Espinosa: um filósofo apaixonante.

Filósofo holandês do século XVIII, a descoberta de suas ideias atuais causa muita surpresa nestes tempos modernos. Por intermédio de Ollivier Pourriol, em seu “Cinefilô”, estou descobrindo encantado aquele pensador ainda tão desconhecido de muita gente. Suas ideias e concepções filosóficas são altamente apaixonantes. Ele que discorreu tanto sobre as “paixões” e a questão da liberdade. Ainda quero nessas férias que estão chegando, ou até o fim deste ano, ler seu livro “Ética”. Enquanto isso, vou buscando em meus livros de filosofia, entre outras fontes, informações (tudo que posso!) sobre sua vida, obra e pensamento.
Aqui estão vídeos sobre Baruch de Espinosa. O primeiro é de uma aula universitária, (não consegui descobrir o nome do ótimo professor) sobre a questão da liberdade e do conhecimento na filosofia do holandês. O segundo é uma recriação da vida e da atitude política de um pensador que passou a vida polindo lentes. Bem sintomático: é essa a exata sensação que temos ao travar conhecimento com seu pensamento. A de que com ele podemos nos desvencilhar de (e superar) ideias feitas, falsas certezas e todo um sem-número de coisas que nos impedem de ter uma visão mais apurada da vida e seus desafios.

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“Yes, I’m a great pretender…”

Atenção! Isso não é conversa mole de ressentido. Não mesmo. Há muito eu queria escrever sobre o que está nas linhas abaixo. Talvez por influência dos “Concertos de Brandenburgo“, de Bach, que passei o dia ouvindo, a verdade é que estou prestes a rabiscar alguma coisa sobre mim mesmo (vide o post abaixo para saber o porquê da relação Bach/idéias). Já que este blog também é um diário muito do incompetente, ainda assim é meu. Daqui a cinquenta anos, quando eu estiver nos cueiros novamente, quem sabe não passe aqui e, caquético, mas ainda assim emotivo, não lembre com saudades o cara tão sem graça que fui…
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Sei que não sou um sujeito lá muito convencional. Mas nenhum Michael Jackson, claro. Fiquem tranquilos.
Extremamente tímido entre gente que não conheço, muitas vezes avesso a falar muito, outras um pouco expansivo; em certas horas “na minha”; em outras, gregário como um comerciante na CEAGESP (gostaram do símile altamente literário? Tenho mais deles, tá?) entre outros traços psicóticos, digo, normaizinhos.
Bem, falemos sério. Se tem uma verdade sobre mim é essa: muita gente ( e o “muita” faz toda diferença: se eu usasse “todo mundo” ou “todos” estaria extrapolando a tênue fronteira entre a normalidade e a paranóia) superficial que adora se prender a estereótipos percebe: eu incomodo esse povo.
Bem, sou um cara que não é afetado por pompas e circunstâncias, títulos honoríficos, nobiliárquicos etc.
Já percebi que quando começo a falar algo, muita gente me acha um pedante, ou um cara que quer se mostrar. O que dá na mesma, claro. Como percebo isso? Simples: olhares enviesados; olhares em busca de outros olhares; mas, acima de tudo, é a reação verbal da pessoa: uma certa pressa e superficialidade no falar, como se o assunto ali fosse uma “batata-quente”; uma certa necessidade, em outro momento, de querer suplantar aquilo que eu dissera. Lamentável…
Na verdade, por meios tortuosos, consigo, pela atitude de pessoas que assim me julgam, ter delas uma visão certeira.
(Importante: friso bem que não é todo mundo com quem falo assim, desse modo. Já travei conhecimento com gente que procura conversar de igual para igual comigo, nem vê como uma afronta uma observação menos superficial que eu faça, um ângulo menos prosaico de se enxergar as coisas etc. E quando aquela pessoa diz algo também menos superficial, procura enxergar as coisas de forma menos estreita, etc, eu também não vejo motivo para tomar aquilo como uma afronta. Simples assim. Pelo contrário: tenho prazer em aprender com o que acabou de me ser dito).
Voltando aos meus “detratores”. Ledo engano, o deles (Relativizemos: na atitude humana, entra sempre uma certa vaidade, afinal, somos a projeção de nós mesmos naquilo que os outros captam da gente). Aquelas pessoas têm uma visão estreita demais dos outros. Já conheci, repito, gente extremamente interessante e inteligente que não o olha como se você fosse um marciano só porque você acabou de falar sobre Nietzsche; ou comentou sobre algum outro pensador; ou fez uma analogia com uma certa personagem literária, ou do cinema, por exemplo; ou usou uma palavra menos gasta, ainda que não rebuscada. Tudo, claro, com um senso de oportunidade. De repente, só para competir com você, aquele sujeito diz algo (finge) sobre o que afirmou um famoso filósofo (é patente a “forçação de barra”) ou que fez tal e tal curso (como se não houvesse outras formas de aprendizado) ou que “minha mãe é doutora”, ou “Ah, meu pai é um gênio!” (argh! falado por uma criança até que vai. Mas por um adulto… E outra: isso tem de ser dito da forma mais blasé possível. Dessa forma, o efeito será acachapante, pensa-se) ou ainda que… Ah, são tantas coisas… Isso já me aborreceu bastante. Hoje não mais. Me resignei com o fato de que vou sempre encontrar esse tipo de gente. Bem diferente daquele outro tipo com o qual é tão prazeroso estabelecer um contato: gente que não diz lugares-comuns e não se prende por exterioridades. Gente que não quer a todo momento te impressionar com realizações de terceiros. Gente que sabe que um diploma, no mundo competitivo do mercado de trabalho, é relevante. Mas que, no mundo das idéias que há nas obras artísticas, da cultura, do conhecimento não-instrumental, não é o diploma que vale: é a capacidade de relacionar conceitos; de fazer pontes entre assuntos só aparentemente desconexos; é a busca pelo saber que abre portas para outros saberes, através de muita leitura, numa rede infinita feita de curiosidade, de não-conformismo com o que vem muito fácil; um mundo franqueado a todos que dispoem de uma massa cinzenta e queiram empregá-la apropriadamente; coisa de gente que não se apega a estereótipos bestas e quadrados. Como todos os estereótipos.
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A tempo. Se tem uma coisa que me fascina é me apropriar da cultura (literatura, filosofia, cinema, artes em geral), “deglutir” tudo, tornar aquilo “meu” e usar o produto dessa “deglutição” de forma mais natural possível, até mesmo no meu dia-a-dia, fazendo os mais improváveis “links” em termos de assuntos. Sou fascinado por essa “apropriação” criativa!
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Acontece que não costumo baixar minha cabeça para ninguém, nem me deixo impressionar por gente despeitada. E nem fico mais “grilado” com aqueles que se espantam com meu jeito (Ah, nem tampouco fico envergonhado de usar a expressão meio démodé “grilado”…).
Meu jeito: me interessar por vários assuntos, ter uma curiosidade inesgotável para aprender certos assuntos que me encantam etc. E nem por isso querer saber tudo: não cairia num erro tão crasso. O que me move justamente é a certeza de que preciso saber mais ainda sobre uma trezentas mil coisas ainda enquanto por aqui estiver.
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Voltando. É como se eu tivesse que sempre “pisar em ovos”: se digo algo “suspeito”, já desperto olhares cismados de gente tacanha que acha que estou querendo me mostrar quando discorro sobre assuntos variados, fruto de leituras, de reflexões. Não que eu seja um falador. Longe disso. Mas as coisas que me empolgam costumo sobre elas falar com convicção e energia. Aí que as pessoas fazem uma “leitura” errada. Elas interpretam essa convicção e energia com arrogância!
Aliás, as pessoas neste país geralmente têm uma fixação pelo “grau de doutor”, de alguma coisa que comprove que alguém, para falar de um filósofo, de um cineasta, de um escritor, de um assunto da geopolítica, por exemplo, NECESSARIAMENTE tem que ter um atestado, algo que comprove que ali estamos diante de uma sumidade em tal assunto. Daí, só daí é franqueada a porta para aquele sujeito poder falar sobre o que quiser…
Não sou contra a formação intelectual, já disse isso aqui neste blog. Obviamente que não sou. E manda a sinceridade dizer o seguinte: fiz até o segundo ano de Letras, além de ter feito alguns meses de Jornalismo. Nem por isso um dia deixo de querer voltar à faculdade. Nem por isso minha liberdade intelectual é tolhida por quem quer que seja. Não busco saber mais do que quem estudou um dado assunto numa faculdade. Achar que o saber é uma espécie de contêiner que deve ser abarrotado de forma atabalhoada é de uma cegueira e supercialidade sem tamanho. Mas eis o ponto crucial: isso – o fato de não me ver como uma forma de mártir dos pobres autodidatas sem eira nem beira, longe disso! – não é motivo algum para que eu não saia do meu conforto e não busque, a duras penas, como sempre fiz, ler, me informar, correr atrás de todos aqueles assuntos que tanto me atraem. Sem ter que buscar o aval de quem quer que seja. Sem me sentir inferiorizado, tampouco.
E com aquela gente para quem tanto incômodo eu causo – não que aquelas pessoas percam o sono por mim nem tentem se matar por minha culpa, só pudera! – já tenho um novo approach: finjo-me agora de morto. Perto delas eu me encolho, não como subserviência, mas como tática: ao fazer isso, passo a agir, ao menos num nível superficial, do jeito que elas querem. Dessa forma, me regozijo por dentro: ao constatar o quanto “oca” é aquela pessoa, eu passo a não ter nenhum prazer na sua companhia. Elas vêem em mim a imagem delas refletida. E nem percebem.
Vou dormir. Boa noite, seu João Sebastião Bach. Obrigado pela força!
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Ao som de Bach: Concerto de Brandenburgo nº5, em ré maior, índice BWV 1050, movimento Affettuoso.

