Experiência philozóphika com o Tempo: faça isso em casa (Texto revisto e corrigido!)

                             

     Ultimamente, tenho tido umas idéias meio obsessivas no que diz respeito à duração do tempo. Ou melhor, à duração subjetiva do tempo. Quer dizer: a forma com a qual ou a partir da qual mensuramos o tempo. Sim: esqueçamos por um momento (um minuto contado!) o tempo cronológico convencional… Claro, isso não é lá muito fácil, tal o grau da nossa dependência e condicionamento à coisa. Mas tentemos…

     É difícil, mas não impossivel. Bem, retirado aquele caráter universal e racionalmente cronológico do Tempo, que possibilitaria que Shakespeare e Paulo Coelho, Gretchen - sim, “aquela” – e Jane Austen, Latinogosh! - e Oscar Wilde trocassem informações triviais sobre as horas, se contemporâneos fossem (e excluídas igualmente, claro, todas as impossibilidades lógicas para tais encontros surreais) o que sobra é uma “corda” esticada, afrouxada e novamente retesada em função das nossas impressões subjetivas. Tudo bem: isso não é nenhuma novidade. Sem problemas: o que se busca aqui não é a originalidade, nem as luzes de ribalta. Mas, isso sim, umas “reflekissõezinhas” inofensivas e de meia-pataca…

     Sente-se num lugar escuro. Desligue aparelhos de qualquer espécie. Na escuridão, sentado (a) confortavelmente numa poltrona ou deitado (a) na cama, imagine um grande mar, imenso, a perder de vista! Nele, você é, distinto leitor, mimosa leitora, um barquinho a vagar, frágil e à deriva. Tudo ao redor é o Tempo. A extensão e as dimensões desse mar são determinadas pelas suas mais profundas idéias, impressões pela vida afora etc e tal. Quanto mais intensas, maior é a impressão (ilusão?) de que o Tempo se estende, se expande. Quanto menos intensas, mais exíguo ele é. Em outras palavras: o seu mar (Tempo subjetivo) se aproxima do horizonte ou se afasta dele à medida que você experimenta (ou não!) a vida com mais (ou menos!) empenho, intensidade, seja o que for.

      Após essa experiêncial altamente benéfica de relativização do Tempo (que Teoria da Relatividade o escambau!), você, distinto leitor e você, amável e coquete leitora, estão, junto com este que vos escreve, de mãos dadas, cabeça erguida, prontinhos para ir ao Juquiri, ao Pinel, enfim, à Casa de Orates do velho Machado.

     

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     Ao som de Ray Charles, Live at Montreux, 1997 (DVD).

"O Homem-Fiasco": uma estorinha existencialista às avessas.

                           

     Todos lhe previam um grande futuro. Desde pequeno, acostumara-se com o fato de que, em tudo que ele fizesse, sempre haveria alguém a lhe louvar as atitudes e ver nelas o supra-sumo da inteligência, a semente de um futuro gênio da ciência, das artes, ou, se possível, das duas, como um novo Goethe!

     A coisa teria que dar errado.

     Um dia, já adulto, ele descobriu que não era nada daquilo. Atingira uma idade já muito avançada para se tornar um luminar do saber. Não casara, não tinha uma profissão certa, não havia virado diplomata, como uma tia vivia lhe dizendo que um dia seria. Outras tias e tios e primas e primos, sem falar nos pais, claro, lhe haviam vaticinado um futuro não só de grandezas como também de perfeita felicidade. Fiquemos no vatícinio não-cumprido da sua tia, para poupar espaço e, não menos importante, para não tomar o tempo dos caros leitores.

     Sem os pais, filho único envelhecido, sem parentes. Endereço: travessa da amargura, esquina do vazio existencial com a dureza da vida. Dormia de favor na casa de uns amigos de longa data. Na estante, alguns livros, alguns diplomas: a lembrança esquálida de outros tempos, mais promissores e (como doía-lhe essa constatação!), por isso mesmo, de ilusão.

     Alguns tentavam descobrir o porquê do Homem-Fiasco (apelido que um professor universitário, seu vizinho, lhe havia dado) ser… um fiasco.

     Um psicólogo dizia que era algum trauma; um artista boêmio, que era falta de diversão; um clínico geral, que ali estava o exemplo acabado do que a falta de atividades físicas e o sedentarismo eram capazes de fazer. O certo era que o Homem-Fiasco, aquele outrora garoto mimado com os mais insufladores elogios, sempre o primeiro da classe, o mais badalado de todos os caxias, era um imenso e redondíssimo zero à esquerda. A personificação exata da nulidade.

     Ele conseguira a proeza de passar pelo que não era e, o mais notável, de ter acreditado nisso com toda a convicção!

     Com o tempo, dera para beber. Não suportava mais o convívio com quem quer que fosse. Abominava ser reconhecido na rua. Desempregado, taciturno, misantropo e amargurado, ele engolia em seco seu orgulho trucidado pelos anos. Sim, ele sofria! Ele comparava a imagem do que era, ou do que pensara durante tanto tempo que era, com o que ele se tornara, ou, como queiram, com aquilo que ele sempre havia sido! Como ele pôde enganar tantos? Como ele se auto-enganou, se auto-engabelou durante tanto tempo e com tanta intensidade e sinceridade? Era em que ele mais pensava.

     A questão era que ele não era um fiasco. Ele não podia ser um. Ele era inerentemente “o” fracasso, não a promessa de sucesso.

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     Numa manhã de inverno, amanheceu morto no quartinho modesto em que morava com uns amigos que nunca lhe negaram comida, roupas e carinho (apesar de toda sua amargura). Aos sessenta e nove anos, findara-se ali a ex-grande promessa da humanidade, o ex-gênio, o outrora garoto mimado, inveja dos pais de seus pequenos colegas, orgulho supremo de seus próprios progenitores.

     Ele vivera agrilhoado pelas próprias mentiras. Uma forma trágica e acentuada de auto-engano.

     Eis o caso típico da fama (a realidade ”dinamitada” pela mentira e por uma miragem) que precedeu a essência (o que de fato ele era: a antítese de tudo aquilo que viam nele e que, no fundo, ele via nele mesmo). Do engodo sobre a realidade. 

     Mas, no fim, ela, a realidade, vingou-se.

     Sem dó. Nem tampouco piedade. Como costuma fazer com as mentiras mil vezes ditas.

 

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     Ao som do álbum A Love Supreme, do Coltrane

Em honra de Marianita (Trecho de um diário).

   Nota de advertência: o texto a seguir é produto da imaginação do autor, como todos os textos que pertencem à categoria Conto/Crônica ao lado. Portanto, as circunstâncias, as personagens e tudo o mais que nele houver pertencem à ficção. Quanto aos termos de baixo calão, eles foram necessários à verossimilhança na caracterização desse narrador sui generis, cujo linguajar destoa de pessoas de seu nível social. O tema é o jogo de aparências. A idéia foi mesmo ironizar as personas e máscaras que usamos e deixar às claras a contradição que é o ser humano. Ainda que muitos se achem especiais demais para agüentar tal verdade. E outra ironia é o fato de justamente alguém que se beneficiou dessa hipocrisia toda passar a se incomodar com toda aquela encenação.

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   Ontem acordei sentindo o peso do mundo todo nos ombros. No dia anterior, eu tivera uma discussão feia com minha chefe, a reunião tendo que ser cancelada, um clima péssimo. No corredor, colegas me deram tapinhas nas costas e sorriam forçado.

   – “Ah, cara, não esquenta. A mulher tá passando um momento complicado na vida. Dá um desconto. No fundo ela te adora!”, e riam, matreiros. Eu mentalmente os mandei todos para as distintas putas que os haviam parido! Eu não queria falar mais com ninguém naquela merda de tarde chuvosa, na porra desta cidade de bosta…

   Saí mais cedo. Desliguei o celular. Entrei no carro. Aumentei o som. Saí sem rumo pela cidade horrorosamente cinza e ensopada. Eu estava mortalmente chateado, frustrado e puto. Deixei o instinto me guiar. Segui um carro vermelho na minha frente, guiado por uma loira lindíssima. Ela percebeu. Me deixou passar. Olhei pra ela. Ela pra mim. Vi, se vi!, o horror da desconfiança naquele olhar. Sem dúvida ela me achava um matador, um assaltante ou outra meiguice do gênero. Pistoleira!

