Fragmentei-me.
Minhas partes/partículas se dispersam ao sabor dos ventos errantes que findam acertando em seu propósito. Tento, em vão, desesperadamente, ir juntando, catando, tentando reuní-las. Esta. Aquela. Aquela outra. Todas me humilham em seus volteios. São várias. Que um dia já juntas estiveram e assim constituíram algo parecido com uma unidade. Agora, no presente desalentador do meu “eu” fragmentado, caótico, há apenas a tentativa insana de colar num utópico todo coeso essas peças soltas, desajustadas, órfãs, desgarradas e agora na plenitude de sua selvagem gratuidade, sua fortuita nova configuração.
E elas vão, aos poucos, se desmaterializando, tal qual as partículas de poeira que dançam no facho da luz solar, entram numa zona de sombra e, uma a uma, ali ficam. Extingue-se a unidade que um dia houve.
À medida que se dissolvem as outrora essenciais partes de mim mesmo, tudo se torna igualmente indefinido. Este rosto no espelho: decerto é de outro alguém! Esta voz, estes gestos incertos, estes pensamentos recorrentes, estas ânsias, estes receios, estas vozes interiores: sem dúvida algum estranho se alojou em mim!
E outras ações dispara(ta)das por outro centro nervoso que não o meu de antigamente vão ganhando espaço e prevalecendo e tomando o lugar das outras, que, submissas, cedem lugar.
As partículas, por fim, se perdem num imenso vácuo. Que tudo traga.
Eu era. Eu fui.
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Ao som de John Coltrane, Impressions.
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Nossaaaaaaaaaa…isso é que é texto marcante hein!!!Lembrei de uma música do Titãs: Eu não caibo mas nas roupas que eu cabia, eu não encho mais a casa de alegria. Os anos se passaram enquanto eu dormia, e quem eu queria bem me esquecia…lá, lá, lá…