In Bach I trust

Que música é essa que me entra pelos poros, invade minha corrente sanguínea e chega ao meu cérebro com a potência de mil megatons, onde minhas pobres células cerebrais, indefesas, apenas vêem tudo ali se transformar? Que música é essa que me leva a sonhar acordado, a ver o que não pode ser visto, a sentir o que está além de qualquer intelecção ou explicação que se queira cietífica? Que música é essa que me faz visualizar coisas que minha mente passa a criar ali, no ato? Que bendito som é esse que traz uma onda de energia, um não sei o quê de auto-satisfação, de potência até então latente? De quem são essas melodias, esses contrapontos, essa escala caleidoscópica de matizes sonoros os mais diversos mas que, não obstante toda a “cacofonia” ali, é de uma ordem mística, sobrenatural, transcendental, seja o que for?
É Bach, é ele!
São seus Concertos de Brandenburgo. É o que ouço neste instante e me fazem criar este texto que vai assim mesmo, sem revisão e que com certeza está muito, mas muito aquém da sensação de se ouvir um gênio que não pertence a nenhum credo, nenhuma raça, a não ser a humana e que, 259 anos após, está vivo, aqui mesmo neste meu computador, nestes fones de ouvido.
In Bach I trust!

Michael Jackson

“Thriller”, “Beat It” e “Billie Jean”: eu era pequeno para poder entender a importância de tudo aquilo. Demorei pra sacar a coisa. Aqueles videoclipes hipnotizantes em nada lembram o cara que ontem faleceu. Na verdade, há muito Michael Jackson, o artista, já não existia. Depois do álbum “Bad”, de 1987, nada mais ele criou à altura. Daí em diante, foi apenas um espectro do que fora. O resto foi um longo processo de queda.
Os talentos gigantescos cobram um preço não menos gigante. Aí entra o aspecto humano. Só os muito bons mesmo conseguem se manter criativos.

Ode ao efêmero.

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Do dicionário Houaiss:

Etimologia: gr. ephêmeros,os,on ‘que dura um dia’, pelo lat. ephemèron,i ‘lírio branco, silvestre; animal que nasce e morre no mesmo dia’; nas acp. de angios, pelo lat.cien. gên. Ephemerum (1754); f.hist. 1712 ephemero

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Ainda bem que há o efêmero.

Fôssemos eternos, a certeza do fruir contínuo e do sofrer sem fim seria uma espécie de buraco negro a sugar toda nossa energia, nossa psique. A planificação de tudo, nem um ponto alto, nem tampouco declives, uma paisagem  que se tornaria inóspita de tanto tédio: seria o que teríamos.

Os vaivéns da vida só nos fortalecem. É aquilo que nos sustenta, e até mesmo nos derruba às vezes, mas, paradoxalmente, serve como uma forma de nos proporcionar momentos de “enfrentamento”  individual: aquela hora em que constatamos o quanto temos que nos livrar de padrões de conduta e de hábitos que vêm da ilusão de perenidade, de continuidade. É quando o auto-engano se despedaça, perde terreno:  uma forma de catarse, como queiram.  Guardadas as devidas proporções, não é nada não é nada equivale a ler Sófocles! Ou os estóicos.  