   Acelerei e sumi numa avenida na qual nunca passara antes. Começava a escurecer. A rádio em que estava sintonizado começou a tocar uma porra de um funk carioca que me deixou mais descrente ainda na humanidade. Eu estava puto, como disse, na fossa, e os filhos da puta ainda tocavam aquela arenga do capeta no meu rádio pra me afundar de vez! Desliguei aquela porra! Vá se fuder quem criou essa merda!

   Acho que quem ouve essas nojeiras não faz parte da raça humana! É uma escória podre!

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   Com quarenta e nove anos, um infeliz vazio, sem objetivo maior que não o de ascender socialmente, como eu, já passou por um monte de momentos assim. Mas é incrível: cada vez a coisa vem com mais força! Lembro quando fui mandado para Estocolmo a trabalho e, apesar de estar acompanhado de uma sueca de parar o trânsito, aquela sensação de quase-morte me invadiu. Na cama, eu dei uns sopapos na vadia e a mandei embora. Ela pensou que era algum tipo de fetiche meu. Revirou os olhos. As narinas ofegantes. No meu inglês perfeito, eu disse que se me denunciasse eu a perseguiria pois eu era brasileiro e todo brasileiro é mau-elemento com conexões criminosas! A infeliz arregalou os olhos azuis e acreditou em tudo e foi com o rabinho entre as pernas vestindo-se rumo ao banheiro. Já era branca, ficara transparente. Dali a alguns minutos, sumiu. Mas era das melhores na cama…

   Naquela tarde em Estocolmo, eu tinha um monte de compromissos. Esqueci de dizer que sou um executivo solteirão de uma influente companhia mineradora. As pessoas, por causa do meu cargo, só faltam lamber meus sapatos. Estou cansado dessa farsa! Nessa porra de confessionário que é meu caderno de notas, eu posso me livrar dessa fachada de homem culto poliglota. É aquela história: quer conhecer um sujeito, tente descobrir o que ele faz quando está sozinho. Aqui eu sou eu mesmo, muito prazer!

   Voltando a antes de ontem. Não, ainda não. Preciso dizer que me formei em Cambridge? Está bem: estudei lá. Pergunto eu: e daí, caralho? Alguma coisa muda? Faço parte dessa fauna de hipócritas imbecis que somos todos! Estou cagando para o que venham a pensar de mim! Foda-se!

   Quem lê isso vai querer saber o porquê de eu ser assim, qual a razão desse “amargor” todo. Eu sei lá, porra! Só cansei de hipocrisia. Doutor Fulano para cá, Doutor Fulano para lá! Ah, não agüento mais! Já transei com toda a mulher que desejei, tenho bens para essa porra de vida e para outra. Não vou casar. Não vou montar família. Só a farsa que sou eu já basta. Para quê mais lixo no planeta?

   Bem, antes de ontem o que aconteceu foi que, minha distinta chefe, com quem euzinho já tive um caso (para não entrar em detalhes por demais “calientes” aqui), teve uma recaída. Ela me mandara um e-mail para a esperar no apartamento que ela tinha  lá pelos lados de M. Mas eu respondi que não, eu tinha que me concentrar na merda daquele relatório de que ela me incumbira. A verdade é que me cansei dela, me cansei de ficar até tarde no escritório e da boca dela em mim. Não queria mais aquilo. Meu foco, aliás, no momento, são as dondoquinhas. Entre dezoito e vinte é o que mais tenho consumido. Olha, eu digo que o movimento está bom atualmente. O mercado, aquecidíssimo!

   Mas daí aconteceu aquela coisa toda. Mulher quando tem talento para histerismo sai de baixo! Ela, ainda por cima, é uma artista. Conseguiu me colocar, durante a reunião, contra quase todos os meus colegas. Seu olhar me lançava chispas de ódio. Ela tremia e bebia água. Tremia e bebia água. Por fim, todos se compadeceram da vigarista e decidiram adiar a reunião.

   Meu filme ficou queimado. Minha imagem, arranhada. Eu tinha deixado a imagem de funcionariozinho subalterno e relapso! Meu orgulho, quando é ferido, faz meu coração entrar em erupção.

   Ela vai me pagar!

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   Faz quase oito meses que não escrevo nesta página de caderno. Durante esse tempo, conheci a Marianita, uma mexicana de dezenove anos. E santa! A coisa mais perfeita que me aconteceu. A companhia me mandou para o México sete meses atrás. E o povo do sombreiro se amarrou no meu jeito arrojado.

   Agora, freqüento a igreja um dia sim outro não. Marianita, trinta anos mais nova do que eu, me converteu naquele sujeito amargo para este, calmo, tolerante e que busca cada vez mais as coisas divinas. Preferi não me livrar das páginas precedentes para poder mostrar mais a diferença, a incrível transformação que em mim se operou. Tudo por aquele par de olhos negros, cabelos lisos e escuros como o piche, boca de lábios grossos, fonte do mais indizível prazer.

   Só não mudei totalmente porque semana passada eu cumpri a promessa que fiz contra aquela salafrária da minha ex-chefe. Sim, ex. Foi exonerada. Montei um esquema, contratei uns capangas e burlamos o sistema da companhia. Ela foi acusada de desviar uns fundos e pimba!, lá foi para o olho da rua. Serviço limpo. Rápido. Sem deixar rastros.

   Isso, como disse, foi concluído na semana passada. Agora, com a sensação do dever cumprido, posso voltar à minha vida de santo ao lado da minha pequena Marianita.

   Ah, tem certas coisas que não dá para esquecer, não é? Estou honrado. E, agora, santo!

   Vou voltar para a reunião com uns ingleses. Hora de praticar meu inglês.

   

   So long !

 

 

 

O Acaso e a Estudante de Filosofia.

                 

     O homem nunca pode chegar a prever todos os perigos que o ameaçam a cada instante.” (Horácio - 65 – 8 a. C)    

  

 

    Indo de encontro ao acaso, colidindo com ele, Michelle, estudante de Filosofia, acordara com a sensação de sufoco existencial. Era uma vontade de querer respirar, mas com ela vinha a certeza de que uma grande teia de acontecimentos estava já há muito determinada, projetada e estabelecida para lhe acontecer. Ela simplesmente acordara e de súbito tivera a perspectiva que jamais até então havia tido: a de que o fortuito não existia. O relógio tiquetaqueando exasperadamente; o som do rádio que havia deixado ligado baixinho durante a noite; a luz do abajur, agora inútil sob os raios solares que passavam pelas frestas de sua janela; as coisas e fenômenos mais pífios da existência trivial, para ela, neste instante de revelação, tinham seu mecanismo interior e sua razão de ser desvendados. Visível a olho nu, explícito como um sonho enquanto se sonha, o caráter inevitável de tudo aparecia-lhe nos mínimos detalhes - estes, até pouco tempo atrás insondáveis!  O acaso, portanto, fora riscado, de súbito, de seu mapa mental. O fortuito era visto agora como o paroxismo do pueril, o ápice da cegueira conceitual na qual – acreditava ela – estamos fadados a viver.

    Como estava de férias, ela podia ser soberana de seu tempo. Tudo bem que estava tudo determinado, concebido e estabelecido por uma teia invisível, mas, droga!, não se podia ter tudo. Eram suas férias, ainda que não fortuitas…

    Tomou seu desjejum habitual. Deu uma passada de olhos nas manchetes dos jornais: “Tudo é definido de antemão, por que se preocupar com notícias?”, perguntava-se ela. Qual a graça de consumir um produto que trazia uma pletora de exemplos acabados de que nada é por acaso sob o sol? No dia seguinte cancelaria a assinatura daqueles jornais todos! E do serviço de tv a cabo. Riscaria a informação trivial da sua vida, e como iria!

    Resolveu ir ao parque: agora de férias, seu jogging era algo mais do que sagrado.

    Ao se deparar com os rostos de sempre, as árvores de todos os dias, o itinerário habitual, ela começou a mergulhar em seus mais absorventes pensamentos.

    Se não existe o acaso – pensava ela -, se tudo está já determinado, a nós, seres “cegos” por aquela utopia (o acaso e o fortuito), a engrenagem que move o mundo ser-nos-ia, limitados que somos, por isso mesmo, algo inacessível. Estando fora do nosso alcance o verdadeiro mecanismo das coisas, mais precisamente, dos acontecimentos, tínhamos, isso sim, que nos contentar com apenas uma migalha de previsibilidade. Mas, ao nos apegar a essa ínfima certeza das coisas, a certeza de que tudo está já definido, adotamos a concepção segundo a qual não adianta a nós, pobres seres limitados, nos preocupar com o que está a nós reservado. Era fatalismo puro, mas real! A nós nos resta viver dentro de um número muito limitado de possibilidades. Portanto, e esse era seu insight, sua revelação súbita, um paradoxo considerável: devemos, apesar de todos os pesares, nos preparar para captar um resquício do que a nós está delimitado pela antítese do acaso, a saber, o já aguardado porque definido de antemão pela engrenagem que apenas podemos visualizar parcialmente. Esta, magnânima, nos concede uma “esmola”: basta estarmos atentos às grandes “dicas” e “sugestões, aos grandes “indícios” com os quais, sabendo captá-los, podemos, se não prever de todo, ao menos intuir o que nos espera, o que nos aguarda.

