Esclarecimento oportuno.

  Subidas em árvores? (Ver texto abaixo). Esse cara pirou?

  Não, ainda não. Foi uma liberdade da imaginação. Claro. Mas se me der na telha até que eu subo, viu? Seria uma forma metafórica de escalar uma torre de marfim? Um ato de desapego aos valores da sociedade voltada ao capital? Uma forma simbólica de ascensão espiritual? Ou apenas e tão-somente a degradação psíquica do “eu”?

  Vai saber.

  Mas antes vou ter que aprender a fazê-lo.

  Enquanto isso, estou revendo hoje a Trilogia da Incomunicabilidade (A Aventura, A Noite e O Eclipse), do Antonioni.

  Tem algo melhor? Uma chuvinha lá fora e um filme (ou melhor: três) na intimidade de casa? I don´t think so

  E até fiz uma pipoca. Cinemark uma ova!

  Até mais!

Botando o pé na estrada e fugindo da civilização carnavalescamente bestial.

  Estou saindo amanhã de viagem. Passarei uma semana no sítio da minha querida vovó em Embu-Guaçu. Estarei entre muito verde, animaizinhos mimosos (dizem que há jaguatiricas à espreita por lá), partidas de futebol em chão de terra batida, subidas em árvores (e vou fazer que nem aquele tio birutão, personagem do Amarcord, do Fellini, e gritar lá de cima a plenos pulmões: “Voglio una donna!”), pescarias, entre outras atividades das quais cresci tão distante. Mas levarei algo:

 

  • as revistas piauí (sim, com minúscula) e Cult deste mês;

 

  • um mp3-player abarrotado de Haydn, Bach, Charlie Parker, Thelonious Monk, Radiohead, Chet Baker, Billie Holiday, Schumann, Echo & The Bunnymen, Vivaldi, etc e etc e etc aos montes e …

 

  • a vontade louca de fugir de desfiles de escola de samba, cuícas e tudo que me lembre Carnaval.

 

  A quem fica, um abraço e bom feriado.

  Prometo voltar renovado. Pretendo, vejam bem.

  So long!

 

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Ao som de Echo & the Bunnymen, Pictures on my wall

 

“O Nietzsche tá toda hora impedido, o Sócrates só fica na banheira, o Platão não sabe outra coisa a não ser dar carrinho e o Heidegger só catimba. Pô, seu Confúcio, o senhor que é o juíz, dá um jeito aí, meu! Esse jogo tá muito amarrado”.

    Nunca houve uma partida de futebol como essa. Não com tantos craques com idéias na cabeça em vez de vento. De um lado, os filósofos gregos, de outro, os alemães. Do embate entre os nobres jogadores helênicos e os teutônicos, o que sairia? Veja este vídeo e confira.

   É obra dos mais loucos e inteligentes humoristas da Inglaterra, e do mundo, claro: a célebre trupe conhecida como Monty Phyton:

   Cada vez que vejo este vídeo dou minhas sonoras gargalhadas. Hilário é pouco.

A jornada existencial no cinema de Antonioni.

    

     

Comecei minha retrô particular de Michelangelo Antonioni com O Grito (Il Grido, 1957), obra que seguiu As Amigas, e que continua seu afastamento da temática neo-realista e parte para um cinema de cunho mais filosófico e intimista.

   

 

 

      Um homem (Aldo, na interpretação competente de Steve Cochran) e uma garota (Mina Girardi) lançados num mundo hostil, numa região paupérrima da Itália dos anos 50. Ele, em busca da estabilidade emocional, acaba de sair de um relacionamento com uma mulher cujo marido havia sete anos estava ausente, na guerra, e que acaba de morrer. Aldo sai pelo mundo, destituído de tudo, a não ser da necessidade de recomeçar. Encontra outras mulheres, com nenhuma é bem-sucedido. A estória (sim, adoto este termo, que se refere à vida de personagens fictícios, em contraposição à palavra ”história”, o registro histórico, mais precisamente) de um amor destruído, fadado a nunca mais renascer. Dizem que o cinema de Antonioni dessa época, logo antes da Trilogia da Incomunicabilidade, deve muito à filosofia de Sartre, ao existencialismo.

    E de fato tem. Ao se lançar ao mundo, ao construir sua história, Aldo se constitui como ser, obtém materialização, torna-se alguém, ainda que destituído de bens materiais, claro. Sua existência precedendo sua essência. Ele se fazendo enquanto faz sua rota, traça seu caminho.

 

    E não é essa uma das nossas grandes buscas? Seja a busca desenfreada pela estabilidade emocional, seja pela busca de status, digamos, seja pelo domínio de uma arte, seja qual for aquela que almejamos, é ao buscá-la, é ao lançarmo-nos a ela (mesmo que não sejamos bem-sucedidos, e na maioria das vezes não somos mesmo), e só então, que passamos a ter um “rosto”, a sermos únicos.

    Um belo filme. Uma bela estória. Aquelas paisagens de neblina melancólica (olha o expressionismo aí) da região do Pó, na Itália, tudo acentuado pela fotografia em preto-e-branco. O desalento sob a ótica de um artista sensível, profundo e cujo cinema está aí para quem quiser (e ter mente aberta para tal) desfrutar. E como são belíssimas as mulheres (Alida Valli, Dorian Gray, Lyn Shaw, Gabriella Pallotti) de Antonioni! Uma narrativa de jornada. Áspera como o clima daquela região. Condizente com o fim nada happy a dar uma dimensão mais do que filosófica ao filme.

 

    O mestre italiano dizia (e sabemos também) que não importavam as diferenças sociais: o leque de sofrimentos humanos é um só. As carências emocionais (aquilo de que nos padecemos num nível mais profundo) nos unem muito mais do que nos separam. E apenas a Arte nos proporciona esse lampejo de entendimento.

 

 

Sobre a incoerência das nossas ações (Título em homenagem a Montaigne).

                        

  Todo ser humano é compreensivelmente “incoerente”. Por quê? Porque as circunstâncias mudam, oras. E com elas, mudamos nós.

  Eu sou ser humano (sou?).

  Logo, sou incoerente.

  Traduzindo: voltei ao Orkut e podem rir à vontade. Eu agüento a gozação. Mas assumo a incoerência, hehe. Saí de lá no ano passado, fiz um post (descendo a marreta) aqui sobre o caráter supostamente debilóide do site, dia desses mesmo comentei (não poupando nas mesmas marretadas) algo sobre o Little Blue Planet… Mas, todavia, contudo, no entanto… Estou lá. Claro que isso não vai alterar em nada a rota da Terra, o movimento das marés, a cotação do dólar, as eleições americanas, etc,  mas… rezam os bons modos que a gente assuma as próprias incoerências.

  E se não tivesse saído, faria agora quase 4 anos lá. Mas as circunstâncias, sempre elas!

  Agora é hora de procurar amigos antigos.

  E não se fala mais nisso.

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Ao som de Raul Seixas, Metamorfose Ambulante

 

Este blog traz em primeira mão um pequeno texto-base de uma seita milenar recém-descoberta.

                      

  Tudo leva em si a chancela do provisório. Tudo é por demais contingentemente precário. Tantas são nossas sempre repetidas juras de apego a vãs decisões que mudam ao sabor dos ventos e tufões do Incerto! O caráter lastimável do destino humano, a incerteza dos nossos juízos, a vulnerabilidade que assume todos os matizes. As infinitas possibilidades do Inesperado. Os mil braços do Imponderável. Nossa capacidade de reação a esses dois carrascos sendo inversamente proporcional ao oceano de contingências à espreita… Tudo isso, amados Irmãos, são outros motivos para que prestemos nossa mais profunda adoração ao deus Hogmu, Senhor das Certezas, mestre absoluto do Previsível. Submetidos a Sua grande Sapiência e Magnanimidade, poderemos, apenas assim, nos resguardar do monstro da precariedade: o Incerto. Arrependemo-nos e contritos ajoelhemos para que Hogmu nos proteja a todos. Para que seu manto onipresente nos coloque fora do reino do Precário. Pois nada dentro do âmbito do humano está à altura de Sua potência, nossa Santide Hogmu! Nada!

        Queridos hogmunistas, como não sabemos o dia de amanhã, jamais vos esqueçais de continuar contribuindo com vossos dízimos tão sempre bem-vindos.

        Que Hogmu esteja convosco.

       

O Abismo das Ilusões Perdidas.

                       

    De frente para aquela paisagem por demais refratária a qualquer tipo de pensamentos bucólicos, sentindo que seu momento chegara, que daquela atitude que ele estava prestes a realizar tudo o mais dependeria, ele sentiu medo. O medo de que suas utopias pessoais e particulares fossem destroçadas pela mais brutal realidade. De que sua concha existencial fosse rompida. De que o lacre ao redor do qual estabelecera suas metas, suas expectativas mais caras e suas quimeras durante tanto tempo acalentadas, tudo isso fosse invevitavelmente estilhaçado pela potência de milhares de megatons do real incontornável. Do Grande Real. Suas idéias já não se juntavam de forma coerente. Seu corpo somatizava todos seus receios agora expostos, agora fortalecidos, agora no paroxismo da força. Sua mente se apegara às incertezas, ao frágil, ao sem viço. Não tinha como voltar. Para onde olhasse, para onde fugisse, os tentáculos do Inevitável, do Real, iriam lhe alcançar. Fechou os olhos. Vencido, deu o passo decisivo e mergulhou no Abismo das Ilusões Perdidas.

O nonsense que faz rir.

 

 

The Lesser Kiki

“It attaches itself to a banana tree and waits for a human/animal to pluck and eat one of the bananas on its back. When this happens, the creature’s energy is drained away for the rest of the day and cannot move. And another two bananas grow on its back.”

 

        Concorrente: Sam Connelly

 

 

Esta mimosa e fofa criatura aí em cima é a vencedora do concurso de monstros do GUARDIAN, jornal britânico. Puro nonsense, claro. Mas muito divertido. Quem quiser ver outras figuras e rir muito, é só se cadastrar gratuitamente e aproveitar outras matérias interessantes da versão impressa do jornal londrino.

 

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E esta é segunda.

Se a mania pega por aqui, teríamos material de sobra. E não valeria fazer uma com a cara do Chávez!

 

Arborial Hogjacker

“The lamp-like eyes have adapted for seeing their prey. Like those on a squirrel, his long claws enable him to climb rapidly up trees. Hogjackers stalk and devour hedgehogs then wear their spiney coats for protection. He has a rat tail for extra balance.”

          Concorrente: Harriet Parker

Roteiro para um curta muito curta. Exercício de um aprendiz de roteirista.

 

 

       Bem, tenho me interessado há algum tempo por roteiro de cinema e, movido por uma imensa curiosidade, lido muito sobre o assunto. A partir do momento em que me embrenhei na matéria, nunca mais vi um filme da mesma forma. A arte do roteirista, essa criatura tão desprezada pelo grande público, é de fato difícil. Imaginar e tecer “estórias”, criar personagens (falo também do metiê de escritor de forma geral) é algo árduo, que exige muita dedicação. Apenas os teimosos sobrevivem.

