À Paula R., que contribuiu com o tema
Dizem que Simão Boaventura era a pessoa mais reticente deste mundo. E de outros, se existissem. Tudo o que ele fazia seria o exemplo acabado daquilo que chamamos de incompleto, vago, errante, incerto, vacilante, inconstante e hesitante. Supostamente dissimulado e indecifrável, ele agiria sempre pela metade, fosse por astúcia, por preguiça ou por superficialidade. Ou seria tudo apenas uma questão de índole. Torta, mas índole. Que seja: a definição própria de suas atitudes seria exatamente aquilo que o caracterizaria: a imprecisão. A indefinição o definiria?
Supostamente sem contornos precisos ou fronteiras delimitadas, o mínimo que fossem, Simão Boaventura não parecia nem um pouco (ou fingiria tão bem?) incomodado por dar tal impressão… reticente. Seria como se as reticências fossem sua bandeira, seu código particular de conduta.
Era um homem de idade incerta quando fiquei sabendo de sua existência no mundo. Funcionário público apagado (o que em seu caso poderia ser visto como uma faceta de sua personalidade ambígua), excessivamente apegado à rotina, solteiro, sem amigos nem tampouco vida social. Ele simplesmente se deixava ir no ritmo da correnteza, resignado e ensurdecedoramente taciturno.
No trabalho, como eu mesmo presenciei, era de uma discrição que o deixava quase invisível. Ali, só pela rotina, todos intuíamos que ele era, tinha sido e inexoravelmente seria ainda por longos anos daquele jeito: a personificação do que é (por excesso de discrição e pela recusa de se envolver com os outros) ser notado apenas na ausência, como uma peça de decoração que há anos fica em um dado lugar numa espécie de invisibilidade visível e só quando é removida é notada.
Seu passado era uma incógnita. O máximo de informações: seria solteiro e teria vindo de uma distante cidade há muitos anos, moraria só e viveria para ele mesmo.
Nas festas da repartição ele jamais aparecia, do que sou testemunha. Disso também dou fé: no término do expediente ele tinha a capacidade de desaparecer de um segundo para o outro. Num piscar-de-olhos, ele se desintegrava no ar. No restaurante ele sempre se sentava a uma mesa de apenas um lugar, virado para a janela. Tudo estrategicamente concebido, supostamente, para evitar abordagens para ele odiosas e outros aborrecimentos.
Ninguém jamais arrancara mais que uma dúzia de suas palavras. Descobrir o que pensava de algo era menos fácil do que saber da localização exata do Santo Graal ou do que se passou na cabeça do último imperador romano em seu derradeiro segundo de vida.
De manhã, descia do carro religiosamente com jornais sob o braço, como há anos fazia. De sua boca saía algo muito remotamente parecido com um bom dia, ou coisa do tipo.
Vivendo assim, rotineira e reticentemente, o tempo foi-lhe corroendo a vida, tornando-a pálida, extinguindo-lhe o viço e por fim a levando de vez. Ano passado, vim a saber que ele havia morrido de uma doença misteriosa (foi logo depois que saí daquele emprego). Mas a morte (embora para alguns seja o que de mais envolto em brumas de incerteza exista na âmbito das experiências humanas ) não foi nada dissimulada e desde logo foi bem clara e transparente em suas intenções: dizem que em pouco tempo levou Simão Boaventura, o reticente, para a “terra desconhecida de cujo âmbito jamais ninguém voltou”, nas palavras de outro reticente, mas muito mais célebre: Hamlet.
A partir daí, Simão ganhou vida. Ao menos, por um tempo, no cantinho do café da repartição em que havia trabalhado de forma quase invisível tantos anos. Todos o comentavam!
Dizem que seu corpo foi (teria sido?) levado para sua distante cidade de origem e enterrado numa majestosa sepultura e em cuja lápide poderia (pode?) ser lido:
AQUI JAZ
SIMÃO ALBUZ BOAVENTURA 1935-2006
… sem necessidade de vínculos … independência … como
sempre quis…curiosos e bisbilhoteiros… uma bana… descansa … eternidade …
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Ao som de Oscar Peterson e Itzhak Perlman, Blue Skies