"Eu era. Eu fui".

 

    Fragmentei-me.

   Minhas partes/partículas se dispersam ao sabor dos ventos errantes que findam acertando em seu propósito. Tento, em vão, desesperadamente, ir juntando, catando, tentando reuní-las. Esta. Aquela. Aquela outra. Todas me humilham em seus volteios. São várias. Que um dia já juntas estiveram e assim constituíram algo parecido com uma unidade. Agora, no presente desalentador do meu “eu” fragmentado, caótico, há apenas a tentativa insana de colar num utópico todo coeso essas peças soltas, desajustadas, órfãs, desgarradas e agora na plenitude de sua selvagem gratuidade, sua fortuita nova configuração.

   E elas vão, aos poucos, se desmaterializando, tal qual as partículas de poeira que dançam no facho da luz solar, entram numa zona de sombra e, uma a uma, ali ficam. Extingue-se a unidade que um dia houve.

   À medida que se dissolvem as outrora essenciais partes de mim mesmo, tudo se torna igualmente indefinido. Este rosto no espelho: decerto é de outro alguém! Esta voz, estes gestos incertos, estes pensamentos recorrentes, estas ânsias, estes receios, estas vozes interiores: sem dúvida algum estranho se alojou em mim!

   E outras ações dispara(ta)das por outro centro nervoso que não o meu de antigamente vão ganhando espaço e prevalecendo e tomando o lugar das outras, que, submissas, cedem lugar.

   As partículas, por fim, se perdem num imenso vácuo. Que tudo traga.

   Eu era. Eu fui.

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Ao som de John Coltrane, Impressions.

Contrariando os tempos atuais, cultivando a tristeza.

     

         Tristeza. Falar desse sentimento num mundo em que tudo gira em torno de uma constante busca pelas vivências excitantes, pelos risos desenfreados, pelas gargalhadas fáceis; mundo em que a maioria busca o Santo Graal, ou seja, a tal da Grande Felicidade; mundo em que todo e qualquer tipo de não-aceitação das regras e deveres implícitos que supostamente nos franqueiam as portas do Sucesso, ou pelo menos da aparência de se ser bem-sucedido, é visto como um crime de lesa-humanidade - buscar a tristeza e a sua irmã mais nova, a melancolia, é considerado uma afronta, uma insanidade típica dos mal-agradecidos, eles que vivem nos tempos áureos das parafernálias feitas na medida para supostamente nos afastarem das precárias condições que até pouco tempo atrás eram a regra! Algo típico de uma mente que nada contra a corrente – vai a rima assim mesmo -, em suma.

       Para alguns, entre os quais me incluo, não existiria a F e l i c i d a d e , apenas os momentos de puro gozo dos pequenos e grandes momentos que nos cabe viver.

       Parênteses fazem-se necessários, adiantando-se a possíveis contestações. Não se deixa de reconhecer aqui a utilidade imensa das tecnologias que realmente facilitam a nossa vida e muitas vezes a salvam. Nada disso. Opõe-se aqui, que fique bem claro, ao papel que muitos atribuem a essas tecnologias e parafernálias. Ou seja: nada contra os produtos do engenho humano, tudo contra a tolice e obtusidade de se crer que eles possam nos proporcionar uma dimensão maior da vida, de nos fazer melhores, de servirem, enfim, como uma seita. Seita essa que justificaria a vida, esta última servindo a eles, a esses produtos, e não o oposto.

       Mas ela, a tristeza, quando oriunda de um sentimento mais amplo de desalento, de uma atitude “filosófica” – não a Filosofia vinculada a um sistema amplo, mas uma constatação aguda do imenso descompasso entre o que é a realidade e o que poderia ser a realidade -, é uma aliada de valor incalculável. Não a tristeza estéril; não o sentimento de auto-compaixão; não o remoer as pequenas frustrações, amarguras, ressentimentos, enfim: não a fossa em que todos volta e meia nos achamos; não o conseqüente queixar-se eterno; não o cruzar dos braços e o esperar infinito pelo navio que irá nos levar deste porto de lamentos; não a tristeza covarde, típica daqueles que continuamente reclamam e não fazem nada para mudar a situação em que estão.

       É de um outro tipo de tristeza que se trata aqui. É aquela que se caracteriza pelo sem-número de impressões que nos tomam após termos chegado ao cume de uma imensa montanha, de um gigantesco abismo e termos vislumbrado, lá do alto, com toda a nitidez e precisão, o desenrolar da grande comédia das paixões humanas, das vaidades, das traições, do vitupério, da mesquinharia, da sordidez e todo o inesgotável rosário das imperfeições que tão bem caracterizam – e escravizam - o ser humano.

       Desse vislumbrar, portanto, inevitavelmente, o sentimento que vem é o da tristeza e melancolia mais profundas. É a constatação salutar de que se poderia, e se pode mesmo!, buscar o oposto de tudo isso, ainda que saibamos que a perfeição seja uma utopia. Buscar o possível dentro da imperfeição inerente à nossa condição.

       Tristeza não covarde. Melancolia que não se resigna.

       Um sentimento esparso e vago.

       Até porque a vida sem dor é uma farsa e uma contradição em termos. Mesmo que essa dor seja efêmera, ainda que recorrente. Dor essa que dura o suficiente para nos recolocar nos eixos.

       Há, pois, tristezas e tristezas.

       Dediquemo-nos à tristeza que nos redime de qualquer ideal de perfeição total, ainda que busque, como vimos, a melhora do que é precário. A tristeza que é uma lente invertida: que capta o imperfeito sob a aparência do perfeito.

       O regozijo, portanto, nem sempre é um bom companheiro. 

       Dediquemo-nos à essa tristeza. Ainda que paguemos com a acusação de sermos traidores dos tempos atuais.

       Contrariemos os canastrões atuais que se empanturram com a falsa idéia de Felicidade Absoluta, mas que na verdade chafurdam na patifaria desses tempos loucos e insensatos, que se conformam com a falsa aparência. Que não sabem – cegos que estão ao fruir o momento –  que por trás dessa casca de felicidade há o olho frio do precário.

       Antes a tristeza do que o auto-engano!

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Ao som do Álbum Branco, dos Beatles.

