TRILOGIA DO SILÊNCIO
Ingmar Bergman, Suécia, 1961-1963
Através de um espelho (Sasom i en spegel) / Luz de Inverno (Nattvardsgarterna) / O Silêncio (Tystnaden)
_______________________________________________________
Aproveitando as férias, dando início à Trilogia do Silêncio (sendo que a idéia de uma trilogia não era algo pelo qual Bergman tinha lá muito apreço, mas deixou que a crítica a adotasse, afinal, pensava ele, na época estavam em voga as trilogias. Vide a de Antonioni, na mesma época: a da Incomunicabilidade), revi neste domingo o soberbo ATRAVÉS DE UM ESPELHO (1961).
A sinopse: num lugar paradisíaco, retirado e perdido nos mares da Suécia, quatro vidas: o pai ausente David (Gunnar Björnstrand) e escritor; seu filho adolescente, Minus (Lars Passgård) às voltas com a turbulência típica da idade; sua filha recém-casada, Karin (Harriet Andersson) que tem uma doença psicológica degenerativa, com alucinações e histeria, achando que recebia a visita de Deus, doença que herdou de sua finada mãe. Fechando o rol: o marido de Karin, Martin (Max Von Sydow), médico e às voltas com a sensação de impotência por não poder curar sua jovem esposa.
Aí estão os únicos seres que vemos em todo o filme. E que seres! Isolados naquela imensidão de tirar o fôlego (tudo acentuado pela fotografia deslumbrante de Sven Nykvist, [à direita]o maior diretor de fotografia de todos os tempos) vemos se desenrolar o drama, pouco a pouco. Do mar, vemos surgirem, ao longe, os quatro personagens, todos saindo de uma sessão de natação, conversando, rindo, uma imagem aparentemente de pessoas felizes e saudáveis. Não num filme de Bergman.
Temos, com alguns minutos, a sensação e logo em seguida a certeza de que o ponto de problematização de toda aquela a situação é, resumindo, a jovem esposa Karin. Seu pai e seu marido se isolam para falar da doença que a acomete, ela que acabara de sair de um hospital e sua presença ali era como parte de sua terapia, buscando na natureza uma forma de amenizar o seu mal. O marido informa seu pai do andamento da doença. O pai, vamos saber, é um homem distante, frio, sem ser ríspido, mas destituído de qualquer preocupação que não seja sua carreira de escritor. O filho Minus é visivelmente um jovem com problemas para sair da fase adolescente e se assumir. Está descobrindo o mundo da sexualidade. Sua irmã, de longe, obviamente, a mais complexa de todas as quatro personagens, tem seu comportamento alterado, para pior, quando vasculha as anotações do pai e descobre que o interesse dele em sua doença é apenas a de um observador frio. Ou seja: a doença séria de sua filha serve a ele apenas como um tópico, como um assunto para sua escrita. Ela seria assim como um ratinho de laboratório para ele. A partir desse momento, a sensível Karin entra, aos poucos, em parafuso.
Num certo momento, os irmãos, combinando com o Martin, encenam uma peça teatral ao pai, que havia chegado da Suiça (fungindo do mal-estar provocado pela morte sua esposa, o que vem muito a dizer do caráter dele). A peça é premonitória, pois há elementos ali que tangenciam a questão do abandono do ser amado pela arte (olhem outro tema aí, ainda candente: até onde vão os limites da dedicação à arte em detrimento da vida, das responsabilidades?), justamente o que David fizera com sua esposa e seus filhos. E ele intui as trágicas conseqüências que daí viriam. Não há como não nos lembrarmos da “peça” (no duplo sentido) que Hamlet prega e encena com fins mais do que catárticos e inquisidores em e para o seu tio, Cláudio, em Shakespeare. David visivelmente fica incomodado.
Martin tenta ajudar a esposa. Tenta lhe ser um abrigo. E Karin não sente desejos, não o procura. Ela, por causa da doença, tem a audição aguçada. É mesmo assustador, na hora de dormir, ouvir os apitos dos navios distantes. Há um momento em que eles, os apitos, parecem gritos de uma alma dilacerada, em angústia profunda. Claro que é uma referência explícita ao mundo interior em desespero de Karin. Ela tenta dormir. Em vão.
