Noite de domingo. Ricardo Janturi não sabia bem para onde iria quando entrou no seu carro recém-comprado na Alemanha. Ali dentro, o som do Joy Division era arrebatador. Talvez a uma zona do centro velho de São Paulo? A um inferninho ali em Pinheiros? Ou quem sabe ao Bourbon Street em Moema, para pegar logo uma daquelas mulheres em flor que sabiam quem era Billie Holiday ou Thelonious Monk? Ou senão para o Shopping Aricanduva, com as lojas abertas para o Natal, onde sua paquera era gerente de uma mega loja de departamentos?
Ele estava em estado de êxtase. Não raciocinava direito. Com suas roupas caríssimas, seu perfume suíço, e ainda por cima com aquele carro, ele poderia catar qualquer uma!
De repente, se lembrou: iria antes ao terreiro de candomblé numa quebrada na zona sul, lá pelos lados de Santo Amaro. Resolvera fechar o carro, seu invejável carro, contra os inevitáveis olhares de invejosos e fracotes pobretões que iriam secar sua possante máquina fabricada em Frankfurt.
Chegando lá, ele se lembrou que já tinha conversado a respeito do “despacho” com Tonico Tranca-Viela, o mais aclamado dos fechadores de corpo. Ou do que mais fosse. Desceu e foi trancando o carro. Rua deserta. De casas de classe média-baixa. Um guarda-noturno, com sua moto antiga e barulhenta, ainda por cima com um apito na boca mais irritante ainda, passou por ele devagar e acenou. Disse por entre a fresta do capacete qualquer coisa como um E aí, playboy !
Este foi logo apertando a campainha. Uma loira altíssima, de batom fortíssimo, de peitos fartíssimos e decote abusadíssimo foi logo o abraçando e beijando: Gatíssimo, vem cá, que saudade, lindo ! Visivelmente bêbada, ela o apertava na cintura e sua mãozinha lépida passou por entre os cabelos do recém-chegado, que friamente a beijou na boca, um beijo morto, desses que vemos entre conhecidos. Beijo denunciador de que ali já houvera uma maior intimidade.
- Salve, salve! Seu Ricardo Janturi, filho do eminente doutor Fernando Janturi! A quê devo a honra?
- Salve, salve, seu Tonico. Boa noite, moçada, só nos goles! Aí, num tô a fim de atrapalhar não, mas, seu Tonico, eu trouxe a máquina, aquela que a gente falou no telefone mês passado. Ela chegou! E, como o senhor sabe, olho gordo é o que não falta nessa terra de miseráveis. Então, tem como hoje o senhor me fechar ela?
- Mas é claro! Pessoal, de quem é o Astra na garagem? Seu Joca, tem como tirar por uma meia-hora? A gente vai fazer um trabalhinho de despacho no carro do bacana aqui. Tem como?
- Puxa, aí, não queria atrapalhar não!
- Atrapalha nada, meu filho!
- Bem, então…
- Peraí, meu filho. Senta um pouco. A noite é longa. E o que não vai faltar é mulherão nesse seu carango aí… hehehehe…
- Ah, o senhor acha?
- Mas é claro! Senta aí, toma um gole. Amandinha!
Falando baixinho:
– Se quiser aproveitar aí, meu filho, com a Amandinha… leva ela lá pra sala, tá tudo tranquilo lá. Aproveita… shhh… lá vem ela.
Mudando o tom:
- Amandinha, traz lá uma cerva pro seu Ricardo!
- Ah, não precisa, seu Tonho. Eu não vou demorar.
Tonico, cochichando:
- Ah, deixa disso. Saca só a sainha dela! Resiste?
- Bem…
- Amandinha – mudando o tom -, acompanha o seu Ricardo na sala. Ele tá com dor de cabeça.
- Claro! Vamos? – perguntou ela, num sorriso em que se entregava toda.
