O que faz alguém assistir a filmes de cinqüenta anos atrás e achar que eles ainda nos dizem algo neste início de milênio, neste mundo de “vastas emoções e pensamentos imperfeitos”? Nesta época de hipérboles, de novidades logo descartadas, de dinamismo, de consumismo desenfreado, de pós-pós-modernismo, de culto ao corpo, de hedonismo vulgar, de superficialidades lucrativas e asco ao pensar e a tudo que cheire mero resquício de profundidade? Nestes dias em que o cinema se tornou uma máquina de fazer dinheiro, celebridades e de ditar modismos? O que nos diriam filmes de um país escandinavo, lá da década em que o Brasil vivia a Bossa Nova, faturava ali mesmo pela primeira vez uma Copa do Mundo e o velho JK começava a gastança em que daria naquilo que todos conhecemos? Filmes de um diretor que ganharia a fama de complexo, de profundo, de vasculhador dos escaninhos da alma humana e, portanto, numa palavra, supostamente enfadonho? Em que tais filmes poderiam nos fazer melhores, hoje em dia?
As grandes obras de arte, as clássicas, dão aquela impressão errônea de que sobre elas já se disse tudo. Mas que ledo engano! Segundo Italo Calvino, clássico (ele se refere especificamente a obras literárias, mas podemos também nos referir às diferentes manifestações artísticas) é justamente aquela obra que nunca cessa de nos dizer algo, um produto do engenho humano que sempre apresenta leituras milagrosamente ricas, múltiplas e sem limites. Os limites ficam apenas para os que optam pelo fácil, pelo raso, e, dessa forma, se limitam ao já dito, que se torna, por assim dizer, mais um dogma no já imensurável acervo de dogmas da humanidade.
Como não costumo lançar mão desse acervo, o que tenho a falar de O Sétimo Selo e Morangos Silvestres, de Bergman? O primeiro deixei para fechar o ano. O segundo, para abrir este que começa (Claro que a escolha das datas pode ser atribuída a uma idiossincrasia fútil). A ambos já assisti outras vezes. Mas confesso que o primeiro sempre me fascinou e o assisti muitas outras vezes, a primeira sendo há alguns anos numa fita de VHS em petição de miséria.
O que segue é apenas um apanhado de idéias que jamais poderiam transcender o exíguo espaço de um texto de um blog.
O Sétimo Selo é conhecido por todos aqueles que se importam em ter uma visão diacrônica do cinema. O enredo factual: Suécia, século 11. Aves agourentas voam num céu sombrio e uma música acidental nos apresenta a um mundo sob perigo. Uma voz lê uma passagem do livro de Apocalipse: “Quando o Cordeiro abriu o sétimo selo, houve no céu um silêncio de meia hora…”. Antonius Block (Max von Sydow, o padre do filme O EXORCISTA) retorna das Cruzadas com seu escudeiro Jons (Gunnar Björnstrand). Numa praia deserta, Block desperta, vai até o mar, lava o rosto. Os cavalos, cansados da longa viagem, se refrescam. O cavaleiro dá um pontapé leve em seu companheiro que dormia estendido nas pedras. Antonius, já refeito do sono, ajoelha-se para orar. Mas… intuímos que aquele homem que foi para as terras longínquas para defender a fé cristã já não apresenta o ardor que se espera de um cruzado, ao se dirigir ao seu deus. Aqui já percebemos que sua crise existencial irá girar em torno da crença/descrença em um Deus magnânimo. O que ele irá ver nesse retorno à sua terra irá apenas acentuar o seu ceticismo, a sua perda de fé.
A Morte (Bengt Ekerot), uma figura de vestes negras e de face branca acentuada, vem lhe buscar. Era o tempo em que a Peste Negra arrasava a Europa e a senhora “indesejada das gentes” andava muito ocupada. Tempos de obscurantismo. Ela se aproxima de Antonius quando esse estava arrumando alguns de seus apetrechos de viajante, entre eles, um tabuleiro de xadrez. Ele nota sua presença e lhe pergunta quem é. Ela se identifica e o destemido e experiente cavaleiro não a teme. Apesar de saber que ela nunca perde (no plano simbólico: dela ninguém escapa), mesmo assim ele propõe à sombria figura que joguem uma partida de xadrez. Ela aceita, fica com as pedras pretas (“Apropriado, não?”, diz) e aí temos uma das cenas mais antológicas do cinema. No plano pictórico, cinematográfico, artístico e metafísico, é de uma riqueza imagética sem tamanho. De um lado do tabuleiro, a Morte, a “coisa mais certa das incertezas num mundo instável” e de outro um humano, ser frágil, apesar de seu engenho e sua sede imensurável de dominar o mundo. O jogo começa, mas seu resultado já conhecemos.