       O texto que segue é apenas um exercício despretensioso. Na verdade, é um “projeto de projeto” de roteiro. Depois de me munir de informações teóricas (o que não faz de ninguém, necessariamente, um mestre a priori), e com a certeza de que tenho um longuíssimo caminho pela frente, começo, enfim, a pôr as mãos na massa, ou melhor, a castigar o teclado.

       O tema do que se verá a seguir é o do mundo sem volta das palavras.  De repente, elas  nos levam a lugares inesperados. Nossas palavras mais impensadas podem desencadear muitas conseqüências surpreendentes. Elas, as palavras, então, nos traem, nos desnudam, nos delatam. Muitas vezes, nossas intenções ficam num plano profundo de nós mesmos, como que escamoteadas e em estado de potência. Basta uma fagulha para disparar as reações (em forma de palavras torrenciais, que simplesmente vêm do mais profundo de nós mesmos) mais tresloucadas, ou até mesmo as mais corretas, por que não?

       O “exercício” em forma de um roteiro para um curta-metragem ultra-curto, digamos, quis condensar e limitar a ação das personagens no plano das palavras. O foco do jogo dramático, do conflito em si, portanto, foi nas palavras-ações (que aumentam numa intensidade que delineia o descompasso interior que cada um sente, bem como a degradação de um sentimento supostamente terno de outrora) trocadas entre dois seres que viveram à beira do abismo e não “sabiam”.

       Ao final, abrupto que é, pode-se ter a sensação de gratuidade de tudo isso. Mas nas entrelinhas, talvez, esteja a resposta.

                      

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                             PALAVRAS: CÉU, INFERNO.

              (“Se era, foi“. Lorena, personagem)

 

              CENA 1. QUARTO DE CASAL.INTERIOR. NOITE.

 Interessa-nos um casal à vontade. Ele, sentado à mesa, distraído com um laptop. Ela, sentada à penteadeira, escova os cabelos longos. O som toca What a wonderful world, de Louis Armstrong. Ela disfarçadamente olha para ele pelo espelho. Quer dizer alguma coisa. Ele mal pisca, tão absorto está. Ela se move no banquinho. Pigarreia. Mexe nos cabelos.

 

              LORENA – (Terna, mas firme, o vendo pelo espelho) Túlio, coração, quando você ouvir essa música, promete se lembrar de  mim, para todo o sempre? Ah, amor, gosto tanto dela. Algo tão profundo. Cada vez que ouço vejo um clipe passando na minha cabeça. (Olha para o vazio, sonhadora) Não vai rir, tá? Árabes e israelenses se abraçando, inimigos de todo os tipos também, gente de todos os credos irmanados numa só corrente do bem, uma coisa arrepiante! (Passando as mãos pelos braços). Ui! Ah, Tulinho, promete se lembrar da sua Lorena?

              TÚLIO - (Distraído, mecanicamente) Ahã.

              LORENA – (Levemente impaciente) Eu estou falando com você, amore!

              TÚLIO – (Condescendente, sem parar de digitar) Sim. Vou me lembrar. Prometo.

              LORENA – Promete o quê?

              TÚLIO – Hã?

              LORENA – O que você promete?

              TÚLIO – (Pela primeira vez tira os olhos da tela. Encarando Lorena, no espelho) Prometo que lembro. Quer dizer: acho. Posso tentar.

              LORENA – (Com ênfase, fazendo-se séria) Como é que é?

              TÚLIO – (Tira os óculos. Espreguiça-se. Esfrega o rosto. Suspira) Isso não se promete, Lô. Quer dizer, nem sempre. É um lance complicado. Entende?

              LORENA – (De bate-pronto. Vira-se. O encara) Não entendo! Quer me fazer o favor de me explicar, Túlio Marcos?

              TÚLIO – (Em tom professoral e blasé) Lô, a memória é algo que não tá bem no âmbito daquelas coisas que a gente controla, tipo um programinha de computador. “Ah, memória, associa essa música com a minha querida amada! Agora, tô mandando!” Não é assim, tem que ter um link, saca? Tipo assim: tem que vir por si, aflorar, papum.

              LORENA (Ofendida. Mal conseguindo articular as palavras) Saquei. (Irônica) Tudinho. Captei legal, claro, lógico!

              TÚLIO (Continua a explicação, sem se importar com o que ela diz). Num tá dentro do âmbito da volição. Ou seja: você lembra ou não lembra. Não depende da vontade. Tem que ter um gatilho mnemônico. (Percebe a cara de paisagem dela) Ah, uma palavra ligada à memória. É algo que tá mais ligado à intensidade das vivências. Se for uma coisa que a gente vivencia com intensidade, com aquele sentimento de que aquilo bate, esbofeteia a gente, entende?, sem isso não rola. Fica algo falso. Uma fachada. Se eu quisesse…

              LORENA (A ponto de explodir) Se você quisesse…

              TÚLIO – … se eu quisesse associar essa música contigo não conseguiria. Tem que ser forte, o elo entre a música e você. A gente tem que ter uma ligação pra lá de forte. Não pode ser uma coisa superficial.

              LORENA (Muito séria) Deixa ver se eu entendi. Todo esse palavreado pra dizer que se não tiver uma coisa forte, necas? É isso?

              TÚLIO – Exatamente! A gente tem que ter um envolvimento.

              LORENA (Riso irônico, alterando a voz) Tem que ter envolvimento! (Irritada) Tamos juntos fez dois anos semana passada, você por acaso lembra disso?

              TÚLIO - Claro! O que uma coisa tem a ver com a outra?

              LORENA (No cúmulo da revolta) O que tem a ver, Túlio Marcos de Andrade, o que tem?

              TÚLIO – Não foi outra minha pergunta, Lô.

              LORENA (Prendendo mecanicamente o cabelo num coque) Você tem a dimensão exata do que você acaba de me dizer?

              TÚLIO – (Friamente. Voltando a mexer no laptop) É óbvio.

              LORENA – Você morreu pela boca, se entregou: caiu sua máscara. Quer dizer então que a gente nunca viveu nada com intensidade, nesse tempo todo, é isso? Me diga!

              TÚLIO – (Voltando-se para ela. Visivelmente se irritando) Eu não disse nesse tempo todo, Lô. Eu tava falando da música. Pra lembrar de você ela tinha que estar associada a um momento único, forte, intenso. E assim me remetesse a você, entende?

              LORENA- Nem quero! (Com o rosto já alterado pela cólera) Não quero mais entender merda nenhuma! Pra você então a gente aqui, nesse quarto, vivendo nossa vidinha, ouvindo música, depois do amor que a gente fez, tudo num clima ótimo, tudo isso não é suficientemente intenso pra você? (Indignada) Como você é frio! Fingidor! Falso! Mentiroso! Você não tem nem nunca teve estima por mim, Túlio! Nunca! (Desesperada, aumentando a voz) Bem que me avisaram! Teu passado de galinha, teu caso com aquela biscate daquela francesa.

              TÚLIO – Você não entendeu nada, Lorena, porra! Você distorceu o que eu disse!

              LORENA – A culpa é minha agora, claro! A bestona aqui sonhando alto, se dedicando pra você, e você um mentiroso de marca maior, um ator, isso sim! Eu fui uma otária! Tudo se revelou, tudinho! E quer saber mais? Eu tô indo pra casa da Alana agora! Você que fique aí. (Escandindo bem as palavras) Tá tudo acabado, Túlio Marcos, tudinho! Você estragou uma coisa que parecia linda, construída em dois anos! Tijolo por tijolo. Em menos de um minuto pôs tudo a perder!

              TÚLIO – (O olhar lançando chispas. Toma coragem) Disse tudo: parecia! Eu também me enchi de você. Pronto! Foda-se! Dessa sua mania de querer saber de tudo, de querer controlar meus sentimentos, de me exibir para seus amigos, eu, “o designer bem-sucedido. Gente, esse é meu amor, Túlio Marcos de Andrade!” Me enchi, Lorena, de você ficar me mostrando como um trófeu, um cachorrinho de estimação, de ficar controlando o que visto, vejo, como, bebo! Até as batidas do meu coração é bem capaz de você querer controlar. Falei de uma coisa específica, por causa de uma pieguice da sua parte, uma baboseira enorme. Desde quando a gente pode querer controlar o que a gente lembra ou deixa de lembrar, isso tem que vir por si, pô!(Levantando-se, fechando o laptop) E outra: não me arrependo de nada. (Suspirando). Tá aí tudo. Falando a gente se entende. Faça o que quiser. Te desejo o melhor. Isso tava engasgado.

              LORENA – (Mal se contendo. Derruba um frasco de perfume caríssimo. Já de pé, caminha para o guarda-roupa. De lá tira uma mala grande. Joga ali seus pertences mais diversos. Mal ouve o que ele lhe diz. Resmunga algo baixinho, não tanto que impeça Túlio de ouvir) Foi bom enquanto durou!

              TÚLIO – Eu diria foi mal justamente porque durou!

              LORENA – (Tomando como uma afronta) Quero que você morra!

              TÚLIO – Eu não te desejaria o mesmo. Afinal, viva, leve e solta você será a memória ambulante de um erro colossal que eu tive na vida.

              LORENA – (Enfurecida, pega a mala, sai do quarto, batendo a porta)

              FALA EM OFF: Vá para a puta que te pariu! Nunca mais!

 

              TÚLIO -  Que se foda você, Lorena, entendeu? Quero mais é que se foda! (Pausa. Respira, aliviado. Volta para o laptop. Falando com ele mesmo): Esse foi eu? 

                      …

 

              CORTE PARA:

 

              CENA 2. CARRO DE LORENA NA GARAGEM. EXTERIOR. NOITE.

 

  Lorena joga a mala dentro do carro. Entra. Bate a porta. O carro permanece parado. Ela liga o som. Barry White, Just the way you are.

 

               LORENA – (Suspirando, com a cabeça no volante) Pronto! Fim! Mas não me reconheço. Era algo que tinha de acontecer? Se era, foi! 

 

               FADE OUT.

 

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Nota de esclarecimento: “FADE OUT é o escurecimento gradual da imagem, até o escuro total, ou a rubrica (que por sua vez é uma notação que, num roteiro, descreve elementos de estória ou recursos de narrativa) que indica isso”.

Fonte: Roteiro de Cinema e televisãoA arte e a Técnica de Imaginar, Perceber e Narrar uma estória, de Flavio de Campos, Jorge Zahar Editor, 2007

Reflexões pluviais.

 

  Neste instante, chove a cântaros, cai um toró (como dizemos em São Paulo city), it´s raining cats and dogs.

  Acho que foi num romance do Eça, não me lembro bem, no qual o narrador diz que o ato de observar a chuva caindo, o atrito das gotas no solo, o ritmo mesmerizante e hipnótico, é uma ação universal. Nos quatro cantos do mundo, onde há chuva e gente a observá-la, é coisa certa: lá está alguém perdido nos pensamentos, sejam os mais terra-a-terra, sejam os mais transcendentes. Mas todos pensamentos, oras.

  Observe-se, veja seu próprio exemplo: basta uma chuvinha para acionar a cuca. Lá está você hipnotizado: a chuva a cair e a embalar seus pensamentos.