 

 

What a shame! (ou redução às causas primeiras)

Como este blog “embabacou-se”, alambicou-se, tornou-se tão fútil… Lendo nas entrelinhas: uma forma camuflada e subliminar (nem tanto assim!) de dizer que este que vos fala está meio blue.
Às vezes não me reconheço!
É só uma fase, prometo (a quem?). Afinal, sou feito dessas transições. De certa forma elas me fortalecem.
Tenho uma queda pelos contrastes, pelas transições abruptas, pelos cortes secos…
Serotonina, maldita (e abençoada) és entre os neurotransmissores!

Nonsense: Naftalina “NO CLOTHES MOTH!” tem a honra de oferecer..

… mais um “Momento Back to the Golden Past“…

  Enquanto o mundo desmorona, ouçamos, ouvintes-leitores-fantasmas deste “Pseudo-Simulações”, David Bowie, o Camaleão-mor, em “As The World Falls Down”, uma música deliciosa que estourou nos longínquos anos 80 do século passado – ôps (o que digo eu?), do milênio passado! - a década que de perdida só teve a Copa de 82, a de 86, o Collor etc, etc…

Meu affair com a Solidão (inclúidos aí neste termo todos os tipos de solidão…).

 

   Ei, que diabos, não é que esse troço de solidão e seu staff fiel – tristeza, desalento, insônia, melancolia, pessimismo e outros brinquedinhos inofensivos (que eu já havia esquecido o que vem a ser, não por ter a poção mágica, o antídoto certeiro para mantê-la afastada, pobre de mim: é porque eu simplesmente tava com a cabeça cheia, abarrotada de quinquilharias, enfim: às voltas com outras questões), é algo intenso, uma coisa que nos toma toda a energia? Gee! De repente bateu uma assim, assim, profunda, abissal, desalentadora, esmagadora! Ela, com seus tentáculos, sorrateiramente se instalou aqui. E não quer saber de ir embora, a danada!

  Caramba! Fazia séculos que não sentia isso! É algo que realmente tá me deixando assim bem down in the dumps. Mas, paradoxalmente, é curtição pura! Sinal que não morri, né?

  E outra: a cada fase em que passamos por isso, reagimos de uma forma totalmente diversa.  Por exemplo, nesta fase atual tratei de descaradamente chamar a dona Solidão pra vir aqui ouvir uma Billie Holiday, entre outra gente boa. É, tratei de convidá-la. As voltas que o mundo dá! Não é que eu tô fazendo sala para aquela que eu antes achava uma víbora? Ah, gente boa ela, viu? Tá ali uma grande ouvidora, não sendo de falar muito, fica só na bituca te escutando as queixas sem fim, te analisando, te medindo, de vez em quando sorrindo, quase nunca de cara feia. Em suma: boa companhia, apesar dos pesares. E ali tá ela, esparramada na poltrona, amante insaciável com seus olhos famintos a me chamar. Haja fôlego… Com o fôlego, ela me leva o ânimo. Com ele, vão os anseios e, de quebra, vejam só que figurinha mais bem-humorada, brincalhona!, as ambições…

  Que amante!

  Mas mesmo me auto-esculhambando interiormente, eu tô mesmo, na verdade, é curtindo o barato! Só ela e eu, eu e ela. E mais ninguém… Ah, querida amante, entidade da qual muitos fogem, outros tantos movem mundos e fundos para te manter bem longe. Saiba, querida, que neste momento, nesta virada de sábado para domingo, muitos neste instante, pelo mundo afora, fingem, burlam, trapaceam, só para não se passarem por íntimos, habitués de ti… Mas eu, ah, eu te recebo, venha, tome do meu café, fume do meu cigarro, ouça o meu Bix Beiderbecke, minha Billie, meu Chet, meu Bill Evans, meu Miles, nos abracemos e nos percamos em caricias e afagos e êxtases sem fim. Deixe os idiotas que rejeitam teus mimos, teu calor bom… Sou teu até quando me quiseres, tu és minha até quando eu NÃO te desejar. Mas, que digo eu? Eu lá posso alguma coisa contra o teu encanto?

   I’m coming, my sweety, I’m coming…

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Ao som de Good Morning Heartache, com Billie Holiday.

Do caderninho de exercícios de escrita: a estória de João-Boca-de-Siri.

                                 

           Enterrado como indigente

 

      A verdade é que ninguém o conhecia. Ninguém jamais o conhecera. Pelo menos não a ponto de saber de onde ele era, para onde iria, o que desejava, o que temia. Ele não se dava com ninguém. Pelo que parecia, não por ser um crápula ou algo do tipo. Era de sua índole que, aparentemente, evitava todo e qualquer contato com quem quer que fosse fora do trabalho. Pacífico, mas às voltas consigo mesmo. Vivia carregando livros. Recebia-os do estrangeiro até, era o que diziam. E que dominava outras línguas. Tinha por volta de 60 anos, jeito desengonçado de caminhar, voz grave. Diziam que falava sozinho um palavreado enrolado. E sempre, nas manhãs de sábado e domingo, no banco da praça, sob uma árvore toda retorcida, com uma tabela cheia de letrinhas esquisitas, passava horas rabiscando e anotando num caderninho modesto.
     Foi uma surpresa das grandes quando souberam que ele havia sido enterrado como indigente. Ele, o homem taciturno, porém tão afável na repartição. Ele, o homem tão enigmático, de aparência um tanto misantropa e ao mesmo tempo bonachona, simpática, cabelos penteados de forma impecável, ainda que com as roupas um tanto amassadas e, delas destoando, os sapatos lustrosos. Ninguém entendia aquelas incoerências…
     O modelo do funcionário público, diziam os boquiabertos colegas de trabalho ao saberem de sua morte. Mas como? Ele não tinha nenhum parente? Nem aderente? Nadica de nada, segundo dizem. Morreu, pronto, ninguém deu por falta, a não ser no trabalho. Dizem lá que ele sofria dos nervos e bebia. Me mate mas não assino embaixo. Nunca vi isso da parte dele, não, homem.

     Ele fora encontrado morto num banco da pracinha, com seu inseparável caderninho com fórmulas arrevesadas. Estava o homem meio tombado de lado, parecendo num cochilo profundo.

     – Ei, seu, tá tarde. Seu, acorda, tua braguilha tá aberta.

     Nada.