Naquela montanha-russa que tanto nos ajuda a nos constituir, na interiorização das vivências mais diversas (e no fundo todas elas têm uma ressonância considerável, por mais que achemos erroneamente que nem tudo nos “toque” num primeiro momento), temos uma oportunidade valiosa para corrigir planos de vôo, revermos comportamentos, redimensionarmos o próprio “eu” em contato com aquelas coisas que nos afetam e sobretudo podermos nos desvencilhar da falsa ideia de que o gozo contínuo seria o Santo Graal do ser humano. Ainda há quem duvide do valor de tudo isso?

Antes o real efêmero que falsas eternidades.

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Atenção, si vous plaît! Este texto, que não é de autoajuda, pode ser resultado dos prenúncios de um resfriado (ou gripe? ou peste bubônica? ou toxoplasmose? ou “só porque vos vi, minha Senhora?“, ou aquela pizza que não me caiu bem? ou seja lá o que for!).
Observações: 1º) que não seja o vírus da gripe suína. 2º) que seja um “inofensivo” resfriado muito do efêmero!
O resto é espirro.

Outro texto para o concurso da “piauí” (com minúscula!)

 NOTA DO AUTOR: ATENÇÃO, TALIBÃS DA INTERPRETAÇÃO: POR FAVOR, FAÇAM UM ESFORÇO PARA LER ESTE TEXTO (COMO QUASE TUDO AQUI NESTE BLOG) COM OS ÓCULOS DA IRONIA.

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NOTAS DE UM PERDEDOR

  Do livro de moralidades: contra-exemplos do bom proceder que devemos incutir em nossos jovens para que eles não façam o mesmo e possam trilhar o caminho da Luz e da Sabedoria.

    Eu gostaria que meu pai ou minha mãe, ou os dois, já que ambos tinham a mesmíssima responsabilidade, houvessem refletido sobre o que estavam fazendo quando decidiram me conceber. Sim, eu os culpo por tudo. Se naquela fração de segundo que antecedeu a minha concepção eles tivessem parado com tudo… Seria eu agora, neste instante, uma não-coisa. Antes isso do que a vida de desgostos e infelicidade que tive. Vejam vocês, tirem suas conclusões.

    Tudo começou quando, muito pequeno, caí do berço. Fraturei a cabeça. Dizem que só não virei um vegetal por puro acaso. Isso me deixou levemente retardado. Mas só levemente, pois não me impediu de saber ser infeliz. Que talento!

    Com os anos, até que recobrei o tempo perdido. Lá fui eu insistindo na farsa da existência. Meus pais negaram a mim o que concederam a meus não-irmãos: sou filho único. Aos oito, fiquei órfão: lá se foram os meus progenitores num desastre de trem. Fui para a rua. Sem parentes, vaguei pelo mundo. Conheci alguém que me resgatou e me deu um lar. E outro que me deu filhos, dali a alguns anos. E uma família. Estudei um tanto para ter uma profissão. Passados alguns anos, minha esposa e filhos morreram todos em um acidente de carro. De novo fiquei só. De novo arrasado. Um trapo humano.

    Casei novamente, com uma colega de trabalho. Quase tivemos uma filha: que não chegou a nascer pela simples razão de que a mãe, numa complicação do parto, foi mais ligeira e partiu antes.

    Entrei na de beber: lá veio a cirrose. Perdi emprego. Dos poucos amigos, a maioria se foi desta pra outra melhor. Graças a um golpe de uma quadrilha especializada em Previdência Social, me levaram tudo. Até agora espero por justiça. Ganhei um câncer de esôfago. Fui despejado. Mendiguei. Me arrastei pelos becos. Acho que tenho sífilis. Meus rins estão em petição de miséria. Meus dentes também não podem dar o ar da graça simplesmente porque já não existem. Tenho reumatismo até na alma. Hoje, aqui num abrigo para os sem-nada, com um fígado em frangalhos, mal tenho força pra escrever estas linhas. Daqui vejo um casal de índios maltrapilhos que veio de longe e é assim recepcionado pela bondade do homem branco e civilizado e consegue um teto num lugar decadente, mal-cheiroso e com camas sujas e lençóis há muito tempo sem ver água. Sem falar da farsa que chamam de comida. Nem tampouco dos funcionários que, quando não estão, pelos cantos, nos espancando a qualquer sinal de algum mal-entendido de nossa parte, estão se pegando lá na cozinha, em cima das mesas do refeitório, de madrugada, quem sabe gerando outros que nem eu. Não, eu não creio em livre-arbítrio nem nada dessas baboseiras. É época de Natal. Fizeram uma árvore bem da cafajeste, que mais parece um troço obsceno. As velhinhas ficam olhando ali e dão risadinhas escrotas.

    Uma roda de desgraças. Este velho aqui só crê que tudo poderia ser evitado lá atrás se meus pais, aqueles paspalhos…

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Texto com o qual participei do concurso literário da revista “piauí” e publicado no site daquela publicação em fevereiro deste ano. A frase em negrito, de autoria de Laurence Sterne, em A Vida e as Opiniões de Tristram Shandy, foi o mote a partir do qual o texto tinha que se desenvolver.

Boa noite, pai.

  Querido pai: você me perguntou recentemente por que eu afirmo ter medo de você.
  Vou me sentar aqui do seu lado e explicar tudinho. Prometo ser breve.
  Sabe, desde muito pequeno aprendi a conviver com este sentimento relacionado a sua pessoa. Mas, apesar desse aprendizado de longos anos, posso lhe dizer que sim, tal medo primário se transformou em outra forma de medo e só aumenta a cada dia. Já faz muito tempo que me desvinculei do Complexo de Édipo. Faz tempo também que não te vejo mais como um “concorrente”. De modelo no qual deveria eu me inspirar a essa figura aterrorizante de hoje, muita coisa já passou. Anos de sermões, de surras, de “pitos” homéricos, tudo isso só acentuou a sensação de medo, compreende? Mas não é mais ao medo físico, o medo da dor corporal, a que me refiro. Não. Mas ao medo, em suma, de que eu, por conviver todos estes anos contigo, me transforme no mesmo pulha, no mesmo asqueroso ser que você, estimado pai. Sua presença no mundo, miasma a soltar as mais fétidas e repugnantes emanações, apenas me enche de receio de me achar um belo dia uma cópia sua, sabe? E quem me diria que já não me tornei isso? Meu medo é esse: virar uma versão sua, piorada. É o risco iminente de cometer as mesmas merdas que você cometeu. As mesmas canalhices. Os mesmíssimos crimes. E sobretudo de terminar assim, nesse estado lastimável em que você se encontra.
   Mas não sou nenhum desmiolado: o que temo é bem possível de vir a acontecer. Tem casos e casos por aí que não me deixam mentir. Não estou exagerando, não!
   Pai do meu coração – porque no coração não tem só coisa boa, não é? -, só existe apenas uma maneira de abortar essa catástrofe. Sei que aqui, nesta cama, inválido, apenas com estes olhos idiotas a fitar o mundo, só se comunicando com esse último por meio desses sinais que apenas as enfermeiras entendem – e eu vi seus olhos nos seios daquela morena, a do turno da manhã -, você já não oferece riscos a quem quer que seja. Pelo contrário: a muitos você só causa a mais profunda pena.
   Mas não a mim! Não mesmo! Enquanto vivo você for, sempre terei que conviver com sua presença que a mim só traz lembranças desagradáveis, entende? E é como se eu te visse e na mesma hora visse o que me aguarda. Tente me entender ao menos uma vez na vida!
   Por isso, meu velho progenitor, causa de muitas das minhas desgraças, é com muito, mas muito pesar que eu – sim, já adivinhou, não? Pode me olhar espantado, afinal você me ouve e entende muito bem, não? –, pra não te ter mais como um fantasma a me rondar, um lembrete físico do que posso me tornar, é por isso que vou desligar essa maldição de aparelho que te mantém vivo. É doloroso, eu sei. Mas muito menos do que o fardo de te ver e automaticamente me lembrar de tudo que você fez ou deixou de fazer neste mundo. E correr o risco de eu repetir, por imitação, tudo isso!
   Durma bem, velho. Espero ter respondido tua pergunta. É a minha sensação de paz interior, acima de tudo, o que busco. Você é um empecilho, uma pedra e tanto no meu caminho.
   Ah, sim. Vai ter só uma escuridãozinha. E um silêncio bom. Até que estou sendo camarada, não?
   Boa noite, pai.