    Ela sabia que isso não poderia ser explicado a qualquer um. Poucos teriam a sutileza e a penetração analítica necessárias. E se ela se abrisse com aquele senhor grisalho que todos os dias estava lendo “Ulisses”, de Joyce, no mesmo banco, aquele perto do chafariz principal, este ainda bem que desligado a essa hora da manhã? Não! Nem ele a entenderia, ela tinha certeza.

    Parou a corrida. Agora, caminhando, com o sol batendo em seu rosto atraente, com a respiração ofegante, fazendo movimentos com o pescoço e a cabeça como exercício, ela estava confiante. Aquela confiança que nasce da certeza de que se descobriu algo ainda escondido e inacessível a muitos. O que lhe dava um orgulho bom, que por sua vez, a fazia andar de cabeça erguida, o caminhar soberano, o busto na posição de plena confiança em si mesma.

    Saiu da pista de corrida e foi para a calçada. Alguns carros e motos passavam bem ali. Cumprimentou alguns conhecidos e voltou a se perder em seus pensamentos.

    De posse daquela “descoberta”, ela fazia planos mais ousados. Sua vida mudaria para sempre, ela tinha certeza! ”O acaso não existe!, tinha vontade de gritar. Mas refreou esse ímpeto exibicionista. Achava que chegaria em casa e após uma salada de frutas incrementada iria colocar no computador, de forma mais desenvolvida, aquela revolucionária idéia.

    Quantos sábios, pensava ela, em priscas eras não tinham tido aquela intuição? Quantos não morreram com a tristeza de não poder ter desenvolvido melhor aquela fenomenal descoberta? Aquela “sacada” libertadora? Libertadora, sim senhor! Sabe-se lá o que é ser livre do jugo do acaso? Dos tentáculos daquilo que se convencionou chamar de Imponderável? Resta-nos – repetia ela a si mesma, como numa espécie de mantra – “farejar” as “deixas” que haveria necessariamente para todos espalhadas pelo caminho. Era aquele paradoxo – “Ainda que tudo esteja definido de antemão, podemos ao menos construir, ainda que de forma não completa, a cadeia de acontecimentos que há por trás de tudo. Podemos ter um vislumbre das coisas “invisíveis” que regem a Vida! Portanto, temos uma ínfima possibilidade de prever o mecanismo por trás de muitas coisas que até então achávamos por demais inacessíveis” – que a fazia sorrir para desconhecidos, algo raríssimo nela. Ajustou seu i-Pod na calça, colocou seus óculos escuros e, segura de si, brincou com uma garotinha que vinha com a avó em sua direção.

    O acaso sendo uma farsa, o fortuito, seu irmão, um engodo dos maiores que a humanidade já tinha tido, ambos devidamente, graças à sua concepção impetuosa típica da juventude, inutilizados e neutralizados, lá ia Michelle rumo à portaria.

    “Ah”, pensava ela, “tudo sendo explicável, na medida do possível aguardado… Como é boa essa concepção… Meu professor, na aula de Teleologia, ah, quero ver a cara dele quando eu colocar por terra a idéia dessa pseudociência cunhada por aquele charlatão do Christian Wolff que trata do fim último das coisas… Argh!”.

    De súbito, pombos assustados voando. Gritos de espanto: houvera uma freada brusca.

    Três garotos que brincavam com balões com gás Hélio, desses que, uma vez soltos, sobem e, sem cerimônia, atingem os píncaros do céu, largaram seus brinquedos. Naquela manhã, as três bolas de ar ganharam um céu límpido.

    Um i-Pod e um par de óculos escuros arremessados. No meio-fio, a resposta silenciosa do Imponderável, do acaso e do fortuito, deuses inflexíveis e inexoráveis.

    – Foi muito rápido, seu policial. Não houve tempo pra nada. Foi horroroso, teve uma senhora que desmaiou. Pobre moça, não ouviu a busina. O cara até que tentou frear antes, mas tava muito em cima, não deu. Coitada! Tão jovem! Mas Deus misericordioso e soberano sabe de tudo.

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Ao som de Diana Krall, Live in Paris (DVD)

Gustavo "Guga" Kuerten: o herói do (im)possível.

                              

  Nunca fui fã de tênis. Nunca acompanhei uma partida na íntegra. Não se não fosse um tal de Gustavo Kuerten jogando. E desde já aviso que esta é uma singela homenagem a esse grande cara, esse catarinense baiano, paulista, gaúcho, potiguar, piauiense etc e tal.

   Antes de ontem, em sua despedida em Roland Garros, lugar que o imortalizou naquele distante ano de 1997, veio à mente tudo de volta. E pudemos ver o ápice na carreira de um esportista íntegro, autêntico e de uma humildade estonteante. Quando pensamos em outras “celebridades” esportivas deste país, logo nos vêm à cabeça os mascarados, arrogantes, problemáticos e soberbos de sempre. E lá está Guga como a antítese de tudo.

   Ele, cada vez que entrava na quadra, durante as partidas, no término delas, levava um pouco da gente. Nunca me senti representado por um atleta como ele nos fez sentir durante esses onze anos. Aquele sim a gente pode dizer que honrou o nome do país. “Patriotismo? Bah, que coisa superada e brega!” Sim, patriotismo, mas não aquele piegas, não aquele patriotismo acrítico do Galvão Bueno, o mais ufanista de todos os ufanistas. Não me refiro a esse tipo de patriotismo. Mas àquele mais nobre. Guga nos fazia sentir orgulhosos justamente por nos dar a impressão de que era como a gente. De que as coisas grandiosas podem ser feitas na base do esforço, da determinação. De que, não importando o país, todos podem, desde que almejem e lutem e se qualifiquem e enfrentem as dificuldades “na marra”, obter resultados. E isso, claro, pode ser extrapolado para outros campos das atividades humanas.

   Guga, apesar de ainda jovem,  cansou. Como tenista, atingiu mesmo uma idade na qual os problemas físicos são potencializados. Mas seu nome para sempre será louvado, seu exemplo, ensinado a muitas e muitas gerações e sua imagem, para sempre guardada com aqueles, nós, seus contemporâneos, que tivemos o privilégio de o ver jogar. “Jogar”, claro, como sinônimo de “ser guerreiro”. Um guerreiro que fez o impossível e nos mostrou que o possível é um outro nome para os sonhos.

   É como se fosse a um amigo de longa data, meu velho, que te desejo (ainda que você jamais saiba da existência deste post) tudo do bom e do melhor.

   Valeu, Guga!

Do baú.

Publicado originalmente neste blog em 26 de maio de 2007.

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             O Homem-Artefato

 

O Homem-artefato não pensa.
O Homem-artefato não fala.
O Homem-artefato não sente.
O Homem-artefato não se revolta.
O Homem-artefato não pisca.
O Homem-artefato não se move.
O Homem-artefato não lê.
O Homem-artefato, de fato, não se importa com arte [A não ser a de ser artefato].
O Homem-artefato não se importa com nada.
O Homem-artefato é só uma abstração.
Um nada abstraído de um outro nada. Imenso. A perder de vista.
O Homem-artefato é apenas, isso sim, uma metáfora sem valor num mundo de valores desvalorizados e outros valore$ por demais valorizado$.
O Homem-artefato é um quase-nada.
Mas um quase-nada que cada vez mais é a regra geral.  Um quase-nada cada vez mais um quase-tudo.
O Homem-artefato é o futuro no agora!

 

 

 

A arte do desapego.

                    

 

       “Reivindica a propriedade do teu ser”.

                   Sêneca (4 a.C.? – 65 d.C.)

