror, o horror!

Mas, na verdade, não foi nenhuma previsão. Foi, isso sim, uma… uma… o que foi isso, hein, alguém tem um palpite aí?

 

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Ao som de… nada, porque num estou no clima pra nada. Estou invocado! Coisas do desequilíbrio de neurotransmissores… Daqui a pouco melhoro…

De um surrealista a outros surrealistas

                           Sleep, de Salvador Dalí, 1937

 

    No viver em sociedade, temos que suprimir nossos mais recônditos e indizíveis pensamentos. Isso tudo não é novidade para ninguém, mesmo para quem nunca leu Freud. O que me chama a atenção nesse assunto é o quão complexos são nossos pensamentos e nossos instintos. Refiro-me àquela teia de reflexões que nos assalta (ela, a teia!) por qualquer coisa que se coloque em nosso caminho. Tudo, literalmente tudo é como um gatilho a acionar toda uma estrutura de respostas num nível mental, toda uma cadeia de ações e reações internas. E essas idéias, sobretudo a imensa maioria que não é notada num plano consciente, ah, como essas idéias, se analisadas, descortinariam quem realmente somos, o que de fato pensamos do mundo e dos outros, o que, em termos de vivência, temos armazenado e de que nem desconfiamos.

   O surrealismo trabalhou muito com esse baú de pensamentos que se encontra (ele, o baú!) nos nossos calabouços internos, em nosso quartinho de badulaques de vivências “esquecidas”, nosso “lixão” interior. E a escrita automática, a livre associação e o liberar dessas tranqueiras todas em forma de arte, são uma grande ferramenta para esse trabalho de prospecção de nossa riqueza escondida.

   Tudo isso veio à tona (expressão que vem bem a calhar aqui) por contemplar um quadro de Salvador Dalí, o ultrafamoso Sleep, de 1937. A genial idéia de Breton e cia. ainda continua eficaz e viável hoje em dia. Todos somos surrealistas.

   Tudo isso é um exemplo na prática de como as idéias em nós estão ali, em estado de potência, latentes que são. Basta um fator desencadeador. Seja ele um quadro, uma música, um cheiro, enfim, QUALQUER coisa.

   E há ainda quem se espante com o vazio e se revolte contra a suposta pobreza mental de si mesmo…

  

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Ao som de Coltrane, Impressions (muito sintomaticamente sugestiva, não acham?)

    

 

Não façam isso em casa!

Picado pela vespa da curiosidade e sem nada mais o que fazer, resolvi realizar uma experiência perigosa, não recomendada para hipertensos, cardíacos e outros. Usando minha absurda criatividade, grandioso senso crítico, sangue-frio, perspicácia inesgotável e outras virtudes que tomariam todos os bites de toda a rede de computador mundial, pois bem, sendo eu quem sou, filho da minha mãe com meu pai, irmão das minhas irmãs, brasileiro, cóf, digo… o que mesmo?

Ah, sim, a experiência.

Bem, como tinha acabado de ouvir Richard Wagner no escuro do meu quarto, às quatro horas de um dia ensolaradíssimo, por que não ouvir, vejam bem, uma rádio funk por trinta minutos ininterruptamente, com o mesmo fone de ouvido que há pouco tocava Wagner? O que acontenceria comigo? Que sensações teria? Que idéias passariam pela minha cabeça? Quais seriam meus limites para o sofrimento?

Encarei a empreitada, uma das mais arriscadas de toda a história auditiva da humanidade. Munido de toda coragem do mundo e mais um pouco, fui à cozinha, bebi água, provavelmente certo de que me despedia do mundo, adeus, meus caros progenitores, adorada Capitu, minha cadelinha de 11 anos, meus livros e cds, oh, mundo, partiria para virar mártir…

… Tal o condenado rumo  ao patíbulo.

Fui.

Tranquei a porta. Não sem antes olhar o céu azul pela última vez, e as nuvens, tão altas, mas indiferentes a meu trágico destino. As plantas no canteiro como se despediram de mim. O botão de rosa, tenho certeza, esse murchara ao me “ver” na derradeira hora.

Mas fui. Sentei-me confortavelmente na almofada. Cruzei as pernas, coloquei os fones. Sintonizei a rádio 100% Funk, 100% Agito, 101% Zoação…  Aquilo não ia dar certo!

Anúncio de rádio pirata é tudo igual: aquela maravilha de dicção, português, bom gosto e criatividade… A tempo: a “rádio” não era de nenhuma favela, era de uns soi disant universitários, com a chancela do “pai da Fê pra ver se ela sai da rua…”.

Estava vivo ainda?

Parecia: pulsação normal, respirando, consciente.

Depois de um longo “comercial” (Banca de Jornal do Lázaro, Padaria Araguana, Fotos Piauí, Pizzaria Bambino), começou a sessão de tortura, digo, a “seleção das melhores (sic!!!!!!)”.

