Roteiro para um curta muito curta. Exercício de um aprendiz de roteirista.

 

 

       Bem, tenho me interessado há algum tempo por roteiro de cinema e, movido por uma imensa curiosidade, lido muito sobre o assunto. A partir do momento em que me embrenhei na matéria, nunca mais vi um filme da mesma forma. A arte do roteirista, essa criatura tão desprezada pelo grande público, é de fato difícil. Imaginar e tecer “estórias”, criar personagens (falo também do metiê de escritor de forma geral) é algo árduo, que exige muita dedicação. Apenas os teimosos sobrevivem.

       O texto que segue é apenas um exercício despretensioso. Na verdade, é um “projeto de projeto” de roteiro. Depois de me munir de informações teóricas (o que não faz de ninguém, necessariamente, um mestre a priori), e com a certeza de que tenho um longuíssimo caminho pela frente, começo, enfim, a pôr as mãos na massa, ou melhor, a castigar o teclado.

       O tema do que se verá a seguir é o do mundo sem volta das palavras.  De repente, elas  nos levam a lugares inesperados. Nossas palavras mais impensadas podem desencadear muitas conseqüências surpreendentes. Elas, as palavras, então, nos traem, nos desnudam, nos delatam. Muitas vezes, nossas intenções ficam num plano profundo de nós mesmos, como que escamoteadas e em estado de potência. Basta uma fagulha para disparar as reações (em forma de palavras torrenciais, que simplesmente vêm do mais profundo de nós mesmos) mais tresloucadas, ou até mesmo as mais corretas, por que não?

       O “exercício” em forma de um roteiro para um curta-metragem ultra-curto, digamos, quis condensar e limitar a ação das personagens no plano das palavras. O foco do jogo dramático, do conflito em si, portanto, foi nas palavras-ações (que aumentam numa intensidade que delineia o descompasso interior que cada um sente, bem como a degradação de um sentimento supostamente terno de outrora) trocadas entre dois seres que viveram à beira do abismo e não “sabiam”.

       Ao final, abrupto que é, pode-se ter a sensação de gratuidade de tudo isso. Mas nas entrelinhas, talvez, esteja a resposta.

                      

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                             PALAVRAS: CÉU, INFERNO.

              (“Se era, foi“. Lorena, personagem)

 

              CENA 1. QUARTO DE CASAL.INTERIOR. NOITE.

 Interessa-nos um casal à vontade. Ele, sentado à mesa, distraído com um laptop. Ela, sentada à penteadeira, escova os cabelos longos. O som toca What a wonderful world, de Louis Armstrong. Ela disfarçadamente olha para ele pelo espelho. Quer dizer alguma coisa. Ele mal pisca, tão absorto está. Ela se move no banquinho. Pigarreia. Mexe nos cabelos.

 

              LORENA – (Terna, mas firme, o vendo pelo espelho) Túlio, coração, quando você ouvir essa música, promete se lembrar de  mim, para todo o sempre? Ah, amor, gosto tanto dela. Algo tão profundo. Cada vez que ouço vejo um clipe passando na minha cabeça. (Olha para o vazio, sonhadora) Não vai rir, tá? Árabes e israelenses se abraçando, inimigos de todo os tipos também, gente de todos os credos irmanados numa só corrente do bem, uma coisa arrepiante! (Passando as mãos pelos braços). Ui! Ah, Tulinho, promete se lembrar da sua Lorena?

              TÚLIO - (Distraído, mecanicamente) Ahã.

              LORENA – (Levemente impaciente) Eu estou falando com você, amore!

              TÚLIO – (Condescendente, sem parar de digitar) Sim. Vou me lembrar. Prometo.

              LORENA – Promete o quê?

              TÚLIO – Hã?

              LORENA – O que você promete?

              TÚLIO – (Pela primeira vez tira os olhos da tela. Encarando Lorena, no espelho) Prometo que lembro. Quer dizer: acho. Posso tentar.

              LORENA – (Com ênfase, fazendo-se séria) Como é que é?

              TÚLIO – (Tira os óculos. Espreguiça-se. Esfrega o rosto. Suspira) Isso não se promete, Lô. Quer dizer, nem sempre. É um lance complicado. Entende?

