Acabei de assistir: "A Dupla Vida de Véronique" – Polônia-França. Direção: Krzysztof Kieslowski

  “Há uma ligação entre as pessoas, há fios invisíveis” - Krzysztof Kieslowski  

 

Assim, temos personagens que devem ser considerados idênticos porque parecem semelhantes, iguais. Essa relação é acentuada por processos mentais que saltam de um para outro desses personagens pelo que chamaríamos telepatia -, de modo que um possui conhecimento, sentimentos e experiência em comum com o outro. Ou é marcada pelo fato de que o sujeito identifica-se com outra pessoa, de tal forma que fica em dúvida sobre quem é o seu eu (self), ou substitui o seu próprio eu por um estranho. Em outras palavras, há uma duplicação, divisão e intercâmbio do eu”. Sigmund Freud

 

   Tentar pôr em parâmetros estritamente racionais ou reduzir seu roteiro em poucas linhas seria um sacrilégio e exercício de puro amadorismo intelectual. O resumo das seqüências das cenas a seu caráter meramente de causa e efeito tampouco seria uma demonstração de capacidade de entendimento e fruição da arte do cinema-poesia, do cinema-reflexão. Em suma: na “história”, vá lá, das duas mulheres, Weronike e Véronique, ambas idênticas no plano visual, nascidas no mesmo dia e hora, em países diferentes, uma na Polônia e a outra na França, há que se ter em mente o caráter metafísico, poético, místico (desvinculado de qualquer religião ou crença) e altamente existencial com o qual ali nos deparamos. 

   Nesse filme de 1991, e que antecede a célebre Trilogia das Cores, Kieslowski espera da platéia não a tentativa  de encadeamento simplista e reducionista de fatos, não oferece  entretenimento boçal nem tampouco procura fazer proselitismo de ordem religiosa, colocando ou diluindo nessa obra qualquer traço de algo sobrenatural, como aquela crença na metempsicose, a suposta transmigração das almas. Nesse exercício de profunda liberdade de criação artística, o diretor polonês (autor do Decálogo, cuja carreira foi iniciada com documentários críticos ao governo comunista de seu país nos idos dos anos 60 e que veio a falecer aos 55 anos, vítima de um ataque cardíaco fulminante em 1996), mostra-nos sua profunda aversão aos padrões daquilo que se convencionou chamar de “cinemão”, sobretudo o americano de um quarto de século para cá. Em outros termos: Kieslowski não faz concessões. Não adianta procurar um motivo simplista para os seus filmes derradeiros. Desfaçam-se, meus caros, de sua bagagem de expectativas de uma fruição fácil. Ele exige de nós um total envolvimento com o universo de seus filmes. Não uma concordância automática, mas uma vivência, uma capacidade sempre alerta de empatia.

   A maioria de nós, algum dia, nos nossos mais íntimos momentos de introspecção, já tivemos a sensação de não estarmos sozinhos. É como se algo em nós nos acenasse a existência de um duplo de nós mesmos, em algum lugar deste vasto mundo. Ou uma ciência do já acontecido: aquela sensação quase etérea de que o acaso não é bem o acaso, de que os fatos da nossa vida já foram por nós vivenciados de antemão. Frisando sempre que nem o autor deste texto defende nem no cinema de Kieslowski há qualquer crença em vidas passadas. Feitos estes parênteses, voltemos ao filme.

  A beleza estonteante de Irène Jacob, sua facilidade em interpretar ambas as personagens, sua extrema delicadeza e versatilidade para captar as nuances subjetivas de Weronike e Véronique (apesar de idênticas na aparência, ambas são como o yin e o yang da concepção dualista chinesa, uma Verônica a complementar a outra), tudo isso nos marca e nos deixa mesmerizados e hipnotizados a ponto de termos a sensação de que vemos desenrolar a realidade verdadeira perante nossos olhos. Quanto ao nome da personagem, Kieslowski conseguiu um achado: tal nome vem do latim e significa, grosso modo, “o ícone, o símbolo verdadeiro”. Fica a pergunta: qual das duas é a verdadeira?