 

     Pela vida afora, vamos deixando um pouco de nós mesmos. À medida que vivenciamos as mais diversas experiências, desde as mais comezinhas até as mais grandiosas (sob nossos olhos, claro), inevitavelmente vamos nos soltando, nos desamarrando de um sem-número de coisas que até ontem, até esses dias, nos interessavam e nos tocavam tanto. Como sabemos, isso é natural e inevitável que aconteça. Imagine só se tudo estivesse conosco desde os tempos imemoriais de nós mesmos! Qual não seria a cacofonia de lembranças, vozes, rostos, momentos vividos, impressões, risos, raivas, e mais um monte de tranqueiras que teríamos que carregar!

    O desapego é uma forma de acelerar esse processo natural de nossa psique. É uma ajuda que damos ao nosso vasto mundo interior. É uma faxina intencional, um esvaziar de gavetas, uma ventilação de interiores, um espanar dos móveis e um descartar-se das bugingangas, de estorvos e outros “atrasos” que insistem em nos atravancar a vida interior e, conseqüentemente, a exterior, visto que nossas ações apenas refletem nosso universo subjetivo.

    Desapegar-se. Para isso é necessário ter critérios, obviamente. Para isso, é preciso ter todo um embasamento, toda uma justificativa subjacente à ação de desapegar-se. É ter filtros poderosos. É saber, em última instância, que por mais que nos cerquemos de todo um aparato (amigos, dinheiro, sucesso profissional, viagens de férias, bens etc), por mais que tentemos nos auto-enganar “achando” que alguém, ou algo (portanto, um agente externo), possa nos proporcionar a tão almejada “paz interior” (a Felicidade, para alguns), a verdade, a cruel e fria e áspera verdade (sobre a qual já escrevi aqui) é que não podemos confiar a quem quer que seja nossa vida. E isso pelo simples fato de sermos essencialmente solitários, queiramos ou não. Simples assim.

    Disso não se conclui, obviamente, que devemos nos pautar apenas por nossos critérios de absoluta necessidade intrínseca de nós mesmos. De forma alguma. Podemos e temos a obrigação de interagir, de nos relacionar, de não nos fechar em nós mesmos. O encarcerar-se em si próprio é uma outra forma de dependência.

    E a arte do desapego entra exatamente aí.

    Meu lema, que estou agora a adotar, e pretendo pôr em prática durante toda a minha vida: Não se apegar a nada em cuja hipotética ausência eu possa imaginar minha soberania sobre mim mesmo ameaçada.

 

O Despacho.

    Noite de domingo. Ricardo Janturi não sabia bem para onde iria quando entrou no seu carro recém-comprado na Alemanha. Ali dentro, o som do Joy Division era arrebatador. Talvez a uma zona do centro velho de São Paulo? A um inferninho ali em Pinheiros? Ou quem sabe ao Bourbon Street em Moema, para pegar logo uma daquelas mulheres em flor que sabiam quem era Billie Holiday ou Thelonious Monk? Ou senão para o Shopping Aricanduva, com as lojas abertas para o Natal, onde sua paquera era gerente de uma mega loja de departamentos?

   Ele estava em estado de êxtase. Não raciocinava direito. Com suas roupas caríssimas, seu perfume suíço, e ainda por cima com aquele carro, ele poderia catar qualquer uma!

   De repente, se lembrou: iria antes ao terreiro de candomblé numa quebrada na zona sul, lá pelos lados de Santo Amaro. Resolvera fechar o carro, seu invejável carro, contra os inevitáveis olhares de invejosos e fracotes pobretões que iriam secar sua possante máquina fabricada em Frankfurt.

   Chegando lá, ele se lembrou que já tinha conversado a respeito do “despacho” com Tonico Tranca-Viela, o mais aclamado dos fechadores de corpo. Ou do que mais fosse. Desceu e foi trancando o carro. Rua deserta. De casas de classe média-baixa. Um guarda-noturno,  com sua moto antiga e barulhenta, ainda por cima com um apito na boca mais irritante ainda, passou por ele devagar e acenou. Disse por entre a fresta do capacete qualquer coisa como um E aí, playboy !

   Este foi logo apertando a campainha. Uma loira altíssima, de batom fortíssimo, de peitos fartíssimos e decote abusadíssimo foi logo o abraçando e beijando: Gatíssimo, vem cá, que saudade, lindo Visivelmente bêbada, ela o apertava na cintura e sua mãozinha lépida passou por entre os cabelos do recém-chegado, que friamente a beijou na boca, um beijo morto, desses que vemos entre conhecidos. Beijo denunciador de que ali já houvera uma maior intimidade.

   -  Salve, salve! Seu Ricardo Janturi, filho do eminente doutor Fernando Janturi! A quê devo a honra?

   -  Salve, salve, seu Tonico. Boa noite, moçada, só nos goles! Aí, num tô a fim de atrapalhar não, mas, seu Tonico, eu trouxe a máquina, aquela que a gente falou no telefone mês passado. Ela chegou! E, como o senhor sabe, olho gordo é o que não falta nessa terra de miseráveis. Então, tem como hoje o senhor me fechar ela?

   -  Mas é claro! Pessoal, de quem é o Astra na garagem? Seu Joca, tem como tirar por uma meia-hora? A gente vai fazer um trabalhinho de despacho no carro do bacana aqui. Tem como?

   -  Puxa, aí, não queria atrapalhar não!

   -  Atrapalha nada, meu filho!

   -  Bem, então…

   -  Peraí, meu filho. Senta um pouco. A noite é longa. E o que não vai faltar é mulherão nesse seu carango aí… hehehehe…

   -  Ah, o senhor acha?

   -  Mas é claro! Senta aí, toma um gole. Amandinha!

   Falando baixinho: 

     – Se quiser aproveitar aí, meu filho, com a Amandinha… leva ela lá pra sala, tá tudo tranquilo lá. Aproveita… shhh… lá vem ela.

   Mudando o tom:  

   -  Amandinha, traz lá uma cerva pro seu Ricardo!

   -  Ah, não precisa, seu Tonho. Eu não vou demorar.

   Tonico, cochichando:

   -  Ah, deixa disso. Saca só a sainha dela! Resiste?

   -  Bem…

   -  Amandinha – mudando o tom -, acompanha o seu Ricardo na sala. Ele tá com dor de cabeça.

   -  Claro! Vamos? – perguntou ela, num sorriso em que se entregava toda.

   –  Mas…

   – … Mas nada! Vai lá, vai te fazer bem! hehehe. Enquanto isso, eu vou botar essa carninha pra assar…

   A carne de fato assara. Uma hora havia se passado.

   Tonico Tranca-Viela tinha acabado de falar ao celular, a um canto. Foi só ele guardar o aparelho no bolso da camisa, apareceu Ricardo, despenteado, com um sorriso apalermado.

   -  Então, meu filho. Aproveitou?

   -  Pô!

   –  Muito bem, garoto. Assim que se faz. Tem mais é que aproveitar mesmo!

   -  Ah, quanto te devo, seu Tonico?

   -  Ah, isso é uma ofensa, garoto. Não me deve nada.

   -  Bem…

   -  Pega uma carninha aí, uma cervejinha.

   -  Puxa, seu Tonho, tenho que ir logo, desculpa. Outro dia eu venho com mais tempo.

   -  Ah, rapaz. Sossega o patuá. Acabou de pegar uma mulher suculenta dessas e já tá pensando em outras? hahahaha.

   -  …

   -  Não precisa ficar sem jeito: no meu tempo, com a tua idade, e até os 60, eu pegava mais de três também por noite, quando eu tava abarrotado de grana…hehehe

   -  Ah, a carne é fraca, seu Tonico! – rindo muito.

   -  E essa carne aqui tá ótima porque fui eu que preparei! Vamos, experimenta, garoto!

   Meia hora depois, Ricardo se levantou.

  -  Vamos botar pra dentro meu carango?

  -  Vamos, meu filho. Ai, me ajuda aqui a me levantar. Ai, vida de velho entravado…

  -  Imagina, seu Tonico.

  -  Ah…

  Ricardo saiu para fazer a manobra. Mas antes passou na cozinha para pegar um copo de água.

  O Astra foi tirado da garagem para dar espaço ao carro de Ricardo. Este, ao sair do portão, teve um soco na boca do estômago quando não viu estacionado seu caríssimo carro. Fora levado! O que ele faria? A quem recorrer? Sem seguro, ainda? Meu Deus, o que dizer para o papai?

  -  Meu filho, seu Ricardo! Liga pros zómi. Rápido. Talvez o carango tá por aí ainda.

  –  Puta que pariu!

  Amandinha saiu para a calçada, de shorts curtos. A loira que recepcionara Ricardo, não perdendo tempo, o enlaçou e, fingindo o acalmar, tratou logo de abraçá-lo bem fraternalmente.