Num primeiro momento, achei que estava delirando. E estava mesmo. As letras, o ritmo, as vozes, a “melodia”, a filosofia de vida por trás de tudo aquilo, em suma: a “coisa” toda fez me imaginar onde e quando? Querem mesmo saber? Eis que me senti “de volta” às savanas da África, o que é uma estupenda injustiça com nossos antepassados, bem sei. Mas, o que posso dizer? Senti-me o próprio homem das cavernas. Delirava. Vi passar diante de meus olhos incrédulos tudo o que havia de ruim, estragado, precário no mundo. Bisões enormes esmagando meus pobres colegas de período histórico e minhas colegas de caverna (opa!). Vi lutas entre tribos, esquartejamentos, caçadas fabulosas, fugas não menos grandiosas de todos os tipos de bichos de outrora. E o som nauseabundo não parava. Eu tinha apagado.

De repente, uma batida forte, um tuntum provavelmente de uma provável nova guerra de clãs, me acordou. Mas era engano, era a bateria de um funk “instrumental”. Era a performance de um tal de Willianzinho Qualquer Coisa.

Suando, assustado, desorientado, tratei de jogar longe os fones, em direção da cama; acendi as luzes, desliguei o som, caí na cama e maldisse o mundo atual em que há funk e senti a saudade de um tempo em que não vivi: muitos e muitos e muitos anos atrás, num mundo em que não havia tal dejeto sonoro, tal hecatombe do som: o funk.

Se todos que ouvem tal lixo se resumissem a ouvir nos seus clubes e festas, tudo bem. O que me faz querer “voltar” às cavernas é ter que aturar carros com o som no último, tocando o supra-sumo desse ruído que me nego a chamar de gênero musical. Isso de madrugada! Sendo todos obrigados a ouvir tal detrito sonoro.

Repito: não façam tal experiência em casa!

A primeira coisa que fiz ao levantar foi ouvir a Nona Sinfonia de Beethoven; Charlie Parker, João Gilberto e Diana Krall no último.

Meus ouvidos tinham ficado podres. Precisavam de uma faxina urgente. Minha sanidade mental exigia!

A boa música deu conta do recado.

Mas aprendi. Nunca mais faço aquele ato tresloucado.

Nem desejo aquilo como tortura ao maior dos celerados. E não me importo de ser tachado de elitista, conservador, rancoroso, intolerante.

Situações extremas pedem medidas extremas.

Eu abomino funk!

Na pista de dança

     Embalada na pista de dança, num frenesi alucinante, ela não percebeu que era desejada. Pares e mais pares de olhos sedentos estavam fixos nela. Na dança em estado de transe, ela também nem percebeu que ele se aproximava. Ninguém, na verdade, percebeu. O som altíssimo, vozes, luzes feéricas, risos, cochichos, gritos. Algumas pessoas ali na pista se exibiam, num particular estado de consciência não muito consciente. Consciência de que eram vistos. Inconscientes para si mesmos. O ritmo, as batidas, as luzes, um turbilhão, num crescendo, refrões em inglês de uma música já sampleada diversas vezes, fáceis de serem cantados, urrados. Ali, do nada, ele se aproximou. O silenciador impediu que fosse ouvido o tiro. O ruído, insignificante no meio de outros sons mais potentes, não foi percebido. Mas aquele corpo, aquele corpo que há pouco vibrava, pulsava, esse foi visto cair lentamente, numa massa amorfa de cabelos, decote, jeans, celular para um lado, óculos de outro, pulseira para lá, braços para cá. No centro da pista jazia agora um corpo sem vida. Um tiro certeiro no coração que pulsava ao som da batida contagiante o impediu de continuar na sua batida costumeira, do dia-a-dia.

    Naquela pista de dança, onde agora todos estavam atônitos, o contraste entre o som – que continuou por um tempo além da conta - e a cena empapada de sangue era por demais absurdo.

    Mas aconteceu. Só nos resta contar.

   Fora um crime passional. No outro dia, a pista de dança, depois de devidamente limpa e lavada, dava asas à compulsão de liberdade que uns extravasam ali e outros em infindáveis e inimagináveis outros lugares.

   A morte chegara, interrompera uma vida literalmente pulsante e se foi. Vitoriosa.

Programados para o erro?

 A sensação de que tudo falhou até o momento, no que diz respeito a nossa tão ciosa de respeito civilização, está aí para todos, “fenômeno” facilmente detectável onde quer que se encontre o ser humano. Tivesse nosso ancestral lá atrás, muito atrás, um pequeno vislumbre disso tudo, desse ponto a que chegamos, ele teria permanecido na copa da árvore em que preguiçosamente estava a matutar sobre sua sobrevivência precária.

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 Sim, reconheçamos: anos e anos de civilização, de progresso, para isso… Ok, há toda uma corrente filosófica que busca sempre contestar essa mesma idéia: a de que o progresso humano seria algo paulatino, sempre a se acumular e conseqüentemente a vida humana necessariamente atingir uma grau maior de perfeição. Mas como não falo aos filósofos..

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 É como se não estívessemos na posse de um aparato necessário e apropriado para se viver atualmente.

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 A insensatez humana não é a única responsável, não pode ser. Mas ao reconhecer isso, estamos, paradoxalmente, justificando nossa plena, absurda, faraônica incapacidade para o viver consciente, prenhe de possibilidades promissoras. Estamos, em poucas palavras, procurando um álibi para nossa inclinação ao erro perpétuo.

