Uma semana com Griffith, Bergman e Wenders

  Na semana que passou, assisti a três filmes muito distintos:  O NASCIMENTO DE UMA NAÇÃO, de D.W.Griffith, de 1915; SORRISOS DE UMA NOITE DE AMOR, de Ingmar Bergman, de 1955 e ASAS DO DESEJO, (que faz 20 anos exatos e já se tornou um dos maiores clássicos do cinema contemporâneo) de Wim Wenders.

 

  Tudo bem. Não levemos em consideração a visão política retrógrada e racista de Griffith em seu primeiro longa. Realmente, visto de um ângulo político, humanista e ético, fazer apologia à Ku Klux Klan é o cúmulo da intolerância e cegueira ideológica. Mas não interessa aqui a ideologia no cinema, mas sim o quanto de inovador seu diretor ousado tinha. Muitos se extasiam com as tomadas ultra-inovadoras de Sergei Eisenstein no seu insubstituível e seminal O ENCOURAÇADO POTEMKIN e se esquecem que Griffith foi quem lançou muitas inovações técnicas que continuam a ser a base da linguagem cinematográfica.

Aqueles planos, cortes, bem como a linha narrativa, com núcleos dramáticos se desenvolvendo simultaneamente, tudo isso foi uma grande contribuição daquele genial diretor norte-americano. Vemos o desenrolar dos preparativos da Guerra de Secessão Americana; vemos as batalhas entre o sul e o norte; vemos o assassinato de Lincoln e vemos, sobretudo, o desenvolvimento de planos narrativos simultâneos, um achado griffithiano, que hoje é tão normal nas telas, mas que na época, 92 anos atrás!, era uma inovação inimaginável. Assistimos aos dramas de duas famílias, vemos uma história bem narrada e nos empolgamos com aquilo tudo que temos diante de nós: o cinema que surgia como arte do espetáculo, máquina de sonhos por excelência e, no caso em tela, o cinema como mais uma ferramenta para se questionar e procurar entender a realidade.

 

 Em “Sorrisos…”, Ingmar Bergman nos apresenta uma comédia romântica não ingênua. Os brilhantes diálogos, as ótimas atuações, a direção primorosa e o humor sutil e às vezes escrachado (para um diretor sueco) são o ponto alto desse filme, que trata basicamente de cinismo social, digamos assim, e também de desejos reprimidos, mas esse último num grau leve, sem nunca perder a mão. O filme fez um grande sucesso em Cannes, para surpresa do próprio Bergman, que não sabia que o filme seria ali apresentado e, ao saber, foi de bate-pronto para a consagração no mitológico festival. Com grana emprestada… Mas a partir dali, como vemos ele mesmo dizer nos extras, Bergman teve as portas abertas pelos chefões da Svensk Filmindustri para fazer o que quisesse. O que fez muito bem, todos sabem.

 Em “Asas do Desejo” vemos, numa Berlim dividida, a visita de anjos que resolvem espiar (não seria o trabalho deles?) os humanos. Bruno Ganz (que interpretou, ou melhor, encarnou Hitler em “MUNIQUE”), como o anjo Damiel, está soberbo. O diretor nos apresenta uma semi-fábula sobre nossas aspirações, nos mostrando igualmente nossas fraquezas, mas tudo de um ponto de vista acrítico (o dos anjos). Damiel, o anjo que se cansa de sua condição de mesmice eterna, deseja voltar a ser humano. O desfecho, assim como todo o filme, nas entrelinhas, diz muito de nós mesmos. A fotografia é estupenda. As personagens, inesquecíveis. A trapezista Marion -interpretada pela recentemente falecida atriz francesa Solveig Dommartin – é alvo da paixão – isso mesmo! – do anjo Damiel. Os monólogos interiores dela, numa brilhante adaptação de um recurso muito usado na literatura, são de uma sensibilidade e bom gosto notáveis. Aliás, Wenders teve a ajuda de Peter Hadke, poeta que assina as falas mais líricas proferidas pelos personagens. Um filme que dá muito o que falar, pensar e sobretudo sentir. Estas linhas mal dão conta do quão lindo e bem-acabado é esse filme.

Uma cena antológica é aquela em que Damiel contempla Berlim do alto de uma torre. E há também a do metrô e da biblioteca, na qual ouvimos os sussurros das pessoas nos seus mais profundos pensamentos. Os anjos, apenas nós, espectadores, vemos. Podemos ser voyeurs daquelas vidas humanas jogadas num mundo hostil, frio e desiludido. Claro, eles, os anjos, também são vistos pelas crianças.

Um filme imperdível. Que trata de mitos mas ao mesmo tempo nos faz transcendê-los e vê-los de uma ótica humana, demasiado humana.

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Ao som de George Shearing, Lullaby of Birdland

Filhinho de papai

- Meu velho me descola uma grana sempre que peço. É só estalar o dedo que ele já vai abrindo um sorriso e a carteira. Gosto muito daquele coroa. Minha mãe morreu quando eu nasci. Foi só eu pintar no pedaço que a velhinha foi tratando de tirar o time de campo. Tenho um monte de foto dela. Ela era a maior gata, cara! Ah, sou filho único, sempre tive o que quis, sei que é bem diferente do seu caso, brother. Mas a gente tá aqui irmanado, num barco só. Faço faculdade (um saco do caramba!), onde curto pacas com as minas, que nos fins-de-semana vão em casa. A gente azara muito. É quando o velho sai com a mina dele (um monumento, meu… Se ela me chamasse eu ia, ah, com certeza!). Ele é filho de Deus também… Ah, se ele me emprestasse ela pra mim também seria da hora! Afinal, pai e filho são amigos, os maiores amigos, né não? Tô a fim de ir pros States nas férias. Vou lá pegar umas gringas pra ver como é o esquema. Ah, galera, quando eu pintar trago umas minas, pode deixar… Trabalhar? Ah, nem… Só de pensar nisso me dá uma deprê federal. Isso agora tá fora dos meus planos…Ih, lá vem o bacana.

- Parece que a coisa é heriditária mesmo.

- Como é, seu?

- Teu pai foi preso em flagrante, acusado de matar a amante. De forma, playboy, que vai ficando aí, vai sossegando o patuá, vai relaxando na boa. Vai curtindo a cela porque tão logo você não sai daqui. Pensou que o papaizinho ia liberar o filhinho? Tu tá encalacrado legal, meu. Da próxima vez… Deixa eu falar mais alto pra todo mundo ouvir. DA PRÓXIMA VEZ QUE TE DER NA TELHA A IDÉIA DE BRINCAR DE ESTUPRAR GAROTAS, PENSA NISSO, GURI. Ah, e rango agora só amanhã cedo. E o chuveiro é frio, se contenta com esse lençol furado e amanhã de pé cedinho pra ajudar a limpar o pátio. Boa noite, riquinho!