Antonius e seu escudeiro, montados em seus cavalos, saem a explorar as redondezas. Jons canta uma canção que podemos deduzir que já foi cantada por Antonius em outras ocasiões. Mas quando Jons pára num trecho em que ele pensa que o companheiro irá completar, vemos que a expressão de Antonius é a de um homem perdido em seus pensamentos nada despreocupados. Mesmo assim continua sua cantoria. Num dado momento, ambos vislumbram uma figura encapuzada sentada junto a uma pedra. Jons desce de seu cavalo e se dirige até o desconhecido. Ao perceber que não é esboçada nenhuma reação à sua pergunta (“Onde é a taverna?”) dirigida àquela figura enigmática, Jons se inclina para constatar que ali está um cadáver em avançado estado de putrefação. E assim, entramos no clima criado por Bergman: morte, incerteza, dúvidas, perda da fé.
Esse foi o primeiro núcleo de personagens.
O segundo: o casal de artistas saltimbancos e seu filhinho de colo. Temos então algo interessante aqui. É uma característica do diretor sueco o reforço de uma idéia por contraposição. Ou seja: o jogo de antíteses. Se no primeiro núcleo de personagens temos a falta de fé, a descrença que se instala, a dureza de um coração calejado por uma guerra insana, por parte de Antonius, e o cinismo, o embotamento da sensibilidade, a luxúria representados por Jons, agora temos a alegria, a fé (o saltimbanco, e nós com ele, vê uma imagem divina), a pureza de intenções, a força da vida que se impõe frente as circunstâncias mais árduas e o conforto da arte. Jof (Nils Poppe), Mia (Bibi Andersson) e seu filhinho Mikael são a representação exata daquilo que veremos ainda pela frente ao acompanharmos o filme.
Mas paro por aqui de seguir o roteiro factual. E passo a ver alguns dos símbolos, as metáforas. Ou seja, o roteiro das idéias, vá lá. Bem entendido: daquilo que me despertou algumas reflexões.
O mundo daquela época é uma metáfora de nosso mundo. Os sofrimentos (e a angústia que os acompanha) são, apesar das diferenças de contexto e de época, sentidos da mesma maneira hoje. A que apelar num mundo de tanto sofrimento? Mas que Deus seria esse que veria tanto sofrimento (a Peste Negra de então, as nossas várias “pestes negras” e de todos os matizes cromáticos atuais) e não faria nada? Do que adianta ir às Cruzadas (defender uma religião) se aquele pelo qual o homem tanto se esforça em batalhas ainda assim permite tanta dor, tanta miséria e sofrimento no mundo que Ele mesmo criou?
[Notem bem: aqui apenas estou no campo das teorias, das suposições: não quer dizer que defenda nenhum dos dois pontos de vista].
A conversa (aos 18 minutos e 40 segundos de projeção) no confessionário entre Antonius e a Morte, que se disfarçou de padre para melhor saber das confissões do cético principiante e outrora cruzado, ”fala” por si:
ANTONIUS: Quero confessar com sinceridade, mas meu coração está vazio. O vazio é um espelho que reflete no meu rosto. Vejo minha própria imagem e sinto repugnância e medo. Pela indiferença ao próximo, fui rejeitado por ele. Vivo num mundo assombrado, fechado em minhas fantasias.
MORTE: Agora quer morrer? [Digamos que ela não tem muita criatividade para trazer assuntos à tona...]
ANTONIUS: Sim, eu quero.
MORTE (interessada): E pelo que espera?
ANTONIUS: Pelo conhecimento.
MORTE: Quer garantias?
ANTONIUS: Chame como quiser. (Ajoelha-se na penumbra e com voz embargada, na qual há a dor da dúvida). É tão inconcebível tentar compreender Deus? Por que Ele se esconde em promessas e milagres que não vemos? Como podemos ter fé se não temos fé em nós mesmos? (Corte para a imagem do semblante de um Cristo crucificado). O que acontecerá com aqueles que não querem ter fé ou não têm? Por que não posso tirá-lO de dentro de mim? Por que Ele vive em mim de uma forma humilhante apesar de amaldiçoá-lO e tentar tirá-lO do meu coração? (A camêra fecha no semblante da Morte que escuta a tudo atentamente e de forma fria) Por que, apesar de Ele ser uma falsa realidade eu não consigo ficar livre? Você me ouviu?
MORTE: Sim, ouvi.
