Sarah Splendour McAlbow
Uma noite de arraso no mundo da moda
CCCCCCCC
Noite de estréia da mais nova top da agência SPLENDOUR. No jantar-desfile, as mesas, por volta das dezenove, já estavam abarrotadas. Uma banda de senhores de smoking tocava de Creedence a Nirvana, de Sinatra a Elvis, de Dylan a Lou Reed. A atmosfera era das mais agradáveis, dessas em que as pessoas se esquecem do senso de tristeza e de finitude, da insatisfação e do tédio, das preocupações sem fim e de que o mundo lá fora é o laboratório do precário, do imperfeito.
Garçons elegantíssimos, como não poderia deixar de ser, pairavam entre mesas. Champanhe, vinhos, uísques, comida variada e exótica. Vozes e conversas entre gente polida. Uma noite de sonhos, como que tirada de um filme que se passa entre o jet set de qualquer país.
Fora anunciada com estardalhaço a estréia da modelo Sarah Splendour McAlbow, uma beldade de apenas dezoito viagens da terra ao redor do sol. E que sol ela era! Dizem que por onde ela passasse, até os átomos se deslumbravam e saíam de órbita com a beleza dela que a todos os marmanjos e até mesmo mulheres deixava grogues.
Entre aqueles cavalheiros e damas, podres de tanta perfeição, tão seguros de sua aura de imponência e ostentação de tudo que era estimulador da inveja, ah, a inveja humana, eis que começou um diz-que-diz, uma onda sonora, que se espalhava entre as mesas:
– É, eu fiquei sabendo. Dizem que ela saiu da periferia.
– Nossa, jura? Credo! Amore, ouviu essa?
– O quê?
– A tal dessa Sarah aí saiu da periferia! Pode uma coisas dessas? Com certeza trabalhava em casa de família! E pra quê esse nome gringo?
– Pra atrair compradores…
– E aposto que o pai abusava dela quando pequena!
– Ah, Ricardo, fala baixo!
– Disfarça mas eu ouvi aqui na mesa do lado: a tal dessa garota aí foi abusada pelo pai.
– Não! Sério?
– Voz do povo, sabe como é.
- Agora percebo tudo: aquela carinha…
– Onde você viu a foto dela?
– Na última Vogue, oras.
– Por acaso você se refere àquela que tava sentada numa biblioteca com um Shakespeare na mão?
- Essa mesmo.
– Não, aquela lá era a Shirley McAaron.
– Então não sei quem é.
– Sabe sim, aquela que tava com um macacão de mecânico, uma moreninha de bocão. Sabia que aquela boca trabalhava bastante. Sim, porque toda garota que é estuprada pelo pai vira isso mesmo, não tem jeito!
– Vocês ouviram?
– Eu ouvi.
– Eu, não.
– Na mesa aí do lado tão dizendo que essa mina aí é a maior biscate. Cara, eu tô nessa. Quem pegar o telefone dela ganha a parada!
– Combinado.
– Fechado!
– Lamento mas ela não vai resistir ao papai aqui. Essa eu traço!
– Ela se fixa em morenos saradões, seus trouxas.
– Ah, meu, se pego essa mina, cara, nossa, putz, nem sei o que faço. Meu Jaguar vai ser testemunha de altos lances… Nem sei o que faço, nem sei!
– Não mesmo!
– … Assim eu morro de rir, meu.
– Ah, podem rir mesmo, seus manés. Vocês dois vão ver: pego essa putinha, jogo ela no meu Jaguar e dou um trato nela! Vocês vão morrer de inveja.
– Ah, Jônatas, amor, quer dizer então que tudo isso pra uma desqualificadazinha fazedora de blow jobs?
– Sandra, coração, essa é a oportunidade que tenho pra fazer contatos, a vida exige!
– Sim, tá, eu até entendo. Mas, olha: essa vadiazinha com cara de pervertida de periferia não vai receber o meu aplauso, vou avisando! Mas num vai mesmo!
– Mamãe, a senhora tem que sorrir mais, se soltar mais.
– Sorrir? Me soltar? Me diz pelamordedeus: como vou sorrir agora que eu sei que essa tal de Sarah aí não sei das quantas, essa daí …
– Sarah McAlbow.
– … como vou ficar, diz pra mim, com a cara alegre se eu sei que essa menina dá pra gato e cachorro? Eu, uma serva de Deus, homenageando uma criatura dessas! Minha santa virgem, ela tá em pecado perante Deus…
– Mãe….
