Fechado para balanço existencial (Mas não passaremos o ponto nem mortos!).

Aos nossos acionistas, ou melhor, leitores (as):

Com a finalidade conspícua de melhor gerir nossos negócios nesses tempos de turbulência financeira, o presente blog ficará um período desativado (ou seja, sem ser atualizado). Durante tal temporada, o sócio majoritário passará por uma profunda reflexão existencial, metafísica, psíquica, capilar, ocular, auricular, lombar, gástrica, arterial, coronária e outras mimosas áreas do humano demasiado humano. Temos bem claro que não é o fim desta empresa. Trata-se, frisemos bem, de um período passageiro-breve-transitório-efêmero de realinhamento, de auto-análise e de ajustamento intra-psíquico, intra-celular e outros intras…

A todos e todas acionistas fiéis, nossos mais sinceros cumprimentos. Contamos com sua paciência e compreensão.

Atenciosamente,

A gerência.

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Ao som de Cartola, nosso Cole Porter suburbano da alma nacional, O Mundo é Um Moinho e Eric Clapton, Wonderful Tonight

Do fundo do baú.

Publicado em 2 de setembro de 2006 

O Chafariz-Fonte

A TARDE ERA das mais quentes. O calor acentuava a sensação de tédio, de melancolia. Uma pasmaceira tórrida. Languidez geral.

Eu tinha acabado de fazer minha sesta. Aposentado há dois anos por invalidez, por causa da diabetes que me levou as pernas, me meti na cadeira de rodas e fui até a praça do chafariz-fonte. Morando sozinho, não tenho que dar satisfação a ninguém. Aos cinqüenta e dois anos, isso é muito bom.

Era minha primeira semana naquele bairro. Ainda havia muito o que explorar na vizinhança. Já bem hábil na minha cadeira motorizada, tinha há muito me acostumado com os olhares, um misto de comiseração e uma certa impaciência ao verem um aleijado tão ágil pilotando aquela máquina moderninha, até mesmo mais veloz do que muitos dos lépidos transeuntes.

E quero desde já avisar: não me sentia diminuído em nada. Se não tinha mais minhas pernas, isso não me impedia de teimar em viver, com a cabeça muito ágil, a inteligência aguda e… enfim, compensando em quase tudo a ausência dos membros. Digamos que as pernas têm lá suas vantagens, mas com o tempo e as vicissitudes da vida, a gente passa a focar outras coisas mais determinantes, mais profundas. Cultivar o ódio, por exemplo.

O que eu vou narrar aqui foi muito mais determinante, para mim, do que a perda de minhas pernas. Muito mais determinante na minha maneira de ver a vida, de lamentar a vida, de maldizer a vida, de abominar a vida. De fracassar na vida. Elas, minhas pernas, dispusesse eu hoje delas, em nada teriam mudado essa sensação que me acompanha há muitos anos. Uma sensação de estrangulamento, de profundo asco por um monte de coisas. Mas não quero me alongar muito. Passemos a esclarecer os que me lêem agora, já curiosos para saber o que diabos me levou a ser um enjeitado em vida, com pernas ou sem pernas. Mas com o ódio a me guiar, na ausência ou presença delas.

Naquele dia de canícula, lá ia eu explorando as novas cercanias. Tinha ouvido dizer que havia uma praça com um chafariz-fonte e algumas árvores a uns dois quarteirões de casa. Lá fui eu. Exausto nos dias anteriores pela mudança e arrumação dos cacarecos, só naquele dia pude ir mais distante, guiando minha cadeira motorizada, presente de um parente rico, cujo nome não me lembro nem sob tortura.

Com uma garrafa de água no colo, um lenço na mão direita, a atmosfera pesada, pouca gente nas ruas, cheguei, a duras penas, à praça do chafariz. Subi a rampa para os portadores de cuidados especiais, quer dizer, eu, e descobri um agradável lugar para sentar a uns dez metros do chafariz-fonte que, naquele momento, estava exuberante, um oásis autêntico, com as águas a bailar, a jorrar, os respingos em forma de vapor a umedecer um pouco o ar. Mas as gotículas não me alcançavam. Absorto, esquecido de tudo e de todos, lá estava eu. Um homem precocemente envelhicido e um chafariz, algumas árvores e um banco, um céu tão azul que magoava as retinas. Não sei quanto tempo passou. Poderia ter sido uma hora ou cinco minutos, não estou bem certo. Aquilo era muito bom. Meus pensamentos passavam, não se fixavam em nada, em uma procissão ininterrupta. Divaguei em demasia.

