Na semana que passou, assisti a três filmes muito distintos: O NASCIMENTO DE UMA NAÇÃO, de D.W.Griffith, de 1915; SORRISOS DE UMA NOITE DE AMOR, de Ingmar Bergman, de 1955 e ASAS DO DESEJO, (que faz 20 anos exatos e já se tornou um dos maiores clássicos do cinema contemporâneo) de Wim Wenders.
Tudo bem. Não levemos em consideração a visão política retrógrada e racista de Griffith em seu primeiro longa. Realmente, visto de um ângulo político, humanista e ético, fazer apologia à Ku Klux Klan é o cúmulo da intolerância e cegueira ideológica. Mas não interessa aqui a ideologia no cinema, mas sim o quanto de inovador seu diretor ousado tinha. Muitos se extasiam com as tomadas ultra-inovadoras de Sergei Eisenstein no seu insubstituível e seminal O ENCOURAÇADO POTEMKIN e se esquecem que Griffith foi quem lançou muitas inovações técnicas que continuam a ser a base da linguagem cinematográfica.
Aqueles planos, cortes, bem como a linha narrativa, com núcleos dramáticos se desenvolvendo simultaneamente, tudo isso foi uma grande contribuição daquele genial diretor norte-americano. Vemos o desenrolar dos preparativos da Guerra de Secessão Americana; vemos as batalhas entre o sul e o norte; vemos o assassinato de Lincoln e vemos, sobretudo, o desenvolvimento de planos narrativos simultâneos, um achado griffithiano, que hoje é tão normal nas telas, mas que na época, 92 anos atrás!, era uma inovação inimaginável. Assistimos aos dramas de duas famílias, vemos uma história bem narrada e nos empolgamos com aquilo tudo que temos diante de nós: o cinema que surgia como arte do espetáculo, máquina de sonhos por excelência e, no caso em tela, o cinema como mais uma ferramenta para se questionar e procurar entender a realidade.
Em “Sorrisos…”, Ingmar Bergman nos apresenta uma comédia romântica não ingênua. Os brilhantes diálogos, as ótimas atuações, a direção primorosa e o humor sutil e às vezes escrachado (para um diretor sueco) são o ponto alto desse filme, que trata basicamente de cinismo social, digamos assim, e também de desejos reprimidos, mas esse último num grau leve, sem nunca perder a mão. O filme fez um grande sucesso em Cannes, para surpresa do próprio Bergman, que não sabia que o filme seria ali apresentado e, ao saber, foi de bate-pronto para a consagração no mitológico festival. Com grana emprestada… Mas a partir dali, como vemos ele mesmo dizer nos extras, Bergman teve as portas abertas pelos chefões da Svensk Filmindustri para fazer o que quisesse. O que fez muito bem, todos sabem.
Em “Asas do Desejo” vemos, numa Berlim dividida, a visita de anjos que resolvem espiar (não seria o trabalho deles?) os humanos. Bruno Ganz (que interpretou, ou melhor, encarnou Hitler em “MUNIQUE”), como o anjo Damiel, está soberbo. O diretor nos apresenta uma semi-fábula sobre nossas aspirações, nos mostrando igualmente nossas fraquezas, mas tudo de um ponto de vista acrítico (o dos anjos). Damiel, o anjo que se cansa de sua condição de mesmice eterna, deseja voltar a ser humano. O desfecho, assim como todo o filme, nas entrelinhas, diz muito de nós mesmos. A fotografia é estupenda. As personagens, inesquecíveis. A trapezista Marion -interpretada pela recentemente falecida atriz francesa Solveig Dommartin – é alvo da paixão – isso mesmo! – do anjo Damiel. Os monólogos interiores dela, numa brilhante adaptação de um recurso muito usado na literatura, são de uma sensibilidade e bom gosto notáveis. Aliás, Wenders teve a ajuda de Peter Hadke, poeta que assina as falas mais líricas proferidas pelos personagens. Um filme que dá muito o que falar, pensar e sobretudo sentir. Estas linhas mal dão conta do quão lindo e bem-acabado é esse filme.
