Papo de fim de ano na mesa do bar.

   – Cara, resolvi entrar 2009 de uma forma radical. Mas não espalha, tá?
   – Jura? Vai dar três pulinhos e cair no colo do chefe?
   – Não, né?, panaca.
   – Então como é o troço?
   – Ah, tipo assim: vou vender a alma pro diabo.
   – Pô! Como é que é, velho?
   – Isso aí. Tá tudo certinho. Vou procurar um desses centros aí de satanismo.
   – Cara, pela Virgem de São Cristóvão! Nem brinca com isso!
   – Já pensei, repensei. Tô resolvido. Não tem mais volta. Cansei dessa pindaíba toda. Cobrança, dureza, humilhação. Vou dar uma virada na vida! Adeus, céu; adeus, Deus. Olha só que legal: adeus, Deus!
   – Meu, você pirou! Vai se arrepender dessa merda toda porque, na hora H, quando o bode vier te buscar a alma, daí vai ser tarde. Tchau e benção!
   – Não vai deixar de ser irônico. Afinal, vou estar indo pro inferno e você me manda benção.
   – Cara, olha. Vou ter que pegar a Zuleika na cabeleireira. Repara não, tá? Mas… dorme um pouco. Talvez descansando você volte a ser o Zé Eduardo. Você tá meio estressado. Dorme que assim você reserva energia pra virada. Bem, é isso, um abraço! Fui!
   – Ei, seu canalha bunda-mole, peraí! Nem te contei o resto. Vou dar um golpe de mestre no demo. Espera aí…

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   Moral da estória: assim são os projetos de fim/começo de ano. Factíveis e realistas que só eles…

A Reforma Ortográfica do ponto de vista de um sentimental.

   

     Adeus, trema querido. Descanse em paz, você que era nosso traje de nobreza, que  dava um ar assim meio teutônico a alguns de nossos vocábulos, como o umlaut da língua de Goethe! Será que agÜentaremos tal seqÜência de derradeiras despedidas?

   Chorando muito, tenho que dizer: adeus, acentos dos ditongos… snif!, dos ditongos abertos Éi e Ói! Nunca mais, IDÉIA! Você, palavra querida, não tem idéia da falta que fará!

   Gratos somos por vocês, acentos no I e no U fortes depois de ditongos. Será o cúmulo da feiÚrua ter que escrever feiura! Meus pêsames, acento circunflexo das palavras terminadas em ÊEM e ÔO! Só de pensar nisso, ficaremos com enjÔo, de agora em diante, argh!, enjoo.

   Perdão por assoar o nariz assim na frente de todos…  Mas…

   Adeusinho, vocês, acentos que nos ajudaram por tanto tempo a diferenciar certas palavras: pára, péla, pêlo etc… Mas ainda bem que em alguns casos o velho e bom circunflexo continua, como em PÔR, PÔDE, FÔRMA…  

   Nunca mais poderei escrever que sou ANTI-SOCIAL, doravante, serei um reles ANTISSOCIAL, assim, com esse indiscreto S a mais me fazendo companhia, eu, um misantropo… Queridos hífens, uma grande parte de vocês se vai. E vão nos deixar mesmo, assim, argh, hipersaudosos…

   Digam que é mentira! Do contrário eu me acabo em lágrimas!

  

Variações acerca do sempre.

 

Sempre na trilha errada.

Sempre na contramão.

Sempre atrasado.

Sempre incompleto.

Sempre aquém.

Sempre decepcionante.

Sempre vazio.

Sempre só.

Sempre invisível.

Sempre sem rumo.

Sempre ausente.

Sempre errante.

Sempre tateante.

Sempre incompreendido.

Sempre o avesso.

Sempre sem sentido.

Sempre nauseante.

Sempre irritante.

Sempre tediante

Sempre morno.

Sem prever o óbvio, sempre cometendo o mesmo erro.

Sempre inconstante.

Sempre mutante.

Sempre na beira do abismo.

Sempre suplicante.

Sempre.

Sem previsões de melhora, sempre na pior hora.

Sempre uma promessa.

Sempre um passo errado.

Sempre a ausência do passo.

Sempre no quase.

Sempre uno não obstante sempre múltiplo.

Sempre no sempre do eterno retorno de si mesmo.

