Quanto mais uma palavra é usada de forma descuidada como marcadora/limitadora de identidades, mais ela se torna vaga e, assim, indefinida. Ou seja, mais distante fica um sentido preciso daquilo que se busca definir.
Vejamos a palavra-muleta “intelectual”. O termo caiu no gosto popular e se desgastou. E, com essa acepção, já não expressa fatos nem limita com precisão sentidos: tornou-se um vocábulo carregado de lugares-comuns, clichês e estereótipos reducionistas (como é a maioria deles). Todos bem distantes do termo original.
Segundo um significado difundido pelos quatro cantos do mundo, seja em que idioma for, o conceito em questão é calcado, como veremos, em ideias feitas, preconceitos (não necessariamente pejorativos, notem bem) e estereótipos, fato esse superdimensionado por filmes, comerciais, novelas, entre outros “difusores” conceituais.
O típico “intelectual” seria, de acordo com esse uso gasto e esvaziado de verdadeiro sentido, uma pessoa com “ares de inteligente”, “com cara de CDF”, “com ‘jeito’ de culto”, “super estudado”, “fino”, muito provavelmente “viajado”, “de gosto ‘podre’ de chique”, “muito bem articulado”, “moderninho”, “de gostos refinados”, “com aqueles óculos e ar compenetrado”, “transpirando cultura” e, claro, um “tantico avesso a badalações”.
Um sentido almejado pois supostamente concederia um “status”. Qual? O de INTELECTUAL: uma sumidade no quesito Q.I. Um sábio que se destacaria da multidão da ralé humana.
Como podemos constatar numa consulta a um dicionário, no caso, ao Houaiss, as definições:
Acepções
■ adjetivo de dois gêneros
1 relativo ao intelecto; mental, espiritual
Ex.: esforço i.
2 relativo ao exercício do intelecto ou que o requeira; em que a inteligência ou o raciocínio desempenham papel preponderante ou excessivo; cerebral, racional
Ex.: <dotes i.> <trabalho i.>
3 típico, próprio de intelectuais
Ex.: conversa i.
■ adjetivo e substantivo de dois gêneros (sXIV)
4 que ou aquele que vive predominantemente do intelecto, dedicando-se a atividades que requerem um emprego intelectual considerável
Ex.: <trabalhador i.> <alguns i. admitem não ter senso muito prático>
5 que ou aquele que demonstra gosto e interesse pronunciados pelas coisas da cultura, da literatura, das artes etc.
Ex.: é filho de (pais) i. e desde cedo conviveu com livros
6 que ou aquele que domina um campo de conhecimento intelectual ou que tem muita cultura geral; erudito, pensador, sábio
Ex.: manifesto dos i. do país contra a tortura
… não usam nenhum desses estereótipos, daqueles “pré-conceitos” acima mencionados.
Quem se considera intelectual mesmo não declara sua condição por aí; não procura ou depende da chancela de quem quer que seja para ser o que é; não lança mão daquelas exterioridades superficiais para ser um “intelectual”.
Vejam: uma pessoa pode não apresentar nenhum daqueles estereótipos e, mesmo assim, ter um interesse por artes, cultura, assuntos mais elaborados de um ponto de vista conceitual etc.
“Ela tem uma cara de secretária“. “Nossa, ele tem um jeitão de médico, não tem?“. “Uau, a nova namorada do sortudo tem cara de atriz pornô“. “Puxa, seu pai tem cara de estivador“. “O presidente da Borúndia do Norte tem um quê de intelectual que a maioria das mulheres acha irresistível“.
Os exemplos poderiam continuar numa longa lista. Poupemos o leitor de tal desfile de idiotices…
Certa vez, alguém me disse “que ainda seria um INTELECTUAL“. Vejam: ele não disse que se esforçaria por ter/manter o interesse (se é que tivesse mesmo) pelo conhecimento, aquela chama constante que nos move a “fuçar” em tudo que desafie nosso intelecto e nos proporcione um prazer de valor incalculável. Não, nada disso. Sua meta era “se tornar um intelectual“, já antevendo o prazer que teria da posse de tal “honraria”. Foi uma das coisas mais tolas que já me disseram.
Sem dúvida, aquele “intelectual em construção” faria melhor se se assumisse como ser racional, que pondera e analisa os fenômenos deste mundo. Coisa que qualquer um de nós, havendo esforço, pode fazer ao se adquirir os instrumentos necessários para tal: curiosidade, humildade, busca constante pelo saber e, claro, asco por “construções sociais prefabricadas“: os execráveis estereótipos, que não exige de nós nada além de uma deliciosa aceitação passiva (E, claro, sem ter necessariamente “cara de intelectual”. Sem óculos de tartaruga, por favor!).
Ampliando a questão: o que somos é determinado de dentro para fora. Não são as exterioridades (meras construções apriorísticas, simples convenções baseadas em preconceitos) que nos determinam, que nos caracterizam enquanto seres individuais.

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