O que dizem agora os petralhas radicais que antes afirmavam que toda aquela nojeira chamada mensalão era apenas e tão-somente uma conspiração da elite, a dona Zelite? Que tudo não passava da direita e dos tucanos ressentidos? O que dizem agora os petistas hidrófobos, raivosos e hipócritas, que insistiam em infernizar o governo FHC com denúncias sem nexo, sem lastro na realidade? Em que governo mesmo aconteceu o maior assalto aos cofres públicos da atualidade? Foi o governo FHC que teve ex-ministros, assessores, simpatizantes e membros da sua cúpula expostos em praça pública, objetos de análise e colocados no limbo da desconfiança pelo Supremo Tribunal Federal, a instância máxima da justiça em nosso país? Não quero, com isso, dizer que todo petista compactuou com aquela pornografia toda. Quero apenas saber onde estão todos aqueles párias que defendiam aquele politburo que era (é ainda?) a cúpula petista, o núcleo da “organização criminosa”. E quem leu a entrevista de Mr. da Silva para o Estadão de domingo passado pôde vê-lo fazer-se de joão-sem-braço, de um traído, de vítima das circunstâncias. Pobrezinho, seus asseclas montando um mega-esquema para perpetuar seu partido no poder – ou seja a ele mesmo - e ele nunca viu, ouviu ou soube de nada! Petralhas, manifestem-se! Mesmo se for para ficarem vermelhos de vergonha. Se bem que a vergonha é, na maioria das vezes, a consciência martelando, a constatação da própria “mancada”… Esperar isso daquela gente…
Arquivos Mensais:agosto 2007
T.S.Elliot: 1888-1965
A CANÇÂO DE AMOR DE J. ALFRED PRUFROCK
S’io credesse che mia risposta fosse
A persona che mai tornasse al mondo,
Questa fiamma staria senza piu scosse.
Ma perciocche giammai di questo fondo
Non torno vivo alcun, s’i'odo il vero,
Senza tema d’infamia ti rispondo.
Dante Alighieri. La divina Commédia
Inferno, XXVII, 61-66 (N. do T.)
Sigamos então, tu e eu,
Enquanto o poente no céu se estende
Como um paciente anestesiado sobre a mesa;
Sigamos por certas ruas quase ermas,
Através dos sussurrantes refúgios
De noites indormidas em hotéis baratos,
Ao lado de botequins onde a serragem
Às conchas das ostras se entrelaça:
Ruas que se alongam como um tedioso argumento
Cujo insidioso intento
É atrair-te a uma angustiante questão . . .
Oh, não perguntes: “Qual?”
Sigamos a cumprir nossa visita.
No saguão as mulheres vêm e vão
A falar de Miguel Ângelo.
A fulva neblina que roça na vidraça suas espáduas,
A fumaça amarela que na vidraça seu focinho esfrega
E cuja língua resvala nas esquinas do crepúsculo,
Pousou sobre as poças aninhadas na sarjeta,
Deixou cair sobre seu dorso a fuligem das chaminés,
Deslizou furtiva no terraço, um repentino salto alçou,
E ao perceber que era uma tenra noite de outubro,
Enrodilhou-se ao redor da casa e adormeceu.
E na verdade tempo haver á
Para que ao longo das ruas flua a parda fumaça,
Roçando suas espáduas na vidraça;
Tempo haverá, tempo haverá
Para moldar um rosto com que enfrentar
Os rostos que encontrares;
Tempo para matar e criar,
E tempo para todos os trabalhos e os dias em que mãos
Sobre teu prato erguem, mas depois deixam cair uma questão;
Tempo para ti e tempo para mim,
E tempo ainda para uma centena de indecisões,
E uma centena de visões e revisões,
Antes do chá com torradas.
No saguão as mulheres vêm e vão
A falar de Miguel Ângelo.
E na verdade tempo haverá
Para dar rédeas à imaginação. “Ousarei” E . . “Ousarei?”
Tempo para voltar e descer os degraus,
Com uma calva entreaberta em meus cabelos
(Dirão eles: “Como andam ralos seus cabelos!”)
- Meu fraque, meu colarinho a empinar-me com firmeza o
queixo,
Minha soberba e modesta gravata, mas que um singelo alfinete
apruma
(Dirão eles: “Mas como estão finos seus braços e pernas! “)
- Ousarei
Perturbar o universo?
Em um minuto apenas há tempo
Para decisões e revisões que um minuto revoga.