– Dona Norma…
-… ela peca, isso sim, ela vive na sarjeta, aos olhos de Deus. Tão novinha mas já estragadinha… Como uma mulher pode ser bonita assim? Ela tem mais é maquiagem, porque eu sei! Um saco de ossos com maquiagem. Ela não tem aquela beleza que vem de Deus, a beleza de Cristo! Eu quero que ela tropece ali e caia daquela altura!
– Dona Norma, é a nova geração. Essas meninas já nascem belas e chega uma hora que as coitadinhas enjoam, sabe como é. Elas daí passam a fazer algo fora dos padrões, entende?
– Fora dos padrões, é? Uma pecadora, uma pervertidazinha, uma desfrutável, isso que é!
– Ai, amiga, essa garota deve ter pego altos homens já, não acha?
– Ah, você duvida ainda?
– Putz, que biscatinha sortuda. Ainda por cima linda!
– Deve ter já participado de orgias, isso rola nesse mundo de artistas.
– Ah, deve sim. Hum, deve ter pego uns saradões…
– Ah, pára de me deixar com vontade, Jacque. A vagabundazinha dá pra qualquer um, tô sabendo. Ela tá mais é certa mesmo!
– Imagina a cena: ela com os seguranças dentro do elevador ou da limusine! Aqueles brutamontes…! Ui!
– Tava pensando aqui, querido.
– Eu também.
– Como pode alguém viver de aparência, né?
– Verdade. Como pode? Essa é a questão.
– Não, porque, vai vendo: essa Sarah aí, apesar de toda a fama, de toda a beleza, vive de fachada. Ela é uma maníaca, já com essa idade! Consome homem assim na brincadeira.
– Concordo com você, amor, se você acha eu assino embaixo.
– Que novidade.
– Novidade o quê?
– Deixa pra lá. Mas essa “modelo” de voracidade…
– Bebe mais uísque…
– Lembro do tempo do meu pai. Na época das misses…
– Tanto recato.
– E tanto respeito, tanta respeitabilidade.
– Muita!
– Vê hoje: essas meninas se prostituem, tomam banho de maquiagens, de roupas de grife, se drogam e tal: pronto, já se tornam “modelos”. Não têm nada na cabeça!
– Sem falar da anorexia.
- Acordar do lado de uma dessas, sem a tal da maquiagem…
– Deve ser assustador! Se fossem mais fofinhas…
– Ai, Ritchie, pára! A gente é bicha mas tem que manter o respeito.
– Tava brincando, sua louca!
– A gente não pode se rebaixar ao nível dessa lagartixa aí.
– Que já deve ter pego o Bronequine, que ódio!
– Broniquine.
– Tá, seja o que for! Ah, bisca…
– Shhhh…. Fala baixo. Cadê o respeito? A gente tem que cuidar da nossa reputação, sua bicha…
– Sim, estou sabendo. Mais tarde eu te ligo de novo. Aqui tá cheio de mulher! … Sim… Entendi…. Mas depois discutimos se fechamos o cerco ou não nessa garota… É, a linha de investigação. Sim…. Ahã… Muito provavelmente… Sim, as conexões…. Ok….. Abraços, meu velho, tenho que desligar! Duas horas passo aí na delegacia. Tchau.
– Novidades?
– Olho nela, olho nela!
– Eu simplesmente te odeio, Fernando, te o-de-io!
– Putz, Manu, te trouxe aqui pra gente se integrar na sociedade. Essa cidade é cheia de possibilidades, meu, a gente tem mais é que se enturmar.
– Enturmar o escambau! Você tá de olho nessas vadias. Pensa que não te vi babando pro decote daquela aguada ali? Cachorro!
– Ah, não começa, Manu, nem vem que não tem. E fala baixo, por favor.
– Não falo!
– Manu…
– E que graça tem a gente vir aqui pra ver essa pistoleira?
– Fala, Marcão!
– Se você me gelar de novo eu jogo essa garrafa no chão! Eu faço um escândalo, Fernando!
– Bem, pensando em longo prazo, o orçamento da empresa vai bem. Mas temos tido algumas surpresas desagradáveis ultimamente. Coisas pontuais.
– …
– Você está me ouvindo, Bárbara?
– Ah, estou sim, querido.
– De forma que teremos que fazer algo drástico. Talvez uma reunião em Londres com os figurões.
– Sim… Mesmo?
– Falo com convicção! O programa será todo pago pela empresa mesmo.
– É, programa… Você reparou que estamos aqui pra ver uma prostituta?
– Estou sabendo. Por isso tentei falar de outro assunto. Mas você nem reparou.