Sem pressentir que tudo é um círculo vicioso, sempre recomeçando exatamente de onde tudo sempre parou e sempre haverá de parar.

Sem pressa de chegar a lugar algum, sem prementes afazeres que não os de sempre.

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MADRE JOANA DOS ANJOS. Polônia, 1961.

 

  Numa região isolada da Polônia do século XVII, havia um convento de freiras no mínimo peculiar. Em vez de ser habitado pelo espírito divino, o que havia ali era o demônio e seus asseclas como donos do pedaço. A Madre Superiora, possuída por uma legião de querubins das trevas, a hospedeira-mor de “espíritos imundos”, atrai a atenção de um padre forasteiro que ali chegara justamente para investigar os rumores de possessão demoníaca naquele convento. A missão dele, claro: expulsar aquela pletora de demos que atendiam pelos mimosos nomes de Ballam, Isaacaron, Asmadeus, Gresil, Aman, Leviatã. Mas, no final, surpreendente, ficamos extasiados com seu triste destino. Dele, padre. Uma bela mensagem, dentro do contexto religioso, é o que ele deixa. Mas não entremos nesse campo… 
  Perfeito esteticamente; lembrando Tarkovski, com pitadas de Dreyer, algo também do Bergman de Luz de Inverno, na temática metafísica e de dúvidas acerca do poder divino; com interpretações mais que convincentes; nos prendendo naquela atmosfera claustrofóbica (há tempos eu não era transportado para dentro da tela…); as cenas de possessão demoníaca realistas (pela primeira vez no cinema); a ambientação sincera, seca, suja, despojada de badulaques de cenários pomposos (lembrando muito a medieval Rússia de Andrei Rublev, do já citado Tarkovski) ou maquiagens inverossímeis; as movimentações de câmera (subjetiva); o coro gregoriano sempre preciso nos momentos em que a dramatização mais pede; as cenas de oração solitária do torturado padre; a discussão metafísica entre um rabino e o tal padre, de alta carga filosófica; a cena final, do sino mudo… São muitos os méritos de MADRE JOANA DOS ANJOS (1961), do diretor Jerzy Kawalerowicz (que no próximo dia 27 faz um ano que morreu, aos 85), conterrâneo dos não menos geniais Kieslowski (cuja Trilogia das Cores reverei ainda nestas férias) e Polanski
 

  Um filme que foi proibido em certos países, na época, tal a ousadia de botar demônios em pleno convento. A dança das freiras possuídas e sua gesticulação em transe demoníaco, a conversa inicial entre o padre e a Madre Joana dos Anjos (“Devia ser dos diabos“, como disse um personagem, num dos raros momentos de humor), só isso já vale a sessão. Mas tem mais: o roteiro não se perde no final, pelo contrário: é surpreendente, como afirmei acima, o desfecho. É daqueles desenlaces que grudam na memória.

  Tem até um subplot (se uso esse termo em inglês é porque o equivalente em português, “subtrama”, não é lá tão preciso): o envolvimento entre uma das freiras e um don Juan meio desengonçado. A gente fica se perguntando se aquilo não seria mais uma das “artes” do Belzebu. Quem assistir verá que o que parecia um príncipe…

  Um ponto negativo: a edição das legendas deveria ser mais caprichada. Há momentos em que não há a tradução de certos diálogos. Numa passagem, aparecem algumas frases em inglês. Visivelmente, foi feita desse idioma a tradução. Um certo cochilo, convenhamos, que, ainda que não comprometa a fruição dessa obra-prima, mostra um certo desleixo.
  Com toda parafernália de O EXORCISTA (com o grandioso Max von Sydow, o ator-fetiche de Bergman), ele fica atrás em termos de terror para a produção polonesa. Que se não é propriamente um filme de horror, causa sim em nós um certo espanto. Em que pese todo o agnosticismo deste blogueiro. Só me pergunto o que seria de mim se eu assistisse esse filme aos 12 anos…

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Trivia boboca:

- O ajudante de cerimônias que ajuda (vade retro, pleonasmo!) a aspergir água benta nas possessas freiras é a cara e o focinho do Rogério Ceni! Só faltou neste a barba… É idêntico!