     Ambulância. Curiosos. As fofoqueiras do pedaço em polvorosa. Que fim triste aquele! Ele era esquisitão. Solteirão que só ele. Bebia que nem condenado, menina. Mas ia no domingo à missa. Padre, ele confessava? Nunca. A alma dele já tá no inferno, seu padre? Não, meu filhinho, ninguém sabe dizer ao certo, viu? O pastor disse que tá. O pastor não sabe de nada. O padre disse que o senhor não sabe de nada.

     O fato: lá se foi o tal do sujeito calado, arredio, mas mesmo assim um funcionário eficiente. Ah, menina, me lembro da semana passada. Aquele homem me atendeu tão bem. Eu tinha ido ver a aposentadoria por invalidez do meu marido. E não é que ele encaminhou tudo em meia hora? Um exemplo e tanto! E agora mortinho! Virgem Santa!

     Um jornalista imberbe da cidade resolveu investigar. Vasculhou tudo do finado. Passados alguns dias da morte, o tal do escriba do pedaço apareceu com uma bombástica revelação.

     - Povo de Aquiledina, tenho o desprazer (ou prazer? diriam os mais bairristas….) de lhes comunicar uma coisa grandiosa e que a todos deixará de cabelo em pé e que….

     – Homem, diz logo!

     – … bem… Sei que muitos não acreditarão.

     – Se tu disser claramente o que é talvez ajude um pouco.

     – Tudo leva a crer que o finado João Boca-de-Siri era ….

     - … ?

     - … era o diabo em pessoa…

     Algumas velhinhas tiveram um princípio de desmaio.

     – … ou ao menos, um braço direito dele. Mancomunados, sabem como é.

     Os mais sacanas assoviavam. Os incrédulos, esses riam sarcasticamente. Alguns começaram um xingamento: tá pensando que somos idiotas em acreditar numa coisa dessas, seuzinho? Quase todos de olhos arregalados de espanto. De credulidade ou não.

     – Eu descobri, juntamente com os homens do delegado Serafim Casagrande, que ele mexia, às escondidas, com bruxaria e mandinga da pesada.

     - Bem que eu tinha o pressentimento, Armandinho, eu te falava que ele não era lá deste mundo de meu Deus…

     – Povo da terrinha. Em outras palavras: se ele não era o diabo precisamente, uma coisa é certa: ele fez pacto com o Jeringonça.

     - Cruz credo!

     Um arrepio sincero varreu a multidãozinha reunida no coreto da praça. Até os que se diziam incrédulos, por via das dúvidas, se benzeram. Vai que…

     Não se falava em outra coisa. Foi marcada uma assembléia. Pela primeira vez na história de Aquiledina, católicos, evangélicos, seguidores do candomblé, e todo o sincretismo bom daquela terra, enfim, lá se foram todos, naquela mesma noite, para o cemitério onde estava enterrado o tal do representante do Tinhoso.
     Velas, lanternas, crianças, moçoilas, rapazes (esses sem perder a chance de bolinar as aquiledinenses mais afoitas), velhos, gente de todos níveis, o ricaço do Seu Jerônimo juntinho com os Duartes, que moravam no único barraco da cidade, lá pelos lados do Córrego das Dores, lá estavam, assim, reunidos, congregados, irmanados naquela corrente de descarrego, de oração, de rezas póstumas e às avessas. Por onde andasse a alma do tal sujeito, ele, com certeza, seria uma persona non grata ali. Que fosse cantar em outra freguesia!  

     Passou o tempo. E, como de costume, com ele, a lembrança do morto.

     Um belo dia de chuva torrencial, parou um carro de uma tal de uma universidade em frente da casa do finado mais falado, durante muito tempo, de Aquiledina.

     Era do setor de química de uma universidade da capital. Logo atrás, um carro da reportagem do maior jornal do Estado. E a televisão também por lá ciscou. Câmeras, flashes, fios, um deus-nos-acuda. A maioria das pessoas do pedaço fechou as janelas. E, claro, pelas frestas via tudo o que se passava.

    - No ar em … 3, 2, 1…

    - Estamos aqui em frente da casa do falecido João Boca-de-Siri, alcunha do cientista nas horas vagas Selmo Cruz, o grande motivo de orgulho da comunidade científica de nosso Estado. Ele, que viveu anonimamente, trabalhou como funcionário público exemplar, e nunca deixava que um dia passasse sem se dedicar à causa maior de sua vida, morreu há alguns meses e foi, para nossa imensa consternação, enterrado como indigente. Selmo renunciou à vida social, ao casamento, às diversões e divertimentos. Tudo em prol da humanidade. Suas experiências, que nada deviam ao que estava sendo estudado nos maiores centros de pesquisa do mundo, só agora serão reconhecidas. Sua biblioteca e seu laboratório serão doados à Universidade de C. O governador declarou luto oficial de três dias. Essa triste morte, a partir de agora, passado esse tempo todo, será divulgada nos quatro cantos do mundo.

    E foi assim o fim de um homem cujo nome será para sempre lembrado como o de um grande, de um gigante da ciência. Ele que nunca quis os holofotes. Humilde, apenas e tão-somente se dedicava à sua ciência, sem querer os louros e os flashes. E se passava por um mero funcionário público…

    E, exemplo da volubilidade da opinião pública, seja ela de onde for: uma grande estátua do mais ilustre habitante da cidade (“Quem diria!”: essa era a frase mais falada por ali) foi erguida na praça, aquela onde ele foi encontrado morto. E que foi totalmente reformada. A única que continua ali é a árvore retorcida, hoje chamada de a Árvore do Doutor Siri.  

    O escribazinho da cidade, ao saber disso, tratou de pegar seus cacarecos. Dizem que ele virou ajudante de pedreiro lá pelos lados de B.

 

 

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Da maledicência e outras finezas.

            

      Sarah Splendour McAlbow

     Uma noite de arraso no mundo da moda

 

 CCCCCCCC                 

 

   Noite de estréia da mais nova top da agência SPLENDOUR. No jantar-desfile, as mesas, por volta das dezenove, já estavam abarrotadas. Uma banda de senhores de smoking tocava de Creedence a Nirvana, de Sinatra a Elvis, de Dylan a Lou Reed. A atmosfera era das mais agradáveis, dessas em que as pessoas se esquecem do senso de tristeza e de finitude, da insatisfação e do tédio, das preocupações sem fim e de que o mundo lá fora é o laboratório do precário, do imperfeito.

