Um poema feito de luz

Os pequenos momentos de que é feita a vida podem se tornar de uma preciosidade inimaginável. Vivemos num mundo turbulento, hostil e refratário às nossas mais profundas e íntimas descobertas, utopias e vivências. As lembranças daqueles momentos aparentemente pífios que vivemos são permanentes, nos acompanharão pela vida afora, e serão sempre um refúgio quando formos obrigados a elas recorrer toda vez que a realidade nua e crua nos colocar quase num ponto de esmagamento. A vida, obviamente, não é pródiga desses momentos de “abertura”, dessas pequenas epifanias. Seríamos seres muito mais ricos interiormente se isso fosse algo trivial. Mas não é assim. Aí entra a grande arte.
O que falar de um filme que não tem um enredo, pelo menos não no sentido hollywoodiano do termo, mas que mesmo assim nos deixa (desde que saibamos exatamente nos abrir àquele universo) mesmerizados? A descontinuidade da narrativa - trata-se, portanto, de uma narrativa nada convencional - parece algo complexo demais, ou, para alguns, um exercício de puro artificialismo. Nada disso! Os filmes do maior cineasta russo após Sergei Eisenstein, Andrei Tarkovski, têm a “fama” de serem herméticos, para poucos… Pura balela.
Mas nos concentremos numa análise mais terra-a-terra desse filme de meados da década de setenta, sendo o mais autobiográfico de todos do grande diretor.
Num exercício de puro comodismo, diria que é a “história” de um homem que está morrendo e que recorda os momentos-chave de sua vida, ele que não fora necessariamente alguém de comportamento exemplar. Ele estaria, assim, na tentativa de se desculpar aos outros, mostar a eles que sim, ele vivera e pôde sentir aqueles momentos de abertura. E ao relembrá-los, e de certa forma vivenciá-los novamente, ele pudesse mostrar que não fora aquele ‘monstro’ moral que ele dera a impressão de ter sido.
As fusões de tempos idos com os mais recentes, essa mescla entre diferentes pontos temporais, num primeiro momento, pode causar um certo incômodo a quem não tenha entendido a intenção do diretor. Ele como quis mostrar tudo aquilo que é e está isolado pela vida afora (aquelas ilhas de epifania) num todo, num constructo transfigurado pela arte. É como se ali, naquele filme de menos de duas horas, víssemos (como de fato vimos), uma concentração de pontos luminosos, quando sabemos que a vida, infelizmente, não é assim. E isso não tira o mérito, claro, da obra. Muito pelo contrário. Aquela concentração toda de imagens, cores, cheiros, tudo aquilo nos pede uma total abertura sensorial. É o mais sinestésico de todos os filmes que já vi. Assisti-lo é um exercício explícito dos sentidos. De todos os sentidos. As imagens oníricas que o diretor teve a proeza de passar para a tela são de uma poesia, de um lirismo incomum, uma verdadeira ode à nostalgia.

Para muitos, “O Espelho” é um filme extremamente inibidor e nada convidativo. De fato não é, como acima escrevi, uma história com começo, meio e fim. Não necessariamente. Talvez num plano mais abstrato, sim. Na verdade, é uma reunião de cenas, imagens, idéias, idiossincrasias que, a princípio, pouco têm em comum. Não é um filme que tenha uma explicação literal que salta aos olhos. É bem na linha daquilo que Resnais fez em “O Ano Passado em Marienbad“. Só que muito mais liricamente. Muito mais sensorialmente. Tivesse caído em mãos incompetentes, aquele material todo seria de uma insipidez colossal. Mas nas mãos de Tarkovski que lê os poemas do pai, Arseni Tarkovski, em voz over, o resultado é espantosamente notável. Aliás, os poemas que ouvimos e que podemos ler em algumas cenas, não trazem com elas necessariamente uma relação. Essa não-relação óbvia entre imagem e palavras, essa dissociação entre esses elementos, é um outro fator enriquecedor para nós, espectadores: podemos, assim, ir preenchendo aquelas lacunas com nossa própria visão, com nossos próprios insights. O filme todo é estruturado para proporcionar a nós, espectadores, o ritmo que quisermos, de acordo com a intensidade que colocarmos nossos próprios e mais íntimos elementos particulares na narrativa que presenciamos ali. Em nenhum momento percebemos, por parte do diretor, algo parecido com aquela tutela de outros cineastas: a pretensão de nos forçar ver isso, sentir aquilo, pensar de uma forma, pensar de outra. Nada disso em “O Espelho“. Talvez o título possa até mesmo ter essa idéia, entre outras: um estilo reflexivo (no sentido de interpretação, de busca de um sentido ou de um sem-número de sentidos e também no sentido de “refletir” as vivências, ponderações e elaborações interpretativas daquele que o assiste). O filme exige de nós uma resposta emocional. Não podemos fugir disso. Se há essa necessidade imposta, não o foi pelo autor, mas pela própria constituição do filme, algo inerente a ele. A liberdade, portanto, de interpretação, pertence a nós. Apenas grandes artistas podem conceder essa riqueza.
Vemos ali, com os cortes e fusões temporais, o relacionamento do protagonista com sua mãe e sua esposa (as duas interpretadas pela mesma belíssima atriz), com seus filhos, amigos e, sobretudo (num prato cheio para interpretações psicanalíticas), vemos clarões de sua infância. Do menino do passado ainda preponderante no homem que se tornou maduro.
Aqueles que não estão acostumados com todos aqueles cortes narrativos e fusões temporais, com personagens do presente numa mesma tomada com personagens do passado, tudo a exigir muita atenção, portanto, do espectador, pois bem, aqueles apressados, ou acostumados demais com a narrativa hollywoodiana, a esses o filme será sim algo chato, monótono. Pois não corresponderá a suas expectativas. Porque a chave para descortinar e fruir tudo o que esse filme tem a nos oferecer (e nos enriquecer, sobretudo) seria a empatia. Não se trata daquela velha mania do “Então daí… e então… e então…”. Tem-se que se desprender desse hábito para ter acesso a toda a riqueza de um Bergman, Tarkovski, Kieslowski, Kurosawa etc.
É poesia visual. É filosofia também. É tudo isso misturado, trabalhado por um artista visionário, corajoso e hipersensível.