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 Não sejamos, pois, utópicos: tivéssemos a oportunidade de recomeçar tudo, por causa mesmo dessa inclinação, dessa “programação” ao erro contínuo, faríamos tudo igualzinho, seja em nossa vida particular, seja em termos de civilização. Pensando holisticamente, não passamos no teste. Reprovados fomos, reprovados seríamos novamente. O jeito é adiar a grande falha. Qual seja… cada um, pelo menos, tente evitar a sua…

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Ao som de Louis Armstrong, La Vie en Rose

Quais são as três coisas sem as quais a vida é uma mera matéria fecal?

Bem, tirando a família, no meu caso mera e levemente patológico, são elas:

1. Livros e escrita: para mim, o ler e o escrever são uma coisa só, não sendo, pois, departamentos estanques. Leio quando escrevo e escrevo quando leio. Lendo, amplio bastante meus limites estreitos de um ser preso às contingências da vida… Escrevendo, exploro aqueles limites outrora estreitos e assimilo, degluto e regurgito tudo em forma de escrita. Fontes, pois, por excelência de conhecimento num mundo cada vez mais voltado ao transitório, superficial e descartável. Sem literatura, para mim, o mundo seria inviável. Sem a, vá lá, às vezes válvula de escape da escrita, a vida seria tacanha. Machado de Assis, Shakespeare, Dostoiévski: a trinca que faz minha cabeça. Há outros e outras, felizmente em grande número para serem arrolados aqui. E seria altamente pedante, claro…

2. Cinema: não o convencional, não o da mesmice, não o cheio de concessões mercadológicas, nem tampouco o de mero entretenimento. Mas o de autores, o de arte, os alternativos, seja qual for a definição. Não importa. Quer me ver feliz? Só me dar um filme iraniano da década de 90, ou um italiano do neo-realismo, ou qualquer de:

- Bergman, Godard, Bresson, Truffaut, Hitchcock, Antonioni, Fellini, Kurosawa, Kiarostami, Kubrick entre outros que totalizam uns quinze, dos mais diversos países e idiomas. Sou absolutamente vidrado (atualmente ando meio afastado) em questões relacionadas à dobradinha cinema-literatura, filosofia-cinema, psicologia-cinema, política-cinema, enfim: aquela temática que foge da mediocridade daquilo que se convencionou se chamar de cinema de entretenimento, ligeiro e estreito, apressado e oco, superficial e pasteurizado. Que tem lá suas vantagens em certos momentos. Para este humilde escriba, o que quer dizer quase nunca.

3. Música: do moleque franzino e esquisito que já foi roqueiro da pesada, que ouviu muita coisa na juventude, para este que hoje tem no jazz e na música erudita aquilo que mais se aproxima de uma paixão, muita coisa rolou. Mas hoje, na casa dos trinta, aquieto-me. Coltrane e Bach, Vivaldi e Charlie Parker, Haydn e Billie Holiday: eis minha trilha sonora de longuíssimo prazo. Ok: reconheço que é meio arriscado determinar a trilha sonora (ainda mais sui generis é a idéia de uma trilha sonora geriátrica) da velhice quando ainda não se está nem na metade da vida… Mas já está aí registrado…

 

Ao som de Bunk Johnson, Tishomingo Blues e Dirty Dozen Brass Band, New Orleans Blues

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Com angústia? Dor e asco perante o existir? Sente que tudo é precário e destituído de razão, de um fim, de um porquê, de um sentido? Às voltas com perguntas existenciais? Sente um imenso vazio na alma? Incapaz de sentir afetos? Não consegue criar vínculos com o mundo e suas circunstâncias? Pensa demais no fim de tudo? Já, aliás, pensou em terminar com tudo? Não crê mais num deus? Nem em religiões, pois elas já lhe cansaram profundamente ou acabaram com sua paciência? Tudo que você faz ou pensa em fazer acaba assumindo um caráter de gratuidade? Ninguém reconhece seus méritos? As pessoas são por demais vulgares para fazer jus à sua companhia, inteligência, singularidade e genialidade? Fala sozinho sobre a necessidade da transcendência na vida cotidiana, mas não pela via da religião ou da crença mística? Tem vontade de se dedicar à arte mas a vida vulgar do dia-a-dia o impede? Vê seus sonhos de grandeza artística se esvaírem? Tem ganas de mandar os vulgares e pobres de espírito, quer dizer, quase a humanidade toda, para um túnel de desintegração de matérias? Espantado com o grau de violência humana? Com o fanatismo religioso? Ou étnico? Enojado da política, em todos os seus quadrantes? A cobiça do ser humano o envergonha? A hipocrisia e falsidade e superficialidade e futilidade tomam as rédeas do viver em sociedade, é o que pensa? A vida se tornou uma piada que não vale a pena ser vivida?

É com você mesmo: seus problemas acabaram.

O super Rebanhex© chegou para ajudar você a ser um perfeito e acabado novo integrante da nova espécie humana que irá dominar o mundo e, segundo projeções de nossos cientistas do laboratório Mannadaxialy, dentro de um século terá a possibilidade de colonizar outros planetas fora da Via Láctea.