- A taberneira é mais sexy que a Madonna de Like a Virgin ou Material Girl. Que olhar, que boca! Agora, pergunto: por que tanta volúpia represada sendo que a personagem não foi em nada desenvolvida nem tampouco é relevante na trama? Seria um daqueles erros que alguns roteiristas distraídos cometem? Por que o excesso de caracterização? Vai-se saber… Que desperdício!

- Cuidado, spoiler: No ritual de exorcismo, a Madre Superiora (também gatíssima, viu? uauuuu), mais abarrotada de demos do que o próprio inferno, faz um movimento de se contorcer para trás que quebraria a espinha de qualquer mortal não habituado com as artes do contorcionismo! Claro que era uma dublê!

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A tempo: acaba de ser lançado no Brasil o roteiro literário do acima mencionado Andrei Rubliev (antes, Rublev), do pela terceira vez aqui citado nest post Andrei Tarkovski. O roteiro literário diferencia-se do roteiro tradicional por ser mais, digamos, poético do que este último. Em breve o adquiro! 

Curtindo a vida (texto devidamente corrigido. Com os infinitivos nos devidos lugares! Oh, distração!)

 

   Ontem fui assistir à peça ALDEOTAS, escrita e interpretada por Gero Camilo. Juntamente com Marat Descartes, Camilo nos leva a uma viagem pelos confins da memória. Num cenário literalmente vazio, contando apenas com a presença de palco estonteante de ambos, em quase duas horas somos surpreendidos por um texto excelente, repleto de surpresas agradabilíssimas (epa, José Dias e sua mania de superlativos fazendo escola…) e, claro, interpretações hipnotizantes.
   Numa viagem ao passado, apenas e tão-somente os momentos especiais da vida de dois amigos são ressaltados. Nesse trabalho de memória seletiva, Camilo nos mostra momentos de outrora sendo preenchidos e materializados pela “revivência”, digamos assim. Dessa forma, ao mesmo tempo que nos deparamos com as descobertas, as demonstrações de amizade, as fantasias de uma vida melhor, a questão da falta de perspectivas, o envolvimento turbulento com pais ditadores, entre outros temas, também descobrimos que tudo aquilo é interpretado ali de uma forma muito expressiva e, talvez por isso, despojada de penduricalhos de encenação. As tiradas de Camilo e Descartes fizeram a platéia rir em vários momentos. No final, o ritmo é diminuído e vemos para valer o talento de dois atores atingir o ápice.

    Uma peça inesquecível que nos faz, via empatia, mergulhar também em nossos vilarejos interiores e revivê-los. Agora sob um prisma totalmente novo.
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   Quarta e quinta o SESC-SJC traz também uma pérola da música: Elton Medeiros interpretando nada mais nada menos do que o poeta Cartola. Medeiros conviveu com o grande sambista e seu show foi muito elogiado pela crítica. Vou conferir!
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   Sexta e sábado, ainda no SESC, uma peça composta por dois monólogos, chamada Retratos Falantes, baseada na obra do dramaturgo inglês Alan Bennett. Essa peça foi originalmente escrita para a BBC e acabou virando um sucesso retumbante. Também não perco por nada neste mundo vão!

Ele bem que poderia ser nosso segundo escritor, não é mesmo?

   Li a coluna do Mainardi na VEJA desta semana. Ali, o crítico deixou bem clara sua opinião sobre a minissérie CAPITU. Para ele, essencialmente, o diretor Luiz Fernando Carvalho não foi nada fiel à obra machadiana, supostamente fazendo uma coisa em tudo oposta a que Machado de Assis fez ali no romance DOM CASMURRO: uma espécie de circo, teria feito o diretor global, em contraposição (aqui com razão, no que se refere à caracterização do estilo machadiano) ao tom seco, refratário a excessos, do escritor carioca. Mainardi continua na sua ladainha pseudochocante: compara o Bentinho retratado na minissérie a um Dick Vigarista, famoso personagem de desenho animado. É assim, com essas comparações altamente eruditas (que buscam causar um certo riso, se esgotando aí sua intenção, portanto, verdadeiros pastéis de vento), que Mainardi adora aparecer. Ele diz ainda que temos apenas um escritor neste país que viria a ser, justamente, Joaquim Maria [Machado de Assis].