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O Homem-artefato

   O Homem-artefato 

O Homem-artefato não pensa.
O Homem-artefato não fala.
O Homem-artefato não sente.
O Homem-artefato não se revolta.
O Homem-artefato não pisca.
O Homem-artefato não se move.
O Homem-artefato não lê.
O Homem-artefato, de fato, não se importa com arte [A não ser a de ser artefato].
O Homem-artefato não se importa com nada.
O Homem-artefato é só uma abstração.
Um nada abstraído de um outro nada. Imenso. A perder de vista.
O Homem-artefato é apenas, isso sim, uma metáfora sem valor num mundo de valores desvalorizados e outros valore$ por demais valorizado$.
O Homem-artefato é um quase-nada.
Mas um quase-nada que cada vez mais é a regra geral. 
Um quase-nada cada vez mais um quase-tudo.
O Homem-artefato é o futuro no agora.

                  Elienai Araújo

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Um road movie alemão. Só podia ser "No Decurso do Tempo", de Wim Wenders

  

  Fronteira entre as Alemanhas. Anos 70. Um técnico de projeção de filmes, fazendo a barba em seu caminhão-casa, vê um fusca a mil por hora se jogar nas águas do rio Elba (que na época dividia a Alemanha Ocidental da Oriental). O suicida frustrado (tanto com o rompimento com sua ex-esposa quanto com aquele que deveria ser seu ato derradeiro) retira sua mala de dentro do carro lentamente, sai dele, nada até as margens, onde encontra o técnico blasé. Eles riem. Começa ali uma convivência entre ambos. Que saem pelas estradas, incrustadas num mundo precário. Sem rumo exato, a estrada sendo uma metáfora óbvia dos rumos da vida, eles trocam diálogos escassos, superficiais. A estrada, aliás, como aqueles habituados com o universo de Wenders bem sabem, fascina-o sobremaneira. Seus personagens principais sempre estão em movimento. O deslocamento físico nos seus filmes sempre está presente.

  Nesse longa (quase três horas de duração) de 1976, o grande diretor alemão nos mostra uma realidade amarga. Não há uma linha narrativa clara. Os encontros fortuitos entre as personagens quase nunca se firmam, se estabelecem. Os diálogos, entre um cinismo frio e a rispidez. Nos quais vez por outra os traumas vêm à tona. É como se tudo o que realmente houvesse de importante de fato fossem os vestígios deles, dos traumas. Que acabam gerando um travo de desilusão, de amargor. Os dois personagens são seres em deslocamento pois são, na verdade, seres incertos: não sabem exatamente onde se encaixam na ordem das coisas.

 O filme retrata também de forma muito clara as barreiras entre as pessoas, a incomunicabilidade entre elas.

  O fato notável é que, apesar da duração, o diretor consegue não aborrecer o espectador com a quase falta de drama no enredo. Ficamos, isso sim, hipnotizados pela atmosfera mostrada.

  A trilha sonora é deliciosa, com músicas do repertório das baladas do rock antigo norte-americano.

  O grau de realismo é notável. Eu me senti por aquelas estradas alemãs, descrente do gênero humano ali retratado.

 Um filme que nos deixa um sabor amargo, não obstante revelador. Se você quiser ter um vislumbre do cinema que incomoda mas ao mesmo tempo enleva, assista “No Decurso do Tempo”, de Wim Wenders. Um diretor mais que genial. Um poeta da sétima arte.

"Persona", de Bergman. Nunca o cinema foi tão longe na sondagem psicológica de personagens perdidas na "realidade diabólica".

Assisti hoje Persona (Suécia, 1966), de Ingmar Bergman. “Assistir” é um termo por demais precário. O que fiz duas vezes seguidas foi mergulhar no universo absolutamente singular (foi uma experiência estética e existencial que me acompanhará pelo resto dos dias…) desse cineasta sueco que no ano que vem completa noventa anos de idade e cujos filmes são, talvez, a síntese do que mais de ousado o cinema já apresentou em termos de sondagem psicológica, filosófica e questionadora de nossa situação de seres eternamente às voltas com a questão da existência, do estar no mundo. De todos os seus filmes que vi, entre O Sétimo Selo, Fanny e Alexander, Morangos Silvestres, Gritos e Sussurros, A Fonte da Donzela, Através de um Espelho, Luz de Inverno e O Silêncio, o que mais me arrebatou e me deixou mais ainda pasmo de admiração e semi-veneração pelo trabalho de um diretor de cinema (ofício esse pelo qual sou fascinado) foi Persona. E friso bem que todos esses filmes me encantaram profundamente.

Se você quiser ter um primeiro contato com a obra de Bergman, recomendo que não comece por esse filme. Talvez O Sétimo Selo seja uma introdução válida.

Mas, afinal, o que em Persona me deixou assim tão arrebatado?

  Tudo nele é por demais enigmático, ousado, diferente e, numa palavra, perfeito. São oitenta e um minutos nos quais nem senti passar o tempo. A história, num plano bem resumido, é a seguinte: uma atriz, Elisabet Vogler (Liv Ullmann) simplesmente pára de falar durante uma representação da peça Electra. E assim permanece, em silêncio, pelo qual opta radicalmente. Passam-se três meses. A enfermeira Alma (Bibi Andersson) é encarregada de ser a acompanhante da atriz. Ambas vão para uma casa de praia, um lugar totalmente deserto. Ali, passa a haver uma maior ligação entre elas, não obstante a atriz insistir em não falar, apenas mostrando interesse em ouvir as cada vez mais íntimas revelações de Alma. Até que um dia essa fica encarregada de postar algumas correspondências de Elisabet. No caminho, ao perceber que as cartas não estavam lacradas, Alma não resiste à curiosidade e decide ler uma delas. Desvia, então, o carro para um caminho improvisado, estaciona e mergulha na leitura. A carta, endereçada à analista de Elisabet, diz, em linhas bem gerais, o quanto a atriz está aclimatada ao ambiente de reclusão e paz de espírito em que se encontra. Mas o mais bombástico: ela escreve que a companhia de Alma proporciona a ela, Elisabet, uma oportunidade de analisar e estudar friamente as tão bem-guardadas experiências da enfermeira, entre elas uma orgia com garotos numa praia deserta alguns anos antes e um aborto subseqüente. Esmagada por tal revelação, por se ver apenas como um objeto de análise, ela que se abrira tanto para a atriz, Alma passa a ser outra pessoa para com Elisabet. O ódio que a enfermeira passa a sentir pela sua paciente é muito bem representado pela cena do caco de vidro que Alma deixa intencionalmente no caminho dos pés descalços (e distraídos?) de Elisabet.

Bem, aí está um resumo do enredo. Mas se engana quem pensa que se resume a apenas isso tal obra genial do mestre sueco.