 

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Texto com o qual participei do concurso literário da revista “piauí” (com minúscula) e publicado no site daquela publicação em abril deste ano. A frase em negrito, de autoria de Franz Kafka, em Carta ao Pai, foi o mote a partir do qual o texto tinha que se desenvolver.

Vidas Cruzadas?

   Ela fechou a porta com vagar extremo e se afastou, furtiva, como quem abandona um doente que acaba de adormecer à meia-noite.        

   Livre de qualquer comiseração, desimpedida para fazer o que ela mal conseguia crer que iria fazer e também no que tinha acabado de realizar, tomou o rumo da Estação Edgar Lynch. O sol ia embora mais uma vez. A noite dava seus primeiros sinais. Com passo firme, passando por pessoas que saíam do trabalho às pressas, mendigos em bancos de praça, pombos aos magotes, ela seguia apenas o rumo de sua idéia fixa: livrar-se daquilo. O quanto antes. Sem peso na consciência. Nessa espécie de antecipação do prazer, na qual se via mais “leve, livre e solta”, ela se concentrava apenas nos aspectos positivos, ou, pelo menos, naquilo que pensava que seriam as coisas depois do grande ato. “Retomarei as rédeas da minha vida!”.                      

   Chegando à estação, foi logo passando pelo guichê. O trem não demorou. Ao entrar, foi se sentando. Com a cabeça apoiada no encosto, fechou os olhos. De novo ela antevia tudo: os detalhes mais irrisórios, a execução do ato, o tempo que levaria. Quando deu por si, já estava próximo o seu ponto de parada. A voz metálica anunciou seu destino.

   Desceu. Pegou a escada-rolante. Fora, ainda havia uma tênue luz solar. Na semi-escuridão, ela viu os letreiros. Instintivamente levou as mãos até a bolsa. Apressou-se. Esbarrou num homem. Ouviu um assobio.

   Chegando à marquise do prédio com aspecto decadente, foi logo subindo as escadas. As sombras a envolveram. Segurando no corrimão, subia. Chegara. Apartamento 19. Bateu na porta. Uma viva-alma no corredor. Alguém atendeu.

    Ela entrou. A porta se fechou. Um ruído seco, um estampido, mal foi ouvido do lado de fora. Gritos abafados. Choro. Palavrões.

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Notícia de jornal: A polícia ainda não tem resposta para o duplo assassinato ocorrido quase simultaneamente ontem. Duas mulheres de aparentemente 30 anos foram encontradas baleadas e mortas em diferentes regiões da cidade. Segundo investigadores, o que mais chama a atenção é a extrema semelhança entre as vítimas e a principal suspeita. Ainda não se sabe se elas se conheciam. Uma mulher “muito atraente”, também parecida com a segunda mulher morta, nas palavras de um transeunte, morador daquela região – um senhor que trabalha na Pastoral dos Bons Costumes e que prefere não ter seu nome identificado –, foi vista andando às pressas nas imediações do apartamento da segunda vítima. “Eu cheguei a esbarrar nela. Mas logo tomei meu rumo”. Na cena do crime, os policiais encontraram um bilhete escrito às pressas com os seguintes dizeres: “SEI QUE VOCÊS USURPARAM A MINHA VIDA”.  “Não temos certeza se elas se conheciam, as vitimas. Quanto à terceira mulher, muito parecida com as duas, é quem mais nos intriga. Segundo testemunhas, também foi vista mais de uma vez perto da residência das vítimas. Parece que se fazia passar por conselheira espiritual ou algo do tipo. O que teria feito com que ganhasse a confiança de ambas”, disse o delegado.

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Texto com o qual participei do concurso literário da revista “piauí” (com minúscula) e publicado no site daquela publicação em março deste ano. A frase em negrito, de autoria de Antonio Muñoz Molina, em Beatus Ille, foi o mote a partir do qual o texto tinha que se desenvolver.

Que diria? Um blog em favor da vida! (Era só o que me faltava)

Volta e meia me divirto com as frases por causa das quais as pessoas vêm parar neste blog. Já teve gente que veio aqui para, segurem o riso aí!,  ”Aprender a viver”, “Como analizar (sic!) um conto Machado de Assis”, “Bergman Persona Filmes Parados”, “Como não ser enganado pelos cafajestes de nossos políticos”, “Conhaque com cocaína”, “O que diabos é capenga” e por aí vai. Só para ficar no que me mostra hoje o WordPress.

Uma fresquinha: “Como faço para sair dessa porra de vida“. Bem, se você quiser mesmo saber como sair dessa fantástica e magnífica experiência chamada “porra de vida”, chegou ao lugar errado! Pois se não vejamos: se você ler estes textos meia-boca religiosamente, logo, garanto!, você irá se deparar com o seguinte questionamento: “Que merda tem na cabeça um cara pra escrever coisas tão desgraçadas de ruins, tediosas e vazias? Eu aqui, querendo me matar, dar um fim em tudo, e outros vivendo num nível mais lamentável que o meu, desperdiçando o tempo, que é tão escasso! Como sou ingrato com você, Vida! Ah, EU QUERO CONTINUAR VIVO!