    Claro, o romance (foi mais de um? convenhamos que esse suposto acréscimo não seria exatamente meritório ao “crítico-de-qualquer-coisa” mor) que o Mainardi escreveu ajudou muito a afastá-lo da possibilidade de ser o segundo escritor deste país…

    E outra: a série que acabamos de ver não tinha a intenção de ser fiel ao Machado acadêmico, mofado, que professores de antigamente (bem, nem tão antigamente assim) insistiam em nos enfiar goela abaixo. Achar que só uma leitura é possível – que o conservadorismo pernóstico dele, Mainardi, é o que conta, fora isso tudo sendo uma traição e tal -, é tão pueril, esnobe e cansativo…

    O pior que ele faz escola por aí. Gente que nunca leu Machado o esnoba (a ele, Machado). Que nunca leu outro autor brasileiro (apesar da genialidade literária de Mainardi, há sim acho que muito mais do que um escritor nesta terra brasilis) por se achar especial demais para isso. Fingem ler  Joyce  (“Oh, somos tão chiques! Nossa forma de ver o mundo e a arte é tão blasé! Vejam como ‘conhecemos’ o stream of consciousness, nós, vitorianos deslocados no tempo e no espaço”) e são convictos da própria importância. Argh!

    E veja-e-mire, Guimarães Rosa!, ei, tchê, Erico Veríssimo!, alerta, Graciliano Ramos!, acorda, Lima Barreto!, seriedade, Monteiro Lobato!, pára de divagar, Clarice Lispector! entre outros, a partir de agora, vocês não são considerados escritores. Sua Santidade, Dioguinho, acaba de expulsá-los de onde se encontravam. Voltem à sua insignificância, por favor.

 

    A tempo: o Mainardi, assim como o pipoqueiro da esquina, que se responsabilizem pelo que dizem. Assim como este blogueiro bissexto. Lendo nas entrelinhas: buscou-se aqui a crítica de idéias, não de pessoas. Ufa, tem que se explicar tudo para certos talibãs da interpretação…

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  Ao som de BLUES GIANTS, uma coletânea supimpa composta de três cds. Tem na saraiva.com. Olha a propaganda nada subliminar! No momento, rolando KEY TO THE HIGHWAY, com Muddy Waters

Vai deixar saudades.

  

 

    E lá se foi a microssérie CAPITU. Ontem, vindo do teatro, onde assisti ALDEOTAS, estrelando o pequeno gigante Gero Camilo (isso será assunto de outro post), pude chegar a tempo para me despedir de Bentinho, Capitu, Escobar, Dona Glória, José Dias, entre outros.

   O que falar de uma série de um diretor inventivo, sempre surpreendente, que põe na tela personagens que ficarão para sempre em nosso imaginário? Para aqueles que lemos DOM CASMURRO, a impressão só foi reforçada. A narração da vida de um homem frágil, mesquinho algumas vezes, sempre irônico, meio desajustado existencialmente, foi belamente (frisemos tal advérbio!) transposta para outra “linguagem”, a televisiva, ainda que fortemente calcada em outra, na teatral. Elogiar tal empreitada é “chover no molhado”. Haverá quem o fará com mais competência pormenorizada e especializada.

   A mim, um ser fascinado pela literatura, pelos mistérios dessa arte fabulosa, só me resta aqui deixar este texto “impressionista”: alinhavar o que em mim foi despertado, o que em mim foi acionado, falando resumidamente. E o que experimentei nesses cinco dias de CAPITU, foi o fascínio renovado para com a arte da palavra. Como ela, a palavra, pode nos lançar a espaços aparentemente insondáveis de nossas almas, seja lá o que for isso. Como podemos, seja num filme, seja nas páginas de um livro, pois tudo parte delas, as palavras, nos enriquecer com vidas que não vivemos, pensamentos que não são os nossos mas poderiam ser, com visões e impressões que nos descortinam um novo mundo!

   A liberdade criativa do diretor Luiz Fernando Carvalho nos estimula a ter sonhos de criação. Seja o que for que criemos, seja o que for que tivermos vontade de fazer em termos de interpretação criativa, de criação de seres e mundos, de materialização de utopias imaginárias; enfim, mergulhando em trabalhos como esse é que podemos ver o quanto a Arte pode nos livrar (seja nos estimulando a criar ou a fruir, tenha a chancela ou não de “arte” aquilo a que nos dedicamos) de nossas mazelas, de nossas limitações, de nossa realidade precária de seres jogados no mundo. A Arte nos redime!