Os primeiros cinco minutos do filme são os mais enigmáticos que eu já vi. Para uns, uma seqüência “sem pé nem cabeça”. Para mim, “simplesmente” antológica. Surrealismo de fina estirpe. Cenas de uma antiga máquina de projeção, uma aranha ameaçadora, um órgão genital masculino (em milésimos de segundo), flashes de luz, notas musicais dissonantes, uma micro-seqüência de uma animação, mãos agitadas de uma criança, tela em branco, cenas de um filme mudo no qual uma caveira aterroriza um homem em trajes de dormir, que foge e acaba encontrando outra figura assustadora, o sacrifício de um animal e a posterior manipulação de seus órgãos internos, outra tela em branco, e a mais chocante de todas as imagens: uma mão sendo perfurada por um prego e o barulho seco das marteladas. Corte para a imagem de um bosque no inverno, o close nas lanças de uma grade de uma casa e em um monte de neve. Agora, a câmera faz outro enquadramento que um espectador mais distraído não percebe ser na verdade o perfil de uma pessoa idosa no que seria um necrotério. Os closes dos supostos mortos causam um estranhamento e uma sensação de que tudo aquilo que vemos ali e sobretudo a morte a nós apresentada nos enquadramentos é palpável. Há o corte para um garoto dormindo num ambiente asséptico. Outros enquadramentos de outros mortos idosos e ouvimos a campainha de um telefone. O garoto acorda, tenta ler, mas é atraído pela  imagem ampliada de um rosto feminino na parede. Ele toca de leve aquela face imensa, que muda de fisionomia aos poucos. Apenas agora vêm os créditos sobre um fundo branco, tudo intercalado por imagens-flash de árvores, rostos, pedras e cenas de um filme mudo antiqüíssimo.  Por fim, de um fundo branco surge uma porta pela qual entra a enfermeira Alma. A médica-chefe, a analista acima mencionada,  vai lhe incumbir de tomar cuidado da atriz que emudecera, mas que não apresentava nenhuma complicação nervosa adicional.

Bem, o resto o leitor (a) pode descobrir assistindo. E ao fazê-lo, também terá interpretações diferentes. O trabalho do não menos genial diretor de fotografia de Bergman, Sven Nykvist, que sabia tudo de sua arte, foi mais do que imprescindível na criação da atmosfera claustrofóbica, pelos closes de rostos, pelo contraste entre sombra e luz, jogo esse tão caro nos filmes do diretor sueco. E aqui mais necessário do que nunca. Afinal, é através desse mecanismo de sombra-luz que as duas personagens acabam se fundindo. Alma e Elisabet, essa última com todas as nuances psicológicas expressas apenas por intermédio das expressões faciais, aquela cada vez mais presa do fascínio que Elisabet lhe impõe, acabam se fundindo, mostrando o quão duas almas podem se sobrepor, as fronteiras entre elas sendo mesmo apagadas. Tão acentuada é essa fusão de almas que o marido de Elisabet (no papel, o grande habitué dos filmes de Bergman: Gunnar Björnstrand) vem visitá-la e ele se dirige à Alma como sua esposa! A simbiose foi total ou estaria ele também sob os efeitos de uma amnésia? O filme nos possibilita um sem-número de questões e de interpretações. A mim, a questão do “eu”; até onde vão nossas ambições de viver em um mundo fechado ao outro; sobre a suposta interpretação a que nos dedicamos em nossas vidas em sociedade, nossas personas, nossas máscaras, os papéis que representamos; o que é influenciar o outro; a “mentira” da arte para representar a essência do viver. Enfim, são questões que me deixaram sem resposta. Mas para levantá-las, já foi um “serviço” e tanto desse filme único, posso dizer que foi o que mais fascínio me causou.

Um último comentário pessoal. A mulher ali é retrada como uma entidade. Nada menos do que isso.

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Um trecho da fala da analista à Elisabet, logo após aquela oferecer sua casa de verão na praia para a atriz  descansar:

- Pensa que não entendo?  O inútil sonho de ser. Não parecer, mas ser. Estar alerta em todos os momentos. A luta: o que você é com os outros e o que você realmente é. Um sentimento de vertigem e a constante fome de finalmente ser exposta. Ser vista por dentro, cortada, até mesmo eliminada. Cada tom de voz, uma mentira. Cada gesto, falso. Cada sorriso, uma careta. Cometer suicídio? Nem pensar. Você não faz coisas desse gênero. Mas pode se recusar a se mover e ficar em silêncio. Então, pelo menos, não está mentindo. Você pode se fechar, se fechar para o mundo. Então não tem que interpretar papéis, fazer caras, gestos falsos… Acreditaria que sim, mas a realidade é diabólica (…).

Paro por aqui na citação para não estragar o prazer de assistir a essa obra aberta, fascinante e da qual se sai enriquecido. Se quiser, caro leitor, cara leitora, ter um rápido vislumbre da alma humana, de seus porões mais recônditos, assista a esse filme.

Você perceberá o quanto são aleatórias e imprecisas nossas definições da condição humana. E essa está lá, genialmente retratada por Ingmar Bergman, seu diretor de fotografia, Sven Nykvist (que faleceu há alguns meses) e suas atrizes fascinantes, lindas e artistas na mais elevada acepção do termo.

Uma obra-prima. Assistir a ela nesses tempos em que o cinema hegemônico é sua fiel antítese chega a ser uma obrigação àqueles que ainda querem da arte muito mais que entretenimento e facilidades.

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Ingmar Bergman

Wim Wenders e seu "O Estado das Coisas".

  Assisti ontem O Estado das Coisas (Alemanha,1982), do cultuado diretor alemão Wim Wenders, que junto com Werner Herzog (sobre cujo Fitzcarraldo escrevi aqui) e Rainer Werner Fassbinder formou a trinca de ouro do jovem cinema alemão de uns tempos atrás. Neste filme sem concessões ao previsível, vemos as filmagens de um filme rodado no litoral de Portugal. O filme dentro do filme se chama “Os sobreviventes” e trata de um grupo de pessoas que foge de algo terrível (uma hecatombe nuclear?), não sabemos bem o motivo, se tornou fatal. Quando chegam às proximidades do mar, a cor alaranjada acentuada que caracterizava os cinco minutos do “filme dentro do filme” cede lugar ao preto-e-branco, ponto a partir do qual passa a se desenrolar a realidade do filme propriamente O Estado das Coisas. Descobrimos que tudo era encenação. Logo em seguida, sabemos, juntamente com o diretor, Fritz, que algo terrível acontecera: que parassem todas as gravações. Afinal, acabara o filme de gravação e ninguém sabia onde se encontrava o produtor. Sem ele, o esquema de feitura do filme não poderia continuar. Quem financiaria o término do projeto?

   A equipe toda passa então a viver à espera do retorno das gravações. Todos se acomodam num hotel abandonado no litoral português. Ali, naquela convivência forçada, somos apresentados àquelas personalidades sui generis e suas carências afetivas, inseguranças, tolices, canalhices, libido não-reprimida bem como outras atitudes daqueles até então considerados “normais”.

  A paisagem é totalmente compatível com o clima do longa, de forma geral: tédio e desolação. 