  Acabei de passar por isso, pela milionésima vez na minha vida, talvez.

  E o que pensei?

  Nisso: como medir a existência? Em horas perdidas, em amor dado, em amor recebido, pelo calendário, pelos sonhos feitos e desfeitos? Por qual critério? Há tantos!

  Acho que seria um assunto ideal para um texto mais elaborado no futuro. Enquanto isso, volto à contemplação pluvial…

  (Não, este post não existe, é uma ilusão, e não se fala mais nisso).

Um agradecimento e uma comemoração.

Esse post aí embaixo foi o que mais comentários suscitou nestes quase dois anos de blog. Migrei todos eles para um lugar só, em vez de deixá-los nos textos cujos links indiquei. Assim, todos reunidos apenas num texto, iria ficar mais fácil de visualizá-los.

Resumo da ópera: um agradecimento a todos que por aqui passaram e que comentaram, mesmo as críticas ferinas e aquelas destituídas do mínimo laivo de civilidade ou coerência argumentativa.

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Este blog recebe uma média de 80100 visitas diárias, sendo o pico de acessos chegando já a 150. O motivo é simples: muitos internautas vêm parar aqui pela remissão por parte dos grandes mecanismos de busca, como o gigante e onipresente Google. Alguém, suponhamos, está procurando menção ao filme PERSONA, de Bergman, e é mandado para cá. Aliás, me avisa minha amiga cinéfila-literata-jazzófila-blueseira THAMARA: uma busca no Google de PERSONA BERGMAN irá remeter o internauta, como primeira opção, para o campeão de acessos deste blog, um post de maio do ano passado. Ou seja: meu texto sobre aquele filme é o que mais menções têm na Grande Rede (entre 289.000 resultados, constatei agora), e é por isso que está no topo das buscas do Google. Méritos, acho que sim: deve ter algo positivo no texto que desperte tanta atenção, pelo menos daqueles que estão buscando informações sobre o notável trabalho do diretor sueco. O velho boca-a-boca, talvez. Thamara, obrigado pela informação!

Well, se não enriqueço com os acessos, ao menos fico grato de saber que aqui é um espaço onde posso escrever qualquer coisa que terá uma grande quantidade de leitores, não fiéis cativos deste blog, claro, mas leitores, ainda que fortuitos.

Mas, meus fiéis dois ou três leitores, de vocês não esqueço!

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Hora de virar a página. Mas acho que seria melhor uma apertada no botão de descarga e por encanamento abaixo mandemos o Big Brother Brasil para o lugar onde ele deve ficar!

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Ao som de Dizzy Gillespie, Dizzy Atmosphere

Para não dizer que não falei de lixo…

    Abaixo (em azul) estão dois “textículos” (foi boa, Otávio!) que este pobre ranzinza, euzinho, ainda que jovem para tal qualidade geralmente senil, escreveu há dez meses sobre um programinha televisivo que nos assola anualmente. Quer dizer: a mediocridade (já faraônica) tem periodicidade neste país. Ela começa em janeiro e vai até março. É quando se junta a brava nação de desmiolados (as) para analisar sociológica-antropológica-filosoficamente o Mito da Caverna de Platão, ops, a casa cercada de câmeras onde almas carentes de atenção – eufemismo para outras carências mais abissais -(pobrezitas!) mostram a todo o mundo que o conceito de progresso é mais que relativo quando se refere ao bicho-homem. Ok, mas mesmo assim não me incluam nessa: ainda que homo sapiens, prefiro a companhia de um bom filme/livro/música à contemplação de peitos, bundas, rostos, pernas e, last but not least, indigência mental de certos (as) representantes do gênero humano.

    Gente, 8 anos e o país ainda voltado a isso! Ah, não me venham com a baboseira de que tal programa nos oferece um momento único de análise científica do comportamento humano. Fosse assim, teses e mais teses sairiam aos borbotões todo ano… De que vale saber o que os brothers  farão ou deixarão de fazer? Uma coisa é certa: o tempo gasto com tal acinte à inteligência é que eles não trarão de volta…

    Sei que não vai adiantar nada mesmo. Sei que haverá choro e ranger de dentes, desprezo, raiva, pena, (seja o que for) para com este obscuro blogueiro. Mas, caros, caras telespectadores (as), colegas de auditório e zumbis voluntários, canalizem vossa preciosa e incontida raiva, desprezo, etc, àqueles que neste instante esfregam as mãozinhas de olho na graninha preta que vossas eminências proporcionam a eles, os magnatas da esperteza, os exploradores das fraquezas e asneiras humanas, com vossa atenção, tempo e dedicação “intelectual” a tal inofensivo programa.

    E fique para a posteridade (mesmo que apenas eu!): não direi aos meus netos que estraguei meus parcos minutos neste “vale de lágrimas” com tal lixo!

    Eis os textos. Apenas clique nos títulos.

    Aos amebas e às amebas do BBB 7…

    O que penso do Big Brother Brasil? – parte II (A saga continua)

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     Ao som de Josh Groban, You raise me up

    (Descobri tal artista talentosíssimo por intermédio da minha amiga Lee.)

Ele não tinha limites e foi resultado de suas próprias escolhas erradas.

 Fui ver hoje MEU NOME NÃO É JOHNNY. Um filme que, para alguns mal-informados, pode parecer uma glamourização da criminalidade. Nada disso. O próprio diretor, Mauro Lima, já se muniu com um argumento demolidor: aquilo tudo foi de fato o que aconteceu. Simples assim. O enfoque foi esse.

A vida sem limites de João Guilherme Estrella (Selton Mello), combinada com as escolhas errôneas, o levou da boemia ao caos. Tudo isso no filme vem com uma grande dose de humor, excelente reconstituição de época, interpretações fantásticas (elogiar as atuações de Selton Mello é “chover no molhado”. Ele consegue imprimir um “cinismo” a seus personagens que é trabalho de gênio, não tenho outra palavra), a música, o ritmo da narrativa, o roteiro “redondo”, um trabalho que muitos aplausos merece. Digamos que o cinema brasileiro começa o ano com o pé direitíssimo.

A reação da platéia é tudo, menos indiferente: com tanto humor no filme, há pessoas que até poderiam ter se esquecido que a história traz à tona assuntos mais sérios, mais polêmicos. Mas esse subtexto high-brow  não estraga a fruição.

Cléo Pires, como a companheira de Selton na trama, também “rouba a cena”, por ótima atuação e por motivos óbvios.

Enfim: entretenimento de primeira. Fiquemos nesse nível para não tornar este post enfadonho.

Assista a este filme (mais que convincente em nos mostrar que o cinema brasileiro não se reduz a chanchadas e “sacanagens”) se quiser entender também um pouco o que foram aqueles anos turbulentos no país. Há vários enfoques. Fica a seu critério!

Uma observação final: o verdadeiro João Estrella faz uma ponta no filme como um enfermeiro. A tempo: ele hoje (aos 47 anos) saiu daquela vida e é um bem-sucedido produtor e até compositor. Clique aqui para ler uma entrevista com ele.

 

 

 

 

 

 

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Ao som de B.J. Thomas, Raindrops keep fallin’ on my head

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Uma diva brasileira do jazz. Eis nossa Diana Krall!

Eliane Elias. Este é seu nome. Paulistana de nascimento, nova-iorquina há mais de vinte anos, pianista de jazz, cantora e compositora. Talentosíssima, linda e uma praticamente desconhecida em seu país de origem. Em tempos de pobreza sonora, saber que temos uma brasileira que há anos faz sucesso lá fora como jazzista, é um prazer imenso conhecer seu trabalho. E que prazer! Tem aquele dito popular que diz que “santo de casa não faz milagre” (ou algo do gênero: sou uma negação pra essas citações populares). Dito e feito. No caso de Eliane, é algo que chega a ser uma afronta. Sua música é refinada, para poucos, claro. Mas daí a receber todo esse menosprezo por aqui chega a ser asqueroso. Sim, ela não rebola. Sim, ela não mostra seu corpo. Sim, ela é uma mulher que se sobressai por puro talento e arte. Tá explicado.

A primeira vez que ouvi falar dela foi no saudoso Jazz Concert, da Rádio Cultura FM de SP, apresentado pelo já falecido Carlos Conde. Estou ouvindo algumas faixas do seu novo trabalho: SOMETHING FOR YOU: ELIANE ELIAS SINGS AND PLAYS BILL EVANS, no qual ela faz um tributo ao genial Evans. Sensacional! Ela captou toda a sutileza de um dos pianistas de jazz mais eruditos e sutis de todos os tempos.

Para quem quer ouvir algo que não agrida os ouvidos e ainda por cima enriquecer sua discoteca com música de primeiríssima qualidade, ouça Eliane Elias.

Quanto ao termo “diva”, apesar de começar a enfraquecer, de tão usado, acho apropriadíssimo no caso dessa artista.

 

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Ao som de Eliane Elias, “You and the night and the music” .

Boliche: há quanto tempo eu não jogava!

Acabei de chegar do American Bowling Center em Jacareí. Jogar boliche: eis algo que não fazia há uns 8 anos! Claro, é que nem andar de bicicleta: uma vez que se aprende, não se esquece. Mas quando se está enferrujado pra coisa… Mas, bene, é delicioso o ambiente: as risadas, os pinos maleditos que “humilham” tanta gente, os strikes que não vêm. E o mais curioso: todo mundo, após o terceiro ou quarto arremesso, já se acha veterano. Todo mundo assumindo aquela panca toda: mas eis que… não acertam nada! Vexame. Mas ali ninguém ridiculariza ninguém. O que vale é a diversão. E que diversão! A sensação de alívio que dá ao arremessar a bola, as figas, as reações de alegria, raiva, decepção, orgulho, tudo catártico!

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Ao som de Eliane Elias, Samba Triste.

Uma viagem pelo mundo das idéias.

    Leituras:

  Estou lendo diariamente o 101 Experiências de Filosofia Cotidiana, de Roger-Pol Droit, filósofo e pesquisador francês (Editora Sextante). É um livro que havia lido há alguns anos e reiniciei, tão interessante que é. A filosofia sem fraque, sem trajes de gala: no nosso dia-a-dia, nas nossas mais triviais ações, naquelas coisas tão mecânicas que fazemos, podemos encontrar uma oportunidade para a reflexão, a crítica da razão diária… As experiências propostas pelo autor são de fácil acesso. Por exemplo: deslocar-se no tempo, repensar o significado das palavras, transformar-se em música, imaginar-se em mil lugares ao mesmo tempo, sonhar acordado… São interessantíssimas para quem quer sair do mecanicismo, do motor automático e ver com outros olhos as próprias (e incertas) certezas tão caras. Um livro instigante, ainda que enganosamente fácil. Recomendo!