– Mas…
– … Mas nada! Vai lá, vai te fazer bem! hehehe. Enquanto isso, eu vou botar essa carninha pra assar…
A carne de fato assara. Uma hora havia se passado.
Tonico Tranca-Viela tinha acabado de falar ao celular, a um canto. Foi só ele guardar o aparelho no bolso da camisa, apareceu Ricardo, despenteado, com um sorriso apalermado.
- Então, meu filho. Aproveitou?
- Pô!
– Muito bem, garoto. Assim que se faz. Tem mais é que aproveitar mesmo!
- Ah, quanto te devo, seu Tonico?
- Ah, isso é uma ofensa, garoto. Não me deve nada.
- Bem…
- Pega uma carninha aí, uma cervejinha.
- Puxa, seu Tonho, tenho que ir logo, desculpa. Outro dia eu venho com mais tempo.
- Ah, rapaz. Sossega o patuá. Acabou de pegar uma mulher suculenta dessas e já tá pensando em outras? hahahaha.
- …
- Não precisa ficar sem jeito: no meu tempo, com a tua idade, e até os 60, eu pegava mais de três também por noite, quando eu tava abarrotado de grana…hehehe
- Ah, a carne é fraca, seu Tonico! – rindo muito.
- E essa carne aqui tá ótima porque fui eu que preparei! Vamos, experimenta, garoto!
Meia hora depois, Ricardo se levantou.
- Vamos botar pra dentro meu carango?
- Vamos, meu filho. Ai, me ajuda aqui a me levantar. Ai, vida de velho entravado…
- Imagina, seu Tonico.
- Ah…
Ricardo saiu para fazer a manobra. Mas antes passou na cozinha para pegar um copo de água.
O Astra foi tirado da garagem para dar espaço ao carro de Ricardo. Este, ao sair do portão, teve um soco na boca do estômago quando não viu estacionado seu caríssimo carro. Fora levado! O que ele faria? A quem recorrer? Sem seguro, ainda? Meu Deus, o que dizer para o papai?
- Meu filho, seu Ricardo! Liga pros zómi. Rápido. Talvez o carango tá por aí ainda.
– Puta que pariu!
Amandinha saiu para a calçada, de shorts curtos. A loira que recepcionara Ricardo, não perdendo tempo, o enlaçou e, fingindo o acalmar, tratou logo de abraçá-lo bem fraternalmente.
A polícia chegou. Foi feito o boletim de ocorrência. Testemunhas. Conversas. Vizinhos curiosos na calçada.
Duas horas depois, Tonico Tranca-Viela chegava no Astra dirigido pelo Joca, rei da contraversão e aliciador de menores.
Ricardo havia ido pra casa, sob estado de choque.
Joca e seu Astra se foram. Amandinha e a loira de seios fartos e quase muda foram dormir com seu Tonico. Ali, na cama, ele, sozinho com as duas:
– Minhas meninas, vocês fizeram um ótimo trabalho! Amanhã, quer dizer, hoje mesmo, já é segunda, né?, faço um depósito na conta de vocês. O playboy caiu direitinho. A essa hora, aquele carango já foi despachado para as mãos de receptadores. Gente dos estrangeiros! Tudo profissinal! Coitado do carrão, nem bem conheceu esta terra abençoada por Deus e já vai voltar pra terra dos gringos. Mas podem se orgulhar que fizemos parte de um esquema de primeiro mundo! Fizemos bonito!
Elas se olharam. Deram gritinhos de alegria. Se abraçaram, até!
- Ah, e não me deixam de esquecer de passar a grana pro guarda vigilante, meus amores. Sim? Ah, agora apaguem a luz e vamos continuar a festinha, tá? Vou me sentar na beira da cama. Amandinha, agora você de joelhinhos. Valéria, daquele jeitinho, tá? Ah, vida boa que pedi a Deus… Ou ao diabo, já não me lembro…
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Ao som de Joy Division:
Atmosphere
No love lost
24 hours