  A polícia chegou. Foi feito o boletim de ocorrência. Testemunhas. Conversas. Vizinhos curiosos na calçada.

  Duas horas depois, Tonico Tranca-Viela chegava no Astra dirigido pelo Joca, rei da contraversão e aliciador de menores.

  Ricardo havia ido pra casa, sob estado de choque.

  Joca e seu Astra se foram. Amandinha e a loira de seios fartos e quase muda foram dormir com seu Tonico. Ali, na cama, ele, sozinho com as duas:

  –  Minhas meninas, vocês fizeram um ótimo trabalho! Amanhã, quer dizer, hoje mesmo, já é segunda, né?, faço um depósito na conta de vocês. O playboy caiu direitinho. A essa hora, aquele carango já foi despachado para as mãos de receptadores. Gente dos estrangeiros! Tudo profissinal! Coitado do carrão, nem bem conheceu esta terra abençoada por Deus e já vai voltar pra terra dos gringos. Mas podem se orgulhar que fizemos parte de um esquema de primeiro mundo! Fizemos bonito!

  Elas se olharam. Deram gritinhos de alegria. Se abraçaram, até!

  -  Ah, e não me deixam de esquecer de passar a grana pro guarda vigilante, meus amores. Sim? Ah, agora apaguem a luz e vamos continuar a festinha, tá? Vou me sentar na beira da cama. Amandinha, agora você de joelhinhos. Valéria, daquele jeitinho, tá? Ah, vida boa que pedi a Deus… Ou ao diabo, já não me lembro…

 

********************

 

Ao som de Joy Division:

Atmosphere

No love lost

24 hours

“Once in a while”, com Dizzy e Milt Jackson.

Ele foi, junto com Armstrong, o mais carismático dos grandes do jazz. O mais funny jazzman que por aqui já passou. Na época do bebop, ao qual a geração beat renderia muitas homenagens, ele era visto como o mais intelectualizado músico de então. Virtuose, polivante, um piadista nato, Dizzy Gillespie, o “Tonto”, as bochechas mais famosas do planeta, o parceiro até a morte de Charlie Parker, o mais boa praça de todos os jazzistas, era também um lírico, claro. Aqui, tocando ao lado de Milt Jackson, um cara que sintetiza a imagem do vibrafone, este instrumento subestimado mas belíssimo e “plástico”. Uma faixa no fim da qual, após a viagem que nos propõe, nos faz ter que aceitar: o mundo tem jeito!
Uma relíquia do festival de Montreux de 1977.

Bill Evans tocando Waltz for Debby.

 A vida fica melhor ainda ouvindo Bill Evans, o Chopin do jazz. O cara era um poço de crises existenciais, envolvimento com drogas pesadas, altos-e-baixos na auto-estima, mas um gênio ao piano. Quem o vê, não pode acreditar que aquele pianista pacato e ar de nerd era um furacão!

 Os músicos que o acompanham, cujos nomes não descobri, também tocam demais.

 Se mais gente tivesse acesso a isso…:

 

 

 

Périplo de um pseudo-intelectual por um shopping. Ou: em busca de cultura no templo da patifaria narcisista e consumista.

  Acabei de chegar do Center Vale Shopping. Cada vez que entro em um desses antros de ostentação e de futilidade, tenho náuseas. Não as físicas, mas as “conceituais” mesmo. Não, não sofro de síndrome anti-social alguma. Quer dizer: nada sério. Mas é que me incomoda ficar por um certo tempo num lugar em que as pessoas estão a todo momento analisando/reparando as outras. Mas se trata daquela “análise” tosca, rasa, mesmo. Em que gente vazia, fútil até o último fio de cabelo, se acha o centro do universo. Tá ok: isso, descontextualizado, pode parecer um tipo de racionalização de fobias, uma forma escamoteadamente sutil, em que pese a redundância, de se autojustificar (auto-enganar-se, auto-engabelar-se, como queiram), de procurar uma desculpa para o próprio senso de inadaptabilidade. Bem, eu escrevi “descontextualizado”. Mas, aqui, neste meu espaço particular, procuro, na medida do possível, deixar as coisas claras: não é nada disso, nada de pseudo-justificativas, simplesmente por eu não ser nenhum anti-social (tá, um pouco só). Eu gosto de gente com conteúdo. Me identifico rapidamente com gente assim. A coisa “complica” um pouco quando, num ambiente como de um shopping, lugar que mais atrai gente descerebrada, eu me sinto, na verdade, um peixe fora d’água.

  Não que eu me considere:

  •  um supra-sumo da sapiência;
  •  um extra-terrestre;
  •  melhor do quem quer que seja;
  •  especial demais para julgar assim os outros de forma tão categórica;
  •  e todas as supostas tentativas de me achar “a very special person“. Não! Meu senso de ridículo não chegaria a isso.

  Feita essa observação, continuemos.

  Naquele lugar, sobre o qual já teci meus parcos comentários ”laudatórios”, eu me sinto deslocado. Tentando driblar as vendedoras que apenas nos vêem já nos abordam ali, na vitrine mesmo, eu vou a dois lugares: ou à praça de alimentação ou à uma livraria, esta última como que uma ilha de “conteúdo” no meio de tanta [complete como quiser___________________________].

  Ótimo. Entro eu na livraria Siciliano. Tomo um expresso para aquecer as turbinas, digo, os neurônios. Dali, vou à parte de revistas. Ambiente de gente educada, silenciosa, prestativa… Bem, paremos por aqui. Vou aleatoriamente consultando estantes, me “muno” de vários livros e procuro uma mesa confortável. Tudo na boa. Sem vendedoras inoportunas (Sim: é o trabalho delas. Vender, não quase nos raptar para dentro da loja), sem vozerio de “toupeiras” tentando um desconto. Beleza. Tô no sétimo céu! Lugar perfeito para pesquisar à vontade. Os terminais de consulta de preço funcionando perfeita e lindamente. Até que…

  Eu (algo raríssimo!): Puxa, parece que agora esse livro do Saramago, o “Ensaio sobre a Cegueira“, vai ter um boom. Com o filme do Meirelles estreando em setembro e abrindo o Festival de Cannes, o pessoal vai procurar, não?

 Silêncio.

 Atendente (o Faustão rejuvenescido): … o cara deu uma risadinha amarela, me olhou como se eu fosse um marciano e “disse“: não, ele não disse nada! Ele soltou uma espécie de grunhido!

 Gee !!! O cara trabalha numa livraria, não precisaria conhecer cinema desde o Griffith, pô! Apenas ter um pouco de informação, um verniz de conhecimento além do necessário para apertar botões, encher estantes, atender senhores de idade avançada e reparar no derrière das “raparigas em flor”…

 Tudo bem: pareço radical demais. Mas, my !, acho que o cara nunca abriu um caderno de cultura ou assistiu um reles telejornal ! Um cliente em potencial poderia perguntar a opinião dele sobre a obra do Saramago em questão, tendo em vista o interesse que esse livro começa a despertar por causa da publicidade do filme do diretor brasileiro Fernando Meirelles, o Blindness. O que responderia ele, o atendente?

  E notem: eu não lhe perguntei nada, precisamente. Apenas procurei dele uma cumplicidade informativa, digamos assim. Coisa comum entre gente que lê e se informa …

 Mas se há algo sintomático do grau da cultura do jeitinho neste país aí nesse “incidente”, ah, isso há…

 Mas faria, como fiz, o seguinte: o mandei para a Ponta da Miçonga do Jabatilonga, introspectivamente, claro.

 (Eu li um bom trecho do livro do Saramago lá. A narrativa prende mesmo. Grande Saramago, ele e seu plurissignificativo conceito de cegueira. A cultural, hoje, grassa em todos os cantos…).

 Depois da demonstração de precariedade de nosso amigo atendente, me isolei num canto e mergulhei na leitura. Durante quase 3 horas! Só parei porque a fome bateu e a premência fisiológica idem…

  Saldo na boca do caixa: O BEIJO E OUTRAS HISTÓRIAS e UM HOMEM EXTRAORDINÁRIO (ambos do estupendo Anton Tchekhov, um dos maiores contistas deste planeta!), A MORTE DE IVAN ILITCH (Leon Tolstoi) e do grande Sêneca, APRENDENDO A VIVER.

  O bom da “coisa”: sinto cada vez mais prazer na leitura (como nos velhos tempos. Bom também porque estou me desvencilhando da tela do computador… Com exceção da escrita, claro).