De onde se conclui que este é um blog, por vias tortas, em prol da vida, contra o suicídio, definitivamente incompatível com o “impulso de morte”.

Vinde todos aqueles que estão desesperançosos que este blog irá vos restituir a coragem para encarar os desafios do viver! Ah, a generosidade da vida…

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Louvar a grandeza da vida: nunca foi outra a razão de ser deste blog. Quer dizer, acho.

 

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Ao som de Thelonious Monk, Epistrophy

A Mosca e o Presidente (Infelizmente, uma história verídica).

Baseado em notícia do UOL News: Obama mata mosca durante entrevista

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Naquele dia, comum como os outros, a Mosca saiu de casa e deixou suas mosquinhas vendo tevê: ia buscar algo para alimentar sua cria. O marido, esse ninguém sabia por onde andava com suas asas: diziam que fora visto com uma varejeira ainda menor de idade. Mas a Mosca, digna e lutadora que era, mesmo assim procurava bater suas asinhas: a vida não era fácil!

Era para ela se tornar a mais famosa das moscas que jamais houve. E de fato se tornou.  Só que sua fama fora menos rápida que as ágeis mãos do homem mais poderoso do planeta. Errando pelo vasto mundo humano, a Mosca fora parar justamente num estúdio de tevê onde estava o presidente com o qual ela sonhara por tanto tempo, chegando mesmo a pedir votos para ele no mundo dos insetos. Cruel e desalmado destino!: ao se aproximar, não sem se achar em um sonho, do seu tão estimado presidente, ela tentou, em vão, dizer algo (as moscas expressam suas ideias pelo bater das asas, linguagem totalmente inacessível aos humanos: sim, até o mais fotografado homem do mundo é humano) ao primeiro mandatário negro do país do jazz e eis que (ó, como nos dói relatar isso!), irritado, ele tentou, golpes atrás de golpes, acertar a pobre Mosca. Ela, atônita, ainda conseguiu se desviar deles mas eis que o derradeiro, aquele que abreviou seus dias na terra, chegou: imprensada por um par de gigantes mãos, asfixiada, a morte lhe chegou instantânea. Seu corpo despencou aos pés do presidente-assassino (sim, ele nunca poderá negar que jamais matou uma indefesa mosca: a imagem estará lá para a posteridade) que, com um sorriso insano de matador nada arrependido, vendo prazer e orgulho em seu gesto, ainda pediu para filmarem e exibir para o planeta aquela que só queria lhe fazer um agrado e também reivindicar, como representante deles, uma vida melhor e um futuro menos sombrio para todos os de sua espécie. Esse foi o triste fim de uma mosca de fama fugaz. Que seus momentos finais de vida sirvam como exemplo para meditarmos na transitoriedade de tudo. Eis a cena de uma tristeza atroz, pungente, desoladora. Se você for corajoso o suficiente, assista. Não é recomendável para pessoas facilmente impressionáveis.

Veja aqui.

Cinema e filosofia….

Sou apaixonado por tal dobradinha. Estou lendo com prazer redobrado “Cinefilô”, do Ollivier Pourriol. Aliás, ele estará na FLIP, em julho. Pena que não estarei lá…

Quanta coisa bacana no livro! Descartes e Spinoza, quem diria, têm mais a ver com X-Men e Blade Runner do que supõe nossa indigente crítica cinematográfica…

Em breve faço um apanhado daquilo que mais me interessou, quer dizer, quase tudo.

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Deu pane no Twitter!

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Ao som de Charlie Parker, Parker’s Mood

Nobody deserves it!

Tem gente que parece atrair certas coisas. Eu, por exemplo, tirando a superstição toda, sou um desses pobres diabos nos quais os acasos (ok, não existe acaso: o que há mesmo são probabilidades imprevistas, digamos assim) da vida vira e mexe pregam uma bela de uma peça. Entrando no meu msn antigo, o qual fazia milênios que eu não abria, encontrei alguém justamente que não gostaria de encontrar, não por odiar essa pessoa ou coisa parecida. Mas é alguém que tem lá sua vida, assim como eu tenho a minha. Vestígios de um passado, capisce? E a tal pessoa foi logo me dando um tchau e tascando alguns lugares-comuns de uma superficialidade beirando a hipocrisia, que lá fiquei eu com cara de tacho, sem poder esboçar nenhuma reação. Ou seja: ficou aquela impressão – que sempre me persegue! – de estar atrás de alguém! Gee! Eu mereço mesmo!

E eu jurava que havia excluído a pessoa há priscas eras…

Pensata 2 (com uma pequena correção).

Ideias esparsas.

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O desejo humano de transcender a própria limitação, de ir sempre além do que as circunstâncias “determinam”, está na raiz da arte. Ou da religiosidade.

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Querer sempre ir mais distante do que se pode ir, não se contentar com o que “se é”, eis o que explica a necessidade da arte. Somos todos aparelhados -, digamos assim, somos, mais precisamente, intrinsecamente receptivos a ela – para fruir a arte. O  problema é que para fruí-la no sentido pleno da palavra, precisamos, paradoxalmente, de um envolvimento, de uma dedicação a ela. Numa palavra: expor-se a ela. Arte é pra todos, pelos num plano teórico. Mas apenas para aqueles que não se envolvem com ela só no plano de uma reação meramente epidérmica ou a usam para autoelogio pueril… 

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O artigo do Daniel Piza ontem no Estadão (“Cultura Desbotada”) foi de uma precisão cirúrgica. Ali ele mostrou o quanto a procura por uma cultura geral hoje em dia é algo desvalorizado. Em tempos de especialistas em dados assuntos, ler os clássicos é uma coisa quase vista como fora de moda. Ele cita Bergman e Fellini, caras que tiveram um envolvimento amoroso com as artes, que justamente por serem homens em busca de um conhecimento multifacetado, tornaram-se universais.

Outro fator que emperraria essa busca generalista é o excesso de estímulos audivisuais que só tiram a possibilidade de concentração, de maturação das ideias.

Comentário pessoal: ser profundo, ou ao menos não se limitar ao nível superficial das coisas, é quase visto como coisa de seres pernósticos hoje em dia.

Ler, fugir da balbúrdia e do caos de informações de nossa época, recorrer aos grandes autores, sobretudo temas relacionados à história e, principalmente, não se ater a áreas estanques do pensamento ou da tua área de atuação, é o que de fato nos torna seres pensantes, não meros repetidores de lugares-comuns.

Voltando ao artigo do Piza. Ele discorre sobre outros temas próximos com uma pertinência incrível. Não é à toa que ele é considerado um dos maiores jornalistas culturais deste país em atividade. Sérgio Augusto é outro cujos textos leio com prazer redobrado. Minha inteligência agrade. A sua também, leitor.

