Por que vocês olham para mim desse jeito? Eu não matei. Eu não roubei. O meu único “crime” foi ficar aqui, insistentemente. Apesar da chuva, vento, granizo, sol. Apesar de todas as ordens, de todos os pedidos, de todas as ameaças, eu fiquei. Vejam bem: heroicamente, diga-se de passagem. Eu enfrentei cara feia. Balas de revólver. Ordens de despejo. Arrogância de oficiais de justiça. Vandalismo. Maledicências de vizinhos que não têm nada mais o que fazer. Grafiteiros, pombos barulhentos, andorinhas assanhadinhas, pardais piolhentos, todos eu garbosamente ignorei. Eles vieram, viram. Mas eu venci.
E olhem só: quase ninguém consegue tal proeza. É raro, vocês hão de convir.
Não quero com isso dizer que sou especial, que sou um iluminado. Não que eu não seja, claro. Olhando lá no fundo, sem preconceitos, até que eu sou, não acham?
Mas só estou me vangloriando porque agüentei calado tanta humilhação. Tanto diz-que-diz. Tanta maldade por trás. E pela frente, principalmente. Estou aqui para me defender.
Porque, olhem só, até um outdoor da eleição retrasada, mesmo que com o sorriso amarelado e já irreconhecível da minha candidata – que ninguém lembra mais quem foi, que diabos fez neste mundo-de-meu-deus -, até ele, caramba, tem dignidade.
Tantas coisas aconteceram nestes oito anos. Tantos poderosos passaram. Eu continuei. Na transitoriedade alucinada do mundo, eu continuei firme com as minhas convicções!
Dignidade mesmo me dariam se me colocassem no Guiness como a propaganda há mais tempo “no ar”: vá lá que num terreno baldio de uma cidadezinha obscura de um país atrasado. Mas, como amanhã é dia de eleição, resolvi tomar emprestado este blog de audiência interplanetária para reafirmar minhas concepções de vida.
Obrigado, dono do blog. Valeu! Fui! Quer dizer, fiquei!
A luta continua!
Este sou eu. Já fui mais bem-apessoado. Mas sempre coerente. Nem perdi a ternura, jamais. O Tempo, meus caros mortais, é um algoz… Ok, alguém já disse isso de forma mais brilhante…
Arquivado em: Alhos e bugalhos


fantástico.