“Reivindica a propriedade do teu ser”.
Sêneca (4 a.C.? – 65 d.C.)
Pela vida afora, vamos deixando um pouco de nós mesmos. À medida que vivenciamos as mais diversas experiências, desde as mais comezinhas até as mais grandiosas (sob nossos olhos, claro), inevitavelmente vamos nos soltando, nos desamarrando de um sem-número de coisas que até ontem, até esses dias, nos interessavam e nos tocavam tanto. Como sabemos, isso é natural e inevitável que aconteça. Imagine só se tudo estivesse conosco desde os tempos imemoriais de nós mesmos! Qual não seria a cacofonia de lembranças, vozes, rostos, momentos vividos, impressões, risos, raivas, e mais um monte de tranqueiras que teríamos que carregar!
O desapego é uma forma de acelerar esse processo natural de nossa psique. É uma ajuda que damos ao nosso vasto mundo interior. É uma faxina intencional, um esvaziar de gavetas, uma ventilação de interiores, um espanar dos móveis e um descartar-se das bugingangas, de estorvos e outros “atrasos” que insistem em nos atravancar a vida interior e, conseqüentemente, a exterior, visto que nossas ações apenas refletem nosso universo subjetivo.
Desapegar-se. Para isso é necessário ter critérios, obviamente. Para isso, é preciso ter todo um embasamento, toda uma justificativa subjacente à ação de desapegar-se. É ter filtros poderosos. É saber, em última instância, que por mais que nos cerquemos de todo um aparato (amigos, dinheiro, sucesso profissional, viagens de férias, bens etc), por mais que tentemos nos auto-enganar “achando” que alguém, ou algo (portanto, um agente externo), possa nos proporcionar a tão almejada “paz interior” (a Felicidade, para alguns), a verdade, a cruel e fria e áspera verdade (sobre a qual já escrevi aqui) é que não podemos confiar a quem quer que seja nossa vida. E isso pelo simples fato de sermos essencialmente solitários, queiramos ou não. Simples assim.
Disso não se conclui, obviamente, que devemos nos pautar apenas por nossos critérios de absoluta necessidade intrínseca de nós mesmos. De forma alguma. Podemos e temos a obrigação de interagir, de nos relacionar, de não nos fechar em nós mesmos. O encarcerar-se em si próprio é uma outra forma de dependência.
E a arte do desapego entra exatamente aí.
Meu lema, que estou agora a adotar, e pretendo pôr em prática durante toda a minha vida: Não se apegar a nada em cuja hipotética ausência eu possa imaginar minha soberania sobre mim mesmo ameaçada.
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Meu querido, bom entrar aqui e ler palavras que vêm de imediato, intensa e poderosamente, em nosso coração.
Acho que o desapego é algo por demais exigente. Para mim ao menos. Mas existem pessoas que não têm nenhuma dificuldade com isso. Às vezes, eu gostaria de pertencer a esse grupo. Mas sou muito passional.
Por esses dias eu tive que aprender tal arte. Eu achava que já tivesse aprendido por causa de experiências passadas, mas não. Concluí, então, que a gente nunca aprende, pois as situações nunca são iguais. Há pessoas que dizem: “Vc já deveria saber lidar com isso” e não percebem que as circunstâncias, os sentimentos e os motivos nunca nos são iguais. Não digo que as experiências de nada servem, de maneira nenhuma, porém, não podemos generalizar uma reação por causa delas. Penso, portanto, que a arte do desapego é eterna e passamos a vida inteira tentando aprimorá-la. Ela nunca é aprendida, não em sua plenitude. E, muito particularmente, penso que isso se dá, um pouco, ao fato de que nunca ninguém realmente quer se desprender de algo. Há sempre uma relutância de nossa parte, mesmo essa sendo extremamente nociva. Acho que desapego não tem nada a ver com experiências, enfim.
E te digo uma coisa, com absoluta certeza: se eu tivesse 82 anos e alguém que eu amasse muito me dissesse adeus, eu choraria como se tivesse 2.
Aliás, adorei a nova cara do blog, moço!
Um grande abraço,
Rejane.
Sim, minha querida. É por isso que é uma arte, não uma ciência exata. Ela é feita mesmo de tentativas e fracassos. Fosse fácil, fosse sempre possível de ser aplicada às variadas situações, o resultado seria no fundo catastrófico, pois seríamos seres autômatos, sem as batalhas interiores que são, no fundo, o que nos fazem crescer, não?
Linda e oportuna foi a tua reflexão, Rejane.
Que bom que aquilo que escrevi tenha ido de certa forma ao encontro do que sentes.
Apareça sempre!
Ótima semana (e que semana!, pra vc…rs).
Beijos.