Pois já conheci a todos, a todos conheci
- Sei dos crepúsculos, das manhãs, das tardes,
Medi minha vida em colherinhas de café;
Percebo vozes que fenecem com uma agonia de outono
Sob a música de um quarto longínquo.
Como então me atreveria?
E já conheci os olhos, a todos conheci
- Os olhos que te fixam na fórmula de uma frase;
Mas se a fórmulas me confino, gingando sobre um alfinete,
Ou se alfinetado me sinto a colear rente à parede,
Como então começaria eu a cuspir
Todo o bagaço de meus dias e caminhos?
E como iria atrever-me?
E já conheci também os braços, a todos conheci
- Alvos e desnudos braços ou de braceletes anelados
(Mas à luz de uma lâmpada, lânguidos se quedam
Com sua leve penugem castanha!)
Será o perfume de um vestido
Que me faz divagar tanto?
Braços que sobre a mesa repousam, ou num xale se enredam.
E ainda assim me atreveria?
E como o iniciaria?
…….
Diria eu que muito caminhei sob a penumbra das vielas
E vi a fumaça a desprender-se dos cachimbos
De homens solitários em mangas de camisa, à janela
debruçados?
Eu teria sido um par de espedaçadas garras
A esgueirar-me pelo fundo de silentes mares.
…….
E a tarde e o crepúsculo tão .docemente adormecem!
Por longos dedos acariciados,
Entorpecidos . . . exangues . . . ou a fingir-se de enfermos,
Lá no fundo estirados, aqui, ao nosso lado.
Após o chá, os biscoitos, os sorvetes,
Teria eu forças para enervar o instante e induzi-lo à sua crise?
Embora já tenha chorado e jejuado, chorado e rezado,
Embora já tenha visto minha cabeça (a calva mais cavada)
servida numa travessa,
Não sou profeta – mas isso pouco importa;
Percebi quando titubeou minha grandeza,
E vi o eterno Lacaio a reprimir o riso, tendo nas mãos meu
sobretudo.
Enfim, tive medo.
E valeria a pena, afinal,
Após as chávenas, a geléia, o chá,
Entre porcelanas e algumas palavras que disseste,
Teria valido a pena
Cortar o assunto com um sorriso,
Comprimir todo o universo numa bola
E arremessá-la ao vértice de uma suprema indagação,
Dizer: “Sou Lázaro, venho de entre os mortos,
Retorno para tudo vos contar, tudo vos contarei.”
- Se alguém, ao colocar sob a cabeça um travesseiro,
Dissesse: “Não é absolutamente isso o que quis dizer
Não é nada disso, em absoluto.”
E valeria a pena, afinal,
Teria valido a pena,
Após os poentes, as ruas e os quintais polvilhados de rocio,
Após as novelas, as chávenas de chá, após
O arrastar das saias no assoalho
- Tudo isso, e tanto mais ainda? -
Impossível exprimir exatamente o que penso!
Mas se uma lanterna mágica projetasse
Na tela os nervos em retalhos . . .
Teria valido a pena,
Se alguém, ao colocar um travesseiro ou ao tirar seu xale às
pressas,
E ao voltar em direção à janela, dissesse:
“Não é absolutamente isso,
Não é isso o que quis dizer, em absoluto.”
Não! Não sou o Príncipe Hamlet, nem pretendi sê-lo.
Sou um lorde assistente, o que tudo fará
Por ver surgir algum progresso, iniciar uma ou duas cenas,
Aconselhar o príncipe; enfim, um instrumento de fácil
manuseio,
Respeitoso, contente de ser útil,
Político, prudente e meticuloso;
Cheio de máximas e aforismos, mas algo obtuso;
As vezes, de fato, quase ridículo
Quase o Idiota, às vezes.
Envelheci . . . envelheci . . .
Andarei com os fundilhos das calças amarrotados.
Repartirei ao meio meus cabelos? Ousarei comer um
pêssego?
Vestirei brancas calças de flanela, e pelas praias andarei.
Ouvi cantar as sereias, umas para as outras.
Não creio que um dia elas cantem para mim.
Vi-as cavalgando rumo ao largo,
A pentear as brancas crinas das ondas que refluem
Quando o vento um claro-escuro abre nas águas.
Tardamos nas câmaras do mar
Junto às ondinas com sua grinalda de algas rubras e castanhas
Até sermos acordados por vozes humanas. E nos afogarmos.
(tradução: Ivan Junqueira)
Uma questão de fé
- Cara, não vem com essa que você é religioso que eu não acredito.
- Mas não tô pedindo pra você acreditar.
