Picado pela vespa da curiosidade e sem nada mais o que fazer, resolvi realizar uma experiência perigosa, não recomendada para hipertensos, cardíacos e outros. Usando minha absurda criatividade, grandioso senso crítico, sangue-frio, perspicácia inesgotável e outras virtudes que tomariam todos os bites de toda a rede de computador mundial, pois bem, sendo eu quem sou, filho da minha mãe com meu pai, irmão das minhas irmãs, brasileiro, cóf, digo… o que mesmo?
Ah, sim, a experiência.
Bem, como tinha acabado de ouvir Richard Wagner no escuro do meu quarto, às quatro horas de um dia ensolaradíssimo, por que não ouvir, vejam bem, uma rádio funk por trinta minutos ininterruptamente, com o mesmo fone de ouvido que há pouco tocava Wagner? O que acontenceria comigo? Que sensações teria? Que idéias passariam pela minha cabeça? Quais seriam meus limites para o sofrimento?
Encarei a empreitada, uma das mais arriscadas de toda a história auditiva da humanidade. Munido de toda coragem do mundo e mais um pouco, fui à cozinha, bebi água, provavelmente certo de que me despedia do mundo, adeus, meus caros progenitores, adorada Capitu, minha cadelinha de 11 anos, meus livros e cds, oh, mundo, partiria para virar mártir…
… Tal o condenado rumo ao patíbulo.
Fui.
Tranquei a porta. Não sem antes olhar o céu azul pela última vez, e as nuvens, tão altas, mas indiferentes a meu trágico destino. As plantas no canteiro como se despediram de mim. O botão de rosa, tenho certeza, esse murchara ao me “ver” na derradeira hora.
Mas fui. Sentei-me confortavelmente na almofada. Cruzei as pernas, coloquei os fones. Sintonizei a rádio 100% Funk, 100% Agito, 101% Zoação… Aquilo não ia dar certo!
Anúncio de rádio pirata é tudo igual: aquela maravilha de dicção, português, bom gosto e criatividade… A tempo: a “rádio” não era de nenhuma favela, era de uns soi disant universitários, com a chancela do “pai da Fê pra ver se ela sai da rua…”.
Estava vivo ainda?
Parecia: pulsação normal, respirando, consciente.
Depois de um longo “comercial” (Banca de Jornal do Lázaro, Padaria Araguana, Fotos Piauí, Pizzaria Bambino), começou a sessão de tortura, digo, a “seleção das melhores (sic!!!!!!)”.
Num primeiro momento, achei que estava delirando. E estava mesmo. As letras, o ritmo, as vozes, a “melodia”, a filosofia de vida por trás de tudo aquilo, em suma: a “coisa” toda fez me imaginar onde e quando? Querem mesmo saber? Eis que me senti “de volta” às savanas da África, o que é uma estupenda injustiça com nossos antepassados, bem sei. Mas, o que posso dizer? Senti-me o próprio homem das cavernas. Delirava. Vi passar diante de meus olhos incrédulos tudo o que havia de ruim, estragado, precário no mundo. Bisões enormes esmagando meus pobres colegas de período histórico e minhas colegas de caverna (opa!). Vi lutas entre tribos, esquartejamentos, caçadas fabulosas, fugas não menos grandiosas de todos os tipos de bichos de outrora. E o som nauseabundo não parava. Eu tinha apagado.
De repente, uma batida forte, um tuntum provavelmente de uma provável nova guerra de clãs, me acordou. Mas era engano, era a bateria de um funk “instrumental”. Era a performance de um tal de Willianzinho Qualquer Coisa.
Suando, assustado, desorientado, tratei de jogar longe os fones, em direção da cama; acendi as luzes, desliguei o som, caí na cama e maldisse o mundo atual em que há funk e senti a saudade de um tempo em que não vivi: muitos e muitos e muitos anos atrás, num mundo em que não havia tal dejeto sonoro, tal hecatombe do som: o funk.
Se todos que ouvem tal lixo se resumissem a ouvir nos seus clubes e festas, tudo bem. O que me faz querer “voltar” às cavernas é ter que aturar carros com o som no último, tocando o supra-sumo desse ruído que me nego a chamar de gênero musical. Isso de madrugada! Sendo todos obrigados a ouvir tal detrito sonoro.
Repito: não façam tal experiência em casa!
A primeira coisa que fiz ao levantar foi ouvir a Nona Sinfonia de Beethoven; Charlie Parker, João Gilberto e Diana Krall no último.
Meus ouvidos tinham ficado podres. Precisavam de uma faxina urgente. Minha sanidade mental exigia!
A boa música deu conta do recado.
Mas aprendi. Nunca mais faço aquele ato tresloucado.
Nem desejo aquilo como tortura ao maior dos celerados. E não me importo de ser tachado de elitista, conservador, rancoroso, intolerante.
Situações extremas pedem medidas extremas.
Eu abomino funk!