    Garçons elegantíssimos, como não poderia deixar de ser, pairavam entre mesas. Champanhe, vinhos, uísques, comida variada e exótica. Vozes e conversas entre gente polida. Uma noite de sonhos, como que tirada de um filme que se passa entre o jet set de qualquer país.

    Fora anunciada com estardalhaço a estréia da modelo Sarah Splendour McAlbow, uma beldade de apenas dezoito viagens da terra ao redor do sol. E que sol ela era! Dizem que por onde ela passasse, até os átomos se deslumbravam e saíam de órbita com a beleza dela que a todos os marmanjos e até mesmo mulheres deixava grogues.

    Entre aqueles cavalheiros e damas, podres de tanta perfeição, tão seguros de sua aura de imponência e ostentação de tudo que era estimulador da inveja, ah, a inveja humana, eis que começou um diz-que-diz, uma onda sonora, que se espalhava entre as mesas:

 

    – É, eu fiquei sabendo. Dizem que ela saiu da periferia.

    – Nossa, jura? Credo! Amore, ouviu essa?

    – O quê?

    – A tal dessa Sarah aí saiu da periferia! Pode uma coisas dessas? Com certeza trabalhava em casa de família! E pra quê esse nome gringo?

    – Pra atrair compradores…

    – E aposto que o pai abusava dela quando pequena!

    – Ah, Ricardo, fala baixo!

 

    – Disfarça mas eu ouvi aqui na mesa do lado: a tal dessa garota aí foi abusada pelo pai.

    – Não! Sério?

    – Voz do povo, sabe como é.

    - Agora percebo tudo: aquela carinha…

    – Onde você viu a foto dela?

    – Na última Vogue, oras.

    – Por acaso você se refere àquela que tava sentada numa biblioteca com um Shakespeare na mão?

    - Essa mesmo.

    – Não, aquela lá era a Shirley McAaron.

    – Então não sei quem é.

    – Sabe sim, aquela que tava com um macacão de mecânico, uma moreninha de bocão. Sabia que aquela boca trabalhava bastante. Sim, porque toda garota que é estuprada pelo pai vira isso mesmo, não tem jeito!

 

    – Vocês ouviram?

    – Eu ouvi.

    – Eu, não.

    – Na mesa aí do lado tão dizendo que essa mina aí é a maior biscate. Cara, eu tô nessa. Quem pegar o telefone dela ganha a parada! 

    – Combinado.

    – Fechado!

    – Lamento mas ela não vai resistir ao papai aqui. Essa eu traço!

    – Ela se fixa em morenos saradões, seus trouxas.

    – Ah, meu, se pego essa mina, cara, nossa, putz, nem sei o que faço. Meu Jaguar vai ser testemunha de altos lances… Nem sei o que faço, nem sei!

    – Não mesmo!

    – … Assim eu morro de rir, meu.

    – Ah, podem rir mesmo, seus manés. Vocês dois vão ver: pego essa putinha, jogo ela no meu Jaguar e dou um trato nela! Vocês vão morrer de inveja.

 

    – Ah, Jônatas, amor, quer dizer então que tudo isso pra uma desqualificadazinha fazedora de blow jobs?

    – Sandra, coração, essa é a oportunidade que tenho pra fazer contatos, a vida exige!

    – Sim, tá, eu até entendo. Mas, olha: essa vadiazinha com cara de pervertida de periferia não vai receber o meu aplauso, vou avisando! Mas num vai mesmo!

 

    – Mamãe, a senhora tem que sorrir mais, se soltar mais.

    – Sorrir? Me soltar? Me diz pelamordedeus: como vou sorrir agora que eu sei que essa tal de Sarah aí não sei das quantas, essa daí …

    – Sarah McAlbow.

    – … como vou ficar, diz pra mim, com a cara alegre se eu sei que essa menina dá pra gato e cachorro? Eu, uma serva de Deus, homenageando uma criatura dessas! Minha santa virgem, ela tá em pecado perante Deus…

    – Mãe….

    – Dona Norma…

    -… ela peca, isso sim, ela vive na sarjeta, aos olhos de Deus. Tão novinha mas já estragadinha… Como uma mulher pode ser bonita assim? Ela tem mais é maquiagem, porque eu sei! Um saco de ossos com maquiagem. Ela não tem aquela beleza que vem de Deus, a beleza de Cristo! Eu quero que ela tropece ali e caia daquela altura!

    – Dona Norma, é a nova geração. Essas meninas já nascem belas e chega uma hora que as coitadinhas enjoam, sabe como é. Elas daí passam a fazer algo fora dos padrões, entende?

    – Fora dos padrões, é? Uma pecadora, uma pervertidazinha, uma desfrutável, isso que é!

 

    – Ai, amiga, essa garota deve ter pego altos homens já, não acha?

    – Ah, você duvida ainda?

    – Putz, que biscatinha sortuda. Ainda por cima linda!

    – Deve ter já participado de orgias, isso rola nesse mundo de artistas.

    – Ah, deve sim. Hum, deve ter pego uns saradões…

    – Ah, pára de me deixar com vontade, Jacque. A vagabundazinha dá pra qualquer um, tô sabendo. Ela tá mais é certa mesmo!

    – Imagina a cena: ela com os seguranças dentro do elevador ou da limusine! Aqueles brutamontes…! Ui!

 

    – Tava pensando aqui, querido.

    – Eu também.

    – Como pode alguém viver de aparência, né?

    – Verdade. Como pode? Essa é a questão.

    – Não, porque, vai vendo: essa Sarah aí, apesar de toda a fama, de toda a beleza, vive de fachada. Ela é uma maníaca, já com essa idade! Consome homem assim na brincadeira.

    – Concordo com você, amor, se você acha eu assino embaixo.

    – Que novidade.

    – Novidade o quê?

    – Deixa pra lá. Mas essa “modelo” de voracidade…

    – Bebe mais uísque…

 

    – Lembro do tempo do meu pai. Na época das misses…

    – Tanto recato.

    – E tanto respeito, tanta respeitabilidade.

    – Muita!

    – Vê hoje: essas meninas se prostituem, tomam banho de maquiagens, de roupas de grife, se drogam e tal: pronto, já se tornam “modelos”.  Não têm nada na cabeça!

    – Sem falar da anorexia.