- Não acredito mesmo. Nem em você nem em religião alguma. Você sabe bem o que penso: todas as religiões trazem embutida em si uma coisa: todas elas são um mecanismo de defesa, uma forma de se apegar a algo que nos faça perder nossa sensação de desamparo e nosso grande e eterno medo, tá ligado? ”Qual medo?”, vejo estampado no teu rosto. Eu respondo: o medo de constatarmos nossa finitude, a precarieadede de nossa existência.
- Mas as religiões, diga-se de passagem, têm sido competentes nisso há milênios, você há de convir.
- Competentes em alimentar a paranóia humana, isso sim!
- Tá ok. Não vou discutir. Mas você foi bem apressado. Eu não disse que eu era “religioso”. Eu apenas lhe contei que a Samantha, aquela cujas tatuagens íntimas a cidade toda já viu, e que agora é outra pessoa, totalmente diferente, tá seguindo uma religião e atribuí essa mudança radical a essa busca dela pelo transcendental. Ou à religião, como você quiser.
- Mas não acredito. Ponto final.
- Por que não?
- Mais dia menos dia ela volta à vida de antes.
- Como você pode ter tanta certeza, criatura?
- É científico.
- O que é científico, Einstein?
- O comportamento dela já tá assimilado, entende? É impossível se desvencilhar desses padrões de comportamento de uma hora pra outra. Ninguém muda assim de repente. Além do mais, no caso dela a coisa é hereditária, o que é um agravante.
- Tu andas muito materialista!
- Olha quem fala! Quem te viu…
- Muito mesmo.
- Quem dizia dia desses que Deus é “uma abstração castradora de nossos potenciais”? Voltaire? Freud? Não, você!
- Ando repensando algumas coisas.
- Tô falando! Qualquer dia desses te vejo saindo de uma igreja. Não, pior: te vejo Papa!
- Não fala assim.
- … Tá. Não falo. Não falo mais nada, só lamento.
- Não exagera.
- Vou tentar.
- Isso, tenta.
- Por falar em “tentar”, tô indo agora fazer uma fezinha na loteria. A MegaSena tá acumulada de novo. Vamos? Se a gente ganhar, a gente de muda. É só crer nisso e…
Tratado sucinto de sabedoria milenar ou o mais sábio de todos os posts jamais escritos em qualquer blog que a humanidade já criou em todos os tempos. Quer dizer: quase todos.
- · Finjo-me de morto para melhor analisar os mortos-vivos com os quais me deparo.
- · Tenho a capacidade resiliente de assumir todas as formas para melhor perscrutar os seres nas suas (podem ser as suas também, você que me lê) infinitas máscaras que por sua vez também são formas de melhor perscrutar os seres etc etc…
- · E vos digo: o que vejo me enoja (sinta a aliteração, veja só que linda! Repita-a em voz alta para ter o efeito esperado). O que testemunho causa-me (prefiro a ênclise, mais eufônica) engulhos.
- · No entanto, todavia, contudo, porém, mas… mesmo assim, deve-se insistir na busca de uma utopia? A vida pode assumir cores menos carregadas, fardos menos insuportáveis? Aliás, o ser humano é viável?
- · Sempre foi assim. Sempre será.
- · Uns responderam às perguntas acima escrevendo livros, poemas, peças, ensaios, tratados (como este, imortais), construindo pontes, Estados etc e tal.
- · Outros, por sua vez, lançaram mão de assassinatos, vilanias, revoltas, falcatruas, perfídias, calúnias, etc…
- · Foi, é e sempre será uma simples questão de escolha.
Este post é para a posteridade!
Sou assim. Ou eu por mim mesmo sob a supervisão do meu self.
Não sou um dissimulado. Sou apenas um objeto falsificado, produto de uma época incerta, de um lugar indeterminado e de circunstâncias caoticamente instáveis.
Por onde será que anda…?
Congelemos a cena no palco do mundo e vamos dar uma espiada no que acontece nas coxias. Em outras palavras, por andam algumas daquelas “forças” que outrora, com sua influência, punham em movimento as engrenagens da vida humana?
A Utopia, hoje, vive debaixo da ponte. Os Ideais, esses foram vistos cheirando cola num semáforo. A Fraternidade, soubemos, trabalha como flanelinha. A Arte se prostitui nos inferninhos mais decadentes das grandes metrópoles, sempre alimentando o vício em heroína, com as faces encovadas, os dentes em petição de miséria, “indo” com qualquer “corajoso”, geralmente algum bêbado maltrapilho que se dispõe a lhe pagar alguns centavos que ainda, por milagre, a mantêm “viva”. A Igualdade vive num manicômio: é pungente a dor de vê-la fazer discursos para as paredes, ter espasmos e delírios cada vez mais intensos. Outro que teve fim para lá de amargar foi o Respeito Pelo Outro, a mesma coisa com sua irmã Abnegação, essa a negação de fato de tudo o que foi um dia, mero espectro de dias passados que é hoje.