   A discussão periférica se Capitu traiu ou não Bentinho soa pueril quando vemos além, quando pelo menos intuímos o que Machado supostamente quis mostrar: ao retratar Bentinho e outros personagens, Brás Cubas ou Quincas Borbas, o Conselheiro Aires ou o Simão Bacamarte, ou o alferes de O Espelho, ele, o Bruxo do Cosme Velho, estava acenando-nos com a possibilidade de transcendência via a arte da sugestão. E o resultado: um grau notável de universalismo.

   Sem falar na prosa, na cadência e no idioma machadianos, todos ali, intactos. 

   Por essas e outras, podemos dizer que vai demorar até que outra minissérie à altura desta apareça.

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   Ao som de Elephant Gun, do Beirut, canção-tema de CAPITU.

Prosa altissonante, realidades prosaicas. (Primeiro Episódio)

   Por mais que eu tentasse, não conseguia ver por entre aquelas sombras. Tateando, trôpego, quase sem ar, mal podia ter uma idéia fraca de onde eu estava, para inde iria, de onde viera. Meus pensamentos, opacos, naquela bruma que estava prestes a se tornar caos, matéria disforme e pântano desorientador, se desintegravam em cadeia, numa ressonância contínua rumo a uma espécie de mergulho no breu sem limites.
   Súbito, um estalo; e um clarão; e uma voz aguda e potente: minha mulher “dormindo” no sofá, com um par de chinelos nas mãos, me aguardava. Para outro sermão contra meus degenerados e cada vez mais humilhantes hábitos etílicos. Senti um golpe na fronte: algo quase certeiro dera seus boas-vindas.
   Caí no carpete, não sem logo vomitar. Em segundos, o odor ácido daquilo que saíra das minhas entranhas penetrava-me as narinas e me punha num estdo de miséria moral, um misto de covarde autocomiseração e sanha autodestrutiva e autopunitiva.
   E iso tudo já começava a se se repetir com uma certa freqüência.

Qualquer coisa, qualquer coisa…

   Teve um autor clássico, cujo nome não me lembro agora, que disse algo como “Nenhum dia sem uma linha”, conselho aparentemente boboca. Mas só aparentemente. Quem escreve, quem sente ganas de tascar palavras na tela em branco (ou no papel em branco, como eu prefiro, visto que me sinto mais à vontade ao escrever à mão, principalmente a lápis), contudo, deveria seguir tal conselho.

   Ora, ora… O que deu neste cara que aqui escreve uma vez na vida outra na morte para ter uma súbita compulsão por escrever? Ledo engano… Sempre tive, sempre tenho o anseio de me expressar por escrito. Sou, no fundo, mais propenso a me expressar assim. Falar me cansa, ouvir gente falando demais me deixa para baixo e, meu Deus!, manter uma conversa com mais de quinze minutos me dá uma sensação de morte em vida. Estaria eu apresentando os sintomas de um anti-social mórbido? Seria eu um proto-neurótico? Só me faltava essa.

   Bem, se era para escrever uma linha já extrapolei há tempos tal medida. Agora, que estou aqui, no meio desta frase que não tenho a mínima idéia de onde vai me levar, como acabará ou mesmo se vai dizer algo que preste, repito, agora, me sinto mais à vontade. Falar do tempo maluco? Da balbúrdia consumista? (Epa, eu mesmo já gastei horrores esta semana com livros, dvds e cds, meus únicos objetos do desejo!) Das tolices próprias? Do remorso pelas matérias fecais transmutadas em ações asnáticas que a gente comete volta e meia pela vida afora? Que tal escrever sobre a vontade de pedir perdão a alguém (seja quem for!) que foi sim há pouco tempo tão importante, mas que não obstante esse sentimento fomos os grandes idiotas a conspurcar aquilo tudo?

   Não, não “falarei” disso. Vou falar de outra coisa. Da sensação lenta, ainda que atroz, de que a vida escorre pelo ralo. De que, apesar dos projetos, sonhos, metas, cada vez mais débeis, a vida, e com ela nós, somos aniquilados, aos poucos, pela certeza, quase inconsciente, de que tudo é despedida, de que tudo é deixado para trás, de que tudo, enfim, nos desvencilhamos.

