Nosso bravo, destemido e na mesma medida inoportuno repórter Senhor Inóbvio - “Onde você está, meu caro enviado especial deste blog ao Fim do Mundo?” – munido de sua câmera ultra-moderna e de seu gravador do tamanho de uma moeda de um real (tudo comprado no crediário), tomou o rumo das Colinas do Vento Azucrinante, lar do Grande Ermitão, aquele mesmo que por aqui passou.
Chegando lá – após trilhas perigosas, abismos de tirar o fôlego, chuva, sol, neve, gases, os próprios e os de alguns mimosos animais com os quais teve a infelicidade de se deparar – ele suspirou quando viu ao longe, no alto das famosas colinas, em posição de meditação, claro, sobre uma almofadinha florida e fofinha (na verdade, um puff bem “cheguei”), o mais sábio dos sábios da atualidade atual hodierna moderna de hoje em dia… E o mais genial dos misantropos solitários, caladões e estranhos!
Eis um trecho da entrevista que o Nefelibatices traz em primeira mão exclusiva com exclusividade inédita e na frente dos seus pobres concorrentes:
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Senhor Inóbvio: O senhor não sente solidão?
Grande Ermitão: Ermitão e solidão, meu filhinho, é mais do que uma rima.
S.I.: Entendi. O senhor poderia nos falar dos grandes temas, o Amor, por exemplo?
G.E.: Só adredito no amor baseado no contato entre peles, olho no olho, cheiro contra cheiro. O ideal é que os amantes conheçam, meu filhinho, o cheiro do sovaco do outro!
S.I.: Mas o senhor não acha isso meio anti-clímax, algo de mau gosto?
G.E.: Sabe, não acho não, viu? Sabe por quê? Porque a Verdade, anote aí, a Verdade jaz no avesso. Isso mesmo. Tudo o que a gente vê é o avesso de algo. Compreende? Sendo assim…
S.I.: Sendo assim a gente…
G.E.: Não me atrapalhe!
S.I.: Perdão, por favor.
G.E.: Odeio isso!
S.I.: …
G.E.: Onde eu estava?
S.I.: “Tudo o que a gente vê é o avesso de algo. Sendo assim…”
G.E.: Ah, OK. Sendo assim, tudo está com o sinal invertido. Tudo! Além de passar, as coisas passam com sinal invertido.
S.I.: Desculpe, Grande, mas, olha, boiei legal. Foi mal!
G.E.: Pois continuará boiando. Continuando: os amantes, ao sentirem a fragrância do sovaco do outro, nessa grande aspiração mútua das axilas alheias, apenas num nível muito superficial, se pautam pelo não-convencional, meu filhinho boiante.
S.I.: Não, até que não, viu? Começo a entender. Se tudo é o avesso de algo, e se é no avesso, no contrário, que jaz a verdade, isso quer dizer que o verdadeiro amor é encontrado pelos amantes numa ação só superficialmente considerada pela sociedade uma ação anti-amor, anti-clímax, certo?
G.E.: É por aí.
S.I.: Retornando: o senhor, então, acha imprescindivelmente relevante e crucialmente importante e essencialmente necessária uma condição sine qua non para um relacionamento prosperar os amantes se tocarem, se olharem e, sobretudo, conhecerem olfativamente o cheiro, ou a fragrância, das axilas do objeto de afeto?
G.E.: Exatamente! E veja: não há dois sovacos iguais. Me refiro ao odor, ou à fragrância, sim?
S.I.: Argh, digo, sim!
G.E..: O mau-cheiro só é mau-cheiro para quem não se deu conta ainda da questão do avesso. Do Grande Avesso de Tudo (G.A.T.).
S.I.: Claro: tudo é o avesso de algo e a verdade jaz no avesso…
G.E.: Começo a me orgulhar de você, filhinho. Seus olhos verdes azulados refletem umas fagulhas de algo parecido com inteligência. Bem, para resumir: o mau-cheiro é apenas a emanação de uma verdade sublime: os afetos têm cheiro! Nada menos do que isso. Pode torcer os olhos, ficar de pé, franzir a testa, tudo: só não aceito contestações basbaques.
S.I.: É surpreendente esta sua descoberta, Grande Ermitão. Parabéns! Não pensa em patenteá-la?
G.E.: [CENSURADO]. Mas obrigado, rapaz. E agora volto à minha meditação. A cada dez minutos que falo, medito três horas e meia.
S.I.: Quer dizer então que para continuarmos nossa entrevista vou ter de lhe esperar aqui, no meio do nada, por quase quatro horas? O que vou fazer enquanto isso?
G.E.: No meio do Tudo, filhinho, você quis dizer. Corrija sua perspectiva. Vá, enquanto isso, procurar o Avesso de Tudo. Das coisas. Outra forma de procurar a Verdade. Boa sorte!
S.I.: Só pra encerrar, Grande. Tô à procura de um furo de reportagem, sabe como é. De modo que… o senhor poderia dizer, daí do alto da sua sapiência, quem afinal será o anti-Lula? Quem vai desbancar o Homem na preferência dos brasileiros, aquele povo subdesenvolvido lá da América do Sul…?
G.E.: Desculpe, filhinho, mas este ermitão não dá palpites em questões pertinentes a nações soberanas.
S.I.: Soberana? Deixa o aedes e o Bush e o FMI saberem disso….
G.E.: Sim, soberana, pelo menos no lado teórico da coisa, pra ficar num campo em que sou especialista. Até mais, filhinho! Entro agora em estado Ômega 3. Au revoir… huuuuummmmmmmmmmmmmmmmmmmm.
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“Tudo o que a gente vê é o avesso de algo”
“A Verdade jaz no avesso”
“Além de passar, as coisas passam com sinal invertido”
(Grande Ermitão)
Perfil
Idade: Impossível de ser avaliada.
Hobby: Conversar com as formigas. E brincar de “A Caverna de Platão”.
Música preferida: O canto do sabiá.
Filme preferido: (“Não tem graça sentar na frente de um aparelho que traz a história toda contada e mostrada. É um acinte à minha imaginação. Por isso, o melhor “filme” pra mim é sentar debaixo daquela Araucária e ver os esquilos e as abelhas e as formigas. Ah, não tem preço, filhinho!“)
Livro preferido: O Grande Livro Rosa das Purificações Místicas, de Chang Ching Lee Hong Chi Chan Chung
O que fazia antes de virar ermitão: Motorista de ônibus em Itaquera (“Fiz também as linhas: Praça da Sé, Tucuruvi, Vila das Mercês, Sapopemba, Jabaquara e Alto de Pinheiros“).