   Também acabei de ler, quase de uma assentada, Aprendendo a Filosofar em 25 Lições [Do Poço de Tales à Desconstrução de Derrida] (da Jorge Zahar Editor), de Nicholas Fearn, especialista em filosofia de Oxford. Os grandes pensadores tinham suas ferramentas, seus conceitos que serviam como instrumentos para vasculhar o âmbito daquilo que está dentro de nossas possibilidades analíticas e de reflexão.  A Navalha de Occam, a Desconstrução de Derrida, o Martelo de Nietzsche, O Meme de Dawkins, Os Óculos de Kant, entre outras ferramentas, já estão devidamente assimiladoas, já fazem parte do meu repertório, após a leitura desse livro instigante e de referência. E tudo sem perder a profundidade.

   Os Ensaios (Volume 1), do mestre Michel de Montaigne [1533-1595], da coleção Os Pensadores, da Abril Cultural, é o que estou lendo neste instante. Sua escrita elegante e que abrange uma variedade espantosa de assuntos faz dele um autor a que sempre recorria, fazendo um certo tempo já que não o lia (agora nesta retomada da leitura a que estou me dedicando). Mas estou redescobrindo um pensador que, ainda que não fosse um filósofo, alguém que tenha criado um mundo sistematizado de idéias, teve, isso sim, o privilégio de ser um dos criadores do ensaio, esse gênero literário no qual as idéias são defendidas de forma clara, elegante e serena. Lê-lo é como ouvir a aula de um professor. Os assuntos por ele abordados, no fundo, ainda continuam aí: a soberba, o orgulho, a busca por status, a vulgaridade dos novos-ricos, os pobres (sobretudo os de espírito!) que almejam a riqueza sem algo mais, a vazia ostentação de saber, poder e muitos outros. E são todos expostos por um francês do século 16 que ainda tem muito a nos ensinar. Basta lê-lo com os olhos de hoje e relevar as circunstâncias em que ele viveu.

  Claro, terminei a Trilogia do Silêncio, de Bergman, sobre a qual irei escrever ainda. E ainda tenho muita coisa do Antonioni para rever.

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Ao som de Sarah Vaughan, Moonlight in Vermont

 

 

 

"I´m back!" (Tudo bem: vocês já ouviram notícia mais animadora, não?). Em que me desculpo e explico o porquê da minha "ausência-não-ausência" e da mudança visual (ah, de novo?) deste blog.

  Salve, salve! Meus caros e caras nefelibatietes,

  Por causa de um problema em meu computador, fiquei desconectado desta selva de tagarelice pós-moderna chamada internet. E para, paradoxalmente, “comemorar” minha “volta” (a volta de quem nunca foi é volta?) e assim continuar com a cota de contribuição que me cabe à essa balbúrdia (neste latifúndio cibernético), eis que aviso: não será por enquanto que este espaço de narcisismo será desativado.

  A todos aqueles (Paula, Otávio, Thamara, Fernanda, Júlio e Mari) que me enviaram imeius avisando do problema (ou para saber se eu ainda estava no mundo dos vivos, claro) que impossibilitava o envio de mensagens a este blog (aparecia uma sopa de palavras!), meus sinceros agradecimentos. Acabei de lhes enviar a resposta. Era um inoportuno defeito no template que este blog tinha até ontem. Simplesmente mudei o template e pronto: tudo como antes no quartel de abrantes.

  É isso. A todos (as), um abraço grande!

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 Ao som de As time goes bye, com Dexter Gordon e Every time we say goodbye, com Chet Baker.

 

 

 

Errata.

Aqui está a letra de Here´s to Life, interpretada por Shirley Horne, com as devidas correções.

 

Here’s To Life

No complaints and no regrets
I still believe in chasing dreams
And placing bets
But I have learned that all you give
is all you get
So give it all you got

I had my share
I drank my fill
And even though I’m satisfied
I’m hungry still
To see what’s down on another road
Beyond the hill
And do it all again

So here’s to life
And every joy it brings
So here’s to life
To dreamers and their dreams…

For there’s no yes in yesterday
And who knows what tomorrow brings
Or takes away
As long as I’m still in the game
I want to play
For laughs, for life, for love.

Notas americanas: de Obama, Hillary e Britney Spears. Notícia em primeira mão!

Entre os democratas, em Iowa, deu Barack Obama. Hoje, em New Hampshire, pode se repetir a façanha. Para quem gosta de acompanhar o cenário internacional, sobretudo em ano de eleições presidenciais na terra da Billie Holiday (Que mundo de contrastes:  na terra também da Britney Spears, argh, aquela que será conhecida por civilizações futuras como a maior barraqueira do milênio, isso, claro, se não der nome a toda uma lista de distúrbios psiquiátricos!), ou seja, quase ninguém por estes lados – apenas alguns masoquistas – grandes emoções há no caminho.

Minhas apostas: anotem, pois. Vejam bem: nenhum blog no planeta todo adiantou (até porque meus colegas blogueiros têm mais o que fazer). Mas eu, olhando dentro do meu sapato, minha bola de cristal, posso adiantar ao mundo, em primeira mão, quer dizer, pé: Barack Obama será eleito em novembro o novo presidente dos EUA. Não tem para os republicanos!

Podem ficar certos. Ok, The New York Times. Reservarei um tempo para entrevistas, fiquem tranqüilos. Este blog será conhecido em todo o planeta… Certo, BBC de Londres, estarei available para vocês também. Mas uma condição: vou querer ser entrevistado apenas por repórteres mulheres, belas e solteiras. Ah, para a tv brasileira não tem choro: nem adianta me procurar.

Mas se por acaso, por alguma mudança na rota dos astros, alguma conjunção inesperada entre eles, sabem, ah, então, por gentileza, fiquem sabendo que a culpa é do Nostradamus!

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Outra coisa: como o tempo passou para a senadora Hillary Clinton!

Ei, Bill, há um pouco de você nessas rugas…

Ou, como desejarem:

É o long term Monica Lewinsky-effect em ação! Tarda. Mas não falha!

 

 

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Ao som de Louis Armstrong, Basin Street

Ah, fosse no tempo de FHC…

  Todos viram: no primeiro dia útil do ano o governo de Sua Santidade Dom Inácio III baixou um pacotezinho de maldades aumentando o Imposto Sobre Movimentações Financeiras (IOF) e também a Contribuição sobre o Lucro Líquido (CSLL). Isso porque o próprio excelentíssimo havia prometido que não existiria tal pacote. Cadê a oposição? Que venha uma ação judicial contra tal pacote!

  Fico a imaginar: se fosse FHC, naquela época, que fizesse o mesmo… O que estariam fazendo o PT e seus vizinhos “ideológicos”? Ah, como é o governo do ídolo das massas, está tudo desculpado.

  Onde estão aqueles movimentos voltados à defesa dos interesses do povo? Sim, porque esse aumento tributário vai incidir sim, no final da cadeia, sobre aqueles que um dia eram “defendidos” pelos petistas hoje envergonhados de seu passado.

  (Exceção aos petistas íntegros, ou seja, aos coerentes, àqueles que se mantiveram fiéis às suas convicções).

  Agora que podemos dar adeus à uma reforma tributária decente. E quanto a cortar gastos, nem pensar!

  Enquanto isso…

  … desfrutemos de nossos serviços públicos de primeiro mundo!

ATRAVÉS DE UM ESPELHO: no laboratório de Bergman.

TRILOGIA DO SILÊNCIO
Ingmar Bergman, Suécia, 1961-1963
Através de um espelho (Sasom i en spegel) / Luz de Inverno (Nattvardsgarterna) / O Silêncio (Tystnaden)

 

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    Aproveitando as férias, dando início à Trilogia do Silêncio (sendo que a idéia de uma trilogia não era algo pelo qual Bergman tinha lá muito apreço, mas deixou que a crítica a adotasse, afinal, pensava ele, na época estavam em voga as trilogias. Vide a de Antonioni, na mesma época: a da Incomunicabilidade), revi neste domingo o soberbo ATRAVÉS DE UM ESPELHO (1961).

    A sinopse: num lugar paradisíaco, retirado e perdido nos mares da Suécia, quatro vidas: o pai ausente David (Gunnar Björnstrand) e escritor; seu filho adolescente, Minus (Lars Passgård) às voltas com a turbulência típica da idade; sua filha recém-casada, Karin (Harriet Andersson) que tem uma doença psicológica degenerativa, com alucinações e histeria, achando que recebia a visita de Deus, doença que herdou de sua finada mãe. Fechando o rol: o marido de Karin, Martin (Max Von Sydow), médico e às voltas com a sensação de impotência por não poder curar sua jovem esposa.

  

    Aí estão os únicos seres que vemos em todo o filme. E que seres! Isolados naquela imensidão de tirar o fôlego (tudo acentuado pela fotografia deslumbrante de Sven Nykvist, [à direita]o maior diretor de fotografia de todos os tempos) vemos se desenrolar o drama, pouco a pouco. Do mar, vemos surgirem, ao longe, os quatro personagens, todos saindo de uma sessão de natação, conversando, rindo, uma imagem aparentemente de pessoas felizes e saudáveis. Não num filme de Bergman.

   

   Temos, com alguns minutos, a sensação e logo em seguida a certeza de que o ponto de problematização de toda aquela a situação é, resumindo, a jovem esposa Karin. Seu pai e seu marido se isolam para falar da doença que a acomete, ela que acabara de sair de um hospital e sua presença ali era como parte de sua terapia, buscando na natureza uma forma de amenizar o seu mal. O marido informa seu pai do andamento da doença. O pai, vamos saber, é um homem distante, frio, sem ser ríspido, mas destituído de qualquer preocupação que não seja sua carreira de escritor. O filho Minus é visivelmente um jovem com problemas para sair da fase adolescente e se assumir. Está descobrindo o mundo da sexualidade. Sua irmã, de longe, obviamente, a mais complexa de todas as quatro personagens, tem seu comportamento alterado, para pior, quando vasculha as anotações do pai e descobre que o interesse dele em sua doença é apenas a de um observador frio. Ou seja: a doença séria de sua filha serve a ele apenas como um tópico, como um assunto para sua escrita. Ela seria assim como um ratinho de laboratório para ele. A partir desse momento, a sensível Karin entra, aos poucos, em parafuso.

    Num certo momento, os irmãos, combinando com o Martin, encenam uma peça teatral ao pai, que havia chegado da Suiça (fungindo do mal-estar provocado pela morte sua esposa, o que vem muito a dizer do caráter dele). A peça é premonitória, pois há elementos ali que tangenciam a questão do abandono do ser amado pela arte (olhem outro tema aí, ainda candente: até onde vão os limites da dedicação à arte em detrimento da vida, das responsabilidades?), justamente o que David  fizera com sua esposa e seus filhos. E ele intui as trágicas conseqüências que daí viriam. Não há como não nos lembrarmos da “peça” (no duplo sentido) que Hamlet prega e encena com fins mais do que catárticos e inquisidores em e para o seu tio, Cláudio, em ShakespeareDavid visivelmente fica incomodado.

     Martin tenta ajudar a esposa. Tenta lhe ser um abrigo. E Karin não sente desejos, não o procura. Ela, por causa da doença, tem a audição aguçada. É mesmo assustador, na hora de dormir, ouvir os apitos dos navios distantes. Há um momento em que eles, os apitos, parecem gritos de uma alma dilacerada, em angústia profunda. Claro que é uma referência explícita ao mundo interior em desespero de Karin. Ela tenta dormir. Em vão.