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 ”Ser culto é pertencer a todos os tempos e lugares, sem deixar de pertencer a seu tempo e lugar“.
Octávio Paz
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Há certos autores cujas frases ficam em nossa cabeça e começam a gerar outras ideias. Essa do Octávio Paz, por exemplo. São verdadeiras rampas de lançamento, com perdão da péssima comparação, para outros voos conceituais.  Em filmes também gosto de pescar tais enunciados.

Em Waking Life (2001), a mais inteligente das animações que já assisti, e que aliás é filosofia pura, há, entre outras, frases assim. Cada vez que vejo esse longa, algumas me “sequestram” e me proporcionam muitos daqueles voos a que me referi acima.

Esta, por exemplo: “There’s only one instant, and it’s right now. And it’s eternity“. Caramba, Clarice Lispector assinaria isso embaixo ao retratar suas personagens em momentos de pura epifania.

Dá (muito) o que pensar…

Pensata.

Ideia para ser desenvolvida:

Se a vontade humana é infinita, e o entendimento é finito, se aquilo que desejamos pode assumir todas as formas e com a intensidade que for, e se nossa capacidade para obter o que tanto queremos é limitada, estamos, então, fadados a viver num imenso gap, num constante déficit. Para preencher essa lacuna é que se comete tudo o que há de condenável neste mundo.

Diálogos imprudentes 1.

- Amor, você me compra aquele colar?

- Compro, querida.

- E aquela jaqueta supertransada?

- Também, amore.

- E mais uma coisinha: aquele vestido Jorge Arzizzo?

- Te dou, te dou. E me diz uma coisa.

- Fale.

- E o seu coração, quando você me dá?

- Ah, isso já te dei ontem à noite, meu doce, esqueceu? Hã?

“Retrato da vida moderna em ‘meio’ ato” ou “Ágatha quer namoro”. Sério, hein?, droga!

(Um pardal perdido numa cidade grande busca refúgio nos beirais de um prédio de apartamentos. Ali ele se aconchega do frio que se instala. Deixemos a cansada ave no seu há muito procurado abrigo. Já escureceu faz um bom tempo. Por uma cortina entreaberta numa janela retangular, tem-se uma visão de uma sala de jantar. Numa mesa pequena mas aconchegante, pai, mãe e filha jantam tranquilamente. Tranquilamente?)

 - Na-mo-ra-do, pai. Namoro sério, alguém com quem ficar e pra chamar de meu, saca? Todo mundo curte o Dia dos Namorados. Shoppings todos lotados, a galera toda lá. E eu aqui! Tô me sentindo um lixo, um li-xo! Droga!

- (O pai, muito calmo e didático). A maioria das pessoas, minha filha, está presa, atada a convenções comportamentais e ideológicas. Tenta entender isso. Veja bem, esses aprisionamentos da personalidade cerceam a individualidade e a autenticidade dos seres, dos infelizes que se pautam por aquelas convenções. (Com um meio-riso no rosto) O Dia dos Namorados é apenas e tão-somente a ponta de um incomensurável iceberg

- Arnaldo, (Levemente irritada, servindo o jantar) a menina não entende esse seu jargão de professor de filosofia, quantas vezes já te falei?

- Mas, pai (Começo de choro), eu acabei de fazer 15 anos e AINDA não tenho namorado, entende? O que eu vou falar pra Amanda, pra Tuca, pra Carolzinha? Me diz! Eu não quero ficar pra titia!

- Bem, querida Ágatha da mamãe, pra isso o papai e eu vamos ter que primeiro encomendar um irmãozinho ou irmãzinha pra você, não acha?

- Não estou brincando, mãe! (Enxugando os olhos rasos). Todas minhas amigas têm 14 anos e namoram! Vocês sabem o que é isso? Não tô nem aí se isso é uma ponta do tal iceberg que o senhor diz, pai. Eu quero um namorado, me sinto uma velha! (Desabando em lágrimas. Levanta-se, deixa a mesa e sai em disparada em direção ao quarto. Os pais continuam ali. Ele, muito calmo, continua a comer. Ela, olhando para o marido com um olhar cansado e um tanto surpreso, suspira. Passa um tempo).

- Deixa, querida. Isso é uma fase. Logo ela cai na real. E a fome bate daqui a pouco, você vai ver. (Servindo-se de vinho). E outra, amor: (Irônico, piscando um olho) do jeito que ela está ficando linda, é bem capaz que este seja o último Dia dos Namorados sem um genro pra gente, não acha?

- (Ofendida, a mão parando no ar, segura uma taça vazia). Vire essa boca pra lá,  Arnaldo. Ela é uma criança ainda. Uma criança! (Agora despejando o vinho). Ainda vou dar pra ela uma barbie de despedida de infância, você vai ver! Minha bebezona namorando? É bem capaz mesmo! Só depois dos meus quarenta, Arnaldo, só depois!

- Está bem, querida. Agora vou voltar à leitura dessa monografia sobre o Jaspers, você me dá licença?

- Isso, e agora deixa cair vinho de novo no notebook, sim? (Levantando-se da mesa). E eu vou fechar aquela cortina, tá entrando um arzinho frio.

(Cortina cai. Ou melhor, cortina cerrada).

Da nossa solidão intrínseca, Dia dos Namorados e Tchaikóvsky para um possível fundo musical…

Véspera de Dia dos Namorados. A essa hora, presentes já comprados e devidamente embrulhados, cartões igualmente prontos, por este país afora muita gente só tem na cabeça uma coisa: o ser amado. Ou, vá lá, o que significa “amado” em tempos de superficialidades e intere$$e. Mas não. Não sejamos tão mesquinhos e nada… amados. Suspendemos o ceticismo por um breve instante – não mais do que 15 segundos!- e nos concentremos no seguinte: na suposta autenticidade daquilo que muitos estariam sentindo: enfim um dia para que se oficialize, se chancele, torne existente uma relação entre dois seres humanos.

 Ufa… Certo: uma vez que a muito custo a esse malabarismo conceitual nos tenhamos dedicado, passemos então para o oposto. Explico: se há aqueles que mal veem a hora de externar seus sentimentos mais sublimes para com outro alguém, há outros, não poucos, que estão, blasfêmia das blasfêmias!, sozinhos, sem ninguém, à margem de todo esse momento. Sim, eles existem! Eles e elas, claro!