  Voltando: quase levei o Saramago. Mas deixei para outra oportunidade. Talvez no mês que vem. Pois agora estou abarrotado de coisas para ler, juntando com outros dois que ainda tenho que começar…

  Por que cargas d’água esse cara fica ostentando as leituras e aquisições livrescas dele? Que diferença há entre a ostentação dos “fúteis” e a dos “esclarecidos”, ou, melhor, dos soi-disant esclarecidos?, perguntaria um leitor destas mal-traçadas… Eu responderia: aparentemente, nenhuma diferença. Mas só aparentemente. Este é um blog pessoal. Enquanto uns falam da sensação de escalar o Everest, de sair com a Fulana ou de experimentar uma nova receita tailandesa, eu prefiro escrever sobre filmes, livros, e tudo aquilo que seja algo “edificante”, ou que eu ao menos assim considere. E outra: é por vaidade mesmo. Sou um pseudo-intelectual, perceberam? hein, hein?

  ”Sua máscara caiu!”

   Pode ser que sim, mas não espalhem, sim? S’il vous plaît !

  Ah, ainda tenho tanta coisa para escrever aqui sobre minha vida de would-be scholar de meia pataca…

  Mas agora tenho um compromisso: tá na hora de mais um filminho do Tarkovski (Rejanêêê… tsc). Vida de pretender não tem descanso.

  Aliás, será que aquele atendente conhece algo do Tarkovski…? Do Bergman com certeza…

  Amanhã é um novo dia. Mas já iniciarei meu “banho”: leitura e cinema, urgente! Não o Cinemark, of course.

 

 ___________

 Ao som de Sorriso Maroto, Pega Essa. Porque afinal a máscara caiu, ué…(Tá no UOL. É em homenagem ao atendente.  Pra da próxima vez eu ter um assunto que o interesse. Se bem que eu preferisse aquela outra atendente loirinha de óculos de aro de tartaruga cantando funk carioca…) 

 

PS: esse último “Ao som de…” foi uma grande brincadeira.

O verdadeiro: ao som de “Charlie Bird Parker“, Now ‘s the time

 

 

A quadratura do círculo: céu de brigadeiro em tempos dionisíacos.

  Não sei bem por que abri o Windows Live Writer. Enquanto digito estas palavras, não tenho nada importante que justifique este post. Apenas me deu na veneta, sei lá. Terremoto na China, Cannes, Minc no Ministério outrora da Marina Silva, as eleições americanas começando a pegar fogo, o cerco fechando na terra de Fellini para os imigrantes clandestinos, o Banco Central prevendo uma inflação de 5% neste ano, enfim, tantas coisas acontecendo, tanta agitação, tanta celeuma!

  E no entanto…

  No entanto este post inútil. Estas palavras vazias de um sentido mais transcendente. Eu poderia escrever sobre os livros que estou lendo no momento (“Esculpir o Tempo“, do diretor russo Andrei Tarkovski, e Filmes – Ilha Deserta), o curso de francês para autodidatas que estou fazendo (“15 minutos“), os filmes que acabo de ver (de Fassbinder, Pasolini, Tarkovski, Sokurov, Allen Lynch), o que ando escrevendo às escondidas, meus projetos e tal. Mas não! Apenas este texto que tem, descubro agora!, a “função”, digamos assim, de expressar meu contentamento interior, minha calmaria interna, meu sossego subjetivo… Esses pequenos, frágeis e agradáveis momentos de que a vida é feita.

  Para um bipolar, é um momento e tanto para fogos de artíficio, este de placidez e energia canalizada para as coisas boas.

  Até que, sorrateira mas inescapavelmente, se aproxime a antítese disso tudo: as nuvens carregadas, que, se neste instante, neste céu de brigadeiro, nem dão sinais de aproximação, sei, “calejado” que estou, que elas tardam. Mas não falham.

  Enquanto isso, danem-se todos os pruridos. Minha cabeça é um caldeirão em ebulição.

  Meu lado dionisíaco me chama. O apolíneo, esse saiu de férias.

  Sou oito, sou oitenta.

 

____________

 Ao som de  “Raindrops Keep Fallin’ on My Head“, com B.J.Thomas.

Nota quase fúnebre.

  Este blog é um zumbi.

  Espectro a vagar pelas ondas deste oceano de cacofonias, defunto sempre adiado, com o enterro ou cremação postergados constantemente, ele resiste não se sabe exatamente a quê. O que podemos falar é que ele, ciclotímico desde o início, espelho que é da mente de seu criador, haverá sempre de frustrar a quem declarar sua morte (dele, do blog) como algo certo. Seu mantenedor, seu dono, o responsável por ele, em suma, no momento está com a cabeça voltada (enfim amadurece?) para outras formas de expressão mais duradouras. Acha ele (estará enganado?) que será apenas uma fase. Quem sabe?

  Isso não impede, contudo, que este pedaço ínfimo do mundo virtual, que já apresentou seu ápice (não em termos qualitativos, claro), volte um dia, dependendo do humor, estado de espírito e disposição de seu autor, a mostrar o quanto a vaidade humana é um dragão incoercível, um monstro de tentáculos poderosos…

 Quem viver, verá. Ou não!

 Só não se surpreendam se amanhã mesmo houver um post aqui, “normal” como se nada tivesse acontecido.

 A volubilidade humana…

"O Alucinado", de Luis Buñuel, 1953.

   Assisti ontem a dois filmes do inimitável e grande Luis Buñuel. O primeiro, em torno do qual é este comentário, foi O ALUCINADO. O outro foi NAZARIN, ambos de sua fase mexicana.

  Falar de Buñuel, dos filmes de Buñuel, é algo que dá margem a muita, mas muita discussão. Poucos diretores têm o carisma, a “pegada” dele. O cara é apaixonante pois foi autêntico, provocador, hilário, abusado, desbocado, criativo, genial e mais dezenas de adjetivos.

  Este O ALUCINADO conta a história de  um homem, Francisco Galvan (Arturo de Córdova, um ator poderoso), ricaço, respeitado, freqüentador de igreja, um típico nobre e bem-quisto figurão. Numa celebração de lava-pés, ele, ao lançar os olhos pelos pés (na hora percebemos seu fetiche por essa parte do corpo humano) das pessoas ali presentes, se detém em um par. A câmera, numa simulação do olhar de Francisco, passa por alguns pés e volta,  se detém neles, sobe pelas pernas até chegar ao rosto de uma mulher tímida que a muito custo consegue lançar um olhar em resposta àquele homem que, percebemos ali, por ela se apaixonara na hora. Amor à primeira vista. Do plano geral para o particular. Cena perfeita.

  A partir dali, vemos tudo se desenrolar: Glória (Delia Garcés), a mulher pela qual Francisco Galvan se apaixonara, era, na verdade, noiva de Raul (Luis Beristáin), um engenheiro conhecido do respeitado e ilustre homem. Pronto: passamos a ver o grande tema do filme colocado em ação. Um tema caro a Buñuel: a obsessão. O manto de normalidade sobre a verdadeira essência dos seres: o que vemos, nas ações de alguns de seus personagens (lembrando das lindas mulheres de A BELA DA TARDE e de ESSE OBSCURO OBJETO DO DESEJO, sobre o qual escrevi aqui, só para citar alguns), é a fachada, a cisão entre a persona social, aquela que vemos por aí, e os anseios, idéias fixas, tormentos de toda a ordem que se passa no interior deles, os seres buñuelianos. No fundo, de nós mesmos.

  Francisco, aquele homem tão respeitado, visto como alguém tão cioso de suas incumbências sociais, é, na verdade, um grande fingidor: suas ações, logo no início do roteiro, nos mostram que há algo de errado, há uma grande falha tectônica sob aquela aparência de normalidade toda. Percebemos isso na negação que ele apresenta ao advogado que ele contratara para tentar readquirir o direito de posse de algumas propriedades de família. O advogado apresenta os argumentos mais racionais e ponderados. Franscisco, sacamos ali, apresenta uma negação exagerada, estranha, que começa a nos deixar desconfiados. Sabemos que, para as pessoas com idéia fixa, as paranóicas, a qualquer negação de suas obsessões, o “eu” reage de forma desproporcional. Há uma fonte de energia psíquica há muito armazenada ali. A reação natural é aquela: berros, cegueira conceitual, teimosia, neurastenia e mais outros sintomas de uma alma ameaçada. Ameaçada, frisemos bem, de ficar sem suas miragens.