A música, com muito de Bach e Henry Purcell, é deslumbrante, como não poderia deixar de ser. Há muita trilha de suspense, que funciona à perfeição. O diretor combina magistralmente elementos díspares e tira daquilo tudo uma riqueza lírica pungente e poderosa.
Cenas preferidas? Várias, claro. Mas sobretudo aquela em que o garoto (o protagonista no passado) tenta (tudo coerente com a atmosfera onírica e quase mística do filme todo) entrar em casa, após fugir de um vendaval, tudo em câmera lenta, o que acentua à última potência a beleza plástica. As folhas reviradas, o vento poderoso, a umidade.
Sem falar daquela em que o teto desaba, em slow motion, com o barulho de goteira bem acentuado, enquanto a mãe se lava. Seria a memória se apagando? (Será que o diretor Michel Gondry e o roteirista Charlie Kaufman em “Brilho eterno de uma mente sem lembranças” beberam na fonte de Tarkovski ou a ele prestaram uma homenagem naquela seqüência da casa à beira-mar?).. Realmente, fabuloso.
Do ponto de vista filosófico, há semelhanças entre alguns temas com os do maior autor russo de todos os tempos: Dostoiévski, que, aliás, é citado no filme. A questão Homem x Natureza é um leitmotiv poderoso em “O Espelho“. Sempre que ela, a Natureza, se manifesta, é de uma forma altamente desproporcional à fragilidade do ser humano. Os vendavais, constantes no filme, acentuam, e muito, tal idéia.
Há muito simbolismo ali, claro. Mas tudo muito bem dosado e nada gratuito. Surrealismo passa longe. Aliás, Tarkovski, numa célebre entrevista, desancou o movimento de Breton e Dalí…
A cena inicial, de um rapaz com sérias dificuldades de fala, e que é curado, em frente de nossas pasmadas retinas por uma especialista em doenças de fundo nervoso, é uma metáfora da dificuldade de expressão que temos todos ao nos darmos conta de quão hostil e refratário é este mundo aos nossos “universos particulares”?
Uma curiosidade: na época, o filme foi considerado elitista demais pelas autoridades soviéticas, que o acharam não-acessível às massas. O ridículo, o ridículo…


Ficha Técnica: O Espelho
URSS, 1974, Cor e P/B, 100’
Com: Margarita Terekhova, Oleg Jankovski, Philippe Yankovski, Ignat Daniltsev, Nikolai Grinko;
Argumento: Andreï Tarkovski, Alexandre Micharine, com poemas de Arseni Tarkovski lidos por Andreï Tarkovski; Diretor de Fotografia: Georgi Reberg; Direção Artística: Nikolai Dvigubski; Montagem: Ludmila Feiguinova; Música: Eduard Artemiev, com excertos de Bach, Pergolese e Purcell; Produtor: E. Vaisberg; Direção de Produção: Y. Kouchnerev; Produção: MOSFILM
Olá, Elienai. Eu estava procurando informações sobre este grande diretor russo para um trabalho na faculdade. Você sabe que a obra dele está sendo resgatada e tirada do limbo onde permaneceu desde a queda do Muro de Berlim, resquícios da Guerra Fria etc. Bem, eu havia visto este filme logo que saiu em dvd, alguns anos atrás.
Li seu texto e achei muito esclarecedor. Seus pontos-de-vista são muito enriquecedores, meu caro. Sua escrita é elegante, sem ser pedantesca. Sua articulação textual é muito cativante. Você é jornalista? Sua escrita é descompromissada, aparentemente, mas tangencia assuntos complexos, e a gente nem percebe! Esta é uma forma indireta de louvar sua inteligência, sem a qual nada disso existiria.
Li outros textos seus e apenas corroborei minha opinião: você tem um imenso talento, muita versatilidade e parece muito seguro daquilo sobre o qual escreve. Sem falar do ótimo gosto.
Meus parabéns, meu caro. E a sua foto de criança é bem profética!
Longa vida a este site.
Atenciosamente,
Esther.
Esther,
Muitíssimo obrigado pelas palavras, que são um grande estímulo para mim, saiba disso. Que bom que o que escrevi/escrevo tem sido útil de alguma forma. E é bom encontrar alguém que aprecia uma arte mais elaborada e que exige mais do que os olhos.
Um grande abraço e sempre que puder, apareça. É uma honra ser lido por pessoas como você.
Abraços.
Belíssima interpretação. Esse filme me fez escrever ao (re)despertar sensações; coisa que há muito não fazia. É a poesia da lente que transpassa para nossa vida.
Olá, Lurian.
Obrigado pela visita e pelo comentário. De fato, é um filme que nos desperta pura poesia e nos tira do rés-do-chão da realidade.
Abraços.
Só tenho que parabenizá-lo por essa excelente análise do provavelmente filme mais “impenetrável” do Tarkovsky. Gostei muito quando você menciona os pequenos fatos da vida, que se tornam um refugo, um porto seguro para nós no futuro.
Olá, Bruno, que bom que tenha gostado. Volte sempre!
Abraços