Enquanto alguns desses seres inusitados – assim os chamemos carinhosamente – buscam de toda forma, até o último minuto, numa espécie de deadline dos que não se conformam em ficar sozinhos nesse dia que se aproxima, alguém, alguma coisa que se aproxime da vaga ideia – qualquer um (a) serve! – de “cara metade” -, outros, estóicos por natureza, não estão nem aí, nem lá – leia-se “motel” – para tal efeméride. Esses não pautam seus sentimentos pelo calendário, não se preocupam em estar sozinhos, em se deparar com a sua mais absoluta solidão existencial, sentimental, cósmica, seja lá o que for…

Estar só. Ser só. No fundo somos e estamos todos e todas. Com namorada (o), com noiva (o), com quem quer que seja. E estar só, estar consciente dessa condição intrínseca a nós mesmos, saber encarar essa verdade sem traumas e sem a vã ”necessidade” de ter que seguir uma mera data publicitária, sem ter que demonstrar um “sentimento” sazonal, é uma das mais sensacionais sensações. Tudo bem: há casais que não “comemoram” tal dia, obviamente. Mas mesmo esses enamorados são obrigados a, queiram ou não, “manter as aparências”.

Sim, este post é para todos aqueles que curtem, que vivenciam cada instante da sua necessária solidão. Que sabem que o destino que nos cabe viver só nos diz respeito, no fim das contas. E essa constatação não é uma ode ao mais mesquinho e reles solipsismo, à mais deslavada sensação de autossuficiência e egoísmo. Nada disso!

Quem sabe ali, onde menos se espera, ”pinte” aquela pessoa. Se surgir ou não, dediquemo-nos mesmo assim à nossa solidão. Nossa grande companheira. Sem neuras. Sem ressentimentos. Sem “falsos sentimentos” (Uma contradição em termos, tal expressão, não?).

Estamos sozinhos e desamparados frente ao destino. É assim. Sempre será. Mesmo com alguém do teu lado num jantar de gala de um dia 12 de junho qualquer.

A tempo: cada um demonstra ou não seus sentimentos, segue ou não uma data comercial, etc.  O que aqui se critica é a fogueira da inquisição a que são jogados aqueles que pensam diferente. É o tratamento dispensado àqueles e àquelas que não veem o fim do mundo em passar mais um 12/6 a sós. O espírito de manada, sejamos claros.

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Ao som de Tchaikóvsky, Concerto para piano e orquestra nº 1, Allegro no tropo e molto maestoso (uma ótima sugestão para tocar num quarto todo espelhado de motel neste dia 12. Só não se esqueçam de me conceder os créditos pela dica, tá? Bons divertimentos!)

Ciclotimia, ciclotímico…

O barato de ser um soi-disant ciclotímico (e não, thank Goodness!, um bipolar) é que se consegue ter, de tempos em tempos, uma visão mais matizada e menos estereotipada de tudo. Algo assim como ver as mesmas coisas sob novos prismas. Nessa gangorra, e graças a ela, estamos sempre nos renovando, nos reciclando e, mais importante, nos reinventando. Fosse eu religioso, diria: uma benção! Como não sou, apenas afirmo: bem-aventuradas sejam as variações da química cerebral!

A ocasião, os ladrões etc e tal.

- Cara, você tem horas?

- Vinte pras onze.

- Frio, hein?

- Putz, nem fale.

- Foda. O busão demorando pacas!

- Pior. Vai pegar qual?

- O que vai pros lados da Rebouças.

- Eu também tô indo pra lá. O próximo é só daqui a dez minutos.

- Ah, não demora. Mas, meu, você não repara?

- No quê?

- Sabe, cara…

- Diz aí.

- Então, tipo, eu achei que você era um assaltante. De boa: errei feio.

- Ih, cara. Vou te contar, não se ofenda, velho: também achei que você fosse pilantra.

- Sério?

- No duro.

- Que coisa.

- Pior.

- Então: foi mal aí, meu.

- Beleza, cara. Foi mal também.

- De boa, mano.

- O mundo tá estragado, podre mesmo. A gente acaba desconfiando de todos.

- Com certeza.

- Bem, o que você faz da vida?

- Motoboy. Tô de licença: a patroa vai ter bebê semana que vem. Consegui descolar uns dias pra acompanhar ela. Tô vindo agora mesmo da casa do meu irmão. Ele me deu o enxoval. Quer ver?

- Ah, enxoval é tudo igual, né não? Repara não.

- Verdade, cara. Num tinha pensado nisso. Frescura da mulherada.

- Elas são foda. Mas a gente sem elas é nada.

- Pode crer. Mas diz aí: o que faz na vida?

- Desempregado. Trabalhei até o mês passado num escritório. Serviço chato pra cacete. Mas daí entrei numa roubada: fiquei com a mina do supervisor.

- Porra.

- Foda, velho.

- E aí, comeu?

- Morro feliz!

- Isso que importa.

- A vida tem que ser aproveitada, né não?

- Assino embaixo.

- Mas, escuta, qual o teu nome, mano?

- Gustavo. E o teu, velho?

- Ramon.

- Nome de gringo.

- Meu pai era paraguaio.

- Saquei. Já foi pra lá?

- Fui nada. Minha tia que morreu no mês passado, irmã do meu pai, dizia que ele tinha deixado terras lá. Nunca vou saber. Ele abandonou minha mãe e eu quando eu nasci.

- Sacanagem, hein?

- É, a vida é foda.

- Com certeza!

- Acho que o ônibus tá vindo. Não é ele?

- 234. Ele mesmo.

- Cara, ele tá super vazio.

- Pior!

- Se a gente fosse assaltante…

- Ia fazer a festa!

- Pô, nem diga.

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- Atenção, central. Relatório: aqui é a 185. Prendemos os dois meliantes. Tentativa de assalto a ônibus. Vamos seguir para o 34º DP.

Microconto: Um velho morre.

Foi só pouco antes de morrer, de fechar os olhos e se desintegrar no Grande Nada, que o moribundo e envelhecido escritor teve as mais tresloucadas e geniais ideias para contos, os contos que ele sonhara a vida toda escrever. Só naquele instante da Grande Verdade, naquela suprema hora em que uma mera faísca de vida que se vai aos poucos é tudo o que resta, ele pôde vislumbrar, num instante-eternidade, personagens, situações, contextos, diálogos, angústias grandiloquentes, peripécias sem fim, deslumbramentos, momentos de iluminação interior, entre tantas outras ideias. Ideias as quais ele perseguiu por toda a vida e que jamais poderia pôr no papel, pois à sua frente havia agora apenas o abismo, o fim da linha, o término de tudo. Eram projetos que nunca seriam concretizados, toda aquela seiva criativa desperdiçada. E daí, dessa não-conformidade entre a potência criativa e o ato, daquilo que era só o abstrato em choque com a matéria inexorável, surgia um sentimento de impotência aterrorizante. E a certeza da inutilidade de todo e qualquer esforço. 