    - Acordar do lado de uma dessas, sem a tal da maquiagem…

    – Deve ser assustador! Se fossem mais fofinhas…

 

    – Ai, Ritchie, pára! A gente é bicha mas tem que manter o respeito.

    – Tava brincando, sua louca!

    – A gente não pode se rebaixar ao nível dessa lagartixa aí.

    – Que já deve ter pego o Bronequine, que ódio!

    – Broniquine.

    – Tá, seja o que for! Ah, bisca…

    – Shhhh…. Fala baixo. Cadê o respeito? A gente tem que cuidar da nossa reputação, sua bicha…

 

    – Sim, estou sabendo. Mais tarde eu te ligo de novo. Aqui tá cheio de mulher! … Sim… Entendi…. Mas depois discutimos se fechamos o cerco ou não nessa garota… É, a linha de investigação. Sim…. Ahã… Muito provavelmente… Sim, as conexões…. Ok….. Abraços, meu velho, tenho que desligar! Duas horas passo aí na delegacia. Tchau.

    – Novidades?

    – Olho nela, olho nela!

 

    – Eu simplesmente te odeio, Fernando, te o-de-io!

    – Putz, Manu, te trouxe aqui pra gente se integrar na sociedade. Essa cidade é cheia de possibilidades, meu, a gente tem mais é que se enturmar.

    – Enturmar o escambau! Você tá de olho nessas vadias. Pensa que não te vi babando pro decote daquela aguada ali? Cachorro!

    – Ah, não começa, Manu, nem vem que não tem. E fala baixo, por favor.

    – Não falo!

    – Manu…

    – E que graça tem a gente vir aqui pra ver essa pistoleira?

    – Fala, Marcão!

    – Se você me gelar de novo eu jogo essa garrafa no chão! Eu faço um escândalo, Fernando!

 

    – Bem, pensando em longo prazo, o orçamento da empresa vai bem. Mas temos tido algumas surpresas desagradáveis ultimamente. Coisas pontuais.

    – …

    – Você está me ouvindo, Bárbara?

    – Ah, estou sim, querido.

    – De forma que teremos que fazer algo drástico. Talvez uma reunião em Londres com os figurões.

    – Sim… Mesmo?

    – Falo com convicção! O programa será todo pago pela empresa mesmo.

    – É, programa… Você reparou que estamos aqui pra ver uma prostituta?

    – Estou sabendo. Por isso tentei falar de outro assunto. Mas você nem reparou.

    – Ah, querido, desculpas…

    – Não, tudo bem.

    – Mas que ela é, ah isso é… E quando ela entrar vê se não vai ter olhos só pra ela, hein?

    – Pode deixar… Mas voltando a falar da empresa…

 

    – Where’s she?

    – Ah, she’s about to come.

    – She must be gorgeous!

    – Oh, sure!

    – How old is she?

    – 18, they say.

    – Uow! Do you think I can?

    – Certainly. My agents are gonna talk to her managers just after her perfomance.

    – Please, hurry up. Tonight I want that knockout, right? Money is not a problem, you know.

 

    – Nossa, a música aumentando…

    – Adoro Nirvana.

    – Adoraria mesmo era trepar com ela.

    – Meu, quem não iria querer?

    – Dizem que ela gosta de pegar mais de dois.

    - Pô, sérião mesmo?

    – Tô falando.

    – Meu, essa merece uns sopapos na hora, diz aí.

    – Ah, nem me fala. Uma bitch e tanta! Uns tabefes sossegariam ela.

    – Mas uns com jeito, ela deve adorar.

    – Adora sim.

    – Você acha que ela dá pros caras só pra eles contratar ela?

    – Cacete, cara, quanta ingenuidade! Claro, rola sim. Essas garotas todas já estão bem comidas e por isso nadam em grana, velho.

    – Ah, vai começar!

 

    – Silêncio aí!

    – Ela vai entrar.

    – Senhoras e senhores, a agência Splendour pede a atenção de todos para um momento único!

    - Cadê a ninfeta!

    – É bom que ela apareça logo!

    – Temos o privilégio de contar com ela no nosso rol de garotas… Refiro-me à mais nova sensação do mundo da moda. E neste ambiente de confraternização apresentá-la aos senhores e senhoras.

 

    Vozes desencontradas. Que foram diminuindo de intensidade. Uma música dançante começou a dominar. As luzes se apagaram. Um novo burburinho corria entre as mesas. Todos olhando agora para os fachos multicoloridos que saíam de alguns canhões de luz e incidiam no palco. Toda a atenção ali se concentrava.

    Agora, até os raios de luz colorida se apagaram. Passaram alguns segundos. O breu tomando conta. Aos poucos, começaram a espocar flashes, a luz colorida voltava e caía sobre uma figura feminina, esbelta. Os cabelos pretos sedosos brilhavam mais do que as luzes em si. Seu rosto, de perfil, era a perfeição de linhas, a exata proporção entre o belo e o fascinante. Sentada em um banquinho, não esboçava nenhuma reação, tão segura de si, tão consciente do fascínio que exercia.

    De repente, numa daquelas reações em cadeia, resquício último talvez de nossa natureza selvagem, quando nas savanas reagíamos em bandos, sem ouvir a razão, apenas pelo prazer de seguir a multidão e os desejos bestiais, eis que um grito lá no fundo se fez ouvir.

   – Vadia!

    Logo outros irrompiam aqui e ali:

   – Safada!

   – Lolita!

   – Promíscua!

   – Puta!

   – Bisca!

   – Sua pecadora!

   – Pistoleira!

   – Lagartixa!

    Vozes se amontoaram. Uns protestavam. Outros riam. Não poucos se exaltavam. Pouquíssimos a defendiam. Quase todos agora, num ritmo crescente, se uniam, se irmanavam naquela causa: uma salafrária sexual e precocemente maníaca!

    Os organizadores pedindo silêncio. A turba não ouvindo. O apresentador, com o microfone na mão, perdido.

   Os xingamentos continuando, cada vez mais intensos. As pessoas se olhando, rindo, ou urrando, quase todas berrando, poucas se entendendo. Um delírio coletivo. Gente subindo nas cadeiras e fazendo com as mãos um alto-falante. Muitos surtando. A modelo parada, olhando fixamente para a multidão. Apenas as luzes dos canhões sobre ela.

