"Persona", de Bergman. Nunca o cinema foi tão longe na sondagem psicológica de personagens perdidas na "realidade diabólica".

Assisti hoje Persona (Suécia, 1966), de Ingmar Bergman. “Assistir” é um termo por demais precário. O que fiz duas vezes seguidas foi mergulhar no universo absolutamente singular (foi uma experiência estética e existencial que me acompanhará pelo resto dos dias…) desse cineasta sueco que no ano que vem completa noventa anos de idade e cujos filmes são, talvez, a síntese do que mais de ousado o cinema já apresentou em termos de sondagem psicológica, filosófica e questionadora de nossa situação de seres eternamente às voltas com a questão da existência, do estar no mundo. De todos os seus filmes que vi, entre O Sétimo Selo, Fanny e Alexander, Morangos Silvestres, Gritos e Sussurros, A Fonte da Donzela, Através de um Espelho, Luz de Inverno e O Silêncio, o que mais me arrebatou e me deixou mais ainda pasmo de admiração e semi-veneração pelo trabalho de um diretor de cinema (ofício esse pelo qual sou fascinado) foi Persona. E friso bem que todos esses filmes me encantaram profundamente. 

  Se você quer ter um primeiro contato com a obra de Bergman, recomendo que não comece por esse filme. Talvez O Sétimo Selo seja uma introdução válida.

  Mas, afinal, o que em Persona me deixou assim tão arrebatado?

 

  Tudo nele é por demais enigmático, ousado, diferente e, numa palavra, perfeito. São oitenta e um minutos nos quais nem senti passar o tempo. A história, num plano bem resumido, é a seguinte: uma atriz, Elisabet Vogler (Liv Ullmann) simplesmente pára de falar durante uma representação da peça Electra. E assim permanece, em silêncio, pelo qual opta radicalmente. Passam-se três meses. A enfermeira Alma (Bibi Andersson) é encarregada de ser a acompanhante da atriz. Ambas vão para uma casa de praia, um lugar totalmente deserto. Ali, passa a haver uma maior ligação entre elas, não obstante a atriz insistir em não falar, apenas mostrando interesse em ouvir as cada vez mais íntimas revelações de Alma. Até que um dia essa fica encarregada de postar algumas correspondências de Elisabet. No caminho, ao perceber que as cartas não estavam lacradas, Alma não resiste à curiosidade e decide ler uma delas. Desvia, então, o carro para um caminho improvisado, estaciona e mergulha na leitura. A carta, endereçada à analista de Elisabet, diz, em linhas bem gerais, o quanto a atriz está aclimatada ao ambiente de reclusão e paz de espírito em que se encontra. Mas o mais bombástico: ela escreve que a companhia de Alma proporciona a ela, Elisabet, uma oportunidade de analisar e estudar friamente as tão bem-guardadas experiências da enfermeira, entre elas uma orgia com garotos numa praia deserta alguns anos antes e um aborto subseqüente. Esmagada por tal revelação, por se ver apenas como um objeto de análise, ela que se abrira tanto para a atriz, Alma passa a ser outra pessoa para com Elisabet. O ódio que a enfermeira passa a sentir pela sua paciente é muito bem representado pela cena do caco de vidro que Alma deixa intencionalmente no caminho dos pés descalços (e distraídos?) de Elisabet.

   Bem, aí está um resumo do enredo. Mas se engana quem pensa que se resume a apenas isso tal obra genial do mestre sueco.

   Os primeiros cinco minutos do filme são os mais enigmáticos que eu já vi. Para uns, uma seqüência “sem pé nem cabeça”. Para mim, “simplesmente” antológica. Surrealismo de fina estirpe. Cenas de uma antiga máquina de projeção, uma aranha ameaçadora, um órgão genital masculino (em milésimos de segundo), flashes de luz, notas musicais dissonantes, uma micro-seqüência de uma animação, mãos agitadas de uma criança, tela em branco, cenas de um filme mudo no qual uma caveira aterroriza um homem em trajes de dormir, que foge e acaba encontrando outra figura assustadora, o sacrifício de um animal e a posterior manipulação de seus órgãos internos, outra tela em branco, e a mais chocante de todas as imagens: uma mão sendo perfurada por um prego e o barulho seco das marteladas. Corte para a imagem de um bosque no inverno, o close nas lanças de uma grade de uma casa e em um monte de neve. Agora, a câmera faz outro enquadramento que um espectador mais distraído não percebe ser na verdade o perfil de uma pessoa idosa no que seria um necrotério. Os closes dos supostos mortos causam um estranhamento e uma sensação de que tudo aquilo que vemos ali e sobretudo a morte a nós apresentada nos enquadramentos é palpável. Há o corte para um garoto dormindo num ambiente asséptico. Outros enquadramentos de outros mortos idosos e ouvimos a campainha de um telefone. O garoto acorda, tenta ler, mas é atraído pela  imagem ampliada de um rosto feminino na parede. Ele toca de leve aquela face imensa, que muda de fisionomia aos poucos. Apenas agora vêm os créditos sobre um fundo branco, tudo intercalado por imagens-flash de árvores, rostos, pedras e cenas de um filme mudo antiqüíssimo.  Por fim, de um fundo branco surge uma porta pela qual entra a enfermeira Alma. A médica-chefe, a analista acima mencionada,  vai lhe incumbir de tomar cuidado da atriz que emudecera, mas que não apresentava nenhuma complicação nervosa adicional.