– Ah, querido, desculpas…
– Não, tudo bem.
– Mas que ela é, ah isso é… E quando ela entrar vê se não vai ter olhos só pra ela, hein?
– Pode deixar… Mas voltando a falar da empresa…
– Where’s she?
– Ah, she’s about to come.
– She must be gorgeous!
– Oh, sure!
– How old is she?
– 18, they say.
– Uow! Do you think I can?
– Certainly. My agents are gonna talk to her managers just after her perfomance.
– Please, hurry up. Tonight I want that knockout, right? Money is not a problem, you know.
– Nossa, a música aumentando…
– Adoro Nirvana.
– Adoraria mesmo era trepar com ela.
– Meu, quem não iria querer?
– Dizem que ela gosta de pegar mais de dois.
- Pô, sérião mesmo?
– Tô falando.
– Meu, essa merece uns sopapos na hora, diz aí.
– Ah, nem me fala. Uma bitch e tanta! Uns tabefes sossegariam ela.
– Mas uns com jeito, ela deve adorar.
– Adora sim.
– Você acha que ela dá pros caras só pra eles contratar ela?
– Cacete, cara, quanta ingenuidade! Claro, rola sim. Essas garotas todas já estão bem comidas e por isso nadam em grana, velho.
– Ah, vai começar!
– Silêncio aí!
– Ela vai entrar.
– Senhoras e senhores, a agência Splendour pede a atenção de todos para um momento único!
- Cadê a ninfeta!
– É bom que ela apareça logo!
– Temos o privilégio de contar com ela no nosso rol de garotas… Refiro-me à mais nova sensação do mundo da moda. E neste ambiente de confraternização apresentá-la aos senhores e senhoras.
Vozes desencontradas. Que foram diminuindo de intensidade. Uma música dançante começou a dominar. As luzes se apagaram. Um novo burburinho corria entre as mesas. Todos olhando agora para os fachos multicoloridos que saíam de alguns canhões de luz e incidiam no palco. Toda a atenção ali se concentrava.
Agora, até os raios de luz colorida se apagaram. Passaram alguns segundos. O breu tomando conta. Aos poucos, começaram a espocar flashes, a luz colorida voltava e caía sobre uma figura feminina, esbelta. Os cabelos pretos sedosos brilhavam mais do que as luzes em si. Seu rosto, de perfil, era a perfeição de linhas, a exata proporção entre o belo e o fascinante. Sentada em um banquinho, não esboçava nenhuma reação, tão segura de si, tão consciente do fascínio que exercia.
De repente, numa daquelas reações em cadeia, resquício último talvez de nossa natureza selvagem, quando nas savanas reagíamos em bandos, sem ouvir a razão, apenas pelo prazer de seguir a multidão e os desejos bestiais, eis que um grito lá no fundo se fez ouvir.
– Vadia!
Logo outros irrompiam aqui e ali:
– Safada!
– Lolita!
– Promíscua!
– Puta!
– Bisca!
– Sua pecadora!
– Pistoleira!
– Lagartixa!
Vozes se amontoaram. Uns protestavam. Outros riam. Não poucos se exaltavam. Pouquíssimos a defendiam. Quase todos agora, num ritmo crescente, se uniam, se irmanavam naquela causa: uma salafrária sexual e precocemente maníaca!
Os organizadores pedindo silêncio. A turba não ouvindo. O apresentador, com o microfone na mão, perdido.
Os xingamentos continuando, cada vez mais intensos. As pessoas se olhando, rindo, ou urrando, quase todas berrando, poucas se entendendo. Um delírio coletivo. Gente subindo nas cadeiras e fazendo com as mãos um alto-falante. Muitos surtando. A modelo parada, olhando fixamente para a multidão. Apenas as luzes dos canhões sobre ela.
Finalmente, uma voz pré-gravada. O tumulto diminuindo. Apenas o suficiente para se fazer ouvir estas palavras:
– Senhoras e senhores, com vocês, Sarah Splendour McAlbow, a síntese da beleza da mulher oci…
- Essa daí vai é arder nas chamas! Pecadora!
- … e moderna! O mais perfeito robô que já existiu na face da terra! Uma homenagem a todas as mulheres! Só podia ser uma exclusividade Splendour. Uma salva de palmas a ela.
No lugar das palmas, o silêncio de surpresa. De pasmo. Paralisante.
No telão, a imagem de um rosto perfeito e, sobretudo, de um riso mecânico, sem vida. Mas que ainda assim parecia zombar sorrateira e vivamente de tudo. E, sobretudo, de toda aquela gente muito bem viva!
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