Nem falamos da Gentileza, da Civilidade e da Franqueza, pois há limites para a “contemplação” do degradante.
De volta ao palco onde se trava a comédia humana, alguma surpresa com o estado das coisas?
RIFIFI. Direção: Jules Dassin. França, 1955
Eis um filme sobre o qual sempre ouvi falar muito bem. Finalmente, pude vê-lo neste fim de semana. E lhes digo: que filme! Confesso que fiquei preso, quase sem piscar, tal a capacidade dele de nos deixar mesmerizados. Agora sei o que é um roubo cinematográfico!
Conta a história (baseada num romance de Auguste le Breton) de Tony le Stéphanois (JEAN SERVAIS), ex-presidiário, especialista em arrombamento que, junto com outros três comparsas, planeja o assalto a uma joalheria numa Paris dura, cinza e … noir.
Tudo nesse filme funciona espetacularmente bem: a atuação dos atores, o enredo, a caracterização dos personagens e muito mais. A seqüência do roubo, com 33 minutos, é de tirar o fôlego, em que pese o lugar-comum dessa expresão. A cena toda se desenrola sem mostrar nenhum som a não ser o dos assaltantes: nenhum diálogo, sem música, nada que tire o foco da ação, tudo realisticamente certeiro, preciso. O resultado é notabilíssimo: a respiração dos assaltantes nos deixa suspensos. O singelo resvalar em um teclado de um piano que havia na casa sobre a joalheria faz a corda de suspense, que estica no último, ter um veloz movimento: aliviados, respiramos, era apenas um piano… O diretor tem-nos todos na mão. É uma das melhores seqüências que já vi no cinema. No final, quase (ou plenamente) torcemos para que tudo dê certo.
Dizem que a polícia francesa chegou por um curto tempo a proibir a exibição do filme, tal a meticulosidade da cena do roubo, na qual tudo chegava a parecer um guia, ou manual, para os aprendizes de assaltantes!
Mas, então, algo começa a dar errado. O espectador atento consegue captar o índice (na teoria do roteiro, índice é um recurso de narrativa que indica o que pode, ou, no caso, que vai suceder) que há no final da seqüência citada acima…
François Truffaut disse que RIFIFI foi o melhor filme noir que ele já tinha visto. Este humilde blogueiro bissexto, com muito menos filmes vistos, obviamente, que o mestre francês, não é de opinião diferente.
O suspense, o clímax, o desfecho, tudo é tão bem dosado e no ponto que só podemos louvar, divulgar e recomendar esse filme seminal na arte da representação cinematográfica.
Fosse uma obra panfletária para reforçar a premissa de que “o crime não compensa”…
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Há rumores de que RIFIFI será refeito (já estaria sendo?), ainda neste ano, com Al Pacino no papel principal. É aguardar.
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O termo “rififi” é uma gíria na língua francesa e significa algo equivalente a “encrenca”, ”briga”, “desentendimento” etc.
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Ao som de Madeleine Peyroux
ESSE OBSCURO OBJETO DO DESEJO. Direção: Luis Buñuel, França-Espanha, 1977
Acabei de assistir a esse filme (em cujo roteiro houve a parceria com o genial Jean-Claude Carrière) do grande diretor espanhol. Um Cão Andaluz, A Idade do Ouro, O Anjo Exterminador, Diário de uma Camareira e A Bela da Tarde foram outros de seus filmes a que já tive acesso. Esse diretor, que nos dois primeiros, transpôs para o cinema o surrealismo então no auge, haveria de sempre, nas suas obras então futuras, girar em torno da linha temática que tantos tributos pagou à psicanálise e às sondagens psicológicas. Seus filmes sempre têm algo que nos choca, nos surpreende, no bom sentido. Algo que nos desconforta, mas é sempre um desconforto que expõe, muitas vezes, nosso âmago. Assistir a um filme seu sempre é garantia de se deparar com o não-usual, o insólito, aquilo que foge às regras. Em suma: ao surpreendente. O que dizer de um filme narrado pelo personagem principal no qual há duas atrizes diferentes (Carole Bouquet e Angela Molina) a interpretar a mesmíssima personagem, Conchita? O sessentão ricaço e entediado não percebe que elas, na verdade, representam os dois lados de uma mesma personagem e passa a contar (depois de jogar um balde de água em Conchita, que o seguira até a estação de trem) sua tormenta a um pequeno grupo de passageiros da primeira classe de um trem que vai de Sevilha a Paris e nos deixa presos à sua narrativa. E essa não nos conta de algo maravilhoso, não numa primeira leitura.