Só parei pois fui obrigado: vozerio de garotos, dois, para ser preciso. Era como tivessem surgido daquelas gotículas errantes pelo ar, juro! Sem camisa e de shorts curtos, sem a mínima cerimônia, um deles já foi entrando, o outro um pouco hesitante, mas agora ambos molhando primeiro a ponta dos pés, depois as canelas, metodicamente, e num piscar de olhos já estavam totalmente à vontade. Vale dizer que o chafariz era dos grandes. Vi que a água batia na barriga deles. À medida que entravam, a profundidade aumentava, e um deles, o mais desenvolto, estava quase alcançando a outra margem. O outro, esse brincava de dar pequenos mergulhos, o suficiente para o corpo todo submergir. Foi aí, neste exato instante, que o passado me visitou, ou, mais precisamente, o passado me arrebatou, num sincronismo perfeito com o mergulho do garoto que ficara para trás.

Corte no tempo. Quarenta e cinco anos atrás. Estava eu no sétimo ano de vida. Foi numa tarde como aquela, ensolarada, que aconteceu algo, como disse acima, que teria uma força absurdamente determinante em minha existência malfadada.

Tímido ao extremo, nada serelepe, extremante introvertido, não sabia nadar. Escondia isso de todos. Até de meus pais. Qual não foi a intensidade do raio que me fulminou quando meu companheiro, criança desbocada que era, disse aos brados: “Que coisa, é um cagão mesmo, tem medo de nadar até num chafariz!” Pausa. Logo em seguida: “Consegue chegar aqui desse lado pelo menos, medroso?”

E a tragédia maior, o golpe de misericórdia, veio na voz de um desconhecido, uma voz de trovão: “Vai lá, moleque, seja homem! Desse jeito, você vai ser a vergonha dos teus pais, um molengão! Assim você tá mostrando que é um bosta mesmo. Desse jeito vai ser um inútil na vida. Já posso te ver um bosta na vida! Hahahaha…”.

O sujeito sumiu.

E também a terra e a água sob meus pés. Desnecessário dizer que havia muita gente ao redor.

O sentimento foi tão intenso, tão devastador, tão desestruturante, que se fez presente por toda a minha vida, influenciando, negativamente, obviamente, minha maneira de me relacionar com os outros e de ver os desafios (conseqüentemente, fugir deles, pois a vida, daquele momento em diante, era um imenso chafariz, de cuja margem oposta eu estava a anos-luz de distância, com um fosso enorme, e lodo, e água batendo no pescoço, e armas em forma de jato d´água cuspindo água-fogo, água-foguetes, água mísseis, água-bolas-de-canhão). Daquele sentimento não pude mais me desvencilhar. Daquele acontecimento que cronologicamente durou menos de três minutos, embora, no plano da tragédia emocional e traumática tenha durado todos estes anos, com ressonâncias tão profundas e indeléveis, nunca mais pude fugir. E não houve religião, não houve ciência, não houve remédio que me curasse de tal sentimento de desamparo e de auto-subestimação, de perda dos ideais e de qualquer crença em mim mesmo. Desde então, não creio em nada, em ninguém. Apenas nele, o ódio. Vivo na minha concha, remoendo esta maldita dor que jamais cicatriza. O ódio, sempre ele, é meu companheiro. Sou um ser só aparentemente pacato. Por dentro, no meu íntimo, lanço chispas de rancor, chamas de cólera e labaredas de ira. Que surgiram, todas, da água!

E que ninguém vá ao meu enterro .

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Instantâneo do submundo que pode estar acontecendo neste exato instante num lugar qualquer (São Paulo? Hong Kong? Londres? Istambul? Seoul? Tóquio? Los Angeles?) nos cafundós e nos palcos do mundo, este mesmo mundo que um dia foi habitado por Jesus Cristo, o Redentor, por Buda, o Iluminado, por Maomé e por outros

                         

     

      Um beco escuro, vazio. Depois de uma chuva fina. Luz pálida dos postes. Um ou outro carro passando em alta velocidade.

      Música ao longe. Um gato cruzando o beco.

      Um homem caminhava. Seus passos eram certos, determinados. Sua figura era de um típico personagem de filme noir: trajando um sobretudo escuro, com o rosto enterrado no cachecol.

      O vento, cortante, zunia.

      Nosso personagem entrou num prostíbulo decadente. Uma luz foi acesa na janela à direita do quarto andar de um prédio velho e cinza.

      Ato consumado, o homem voltou à rua. Apertou os passos. Chegou a uma esquina pessimamente iluminada. Parou. Tirou algo do bolso. Olhou ao redor. Uma viva alma! Apontou algo para a cabeça. Um tiro certeiro o derrubou. Acabou-se ali uma vida.  

      Um mendigo se aproximou. Olhou. Cuspiu no cadáver. E saiu resmungando algo desconexo. Em pouco tempo chegou um curioso. E um casal formado por um bêbado e uma prostituta esquálida e desdentada, maquiada até os ossos. Sim: eles riam, sarcásticos.  A polícia chegou. E uma ambulância. Que levou o corpo.

      Pneus nas poças que voltavam a se formar. A chuva reiniciara mais intensa.