  O filme depois passa a ser rodado na Califórnia onde o diretor Fritz vai atrás de Gordon, o produtor larápio finalmente encontrado. Outro ritmo, cenas rápidas, rock como fundo musical, cortes céleres. O fim não pode ser dito, obviamente, pois é muito bem apresentado de uma forma surpreendente por Wenders.

  Acredito que tal filme (também autobiográfico) seja uma metáfora da arte do cinema versus a realidade pragmática. Em outras palavras: a arte (a do cinema no caso, obviamente) teria limitada e restrita sua expressão pela engrenagem inexorável da lógica do mercado. De um lado, o fazer cinema desvinculado dos interesses materiais, de outro, a terrível necessidade de captação de recursos e tudo que isso possa trazer de desvirtuamento do cinema como arte. A questão do espaço na determinação das escolhas de um diretor, na atuação dos atores, também é um ponto nevrálgico no filme. Uma obra, enfim, metalingüística por excelência. Como poucas na história do cinema.

  A trilha sonora também é bem interessante. O desempenho dos atores, muito bom. Há até um humor no papel de Robert, um ator (não se esquecendo que há um duplo papel para muitos atores no enredo: atores no filme dentro do filme e na trama principal) para lá de cômico, um sujeito singular que nos faz sacudir de risos ao narrar sua infânica cheia de dissabores narrados com muita espirituosidade. As conversas entre as duas garotinhas também às vezes chegam a ser de um humor muito preciso.

   Obviamente, há questões muito mais relevantes do ponto de vista do fazer cinema, das implicações da arte cinematográfica embutidas nesse filme. Aqui foi apenas, contudo, minha visão pessoal sobre o filme. Haveria muito mais para se escrever. Isso, no entanto, deixaria o texto cansativo e altamente pretensioso. Aliás, os textos que escrevo aqui sobre cinema não têm a pretensão de ser crítica de cinema. Friso novamente: são apenas minhas impressões. As impressões de um sujeito de mente inquieta, intelectualmente voraz. E sem papas nos neurônios.

  Estou com outro filme de Wenders aqui para assistir, se for possível ainda neste fim de semana. Trata-se de No Decurso do Tempo. Pelo que andei lendo, um filme no qual o diretor alemão pega mais pesado. Sobretudo em termos dos encontros fortuitos que acontecem pelas (uma das obsessões de Wenders) estradas (literalmente) deste mundo afora.

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O ESTADO DAS COISAS

1982
Diretor:
Wim Wenders
Roteiro:
Wim Wenders
Robert Kramer
Diretor de Fotografia:
Henri Alekan
Editores:
Barbara von Weitershausen
Peter Przygodda
Música:
Jürgen Knieper

Elenco:
Patrick Bauchau
Viva Auder
Isabelle Weingarten Samuel Fuller
Rebecca Pauly
Jeffrey Kime
Geoffrey Carey Alexandra Auder Camilla Mora
Roger Corman
Paul Getty
Allen Goorwitz
Artur Semedo
Festivais/Prêmios: “Leão de Ouro” de 1982 em Veneza
1983 German Film Prize in Gold de Fotografia
1983 German Film Prize in Silver de Produção

Produtores:
Chris Sievernich
Wim Wenders
Produção: 
Road Movies Filmproduktion/Berlin Wim Wenders Produktion
Duração:
121 min.
Formato:
35mm Color
Título original:
Der Stand der Dinge
Idioma original:
Inglês

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Ao som de Paul McCartney, No more Lonely Nights

De como Hubble, aquele menino danado de espoleta e voyeur incorrigível, sempre a bisbilhotar a vida das indefesas e inofensivas matérias-fantasma, ganha o coração de um nobre deputado petista.

Matéria da Folha de hoje:

 

Hubble dá evidência inesperada de matéria-fantasma no Universo

 

Olha o que você foi fazer, Hubble... Olha o que você fez, Hubble!

No terceiro ponto luminoso, da esquerda para a direita em perpendicular de 387 graus na “escala Richter”, há sinais de corrupção tucana, sempre nas palavras do nobre deputado petista.

 

   É um absurdo, senhores colegas de parlamento, que uma misteriosa, inesperada e desagradável matéria-fantasma esteja aí, ao léu, dando sopa pelo Universo. Por isso, meu partido, o PT, que não esconde nada de ninguém, nunca fez nada por debaixo do pano, pois bem, é por isso que nós, petistas convictos, pedimos uma CPI já! Isso é coisa da tucanada!!! Ainda bem que o Hubble, esse rapaz arretado e esforçado, e que não vai recusar a filiação ao nosso glorioso partido, conseguiu captar a tempo outra marmelada tucana. O senhor Fernando Henrique Cardoso tem culpa no cartório. Para tirar o peso do nosso governo, que trabalha 25 horas por dia, que tenta de toda maneira implementar em funcionamento o PAC, que alguns tucanos invejosos e ressentidos têm chamado de Pacote de Ações Contraproducentes, pois bem…. (onde parei mesmo?). Pois bem, digo eu, aqui da minha tribuna, para ajudar a dar um novo ânimo ao nosso Congresso, eu digo: CPI da Matéria-Fantasma já! Ou seria melhor CPI do Hubble? Será que aquele abnegado menino vai aceitar?

O estranho caso do homem que negou, em vida, o movimento.

                                

 

     Parado, sem nenhuma reação, o homem olhava para cima. Ninguém quase o percebia. Os poucos que o faziam logo viravam o rosto e continuavam sua marcha mecanizada. Mal-vestido mas não mais do que a maioria dos transeuntes daquela rua suja de uma cidade pobre no interior de um pais miserável. Com os braços estendidos, encostado na placa de PARE, os olhos fixos no telhado da esquina, onde alguns pombos decadentes faziam um amor escancarado. Nada parecia incomodar aquela estátua humana, aquele tótem da indiferença. Nem o sol das onze da manhã, nem tampouco o cansaço que se supunha sentir-se ao ficar de pé, parado, na mesmíssima posição por mais de três horas! Quem era? De onde viera? E sobretudo: por que aquela negação do movimento? Por que aquela ousadia em negar o ritmo da vida? O pulsar da vida? O movimento que a caracteriza? Por que aquele paroxismo da indiferença? Por quê?

      Aos poucos, sua presença começou a ser mais seriamente notada.

     As horas passavam. Já eram quase duas da tarde. O sol, inclemente, até esse mudara de posição. As pombas lúbricas e piolhentas haviam se escondido dele, do sol.

     Um grupo principiou a se formar ao redor do homem. Alguém teve a idéia de tirar fotos. Outros, com muito receio, tentavam travar uma conversa com ele. Que só piscava.  E respirava de leve, metodicamente.

     Por volta das quatro, um grupo de estudantes adolescentes assobiava, gritava, ria, gargalhava, azucrinava o homem, agora já célebre, que não fazia nada e no que era um mestre. Ele que já era assunto na cidade, na fila do pão, na cama de um casal que aproveitara o dia de folga em comum para se movimentar bastante, diferentemente daquele sujeito que de movimento não queria saber.