A história passa então a ser mostrada em flashback.
Em que consiste sua tormenta? Um dia, ele repara na beleza da nova empregada da sua mansão, Conchita. O desejo faz-se presente. Aí temos uma atriz. Vemos o avanço do galenteador endinheirado, a recepção ambígua da jovem a suas investidas, o abandono, por parte dela, do trabalho na mansão, a vida dela com sua mãe empobrecida e finalmente o óbvio: a eventual “compra” da garota, agora outra atriz: dinheiro para a mãe, lá vai a filha ficar com o outrora patrão, hoje um homem atormentado pelo desejo sexual, pela vontade mais que justificável de consumar o ato com aquela que não rejeitava os avanços dele. E as recusas, ah, as recusas dela…
Há que se sublinhar a beleza estonteante das atrizes que interpretam Conchita. Um homem, naquela idade, com uma beldade daquela… Entendemos bem o porquê, o motivo da pressa…
Mas aí que entra o fascinante da história, e sobretudo o pulso firme do diretor. Tudo podia descambar para um ato vulgarmente explícito. Mas não. Conchita, que parece interessada pelo dinheiro de Mathieu (Fernando Rey), o ricaço, nega a ele o que ele tanto quer. A mãe da garota, extremamente religiosa, é a responsável pela recusa, por meio de valores que possam ter sido passados a ela? Mas como? Se Conchita se envolve com assaltantes, vira dançarina, apresenta-se nua em pêlo para estrangeiros em cabarés! Estaria ela a representar o tempo todo? Seria ela uma forma de expiação dos pecados de Mathieu? Qual o motivo por trás de sua recusa, de seu jogo interpretativo?
Aí bate o ponto. O jogo de recusa, de desejo espicaçado, de negação, de estímulo, de negação de novo, de duplicidade, de incentivo, esse ciclo parece infindável. E nesse jogo o personagem de Mathieu pode representar a natureza humana que insiste em desejar o que não pode ser obtido. O que não passa de uma miragem. Que por sua vez “cega” o espírito, joguete da vontade não-satisfeita. O diretor consegue nos deixar suspensos. Ficamos sempre a intuir que depois de uma negação de Conchita haverá, ainda por parte dela, um outro incentivo, seguido de uma nova recusa…
E a alternância das atrizes, sempre a realizar a ação onde a outra havia parado.
Aliás, o fato insólito de duas atrizes bem diferentes, ambas de uma beleza arrebatadora, só mostra muito do grande “barato” que é um filme de Buñuel: sempre a nos apresentar o estranhamento, a exigir de nós uma abertura, uma capacidade de lidar com o inesperado. É como se fôssemos empurrados naquele joguete criado pelas mãos hábeis de um mestre da representação. Ambas estariam a mostrar o quão mínimas são as diferenciações entre aquilo que vem a ser, pela nossa vida afora, nossos diferentes e “obscuros objetos de desejo”?
E seríamos nós, na verdade, os objetos de desejo de nossos desejos? Explico: nessa relação desejo-objeto, não seríamos meramente fantoches nas mãos de nossos desejos (não apenas os sexuais, obviamente) ? Nós que nos declaramos tão racionais, não seríamos na verdade meros objetos de nossos desejos? Até onde nossos desejos (nossas Conchitas) nos possuem (incitando-nos agora, renegando-nos depois, humilhando-nos quase sempre), muito mais do que nós (achamos) possuí-los?
Tudo isso pode parecer muito incoerente, por demais fantasioso, inverossímil. Mas somos assim mesmo. Humanamente falando, somos apenas uma casca. Por dentro, a ebulição de sentimentos e de desejos que nos comandam, que nos controlam, é o que conta na verdade. Ao nos apegarmos de forma excessiva a eles, esquecemos o mundo ao nosso redor e as conseqüências são, muitas vezes, trágicas.
Somos escravos de nossos desejos. Sejam de que natureza for.