ANTONIUS: Quero conhecimento, não fé ou presunção. Quero que Deus estenda as mãos para mim, que mostre Seus rosto, que fale comigo.
MORTE: Mas ele fica em silêncio.
ANTONIUS: Eu O chamo no escuro mas parece que ninguém me ouve.
MORTE: Talvez não haja ninguém.
ANTONIUS: A vida é um horror. Ninguém consegue conviver com a morte e na ignorância de tudo.
MORTE (Pensativa, como que ressentida): As pessoas quase nunca pensam na morte.
ANTONIUS: Mas um dia terão de olhar para a escuridão.
MORTE: (Sorriso quase imperceptível de triunfo) Sim, um dia.
ANTONIUS: Eu entendo. Temos de imaginar como é o medo e chamar essa imagem de Deus.
(…)
Aí está o mais fascinante diálogo do cinema que gira em torno da existência ou não de Deus. No decorrer do filme há muitos outros momentos de “embate” entre razão e fé. Antonius queria mais um tempo para ter a certeza de que sua quase morta fé ainda recobrasse o antigo vigor. Mas, pobre Antonius, aquilo com o qual ele irá se deparar é apenas e tão-somente um reforço para o ocaso de sua fé.
Jons, o esqudeiro, enquanto isso, conversa com o pintor (Gunnar Olsson) nada crente (o artista, alheio a tudo que não fosse sua arte) que trabalhava num afresco da velha igreja. Outro símbolo: a arte a resistir aos solavancos da vida, ao sofrimento e indiferente a questionamentos de natureza religiosa, pois ela, a arte, é um universo todo próprio, que prescinde de tudo aquilo que não a interessa para continuar a existir. Jons, o cínico descrente de tudo, diz ao pintor que ele e seu senhor haviam acabado de chegar das Cruzadas, onde passaram dez anos:
JONS: … sendo mordidos por cobras, mosquitos e animais selvagens, assassinados por pagãos, envenenados pelo vinho, infestados por piolhos que nos devoravam e a febre que matava. [Aumentando a voz, com ironia cáustica e descrença total]. Tudo pela glória de Deus. [Ambos se persignam]. A Cruzada foi uma tolice que só um idealista inventaria. [Ambos explodem numa gargalhada que contrasta em tudo com o ambiente em que estão].
Um pouco antes, o pintor havia explicado a Jons o que era um certo quadro que chamou a atenção do escudeiro desbocado:
PINTOR: Isso [representa] a Dança da Morte.
JONS: E essa é a Morte?
PINTOR: Sim, ela dança com todos.
JONS: Por que pinta isso?
PINTOR: Para todos lembrarem que morrerão.
JONS: Não vão ficar felizes.
PINTOR:Têm sempre que ficar felizes?
JONS: Às vezes é bom assustá-los.
PINTOR: Não vão olhar a pintura.
JONS: Claro que vão. Um crânio é mais interessante que uma mulher nua.
Se assustar as pessoas…
PINTOR: Se assustar as pessoas…?
JONS: Se assustar as pessoas elas vão pensar e ficar mais assustadas.
Vão correr para os padres.
PINTOR: Não é problema meu.
JONS: Continuará sua pintura?
PINTOR: Sim, e cada um vê como quer.
JONS: Muitos o amaldiçoarão.
PINTOR: Sim, mas depois pintarei algo que as agrade. Preciso viver, pelo menos até a Peste me pegar.
JONS: [Visivelmente incomodado]: A Peste? Desagradável.
PINTOR: Veja como as pessoas ficam com o pescoço inchado.
(…)
E no final da descrição dos padecimentos horripilantes de que padece alguém contagiado pela terrível doença, Jons, o cético, o até então sangue-frio, mostra todo seu medo, seu pavor e, portanto, sua fragilidade e precariedade como ser humano finito e mortal.
A fala do pintor é uma metáfora. Ele falaria no nome de todos os artistas, de todos os verdadeiros criadores da arte. O “papel” deles seria o de serem mensageiros, aqueles que estariam incumbidos de mostrar as múltiplas realidades, mesmo sob o risco de não serem compreendidos, mesmo que afirmem que aquilo que eles mostram é desagradável.