  A trilha sonora é igualmente arrebatadora. E a cargo de ninguém menos que Zbigiew Preisner. A propósito: as notas mágicas ainda hão de ressoar aos ouvidos mais sensíveis por muito tempo…

  Ambas as jovens lidam com a música, ambas vivem pela música, não obstante as grandes diferenças de temperamento entre elas. São idênticas, mas ao mesmo tempo diferentes!

 A questão do duplo na literatura é bem conhecida: O Médico e o Monstro, de Robert Louis Stevenson; O Retrato de Dorian Gray, de Oscar Wilde e, numa veia mais cômica, O Falecido Mattia Pascal, de Luigi Pirandello. Esse último foi transposto para as telas por Mario Monicelli, em 1984. Esse assunto tão fascinante vem de longe. Mas esse filme de Kieslowski talvez seja, para aqueles que o assistiram não como passatempo, nem tampouco diversão, o mais bem-sucedido de um ponto de vista expressivo e carregado de camadas de sentidos, significados e, conseqüentemente, interpretações.

 Se você não assistiu, corra até uma locadora, das boas.

 Os extras trazem muitas deliciosas informações sobre a obra desse polonês inquieto, fumante inveterado e sua obra desafiadora para aqueles que não se contentam mais com as tranqueiras de uma certa localidade na Califórnia. A entrevista dele é altamente esclarecedora da filosofia por trás de seus filmes. E trazem também uma entrevista atual com a atriz Irène Jacob sobre sua experiência com o cultuado diretor.

  Como mencionado, há múltiplas camadas de sentidos para esse filme. Se você assistiu à Trilogia das Cores, ou mesmo Não Matarás e Não Amarás, sem dúvida vai perceber ali a mão de um gênio do cinema. Ou melhor: de um tipo de cinema desprezado pelo grande público atual, tão cioso de sua pseudo-sofisticação oriunda de uma novidade também falsa e oca.

 Pressentimento, acaso, amor, existência, sincronicidade, essa última com pitadas de Carl Gustav Jung. Vale interpretar como quiser tal obra-prima. Vale quase tudo. Menos a indiferença.

 É filme para se ver repetidas vezes. E em cada uma delas ficar mais perplexo.

__________

Cotação subjetiva: três quatrilhões de estrelas!  

 

                                 

 

 

                                                        

 

         

 

                                                                                                                                         

4 thoughts on “Acabei de assistir: "A Dupla Vida de Véronique" – Polônia-França. Direção: Krzysztof Kieslowski

  1. Obrigado, e que bom que há as opiniões ultra-idiossincrássicas deste blogueiro coincidem com as de alguém neste vasto mundo cibernético.
    Um abraço, meu caro.

  2. Olá,

    Também sou fã desse polonês.Pena ter morrido tão jovem, mas o seu legado aínda não foi de todo apreciado. Vi os filmes que citou e numa época em que estava buscando algo mais que o velho enlatado americano. Vou procurar de novo pra ve-los.
    Conseguiu ver a mensagem por traz de Não Amarás? De todos os filmes de Kieslowski este é o que considero mais emblemático. Será que alcançando o nosso objetivo deixamos de lutar?

    Grande abraço

  3. Olá, Lenilson.
    Obrigado pela leitura atenta.
    Sim, uma pena o grande Kieslowski ter morrido ainda relativamente cedo. Também, pudera: o cara era uma chaminé ambulante e podemos dizer que o cigarro levou um dos cineastas-filósofos mais geniais de todos os tempos.
    Bem, assisti o Não Amarás há um bom tempo. Na época, ainda não tinha de uma visão crítica mais apurada. Pretende revê-lo logo.
    Ótima indagação, a tua: o objetivo alcançado deixa-nos resignados a ponto de prescindirmos de outras ações?

    Um grande abraço e volte sempre.

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