   Ele faz de tudo para tirar Glória de seu homem, Raul. E consegue. Tudo seria normal se não fosse…

  Se não fosse aquele apego aos monstros interiores. Algo muito bem trabalhado, como escrevi acima, por Buñuel em outros de seus filmes, até mesmo aqueles mais surrealistas. Para quem não sabe, Surrealismo no cinema é sinônimo de Luis Buñuel, não por acaso o braço direito de Salvador Dalí, no final da década de vinte, na empreitada de traduzir o automatismo psíquico para a tela do cinema.

  Mas voltando ao filme. Pontos fracos: o roteiro tem um defeito tosco. Me refiro à artificial cena do encontro entre Raul e Glória (sendo que ela já estava casada e, portanto, separada de Raul), quando ele, numa cidade muito movimentada, quase atropela quem? Glória, sua ex! Ela estava fugindo das crises de ciúme (a cena da torre do campanário, muito parecida com a de UM CORPO QUE CAI, do velho Hitchcock, apresenta-nos um clímax notável) e possessão doentios de seu agora marido, FranciscoRaul lhe dá uma carona e ela passa a narrar todas as suas horas de tormento. O filme passa a ser em flashback quase até o final. Outro ponto fraco: tem momentos em que parece que estamos vendo aqueles dramalhões mexicanos de tantos anos. Me refiro mais à interpretação de alguns atores, nunca à do protagonista. Parece algo meio forçado, exagerado. Mas, contudo, nada que tire o brilho desse filme: o estudo da natureza humana empreendida por Buñuel que, ainda assim, apesar de toda restrição do grande estúdio que estava bancando a empreitada, conseguiu, na medida do possível, imprimir e deixar alguns de seus traços, de suas, claro, obsessões: a crítica ao clero, à hipocrisia daqueles que buscavam apenas reconhecimento ao freqüentarem a Igreja, sendo célebre a frase do grande diretor espanhol que se definia como “Ateu, graças a Deus”; a absoluta competência em nos provocar, nos tirar do marasmo, nos fazer ver todo o arcabouço em que somos criados/educados/treinados/amestrados. Seu ateísmo, seu humor negro, sua total liberdade em não aceitar constrangimentos estético-artísticos, tudo esta ali. Aliás, esse filme é estudado e discutido em cursos de psquiatria e psicanálise pelo mundo afora e serve de exemplo de como a arte pode enxergar as atribulações mentais. Buñuel e os surrealistas, sabemos todos, beberam muito na fonte da psicanálise freudiana.

  Francisco surta. Tem delírios na cena final, na igreja. É lá, também, que começa e termina a via-crúcis daquela alma atormentada, cindida, torturada. Ali ele se apaixonara por Glória. Ali ele delira achando que riam dele, que os pacatos cidadãos naquela igreja zombavam da traição de sua mulher.

  Um filme ótimo. Apesar dos momentos fracos, é arte pura: é a arte de Luis Buñuel a nos mostrar a distorção da realidade por parte de um homem.

  E ver um filme desse diretor é nos depararmos com o insólito em nós. Sempre.

  Nele, em Franscisco, nos vemos. Quem não tem suas obsessões, ainda que em grau não patológico, que atire a primeira pedra.

 

 

 

 Como diria um colega meu, “Buñuel é foda!!!”  Este comentário é buñueliano por excelência, não acham?

 

 

 

 

Ficha técnica: O Alucinado
Título original: El
Ano: 1953
País: México
Duração: 88 min.
Gênero: Drama
Diretor: Luis Buñuel
Trilha Sonora: Luis Hernández Bretón
Elenco: Arturo de Córdova, Delia Garcés, Luis Beristáin, Carlos Martínez Baena, Aurora Walker, Manuel Dondé, Rafael Banquells, Fernando Casanova, José Pidal, Roberto Meyer
Distribuidora do DVD: Versátil Home Video

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Ao som de Charlie Parker e Chet Baker, pela primeira e única vez juntos, numa gravação raríssima de 1952 (por coincidência, exatamente no ano em que este filme do Buñuel estava sendo rodado em algum lugar do México), tocando num bar de Chicago: The Squirrel, Irresistible You, Back Home Again In e Lisa.

UM HOMEM COM UMA CÂMERA, de Dziga Vertov. URSS, 1929.

  1929. União Soviética. Dziga Vertov, aos trinta e três anos, era um homem de mente borbulhantemente criativa. Foi contemporâneo de Sergei Eisenstein, o mais aclamado e celebrado dos cineastas russos. Quem viu O ENCOURAÇADO POTEMKIN e OUTUBRO, sabe que ele, Eisenstein, havia estabelecido um parâmetro novo ao cinema. Depois de sua técnica de montagem (que tinha toda uma proposta estético-intelectual por trás), a nascente Sétima Arte estava pronta para ser uma arte autônoma, ainda que pagasse (como ainda o faz) tributo à literatura e ao teatro.

  Mas eis que um conterrâneo seu, que participava ativamente das agitações artísticas que fermentavam naquele início de século XX, vindo já de um histórico de trabalho ousado e criativo com o então novato cinema, aparece. Suas experimentações de vanguarda com o som o levaram até a criar um chamado laboratório do ouvido. Ele saía pelas ruas coletando sons para usar até mesmo em seus poemas. Vertov, pelo visto, era um incansável, um cara muito à frente de seu tempo. Neste UM HOMEM COM UMA CÂMERA, do exato ano da Grande Depressão nos EUA, do finalzinho da Era do Jazz, como ficou conhecida a década de vinte passada, ele e mais sua tropa de loucos e geniais coletores de cenas, nos deixaram como legado um simplesmente fascinante mosaico de imagens. A idéia era simples: coletar flagrantes das ruas, becos, rostos, parafernálias, fábricas etc daqueles dias agitados no mundo e, claro, naquela então recém-surgida nação chamada União Soviética. Ele foi um protegido de Lênin, tudo bem. Mas, como artista, não se pode negar ao cara o reconhecimento perene: com aquele amontoado de imagens, de closes, de movimentos de câmera ousados para a época e, sobretudo, pela técnica da montagem, uma montagem, pode-se dizer, que muito devia ao dadaísmo e surrealismo então nascentes, Vertov deve ser estudado, analisado e divulgado aos quatro cantos.

  Ele tinha, obviamente, toda uma poética das imagens, toda uma estética por trás daquilo que fazia. Ele ambicionou fazer um cinema puro, um cinema sem a necessidade de relatar necessariamente um drama, um conflito, uma ação narrativamente bem amarrada, uma seqüência bem comportada de acontecimentos. Ele simplesmente queria desvincular aquele cinema recém-nascido de sua íntima dependência da literatura e do teatro. As imagens estão ali, trabalhadas num ritmo alucinante, ainda que não aleatório. Maestro acabado das imagens, Vertov nos hipnotiza neste filme, nesta obra que desafia uma categorização fácil. Em pouco mais de uma hora, vemos aquelas cenas-poemas, aqueles cortes ousados, movimentações atípicas, e por isso mesmo surpreendentes. O passeio que empreendemos à URSS de oitenta anos atrás nos deixa atônitos com o potencial que há por trás da manipulação (não no sentido de falsificação da realidade, mas no de reconfiguração poético-imagética dela, da realidade) das imagens. Acredito que muita gente que hoje se dedica ao cinema ou que por ele tem um interesse mais aprofundado tenha se apaixonado por essa arte após assistir a essa obra mais que seminal para se entender a beleza e riqueza que é o cinema, arte hoje, infelizmente, vista por muitos como apenas e tão-somente um reles entretenimento/fuga da realidade/válvula de escape (“Ah, vamos pegar um cineminha pra relaxar, amor?”) ou um nicho de mercado rentável (do ponto de vista dos grandes produtores, exibidores etc) .

  Um homem, digamos, o “personagem” de UM HOMEM COM UMA CÂMERA, sai por aquele mundo caótico à procura dos enquadramentos mais ousados, mais sui generis e, por isso mesmo, mais aptos a nos surpreender. Há um momento em que o clímax se dá quando as imagens se aceleram, se somam, se acumulando, portanto, para nos deixar boquiabertos com a poesia que Vertov conseguiu tirar daquilo tudo. O olho-câmera, literalmente, nos tira da mesmice, nos faz ver o mundo e as coisas e os seres de um prisma novo.