     O filme vai passando e vemos crescer uma tensão: Karin piora. Passa a ouvir vozes no quarto abandonado no último andar. Ali, nas paredes com papéis descascando, portas e janelas que se abrem para lugar algum, temos a metáfora exata do que é o mundo interior de Karin. Numa das interpretações mais perfeitas, assustadoras e incríveis que já vi por parte de uma atriz, somos testemunhas daquele quadro lastimável: uma vida sem vida ainda que viva. Não é mero jogo de palavras: ainda que viva, interiormente Karin está morta, num sentido de que seu “eu”, a consciência dela mesma, já não existe. Na sua alucinação, vemos o desmoronar de uma personalidade. A maldição (a doença herdada da mãe) já a teria levado.

     Em seguida ela vai até o quarto do pai. Ele está tentando escrever algo. Ele o conforta. Karin acaba adormecendo na cama dele. Nisso surge na janela Minus e convida o pai, já que está amanhecendo, a jogar as redes de pesca. David aceita. Ambos saem. Passado um tempo, Karin acorda e lê as anotações de seu pai. E descobre tudo.

     No outro dia, DavidMartin saem para o alto-mar. Ali, naquele barco, há um diálogo duro entre ambos. Martin o acusa de ser um pai frio, tudo por causa da sua vaidade intelectual. Diz-lhe, ironicamente, que ele teria agora um tema e tanto: a desintegração psíquica de sua própria filha. David lhe diz que pensara até em suicídio, quando estava na Suíça, mas que no último momento, quando o carro ia mergulhar num abismo, o motor morrera e ele se salvara a tempo. Saíra do carro tremendo. Pela vida.

     Karin flagra Minus folheando uma revista masculina. Minus, obviamente, fica constrangido e contrariado. Ambos conversam, chegam a um acordo. Ela, percebemos, o perturba, ele que nunca tivera um contato tão próximo com uma mulher.

A partir daí é puro caos. Karin surta. Com o pretexto de que estava chegando uma chuva forte, ela deixa Minus ali onde estavam até pouco atrás em paz total e sai desabaladamente a correr, assustada. Minus a perde de vista. Entra na casa e não a encontra.

     Ela fora se refugiar em um barco abandonado, inclinado e caindo aos pedaços. Minus entra ali. Ela estava lá dentro, encolhida a um canto, perto de poças de água, detritos e o caos de uma embarcação há muito desativada. A chuva chega, forte. E aumenta. Minus vai até ela. Ela chora compulsivamente. O irmão a conforta. E aí acontece aquilo que uns negam, mas a maioria concorda que de fato aconteceu: a câmera mostra Karin puxando o irmão para os seus braços, ambos chorando, ela por baixo. A última cena, rápida, na montagem, diria tudo: houve o incesto. Há fatos que afirmariam isso.

     A câmera se distancia, depois de um corte. Mostrando o transcurso do tempo que passara, agora vemos os irmãos abraçados, a goteira diminuindo seu fluxo. Tudo se acalmara.

     (Não podemos nunca esquecer a mágica fotografia do filme. Tudo é ao mesmo tempo tão contido ali, nunca achamos que se errou a mão, nem na direção, nem na interpretação, em nada!)

     Barulho do barco a motor de DavidMartin. Minus desperta, deixa a irmã aconchegada com um cobertor que ele trouxera e sai dali a contar aos que chegam o paradeiro dela.

 

     Ela desperta. Outra metáfora visual: David, de pé, dentro da embarcação abandonada, Karin sentada na escada que dá acesso ao exterior, acima. Lemos ali: ambos num lugar claustrofóbico, a indicar o quão estavam envolvidos com seus mundos interiores: Karin pela sua doença que aumentara de intensidade pela descoberta que ela tivera ao vasculhar a agenda de seu pai e este, por se achar de novo preso à sua própria consciência por ter falhado tragicamente com a esposa, com a filha e, também, com o filho. Ambos dentro de um barco caindo aos pedaços. Dentro de uma situação desestabilizadora, precária. Ele, roído pelo remorso. Ela, pelo seu mundo aos cacos e também pelo arrependimento. Tanto que diz ao pai: “Pobre Minus!

     Lá pelo fim do filme vem a cena mais forte, mais absurdamente pungente do cinema que vasculha os dramas humanos.

     O marido chamara a ambulância. Karin, agora arrumada, prepara a bolsa, acompanhada de Martin . De repente, ele se distrai e ela desaparece da frente dele. E da nossa! Para onde ela fora? Teria mais um ataque justamente agora que iria embora?

     Ela havia ido, ouvimos agora sua voz a conversar com alguém, para o andar de cima. Pai e genro a encontram absorta, falando com as paredes. Apontando para o nada. Interagindo com coisa alguma. De repente, vemos aquela cena: ela a gritar e a berrar dizendo que Deus estava ali, que ele a ouvia. Ela sai correndo, gritando, desce alguns lances de escada mas seu irmão lá embaixo a detém. Havia visto que Deus era uma reles aranha, que do vazio de seu mundo em desmoronamento, havia visto apenas isso: uma figura monstruosa, no lugar de Deus. Seu marido e seu pai vêm no encalço dela. E ali Karin é dominada, num acesso ultra-realista de raiva, desespero e medo. Seu marido lhe aplica uma injeção. Ela se acalma.

  

     Na seqüência final, uma surpresa. Para quem for assistir… Há uma certa catarse. Agora fica a cargo de quem o vir na íntegra

     Um esclarecimento: por que Trilogia do Silêncio? Onde há o silêncio aqui? É porque as personagens quase não se falam? Não necessariamente. O silêncio que perpassa os três filmes é o de Deus, é o existencial, é o da comunicação num sentido mais amplo entre as pessoas. Em Através de um Espelho, o desespero e a trágica sina de Karin são seguidos pelo silêncio divino, ela que buscava, em seus delírios, em seu naufrágio, em sua derrocada naquele barco abandonado (eis o motivo da metáfora do barco abandonado), um porto, uma bóia de salvação.

     E a música de Bach, o violoncelo, que lembra o gemido de desespero, torna ainda mais belo e tragicamente único esse filme. Que exige por parte de quem o assiste mais que mente aberta: sensibilidade à flor da pele. Pois é um filme denso, sem concessões e chocante, muitas vezes.

     Ingmar Bergman conseguia fazer o impossível: lançar mão de algo tão externo, a imagem, para vasculhar algo tão sutil: nossa alma.

     Seus filmes apresentam muitas camadas de interpretações, obviamente. Aqui, não faço crítica. Não tenho essa pretensão. Apenas teço comentários sobre o que me chama a atenção neste vasto mundo, no caso, o da arte. Seja em um livro, em um filme, em uma peça, no que for que suscitar reflexões, estou a vasculhar, a xeretar, a procurar um sentido, ainda que em tais obras tão ricas, o que vale mesmo são as perguntas, não as respostas; o itinerário, não o destino.

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Ao som do álbum A Love Supreme, de John Coltrane

  

 

 

"Festa estranha com gente esquisita" e achei tudo muito legal!

Não consegui ampliar a imagem, enviada (emprestada) por Júlio Ceres, a quem agradeço, porque o formato não permitiu. Mas foi um grupo que apresentava um poema do Augusto dos Anjos.  Ontem fui a um “sarau lítero-dançante-etílico”, digamos assim. Funcionou dessa maneira: num ambiente aconchegante, cheio de pufs esparramados, ao som de muita música (dos anos 50 até hoje!), com muito vinho, whisky, ambiente cool, cada um (individualmente ou em grupo, como na foto ao lado. Aliás, descanse o mouse sobre ela e você descobrirá o porquê de ela estar tão diminuta) lia no microfone seus poemas, contos, textos divagantes, todos aplaudiam. Conheci gente totalmente maluca, mas irresistivelmente interessante, inteligente e bacana. Acabou depois da 1h da matina, mais ou menos. Uma oportunidade única de mostrar o que escrevemos, trocar idéias, ampliar o círculo de amizades e flertar com a arte.

   A todos (as) que conheci, um abraço. Espero encontrar todos (as) dentro de pouco tempo para mais um sarau “lítero-dançante-etílico”.

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Ao som de Shirley Horne, As to life (que música! A seguir vem a letra. Uma interpretação fantástica).

 

Here’s to life

Shirley Horne

 

Here’s To Life

No complaints and no regrets
I still believe in chasing dreams
And placing bets
But I have learned that all you give
is all you get
So give it all you got

I had my share
I drank my fill
And even though I’m satisfied
I’m hungry still
To see what’s down another road
Beyond the hill
And do it all again

So here’s to life
And every joy it brings
So here’s to life
To dreamers and their dreams…

For there’s no yes in yesterday
And who knows what tomorrow brings
Or takes away
As long as I’m still in the game
I want to play
For laughs, for life, for love

Imperdível o Mais! deste domingo.

  O caderno Mais! da Folha hoje está um banquete: traz trecho de um roteiro inédito de Michelangelo Antonioni que se passa no Brasil e texto do italiano no qual ele explica passagens desse seu trabalho que infelizmente não chegou às telas. E mais: um texto delicioso de Walter Salles no qual o diretor brasileiro faz uma análise dos dois gênios que morreram no ano passado, no mesmo dia: o próprio Antonioni e Bergman.

  Um trecho:  

“O tempo não existe. O presente e o futuro são apenas o mesmo instante -um agora” (Bergman).

“O homem vive num equilíbrio instável, que com os anos se estabiliza cada vez mais, até que ele encontra o equilíbrio absoluto, que é a morte” (Antonioni).

“Trinta de julho de 2007. Morrem no mesmo dia Ingmar Bergman e Michelangelo Antonioni, dois cineastas que definiram o que é o cinema moderno. Não existem coincidências, dizia outro mestre, Borges.
Tanto Bergman quanto Antonioni fizeram filmes que alimentaram sucessivas gerações, que viam o cinema como uma forma de expressão “total” -para usar o termo que Godard elegeu para definir “O Deserto Vermelho”.
O ponto de encontro entre a literatura, a filosofia, a arquitetura [no caso de Antonioni] e, no caso de Bergman, o teatro e a psicanálise. O conceito de “entretenimento”, dominante hoje, não fazia parte da equação”.

  A íntegra está aqui (Apenas para assinantes da Folha e do UOL).

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Ao som do álbum Modern Times, de Bob Dylan

A maldade, a bondade, a necessidade de vingança e de redenção em A FONTE DA DONZELA.

