Boa noite, pai.

  Querido pai: você me perguntou recentemente por que eu afirmo ter medo de você.
  Vou me sentar aqui do seu lado e explicar tudinho. Prometo ser breve.
  Sabe, desde muito pequeno aprendi a conviver com este sentimento relacionado a sua pessoa. Mas, apesar desse aprendizado de longos anos, posso lhe dizer que sim, tal medo primário se transformou em outra forma de medo e só aumenta a cada dia. Já faz muito tempo que me desvinculei do Complexo de Édipo. Faz tempo também que não te vejo mais como um “concorrente”. De modelo no qual deveria eu me inspirar a essa figura aterrorizante de hoje, muita coisa já passou. Anos de sermões, de surras, de “pitos” homéricos, tudo isso só acentuou a sensação de medo, compreende? Mas não é mais ao medo físico, o medo da dor corporal, a que me refiro. Não. Mas ao medo, em suma, de que eu, por conviver todos estes anos contigo, me transforme no mesmo pulha, no mesmo asqueroso ser que você, estimado pai. Sua presença no mundo, miasma a soltar as mais fétidas e repugnantes emanações, apenas me enche de receio de me achar um belo dia uma cópia sua, sabe? E quem me diria que já não me tornei isso? Meu medo é esse: virar uma versão sua, piorada. É o risco iminente de cometer as mesmas merdas que você cometeu. As mesmas canalhices. Os mesmíssimos crimes. E sobretudo de terminar assim, nesse estado lastimável em que você se encontra.
   Mas não sou nenhum desmiolado: o que temo é bem possível de vir a acontecer. Tem casos e casos por aí que não me deixam mentir. Não estou exagerando, não!
   Pai do meu coração – porque no coração não tem só coisa boa, não é? -, só existe apenas uma maneira de abortar essa catástrofe. Sei que aqui, nesta cama, inválido, apenas com estes olhos idiotas a fitar o mundo, só se comunicando com esse último por meio desses sinais que apenas as enfermeiras entendem – e eu vi seus olhos nos seios daquela morena, a do turno da manhã -, você já não oferece riscos a quem quer que seja. Pelo contrário: a muitos você só causa a mais profunda pena.
   Mas não a mim! Não mesmo! Enquanto vivo você for, sempre terei que conviver com sua presença que a mim só traz lembranças desagradáveis, entende? E é como se eu te visse e na mesma hora visse o que me aguarda. Tente me entender ao menos uma vez na vida!
   Por isso, meu velho progenitor, causa de muitas das minhas desgraças, é com muito, mas muito pesar que eu – sim, já adivinhou, não? Pode me olhar espantado, afinal você me ouve e entende muito bem, não? –, pra não te ter mais como um fantasma a me rondar, um lembrete físico do que posso me tornar, é por isso que vou desligar essa maldição de aparelho que te mantém vivo. É doloroso, eu sei. Mas muito menos do que o fardo de te ver e automaticamente me lembrar de tudo que você fez ou deixou de fazer neste mundo. E correr o risco de eu repetir, por imitação, tudo isso!
   Durma bem, velho. Espero ter respondido tua pergunta. É a minha sensação de paz interior, acima de tudo, o que busco. Você é um empecilho, uma pedra e tanto no meu caminho.
   Ah, sim. Vai ter só uma escuridãozinha. E um silêncio bom. Até que estou sendo camarada, não?
   Boa noite, pai.

 

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Texto com o qual participei do concurso literário da revista “piauí” (com minúscula) e publicado no site daquela publicação em abril deste ano. A frase em negrito, de autoria de Franz Kafka, em Carta ao Pai, foi o mote a partir do qual o texto tinha que se desenvolver.

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