   Finalmente, uma voz pré-gravada. O tumulto diminuindo. Apenas o suficiente para se fazer ouvir estas palavras:

    – Senhoras e senhores, com vocês, Sarah Splendour McAlbow, a síntese da beleza da mulher oci…

 

    - Essa daí vai é arder nas chamas! Pecadora!

 

    -  … e moderna! O mais perfeito robô que já existiu na face da terra! Uma homenagem a todas as mulheres! Só podia ser uma exclusividade Splendour. Uma salva de palmas a ela.  

 

   No lugar das palmas, o silêncio de surpresa. De pasmo. Paralisante.

   No telão, a imagem de um rosto perfeito e, sobretudo, de um riso mecânico, sem vida. Mas que ainda assim parecia zombar sorrateira e vivamente de tudo. E, sobretudo, de toda aquela gente muito bem viva!

 

 

 O)O]OVN(Oi=,_O+ MNp

 

 

A sós.

            

 

    Enfim, era a primeira vez em que ele, depois de tantos anos, estava a sós consigo. Há muito tempo adiara aquele momento. Sempre vivendo em função dos outros, sempre rodeado de pessoas, nunca perdido em seus pensamentos. Todo o momento havia alguém lhe privando daquele instante no qual ele podia se ver e estar às voltas com suas mais profundas e íntimas idéias. Todo instante alguém, algo, alguma coisa, a lhe roubar, a lhe surrupiar o sossego e o prazer de vasculhar seu próprio interior, seus receios, suas auto-puxadas-de-orelha e auto-esculhambaçõezinhas. Estava ele sentado em seu quarto escuro, no silêncio mais ensurdecedor da madrugada, agora com o som tocando Chet Baker numa altura compatível com o desvendar-se, com o mergulho em seu eu cansado e desengoçado, justamente por não se ver só há tanto tempo. “Engraçado como nos desacostumamos com nós mesmos. Como nos tornamos refratários a esse silêncio! Como desaprendemos a estarmos a sós!”. Lá passavam pensamentos, céleres, afiados, sem parar, um a um, todos agora o objeto, o foco de sua atenção, de sua mais exigente atenção.
    E assim ele fazia essa odisséia pelo seu vasto mundo interior, terra há muito inexplorada, cidadela de vielas que nasciam do nada, becos escuros que de uma hora para outra viravam suntuosas ruas, bifurcações, encruzilhadas e bulevares e avenidas com alamedas que se ligavam a outras estradas vicinais que davam em descampados sem fim, a perder de vista: todo um mapa de sensações, impressões há muito enterradas, lembranças empoeiradas. Toda aquela vida engavetada, encaixotada, tudo ganhava o sol da consciência, aflorando agora uma imensa fila de idéias, conceitos, rostos, frases, dias, acontecimentos cobertos de pó, sonhos antigos, projetos e quimeras exumados, e cabeçadas e burradas e motivozinhos de orgulho e vaidadezinhas. E decepções mil. Ele passeava por aquelas avenidas internas e ao lembrar, ponderar e analisar, era como se revivesse tudo aquilo. A sensação, entorpecedora, o levava a caminhos diferentes, lonjuras de si, horizontes que se aproximavam e passavam. E vinham outras paragens, diversos lugares, variados logradouros de sua vida interior que há muito ele achava perdidos, para sempre idos.
    O trompete de Chet marcava o tempo. Os scats, esses o arremessavam mais ainda para dentro de todas aquelas reminiscências acalentadoras. Uma versão doída, amargurada de MY FUNNY VALENTINE. E ele não se dava conta do passar das horas. E sobretudo não queria parar com aquilo. Não tinha mais, pelo menos por enquanto, qualquer tipo de preocupações que não fossem suas tranqueiras tão bem-quistas; sua morada interior, seu lar, sua mansão ricamente mobiliada pelas suas vivências. Suas!
    Ele sentia um contentamento, uma crescente sensação oposta à angústia. Um certo deslumbre, assim como aquele que sentimos ao conhecermos para valer alguém interessante, mas aquele alguém com o qual cruzávamos a todo instante e em quem mal reparávamos. Ele se considerava agora um riquíssimo senhor de um castelo, com um grande alívio e prazer vindos daquela experiência de livramento, de desfazer-se de toneladas de coisas que lhe atravancavam o pensamento. Mas, ao se desfazer de tudo aquilo, ele na verdade reavia, retomava, reprocessava e dava um novo significado à sua até então vida de homem de negócios. Um homem-máquina. Homem-robô. Que funcionava apenas sob pressão. Às voltas com gente igual a ele: sob aquele desdém da vida interior, escondendo-se toda uma carência, uma imensa ausência de algo.
    Que na verdade é a solidão originária da nostalgia de nós mesmos.
    Ele adormeceu.
    Só restando o som de Chet Baker tocando seu trompete e cantando com sua voz aveludada EVERY TIME WE SAY GOODBYE.

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Ao som de… Chet Baker, Every time we say goodbye.

Dia apocalíptico.

Ainda não se sabe ao certo que merda aconteceu com o sistema central da Telefônica. O que é certíssimo: desde madrugada, São Paulo esteve sem internet, pelo menos aquela dependente do sistema da empresa espanhola. Ou seja, a grande maioria do Estado. Sistemas de dados de delegacias, entre outros órgãos públicos, cujo serviço é, como se sabe, essencial: todos vivendo um dia de caos. Muita gente sem conexão. Vi pessoas entrando em pânico por não poderem acessar seus e-mails e informações relevantes, se comunicar, tocar a vida, enfim. Foi um retrato de quanto estamos dependentes da Grande Teia.
Um vislumbre só.
Começou então por aqui o bug cibernético, um tipo de engarrafamento-monstro de dados que levará a web a constantes colapsos?
Tínha-se a impressão de que a Telefônica, essa parceira da Grande Besta do Apocalipse, mais dia, menos dia, faria uma imensa lambança.
Por aqui, parece que a situação está voltando ao normal. Mesmo que a conexão ainda esteja a passos de tartaruga.
A empresa do país de Cervantes nos deve um grande pedido de desculpas. E ressarcimentos, onde for necessário! Até porque, aquilo que ela nos cobra não tem nada de oníricos moinhos de vento, como os vistos pelo Cavaleiro da Triste Figura.

Direto do subterrâneo.