Escolhi algumas passagens apenas para não ficar cansativo, mais do que já está, este texto. O filme é uma alegoria, talvez uma das mais terríveis, da luta entre o temporal e aquilo que supostamente seria permanente, além dos limites temporais. Numa palavra: eterno. A luta entre as questões da fé e as circunstâncias mesmas que dilapidariam essa base religiosa. Bergman não nos induz ao ateísmo, como li por aí. Ele nos apresenta apenas a um universo no qual há margem para o ceticismo, mas um ceticismo crível, se me permitem a expressão. Crível, pois por meio de um neo-expressionismo, vivenciamos toda aquela atmosfera e somos que (nem todos, claro) afetados por aquelas dúvidas, aqueles questionamentos, tendo em vista o conflito entre a realidade austera e certas concepções que não mais descreveriam aquela realidade. Jons, Block, a família de artistas, o pintor, a mulher adúltera e seu marido traído e logo depois consolado, o ex-teólogo que se tornou em dez anos um ladrão de mortos e estuprador e outras figuas mais, todos os personagens são construídos e apresentados como representantes do mundo de então e o atual também.
Outra frase antológica, agora sobre o amor, é dita também por Jons. É quando ele está consolando o rústico ferreiro Plog (Åke Fridell), recém-abandonado por sua mulher (Inga Gill) numa cena hilária, na qual há muito de dança e encenação mambembe. Aliás, ver aquele brutamontes se derramando em choros é de fato “tocante”:
Lá pelas tantas, depois de colocar o conceito das mulheres no chão, Jons lhe diz:
Se tudo é imperfeito neste mundo imperfeito, então o amor é imperfeito em sua imperfeição.
Cenas antológicas: a da procissão de penitentes e a música que a acompanha, tudo bem realista para a época em que foi feito o filme e de uma carecterização notável dos figurantes; logo em seguida o discurso de um monge (o estupendo Anders Ek, que fez Frost, em Noites de Circo, sobre o qual você pode ler em um texto abaixo) colocando na lona a auto-estima de todos aqueles ouvintes; a da “calmaria”, um fugaz momento quando Block, Jof, Mia, Jons e uma garota muda (Gunnel Lindblom, ela que terá um papel importante no final, cuja surpresa não contarei. É ela que o escudeiro salvou no último momento antes de ser estuprada. Mas não por bondade, pois logo em seguida ele a tentaria beijar à força e a trataria como uma serva), reunidos numa relva ao som de pássaros, vivem aquele instante de uma paz efêmera; e por fim toda a seqüência final, clássica até o limite. Como disse, não contaria aqui o desfecho.
É um mundo de condenados, de devassidão, de miséria espiritual e material. Quem se salvaria? O segredo se revela no final. Assista e tire suas conclusões sobre o porquê.
Eis um filme que me desperta muita atenção. É de fato o meu filme favorito. Pela ousadia, pelas idéias que suscita, pela maestria em não apenas contar uma história, mas de fazer uma radiografia atual e precisa dos temores que assaltava e ainda assaltam o ser humano, ou a maior parte deles, independentemente de ter sido feito há 51 anos.
O SÉTIMO SELO sempre está na lista dos mais importantes filmes já realizados. Sua perenidade é incontestável. Seu alcance é universal e atemporal.
Mas não pensem que tudo é sombrio neste filme. Há “respiradouros”: momentos de humor, que Bergman usou para causar uma certa distensão, um afrouxar do arco. Ou seja: uma forma de quebrar um pouco a rigidez, sem o qual o filme se tornaria extremamente “pesadão”, excessivamente “carregado”. Um desses momentos é quando a Morte serra a árvore na qual está um ator, na verdade o ator-chefe que abandonara, ao fugir com a esposa do ferreiro, a trupe de Jof. É de um humor negro. Literalmente. Há outros momentos, poucos, mas eficazes do ponto de vista do roteiro.
A fotografia em preto-e-branco de Guinar Fischer é perfeita.
Corra, deixe seu preconceito, saia dessa fôrma que são os filmes blockbuster atuais, use suas retinas a favor de seu cérebro e assista a esse filme. Veja e se deixe levar pelo seu intelecto e por sua sensibilidade. Garanto que você sairá enriquecido. Ingmar Bergman não é, nunca foi e nem tampouco será propriedade dos intelectualóides dos quatro cantos do mundo. Ele apenas pede de você uma maior “abertura”.
Eis um filme eterno.
Obs.: Ele suscita outras muitas interpretações. Aqui não se procurou (nem se conseguiria) esgotar todas essas possibilidades. Trata-se apenas um comentário fadado a se perder no anonimato da Grande Teia.
O SÉTIMO SELO
Título Original: Det Sjunde Inseglet
País de Origem: Suécia
Ano: 1957
Duração: 96min
Diretor: Ingmar Bergman.
Elenco: Max von Sydow, Gunnar Börnstränd, Bengt Ekerot e Bibi Andersson.
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Ao som do álbum Giant Steps, de John Coltrane
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