     Chamaram o jornalista da cidadezinha. Que veio com uma câmera digital. Com a outra mão, apontou um gravador em direção do homem-estátua. Que não esboçou nada ao ser perguntado o porquê daquilo, se era um artista performático, se protestava contra algo, qual era sua plataforma política e de qual, enfim, raios de hospício havia saído. O jornalista pensou bem consigo mesmo que o tal homem era por demais simplório, tendo em vista seus mal-ajambrados trajes, para saber o que cargas d’água era uma plataforma política.

     Chegou, lá pelas seis horas, junto com o crepúsculo, um carro de reportagem da Rede Losango, a maior emissora de TV do país. Lá vem outro repórter, todo paramentado em seu terno elegante, as mesmas perguntas, a mesma indiferença, o  mesmo silêncio humilhante, a recusa de todo tipo de contato. 

     O que fariam com o tal homem, sendo que ele não fazia nada a não ser o nada? Poderiam processá-lo por fazer o nada em praça, ou melhor, em esquina pública? Seria ele um niilista disfarçado e radical? Queria ele representar uma metáfora humana para a negação do sentido? A falha imensurável da capacidade de comunicação entre os humanos? O fracasso total da palavra numa era eminentemente visual? Do que se tratava aquilo tudo?

     Onze horas da noite de um céu abarrotado de estrelas. Grupos pequenos se formavam, algumas donas-de-casa trouxeram café, outras, bolinhos. Todos e todas bem despertos a observar o homem que, sim senhor!, continuava na posição de semi-pedra. O olhar a capturar a silhueta da lua minguante. Os braços estendidos. Encostado na placa PARE, ele tinha ao seu alcance algumas garrafinhas de água, pratinhos com guloseimas, saquinhos de pipoca, tudo no chão à sua frente. Mas ele nem ao menos olhara para aquelas demonstrações físicas de humanidade.

     Aos poucos, as pessoas foram, bocejando, tomando o rumo de casa. Dizendo que o papo estava bom, que a noite estava uma delícia, mas tinham que acordar no outro dia cedo.

     E se foram.

    Quem ficou foram os cães. Que não perdiam tempo e sem cerimônia devoravam as “demonstrações de humanidade”.

     Por fim, até eles se foram. As pombas, essas já dormiam o sono das aves. E que nem sabiam que eram observadas por gatos à espreita.

     O homem ficou ali, estaticamente mirando as estrelas.

     De repente, aconteceu.

    Num movimento abrupto, seco, mais do que intempestivo, ele desabou.  Fulminado por um ataque cardíaco, caiu morto. 

    Ninguém, até hoje, descobriu quem era aquele homem, enterrado (e por toda a eternidade, de agora em diante parado no nada da não-existência, na derradeira negação do movimento!) como indigente, que ousara negar o movimento, que havia ido contra todo mais que elementar impulso humano.

  

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Acabei de assistir: "O Diário de uma Camareira" – França – Direção: Luis Buñuel. Ano: 1964

   

   A história, retirada de um romance homônimo francês do início do século passado, e também adaptada para o cinema por Jean Renoir (filho do pintor famoso) na década de 40, é simples de ser resumida. Camareira de Paris, Celestine (a diva eterna Jeanne Moureau) arruma emprego no interior da França (a história se passa nos anos 30), mais precisamente na casa de uma família para lá de disfuncional: o patriarca tem fetiche por sapatos femininos, a filha é frígida, o marido desta um tremendo maníaco sexual, reprimido e frustado. Ali vivem também os criados e uma garotinha, Claire, filha de pais desconhecidos, também agregada da família. Celestine se adapta logo, ou finge fazê-lo (nunca sabemos exatamente quem é de fato aquela mulher) à rotina da família. Até que acontece uma tragédia: Claire é morta de forma violenta na floresta, no exato instante em que Monsieur Rabour, o patriarca, batia as botas (sem trocadilhos). Passamos a ver Celestine agora totalmente dedicada à elucidação do crime, cujo autor o espectador já sabe quem é. E que não surpreende aos mais argutos, tendo em vista seu desempenho no enredo.

  Para alguns, obra menor do mestre espanhol Luis Buñuel, autor de O Discreto Charme da Burguesia, O Anjo Exterminador, A Bela da Tarde, sem falar no não menos clássico Um Cão Andaluz, esse último com a colaboração de ninguém menos do que Salvador Dalí, obra responsável pela adaptação do movimento surrealista para as telas. Neste “O Diário…” Buñuel quis fazer, como em seus trabalhos anteriores, uma análise fria da hipocrisia da sociedade dominante de então. No meu entender, é uma crítica válida. Mas um pouco esquematizante, nesse filme. Digamos que uma abordagem um tanto parcial e estereotipada. Mas, talvez, sua intenção fosse, ao carregar as tintas, deixar patente a idéia que queria enfatizar. Seria aquele truque do criticar pesadamente para não se dar margem ao inimigo. Sufocá-lo com críticas para que ele se apequene e seja implodido em seus fundamentos. Pode ser.

 Para quem espera mostras de surrealismo explícito nesta obra, melhor não assistir.

 A cena em que Claire é perseguida na floresta pelo seu assassino é magistralmente representada pela caçada de um javali a uma lebre. Ali é possível relembrar um pouco, mas só um pouco, o Buñuel velho de guerra: mestre na criação de símbolos carregados de significados, de metáforas visuais ousadas e nada triviais.

 Quanto à eterna Jeanne Moreau, sua performance às vezes causa-nos um estranhamento. Como uma diva daquelas poderia ser uma camareira? Mas à parte isso, seu talento dá conta do recado e sua personagem consegue transitar de forma notável pelos escaninhos morais de uma sociedade nada moral… Os outros personagens, no meu entender, são na maioria planos, ou seja, não muito desenvolvidos justamente por causa da opção de Buñuel pelo enquadramento de tipos.

  As interpretações, como sempre, ficam a cargo de vossa excelência, o espectador. Como por exemplo a cena final: nuvens carregadas no céu da França. Um lembrete do fascismo que então batia à porta?

 

 

   Buñuel em ação. Sua câmera escarafunchava e contestava as idéias feitas, os dogmas, as pseudo-verdades definitivas.

 

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cotação subjetiva: very interesting!