Este fabuloso medicamento age sobre seus neurônios: uma substância neurotransmissora age especificamente nos circuitos cerebrais que comandam nossa capacidade de questionar ou contestar. Ou seja, nosso centro cerebral de análise e crítica. Desativados esses circuitos pela substância ativa do Rebanhex©, você NUNCA mais sentirá a necessidade de querer bancar o esperto, o sabe-tudo, nem tampouco vai querer saber de contestar o que quer que seja. E, conseqüentemente, será mais um a seguir o que lhe mandam fazer, acriticamente; viver o que lhe resta de vida; não ter necessidade mais de ficar procurando sentido para os fenômenos da vida, pois tudo isso o impede de fruí-la.

Em suma: você entrará para o grande rebanho dos realmente felizes e realizados na vida.

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O lançamento mundial de Rebanhex© será no próximo dia 9, no Madinson Square Garden, em Nova York.

Mais um lançamento Mannadaxialy™.

www.mannadaxialy.com

Informe Publicitário 1

Suplante o outro. Supere-o. Ultrapasse-o. Deixe-o para trás. Faça-o comer poeira. Apequene-o. Amesquinhe-o. Engrandeça-se perante ele. Seja o soberano. O melhor. A personificação exata da perfeição. O apogeu do perfeito. Do indefectível. O paroxismo do primor, do requinte. Aquilo que a humanidade toda deveria ser. O resultado de milênios de desenvolvimento humano. O exemplo perfeito de algo perfeito no qual seres imperfeitos deveriam se mirar. O alvo do fazer humano. A meta do homo sapiens. O grau máximo de indefectibilidade, arrojo, supremacia. Paire nas nuvens. Num pedestal. Para que todos o contemplem e o adorem e gerações e gerações o estudem, o analisem, o esquadrinhem e se espantem com sua incontestável e congênita tendência para tudo que é destituído de erro, defeito, máculas.

Tudo isso está a seu dispor.

Novo Soberanus©. O carro que o fará sentir o gosto de ser o mais que perfeito.

 

Numa concessionária perto de você. 

www.soberanus.com

Manhã de céu azul. Quem dela precisa? (Ou: situações extremas pedem medidas extremas e, entre estas últimas, até mesmo uma possível pieguice)

Enquanto escrevo estas mal-traçadas, lá fora a manhã de céu de um azul límpido, de nuvens raras e brisa rejuvenescedora, se esvai aos poucos.

O que fazer com o sentimento de quase êxtase ao contemplar a perfeição do dia, a aparente regularidade do ritmo da vida, tudo isso em contraposição com a sensação de pressa, de imediatismo e da conseqüente brutalização do ser humano, que, às voltas com o ritmo frenético da vida em sociedade, se esquece do essencial: viver o momento? Como reagir a essa bifurcação? De um lado o planeta nos eixos (por enquanto, ainda), a natureza seguindo seu ritmo (idem), os dias se sucedendo, o tempo marcando o tempo. De outro, a sensação nada confortante de que, do nosso ponto de vista, tudo está errado, de que desse modo tudo há de se tornar inviável, humanamente inviável. A pressa acima mencionada é o pior veneno: essa ditadura do tempo escasso, esse eterno driblar o relógio, essa lei consuetudinária que nos manda a todos viver intensamente, atabalhoadamente, produzindo, consumindo, esvaindo-nos em mil afazeres, em prol do progresso, do dinheiro, do status; lei que ninguém sabe quem instituiu mas com a qual todos concordam acriticamente; que suga de nós até a última seiva, o derradeiro suspiro; e que nos tira a perspectiva do tempo, que relativiza o fluir do tempo; que atrofia nossa capacidade de imaginar, sonhar, criar, transcender, relacionar-se, conhecer o outro, aproximar-se mais dele e com ele interagir, aprender mais e de forma mais plena, meditar, relaxar e, para encurtar a imensa lista, apreciar um céu azul límpido de uma manhã que, para muitos, é apenas uma manhã a mais.

Afinal, não se pode perder tempo. Eis algo proibido, execrado: a perda de tempo com tais poetices alienantes. Apenas poetas e almas débeis se entregam a isso. Pois é inútil, típico de pessoas portadoras de sensibilidade. Essa doença que nossos cientistas ainda hão de extirpar do rol de nossos padecimentos.

Uma manhã de céu azul. Ora essa…

 

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Ao som de um álbum sui generis: trata-se de um cd com treze canções de Nina Simone, mas com uma roupagem altamente dançante, remixada, ultra moderna. Chama-se Nina Simone – Remixed and Reimagined. O trabalho tem os créditos de Daniel Y. Remix, Jazzeem’s All Styles Remix, entre outros. A faixa Ain’t Got No – I got Life é tão contagiante que faz você chorar de alegria. O vozeirão poderosíssimo de Nina nos tira do chão. O resultado você mesmo pode conferir aqui.

Escravos da falsa generalização

    Generalizar. Eis um truque de mentes afeitas ao fácil, ao “prático”. Obviamente generalizar é um exercício intelectual muitas vezes válido. No entanto, o generalizar destituído do mínimo de critério, de racionalidade lógica, se me permitem o termo, é, isso sim, cacoete mental daqueles que não têm o mínimo de comprometimento com a reflexão, com a análise e, acima de tudo, com a busca de uma verdade, que pode ser utópica, mas que é nobre.