  Reli atualmente NOTAS DO SUBSOLO (Editora L&PM), de Fiódor Dostoiévski. A primeira vez que o li eu ainda estava saindo da adolescência e não pude, então, ter a exata dimensão dessa obra única e ainda, de forma geral, moderna. Lembro-me apenas de que a imagem daquele sujeito que se aliena de tudo e de todos e lá da sua masmorra, do seu subterrâneo, arremessa dardos de fel ao mundo exterior, me ficou esses anos guardada sem perder o frescor.

    Dividido em duas partes, esse romance já foi até mesmo considerado uma obra precocemente existencialista. O protagonista-narrador, amargo e misantropo, anônimo, mundial e carinhosamente conhecido como o Homem do Subsolo, por volta dos quarenta anos, ex-burocrata do serviço público na Rússia do século 19, após herdar uma certa soma de dinheiro, se aposenta e passa a nos apresentar todas as suas idéias, as suas concepções, enfim, seu aparato de, vá lá, valores e, sobretudo, o porquê de sua alienação. E o que vemos não é nada trivial. Não mesmo! Nossa primeira reação: seria um louco aquele sujeito? Um desajustado? Um ressentido? Tudo isso e mais um pouco? Ele se fixa em nossa mente para sempre como o protótipo do ser atormentado, de um parasita que alimenta seu ódio pelas humilhações que teve pela vida afora. Os projetos nunca concretizados de vingança, o constante armar-se contra tudo e contra todos, a amargura, a frustração, o ressentimento sem fim… Ao se vangloriar de sua inteligência e ostentar as condições precárias e duríssimas em que vivia, nesse choque entre a realidade e sua interpretação, entre as utopias pessoais e a “dureza” do mundo em si, nos paralisamos diante de uma alma atribulada, daquelas que só Dostoiévski era capaz de criar.

    “Sou um homem doente… Sou mau. Não tenho atrativos. Acho que sofro do fígado. Aliás, não entendo bulhufas da minha doença e não sei com certeza o que é que me dói. Não me trato, nunca me tratei, embora respeite os médicos e a medicina…”.

   Assim, de forma sui generis, começa esse romance que, apesar de curto, extremamente influente na literatura universal. Nele, muitos escritores, roteiristas e cineastas se basearam para criar seus personagens deslocados, seres destituídos daquilo que se convencionou chamar de “comportamento padrão”. Notas do Subsolo, com essa introdução despretensiosa, inaugura uma nova era: a dos anti-heróis existenciais. Não mais aquele romantismo açucarado dos romances de formação. É porrada, é soco, é grito, é urro, é clamor, é a dor da existência. Uma cacetada e tanto!

  

   No lugar das confissões piegas, ela, a angústia: o equivalente na prosa do que Munch e seu O GRITO fizeram na pintura. A escrita expressionista, mais preocupada em pôr no papel toda a miséria, toda a baixeza, vileza e mesquinharia humanas. Uma literatura áspera, rude, deprê, sombria, blasé, jururu, definitivamente refratária às dondocas. Estamos falando, afinal, de Dostoiévski, o mais psicólogo dos escritores, o mais genial dos autores voltados à introspecção, à prospecção das nossas carências, lamentos, dores e martírios. E sobretudo do artista que tinha o controle total de seres nômades de si mesmos; seres em dissonância com a multidão, com a manada…

   Voltando.

   Na primeira parte, há toda a sua (do narrador, não do autor Dostoiévski) verborragia alucinada, ainda que cativante. Ali ele, o Homem do Subsolo, nos apresenta e nos prepara, de certa forma, ao que virá na segunda. É aquilo que se chama tecnicamente de índices.

    Na segunda parte, ele narra alguns eventos que aconteceram dezesseis anos antes, quando ele tinha apenas vinte e quatro anos. O “apenas” nasce da constatação nada agradável que temos ao ver o quão precocemente aquele sujeito tomara um rumo de auto-engano e ensimesmamento alucinado, de orgulho excessivo e apego a racionalizações mesquinhas, tudo compatível com aquele espírito de época.

    O homem inteligente está, na visão do misantropo dostoiévskiano, fadado à inércia em virtude de sua consciência em alto grau de todos os motivos e razões que se encontram na gênese de nossos comportamentos. Em outras palavras: por ser inteligente (ter a consciência total), esse homem estaria manietado, cerceado: em tudo ele vê as razões e motivos de toda ação humana. Ora, essas razões sempre remetem a outras razões, até o infinito. Onde o homem medíocre, o homem de ação, vê uma razão apenas, justamente aquela que o faz agir, o homem inteligente, o homem de consciência total, por sua vez, vê apenas um motivo a mais numa cadeia infinita de motivos. O que faz ele? Nada! Sente-se insatisfeito com aquela pseudomotivação, pois sabe, ou intui, que ela é apenas mais uma causa dentre outro sem-número de causas.

    Essa racionalização é a base do comportamento do Homem do Subsolo. Ele menospreza as idéias típicas de seu século. Ele cospe nelas! Como ninguém, ele sabe que todo aquele arcabouço de idéias vigentes tinha em si a finalidade asquerosa de querer limitar o humano, de querer fazer dele uma máquina previsível, constante, fadada a reagir e reagindo se tornar mais um componente na maquinaria do mundo.

    Para ele, o desejo primordial do ser humano é exercer seu livre-arbítrio, esteja ou não isso envolvido com seus melhores interesses. O importante é a liberdade de escolha. Seja para sentir ou não prazer numa dor de dente, sendo esse o exemplo que ele usa. Ou de não procurar tratamento para sua doença, ainda que essa postura só faça mal a ele e a mais ninguém.

    Ele se aliena da sociedade por se achar inteligente demais, ou, o que dá no mesmo no contexto da obra, por ser “consciente” demais.

    Mas ele paga um preço enorme por isso: essa consciência exorbitante gera ceticismo. E o ceticismo o faz ficar preso, como mostrei acima, a uma constante análise de tudo e de todos, a uma eterna busca pelas razões e pelas segundas intenções de tudo que ele faz. E isso, dessa maneira, o impede de viver plenamente, de interagir com os outros. Como viver plenamente esmagado pela inevitável busca de todos os motivos e porquês das mais mesquinhas das ações?