 

 

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Acabei de assistir: "A Dupla Vida de Véronique" – Polônia-França. Direção: Krzysztof Kieslowski

  “Há uma ligação entre as pessoas, há fios invisíveis” - Krzysztof Kieslowski  

 

Assim, temos personagens que devem ser considerados idênticos porque parecem semelhantes, iguais. Essa relação é acentuada por processos mentais que saltam de um para outro desses personagens pelo que chamaríamos telepatia -, de modo que um possui conhecimento, sentimentos e experiência em comum com o outro. Ou é marcada pelo fato de que o sujeito identifica-se com outra pessoa, de tal forma que fica em dúvida sobre quem é o seu eu (self), ou substitui o seu próprio eu por um estranho. Em outras palavras, há uma duplicação, divisão e intercâmbio do eu”. Sigmund Freud

 

   Tentar pôr em parâmetros estritamente racionais ou reduzir seu roteiro em poucas linhas seria um sacrilégio e exercício de puro amadorismo intelectual. O resumo das seqüências das cenas a seu caráter meramente de causa e efeito tampouco seria uma demonstração de capacidade de entendimento e fruição da arte do cinema-poesia, do cinema-reflexão. Em suma: na “história”, vá lá, das duas mulheres, Weronike e Véronique, ambas idênticas no plano visual, nascidas no mesmo dia e hora, em países diferentes, uma na Polônia e a outra na França, há que se ter em mente o caráter metafísico, poético, místico (desvinculado de qualquer religião ou crença) e altamente existencial com o qual ali nos deparamos. 

   Nesse filme de 1991, e que antecede a célebre Trilogia das Cores, Kieslowski espera da platéia não a tentativa  de encadeamento simplista e reducionista de fatos, não oferece  entretenimento boçal nem tampouco procura fazer proselitismo de ordem religiosa, colocando ou diluindo nessa obra qualquer traço de algo sobrenatural, como aquela crença na metempsicose, a suposta transmigração das almas. Nesse exercício de profunda liberdade de criação artística, o diretor polonês (autor do Decálogo, cuja carreira foi iniciada com documentários críticos ao governo comunista de seu país nos idos dos anos 60 e que veio a falecer aos 55 anos, vítima de um ataque cardíaco fulminante em 1996), mostra-nos sua profunda aversão aos padrões daquilo que se convencionou chamar de “cinemão”, sobretudo o americano de um quarto de século para cá. Em outros termos: Kieslowski não faz concessões. Não adianta procurar um motivo simplista para os seus filmes derradeiros. Desfaçam-se, meus caros, de sua bagagem de expectativas de uma fruição fácil. Ele exige de nós um total envolvimento com o universo de seus filmes. Não uma concordância automática, mas uma vivência, uma capacidade sempre alerta de empatia.

   A maioria de nós, algum dia, nos nossos mais íntimos momentos de introspecção, já tivemos a sensação de não estarmos sozinhos. É como se algo em nós nos acenasse a existência de um duplo de nós mesmos, em algum lugar deste vasto mundo. Ou uma ciência do já acontecido: aquela sensação quase etérea de que o acaso não é bem o acaso, de que os fatos da nossa vida já foram por nós vivenciados de antemão. Frisando sempre que nem o autor deste texto defende nem no cinema de Kieslowski há qualquer crença em vidas passadas. Feitos estes parênteses, voltemos ao filme.

  A beleza estonteante de Irène Jacob, sua facilidade em interpretar ambas as personagens, sua extrema delicadeza e versatilidade para captar as nuances subjetivas de Weronike e Véronique (apesar de idênticas na aparência, ambas são como o yin e o yang da concepção dualista chinesa, uma Verônica a complementar a outra), tudo isso nos marca e nos deixa mesmerizados e hipnotizados a ponto de termos a sensação de que vemos desenrolar a realidade verdadeira perante nossos olhos. Quanto ao nome da personagem, Kieslowski conseguiu um achado: tal nome vem do latim e significa, grosso modo, “o ícone, o símbolo verdadeiro”. Fica a pergunta: qual das duas é a verdadeira?

  A trilha sonora é igualmente arrebatadora. E a cargo de ninguém menos que Zbigiew Preisner. A propósito: as notas mágicas ainda hão de ressoar aos ouvidos mais sensíveis por muito tempo…

  Ambas as jovens lidam com a música, ambas vivem pela música, não obstante as grandes diferenças de temperamento entre elas. São idênticas, mas ao mesmo tempo diferentes!

 A questão do duplo na literatura é bem conhecida: O Médico e o Monstro, de Robert Louis Stevenson; O Retrato de Dorian Gray, de Oscar Wilde e, numa veia mais cômica, O Falecido Mattia Pascal, de Luigi Pirandello. Esse último foi transposto para as telas por Mario Monicelli, em 1984. Esse assunto tão fascinante vem de longe. Mas esse filme de Kieslowski talvez seja, para aqueles que o assistiram não como passatempo, nem tampouco diversão, o mais bem-sucedido de um ponto de vista expressivo e carregado de camadas de sentidos, significados e, conseqüentemente, interpretações.

 Se você não assistiu, corra até uma locadora, das boas.

 Os extras trazem muitas deliciosas informações sobre a obra desse polonês inquieto, fumante inveterado e sua obra desafiadora para aqueles que não se contentam mais com as tranqueiras de uma certa localidade na Califórnia. A entrevista dele é altamente esclarecedora da filosofia por trás de seus filmes. E trazem também uma entrevista atual com a atriz Irène Jacob sobre sua experiência com o cultuado diretor.

  Como mencionado, há múltiplas camadas de sentidos para esse filme. Se você assistiu à Trilogia das Cores, ou mesmo Não Matarás e Não Amarás, sem dúvida vai perceber ali a mão de um gênio do cinema. Ou melhor: de um tipo de cinema desprezado pelo grande público atual, tão cioso de sua pseudo-sofisticação oriunda de uma novidade também falsa e oca.

 Pressentimento, acaso, amor, existência, sincronicidade, essa última com pitadas de Carl Gustav Jung. Vale interpretar como quiser tal obra-prima. Vale quase tudo. Menos a indiferença.

 É filme para se ver repetidas vezes. E em cada uma delas ficar mais perplexo.

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Cotação subjetiva: três quatrilhões de estrelas!  

 

                                 

 

 

                                                        

 

         

 

                                                                                                                                         

Tributo a Chet Baker

   Hoje faz 19 anos que Chesney Henry Baker, mais conhecido como Chet Baker, ou apenas Chet, para os “íntimos”, foi encontrado morto numa ruela de Amsterdã, Holanda. Seu corpo despencara de um prédio de hotel. Até hoje, quase duas décadas, ainda é um mistério se ele se jogara ou havia sido jogado. Um mistério, tudo indica, que nunca será solucionado.

  Mas o que de fato ficará incontestavelmente registrado para a posteridade é que aquele artista, trompetista e cantor, o homem que transpirava jazz mas se tornara um ícone pop, será sempre ouvido muitas e muitas vezes, sobretudo embalará as noites de apaixonados, de solitários e seus cigarros e copos de uísques, de pensadores insones, de escritores sem talento, de seres em descompasso com o mundo, de perdidos existenciais em muitas noites estreladas e de lua cheia. Aquele homem, que havia acabado de dar o último suspiro, durante sua vida dedicada à música transcendental e lírica inspirara muitos tímidos a declarar seu amor, muitas mulheres a vivenciar suas paixões. Suas notas eram (e serão por muito tempo!) o mito de Cupido em uma nova versão!

