Tristeza. Falar desse sentimento num mundo em que tudo gira em torno de uma constante busca pelas vivências excitantes, pelos risos desenfreados, pelas gargalhadas fáceis; mundo em que a maioria busca o Santo Graal, ou seja, a tal da Grande Felicidade; mundo em que todo e qualquer tipo de não-aceitação das regras e deveres implícitos que supostamente nos franqueiam as portas do Sucesso, ou pelo menos da aparência de se ser bem-sucedido, é visto como um crime de lesa-humanidade - buscar a tristeza e a sua irmã mais nova, a melancolia, é considerado uma afronta, uma insanidade típica dos mal-agradecidos, eles que vivem nos tempos áureos das parafernálias feitas na medida para supostamente nos afastarem das precárias condições que até pouco tempo atrás eram a regra! Algo típico de uma mente que nada contra a corrente – vai a rima assim mesmo -, em suma.
Para alguns, entre os quais me incluo, não existiria a F e l i c i d a d e , apenas os momentos de puro gozo dos pequenos e grandes momentos que nos cabe viver.
Parênteses fazem-se necessários, adiantando-se a possíveis contestações. Não se deixa de reconhecer aqui a utilidade imensa das tecnologias que realmente facilitam a nossa vida e muitas vezes a salvam. Nada disso. Opõe-se aqui, que fique bem claro, ao papel que muitos atribuem a essas tecnologias e parafernálias. Ou seja: nada contra os produtos do engenho humano, tudo contra a tolice e obtusidade de se crer que eles possam nos proporcionar uma dimensão maior da vida, de nos fazer melhores, de servirem, enfim, como uma seita. Seita essa que justificaria a vida, esta última servindo a eles, a esses produtos, e não o oposto.
Mas ela, a tristeza, quando oriunda de um sentimento mais amplo de desalento, de uma atitude “filosófica” – não a Filosofia vinculada a um sistema amplo, mas uma constatação aguda do imenso descompasso entre o que é a realidade e o que poderia ser a realidade -, é uma aliada de valor incalculável. Não a tristeza estéril; não o sentimento de auto-compaixão; não o remoer as pequenas frustrações, amarguras, ressentimentos, enfim: não a fossa em que todos volta e meia nos achamos; não o conseqüente queixar-se eterno; não o cruzar dos braços e o esperar infinito pelo navio que irá nos levar deste porto de lamentos; não a tristeza covarde, típica daqueles que continuamente reclamam e não fazem nada para mudar a situação em que estão.
É de um outro tipo de tristeza que se trata aqui. É aquela que se caracteriza pelo sem-número de impressões que nos tomam após termos chegado ao cume de uma imensa montanha, de um gigantesco abismo e termos vislumbrado, lá do alto, com toda a nitidez e precisão, o desenrolar da grande comédia das paixões humanas, das vaidades, das traições, do vitupério, da mesquinharia, da sordidez e todo o inesgotável rosário das imperfeições que tão bem caracterizam – e escravizam - o ser humano.
Desse vislumbrar, portanto, inevitavelmente, o sentimento que vem é o da tristeza e melancolia mais profundas. É a constatação salutar de que se poderia, e se pode mesmo!, buscar o oposto de tudo isso, ainda que saibamos que a perfeição seja uma utopia. Buscar o possível dentro da imperfeição inerente à nossa condição.
Tristeza não covarde. Melancolia que não se resigna.
Um sentimento esparso e vago.
Até porque a vida sem dor é uma farsa e uma contradição em termos. Mesmo que essa dor seja efêmera, ainda que recorrente. Dor essa que dura o suficiente para nos recolocar nos eixos.
Há, pois, tristezas e tristezas.
Dediquemo-nos à tristeza que nos redime de qualquer ideal de perfeição total, ainda que busque, como vimos, a melhora do que é precário. A tristeza que é uma lente invertida: que capta o imperfeito sob a aparência do perfeito.
O regozijo, portanto, nem sempre é um bom companheiro.
Dediquemo-nos à essa tristeza. Ainda que paguemos com a acusação de sermos traidores dos tempos atuais.
Contrariemos os canastrões atuais que se empanturram com a falsa idéia de Felicidade Absoluta, mas que na verdade chafurdam na patifaria desses tempos loucos e insensatos, que se conformam com a falsa aparência. Que não sabem – cegos que estão ao fruir o momento – que por trás dessa casca de felicidade há o olho frio do precário.
Antes a tristeza do que o auto-engano!
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Ao som do Álbum Branco, dos Beatles.
Muito bom, meu caro Elienai. Muito bom. Eu queria falar sobre esse texto, mas ele requer tempo para apreciá-lo e, enfim, degustá-lo intensamente, tal qual foi escrito, imagino. É o tipo de reflexão que a gente rouba e absorve particularmente durante algum tempo. Muito bom!!
Olá, minha amiga atenciosa…
Que bom que tenha gostado. Aguardo suas reflexões tão bem-vindas…
Beijos.
elienai