Assisti ontem O Estado das Coisas (Alemanha,1982), do cultuado diretor alemão Wim Wenders, que junto com Werner Herzog (sobre cujo Fitzcarraldo escrevi aqui) e Rainer Werner Fassbinder formou a trinca de ouro do jovem cinema alemão de uns tempos atrás. Neste filme sem concessões ao previsível, vemos as filmagens de um filme rodado no litoral de Portugal. O filme dentro do filme se chama “Os sobreviventes” e trata de um grupo de pessoas que foge de algo terrível (uma hecatombe nuclear?), não sabemos bem o motivo, se tornou fatal. Quando chegam às proximidades do mar, a cor alaranjada acentuada que caracterizava os cinco minutos do “filme dentro do filme” cede lugar ao preto-e-branco, ponto a partir do qual passa a se desenrolar a realidade do filme propriamente O Estado das Coisas. Descobrimos que tudo era encenação. Logo em seguida, sabemos, juntamente com o diretor, Fritz, que algo terrível acontecera: que parassem todas as gravações. Afinal, acabara o filme de gravação e ninguém sabia onde se encontrava o produtor. Sem ele, o esquema de feitura do filme não poderia continuar. Quem financiaria o término do projeto?
A equipe toda passa então a viver à espera do retorno das gravações. Todos se acomodam num hotel abandonado no litoral português. Ali, naquela convivência forçada, somos apresentados àquelas personalidades sui generis e suas carências afetivas, inseguranças, tolices, canalhices, libido não-reprimida bem como outras atitudes daqueles até então considerados “normais”.
A paisagem é totalmente compatível com o clima do longa, de forma geral: tédio e desolação.
O filme depois passa a ser rodado na Califórnia onde o diretor Fritz vai atrás de Gordon, o produtor larápio finalmente encontrado. Outro ritmo, cenas rápidas, rock como fundo musical, cortes céleres. O fim não pode ser dito, obviamente, pois é muito bem apresentado de uma forma surpreendente por Wenders.
Acredito que tal filme (também autobiográfico) seja uma metáfora da arte do cinema versus a realidade pragmática. Em outras palavras: a arte (a do cinema no caso, obviamente) teria limitada e restrita sua expressão pela engrenagem inexorável da lógica do mercado. De um lado, o fazer cinema desvinculado dos interesses materiais, de outro, a terrível necessidade de captação de recursos e tudo que isso possa trazer de desvirtuamento do cinema como arte. A questão do espaço na determinação das escolhas de um diretor, na atuação dos atores, também é um ponto nevrálgico no filme. Uma obra, enfim, metalingüística por excelência. Como poucas na história do cinema.
A trilha sonora também é bem interessante. O desempenho dos atores, muito bom. Há até um humor no papel de Robert, um ator (não se esquecendo que há um duplo papel para muitos atores no enredo: atores no filme dentro do filme e na trama principal) para lá de cômico, um sujeito singular que nos faz sacudir de risos ao narrar sua infânica cheia de dissabores narrados com muita espirituosidade. As conversas entre as duas garotinhas também às vezes chegam a ser de um humor muito preciso.
Obviamente, há questões muito mais relevantes do ponto de vista do fazer cinema, das implicações da arte cinematográfica embutidas nesse filme. Aqui foi apenas, contudo, minha visão pessoal sobre o filme. Haveria muito mais para se escrever. Isso, no entanto, deixaria o texto cansativo e altamente pretensioso. Aliás, os textos que escrevo aqui sobre cinema não têm a pretensão de ser crítica de cinema. Friso novamente: são apenas minhas impressões. As impressões de um sujeito de mente inquieta, intelectualmente voraz. E sem papas nos neurônios.
Estou com outro filme de Wenders aqui para assistir, se for possível ainda neste fim de semana. Trata-se de No Decurso do Tempo. Pelo que andei lendo, um filme no qual o diretor alemão pega mais pesado. Sobretudo em termos dos encontros fortuitos que acontecem pelas (uma das obsessões de Wenders) estradas (literalmente) deste mundo afora.
__________________
O ESTADO DAS COISAS
1982
Diretor:
Wim Wenders
Roteiro:
Wim Wenders
Robert Kramer
Diretor de Fotografia:
Henri Alekan
Editores:
Barbara von Weitershausen
Peter Przygodda
Música:
Jürgen Knieper
Elenco:
Patrick Bauchau
Viva Auder
Isabelle Weingarten Samuel Fuller
Rebecca Pauly
Jeffrey Kime
Geoffrey Carey Alexandra Auder Camilla Mora
Roger Corman
Paul Getty
Allen Goorwitz
Artur Semedo
Festivais/Prêmios: “Leão de Ouro” de 1982 em Veneza
1983 German Film Prize in Gold de Fotografia
1983 German Film Prize in Silver de Produção
Produtores:
Chris Sievernich
Wim Wenders
Produção:
Road Movies Filmproduktion/Berlin Wim Wenders Produktion
Duração:
121 min.
Formato:
35mm Color
Título original:
Der Stand der Dinge
Idioma original:
Inglês
______________
Ao som de Paul McCartney, No more Lonely Nights
Arquivado em: Cinema