Uma vontade de gritar e esbofetear e ameaçar e corromper e conspurcar e marcar a ferro e fogo o mundo usando sua arma principal: a palavra escrita: aquela que seria o único rastro de sua estadia no mundo. Revirando os olhos pelo quarto, o mesmo cenário tantas vezes visto, as manchas na cortina, as pequenas rachaduras na parede, tudo girando, e sua imaginação em êxtase, solta, a galope, e a consciência de si se esvaindo, e a certeza de que ninguém nunca saberia daquele vulcão em atividade, o velho via aquilo tudo se escoando por imenso ralo. As forças já o haviam deixado, a febre o possuía, o desalento se instalava. Sentia sua garganta a sucursal do inferno. O balbucio débil que saía de sua boca: “Estava tudo na vida, o tempo to…”. Fechou os olhos. Suspirou metaforicamente sua vida toda, a instalou nos pulmões e se entregou ao imponderável. Apagou.

Dois dias depois, apenas os mais curiosos leitores do jornal da pequena cidade se importavam em ler a coluna de óbitos. Nela, havia o nome de um “escritor” que nunca publicara nada e que morrera na miséria e na solidão, sendo uma figura folclórica por ali. Um ser à margem de tudo e de todos. Com certeza um homem doente. Quem iria ao seu enterro? O setor de indigentes o aguardava! 

Artes e saberes sem fronteiras para espíritos inquietos: do jazz ao erudito, do cinema à filosofia e à literatura.

Os embaixadores do jazz no Brasil.

TJB: Os embaixadores absolutos do jazz no Brasil.

Fui ver e ouvir a Traditional Jazz Band ontem no Sesc São José dos Campos. Chegando cedo, pude arrumar um confortável lugar quase no gargarejo e, assim, sentir todo o entrosamento da banda. E que banda! Desde as gags, passando pelo repertório, a performance e o ritmo certo de tudo, os senhores que há quarenta e cinco anos estão na estrada e já tocaram até no berço do jazz, New Orleans, merecem todos os aplausos. E mais um pouco! Na verdade, aquilo é um time de craques que se entendem apenas com olhares. O resultado é um som encantador, hipnotizador!

No setting list, pérolas de Armstrong (“Basin Street”, entre outras), Ellington (“Take the A-Train”), a deliciosa After you´ve gone, e mais algumas obras-primas do jazz tradicional. E não poderia faltar aquele que é o hino do jazz, gênero musical que é a mais fabulosa contribuição norte-americana ao espírito humano.  Me refiro, claro, à universal “When the Saints go marching in“, que deixou o espaço no Sesc, lotado, em êxtase. Ninguém ficou imune à descarga de vibração e ritmo estonteante.

Que eles continuem por mais um bom tempo!

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Fiz o esboço da primeira versão de um roteiro para curta-metragem com o qual vou participar de um concurso no site do Tela Brasil. É uma “historinha” aparentemente boboca. Ênfase no advérbio aí, please. Vou investir nos diálogos. Muito. O que vai me dar bastante trabalho. O curta não pode passar de sete minutos!

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Comprei o primeiro volume dos quarenta da Coleção da Abril/Revista Bravo! dedicada à música erudita. Tomando como base o primeiro volume, dedicado a Beethoven, pode-se ter uma ideia do que é o projeto: vida e obra do artista, um cd com a essência de sua arte, acabamento de primeira, explicação técnica minuto a minuto de trechos de obras, explicação de termos técnicos etc. O próximo, dedicado a Tchaikovsky, é imperdível. Bem como o de Mozart, Vivaldi, Bach, Chopin

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Estou com tanta coisa para ler, mas tanta… Isso não me impediu de comprar mais dois livros ontem: Cinefilô: As Mais Belas Questões da Filosofia no Cinema, de Ollivier Pourriol, da editora Zahar e Banquete com os Deuses: Cinema, literatura, música e outras artes, de Luis Fernando Verissimo, da Objetiva. O primeiro é um curso de filosofia através do cinema. Minha biblioteca sobre filosofia e mais precisamente filosofia/cinema só cresce… Adoro me embrenhar por ambos, e sobretudo pelos dois ao mesmo tempo! Já o livro do Verissimo, lançado há seis anos, é um apanhado de crônicas em que ele mistura Miles Davis com Truffaut, Borges com Sartre, Beethoven com Benny Goodman, Billy Wilder com Rembrandt, Woody Allen com Fellini, em páginas deliciosas, pelo que pude ler em algumas. Exatamente o tipo de coisa que mais me atrai: a mistura livre de conhecimentos, só aparentemente não-afins.

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Estou lendo aos poucos – um por dia – os contos de “Novelas Nada Exemplares“, do Dalton Trevisan. Leitura que estimula todo um circuito interior. E que nos chacoalha um bocado… Mestre, mestre!

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Ao som de Ludwig van Beethoven, Sinfonia nº 5, em dó menor, Opus 67, Allegro e Benny Goodman, After you´ve gone.

Traditional Jazz Band, há mais de 40 anos na estrada, toca no Sesc São José no próximo sábado!

Sábado agora, dia 6, vai rolar o show da mais tradicional banda de jazz do Brasil: a apropriadamente chamada Traditional Jazz Band. Os hoje senhores integrantes da banda tocam o que mais próximo podemos ouvir por estes trópicos do jazz dixieland, o autêntico de New Orleans e que estourou nos Estados Unidos e no mundo na década de 20 do século passado. Um museu sonoro: sem conotações pejorativas, claro. Um elogio, pelo contrário: esses brazucas mantêm viva, heroicamente, a energia de uma música que é patrimônio da humanidade: o jazz tradicional. Mais que isso: trata-se do retrato sonoro de uma época em que não vivemos mas na qual adoraríamos ter vivido.

Eu os ouvi tocando no show de abertura da Diana Krall, aquele que aconteceu em dezembro de 2007 no Parque Villa-Lobos. Foi o dia em que mais tomei sol na minha vida! Bem, o que me lembro daquele show da veterana banda: som ruim, repertório modesto, muita superficialidade. Mas, descobri depois, a coisa toda foi por causa da “organização” do evento. Os caras mal tiveram tempo de consertar o estrago.

Mas sei que aquele foi um caso isolado. Sem dúvida sábado que vem vou ouvir algo totalmente diferente. Se tocarem algo do Jelly Roll Morton ou do Bix Beiderbecke, fecharei os olhos e me sentirei nas ruelas de New Orleans de 100 anos atrás: estarei no paraíso!

Aqui uma mostra do som da TJB. Apesar da falta de qualidade sonora do vídeo, dá pra ter uma pálida idéia da delícia que é o som que eles fazem: