MADRE JOANA DOS ANJOS. Polônia, 1961.

 

  Numa região isolada da Polônia do século XVII, havia um convento de freiras no mínimo peculiar. Em vez de ser habitado pelo espírito divino, o que havia ali era o demônio e seus asseclas como donos do pedaço. A Madre Superiora, possuída por uma legião de querubins das trevas, a hospedeira-mor de “espíritos imundos”, atrai a atenção de um padre forasteiro que ali chegara justamente para investigar os rumores de possessão demoníaca naquele convento. A missão dele, claro: expulsar aquela pletora de demos que atendiam pelos mimosos nomes de Ballam, Isaacaron, Asmadeus, Gresil, Aman, Leviatã. Mas, no final, surpreendente, ficamos extasiados com seu triste destino. Dele, padre. Uma bela mensagem, dentro do contexto religioso, é o que ele deixa. Mas não entremos nesse campo… 
  Perfeito esteticamente; lembrando Tarkovski, com pitadas de Dreyer, algo também do Bergman de Luz de Inverno, na temática metafísica e de dúvidas acerca do poder divino; com interpretações mais que convincentes; nos prendendo naquela atmosfera claustrofóbica (há tempos eu não era transportado para dentro da tela…); as cenas de possessão demoníaca realistas (pela primeira vez no cinema); a ambientação sincera, seca, suja, despojada de badulaques de cenários pomposos (lembrando muito a medieval Rússia de Andrei Rublev, do já citado Tarkovski) ou maquiagens inverossímeis; as movimentações de câmera (subjetiva); o coro gregoriano sempre preciso nos momentos em que a dramatização mais pede; as cenas de oração solitária do torturado padre; a discussão metafísica entre um rabino e o tal padre, de alta carga filosófica; a cena final, do sino mudo… São muitos os méritos de MADRE JOANA DOS ANJOS (1961), do diretor Jerzy Kawalerowicz (que no próximo dia 27 faz um ano que morreu, aos 85), conterrâneo dos não menos geniais Kieslowski (cuja Trilogia das Cores reverei ainda nestas férias) e Polanski
 

  Um filme que foi proibido em certos países, na época, tal a ousadia de botar demônios em pleno convento. A dança das freiras possuídas e sua gesticulação em transe demoníaco, a conversa inicial entre o padre e a Madre Joana dos Anjos (“Devia ser dos diabos“, como disse um personagem, num dos raros momentos de humor), só isso já vale a sessão. Mas tem mais: o roteiro não se perde no final, pelo contrário: é surpreendente, como afirmei acima, o desfecho. É daqueles desenlaces que grudam na memória.

  Tem até um subplot (se uso esse termo em inglês é porque o equivalente em português, “subtrama”, não é lá tão preciso): o envolvimento entre uma das freiras e um don Juan meio desengonçado. A gente fica se perguntando se aquilo não seria mais uma das “artes” do Belzebu. Quem assistir verá que o que parecia um príncipe…

  Um ponto negativo: a edição das legendas deveria ser mais caprichada. Há momentos em que não há a tradução de certos diálogos. Numa passagem, aparecem algumas frases em inglês. Visivelmente, foi feita desse idioma a tradução. Um certo cochilo, convenhamos, que, ainda que não comprometa a fruição dessa obra-prima, mostra um certo desleixo.
  Com toda parafernália de O EXORCISTA (com o grandioso Max von Sydow, o ator-fetiche de Bergman), ele fica atrás em termos de terror para a produção polonesa. Que se não é propriamente um filme de horror, causa sim em nós um certo espanto. Em que pese todo o agnosticismo deste blogueiro. Só me pergunto o que seria de mim se eu assistisse esse filme aos 12 anos…

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Trivia boboca:

- O ajudante de cerimônias que ajuda (vade retro, pleonasmo!) a aspergir água benta nas possessas freiras é a cara e o focinho do Rogério Ceni! Só faltou neste a barba… É idêntico!

- A taberneira é mais sexy que a Madonna de Like a Virgin ou Material Girl. Que olhar, que boca! Agora, pergunto: por que tanta volúpia represada sendo que a personagem não foi em nada desenvolvida nem tampouco é relevante na trama? Seria um daqueles erros que alguns roteiristas distraídos cometem? Por que o excesso de caracterização? Vai-se saber… Que desperdício!

- Cuidado, spoiler: No ritual de exorcismo, a Madre Superiora (também gatíssima, viu? uauuuu), mais abarrotada de demos do que o próprio inferno, faz um movimento de se contorcer para trás que quebraria a espinha de qualquer mortal não habituado com as artes do contorcionismo! Claro que era uma dublê!

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A tempo: acaba de ser lançado no Brasil o roteiro literário do acima mencionado Andrei Rubliev (antes, Rublev), do pela terceira vez aqui citado nest post Andrei Tarkovski. O roteiro literário diferencia-se do roteiro tradicional por ser mais, digamos, poético do que este último. Em breve o adquiro! 

Uma resposta

  1. Ah cara, escreve a resenhe de O Conformista sim. Nao vi esse filme, mas suas resenhas sao sempre muito interessantes. Fiquei com muita vontade de ver Madre Joana depois de ler essa aqui.

    Quanto ao livro que você recomendou, to precisando ler mesmo umas obras teóricas de cinema, pra ter uma conhecimento mais robusto. Meu conhecimento de cinema é muito fragmentado sabe, meio que partindo de um filme para o todo…

    Atualmente meu sonho de consumo é Esculpir o Tempo, mas vou anotar esse aí e ver tb se eu consigo emprestado com meu professor de literatura os livros do Eisenstein que ele tem

    abraço

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