              LORENA – (De bate-pronto. Vira-se. O encara) Não entendo! Quer me fazer o favor de me explicar, Túlio Marcos?

              TÚLIO – (Em tom professoral e blasé) Lô, a memória é algo que não tá bem no âmbito daquelas coisas que a gente controla, tipo um programinha de computador. “Ah, memória, associa essa música com a minha querida amada! Agora, tô mandando!” Não é assim, tem que ter um link, saca? Tipo assim: tem que vir por si, aflorar, papum.

              LORENA (Ofendida. Mal conseguindo articular as palavras) Saquei. (Irônica) Tudinho. Captei legal, claro, lógico!

              TÚLIO (Continua a explicação, sem se importar com o que ela diz). Num tá dentro do âmbito da volição. Ou seja: você lembra ou não lembra. Não depende da vontade. Tem que ter um gatilho mnemônico. (Percebe a cara de paisagem dela) Ah, uma palavra ligada à memória. É algo que tá mais ligado à intensidade das vivências. Se for uma coisa que a gente vivencia com intensidade, com aquele sentimento de que aquilo bate, esbofeteia a gente, entende?, sem isso não rola. Fica algo falso. Uma fachada. Se eu quisesse…

              LORENA (A ponto de explodir) Se você quisesse…

              TÚLIO – … se eu quisesse associar essa música contigo não conseguiria. Tem que ser forte, o elo entre a música e você. A gente tem que ter uma ligação pra lá de forte. Não pode ser uma coisa superficial.

              LORENA (Muito séria) Deixa ver se eu entendi. Todo esse palavreado pra dizer que se não tiver uma coisa forte, necas? É isso?

              TÚLIO – Exatamente! A gente tem que ter um envolvimento.

              LORENA (Riso irônico, alterando a voz) Tem que ter envolvimento! (Irritada) Tamos juntos fez dois anos semana passada, você por acaso lembra disso?

              TÚLIO - Claro! O que uma coisa tem a ver com a outra?

              LORENA (No cúmulo da revolta) O que tem a ver, Túlio Marcos de Andrade, o que tem?

              TÚLIO – Não foi outra minha pergunta, Lô.

              LORENA (Prendendo mecanicamente o cabelo num coque) Você tem a dimensão exata do que você acaba de me dizer?

              TÚLIO – (Friamente. Voltando a mexer no laptop) É óbvio.

              LORENA – Você morreu pela boca, se entregou: caiu sua máscara. Quer dizer então que a gente nunca viveu nada com intensidade, nesse tempo todo, é isso? Me diga!

              TÚLIO – (Voltando-se para ela. Visivelmente se irritando) Eu não disse nesse tempo todo, Lô. Eu tava falando da música. Pra lembrar de você ela tinha que estar associada a um momento único, forte, intenso. E assim me remetesse a você, entende?

              LORENA- Nem quero! (Com o rosto já alterado pela cólera) Não quero mais entender merda nenhuma! Pra você então a gente aqui, nesse quarto, vivendo nossa vidinha, ouvindo música, depois do amor que a gente fez, tudo num clima ótimo, tudo isso não é suficientemente intenso pra você? (Indignada) Como você é frio! Fingidor! Falso! Mentiroso! Você não tem nem nunca teve estima por mim, Túlio! Nunca! (Desesperada, aumentando a voz) Bem que me avisaram! Teu passado de galinha, teu caso com aquela biscate daquela francesa.

              TÚLIO – Você não entendeu nada, Lorena, porra! Você distorceu o que eu disse!

              LORENA – A culpa é minha agora, claro! A bestona aqui sonhando alto, se dedicando pra você, e você um mentiroso de marca maior, um ator, isso sim! Eu fui uma otária! Tudo se revelou, tudinho! E quer saber mais? Eu tô indo pra casa da Alana agora! Você que fique aí. (Escandindo bem as palavras) Tá tudo acabado, Túlio Marcos, tudinho! Você estragou uma coisa que parecia linda, construída em dois anos! Tijolo por tijolo. Em menos de um minuto pôs tudo a perder!