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Morre um gigante do jazz
Morreu hoje, aos 83 anos, o lendário baterista de jazz Max Roach. Sua importância no jazz equivale aos grandes: Miles, Coltrane, Dizzy e tantos outros. Com sua morte, mais um titã do jazz vai para o Olimpo, menos remanescentes há daquela fase áurea do ritmo de New Orleans, hoje patrimônio mundial.
Abaixo, o início de um texto de apresentação do artista retirado do site e-jazz. Para quem quiser ler o resto, há no final um link que remete à página original.
Filho de uma cantora de gospel, Maxwell Lemuel Roach começou a tocar bateria aos dez anos e depois estudou na Manhattan School of Music. Aos dezoito anos já tocava no Monroe’s Uptown House (onde era o baterista titular) e no Minton’s Playhouse – vale dizer, estava no lugar certo e na hora certa para tomar parte em um grande acontecimento: o nascimento do bebop. Roach teve a oportunidade de acompanhar quase todos os principais nomes do novo estilo; em particular, nos anos seguintes fartou-se de tocar com Charlie Parker, Dizzy Gillespie, Kenny Clarke e Bud Powell, e participou de inúmeras gravações antológicas na segunda metade dos anos 40. Em 1952, fundou a Debut Records juntamente com Charles Mingus, e em 1953 fez sua primeira sessão de gravação como líder. Em 1954 formou com o trompetista Clifford Brown um quinteto que se tornaria uma referência dentro do hard bop, infelizmente sofrendo um forte baque com a morte prematura de Brown em 1956. (Kenny Dorham então assumiria o lugar de Brown.)
Mais sobre Roach pode-se ler aqui.
30 anos hoje sem o fabuloso "jeca" de East Tupelo, Mississippi, que soube como ninguém captar o "zeitgeist", o espírito de um tempo… por um bom tempo.
Sabem, ele foi meu primeiro ídolo quando já nem mais existia na face da terra. E a gente nunca esquece nosso primeiro ídolo… No dia em que morreu, há exatos trinta anos, eu mal sabia a diferença entre noite e dia… Aos 10 anos, tímido como uma donzela da Idade Média, de maneira surpreendente, eu perdia a vergonha ao “imitá-lo” com uma vassoura na hora do recreio, pernas requebradas, enrolando algo muito remotamente parecido com a língua inglesa numa Tutti Frutti sofrível, para surpresa de alguns, apoio de uns poucos e vaias mais que merecidas da maioria. Influência de uns vizinhos que tinham um tio (o meu próprio também era elvismaníaco, mas não teve o dom de me iniciar na tal arte) doente pelo outrora jeca da provincianíssima localidade de East Tupelo, onde o futuro rei do rock cismava em dirigir seu caminhãozinho e cantar na igreja evangélica até que o destino lhe bateu na porta. Sua vida sempre me fascinou, sua música, com exceção da última fase ultra-brega e piegas, sobretudo.
O texto que segue é de minha autoria e ganhou, há 4 anos, uma competição da Revista Bravo! em parceria com o UOL que consistia em responder o porquê do filho da dona Gladys ser tão importante para a cultura pop.
O que ganhei? Nada mais nada menos que uma caixa com 5 cd´s importados chamada The King of Rock’n'roll: The Complete 50′s Masters.
Eis a tal frase:
Porque soube como ninguém sacar o potencial de vibração e energia rejuvenescedora da música, usando, de forma pioneira, o ritmo e a sonoridade para expressar uma constante do ser humano: a necessidade irreprimível de diversão.
É. Não é nem um primor de genialidade. Mas os caras gostaram. Imagine o nível das outras!!!
Estivesse vivo hoje, aos 72 anos, o que faria ele?
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Ao som de … Tutti Frutti, com o próprio. Ah, memória… Os micos do passado…
Filmes vistos (ou revistos) nas últimas semanas.
A lista é extensa para o período de poucas semanas. E todos as obras aqui foram escolhidas a dedo. Hoje, meu critério para a escolha dos filmes que vejo é baseado numa premissa: filmes em que há o carimbo do autor, sua visão de mundo, sua maneira toda própria de escolher as imagens e, juntando-as, criar uma obra atemporal, universal e que nos coloca frente a questões não apenas intelectuais, mas sobretudo existenciais, morais, artísticas, éticas e, last but not least, de entretenimento, por que não? Mas um entretenimento que não se esgota por si só, que não apele a contorcionismos de enredo nem tampouco faça concessões ao facilmente assimilável, ao raso de significado, ao destituído de camadas de leitura.
A cada dia, aliás, meu conceito de cinema se expande, se dilata: uma vez, bem pouco tempo atrás, eu era obcecado pelo cinema de arte. Hoje, com as retinas mais calejadas, não apenas no sentido temporal do termo, sei (descobri depois de um epifânico aprendizado) que tal conceito, o de cinema de arte, é uma invencionice dos críticos enfadonhos e pedantes, principalmente os mais superficiais que – numa tentativa torpe de fazer com que o cinemão (aquele em que predomina o denotativo, o literal, o fabulosamente competente naquilo a que se propõe: o entretenimento que se esgota em si mesmo) norte-americano, da década de 70 para cá, se impusesse (como de fato se impôs) aos quatro cantos do mundo -, usavam ( e usam ainda) o ”truque” mais ou menos assim: ao se contrapor o tal “cinema de arte” – supostamente complexo, hermético e “chato”, algo para intelectuais pálidos com óculos de aro de tartaruga, os modernosos de todos os quadrantes – com o cinema americano autêntico, aquele que fala às massas, aquele que sai das fornalhas e linhas de produção incansáveis de Hollywood, era como se ali estivesse (como sempre de fato esteve) subentendido um argumento capcioso: consumam nossas películas, elas sim, não as dos asiáticos, latino-americanos e europeus, sobretudo não as os dos franceses, aqueles frescos e esnobes, podem proporcionar a todos uma diversão genuinamente democrática, como tudo oriundo da terra do Tio Sam!Esqueçam aqueles longas parados, sem enredo, nos quais ficamos meia hora sem ouvir uma voz humana, o que se diria de um reles pum! Nós, americanos (e colonizados de todo o planeta) temos de reconhecer: a receita certa, segura e principalmente rentável de se fazer cinema está nas mãos dos conterrâneos de Lincoln…
Hoje, sei que o cinema é uma arte. E independe de fronteiras, nacionalidades, nacionalismos, PIB per capita e outros determinantes. Cinema de arte, aliás, é uma redundância enganadora. Todo cinema é arte. Há a arte do entretenimento, do sublime, do dramático, do grotesco, do suspense etc… Tudo muito óbvio? Pode ser. Mas o cinema que me atrai, pelo qual tenho grande interesse, e sobre o qual tenho muitíssimo a aprender (os anos vindouros vão ser úteis para isso!), é aquele que expressa a visão de um autor. É o cinema autoral. É aquele cujo roteiro cativa, cuja linha temática se prolonga e dá margem a temas os mais universais e atemporais. Nada contra os “blockbusters“. Nada contra quem os assiste, os admira, os consome. Mas para este humilde escriba, o que conta mesmo são as filigranas, os ecos, as entrelinhas, as ressonâncias infinitas de que são “grávidas” as imagens. É esse potencial inventivo que me fascina. É nesse cinema que ainda engatinho. E que pretendo continuar o fazendo por muito tempo.
Aos Cinemark da vida irei pela pipoca e pelo conforto, por que não? E para namorar um pouco, pois ninguém é de ferro…
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Abaixo, eis a lista (primeiro, os últimos vistos) dos filmes que vi nestas semanas em que fiquei sem escrever aqui. E que me fizeram (e continuarão a fazer) pensar um bocado. E cujas imagens foram fixadas por aquela câmera subjetiva, a autêntica, que todos trazemos conosco.
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Aliás, é bom estar de volta … até a próxima sumida… Mas não poderia terminar sem antes agradecer a todos àqueles (e àquelas) que impediram, com seus comentários, que este blog partisse desta para melhor.
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Ao som de Gustav Mahler
3. Teorema– Pier Paolo Pasolini
4. Janela Indiscreta (revisto)– Alfred Hitchcock
5. O Grande Golpe – Stanley Kubrick
6. A Grande Ilusão – Jean Renoir
7. Noite e Neblina – Alain Resnais
(O melhor documentário sobre os campos de concentração nazistas de todos os tempos).
8. Sonata de Outono – Ingmar Bergman
9. Sonhos de Mulheres – Ingmar Bergman
10. A General – Buster Keaton
11. Assim Caminha a Humanidade – George Stevens
12. Paris, Texas – Wim Wenders
13. A Primeira Noite de Tranqüilidade – Valerio Zurlini
14. Uma Rua Chamada Pecado – Elia Kazan
15. A Queda da Casa de Usher – Jean Epstein
16. Spellbound – Quando Fala o Coração – Alfred Hitchcock
O velho Hitch faz uma incursão pela psicanálise e de quebra recebe uma mãozinha do mestre do surrealismo Salvador Dalí numa cena antológica.
17. Crepúsculo dos Deuses – Billy Wilder

18. As Damas do Bois de Boulogne – Robert Bresson
19. O Tiro no Pianista – François Truffaut
20.Rebecca – Alfred Hitchcock
21.Hamlet (revisto)– Laurence Olivier
Jules e Jim (revisto)– François Truffaut
Acossado (revisto)– Jean-Luc Godard
No dia mais luminoso do ano no hemisfério norte…
“Antonioni morreu num dia de lua cheia de julho, o mais luminoso do ano, com a lua mais pura. É um mistério que dois grandes do cinema tenham ido para sempre no mesmo dia.”
Enrica Fico, viúva de Michelangelo Antonioni, hoje na Folha
De Glauber Rocha sobre Antonioni
“No século 19, Michelangelo seria filósofo como Hegel e talvez tivesse a mesma importância para o mundo de então como teve o filósofo. Hoje, substituindo a linguagem escrita pela imagem & som, Michelangelo usa o cinema como instrumento de especulação ao mesmo tempo em que funda, no filme, o estilo de sua moral”.
Duplo adeus marca fim de era

De Cássio Starling Carlos, na Ilustrada de hoje.
Uma segunda-feira que registra a desaparição de Ingmar Bergman e de Michelangelo Antonioni não é um dia de luto apenas para os cinéfilos. A morte sucessiva destes dois gigantes marca também o fim de um tempo, especificamente o século 20, mas não de seus problemas.
Oriundos de uma mesma geração e alçados à cena pública quase simultaneamente, os dois diretores conseguiram juntos levar ao cinema a transformação pela qual passava o homem ocidental depois da barbárie da Segunda Guerra.
Bergman o fez através das subjetividades. Antonioni escolheu a objetividade.
Assinante da Folha ou do UOL pode ler a íntegra do artigo clicando aqui.
Isso é Antonioni (1912-2007). E a repercussão de sua morte

“No vazio, nos espaços silenciosos do mundo, ele encontrou metáforas que iluminam os lugares silenciosos de nossos corações e descobriu neles uma estranha e terrível beleza”.
Jack Nicholson
ARNALDO JABOR, em artigo na Ilustrada de 9/08/1994
“Ele é uma espécie de Albert Camus do cinema. Como ele, Antonioni teve uma revolta contra o real. Não se conformou com as convenções de Hollywood que determinavam o ritmo de nossas vidas. (…)Antonioni nos libertou de um mecanismo de defesa contra a morte, que o ritmo dos americanos inventou. A morte fica nua em Antonioni, o mistério, o suspense, o desaparecimento das pistas, a falta de motivo para a tragédia.”
DOMINGOS OLIVEIRA, cineasta português
“O Michelangelo [Antonioni] foi o grande poeta do tédio. Ele é parte de uma geração que trouxe para a discussão cotidiana temas que não pertenciam a ela, dados culturais que mudaram as pessoas. Ele trouxe para a minha geração o tema da náusea, do tédio, foi muito importante. Era um cineasta de uma humanidade candente. É interessante observar que esses grandes cineastas estão morrendo tarde, o que parece mostrar que o bom caráter e a honestidade intelectual rendem frutos.”
THEO ANGELOPULOS, cineasta grego
“[A morte de Antonioni e Bergman] é algo simbólico. Ambos haviam alcançado a plenitude em sua vida e em suas obras.”
JÚLIO BRESSANE, cineasta
Eu estive com ele algumas vezes, inclusive recebi-o em casa aqui no Brasil, fiz um filme chamado “Antonioni e Hitchcock – A Imagem em Fuga” e mostrei a ele. Estou bastante chateado. “Crônica de um Amor” (1950) e, principalmente, “A Dama sem Camélias” (1953) já antecipavam todo o cinema moderno. Foi um dos cineastas mais estudados e admirados da história, mas, apesar do esforço e de algumas tiradas de gênio, infelizmente deixou pouca influência no cinema de hoje, que teve uma queda grande de substância, vive submetido a uma grande tirania. É um dia de luto para o cinema.
CARLOS REICHENBACH, cineasta
“O cinema moderno perde um dos seus ícones, uma das figuras essenciais da modernidade no cinema. O cinema mundial, o cinema como arte moderna, dá um salto fenomenal com o olhar do Antonioni. Não quero atrair o olhar da dona Fatalidade, mas agora, depois das mortes de Bergman e de Antonioni, só sobrou o Godard entre os grandes do cinema moderno. Que tenha muitos anos de vida. E não me ligue amanhã para dar outra notícia desse tipo, pelo amor de Deus.”