   Segue minha retrô particular de Ingmar Bergman:

   

   Herr Töre (Max von Sydow) tem duas filhas. Karin (Birgitta Pettersson) é loira, linda e bondosa. Ingeri (Gunnel Lindblom) é morena, está grávida e é filha bastarda. Ela sente inveja de Karin e quando esta é incumbida de levar à igreja as velas a uma santa, como apenas uma virgem poderia levar, Ingeri coloca um sapo vivo dentro de um pão, que serviria de lanche para Karin durante a longa viagem. Durante esta, dois guardadores de cabra a abordam. Inocente, ela oferece sua refeição a eles. Ao repartir o pão, o sapo salta dali. Os homens se enfurecem e seu desejo bestial surge. Eles a estupram e a matam. Seu corpo fica numa clareira, nu. Mais tarde, na fazenda do pai de Karin, eles pedem abrigo naquela noite que haveria de ser fria. Um dos assassinos oferece à venda o robe de tecido fino (manchado de sangue) de Karin à sua preocupada e bondosa mãe. Ele lhe diz que era de uma parente. Ela segura a emoção no momento, pois reconhecera imediatamente a dimensão da tragédia que se abatera sobre sua filha, sai dali e tranca-os.

    

   Após se purificar, Herr Töre mata os assassinos, um por um, até mesmo o pequeno garoto, irmão deles, que os acompanha.

   Ao chegar ao local do crime, onde jaz o corpo de Karin, Töre jura construir uma catedral. Em resposta, uma fonte nasce de repente no local onde estava a cabeça da infeliz garota.

  

   Numa reconstituição de época também notabilíssima ( três anos após o também medieval O SÉTIMO SELO), A FONTE DA DONZELA (Jungfrukällan, 1960), é um dos mais “cruéis” filmes de Bergman e talvez o único não escrito por ele. Vencedor do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, é, na verdade, a adaptação de uma história verídica sueca do século 14.

   

   Tudo no filme é verossímil. A caracterização dos personagens, suas vestimentas, seu jeito de andar, falar, comer e agir, tudo nos situa ali, naquele tempo, naquele lugar. Naquele tempo e naquelas bandas da Europa, o paganismo ainda dividia as mentes e corações das pessoas com o Cristianismo. Num contexto de fé exacerbada e isolamento cultural, a história é uma junção de linhas temáticas por si só candentes: fé, necessidade de redenção, violência, crueldade, questionamentos religiosos, entre outros. Numa fotografia em preto-e-branco estupenda, sempre com a mão do talentosíssimo Sven Nykvist, há o contraste e a antítese entre aquelas paisagens bucólicas e o conteúdo do que ali seria exposto. Ou seja, a beleza do lugar acentua ainda mais a expressividade da tragédia de que boquiabertos, com a respiração suspensa, somos testemunhas.

  

    Numa daquelas peças do destino, lá vão os guardadores de cabras pedir (mendigar, seria o termo apropriado) uma noite de hospedagem justamente na fazenda do pai de Karin. Max Von Sydow, num papel que lembra um pouco seu Antonius Block de O SÉTIMO SELO, simplesmente encarna a figura daquele pai rústico, ainda que de posses, voltado às suas tradições religiosas e seu papel de figura máxima do lar. A mãe de Karin, na cena em que o assassino de sua filha tenta lhe vender o manto de sua filha, consegue nos deixar com o coração prestes a arrebentar de emoção. Numa das interpretações mais perfeitas que já vi, aquela mãe (a ela que um pouco antes atribuímos erronea e preconceituosamente uma fragilidade) nos deixa assim atônitos ao ter o sangue frio de abaixar a cabeça, segurando e olhando fixamente para aquela peça de roupa que representava a sua filha, pois percebemos que ela se deu conta de toda a tragédia, em questão de segundos, e mesmo assim não esboçar nenhuma reação, não pelo menos nenhuma a ponto de chamar a atenção dos rústicos e repugnantes assassinos. Ela aos poucos levanta os olhos e ainda consegue olhar para o carrasco de sua filha. Seu olhar diz tudo: dor, muita dor. Lentamente, diz algo e sai. Tranca a porta com uma imensa trava de ferro. Senta-se em um degrau, mergulha o rosto naquela peça de roupa tão querida e chora. Há um pouco de nosso ali.

  

   Em seguida, outra construção milimetricamente arquitetada pelo grande sueco: a esposa vai até o marido e lhe conta tudo. A partir daí, quase sem diálogos, vemos a tensão num crescendo altamente expressivo: a preparação da vingança, por parte de Töre, àqueles que lhe levaram a filha. Ficamos assim, de novo “nas mãos” do grande ilusionista que é um cineasta no controle exato de seu ofício. A cena da pequena árvore, na qual Töre, com uma força descomunal, fruto da necessidade de vingança que lhe cresce no peito, enverga a planta para tirar as folhas, serve como uma metáfora, no meu ponto de vista, da pretensão humana de domar as forças que lhe são quase sempre superiores (a natureza, o acaso, o destino, o imponderável etc.). Com as folhas, ele toma um banho e se chicoteia, cena assistida pela selvagem Ingeri, que lhe contara tudo o que se passou na floresta.

  

   A cena da matança é pungente, tanto quanto a do estupro. A morte do garoto inocente, irmão dos assassinos, nos choca também. Mas dentro do universo narrativo seria justificável, ainda que isso choque alguns: teria sido uma escolha consciente do diretor, que queria talvez igualar os atos bestiais para assim, dessa forma, pôr em evidência e explicitar artisticamente o tema da vingança, ou melhor, da busca e necessidade de vingança?

   O jogo de preto-e-branco tira toda e qualquer possibilidade de sentimentalismos e vulgaridade da cena da matança. Há sobriedade na crueldade!

   É um filme desagradável para alguns? Sim, pode ser. Mas é tudo deveras realista: os dentes podres dos personagens, seu modo de comer, que serve para acentuar ainda mais o deslubramento de quem o assiste com olhos e mente abertos.

   

   A catarse final é muito bem dosada e precisa.

   Um filme que ainda despertará fascínio por muitos e muitos anos.

   Bergman disse, sobre esse filme:

O que realmente me interessou foi a verdadeira e horrível história da garota e seus estupradores e a vingança que segue. Meu próprio conflito com a religião era algo fora de escopo.

   Todo gênio é modesto.

   

   E ele também disse que o filme foi, na verdade, uma grande homenagem ao cinema de Akira Kurosawa, da época dos samurais.

  

Obs.: Aqui de novo foram escolhidos apenas alguns trechos sem a pretensão (e a capacidade) de esgotar tal obra artística.

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Ao som de Johann Sebastian Bach

 

O passado palpável em MORANGOS SILVESTRES

    Dando seqüência à minha retrô particular de Ingmar Bergman:

  

    O eminente Professor Isak Borg acorda (perturbado por um sonho em que vê sua própria morte) bem cedo no  dia em que vai receber um titúlo honorífico. Decide ir de carro com sua nora Marianne (a estonteantemente bela Ingrid Thulin) até a universidade. No caminho, ela o critica por ser frio, o que o leva a examinar sua vida. Ele que, embora voltado à ciência e com uma carreira bem-sucedida como médico, era tão egoísta quando se tratava do trato com os outros.

   Eles param numa casa onde ele viveu por vinte anos e se lembra da rejeição por parte da bela Sara. Logo depois, eles dão carona a três jovens: uma garota (também chamada Sara, e interpretada pela mesma atriz, uma das favoritas de Bergman, Bibi Andersson) – em cuja aparência e atitude desafiadora e autoconfiante há semelhanças óbvias com a Sara do passado – e dois rapazes. Eles se envolvem num acidente. O marido e a esposa que estão no outro carro juntam-se ao grupo do professor, mas o casal briga, e Marianne os manda sair.

 

Na paz que se segue, o velho professor sonha de novo, dessa vez com um fracasso (o qual ele não viveu) em um teste de competência profissional. Ele acorda e param para visitar a mãe dele, de 96 anos, cuja frieza para com o filho choca Marianne. Eles chegam à universidade e o médico recebe as honrarias. Quando o dia termina, ele faz sua primeira tentativa para romper a “cela” de frieza que ele construíra e na qual vivera por quase toda sua vida.

  

  Viajar ao passado particular. Rever e reavaliar as próprias vivências. O onírico a abrir sendas que conduzem a uma profunda análise de momentos-chave e incidentes definidores da vida e de suas escolhas. São esses, basicamente, os temas por trás do fascínio que Morangos Silvestres (Smultronstället, 1957) ainda desperta, passados mais de cinqüenta anos de seu lançamento. Afinal, quem nunca um dia teve um sonho relacionado a uma experiência vivida há muito tempo? Ou ainda: quem nunca desejou voltar a um ponto específico de sua própria vida e assim, de forma retroativa, mudar algo ali que ocasionaria mudanças relevantes no futuro daquela pessoa?

  O eminente Professor Borg, no final de uma vida dedicada à ciência, passa a ter sonhos que o incomodam: o primeiro sonho, numa das mais famosas seqüências oníricas da história do cinema, se vê perdido numa parte desconhecida da cidade. A solidão é total ali. Ouvimos o bater de um coração. Um sol forte, com a imagem acentuada por um branco claustrofóbico, nos passa a sensação exata que sente o velho professor, que caminha pela calçada, na qual os estabelecimentos todos são fechados por tábuas, em vez de janelas. Um relógio grande sem ponteiros (representando o inescrutável da precária existência humana: a morte?); uns olhos estilizados numa placa logo abaixo do misterioso relógio; um vulto de um homem de costas, do qual Borg se aproxima para constatar ser uma figura de semblante surreal e que desaba na calçada, agora sem cabeça a esvair-se em um líquido. E o mais aterrador de tudo: uma carroça sem condutor puxada por cavalos desgovernados trazendo um caixão. A roda dianteira traseira da carroça fica presa num poste de luz, é arrancada e vai rolando e quase “atropela” o pasmo e assustado professor, que a tudo vê encostado a uma parede. Com o esforço para sair dali, o carroça se inclina: o caixão cai ao meio-fio e a surreal condução fúnebre se vai, virando uma esquina. E desaparece. O silêncio volta. O professor vê uma mão saindo do esquife. Ele se aproxima. E percebe a mão a se movendo para fora do caixão e, surpreso ao extremo, vê seu próprio corpo se levantando dali. Ele desperta, ainda receoso de abrir os olhos.

 

   Começa assim o seu grande dia. A partir desse sonho, ele mudará. E muito! Desperto, ele caminha até o quarto de sua ajudante de tantos anos e lhe diz que irá até Lund (para a grande cerimônia de entrega do prêmio honorífico) de carro, e não de avião, conforme o planejado. Ou seja, lemos nas entrelinhas: algo “estalou” na cabeça do velho professor com o sonho. Ela passa a ter a vontade de rever algo, de resgatar uma certa “coisa” em seu passado. Com a visão da própria morte, ele revê suas atitudes, tudo em virtude de um senso de urgência despertado pela morte iminente que é imprecisa no tempo (lembram do relógio sem ponteiros?), mas certa, porque inescapável.

   Há uma pitada de ironia: Borg era um médico, alguém, supostamente, que tinha de ser voltado e dedicado ao outro. Mas ele vivera apenas uma fachada: num contraponto (muito usado na filmografia de Bergman), acentua-se ainda mais o contraste entre o homem frio por dentro mas por fora aparentemente (numa dissonância ainda mais incômoda para ele) um “defensor da humanidade”.

   O filme é interessante ao extremo por lidar com esse campo tão bem explorado por Bergman: o passado que insiste em não morrer, em nos influenciar e o campo dos sonhos, nos quais se escondem nossos receios e desejos e fobias e as mais recônditas verdades e quase-verdades. Portanto, num plano psicanalítico, o filme também é rico.