O filme vai passando e vemos crescer uma tensão: Karin piora. Passa a ouvir vozes no quarto abandonado no último andar. Ali, nas paredes com papéis descascando, portas e janelas que se abrem para lugar algum, temos a metáfora exata do que é o mundo interior de Karin. Numa das interpretações mais perfeitas, assustadoras e incríveis que já vi por parte de uma atriz, somos testemunhas daquele quadro lastimável: uma vida sem vida ainda que viva. Não é mero jogo de palavras: ainda que viva, interiormente Karin está morta, num sentido de que seu “eu”, a consciência dela mesma, já não existe. Na sua alucinação, vemos o desmoronar de uma personalidade. A maldição (a doença herdada da mãe) já a teria levado.
Em seguida ela vai até o quarto do pai. Ele está tentando escrever algo. Ele o conforta. Karin acaba adormecendo na cama dele. Nisso surge na janela Minus e convida o pai, já que está amanhecendo, a jogar as redes de pesca. David aceita. Ambos saem. Passado um tempo, Karin acorda e lê as anotações de seu pai. E descobre tudo.
No outro dia, David e Martin saem para o alto-mar. Ali, naquele barco, há um diálogo duro entre ambos. Martin o acusa de ser um pai frio, tudo por causa da sua vaidade intelectual. Diz-lhe, ironicamente, que ele teria agora um tema e tanto: a desintegração psíquica de sua própria filha. David lhe diz que pensara até em suicídio, quando estava na Suíça, mas que no último momento, quando o carro ia mergulhar num abismo, o motor morrera e ele se salvara a tempo. Saíra do carro tremendo. Pela vida.
Karin flagra Minus folheando uma revista masculina. Minus, obviamente, fica constrangido e contrariado. Ambos conversam, chegam a um acordo. Ela, percebemos, o perturba, ele que nunca tivera um contato tão próximo com uma mulher.
A partir daí é puro caos. Karin surta. Com o pretexto de que estava chegando uma chuva forte, ela deixa Minus ali onde estavam até pouco atrás em paz total e sai desabaladamente a correr, assustada. Minus a perde de vista. Entra na casa e não a encontra.
Ela fora se refugiar em um barco abandonado, inclinado e caindo aos pedaços. Minus entra ali. Ela estava lá dentro, encolhida a um canto, perto de poças de água, detritos e o caos de uma embarcação há muito desativada. A chuva chega, forte. E aumenta. Minus vai até ela. Ela chora compulsivamente. O irmão a conforta. E aí acontece aquilo que uns negam, mas a maioria concorda que de fato aconteceu: a câmera mostra Karin puxando o irmão para os seus braços, ambos chorando, ela por baixo. A última cena, rápida, na montagem, diria tudo: houve o incesto. Há fatos que afirmariam isso.
A câmera se distancia, depois de um corte. Mostrando o transcurso do tempo que passara, agora vemos os irmãos abraçados, a goteira diminuindo seu fluxo. Tudo se acalmara.
(Não podemos nunca esquecer a mágica fotografia do filme. Tudo é ao mesmo tempo tão contido ali, nunca achamos que se errou a mão, nem na direção, nem na interpretação, em nada!)
Barulho do barco a motor de David e Martin. Minus desperta, deixa a irmã aconchegada com um cobertor que ele trouxera e sai dali a contar aos que chegam o paradeiro dela.
Ela desperta. Outra metáfora visual: David, de pé, dentro da embarcação abandonada, Karin sentada na escada que dá acesso ao exterior, acima. Lemos ali: ambos num lugar claustrofóbico, a indicar o quão estavam envolvidos com seus mundos interiores: Karin pela sua doença que aumentara de intensidade pela descoberta que ela tivera ao vasculhar a agenda de seu pai e este, por se achar de novo preso à sua própria consciência por ter falhado tragicamente com a esposa, com a filha e, também, com o filho. Ambos dentro de um barco caindo aos pedaços. Dentro de uma situação desestabilizadora, precária. Ele, roído pelo remorso. Ela, pelo seu mundo aos cacos e também pelo arrependimento. Tanto que diz ao pai: “Pobre Minus! “
Lá pelo fim do filme vem a cena mais forte, mais absurdamente pungente do cinema que vasculha os dramas humanos.
O marido chamara a ambulância. Karin, agora arrumada, prepara a bolsa, acompanhada de Martin . De repente, ele se distrai e ela desaparece da frente dele. E da nossa! Para onde ela fora? Teria mais um ataque justamente agora que iria embora?
