De calhas e quedas em geral até desembocar em Cidadão Kane, de Orson Welles

   
                                       

   Tudo o que sobe, desce. Isso vale para tudo.

    A calha, artefato tão útil, faz com que a água da chuva não fique represada. Faz com que ela flua, escorra, dilua e geralmente caia. No chão. E se vá. E seque. E finalmente evapore. 

    Calheiro, termo menos usado que calheira, seu sinônimo, é da família de calha. Trata-se de um cano aberto na parte superior, ou sulco, usado para… escoar água. Tudo que passa por um calheiro é escoado, segue seu rumo natural. De preferência, a evaporação, o nada do nada.

     O Senador Renan Calheiros - enroladíssimo com questões pesadas envolvendo documentos que, ao invés de tirar-lhe as suspeitas, apenas tiram-lhe a autoridade; denúncias de superfaturamento, notas fiscais frias e envolvimento com lobistas e empreiteiras, e cujas terras são uma verdadeira Xanadu* cabocla (cascatas d’água, campos verdejantes, rios caudalosos, plantações, animais bem-tratados) encravada em pleno sertão de Alagoas, como li ontem no Estadão – está caindo. No conceito de milhões de brasileiros, já caiu há muito tempo. Apenas a arrogância desse Charles Foster Kane* do nordeste explica sua permanência no cargo. Sem falar, claro, do corporativismo obsceno de seus colegas de parlamento.

    Que este senhor seja levado pelas águas do esquecimento. Que seja evaporado da condição de presidente do Congresso. Ou, medida mais apropriada, que sua insolência e altivez ridículas o levem para o esgoto da história!

    Sua queda não tem conserto. Seria negar a lei da gravidade se tal gravidade acontecesse.

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*Xanadu e *Charles Foster Kane. Este último, personagem do filme sobre o qual escrevo acima (em muitas listas, nada menos que o melhor filme de todos os tempos) Cidadão Kane, de Orson Welles (que tinha na época apenas 25 anos, ex-garoto-prodígio), de 1941. Kane foi baseado descaradamente na figura de William Hearst, o magnata da imprensa que viveu seu apogeu nas primeiras décadas do século passado, a imagem exata da arrogância, da falta de escrúpulos, do ego faraônico, da total falta de limites para sua ambição e soberba, para as quais não havia oponentes. O faraó da imprensa moveu mundos e fundos para impedir que sua vida fosse parar nas telas do cinema. Conseguiu por uns tempos. Mas no começo da década de 50 o filme virou um dos mais cultuados de todos os tempos. Welles, que teve carta branca inédita para produzir, dirigir e tocar o projeto praticamente sozinho, nunca mais atingiu o grau de perfeição. Já o império império de Kane-Hearst (que começou com a fortuna herdada da mãe, que lhe transmitira a exploração de uma mina de ouro na Califórnia) o permitiu construir um castelo grandioso, símbolo do luxo estravagante e inspirado na lenda de Xanadu, construída por Kubla Khan, e que reprensenta no imaginário ocidental a perfeição na terra, algo equivalente ao Eldorado, o Éden na sua forma mais avançada.

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