    A indução, aquele raciocínio que parte do particular e ruma ao universal, é uma forma do pensar que nos acompanha há muitos e muitos e muitos anos, desde o momento em que nosso ancestral sacou brilhantemente que um dado fenômeno, ao se repetir em dadas circunstâncias, poderia ser generalizado e a partir daí haveria o esboço de uma lei universal, parâmetro adotado pela ciência.

    Ora, contesta um leitor, mas isso é sabido por qualquer pessoa razoavelmente culta. Meu caro leitor imaginário, louvo-lhe a perspicácia. Porém, estas mal-traçadas, e generalizando (!) este blog, não têm a pretensão de dizer coisas originalíssimas. A razão de ser deste blog, posso lhe dizer, é apenas e tão-somente servir de válvula de escape para o self sedento por expansão deste que escreve. Dito isso, ou, como quiser, isso posto, voltemos aonde queria chegar este post.

    Toda a introdução do primeiro parágrafo pode ser atribuída à necessidade intríseca deste ser do espaço de criticar, de colocar o dedo na ferida. A saber: é tentar dissecar o porquê da (não menos intríseca) necessidade de muitos de generalizar, de estereotipar, de colocar em gavetas classificatórias e, portanto, limitar conceitos e/ou o semelhante. Que é preguiça mental já sabemos. Que é desonestidade intelectual, frivolidade, pressa, superficialidade, também. A quê mais podemos atribuir esse hábito deplorável de generalizar e portanto classificar, na maioria das vezes de forma pseudo-analítica?

    Para mim, o estereotipar, o não querer ir além das aparências, o ater-se aos epifenômenos, ao invés de se ater aos fenômenos, é um mecanismo de defesa também. Ao me restringir ao óbvio, ao aparente, à superfície, à casca, em detrimento do obscuro, do oculto, do profundo, do âmago das coisas, ao me “contentar” com a ponta do iceberg, eu estaria não querendo me comprometer com a natureza realmente complexa dos conceitos, das pessoas. E o apegar-me àquilo que mais fácil tenho à mão seria uma defesa e um subterfúgio para que eu não tenha que me reconhecer como ignorante de uma dada idéia, conceito, etc.

    Nessa espécie de escravidão voluntária, esvai-se nossa oportunidade de aprender, de sair de um estágio de escuridão intelectual para um de iluminação, de esclarecimento.

    Generalizando, estereotipando, lançando mão de lugares-comuns, de chavões no pensar, eu me resguardo, eu ponho meu amor-próprio num lugar seguro. Em contrapartida, isso tem um preço. E o preço vem na forma de desconhecimento e não desvelamento das coisas complexas da vida.

    Conhecimento esse que é, na verdade, aquilo que nos amplia as possibilidades do viver.

 

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Ao som de João Sebastião Ribeiro, “vulgarmente” conhecido como Johann Sebastian Bach, Concerto de Brandenburgo nº 4,  índice BWV 1049 (I. Allegro) e Ária na Corda Sol da Suíte, índice BWV 1068, sob regência da Royal Philharmonic Orchestra

Ilusões para substituir a realidade

  Consumismo desenfreado. Crenças que surgem aos montes, quase que por geração espontânea. Culto ao corpo. Imediatismo. Superficialidade. Futilidades em massa, em horário nobre. Cabeças constrangedoramente vazias em corpos esculturais. Sorrisos de plástico em rostos de acrílico, tudo comandado por um “cérebro” de isopor, cuja massa cinzenta se tornou desbotada, atrofiada com a falta de uso e é cheia de uma espécie de papel reciclado de quinta categoria.

  O que há de comum entre todos esses elementos apanhados a esmo e aparentemente desconexos?

  Tudo isso são os mecanismos de defesa mais usados hoje em dia. É para lidar com o transitório, com o incerto, com o sentimento de mal-estar que vem de uma sensação de desamparo diante do Incerto, do Instável, entre outras entidades (fazendo um paralelo: seriam elas os equivalentes modernos das almas de outro mundo, dos seres do Desconhecido do homem das cavernas?) que conseguem despertar  no ser humano de forma geral medos atávicos e antiqüíssimos, há muito recalcados; pois bem, é com a intenção de substituir a indesejada realidade, numa ilusão auto-imposta, que o ser “indefeso” de hoje apela a todo aquele aparato da mediocridade que bem conhecemos. Tal aparato assume várias formas, tão inúmeras são elas que seria impossível elencá-las aqui.

  Portanto, da próxima vez que você tentar analisar o porquê da imbecilidade midiática e do outrora caniço pensante (ver Machado!) tomar tal rumo, saiba que há muitas e muitas camadas de realidades superpostas em tal (em qualquer?) “fenômeno”.

 

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Com a palavra, meu eu-lírico, voilá!

 Antecipando-me a um possível leitor irônico, faço uma pergunta bem possível desse imaginário visitador de blogs sorumbáticos:

 

 “Entre a tal das ilusões para substituir a realidade, me diz: Estão incluídas as demonstrações de pseudo-intelectualismo?”