Ela havia ido, ouvimos agora sua voz a conversar com alguém, para o andar de cima. Pai e genro a encontram absorta, falando com as paredes. Apontando para o nada. Interagindo com coisa alguma. De repente, vemos aquela cena: ela a gritar e a berrar dizendo que Deus estava ali, que ele a ouvia. Ela sai correndo, gritando, desce alguns lances de escada mas seu irmão lá embaixo a detém. Havia visto que Deus era uma reles aranha, que do vazio de seu mundo em desmoronamento, havia visto apenas isso: uma figura monstruosa, no lugar de Deus. Seu marido e seu pai vêm no encalço dela. E ali Karin é dominada, num acesso ultra-realista de raiva, desespero e medo. Seu marido lhe aplica uma injeção. Ela se acalma.
Na seqüência final, uma surpresa. Para quem for assistir… Há uma certa catarse. Agora fica a cargo de quem o vir na íntegra
Um esclarecimento: por que Trilogia do Silêncio? Onde há o silêncio aqui? É porque as personagens quase não se falam? Não necessariamente. O silêncio que perpassa os três filmes é o de Deus, é o existencial, é o da comunicação num sentido mais amplo entre as pessoas. Em Através de um Espelho, o desespero e a trágica sina de Karin são seguidos pelo silêncio divino, ela que buscava, em seus delírios, em seu naufrágio, em sua derrocada naquele barco abandonado (eis o motivo da metáfora do barco abandonado), um porto, uma bóia de salvação.
E a música de Bach, o violoncelo, que lembra o gemido de desespero, torna ainda mais belo e tragicamente único esse filme. Que exige por parte de quem o assiste mais que mente aberta: sensibilidade à flor da pele. Pois é um filme denso, sem concessões e chocante, muitas vezes.
Ingmar Bergman conseguia fazer o impossível: lançar mão de algo tão externo, a imagem, para vasculhar algo tão sutil: nossa alma.
Seus filmes apresentam muitas camadas de interpretações, obviamente. Aqui, não faço crítica. Não tenho essa pretensão. Apenas teço comentários sobre o que me chama a atenção neste vasto mundo, no caso, o da arte. Seja em um livro, em um filme, em uma peça, no que for que suscitar reflexões, estou a vasculhar, a xeretar, a procurar um sentido, ainda que em tais obras tão ricas, o que vale mesmo são as perguntas, não as respostas; o itinerário, não o destino.
_______
Ao som do álbum A Love Supreme, de John Coltrane
Acabei de ver o filme. Entrei na internet só pra tirar a dúvida: ocorreu ou não o incesto?
é assustador ver o Bergman, não achas? Sei que não se dissecam almas, mas toda vez que termino de assistir a um filme dele, por falta de termo melhor, sinto minha alma dissecada. Nua como ser humano, como se pudessem me ver da forma mais íntima possível. Enfim, uma aula de análise humana. Ah, adorei seus comentários.
Olá, Ana. Obrigado pela visita e pela oportuníssima indagação/participação.
Bem, a questão do incesto neste filme não é algo assim tão discutido por comentaristas.
Se houve ou não, é uma questão, ainda assim, muito instigante.
Para mim, houve sim. E não foi de forma gratuita, pois o Bergman nunca trabalha seus enredos e/ou direção sem usá-los como veículo propagador de subtextos e de subentendidos e afins.
A família disfuncional, a relação do escritor, o pai, com os dois filhos, o egocentrismo dele, o ambiente, a constituição psíquica da Karin, o caráter introvertido e misantropo ao extremo do irmão, tudo isso é muito bem “tecido” pelo genial sueco de forma a nos permitir a ver o incesto (numa cena absolutamente poética, nunca caindo no mau gosto!) como algo verossímil dentro daquele contexto.
Quanto ao talento do diretor para dissecar a alma humana, fique tranqüila, Ana: assistir a seus filmes é mesmo uma constante aula de auto-análise. Outros de seus filmes, como o Persona e Gritos e Sussurros, levam essa abordagem a um grau mais acentuado ainda.
Seja bem-vinda, sempre, minha cara!
Este blog é pra gente como você.
Um grande abraço e espero poder ter ajudado em algum aspecto.
elienai