      Um par de gatos fazia um amor ensurdecedor no beco. Ou era uma briga entre os felinos pelos despojos de uma ratazana?

 

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Publicado em 7 de outubro de 2006

Estreando a Operação Resgate, passo a pinçar alguns textos de outrora aqui publicados.

Para que escrever?

Alinhavar palavras, tecer comentários, escolher termos, cortar outros, ligar idéias aparentemente desconexas. Escrever, escrever mesmo para que ninguém mais leia. Encher a folha ou a tela em branco. Inserir letras, sílabas, palavras, frases, orações, períodos, parágrafos. Tirar conclusões, observar uma idéia se desenvolver, tomar forma, ganhar corpo, vida. Engravidar as palavras com novos sentidos, fecundá-las, fazê-las plenas de vidas autônomas. Tomar, por meio das palavras, o mundo nas mãos. Analisar a vida, virá-la do avesso, torná-la entendível. Escutar a voz interna que dita o ritmo das palavras. Elas, as palavras, que são a criação mais poderosa de que o ser humano dispõe. O poder que elas têm de vivenciar, relembrar, deslocar, criar, destruir, sugerir, sintetizar, explicar, mostrar, ensinar.

Escrever, seja um romance, um conto, uma crônica, um poema, uma ode, um bilhete, um e-mail, um comentário subjetivo em um blog: basta acionar as palavras, pinçá-las, retirá-las de seu estado frio de dicionário, escrevê-las, juntá-las e dessa ação tão mecânica a nós, dessa combinação infinita de possibilidades, de potencialidades, domar o mundo e seus fenômenos (nós incluídos), domesticá-lo, torná-lo algo passível de controle, de entendimento.

Precisa-se de um outro motivo para escrever?

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Publicado em 3 de março de 2007

Pseudofilosofices

O acaso, a gratuidade e o caráter não-programado de toda aquela teia de acontecimentos que nos cercam, tudo isso faz de nós meros fantoches, pequenos bonecos ao sabor das circunstâncias.

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O múltiplo em mim não enxerga o múltiplo em você e você, sendo para você mesmo múltiplo, me vê apenas como uno. De onde se tira a conclusão que só nós, individualmente, nos vemos como seres complexos e multifacetados. Os outros nos enxergam como seres unidimensionais. Sempre!

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A vida escorre entre os dedos. O Tempo nos molda. As pessoas com as quais nos relacionamos nos deixam marcas. O mundo nos transforma. As transformações nos arremessam a um permanente estado de “corda esticada”: é como se sempre estivéssemos num ponto máximo. O arco retesesado no último.

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Numa das mãos, o ancião trazia a certeza de que já havia vivido tudo. Na outra, a incerteza de ter vivido de verdade.

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Muitas vezes, o que mais nos incomoda é a certeza, a convicção de que a vida é assim uma peça de teatro porcamente ensaiada, com os atores canastrões por todos os lados e o texto paupérrimo. E a noite de apresentação é de gala. E o público, também ele de atores, na sua grande maioria, canastrões.

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O derradeiro pensamento do homem que estava nas últimas foi: “Já acabou a palhaçada?”

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Por que as pessoas insistem em nos incomodar com suas queixas sobre os mais comezinhos assuntos quando todos podíamos usar a oportunidade para perguntar: “O que você tem feito pra estragar menos o mundo com tua presença pestilenta?” Ou, uma variação mais sofisticada: “O que você faz para diminuir o potencial pestilento de sua presença no mundo?”

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Estamos todos convictos de que somos imprescindíveis ao outro. O outro está seguro de ser insubstituível e auto-suficiente.
Ou somos todos seres infantis a ponto de nos iludirmos com tanta facilidade; ou nossa arrogância é absurdamente ilimitada ou, por fim, temos consciência de nossas auto-ilusões e mesmo assim as mantemos…
Algo não fecha aí.

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Ver e ser visto.
Vitrines ambulantes. Nossos corpos como a destacar o quanto somos bem-sucedidos, perfeitos e irresistíveis. Nesse raciocínio tosco, haveria sempre a premissa segundo a qual o meu exterior me define. O espelho capta minha essência. A academia é meu templo. O meu sex appeal, minha filosofia de vida. As mulheres virando a cabeça ao me ver passar, eis meu projeto de vida!

Por dentro, ora, por dentro… quem irá se preocupar com o interior?

Um século depois…

 

Bem, gente, não sei por que cargas d’água o Youtube fez isso, mas foi o seguinte: estes vídeos que estão aí embaixo foram postados pelo orador que vos fala alguns dias e só agora, quando eu já nem esperava por eles,  eis que os belezinhas aparecem…

A culpa, claro, foi dos petistas que ali se instalaram e que, em vez de trabalhar, foram às compras em Miami….hehehe….

Retorno ao meu período sabático…

Saudações a todos! Não os deixarei!!!