 

 E eu responderia, candidamente:

 

 ”Sim, meu caro, bem como a estreiteza que impede o entendimento das coisas sutis..”

 

 

Isso foi culpa do meu eu-lírico, juro!

 

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 Ao som de Bill Evans, T.T.T. (Twelve Tone Tune) e Re: Person I knew

O que penso do Big Brother Brasil? – parte II (A saga continua)

Big Brother Brasil:

  • a mediocridade coletiva, a asneira mais assistida por parvos e parvas que se importam com gente fútil e vazia, desinteressante e rasa, trancada num lugar totalmente diferente do qual vivem milhões e milhões daqueles mesmos que assistem.
  • O BBB é a metáfora do país. Ele nos resume, nos sintetiza, nos mostra o quão esquálidos somos como povo, o quão atrasados ainda nos encontramos.

 

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Ao som de Wolfgang Amadeus Mozart, Sinfonia nº 36, K 425, Linz Poco Adagio, sob regência da Royal Philharmonic Orchestra

Queremos silêncio!

 Silêncio é artigo de luxo hoje em dia. A capacidade de se gerar barulho (campainhas de celulares, buzina,  motos guiadas por seres sem tímpano e com pouco respeito pelo alheio, sons de “música” no último volume de carros, gritos, urros, assobios, o idioma destroçado em alto e bom som: já não basta assassinar o idioma; é necessário fazê-lo GRITANTEMENTE, etc) é inversamente proporcional à nossa capacidade de o tolerarmos. Decibéis na estratosfera, poluição sonora: é o preço que temos que pagar para termos nosso direito a esse pequeno latifúndio pós-pós-pós-moderno que nos cabe? Se for, estou indo para Marte.

 Ah, quem me dera…

 Mas falando sério: há a tendência reconfortante de a coisa piorar, sejamos otimistas, sempre há como piorar. O lixo sonoro nos domina, aonde quer que formos (com exceção de alguns lugares felizardos) encontraremos sempre a mesma falta de limites. Falta de limites? A tolice humana e a falta de conscientização (o próprio tímpano parece não ser o suficiente) não conhecem restrições.

 A nós, amantes da natureza, do silêncio, do vagar, da contemplação, da calma, da serenidade, da leitura, da reflexão, a nós só nos resta usarmos de quaisquer subterfúgios (ataques terroristas a psicopatas auriculares, digamos assim, são uma opção viável num futuro próximo) para driblar e fugir desses momentos em que almejamos a placidez utópica.

 Usemos, nesse caso justificadamente, as armas do inimigo:

 

 DIGAMOS EM ALTO E BOM SOM:

 

                          

                        QUEREMOS SILÊNCIO!!

Para que escrever?

Para que escrever?

Alinhavar palavras, tecer comentários, escolher termos, cortar outros, ligar idéias aparentemente desconexas. Escrever, escrever mesmo para que ninguém mais leia. Encher a folha ou a tela em branco. Inserir letras, sílabas, palavras, frases, orações, períodos, parágrafos. Tirar conclusões, observar uma idéia se desenvolver, tomar forma, ganhar corpo, vida. Engravidar as palavras com novos sentidos, fecundá-las, fazê-las plenas de vidas autônomas. Tomar, por meio das palavras, o mundo nas mãos. Analisar a vida, virá-la do avesso, torná-la entendível. Escutar a voz interna que dita o ritmo das palavras. Elas, as palavras, que são a criação mais poderosa de que o ser humano dispõe. O poder que elas têm de vivenciar, relembrar, deslocar, criar, destruir, sugerir, sintetizar, explicar, mostrar, ensinar.

Escrever, seja um romance, um conto, uma crônica, um poema, uma ode, um bilhete, um e-mail, um comentário subjetivo em um blog: basta acionar as palavras, pinçá-las, retirá-las de seu estado frio de dicionário, escrevê-las, juntá-las e dessa ação tão mecânica a nós, dessa combinação infinita de possibilidades, de potencialidades, domar o mundo e seus fenômenos (nós incluídos), domesticá-lo, torná-lo algo passível de controle, de entendimento.

Precisa-se de um outro motivo para escrever?

 

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Ao som de Billie HolidayStormy Weather

"Desaforismos"

Quanto mais a ciência aprende sobre o ser humano, mais o humano ser desaprende a ser humano.

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Os limites da minha conta bancária são os limites do meu eu.

(Parafraseando Ludwig Wittgenstein, que disse que “Os limites da minha linguagem denotam os limites do meu mundo” – Tractatus logico-philosophicus, 5.6)

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A vida sem o carro do ano não merece ser vivida.

(Paráfrase de Sócrates, que disse que  ”A vida sem reflexão não merece ser vivida“)

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Tudo era um caos até que surgiu a internet e pôs lenha na fogueira.

(Parafraseado de Anáxagoras, que disse que “Tudo era um caos até que surgiu a mente e pôs ordem nas coisas“)

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Ao som de John Coltrane, A Love Supreme, (Complete)

Aos amebas e às amebas do BBB 7…

 … e a todos aqueles outros protozoários unicelulares que assistem tal lixo dedico uma cueca* furada para servir de flâmula e de lembrança à posteridade que daqui a uns 4500 anos (se a Terrinha agüentar até lá) aqui aportar e que, desse modo, espantar-se-á com nosso grau avançadíssimo de desenvolvimento, principalmente intelectual, quiçá um dos maiores do mundo.

