Uma impossibilidade ontológica.

[Texto com as devidas correções]                          

Divagações metafórico-filosóficas de Malvina, uma senhora insone. Mas quem quer saber disso?

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- Velho, tá acordado?
- …
- Tá?
- Hum?
- Tá me ouvindo?
- Ahn?
- Escuta.
- Ah…
- Espia as estrelas no céu, velho.
- Ah, o quê?
- Não, abre os olhos, vamos. Dá uma olhada nas estrelas que Deus fez.
- Ah, Malvina… Que horas são?
- Homem, não é nem uma hora ainda. Olha que noite bonita, dá até pra ficar com a janela aberta. Essa brisa boa… As estrelas nos espiando…
- Tá, diga.
- Essas estrelas…
- O que tem elas?
- Eu tava aqui pensando…
- …
- … pois elas, todas juntinhas, pertinho uma das outras, tudo brilhando certinho, nenhuma querendo roubar o brilho da outra, nenhuma querendo ser mais do que a outra. Parece até uma orquestra afinadinha. Sinfonia, aquelas coisas…
- E…?
- Homem, larga mão de ser insensível!
- O que eu fiz?
- Tenta entender o que tô tentando te passar.
- Sim, percebi que você tá falando de estrelas e de sinfonia. Me mata mas não sei mesmo o que tenho a ver com isso. Ainda numa hora dessas!
- Criatura! Deixa de ser tonto! Chegou nessa idade pra isso? Eu tô querendo dizer o seguinte, escuta.
- Então diga que eu quero dormir, não repara. Amanhã cedo tenho médico, mulher. Tô caindo de so…
- Se gente fosse que nem estrela… Se não tivesse todo esse povão no mundo todo neste instante querendo ser mais do que o outro, pegar o lugar do outro, aparecer mais do que outro… O mundo seria tão bom! Tá entendendo?
- Tô começando.
- Ah, seria uma maravilha, Afonso. Uma maravilha. Lá elas ficam, brilhando no céu escuro, cada uma na sua, tudo ordeira, tudo na ordem de Deus-Pai. Cada uma respeitando sua parte, se contentando com seu pedacinho de céu, sua luz pisca-pisca. E tem espaço pra todas! Se gente fosse assim… O mundo seria tão bom! Tão bom. Mas é tudo uma sem-vergonhice só, Afonso. Tem gente que tenta ser, veja só, “estrela”! E são justamente os piores! Tudo uma cambada de egoísta! Um querendo mais que o outro. Cada vez mais. Nenhum se contentando com nada, querendo sempre aparecer mais do que outro! Cada um só pensando no próprio quinhão! Até que um dia tudo isso vai estourar de vez, Afonso. Vai por mim. Estoura sim, arrebenta tudo. Você tá me ouvindo?
- …
- Me ouve, velho? Afonso?
- …
- Afonso, pois fique sabendo que se sua luz se apagasse agora ninguém daria por falta dela. Ninguém! Que nem esse abajur que apago agora. Dorme então, é a única coisa que você sabe fazer mesmo. Péssimos sonhos, Afonso!

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