  Sua derrota para as drogas, que lhe minaram as forças para tocar seu trompete e lhe deram asas de cera, é bem conhecida. Elas lhe proporcionaram um vôo de Ícaro,  no qual ele veio a encontrar o fim. Nunca mais as notas de veludo, nunca mais a voz sussurrante, nunca mais as canções tiradas do fundo da alma…

  Nunca mais? Graças à tecnologia, temos, quantas vezes quisermos, ao nosso dispor, a arte de Chet Baker, o artista que viveu à beira do abismo. A personificação, transposta para a arte, de nossa natureza ambígua, paradoxal. Ele era a síntese daquilo que temos no âmago de nós mesmos: uma junção de forças autodestrutivas e ao mesmo tempo proclamadoras da vida, o impulso de morte e o de vida.

  Ouvir Chet Baker, apreciar sua arte, é nos conhecer um pouco mais a cada dia.

           

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A filha de Chet, Melissa, numa homenagem derradeira ao pai.

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Ao som de Chet Baker, o próprio: My Funny Valentine

Já vi esse filminho

   Num campeonato imaginário de Fórmula 1 da Língua Portuguesa, eis que temos de novo um alemão na frente de um brasileiro. Não desvendaram o enigma?

   Tchan, tchan, tchan, tchan!!!!!

   Meus caros e caras: ouvindo os discursos do Papa Bento XVI, nos damos conta de que ele fala português melhor do que o nosso excelentíssimo senhor Presidente da República!!!!!!!!!

   Agora entenderam?

   É trágico, mas não deixa de ser hilário…

Enquanto isso…

… na central de controle de uma nave do planeta Kiopks2395-xyy-#:

 

- Atenção, detectamos, senhor comissário, um ruído cuja intensidade se torna maior a cada segundo de Treompon.

- Muito bem, mande para o decodificador WETYZX-3400.

(Passam alguns minutos).

- Senhor, ouça. É algo diferente de tudo que há na escala ranzetreon obx. Tais ondas sonoras viajaram bilhões de zequites de distância. Vêm de algum planeta desconhecido e primitivo, tendo em vista o que a análise de kalindromia opztecaliondri nos diz. O nível de eco as torna mais indistintas ainda!

- Passe-me os amplificadores auriculares. (Apurando os ouvidos). Não sei, com todos esses zintromos de experiência, do que se trata. Que língua bárbara, que tom animalesco e bestial! Ouçamos todos:

 

- Meeeeeuuuuuuuuu noooooooomeeeeeeeeeeee ééééééééé Enééééaaaaaaaasssssssssssssssssssssssss!!!!!!!!!!!!!!!!!

Um perguntinha

  Alguém aí tem ainda alguma dúvida de que Hugo Chávez e Evo Morales são farinha do mesmo saco? Aguardem, a dupla de fanfarrões populistas ainda tem muitas outras cartas na manga. A estatização demagógica e com ares de messianismo, em ambos os países, vai ser acompanhada de outras surpresinhas.

  Aguardemos!

Um desafio ao (à) leitor (a)

Nota do administrador do blog: História inacabada. Para ser completada pela imaginação do leitor. Favor seguir o detalhe imprescindível especificado entre colchetes

 

    Era o dia mais feliz da vida de João. Chegando do trabalho, afobado, não via a hora de mostrar para a esposa o comunicado que dizia que ele iria trabalhar no exterior por dois anos, com um salário suculento. Em suma: uma proposta irrecusável, daquelas que só aparecem uma vez na vida…

 

 [ ... Espaço reservado para a imaginação do leitor...Detalhe importante: a esposa de João era infiel...]

 

 

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Ao som de Bob Dylan, When the deal goes down

Uma conversa surrupiada

 -  Como, a senhora nunca sonhou com algo grandioso, um futuro de sucesso, de auto-realização?

 -  Sabe como é, doutor. Com o tempo, a gente se apequena, se acovarda e termina se mediocrizando, virando uma “coisa” que apenas com muita boa vontade lembra o que a gente já foi. Respondendo sua pergunta: sim, já sonhei com um futuro grandioso pra mim. Mas as preocupações da vida cotidiana, as encrencas em que a gente se mete pela vida afora, enfim, tudo isso faz a gente perder a perspectiva. Quando muito, no final de todo esse processo, com muita sorte, ainda temos na carteira uns sonhozinhos quase sem valor, tal aquelas moedinhas que nos tempos de dureza explícita nos lembra aonde chegamos, o que foi feito da gente.

-   Entendo. A senhora se refere àquele sentimento nada agradável e angustiante de que mediocrizamos nossos sonhos e expectativas…

-   Exatamente, doutor. Isso tem cura?

-   “Cura” é um termo enganador, dona Cristiana. O que podemos vislumbrar como possível fator amenizador, quando muito, é uma sensação reconfortante que pode ser oriunda, digamos, da fruição da arte, por exemplo. Ou da dedicação a uma causa. A senhora já pensou a respeito?

     Pausa. Silêncio profundo.

-   Sabe, doutor. Tive uma sensação estranha. Parece que estamos sendo ouvidos. Nossas palavras parecem estar sendo anotadas, surrupiadas por um desses escritorzinhos de meia-tigela que há aos montes nessa maldita internet. E se for o caso, doutor, o que faremos?

     Ele coça o cavanhaque. Acende um charuto. E com a voz espaçada, milimetricamente estudada:

-   Dona Cristiana, a senhora poderia me dizer se em algum outro momento já teve dessas idéias de perseguição?

    Com ares de surpresa e ofendida:

-   Mas, doutor, eu apenas tive uma sensação, uma intuição…

Eis Antônio, um homem (no mínimo) peculiar.

NOTA DE ADVERTÊNCIA DO ADMINISTRADOR DO BLOG: DADA A PECULIARIDADE DE NOSSO CONVIDADO, PEÇO QUE NÃO LEIAM TAL TEXTO AQUELES MAIS SENSÍVEIS A TERMOS DE BAIXO CALÃO E TAMBÉM EM VIRTUDE DA EXPOSIÇÃO DE IDÉIAS QUE PODEM CARACTERIZAR DESRESPEITO A CERTAS CONVICÇÕES . NO ENTANTO, O DIREITO À LIVRE OPINIÃO  FOI AQUI ASSEGURADO EM TODA SUA AMPLITUDE.

 

   Meu nome é Antônio. Tenho 64 anos. Me chamam também de Tonho da Lua, por causa daquele personagem daquela merda de novela daquela bosta de emissora que passou naquele maldito ano. Sou de lua mesmo. Quem não é? Mas sou mais conhecido por dizer as coisas como elas são. Quer dizer: um sincero. E isso eu sou mesmo.