   E tem várias passagens antológicas: Borg senta-se numa clareira perto da casa em que morou e passa a devanear. Esse devaneio o leva ao passado. E aí há o cruzamento entre o presente e o passado: ele volta a um dia de sua longínqua juventude e vê sua amada Sara, seus irmãos e irmãs, entra na casa e vê um almoço, no qual estão quase todos presentes. Todos no auge de suas vidas. Nesse cruzamento, nessa intersecção entre o presente e o passado, temos o vislumbre ou a impressão que o último, ainda que distante, é algo palpável, mensurável e possível de ser revivido e, daqui, do presente, reavaliado, o que é mais importante. O velho e eminente professor, que pela vida afora fora tão distante para com os outros, passa a reavaliar, num prisma crítico, suas próprias atitudes. Dessa forma, uma catarse o “transforma” internamente: a reavaliação e revalorização da vida acontece.

    

   Bergman mostra tudo isso não de um ponto de vista piegas. Não há sentimentalismos ali. É tudo tão crível nesse filme, que nós, prontamente, sentimos uma grande empatia para com o protagonista, ele que vai às ruas raízes para ver de um outro ponto de vista sua vida, suas vivências.

   O quase misantropo Professor se abre para a vida, em seu ocaso. Mas a tempo ainda de ter um momento de paz, de contentamento e de “sentido” para sua existência. A cortina, então, poderia cair.

   A seqüência do sonho em que ele é testado por uma banca examinadora também tem um quê de surreal absolutamente inesquecível. Quando, logo mais, ele “vê” (revivê, se me permitem o neologismo canhestro) a traição de sua mulher, o examinador (que era o marido sem noção que humilhara a esposa e a quem o grupo de Borg dera carona e fora expulso do carro), temos uma aula do que é um diretor (ainda que os procedimentos usados por ele hoje em dia pareçam “manjados” e até mesmo ingênuos) voltado à exploração do dificílimo descortinamento de nosso vasto e complexo mundo interior.

 

   A interpretação do lendário mestre Victor Sjöström (que foi um dos grandes diretores do cinema mudo sueco e fez sucesso também nos EUA) no papel é tão convincente que no final nos deixa uma sensação de saber o que é de fato uma interpretação. Ele simplesmente, aos 78, já fraco e debilitado, é o centro de tudo ali!

   O filme levanta outras questões, múltiplas, obviamente. Aqui, este blogueiro bissexto e crítico de coisa nenhuma, apenas um inquieto e curioso intelectualmente, preferiu escolher alguns aspectos que o interessaram, a saber: a volta ao próprio passado, a questão do tempo, a junção de realidades distantes, temporalmente e, acima de tudo, a magia do que é vivenciar uma obra de arte que nos desvenda e nos torna mais ricos interiormente.

 

O Sétimo Selo, na visão de Woody Allen.

E, como complemento do texto anterior, com a palavra, o grande Allen:

 The Seventh Seal was always my favourite film, and I remember seeing it with a small audience at the old New Yorker Theatre. Who would have thought that the subject matter could yield such a pleasurable experience? If I described the story and tried to persuade a friend to watch it with me, how far would I get? ‘Well,’ I’d say, ‘it takes place in a plague-ridden medieval Sweden and explores the limits of faith and reason based on Danish—and some German—philosophical concepts.’ Now this is hardly anyone’s idea of a good time, and yet it’s all dealt off with such stupendous imagination, suspense, and flair that one sits riveted like a child at a harrowing fairy tale. Suddenly the black figure of Death appears on the seashore to claim his victim, and the Knight of Reason challenges him to a chess game, trying to stall for time and discover some meaning to life. The tale engages and stalks forward with sinister inevitability. Again, the images are breathtaking! The flagellants, the burning of the witch (worthy of Carl Dreyer), and the finale, as Death dances off with all the doomed people to the nether lands in one of the most memorable shots in all movies.

Woody Allen, “Through a Life Darkly,” New York Times Book Review (1988)

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Ao som de Bill Evans, THE BILL EVANS ALBUM

Retrô particular de Bergman: O Sétimo Selo.

 

O que faz alguém assistir a filmes de cinqüenta anos atrás e achar que eles ainda nos dizem algo neste início de milênio, neste mundo de “vastas emoções e pensamentos imperfeitos”? Nesta época de hipérboles, de novidades logo descartadas, de dinamismo, de consumismo desenfreado, de pós-pós-modernismo, de culto ao corpo, de hedonismo vulgar, de superficialidades lucrativas e asco ao pensar e a tudo que cheire mero resquício de profundidade? Nestes dias em que o cinema se tornou uma máquina de fazer dinheiro, celebridades e de ditar modismos? O que nos diriam filmes de um país escandinavo, lá da década em que o Brasil vivia a Bossa Nova, faturava ali mesmo pela primeira vez uma Copa do Mundo e o velho JK começava a gastança em que daria naquilo que todos conhecemos? Filmes de um diretor que ganharia a fama de complexo, de profundo, de vasculhador dos escaninhos da alma humana e, portanto, numa palavra, supostamente enfadonho? Em que tais filmes poderiam nos fazer melhores, hoje em dia? 

 

As grandes obras de arte, as clássicas, dão aquela impressão errônea de que sobre elas já se disse tudo. Mas que ledo engano! Segundo Italo Calvino, clássico (ele se refere especificamente a obras literárias, mas podemos também nos referir às diferentes manifestações artísticas) é justamente aquela obra que nunca cessa de nos dizer algo, um produto do engenho humano que sempre apresenta leituras milagrosamente ricas, múltiplas e sem limites. Os limites ficam apenas para os que optam pelo fácil, pelo raso, e, dessa forma, se limitam ao já dito, que se torna, por assim dizer, mais um dogma no já imensurável acervo de dogmas da humanidade.

Como não costumo lançar mão desse acervo, o que tenho a falar de O Sétimo Selo e Morangos Silvestres, de Bergman? O primeiro deixei para fechar o ano. O segundo, para abrir este que começa (Claro que a escolha das datas pode ser atribuída a uma idiossincrasia fútil). A ambos já assisti outras vezes. Mas confesso que o primeiro sempre me fascinou e o assisti muitas outras vezes, a primeira sendo há alguns anos numa fita de VHS em petição de miséria.

O que segue é apenas um apanhado de idéias que jamais poderiam transcender o exíguo espaço de um texto de um blog.

O Sétimo Selo é conhecido por todos aqueles que se importam em ter uma visão diacrônica do cinema. O enredo factual: Suécia, século 11. Aves agourentas voam num céu sombrio e uma música acidental nos apresenta a um mundo sob perigo. Uma voz lê uma passagem do livro de Apocalipse: “Quando o Cordeiro abriu o sétimo selo, houve no céu um silêncio de meia hora…”. Antonius Block (Max von Sydow, o padre do filme O EXORCISTA) retorna das Cruzadas com seu escudeiro Jons (Gunnar Björnstrand). Numa praia deserta, Block desperta, vai até o mar, lava o rosto. Os cavalos, cansados da longa viagem, se refrescam. O cavaleiro dá um pontapé leve em seu companheiro que dormia estendido nas pedras. Antonius, já refeito do sono, ajoelha-se para orar. Mas… intuímos que aquele homem que foi para as terras longínquas para defender a fé cristã já não apresenta o ardor que se espera de um cruzado, ao se dirigir ao seu deus. Aqui já percebemos que sua crise existencial irá girar em torno da crença/descrença em um Deus magnânimo. O que ele irá ver nesse retorno à sua terra irá apenas acentuar o seu ceticismo, a sua perda de fé.

A Morte (Bengt Ekerot), uma figura de vestes negras e de face branca acentuada, vem lhe buscar. Era o tempo em que a Peste Negra arrasava a Europa e a senhora “indesejada das gentes” andava muito ocupada. Tempos de obscurantismo. Ela se aproxima de Antonius quando esse estava arrumando alguns de seus apetrechos de viajante, entre eles, um tabuleiro de xadrez. Ele nota sua presença e lhe pergunta quem é. Ela se identifica e o destemido e experiente cavaleiro não a teme. Apesar de saber que ela nunca perde (no plano simbólico: dela ninguém escapa), mesmo assim ele propõe à sombria figura que joguem uma partida de xadrez. Ela aceita, fica com as pedras pretas (“Apropriado, não?”, diz) e aí temos uma das cenas mais antológicas do cinema. No plano pictórico, cinematográfico, artístico e metafísico, é de uma riqueza imagética sem tamanho. De um lado do tabuleiro, a Morte, a “coisa mais certa das incertezas num mundo instável” e de outro um humano, ser frágil, apesar de seu engenho e sua sede imensurável de dominar o mundo. O jogo começa, mas seu resultado já conhecemos.

Antonius e seu escudeiro, montados em seus cavalos, saem a explorar as redondezas. Jons canta uma canção que podemos deduzir que já foi cantada por Antonius em outras ocasiões. Mas quando Jons pára num trecho em que ele pensa que o companheiro irá completar, vemos que a expressão de Antonius é a de um homem perdido em seus pensamentos nada despreocupados. Mesmo assim continua sua cantoria. Num dado momento, ambos vislumbram uma figura encapuzada sentada junto a uma pedra. Jons desce de seu cavalo e se dirige até o desconhecido. Ao perceber que não é esboçada nenhuma reação à sua pergunta (“Onde é a taverna?”) dirigida àquela figura enigmática, Jons se inclina para constatar que ali está um cadáver em avançado estado de putrefação. E assim, entramos no clima criado por Bergman: morte, incerteza, dúvidas, perda da fé.

Esse foi o primeiro núcleo de personagens.

O segundo: o casal de artistas saltimbancos e seu filhinho de colo. Temos então algo interessante aqui. É uma característica do diretor sueco o reforço de uma idéia por contraposição. Ou seja: o jogo de antíteses. Se no primeiro núcleo de personagens temos a falta de fé, a descrença que se instala, a dureza de um coração calejado por uma guerra insana, por parte de Antonius, e o cinismo, o embotamento da sensibilidade, a luxúria representados por Jons, agora temos a alegria, a fé (o saltimbanco, e nós com ele, vê uma imagem divina), a pureza de intenções, a força da vida que se impõe frente as circunstâncias mais árduas e o conforto da arte. Jof (Nils Poppe), Mia (Bibi Andersson) e seu filhinho Mikael são a representação exata daquilo que veremos ainda pela frente ao acompanharmos o filme.

Mas paro por aqui de seguir o roteiro factual. E passo a ver alguns dos símbolos, as metáforas. Ou seja, o roteiro das idéias, vá lá. Bem entendido: daquilo que me despertou algumas reflexões.

O mundo daquela época é uma metáfora de nosso mundo. Os sofrimentos (e a angústia que os acompanha) são, apesar das diferenças de contexto e de época, sentidos da mesma maneira hoje. A que apelar num mundo de tanto sofrimento? Mas que Deus seria esse que veria tanto sofrimento (a Peste Negra de então, as nossas várias “pestes negras” e de todos os matizes cromáticos atuais) e não faria nada? Do que adianta ir às Cruzadas (defender uma religião) se aquele pelo qual o homem tanto se esforça em batalhas ainda assim permite tanta dor, tanta miséria e sofrimento no mundo que Ele mesmo criou?

