ESSE OBSCURO OBJETO DO DESEJO. Direção: Luis Buñuel, França-Espanha, 1977

  
 
 
 
 
 

   Acabei de assistir a esse filme (em cujo roteiro houve a parceria com o genial Jean-Claude Carrière) do grande diretor espanhol. Um Cão Andaluz, A Idade do Ouro, O Anjo Exterminador, Diário de uma Camareira e A Bela da Tarde foram outros de seus filmes a que já tive acesso. Esse diretor, que nos dois primeiros, transpôs para o cinema o surrealismo então no auge, haveria de sempre, nas suas obras então futuras, girar em torno da linha temática que tantos tributos pagou à psicanálise e às sondagens psicológicas. Seus filmes sempre têm algo que nos choca, nos surpreende, no bom sentido. Algo que nos desconforta, mas é sempre um desconforto que expõe, muitas vezes, nosso âmago. Assistir a um filme seu sempre é garantia de se deparar com o não-usual, o insólito, aquilo que foge às regras. Em suma: ao surpreendente. O que dizer de um filme narrado pelo personagem principal no qual há duas atrizes diferentes (Carole Bouquet e Angela Molina) a interpretar a mesmíssima personagem, Conchita? O sessentão ricaço e entediado não percebe que elas, na verdade, representam os dois lados de uma mesma personagem e passa a contar (depois de jogar um balde de água em Conchita, que o seguira até a estação de trem) sua tormenta a um pequeno grupo de passageiros da primeira classe de um trem que vai de Sevilha a Paris e nos deixa presos à sua narrativa. E essa não nos conta de algo maravilhoso, não numa primeira leitura. 

  A história passa então a ser mostrada em flashback.

  Em que consiste sua tormenta? Um dia, ele repara na beleza da nova empregada da sua mansão, Conchita. O desejo faz-se presente. Aí temos uma atriz. Vemos o avanço do galenteador endinheirado, a recepção ambígua da jovem a suas investidas, o abandono, por parte dela, do trabalho na mansão, a vida dela com sua mãe empobrecida e finalmente o óbvio: a eventual “compra” da garota, agora outra atriz: dinheiro para a mãe, lá vai a filha ficar com o outrora patrão, hoje um homem atormentado pelo desejo sexual, pela vontade mais que justificável de consumar o ato com aquela que não rejeitava os avanços dele. E as recusas, ah, as recusas dela…

Há que se sublinhar a beleza estonteante das atrizes que interpretam Conchita. Um homem, naquela idade, com uma beldade daquela… Entendemos bem o porquê, o motivo da pressa…

  Mas aí que entra o fascinante da história, e sobretudo o pulso firme do diretor. Tudo podia descambar para um ato vulgarmente explícito. Mas não. Conchita, que parece interessada pelo dinheiro de Mathieu (Fernando Rey), o ricaço, nega a ele o que ele tanto quer. A mãe da garota, extremamente religiosa, é a responsável pela recusa, por meio de valores que possam ter sido passados a ela? Mas como? Se Conchita se envolve com assaltantes, vira dançarina, apresenta-se nua em pêlo para estrangeiros em cabarés! Estaria ela a representar o tempo todo? Seria ela uma forma de expiação dos pecados de Mathieu? Qual o motivo por trás de sua recusa, de seu jogo interpretativo?  

  Aí bate o ponto. O jogo de recusa, de desejo espicaçado, de negação, de estímulo, de negação de novo, de duplicidade, de incentivo, esse ciclo parece infindável. E nesse jogo o personagem de Mathieu pode representar a natureza humana que insiste em desejar o que não pode ser obtido. O que não passa de uma miragem. Que por sua vez “cega” o espírito, joguete da vontade não-satisfeita. O diretor consegue nos deixar suspensos. Ficamos sempre a intuir que depois de uma negação de Conchita haverá, ainda por parte dela, um outro incentivo, seguido de uma nova recusa…

  E a alternância das atrizes, sempre a realizar a ação onde a outra havia parado.

  Aliás, o fato insólito de duas atrizes bem diferentes, ambas de uma beleza arrebatadora,  só mostra muito do grande “barato” que é um filme de Buñuel: sempre a nos apresentar o estranhamento, a exigir de nós uma abertura, uma capacidade de lidar com o inesperado. É como se fôssemos empurrados naquele joguete criado pelas mãos hábeis de um mestre da representação. Ambas estariam a mostrar o quão mínimas são as diferenciações entre aquilo que vem a ser, pela nossa vida afora, nossos diferentes e “obscuros objetos de desejo”?

  E seríamos nós, na verdade, os objetos de desejo de nossos desejos? Explico: nessa relação desejo-objeto, não seríamos meramente fantoches nas mãos de nossos desejos (não apenas os sexuais, obviamente) ? Nós que nos declaramos tão racionais, não seríamos na verdade meros objetos de nossos desejos? Até onde nossos desejos (nossas Conchitas) nos possuem (incitando-nos agora, renegando-nos depois, humilhando-nos quase sempre), muito mais do que nós (achamos) possuí-los?

 

  Tudo isso pode parecer muito incoerente, por demais fantasioso, inverossímil. Mas somos assim mesmo. Humanamente falando, somos apenas uma casca. Por dentro, a ebulição de sentimentos e de desejos que nos comandam, que nos controlam, é o que conta na verdade. Ao nos apegarmos de forma excessiva a eles, esquecemos o mundo ao nosso redor e as conseqüências são, muitas vezes, trágicas.

  Somos escravos de nossos desejos. Sejam de que natureza for.

 

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3 thoughts on “ESSE OBSCURO OBJETO DO DESEJO. Direção: Luis Buñuel, França-Espanha, 1977

  1. Esse filme é realmente uma obra de arte. Sedutor. Fala da sedução e seduz, sugere um erotismo sutil e poético, um encanto de narrativa.

    Seu ensaio ficou lindo, parabéns.

    Indicaria outro filme dele para eu assistir?

    obrigado
    Rodrigo Araujo

  2. Olá, caro Rodrigo, xará de sobrenome!

    Muito obrigado pela visita e pela participação aqui. De fato, disseste tudo: tal filme nos encanta enquanto narrativa e naquilo que nos move: nossos desejos recônditos.

    Obrigado pelas gentis palavras.

    Na seção CINEMA ao lado direito, você pode encontrar algumas indicações de bons filmes. Filmes que propõem algo, como verá.

    Um grande abraço e conto com sua inteligência e atenção.

    Elienai Araújo

  3. Desejos

    Desejos são divinos,
    mundanos,
    impetuosos,
    demasiado humanos…

    Desconstroem ideias
    viciadas em tédio,
    em dias mornos
    em saliva insípida.

    Relativizam o tempo.
    Os olhares fugazes,
    se revelam ferozes.
    Feras enjauladas.
    Feridas insistentes
    de impulsos impensados.
    Redundantes como um círculo.
    Que se fecha no fim,
    mas é sempre início.

    A fome que não vê
    o fruto.
    Que padece de dúvidas.
    Mas quando se realiza,
    transborda de surpresas:
    como presentes inesperados,
    como beijos roubados…

    Desejos tremem
    de eletricidade estática.
    Faíscam em cascata…
    Conduzem vontades
    em fluxo pulsante.
    Não negam o perigo.
    Devoram o risco
    vermelho e quente
    saltando nas veias,
    nos veios adocicados,
    nas vias de fato…
    Na carne suculenta
    de um banquete etéreo.

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