Uma cena antológica é aquela em que Damiel contempla Berlim do alto de uma torre. E há também a do metrô e da biblioteca, na qual ouvimos os sussurros das pessoas nos seus mais profundos pensamentos. Os anjos, apenas nós, espectadores, vemos. Podemos ser voyeurs daquelas vidas humanas jogadas num mundo hostil, frio e desiludido. Claro, eles, os anjos, também são vistos pelas crianças.
Um filme imperdível. Que trata de mitos mas ao mesmo tempo nos faz transcendê-los e vê-los de uma ótica humana, demasiado humana.

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Ao som de George Shearing, Lullaby of Birdland
Fronteira entre as Alemanhas. Anos 70. Um técnico de projeção de filmes, fazendo a barba em seu caminhão-casa, vê um fusca a mil por hora se jogar nas águas do rio Elba (que na época dividia a Alemanha Ocidental da Oriental). O suicida frustrado (tanto com o rompimento com sua ex-esposa quanto com aquele que deveria ser seu ato derradeiro) retira sua mala de dentro do carro lentamente, sai dele, nada até as margens, onde encontra o técnico blasé. Eles riem. Começa ali uma convivência entre ambos. Que saem pelas estradas, incrustadas num mundo precário. Sem rumo exato, a estrada sendo uma metáfora óbvia dos rumos da vida, eles trocam diálogos escassos, superficiais. A estrada, aliás, como aqueles habituados com o universo de Wenders bem sabem, fascina-o sobremaneira. Seus personagens principais sempre estão em movimento. O deslocamento físico nos seus filmes sempre está presente.
Nesse longa (quase três horas de duração) de 1976, o grande diretor alemão nos mostra uma realidade amarga. Não há uma linha narrativa clara. Os encontros fortuitos entre as personagens quase nunca se firmam, se estabelecem. Os diálogos, entre um cinismo frio e a rispidez. Nos quais vez por outra os traumas vêm à tona. É como se tudo o que realmente houvesse de importante de fato fossem os vestígios deles, dos traumas. Que acabam gerando um travo de desilusão, de amargor. Os dois personagens são seres em deslocamento pois são, na verdade, seres incertos: não sabem exatamente onde se encaixam na ordem das coisas.
Assisti hoje Persona (Suécia, 1966), de Ingmar Bergman. “Assistir” é um termo por demais precário. O que fiz duas vezes seguidas foi mergulhar no universo absolutamente singular (foi uma experiência estética e existencial que me acompanhará pelo resto dos dias…) desse cineasta sueco que no ano que vem completa noventa anos de idade e cujos filmes são, talvez, a síntese do que mais de ousado o cinema já apresentou em termos de sondagem psicológica, filosófica e questionadora de nossa situação de seres eternamente às voltas com a questão da existência, do estar no mundo. De todos os seus filmes que vi, entre O Sétimo Selo, Fanny e Alexander, Morangos Silvestres, Gritos e Sussurros, A Fonte da Donzela, Através de um Espelho, Luz de Inverno e O Silêncio, o que mais me arrebatou e me deixou mais ainda pasmo de admiração e semi-veneração pelo trabalho de um diretor de cinema (ofício esse pelo qual sou fascinado) foi Persona. E friso bem que todos esses filmes me encantaram profundamente.

Ingmar Bergman
Assisti ontem O Estado das Coisas (Alemanha,1982), do cultuado diretor alemão Wim Wenders, que junto com Werner Herzog (sobre cujo Fitzcarraldo escrevi 
Olha o que você fez, Hubble!
No terceiro ponto luminoso, da esquerda para a direita em perpendicular de 387 graus na “escala Richter”, há sinais de corrupção tucana, sempre nas palavras do nobre deputado petista.
Buñuel em ação. Sua câmera escarafunchava e contestava as idéias feitas, os dogmas, as pseudo-verdades definitivas.
“Há uma ligação entre as pessoas, há fios invisíveis” - Krzysztof Kieslowski