 

* Tal simbolismo, na verdade, NÃO é um simbolismo. Ao escrever este post (dia 24 de fevereiro), fico sabendo involuntariamente pela chamada da Folha (em cuja manchete, por uma circunstância que não vem ao caso, me obrigou a lançar os olhos) a baixaria e indigência mental por trás de tal “programa” (foi-se o tempo em que torcíamos o nariz para tal palavra, que nos fazia lembrar de “programa de prostituição”. Às honradas profissionais do sexo, inclino-me em respeito a vocês). O país acionado, em alerta, nas ágoras tupiniquins, a discutir o quê? Uma reles cueca.

Cada país tem o povo que merece.

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Haydn, Concerto para trompete, (allegro), com Wynton Marsalis

Elucubrações sobre a escrita "literária". Ao som de jazz dos anos vinte.

Escrever é um ato insano. Inventar personagens, situações, diálogos, circunstâncias, clímax, entrelaçar tudo isso para que pareça, no fim das contas, tudo muito real, quando na verdade é tudo  de mentirinha, pois bem, isso é o que chamo de insanidade travestida de racionalidade.

Mas uma insanidade da qual aqueles que dela padecemos não queremos abrir mão.

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At the jazz band ball e Blue River. Em gravações de 1927 com a banda The Wolverines, do genial e precocemente morto trompetista atormentado Bix Beiderbecke. O ritmo contagiante de tal música continua ali, intacto, passados tantos anos. É ouvir, fechar os olhos e se imaginar naquelas espeluncas esfumaçadas da Chicago dos anos 20, a Era do Jazz. Uma raridade!

Nietzsche e uma reflexão

Acabei de ler uma compilação de textos de Friedrich Nietzsche. É da Nova Cultural, aquela coleção Os Pensadores, edição de 2005. Um trecho me chamou particularmente a atenção. Nele, o genial alemão faz uma reflexão que tangencia um assunto que toquei de leve em um post: Sobre cascatas letradas…

Trata-se daquela velha idéia segundo a qual escrever (bem) ou ser um grande artista é apenas para os titãs consumados da Arte, gênios, seres tocados pelas musas e inspirados pelo além… Neste texto, Nietzsche demole, com sua prosa afiada e corajosa, essa idéia de que os grandes autores e grandes artistas operam milagres. Para ele, ao nos referirmos a eles, grandes artistas, como operadores de milagre, estamos, na verdade, resguardando nosso próprio orgulho ferido, a um passo da inveja. Ao colocar os Artistas num âmbito de quase transcendentalidade, estamos mesmo é dizendo: “Olha lá, não posso me comparar com aquele gênio, pois ele se encontra num mundo à parte. Ao passo que aquilo que faço, seja escrever, pintar, reprensentar, enfim, criar a minha arte, não pode ser comparado com a Arte dos grandes. Sou pequenino demais, ridiculamente inexpressivo. Portanto, não esperem de mim mais do que isso. Se eles podem, é porque são únicos, gênios, semi-deuses. E eu, apesar de capaz e inteligente, sou um nada que faz lá sua reles arte…”.

O assunto que mais me interessa aqui é o escrever. Pessoas há que, de tão orgulhosas, apelam a esse subterfúgio paupérrimo. “Olha, vou escrever para tal concurso literário, para um blog, para uma revista, enfim, expor o que escrevo. Mas, por favor, NÃO SOU ESCRITOR. A literatura ( se é literatura o que escrevo!) que faço não é… literatura (sic!). Não esperem de mim, portanto, a grandeza dos grandes da literatura. Eles, enfim, foram seres de outro mundo! Vejam que não há como, apesar de toda minha inteligência, concorrer com esses demiurgos”.

Escrever, para mim, é um ato dentro das possibilidades de qualquer pessoa alfabetizada. Contos, romances, poemas, peças teatrais, roteiros de cinema, enfim, a literatura em seus vários gêneros, é fruto não de alguma anunciação divina, de uma visita de seres alienígenas, de musas de outrora ou de qualquer tempo. Não! Escrever, meu chapa, minha nega, é exercício, é talento, é dom, é suor, é transpiração, é sentar (perdão pelo termo) a bunda na cadeira, queimar as pestanas, testar palavras, reescrever, pensar muito, conviver com as próprias vozes interiores, muita leitura, conhecimento (não necessariamente erudito) do idioma, esforço, tesão, fuga da multidão, silêncio. Bem, se você se propõe a escrever, meu caro, minha dear, faça-o de forma plena, competente e faça-o bem, pois há gente vendo. E uma idéia perfeita, mas escrita de forma canhestra, não necessariamente em termos de idioma, pode ser a grande traidora e mostrar a todos o quão o escritor não tocado pelas musas é tocado mesmo por aqueles animaizinhos doces e pacíficos mas destituídos de “inteligência” e cujo nome começa com b e termina com duplo erre e pela letra o…

No post abaixo estão as palavras do grande (mas humano, demasiado humano*) Frederico, o Nietzsche.