    Como ele não adquire o saber prático para a vida em sociedade, ele passa a buscar nos livros, na literatura, os padrões de comportamento. Mas ele se esquece que muito daquilo não pode ser aplicado na vida prática. Conseqüência: ele baseia suas expectativas de vida em obras literárias. Mas o atrito entre a realidade brutal das convenções humanas e aquele saber livresco o faz alienar-se ainda mais de todos. É um círculo infernal de sofrimento garantido.

    Ele só consegue um tipo de envolvimento emocional, uma conexão com os outros, apenas por meio da raiva, do ódio, da amargura e da vingança. Fora isso, ele é um pária. Mas que pária perigoso!

    Na segunda parte, o Homem do Subsolo age. Mas como age errado! Ele se alienou tanto de tudo e de todos, que seus “choques com a realidade”, os momentos em que interage com os outros, o “esmagam” e o fazem se auto-odiar ainda mais. Sua única forma de se auto-afirmar é machucando, ferindo, o outro. Ou, na via oposta, ele, esse exemplo acabado da oscilação moral, se humilha, se joga num infindável mar de imolação.

    Nos três incidentes que ele narra, constatamos: ali está um homem que perdeu toda a dignidade, ainda que uma idéia ou outra que ele nos apresenta seja-nos “interessante”.

    Eis os incidentes de sua juventude:

    No passeio público, ele tenta, tenta, tenta: mas não consegue plenamente manter-se firme e desviar-se de um oficial de alta patente. Repetidas vezes. Durou anos! Vejamos o tragicômico: durante anos, um sujeito pensa e repensa numa forma de não ceder sua passagem num passeio público a alguém hierarquicamente superior a ele. Os dois se encontram. Repetidas vezes a cena acontece: no momento da trombada “inevitável”, lá ia para um lado o Homem do Subsolo enquanto o oficial garboso e prepotente seguia sem desviar-se de seu caminho. Numa sátira devastadora, Dostoiévski nos mostra até onde chega nosso orgulho, nossos mesquinhos desejos de não nos rebaixarmos a quem quer que seja. Ainda que (é o mais doloroso!) estejamos fartos de saber que aquilo tudo, que aquele nosso apego ao orgulho ferido, nos levará a um círculo vicioso de sucessivos rebaixamentos perante nós mesmos. No entanto, eis que um dia o Homem do Subsolo consegue, ainda que parcialmente, bater quase de frente, literalmente, com aquele figurão do exército. O resultado é patético.

    Num encontro com colegas de escola, na despedida de um deles, o misantropo precoce insiste em se juntar a eles, mesmo sabendo que todos o desprezam, justamente por ele não ter subido na carreira, até então. Vão para um Hotel, onde os ”amigos” se divertem e ele, o Homem do Subsolo, fica ali, remoendo seu orgulho dilacerado pela frieza dos outros. Numa cena sufocante, Dostoiévski faz seu protagonista caminhar de uma mesa até uma lareira, e o caminho inverso, durante três horas. Enquanto isso, seus companheiros simplesmente esqueciam que ele existia na face da terra. E o narrador insiste em nos detalhar tudo: como alguém pode se rebaixar a tal ponto? Mas o paroxismo da humilhação ainda viria: quando os outros saíam para um bordel, o Homem do Subsolo implora, mendiga, uns trocados a um dos “comparsas”. Humilhação tamanha só com um fundo patológico…

   Na mesma época, o Homem do Subsolo sai em busca dos outros e ruma até um bordel. Tarde demais. Eles já tinham ido. Cambaleando, ele cai numa cama. Num corte narrativo cinematográfico, numa elipse soberba, o protagonista ”acorda” com uma garota ao lado. O ato se consumara. Dostoiévski sugere, não mostra. Um macete clássico e eficiente dos grandes narradores. Ali está Liza, jovem de vinte anos.

   Num primeiro momento, o Homem do Subsolo se espanta. Aos poucos, passa a tentar conversar com ela. Difícil: ela só responde, no começo, de forma lacônica. Ele então assume o papel que havia aprendido nos livros, na literatura romântica: incorpora a persona do defensor, do redentor, do herói incumbido de tirar da “lama” aquela jovem. Ele procura mostrar a ela o quanto ela desperdiçava a vida; que a juventude dela em logo se esvairia; que a explorariam sobremaneira. Resultado: ela cai em prantos. Assustado, ele pede-lhe desculpas, dá a ela seu endereço. Liza deve ter pensado: “Pronto, eis meu salvador!”

    Trê dias depois, eis que Liza aparece em seu apartamento modestíssimo. A dor do orgulho ferido, ainda mais porque ela chega justamente quando ele se desentendia com Apollon, seu empregado, numa cena de gritos e perda de controle por parte do Homem do Subsolo, tudo isso o faz a odiar intensamente. Ela que vinha prestar uma visita ao seu “salvador”, àquele para o qual ela havia confessado o amor dela por um jovem que não sabia a vida que ela levava… A personagem de Liza nos comove, nos deixa com uma ponta de apreensão: no meio de tantos seres mesquinhos, ela era a única que salvava, a exceção honrosa.

    Mas então o mundo desaba: o Homem do Subsolo surta e passa a transferir a ela todo seu ódio, toda a sua frustração, todo seu ressentimento, toda a sua humilhação e canaliza a ela seus mais patéticos desejos de poder. É uma das cenas mais dolorosas da literatura, tal a força do desprezo alucinado para com aquela alma ainda no início da vida.

   E nas mãos de Dostoiévski aquilo tudo não parece piegas, dramático ao extremo. E sobretudo parece verossímil! Ele tem o domínio total da técnica, ainda que muitos críticos o considerem estilisticamente negligente…

   A sensação que me despertou tal leitura foi das mais ricas.

 

   A constatação de que na natureza humana os elementos autodestrutivos caminham lado a lado com o anseio de racionalizar, de categorizar até mesmo os impulsos mais mesquinhos, mais reles. A de que habita em nós, dependendo do momento e do ambiente, uma bomba em potencial. E que, por fim, não há limites para o auto-engano. Esse pode ser um livro que mostra, aliás, o ápice do auto-engano. Em todas as suas formas.

 

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Notas do Subsolo, de Fiódor Mikhailovitch Dostoiévski, editora L&PM, 149 páginas. Tradução: Maria Aparecida Botelho Pereira Soares. 2008.

 

 

 

 

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Ao som de Claude Debussy (Obras para Piano)