              TÚLIO – (O olhar lançando chispas. Toma coragem) Disse tudo: parecia! Eu também me enchi de você. Pronto! Foda-se! Dessa sua mania de querer saber de tudo, de querer controlar meus sentimentos, de me exibir para seus amigos, eu, “o designer bem-sucedido. Gente, esse é meu amor, Túlio Marcos de Andrade!” Me enchi, Lorena, de você ficar me mostrando como um trófeu, um cachorrinho de estimação, de ficar controlando o que visto, vejo, como, bebo! Até as batidas do meu coração é bem capaz de você querer controlar. Falei de uma coisa específica, por causa de uma pieguice da sua parte, uma baboseira enorme. Desde quando a gente pode querer controlar o que a gente lembra ou deixa de lembrar, isso tem que vir por si, pô!(Levantando-se, fechando o laptop) E outra: não me arrependo de nada. (Suspirando). Tá aí tudo. Falando a gente se entende. Faça o que quiser. Te desejo o melhor. Isso tava engasgado.

              LORENA – (Mal se contendo. Derruba um frasco de perfume caríssimo. Já de pé, caminha para o guarda-roupa. De lá tira uma mala grande. Joga ali seus pertences mais diversos. Mal ouve o que ele lhe diz. Resmunga algo baixinho, não tanto que impeça Túlio de ouvir) Foi bom enquanto durou!

              TÚLIO – Eu diria foi mal justamente porque durou!

              LORENA – (Tomando como uma afronta) Quero que você morra!

              TÚLIO – Eu não te desejaria o mesmo. Afinal, viva, leve e solta você será a memória ambulante de um erro colossal que eu tive na vida.

              LORENA – (Enfurecida, pega a mala, sai do quarto, batendo a porta)

              FALA EM OFF: Vá para a puta que te pariu! Nunca mais!

 

              TÚLIO -  Que se foda você, Lorena, entendeu? Quero mais é que se foda! (Pausa. Respira, aliviado. Volta para o laptop. Falando com ele mesmo): Esse foi eu? 

                      …

 

              CORTE PARA:

 

              CENA 2. CARRO DE LORENA NA GARAGEM. EXTERIOR. NOITE.

 

  Lorena joga a mala dentro do carro. Entra. Bate a porta. O carro permanece parado. Ela liga o som. Barry White, Just the way you are.

 

               LORENA – (Suspirando, com a cabeça no volante) Pronto! Fim! Mas não me reconheço. Era algo que tinha de acontecer? Se era, foi! 

 

               FADE OUT.

 

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Nota de esclarecimento: “FADE OUT é o escurecimento gradual da imagem, até o escuro total, ou a rubrica (que por sua vez é uma notação que, num roteiro, descreve elementos de estória ou recursos de narrativa) que indica isso”.

Fonte: Roteiro de Cinema e televisãoA arte e a Técnica de Imaginar, Perceber e Narrar uma estória, de Flavio de Campos, Jorge Zahar Editor, 2007

12 Respostas

  1. Esse seu projeto de projeto de roteiro está muito bom! Pude visualizar cada cena e cada expressão. Esse tal de Túlio me lembra alguém! rs….
    Eu sou fascinada pela mídia audio-visual. Quando estava na faculdade tivemos um workshop sobre roteiro de cinema, mas nunca tive chance, coragem ou oportunidade para me arriscar.
    Mas vc deve!
    Em tempo: magnífica ilustração.
    Um beijo.

  2. Elienai!
    Como são as coisas: aquele meu email do Hotmail eu quase não usava mais. Por curiosidade, dei uma olhada nele e vi sua mensagem de quase três meses atrás. Só hoje!
    Vi o link para o seu blog e vim correndo. Já respondi sua mensagem. Ali te contei tudo o que se passou nesses 6 anos, quer dizer, quase tudo. rs
    Fico muito orgulhosa de você pois vejo que está bem. Seu blog é lindo.
    Espero que a gente não perca o contato de novo.
    Aguardo sua resposta.
    Beijos.
    De uma admiradora e ex-namorada

    Renata Nakajima

  3. Imagine um monte de letras voando pelo ar (nem mais e nem menos – exatamente o número necessário). Imaginou? Imagine agora um mágico chamando essas letras para integrarem um texto. Imaginou? Imagine agora que elas dançam. Há ali uma coreografia. O ritmo é perfeito. As letras pulsam na medida exata. Imaginou? Para mim, Eli, é o que consegue fazer com as palavras. Ficam encantadas. Parabéns. Parabéns. Parabéns. E um beijo, claro. Paula.