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* Título de uma de suas obras mais deliciosas e da qual foi extraído o trecho abaixo.

"Da alma dos artistas e escritores", por Friedrich Nietzsche

                            

“Da alma dos artistas e escritores”

Capítulo IV de Humano, Demasiado Humano, Primeiro Volume, 1878

                                                    § 162

 

“Culto do gênio por vaidadePorque pensamos bem de nós, mas no entanto não esperamos de nós que possamos alguma vez fazer o esboço de uma pintura de Rafael ou uma cena tal como a de um drama de Shakespeare, persuadindo-nos de que a faculdade para isso é maravilhosa, acima de todas as medidas um raríssimo acaso, ou, se ainda temos sentimento religioso, uma graça do alto. Assim, nossa vaidade, nosso amor-próprio, propiciam o culto do gênio: pois somento quando este é pensado bem longe de nós, como um miraculum, ele não fere (mesmo Goethe, o sem inveja, denominava Shakespeare sua estrela da altura mais longínqua; a propósito do que, se poderia lembrar o verso: “As estrelas, essas não se desejam“). Mas, sem levar em conta essas insinuações de nossa vaidade, a atividade do gênio não aparece de modo algum como algo fundamentalmente diferente da atividade do inventor mecânico, do erudito em astronomia ou história, do mestre de tática. Todas essas atividades se explicam quando se tem em mente homens cujo pensar é ativo em uma direção, que utilizam tudo como material, que sempre consideram sua vida interior e a de outros com empenho, que por toda parte vêem modelos, estímulos, que nunca se cansam de combinar seus meios. O gênio também nada faz a não ser aprender, primeiro, a pôr pedras, em seguida a edificar, procurar sempre pôr material e sempre modelar nele. Toda atividade do homem é complicada até o miraculoso, não somente a do gênio: mas nenhuma é um “milagre”. – De onde então a crença de que somente em artistas, oradores e filósofos há gênio? De que somente eles têm “intuição”? (com o que se atribui a eles uma espécie de óculos milagrosos com que vêem diretamente dentro da essência!). Os homens, evidentemente, só falam do gênio ali onde os efeitos do grande intelecto lhes são mais agradáveis, e eles, por sua vez, não querem sentir inveja. Denominar alguém “divino” quer dizer: “aqui não precisamos rivalizar”. Depois: tudo que está pronto, perfeito, é admirado, tudo o que vem a ser é subestimado. Ora, ninguém pode ver, na obra do artista, como ela veio a ser; essa é sua vantagem, pois por toda parte onde se pode ver o vir-a-ser há um certo arrefecimento. A arte consumada da exposição repele todo pensamento do vir-a-ser; tiraniza como perfeição presente. Por isso os artistas da exposição são considerados geniais por excelência, mas não os homens de ciência. Em verdade, aquela estima e esta subestimação são apenas uma infantilidade da razão”.

 

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Ao som do uma vez amigo de Nietzsche, Richard Wagner. Regido pela Royal Philharmonic Orchestra, aberturas e cenas de óperas:

  • A Valquíria: Cavalgada das Valquírias
  • O Idílio de Siegfried
  • O Navio Fantasma e
  • Tannhäuser

Sobre cascatas letradas e outras não tão letradas assim

 

Acredito que escrever exige um mínimo de conhecimento do próprio idioma. Não se trata de elitismo. Há pessoas que escrevem e usam como “álibi” para o escrever capenga uma suposta liberdade advinda de uma tal de “expressão genuína do próprio eu”, uma forma que supostamente daria “carta branca” para os maiores desrespeitos e “crimes” contra o próprio idioma.

Quem se propõe a escrever, se quiser ser respeitado mesmo, deve ter em mente o seguinte:

- é “balela” tal liberdade: escrever errado, escrever de forma “livre” demais, ou seja, sem se preocupar com o leitor, sem se importar o mínimo que seja com a língua - e isso engloba desde grafia até questões mais complexas -, pois bem, essa atitude só mostra o quão frágeis são as idéias que aquele que “escreve” (“eu não sou escritor! Por isso escrevo assim, de forma capenga“, diz o tal escriba não escriba) tenta passar. Dá para ter alguma credibilidade quem não tenta ao menos checar a grafia de uma palavra?

- escrever exige sim conhecimento do idioma. Do contrário, aquele monte de palavras é uma coleção de disparates mal-alinhavados que apenas vagamente lembram um idioma.

- a idéia tacanha de que “escritor” é um ser do espaço, um iluminado, um privilegiado que pode dar-se ao luxo de se preocupar com questões tão transcendentais tais como verbo e objeto, agente da passiva, deve ser trocada pela de que escritor somos todos nós que nos expressamos pela… palavra escrita. Daí a estar na Academia Brasileira de Letras já é outra coisa totalmente diversa e relativa.

- de quem escreve, seja o que for, espera-se não um conhecimento erudito do idioma, claro. Mas um mínimo de humildade e de senso crítico para reconhecer o próprio ridículo que é usar das palavras, a matéria-prima da escrita, e não se importar com o seu devido emprego e bom uso.

É pedir demais?

 

Ao som de Art Pepper e Chet Baker, Blue Note Blend