  Acho que não voltarei a estipular uma linha por dia, como recomendava o autor do passado. Quem sabe, e olhe lá, uma letra por semana.

Um Machado de encher os olhos (e os bolsos da Globo?).

   O primeiro capítulo do especial da Globo, CAPITU, foi uma experiência para lá de enriquecedora. A perfeita harmonia entre teatro, literatura e música já faz desse programa um clássico da emissora.

   A seqüência inicial, ao som de guitarras distorcidas e a sobreposição de imagens atuais e antigas, num sincronismo perfeito, juntou o novo e o antigo para ter como resultado final a expressão de uma atemporalidade totalmente em consonância com uma das principais obras de nosso autor máximo. A interpretação dos atores, o jogo de cenas, as falas, os cortes, a trilha sonora, o ritmo, a surpresa em cada cena (juntamente com a paradoxal certeza de que o Machado está ali, intacto, palpável, único), o extremo bom gosto, enfim, daquilo que vi neste primeiro episódio, me fez ter certeza de que se pode, sim, fazer coisas valiosas (de um grau de elaboração notável) neste país no principal “palco” da imbecilização nacional, a tv aberta.

  Ainda bem que há exceções. Que a Globo queira “papar” os prêmios internacionais voltados à premiação de séries, que ela queira nos brindar, ocasionalmente, com programas de “alta cultura”, ainda que tal termo me cause um certo engulho, enfim, seja qual for o motivo que a toda-poderosa emissora carioca tenha em vista, o que vale é que fomos – e nos próximos dias seremos também – os grandes beneficiários de tal adaptação que apenas (?) coloca o nome e a obra machadiana no lugar em que sempre deveria estar: o de autor insuperável de nossa literatura.

  Ainda que alguns não o considerem “tudo isso”. E que são, justamente, e não por acaso, os que nunca o leram de verdade.

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  Participei há alguns dias de uma oficina de roteiro de novela e cinema. Fui classificado, juntamente com outros malucos que escrevem e insistem nessa coisa de “criar”, para ter um workshop em SP. Minha sinopse (a primeira a gente nunca esquece), na qual eu nem mais confiava, chamou a atenção de gente da área. Ficamos a tarde concentrados estudando “teoria de roteiro”, “criação de personagens”, “diálogos”, entre outros assuntozinhos bocejantes para quem só vê um filme por entretenimento… Falou-se ali justamente do roteiro da tal série global como parâmetro do que se faz com liberdade total.

   Pelo que soubemos, a Globo quer investir em novos nomes para sua teledramaturgia. Fingimos que não sabíamos que havia ali ”olheiros”  da emissora carioca…

Enfim, um Sesc à altura. Fui lá conferir.

   Depois de uma mega-ultra-super reforma, o Sesc-São José dos Campos entra para o circuito dos mais badalados e, fazendo jus à importância da cidade, com programação versátil e constantemente renovada.

   Teatro toda semana, artes visuais, música, cursos e muita coisa bacana para se fazer lá. Fui conferir e vi com meus próprios olhos.

   Para “abrir com chave de ouro”, nada melhor que trazer um ícone da nova música brasileira dos últimos tempos. Gostei do que vi, claro. Letras inteligentes, carisma, melodias bem sacadas e um ritmo para lá de “pra cima”, Lenine, o pop star com cérebro, com suas sacadas verbais brilhantes, foi o convidado para inaugurar a nova fase cultural desta cidade. E o grande pernambucano fez a alegria de paulistas e todos que por aqui vivem e tiveram o privilégio de ali naquele espaço estar ontem a partir das 19h.

   Desfilando as pérolas de seu novo trabalho, o cara deixou a platéia acesa, animadíssima e feliz da vida. Confesso que dele eu não conhecia muita coisa. Mas é aquele negócio: faro para coisas boas é aquilo de que este blogueiro bissexto e pedante, talvez hexa hoje com o Tricolor, dispõe. De sobra.

   Cartas, xingamentos e ameaças de morte, por favor, mandem para o meu e-mail, que deve estar aqui em algum lugar deste blog “imorrível”.

   Taí uma foto do show de ontem.

   The fight goes on