[Notem bem: aqui apenas estou no campo das teorias, das suposições: não quer dizer que defenda nenhum dos dois pontos de vista].

A conversa (aos 18 minutos e 40 segundos de projeção) no confessionário entre Antonius e a Morte, que se disfarçou de padre para melhor saber das confissões do cético principiante e outrora cruzado, ”fala” por si:

 

 

ANTONIUS: Quero confessar com sinceridade, mas meu coração está vazio. O vazio é um espelho que reflete no meu rosto. Vejo minha própria imagem e sinto repugnância e medo. Pela indiferença ao próximo, fui rejeitado por ele. Vivo num mundo assombrado, fechado em minhas fantasias.

MORTE: Agora quer morrer? [Digamos que ela não tem muita criatividade para trazer assuntos à tona...] 

ANTONIUS: Sim, eu quero.

MORTE (interessada): E pelo que espera?

ANTONIUS: Pelo conhecimento.

MORTE: Quer garantias?

ANTONIUS: Chame como quiser. (Ajoelha-se na penumbra e com voz embargada, na qual há a dor da dúvida). É tão inconcebível tentar compreender Deus? Por que Ele se esconde em promessas e milagres que não vemos? Como podemos ter fé se não temos fé em nós mesmos? (Corte para a imagem do semblante de um Cristo crucificado). O que acontecerá com aqueles que não querem ter fé ou não têm? Por que não posso tirá-lO de dentro de mim? Por que Ele vive em mim de uma forma humilhante apesar de amaldiçoá-lO e tentar tirá-lO do meu coração? (A camêra fecha no semblante da Morte que escuta a tudo atentamente e de forma fria) Por que, apesar de Ele ser uma falsa realidade eu não consigo ficar livre? Você me ouviu? 

MORTE:  Sim, ouvi.

ANTONIUS: Quero conhecimento, não fé ou presunção. Quero que Deus estenda as mãos para mim, que mostre Seus rosto, que fale comigo.

MORTE: Mas ele fica em silêncio.

ANTONIUS: Eu O chamo no escuro mas parece que ninguém me ouve.

MORTE: Talvez não haja ninguém.

ANTONIUS: A vida é um horror. Ninguém consegue conviver com a morte e na ignorância de tudo.

MORTE (Pensativa, como que ressentida): As pessoas quase nunca pensam na morte.

ANTONIUS: Mas um dia terão de olhar para a escuridão.

MORTE: (Sorriso quase imperceptível de triunfo) Sim, um dia.

ANTONIUS: Eu entendo. Temos de imaginar como é o medo e chamar essa imagem de Deus.

(…) 

 

Aí está o mais fascinante diálogo do cinema que gira em torno da existência ou não de Deus. No decorrer do filme há muitos outros momentos de “embate” entre razão e fé. Antonius queria mais um tempo para ter a certeza de que sua quase morta fé ainda recobrasse o antigo vigor. Mas, pobre Antonius, aquilo com o qual ele irá se deparar é apenas e tão-somente um reforço para o ocaso de sua fé.

Jons, o esqudeiro, enquanto isso, conversa com o pintor (Gunnar Olsson) nada crente (o artista, alheio a tudo que não fosse sua arte) que trabalhava num afresco da velha igreja. Outro símbolo: a arte a resistir aos solavancos da vida, ao sofrimento e indiferente a questionamentos de natureza religiosa, pois ela, a arte, é um universo todo próprio, que prescinde de tudo aquilo que não a interessa para continuar a existir. Jons, o cínico descrente de tudo, diz ao pintor que ele e seu senhor haviam acabado de chegar das Cruzadas, onde passaram dez anos:

JONS: … sendo mordidos por cobras, mosquitos e animais selvagens, assassinados por pagãos, envenenados pelo vinho, infestados por piolhos que nos devoravam e a febre que matava. [Aumentando a voz, com ironia cáustica e descrença total]. Tudo pela glória de Deus. [Ambos se persignam]. A Cruzada foi uma tolice que só um idealista inventaria. [Ambos explodem numa gargalhada que contrasta em tudo com o ambiente em que estão].

Um pouco antes, o pintor havia explicado a Jons o que era um certo quadro que chamou a atenção do escudeiro desbocado:

 

PINTOR: Isso [representa] a Dança da Morte.

JONS: E essa é a Morte?

PINTOR: Sim, ela dança com todos.

JONS: Por que pinta isso?

PINTOR: Para todos lembrarem que morrerão.

JONS: Não vão ficar felizes.

PINTOR:Têm sempre que ficar felizes?

JONS: Às vezes é bom assustá-los.

PINTOR: Não vão olhar a pintura.

JONS: Claro que vão. Um crânio é mais interessante que uma mulher nua.

Se assustar as pessoas…

PINTOR: Se assustar as pessoas…?

JONS: Se assustar as pessoas elas vão pensar e ficar mais assustadas.

Vão correr para os padres.

PINTOR: Não é problema meu.

JONS: Continuará sua pintura?

PINTOR: Sim, e cada um vê como quer.

JONS: Muitos o amaldiçoarão.

PINTOR: Sim, mas depois pintarei algo que as agrade. Preciso viver, pelo menos até a Peste me pegar.

JONS: [Visivelmente incomodado]: A Peste? Desagradável.

PINTOR: Veja como as pessoas ficam com o pescoço inchado.

(…)

 

E no final da descrição dos padecimentos horripilantes de que padece alguém contagiado pela terrível doença, Jons, o cético, o até então sangue-frio, mostra todo seu medo, seu pavor e, portanto, sua fragilidade e precariedade como ser humano finito e mortal.

A fala do pintor é uma metáfora. Ele falaria no nome de todos os artistas, de todos os verdadeiros criadores da arte. O “papel” deles seria o de serem mensageiros, aqueles que estariam incumbidos de mostrar as múltiplas realidades, mesmo sob o risco de não serem compreendidos, mesmo que afirmem que aquilo que eles mostram é desagradável.

Escolhi algumas passagens apenas para não ficar cansativo, mais do que já está, este texto. O filme é uma alegoria, talvez uma das mais terríveis, da luta entre o temporal e aquilo que supostamente seria permanente, além dos limites temporais. Numa palavra: eterno. A luta entre as questões da fé e as circunstâncias mesmas que dilapidariam essa base religiosa. Bergman não nos induz ao ateísmo, como li por aí. Ele nos apresenta apenas a um universo no qual há margem para o ceticismo, mas um ceticismo crível, se me permitem a expressão. Crível, pois por meio de um neo-expressionismo, vivenciamos toda aquela atmosfera e somos que (nem todos, claro) afetados por aquelas dúvidas, aqueles questionamentos, tendo em vista o conflito entre a realidade austera e certas concepções que não mais descreveriam aquela realidade. Jons, Block, a família de artistas, o pintor, a mulher adúltera e seu marido traído e logo depois consolado, o ex-teólogo que se tornou em dez anos um ladrão de mortos e estuprador e outras figuas mais, todos os personagens são construídos e apresentados como representantes do mundo de então e o atual também.

Outra frase antológica, agora sobre o amor, é dita também por Jons. É quando ele está consolando o rústico ferreiro Plog (Åke Fridell), recém-abandonado por sua mulher (Inga Gill) numa cena hilária, na qual há muito de dança e encenação mambembe. Aliás, ver aquele brutamontes se derramando em choros é de fato “tocante”:

Lá pelas tantas, depois de colocar o conceito das mulheres no chão, Jons lhe diz:

Se tudo é imperfeito neste mundo imperfeito, então o amor é imperfeito em sua imperfeição.

Cenas antológicas: a da procissão de penitentes e a música que a acompanha, tudo bem realista para a época em que foi feito o filme e de uma carecterização notável dos figurantes; logo em seguida o discurso de um monge (o estupendo Anders Ek, que fez Frost, em Noites de Circo, sobre o qual você pode ler em um texto abaixo) colocando na lona a auto-estima de todos aqueles ouvintes; a da “calmaria”, um fugaz momento quando Block, Jof, Mia, Jons e uma garota muda (Gunnel Lindblom, ela que terá um papel importante no final, cuja surpresa não contarei.  É ela que o escudeiro salvou no último momento antes de ser estuprada. Mas não por bondade, pois logo em seguida ele a tentaria beijar à força e a trataria como uma serva), reunidos numa relva ao som de pássaros, vivem aquele instante de uma paz efêmera; e por fim toda a seqüência final, clássica até o limite. Como disse, não contaria aqui o desfecho.

É um mundo de condenados, de devassidão, de miséria espiritual e material. Quem se salvaria? O segredo se revela no final. Assista e tire suas conclusões sobre o porquê.

Eis um filme que me desperta muita atenção. É de fato o meu filme favorito. Pela ousadia, pelas idéias que suscita, pela maestria em não apenas contar uma história, mas de fazer uma radiografia atual e precisa dos temores que assaltava e ainda assaltam o ser humano, ou a maior parte deles, independentemente de ter sido feito há 51 anos.

O SÉTIMO SELO sempre está na lista dos mais importantes filmes já realizados. Sua perenidade é incontestável. Seu alcance é universal e atemporal.

Mas não pensem que tudo é sombrio neste filme. Há “respiradouros”: momentos de humor, que Bergman usou para causar uma certa distensão, um afrouxar do arco. Ou seja: uma forma de quebrar um pouco a rigidez, sem o qual o filme se tornaria extremamente “pesadão”, excessivamente “carregado”. Um desses momentos é quando a Morte serra a árvore na qual está um ator, na verdade o ator-chefe que abandonara, ao fugir com a esposa do ferreiro, a trupe de Jof. É de um humor negro. Literalmente. Há outros momentos, poucos, mas eficazes do ponto de vista do roteiro.

A fotografia em preto-e-branco de Guinar Fischer é perfeita.

Corra, deixe seu preconceito, saia dessa fôrma que são os filmes blockbuster atuais, use suas retinas a favor de seu cérebro e assista a esse filme. Veja e se deixe levar pelo seu intelecto e por sua sensibilidade. Garanto que você sairá enriquecido. Ingmar Bergman não é, nunca foi e nem tampouco será propriedade dos intelectualóides dos quatro cantos do mundo. Ele apenas pede de você uma maior “abertura”.

Eis um filme eterno.

 

 

Obs.: Ele suscita outras muitas interpretações. Aqui não se procurou (nem se conseguiria) esgotar todas essas possibilidades. Trata-se apenas um comentário fadado a se perder no anonimato da Grande Teia.

 

 

O SÉTIMO SELO

Título Original: Det Sjunde Inseglet
País de Origem: Suécia
Ano: 1957
Duração: 96min
Diretor: Ingmar Bergman.
Elenco: Max von Sydow, Gunnar Börnstränd, Bengt Ekerot e Bibi Andersson.

 

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Ao som do álbum Giant Steps, de John Coltrane

 

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