A mulher já não o tolerava. Os filhos o evitavam. Os amigos fingiam compromissos cada vez que ele ligava marcando um dia para colocar a conversa em dia, no boteco do Jair, onde poderiam tomar uma bebida alcoólica fermentada, feita de lúpulo e cevada, ou outros cereais, pessoal, depois do expediente. Nada.
Há dias Romualdo estava com aquela mania que ninguém sabia de onde viera, nem da parte de quem. Era um tal de falar umas palavras invocadas, estranhas, difíceis, verdadeiros palavrões! E (que voltas o mundo dá!) ao mesmo tempo, ele se tornava um leitor compulsivo de dicionários. Cada mês comprava um mais caro. Chegava em casa com pacotes de livrarias dos mais diversos tamanhos: lá vinha outro dicionário… E outro. E mais outro…. Homem, pra que tanto dicionário?, perguntava a mulher. Ela não tinha que se preocupar, era cultura, saber, instrução, querida minha, objeto do meu amor. E ele lhe beijava e dizia que aquilo era um ósculo para uma alma cândida, íntegra e abnegada. A mulher, ofendida: aquilo era xingamento, que parasse já com aquele palavrório complicado, o povo já falava, que parasse com aquilo que não tinha graça não, senhor, as crianças já eram vítimas de piadinhas, a filha mais velha até brigara com o namorado quando esse perguntou (pigarreando, todo dedos) a ela se o pai da moça poderia dizer como se dizia, naquele linguajar de doutor, fazer certas coisas, você sabe, amorzinho, aquelas coisinhas …
Um belo de um estratagema, digamos, uma bela de uma desculpa esfarrapada. Mas a moça ficou mais indignada com a referência sem graça ao pai, seu tão adorado (até alguns dias atrás) pai – agora o palhaço involuntário da cidadezinha!- do que com o sentido nada oculto do gracejo.
Por onde quer que ele fosse, gracejo era o que perseguia Romualdo. Que, por sua vez, continuava a estudar com afinco seu arsenal de dicionários. Ficava até tarde a decorar listas de palavras, criava frases, recitava textos arrevesados. Só para se referir ao príncipe das trevas ele sabia de cor bem umas 0itenta palavras! Cruz-credo! Ou melhor: persignemo-nos!
Acordava cedo, ia ao trabalho, onde deixava entre espantado e orgulhoso seu chefe e estupefatos e meio enciumados seus colegas. E era um tal de se fazer círculo em volta dele, todos querendo constatar com os próprios ouvidos aquele talento tão intempestivamente adquirido, ele que há pouco tempo mal sabia falar parele… paralepe… paralelepípedo! Romualdo, qual a maior palavra do português mesmo? A resposta saía redonda, fluente: pneumoultramicroscopicossilicovulcanoconiótico, oras. Pasmo geral, assobios, aplausos. Um talento daqueles apertando parafusos numa fábrica!
Já a arraia-miúda da cidade, essa tecia, com prazer nada dissimulado, as mais criativas, maledicentes e estapafúrdias suposições: ele enlouquecera, nunca os enganara! Era um homem esforçado, um exemplo para esses jovens que nunca liam nada, a não ser esse troço de imeiu e coisas que tais. Que nada, ele queria mesmo era se candidatar pra alguma coisa no próximo ano…
Romualdo, com o tempo, foi se integrando à paisagem da cidade. Já não chamava atenção, havia até pessoas que, sem dicionário em casa, davam um pulinho até a casa do Homem dos Dicionários. Que ele as ajudassem, tinha uma palavrinha danada de difícil que atrapalhava a vida etc e tal.
A família até gostava daquilo tudo. A filha se reconcilou com o namorado e até disse a ele (após consulta a seu sábio pai) como se falava aquilo em língua de doutor. Era… E aprendera (e ensinara!) também, vejam só, sinônimos nunca ouvidos para o verbo ceder.
O tempo foi célere: já lá tinham passado quase seis anos!
Romualdo fora chamado para trabalhar como consultor de uma editora especializada em dicionários. Havia virado um lexicógrafo renomado. Fizera fortuna. Abandonora há muito tempo seu antigo emprego de metalúrgico, ou, como ele dizia com muito orgulho, o artífice que tinha a incumbência de fazer a manipulação dos metais numa escala industrial.
A família mora num condomínio de alto padrão, atualmente. A filha, rápida e prática em aprender verbos novos, deu a Romualdo três netos, objeto de minha mais alta estima pessoal, dizia o orgulhoso (e não menos mago das palavras) vovô.
Romualdo, segundo a voz corrente, nunca disse a ninguém o porquê da paixão arrebatadora e súbita pelas palavras.
O que há apenas são suposições. Dizem, por exemplo, entre outras hipóteses tresloucadas, insanas e disparatadas – e os adjetivos em questão são uma homenagem ao grande Romualdo - que tudo foi por causa de um pacto. Ou algo do tipo. Com quem ou com o quê já é querer saber demais.
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Ao som de Chet Baker , As time goes by, But not for me e I fall in love too easily