Fronteira entre as Alemanhas. Anos 70. Um técnico de projeção de filmes, fazendo a barba em seu caminhão-casa, vê um fusca a mil por hora se jogar nas águas do rio Elba (que na época dividia a Alemanha Ocidental da Oriental). O suicida frustrado (tanto com o rompimento com sua ex-esposa quanto com aquele que deveria ser seu ato derradeiro) retira sua mala de dentro do carro lentamente, sai dele, nada até as margens, onde encontra o técnico blasé. Eles riem. Começa ali uma convivência entre ambos. Que saem pelas estradas, incrustadas num mundo precário. Sem rumo exato, a estrada sendo uma metáfora óbvia dos rumos da vida, eles trocam diálogos escassos, superficiais. A estrada, aliás, como aqueles habituados com o universo de Wenders bem sabem, fascina-o sobremaneira. Seus personagens principais sempre estão em movimento. O deslocamento físico nos seus filmes sempre está presente.
Nesse longa (quase três horas de duração) de 1976, o grande diretor alemão nos mostra uma realidade amarga. Não há uma linha narrativa clara. Os encontros fortuitos entre as personagens quase nunca se firmam, se estabelecem. Os diálogos, entre um cinismo frio e a rispidez. Nos quais vez por outra os traumas vêm à tona. É como se tudo o que realmente houvesse de importante de fato fossem os vestígios deles, dos traumas. Que acabam gerando um travo de desilusão, de amargor. Os dois personagens são seres em deslocamento pois são, na verdade, seres incertos: não sabem exatamente onde se encaixam na ordem das coisas.
O filme retrata também de forma muito clara as barreiras entre as pessoas, a incomunicabilidade entre elas.
O fato notável é que, apesar da duração, o diretor consegue não aborrecer o espectador com a quase falta de drama no enredo. Ficamos, isso sim, hipnotizados pela atmosfera mostrada.
A trilha sonora é deliciosa, com músicas do repertório das baladas do rock antigo norte-americano.
O grau de realismo é notável. Eu me senti por aquelas estradas alemãs, descrente do gênero humano ali retratado.
Um filme que nos deixa um sabor amargo, não obstante revelador. Se você quiser ter um vislumbre do cinema que incomoda mas ao mesmo tempo enleva, assista “No Decurso do Tempo”, de Wim Wenders. Um diretor mais que genial. Um poeta da sétima arte.
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Conflitos psicológicos me interessam, muito!