 

   Bem, o resto o leitor (a) pode descobrir assistindo. E ao fazê-lo, também terá interpretações diferentes. O trabalho do não menos genial diretor de fotografia de Bergman, Sven Nykvist, que sabia tudo de sua arte, foi mais do que imprescindível na criação da atmosfera claustrofóbica, pelos closes de rostos, pelo contraste entre sombra e luz, jogo esse tão caro nos filmes do diretor sueco. E aqui mais necessário do que nunca. Afinal, é através desse mecanismo de sombra-luz que as duas personagens acabam se fundindo. Alma e Elisabet, essa última com todas as nuances psicológicas expressas apenas por intermédio das expressões faciais, aquela cada vez mais presa do fascínio que Elisabet lhe impõe, acabam se fundindo, mostrando o quão duas almas podem se sobrepor, as fronteiras entre elas sendo mesmo apagadas. Tão acentuada é essa fusão de almas que o marido de Elisabet (no papel, o grande habitué dos filmes de Bergman: Gunnar Björnstrand) vem visitá-la e ele se dirige à Alma como sua esposa! A simbiose foi total ou estaria ele também sob os efeitos de uma amnésia? O filme nos possibilita um sem-número de questões e de interpretações. A mim, a questão do “eu”; até onde vão nossas ambições de viver em um mundo fechado ao outro; sobre a suposta interpretação a que nos dedicamos em nossas vidas em sociedade, nossas personas, nossas máscaras, os papéis que representamos; o que é influenciar o outro; a “mentira” da arte para representar a essência do viver. Enfim, são questões que me deixaram sem resposta. Mas para levantá-las, já foi um “serviço” e tanto desse filme único, posso dizer que foi o que mais fascínio me causou.

   Um último comentário pessoal. A mulher ali é retrada como uma entidade. Nada menos do que isso.

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   Um trecho da fala da analista à Elisabet, logo após aquela oferecer sua casa de verão na praia para a atriz  descansar:

- Pensa que não entendo?  O inútil sonho de ser. Não parecer, mas ser. Estar alerta em todos os momentos. A luta: o que você é com os outros e o que você realmente é. Um sentimento de vertigem e a constante fome de finalmente ser exposta. Ser vista por dentro, cortada, até mesmo eliminada. Cada tom de voz, uma mentira. Cada gesto, falso. Cada sorriso, uma careta. Cometer suicídio? Nem pensar. Você não faz coisas desse gênero. Mas pode se recusar a se mover e ficar em silêncio. Então, pelo menos, não está mentindo. Você pode se fechar, se fechar para o mundo. Então não tem que interpretar papéis, fazer caras, gestos falsos… Acreditaria que sim, mas a realidade é diabólica (…).

  Paro por aqui na citação para não estragar o prazer de assistir a essa obra aberta, fascinante e da qual se sai enriquecido. Se quiser, caro leitor, cara leitora, ter um rápido vislumbre da alma humana, de seus porões mais recônditos, assista a esse filme.

  Você perceberá o quanto são aleatórias e imprecisas nossas definições da condição humana. E essa está lá, genialmente retratada por Ingmar Bergman, seu diretor de fotografia, Sven Nykvist (que faleceu há alguns meses) e suas atrizes fascinantes, lindas e artistas na mais elevada acepção do termo.

 Uma obra-prima. Assistir a ela nesses tempos em que o cinema hegemônico é sua fiel antítese chega a ser uma obrigação àqueles que ainda querem da arte muito mais que entretenimento e facilidades.

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Ingmar Bergman

13 Respostas

  1. Estou escrevendo uma personagem misteriosa, mas não diabólica, talvez assistir o filme me faça mudar de idéia quanto ao “diabólica”, risos.
    O nome dela (minha personagem) é Antonella, que é homossexual, escrevo ainda de seu primeiro amor, não passou ainda pelas agruras do preconceito. Mas passará.
    Interessei-me pelo filme, só não sei se o encontro na locadora ruim que sou sócia, risos!
    Beijo, meu caro.