  Trabalhei a merda da minha vida toda como funcionário público. Não casei pois acho o casamento um sacrifício desnecessário. Ter que conviver com a merda de alguém, e só com aquele alguém, só por causa de uma bosta de pedaço de papel… De jeito nenhum. Isso não serve pra mim, não. Nunca tive filho com mulher alguma. Mulher, aliás, é um bicho danado de complicado: para quê mais complicação? Sexo pra mim eu resolvo por uns trocados. Aqui em Manaus tem muitas cabrochas que nos vendem um serviço bom, limpinho. Assim eu consigo viver. O que eu acho dessa bosta toda de democracia? Uma putaria só, bando de cafajestes esses políticos que apenas porque falam bonitinho e se vestem bem se acham donos da nossa consciência. Religião? Nunca tive e nunca me fez falta. Eu acredito em mim mesmo, nisso eu acredito! Acho esse troço de arte, de estudo e coisas desse naipe tudo uma baboseira só. Li alguns livros, mas mesmo assim porque fui obrigado. Não assisto televisão, não leio jornal, não ouço rádio, nem música, abomino futebol. Ficar vendo aquelas pernas peludas de um bando de semi-analfabetos correndo atrás de uma pelota cheia de ar em cima de um gramado. Ah, me dá licença!

   A vida é uma privada. Essa minha teoria é complicada. Outro dia eu falo dela. Senão, vou gastar o espaço que me concederam aqui neste blog tão concorrido, visto no mundo inteiro! (Cá entre nós: pelo menos é o que me disse o rapaz aí de cima de nome arrevesado).

   Da morte eu não tenho medo. Morreu, záp!, acabou-se. Vida eterna? Ah, vão pra p.q.p….

   Não gosto de ser humano, nem de animais, nem de natureza. Aliás, que mal lhe pergunte, por que existo, alguém pode me dizer? Não pedi pra nascer, p.!

  

PS: Se quiserem, volto a lhes proporcionar o prazer da minha presença: depende de vocês para que eu escreva sobre outros assuntos, escondidos e distorcidos pela nossa civilização pequeno-burguesa e falida. Se não quiserem também, já sabem: um peido na cara! Adeus! A.

"Literatura – e arte de forma geral – é para poucos". Eis um argumento retrabalhado aqui ficcionalmente para melhor ser entendido.

Com a palavra, um Prêmio Nobel de Literatura:

 

    Daqui deste palco da nobre academia sueca, onde tenho a honra grandiosa de receber os louros da minha carreira, lembro que, vasculhando as entranhas de tantos países, achei no Brasil (vejam só: as pessoas “lêem” lá!) uma cidade grande, importante, em cuja periferia uma grande biblioteca pública acabou de ser aberta. E pasmem os senhores: vi garotos maltrapilhos, homens de feições grosseiras, mulheres destituídas de graça, tal a carga de dificuldades em suas vidas sem brilho –  pois bem, eis que vi tais dejetos humanos portando obras de Shakespeare, Dante, Goethe, entre outros. Eu lhes pergunto: o que aqueles pobres coitados e coitadas vão absorver daqueles livros? O que vão assimilar? Sou contra a vulgarização e liberalização da arte. A partir do momento que se liberam livros, especificamente, corremos o risco de diminuir o valor intríseco das obras literárias genuínas, autênticas, incompatíveis com almas grosseiras e destituídas da sensibilidade necessária para fruir as múltiplas camadas de significados de um Hamlet, de um’A Divina Comédia, de um Fausto. Proíbamos as bibliotecas do mundo incivilizado, demos um basta à tal libertinagem para com nossos imortais das letras! A literatura não é para qualquer um! O livro não é para qualquer um. A arte é para poucos, intrisecamente falando.

 

   Palmas e mais palmas. Ovação. Mais um Prêmio Nobel de Literatura é concedido a um grande romancista francês.

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 Tal discurso, obviamente, não existiu. É apenas a recriação  livre e intencionalmente exagerada de um argumento que já ouvi cá por estes trópicos…

 

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Ao som de Bob Dylan, Like a Rolling Stone

Botando o dedo na ferida do ensino vergonhoso de muitas "faculdades" particulares

   A qualidade da educação pública em nosso glorioso Brasil é vergonhosa. Disso todo mundo (quer dizer, quase todo mundo) sabe. O que poucos sabem (ou fingem não saber) é que, tendo em vista a proliferação das ”faculdades” particulares que oferecem um ensino no mínimo suspeito, a quantidade de “ignorantes sabichões” que saem delas é fabulosa, inacreditável. São “advogados”, “engenheiros”, “médicos”, “administradores” e, o mais grave, “professores” que, daqui a alguns anos, estarão advogando, construindo pontes, cuidando de nossa saúde etc, de forma precária, inaceitável, incompetente.

   O que será de nós? Quem viver, verá. Se viver, claro. Ou seja, se nossos sapientes médicos do futuro cuidarem de nossa saúde apropriadamente.

   Não se trata de elitismo. Apenas a qualidade deve ser exigida dessas “faculdades”. E dos “formandos”, um mínimo de humildade para se verem como enganados e iludidos.

   Mas não: a maldita da vaidade humana fala mais alto…

Octavio* Frias de Oliveira, um homem exemplar

  A morte de Octavio Frias de Oliveira, publisher da Folha de S.Paulo, o maior jornal do país, foi amplamente divulgada. Por que a mencionar num blog desconhecido?

  Bem, ao ler sua biografia, ao conhecer sua história, seus inúmeros exemplos de persistência, de lucidez, de sobriedade e de dedicação ao trabalho, aprendi a admirá-lo. A ele e ao seu jornal, para mim leitura obrigatória há anos. E que continuará a sê-lo por muitas e muitas manhãs…

  Otávio Frias assumiu o jornal, que nem era tão conhecido e influente na época, para transformá-lo no colosso que é hoje.

  Um fato notável neste país tão carente de bons exemplos de seus homens públicos.

  Acho que o país, com sua morte, como disse José Sarney, apequenou-se.

 

 * Esta é a grafia original de seu nome

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Ao som de Bob Dylan, Mr Tamborine Man

Dia do Trabalho: homenagem aos empresários larápios

  Hoje é dia do Trabalho. Dedico este espaço aos nobres empresários (uma boa parcela deles, não todos, pois!) espertalhões deste país. Ao senhor, à senhora, vós mesmos: que expondes vossos trabalhadores à informalidade porque não quereis abrir mão de uns trocados e argumentais que os encargos trabalhistas impedem vossas excelências de registrar vossos paupérrimos funcionários que se esfalfam para ter uma vida um pouquinho menos indigna. Sim, o grande homenageado és tu, caro empreendedor que burlas a legislação, que no contra-cheque aplicas o famoso jeitinho brasileiro: computas os descontos das férias (inexistentes), dos benefícios (utópicos) e outras graciosas e inofensivas artimanhas. Parabéns a vossas excelências, estimuladores do desenvolvimento da nação, baluarte do progresso, símbolo do empreendimento.

 Mas, pensando bem, vossas excelências não registrais vossos funcionários por causa da carga tributária excessiva. Ah, sim, que cabeça, a minha!