  Para alguns, tais cenas, vistas pelo olhar de hoje, tão fatigado pelos efeitos especiais dos blockbusters, são tão naïve, tão destituídas de interesse, pois tão “batidas”…  Mas estamos falando de uma empreitada intelectual-estético-artística de oitenta anos atrás, com as parcas e restritas possiblidades técnicas daqueles tempos bicudos, sobretudo numa nação-problema (ou, mais precisamente, um conjunto de nações) como foi a URSS! Tirar o mérito de Vertov, tentar roubar-lhe o reconhecimento apelando para esse critério de uma possível superação técnica, de uma suposta obsolescência, isso é um exercício de mesquinhez e muita falta daquilo que podemos chamar de “olhar diacrônico” sobre uma arte, no caso, a do cinema.

  Olhar diacrônico é aquela concepção de ver uma arte sob um olhar, uma perspectiva de “corte”: é vê-la através dos tempos, não apenas de um ponto de vista, mas sim daqueles que nos possibilitam uma panorâmica plena. É, em suma, ver uma arte como uma linha contínua, que se enriquece, quase sempre, com as contribuições daqueles que, lá atrás, exatamente como Sergei EisensteinDziga Vertov e tantos outros, nos deixaram. Contribuições essas que estão aí para serem descobertas, valorizadas e divulgadas por todos aqueles que procuram enxergar além do trivial.

  Nota final: a música foi sobreposta há pouco mais de uma década.

 

 

  Imperdível!

“A Infância de Ivan”, de Andrei Tarkovski.

 

  A presença dos efeitos da guerra, mais do que a guerra em si, pode apresentar em muito mais detalhes todo o sofrimento e as indeléveis conseqüências na vida dos seres que venham a ter a infelicidade de experimentá-la. O artista que consegue sugerir, e não mostrar, a guerra, isolar aqueles efeitos todos, ao invés de se concentrar em bombas, explosões, tanques cuspindo bolas de fogo etc, e apresentar ao espectador toda a monstruosidade e imbecilidade que jaz, em estado de potência, no homem, esse artista é digno de todo o aplauso e terá seu nome para sempre no panteão dos grandes.

  Um garoto russo, Ivan, na Segunda Guerra, tem a família trucidada pelos nazistas. Sua infância (há a ironia do titulo do filme em questão), que só guarda a relação com uma infância convencional por meio dos sonhos-lembranças, de uma hora para outra é jogada naquele inferno todo. Aliás, seria tudo aquilo as lembranças mesmo de Ivan, em grande parte, ou simplesmente como teria sido a vida dele se não houvesse a guerra? Se Francis Ford Coppola, em Apocalypse Now, precisou de rolos de filme para mostrar toda aquela insanidade típica de uma guerra, Andrei Tarkovski, no começo exato da década de 60, ainda no calor dos rescaldos do mais tenebroso conflito do século passado, precisou de 90 minutos para nos mostrar, num monocromático deslumbrante, toda a síntese do que é o sofrimento imposto ao homem pelo homem, a mais acabada prova de que podemos ser nossos próprios lobos. Aquele garoto, obcecado pelo desejo de vingança, passa a ser informante do exército russo – por causa da baixa estatura e agilidade – em operações de altíssima periculosidade: adentrar, passando por brejos e pântanos sombrios, o terreno inimigo e de lá trazer informações relevantes aos seus compatriotas. O garoto, ele que, apesar da aparência frágil, apresenta traços de um adulto em tamanho pequeno: às vezes autoritarismo, outras uma segurança inimaginável numa criança, em ainda outras um senso de arrojo notável e por aí afora. Os diálogos nos quais ele fala aos gritos com os altos escalões do exército russo causa-nos um misto de comiseração e compreensão. Aos poucos, vemos seus sonhos (Tarkovski era um gênio em vários aspectos, sobretudo na criação de seqüências oníricas): fiapos de lembranças idílicas. passeio na carroça de maçãs sob a chuva com sua irmã; sua mãe num dia de sol à beira de um poço contando-lhe estórias. Um outro aspecto que me chama a atenção nestes filmes que até agora vi do grande russo, foi a transição, praticamente sem cortes, de um ambiente a outro. A montagem de seus filmes parece se pautar por critérios mais do que subjetivos; parecem seguir uma filosofia toda peculiar: o poético jaz em vários lugares, sobretudo na sábia articulação de imagens: coisa que o maior cineasta russo fez como ninguém: Eisenstein, o poeta por excelência da montagem, que soube tirar sentido das colagens, da junção das cenas. Tarkovski leva essa proposta ao extremo.

  A seqüência em que Ivan, numa interpretação digna de um ator calejado, interage, com seus demônios interiores, todos os dramas e sofrimentos que ele tão precocemente já vivenciara, é espantosa. Ele começa a brincar sozinho, de castigo que estava (ironicamente, por ter sido ousado/imprudente demais, ao quase ser pego pelos nazistas) e iria ser mandado para uma escola militar. Mas logo percebemos que aquilo não é uma brincadeira comum, que aquele não é um garoto comum: num trecho notável do roteiro, há um aumento da carga de expectativa, com cortes rápidos: uma inscrição na parede dizendo para vingarem os mortos que um dia viveram naquele lugar, agora um esconderijo; vozes; outros cortes; closes no rosto da mãe de Ivan, já há muito morta: fica patente que aquilo tudo se passa na mente atribulada daquela criança amadurecida à força. Num clímax muito bem desenhado, vemos Ivan “interagir” com um traje pendurado na parede: seria aquilo um nazista feito-refém. O pequeno “militar”, na sua brincadeira-delírio, solta o ódio advindo da necessidade de vingança, ódio esse tão internalizado, tão sedimentado em seu mais profundo eu (o tema do filme, aliás, poderia ser essa devastação interior que a guerra, seja ela qual for, causa nos humanos), a ponto de ele ter todo aquele momento de loucura particular e atípico numa criança. Uma cena impressionante que, se foi realizada, foi muito por causa do talento extraordinário daquele garoto.

  Há clarões no roteiro. Clarões, ou pontos de respiração, é como, em jargão de roteiristas, se chamam aqueles momentos em que temos uma pausa na linha central da narrativa. O filme termina e começa com esses clarões. Aliás, o filme termina com o que poderíamos chamar de falso final feliz. No início e no fim, imagens bucólicas, com música agradável e otimista, de um Ivan radiante de felicidade. Ou a brincar sozinho, sorrindo para a mãe em seguida (no começo) e correndo com sua irmã à beira-mar, ambas as cenas em um dia ensolarado e radiante. E são os únicos momentos, esses e outros de sonhos-lembranças-devaneios, em que vemos a luz solar. Na maior parte do filme, o cinza monocromático dá as rédas, acentuando em demasia todo o clima sombrio e pesadão do filme. Pois aquela realidade era sombria. E por falar em algo sombrio, a “ronda” que os militares, junto de Ivan, fazem naquele pântano, praticamente às voltas com a escuridão quase impenetrável da mata fechada, é uma cena que marca a todos que tiverem o privilégio de assistir a tal filme.

  Outro clarão, esse mais dramático (no sentido aristotélico do termo: jogo de ações entre personagens): noutra cena famosa, muito lembrada por aí, é a do bosque de arbustos, onde o Capitão Kholin e Masha, a soldado encarregada dos enfermos, têm um affair. Quer dizer, ele a encurrala e a beija à força. E o espectador desatento pode se perguntar: o que faz ali aquele quase-romance no meio daquela brutalidade toda? De novo a fórmula tarkovskiana se fecha: os sentimentos, sobretudo eles, são prejudicados pelo horror, pela insanidade da guerra. Não há como ele frutificar entre seres “destruídos” emocionalmente.

  Tem também o uso da câmera subjetiva: a dança dos arbustos fala por si.

  Eis um filme belíssimo. Mas para quem está aberto a esse tipo de fruição. Não intelectualizar demais as obras dos grandes cineastas é um favor que fazemos a eles. Ou uma homenagem: um tributo àqueles que souberam sintetizar, em grandes pinceladas, toda a gama de experiências humanas. Entre as quais está, infelizmente, a da guerra.

  Esse filme fez bonito no Festival de Veneza de 1962, conseguindo desbancar obras de figurões como Stanley Kubrick, Pier Paolo Pasolini (cujos filmes “Accatone” – Desajuste Social e Mamma Roma, tenho aqui comigo para assistir em breve) e Jean-Luc Godard… Nada mal para um então jovem diretor.

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Ficha Técnica:  A INFÂNCIA DE IVAN
Direção: Andrei Tarkovsky, Eduard Abalov
Ano: 1962
País: União Soviética
Duração: 95 min. / p&b
Título Original: Ivanovo Detstvo
Título em inglês: Childhood of Ivan