  2. Estava pesquisando sobre a Comunicação em Persona para um trabalho da faculdade!
    Você me ajudou e muuuuito!
    Obrigada!

  3. Fico muito satisfeito que de alguma forma tenha lhe ajudado.
    Espero que tenha sorte pela empreitada do conhecimento. E grandes descobertas.
    Um abraço e tudo de bom.

  4. Elienai,

    Tivemos a oportunidade de conversar longamente sobre esse filme naquele dia. Nossas visões sobre ele bateram em vários pontos.
    Notícia boa pra ti: saiba que o teu texto é o primeiro que o Google elenca na busca Persona/Bergman. Ou seja: em toda a web é no teu texto, pelo menos em português, que milhões de internautas que buscam subsídios sobre o filme vêm parar.
    Que legal! Sinal de que no boca-a-boca o pessoal vai repassando. E se vai repassando é porque está bem escrito.
    Espero que fique contente com essa informação.
    Um abraço e um beijo,
    Rafaela (Thamara).

  5. Fiquei e muito! querida Thamara, a Rafaela! Como vais tu?
    E vou escrever um post lhe dando os devidos créditos. Desse jeito você me sai uma grande marketeira..rsrs. Te agradeço imensamente pelas palavras de estímulo na tua mensagem aqui. Seus elogios, digo.
    Gostei muito mesmo!
    E então, conseguiu o Dr. Mabuse com o Marcelo?
    Ah, amanhã começo minha retrô do Antonioni. Algo novo, e-mail me!

    E respondendo tua pergunta num comentário do post abaixo: vou sim no Anexo da Nena no sábado, com certeza. Podem me esperar!!! Já aproveito para agradecer pelo convite. E andei fuçando na programação para o dia: se vc ainda não sabe, o que é bem pouco provável, antenada que és, vai ser a banda Rock Boxx, que toca os clássicos de todos os tempos. Tem mais informação sobre os caras clicando aqui. Let´s go!!!!!
    Um grande beijo.

    Elienai

  6. cara, esse filme é uma surra no escuro, gostei demais,os pensamentos mais obscuros de um ser se revelam nas duas personagens.apreendi com muita clareza tudo que de abstrato o autor quis passar, mas tenho uma certa angustia,pela concreticidade, a historia em si.pode me ajudar nisso?

  7. Estou à disposição, amigo. Se puder ajudá-lo, será um prazer.

    Um abraço!

  8. “Você perceberá o quanto são aleatórias e imprecisas nossas definições da condição humana”.

    Cara, isso é foda!, com perdão da palavrinha..rsrs

    Muito bem resenhado o filme do vovô Bergman, que Deus o tenha.

    Vc escreve sublimemente sobre coisas tão… tão voláteis, sei lá.

    Faz tempo que assisti esse filme. mas foi uma experiência tão intensa q jamais vou esquecer. eu assisti com amigos da facul, todos nerds. a galera apupou, berrou, urrou no final. alguns execreram, mas a maioria ficou passada.

    Me incluo na última opção.

    beijos da Lucy

  9. Seja bem-vinda, Lucy!

    Obrigado, lady, pela gentileza. Mas ainda estou nos cueiros, em matéria de escrita. A gente vai melhorando aos poucos.

    O PERSONA é uma experiência para poucos, claro. Mas não tem lá tanto hermetismo, como dizem. Basta entrar no ritmo, não?
    ´
    Ótimo contar contigo aqui. Não suma.

    Abraços!

  10. No meio do filme vi uma semelhança de Alma com o personagem Jack de O Iluminado, mas depois percebi que esse não é o caso. Persona é uma grande cilada. É cheio de verdades e desverdades. É muito psicológico, e nos obriga a fazer uma auto-análise involuntária. Penso que Alma se camuflava em Elisabet, pois também não queria viver a farsa de viver; de ser alguém que era, mas não era ela. Enquanto isso Elisabet, que sofria da mesma crise, se camuflava no silêncio.

  11. Adorei o que vc escreveu…

  12. Que bom, Maria Isabel. Espero poder contar com sua visita outras vezes por aqui, um grande abraço.

    Elienai

  13. Parabéns! Excelente texto! Acabei de ver o filme (acabei mesmo, faz uns 5 minutos). É incrível a abertura de Persona, mais uma obra prima de Bergman! Ele consegue como ninguém abordar conflitos psicológicos e emocionar os espectadores, sem tornar seus longas piegas.

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