  4. Elienai,

    Estava pesquisando sobre roteiro e vim parar aqui. Se esse é teu primeiro roteiro, posso lhe dizer que está no caminho certo.
    O realismo dos diálogos, o ritmo, as rubricas e o subtexto estão na dosagem certa.
    Também me interesso pelo assunto roteiro. Apesar de ser de uma área bem diferente, a preparação de atores de teatro, acho que no fundo o cinema bebe muito na fonte do teatro, não acha?
    Parabéns mais uma vez. Você tem talento, rapaz.
    Parabéns pelo blog também de forma geral.

    Hugo Vasconcelos.

  5. Rejane: você foi a primeira pessoa a comentar um roteiro (ou projeto de) que criei. Anote: se um dia eu me estabelecer como um roteirista, lembre-se disso! rsrs… “I dedicate this award to the my first reader …” [riso] Brincadeiras à parte, fico satisfeito. Foi um grande estímulo, saiba!
    Você também deveria arriscar algo do tipo: escreve muito bem e tem jeito para a coisa!
    Um beijo.

    Renata, vi teu email e já achava que nunca responderia minha mensagem. E já respondi. Foi ótimo te encontrar.
    Obrigado pela honra de vir até aqui. E por deixar um comentário.
    A internet realmente nos traz grandes surpresas.
    A gente se fala.
    Um beijo a ti e no pequeno Lucas.

    Até mais!

    Paula, linda mensagem, gratificante reconhecimento é esse. Muito obrigado mesmo. Espero que goste dos textos que virão.

    Um beijo!!!

    Hugo, trocaremos informações por email.
    Muitíssimo obrigado pela visita e pelas palavras.

    Um grande abraço!

    Elienai Araújo

  6. Conheço, muitas Lorenas, meu caro. hehehe. Mas, falando a respeito do roteiro: está bem legal, acho que o caminho é bem esse. Façamos assim: enquanto você for buscar teu urso de prata, em Berlim, eu vou buscar meu Nobel, em Etocolmo. Depois a gente se encontra na Suíça e toma um chocolate quente.

    Abraços

  7. Hehehe…

    A resposta está no seu blog, compadre!

    Sds…

  8. Olá,estava pesquisando sobre roteiros e cheguei até aqui.Confesso que comecei uma leitura despretenciosa, pois já tinha visto muita coisa, mas confesso tbm, que seu roteiro tem um ponto muito forte,ele prende a atenção, e no final das contas isso é muito importante, não é?! rs. vc já fez ele virar um curta? Sou de Santos e estou inscrevendo um este ano no 7* Curta Santos, não sei se vc conhece? Bom, só passei mesmo pra elogiar, pq o roteiro está muito bom, filma isso, hein?! rs add no msn para trocas de idéia, oK?!

    tdo de bom!!

  9. Olá, Alex!

    Obrigado pela leitura e pelas palavras.
    Sim, vamos sim trocar ideias via msn. Apesar de ultimamente eu não o estar usando tanto.
    Nos falamos.
    Abraços!

  10. Oi, adorei seu roteiro, parabens voce tem uma boa imaginação…

    sou professora e tenho um projeto de cinema com alunos de uma escola publica estadual do estado de Roraima, fiquei super interessada em grava seu curta.

    se o senhor permitir queria a autorização pra gravação do curta.

    obrigado agradeço desde ja

    Thaís Liana.

  11. Olá, Thaís.
    Fiquei imensamente feliz por alguém ter gostado desse “projeto” de curta.
    Se quiser minha permissão, ei-la: desde que haja osdevidos créditos, fique à vontade, minha cara. Pelo bem da Cultura…
    Boa sorte e mantenha o contato. Ficarei muito curioso sobre o resultado.
    Um abraço, sorte na empreitada e tudo de bom.

    Elienai

  12. Obrigada pela permição, mandarei uma copia pra voce assim que tive pronto…eu irei fazer a direção, e com certeza seu nome estara como roterista.
    abraço e mandarei noticias, mais uma vez muti obrigada.

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