Atenção! Isso não é conversa mole de ressentido. Não mesmo. Há muito eu queria escrever sobre o que está nas linhas abaixo. Talvez por influência dos “Concertos de Brandenburgo“, de Bach, que passei o dia ouvindo, a verdade é que estou prestes a rabiscar alguma coisa sobre mim mesmo (vide o post abaixo para saber o porquê da relação Bach/idéias). Já que este blog também é um diário muito do incompetente, ainda assim é meu. Daqui a cinquenta anos, quando eu estiver nos cueiros novamente, quem sabe não passe aqui e, caquético, mas ainda assim emotivo, não lembre com saudades o cara tão sem graça que fui…
_____
Sei que não sou um sujeito lá muito convencional. Mas nenhum Michael Jackson, claro. Fiquem tranquilos.
Extremamente tímido entre gente que não conheço, muitas vezes avesso a falar muito, outras um pouco expansivo; em certas horas “na minha”; em outras, gregário como um comerciante na CEAGESP (gostaram do símile altamente literário? Tenho mais deles, tá?) entre outros traços psicóticos, digo, normaizinhos.
Bem, falemos sério. Se tem uma verdade sobre mim é essa: muita gente ( e o “muita” faz toda diferença: se eu usasse “todo mundo” ou “todos” estaria extrapolando a tênue fronteira entre a normalidade e a paranóia) superficial que adora se prender a estereótipos percebe: eu incomodo esse povo.
Bem, sou um cara que não é afetado por pompas e circunstâncias, títulos honoríficos, nobiliárquicos etc.
Já percebi que quando começo a falar algo, muita gente me acha um pedante, ou um cara que quer se mostrar. O que dá na mesma, claro. Como percebo isso? Simples: olhares enviesados; olhares em busca de outros olhares; mas, acima de tudo, é a reação verbal da pessoa: uma certa pressa e superficialidade no falar, como se o assunto ali fosse uma “batata-quente”; uma certa necessidade, em outro momento, de querer suplantar aquilo que eu dissera. Lamentável…
Na verdade, por meios tortuosos, consigo, pela atitude de pessoas que assim me julgam, ter delas uma visão certeira.
(Importante: friso bem que não é todo mundo com quem falo assim, desse modo. Já travei conhecimento com gente que procura conversar de igual para igual comigo, nem vê como uma afronta uma observação menos superficial que eu faça, um ângulo menos prosaico de se enxergar as coisas etc. E quando aquela pessoa diz algo também menos superficial, procura enxergar as coisas de forma menos estreita, etc, eu também não vejo motivo para tomar aquilo como uma afronta. Simples assim. Pelo contrário: tenho prazer em aprender com o que acabou de me ser dito).
Voltando aos meus “detratores”. Ledo engano, o deles (Relativizemos: na atitude humana, entra sempre uma certa vaidade, afinal, somos a projeção de nós mesmos naquilo que os outros captam da gente). Aquelas pessoas têm uma visão estreita demais dos outros. Já conheci, repito, gente extremamente interessante e inteligente que não o olha como se você fosse um marciano só porque você acabou de falar sobre Nietzsche; ou comentou sobre algum outro pensador; ou fez uma analogia com uma certa personagem literária, ou do cinema, por exemplo; ou usou uma palavra menos gasta, ainda que não rebuscada. Tudo, claro, com um senso de oportunidade. De repente, só para competir com você, aquele sujeito diz algo (finge) sobre o que afirmou um famoso filósofo (é patente a “forçação de barra”) ou que fez tal e tal curso (como se não houvesse outras formas de aprendizado) ou que “minha mãe é doutora”, ou “Ah, meu pai é um gênio!” (argh! falado por uma criança até que vai. Mas por um adulto… E outra: isso tem de ser dito da forma mais blasé possível. Dessa forma, o efeito será acachapante, pensa-se) ou ainda que… Ah, são tantas coisas… Isso já me aborreceu bastante. Hoje não mais. Me resignei com o fato de que vou sempre encontrar esse tipo de gente. Bem diferente daquele outro tipo com o qual é tão prazeroso estabelecer um contato: gente que não diz lugares-comuns e não se prende por exterioridades. Gente que não quer a todo momento te impressionar com realizações de terceiros. Gente que sabe que um diploma, no mundo competitivo do mercado de trabalho, é relevante. Mas que, no mundo das idéias que há nas obras artísticas, da cultura, do conhecimento não-instrumental, não é o diploma que vale: é a capacidade de relacionar conceitos; de fazer pontes entre assuntos só aparentemente desconexos; é a busca pelo saber que abre portas para outros saberes, através de muita leitura, numa rede infinita feita de curiosidade, de não-conformismo com o que vem muito fácil; um mundo franqueado a todos que dispoem de uma massa cinzenta e queiram empregá-la apropriadamente; coisa de gente que não se apega a estereótipos bestas e quadrados. Como todos os estereótipos.
_______
A tempo. Se tem uma coisa que me fascina é me apropriar da cultura (literatura, filosofia, cinema, artes em geral), “deglutir” tudo, tornar aquilo “meu” e usar o produto dessa “deglutição” de forma mais natural possível, até mesmo no meu dia-a-dia, fazendo os mais improváveis “links” em termos de assuntos. Sou fascinado por essa “apropriação” criativa!
_______
Acontece que não costumo baixar minha cabeça para ninguém, nem me deixo impressionar por gente despeitada. E nem fico mais “grilado” com aqueles que se espantam com meu jeito (Ah, nem tampouco fico envergonhado de usar a expressão meio démodé “grilado”…).
Meu jeito: me interessar por vários assuntos, ter uma curiosidade inesgotável para aprender certos assuntos que me encantam etc. E nem por isso querer saber tudo: não cairia num erro tão crasso. O que me move justamente é a certeza de que preciso saber mais ainda sobre uma trezentas mil coisas ainda enquanto por aqui estiver.
_______
Voltando. É como se eu tivesse que sempre “pisar em ovos”: se digo algo “suspeito”, já desperto olhares cismados de gente tacanha que acha que estou querendo me mostrar quando discorro sobre assuntos variados, fruto de leituras, de reflexões. Não que eu seja um falador. Longe disso. Mas as coisas que me empolgam costumo sobre elas falar com convicção e energia. Aí que as pessoas fazem uma “leitura” errada. Elas interpretam essa convicção e energia com arrogância!
Aliás, as pessoas neste país geralmente têm uma fixação pelo “grau de doutor”, de alguma coisa que comprove que alguém, para falar de um filósofo, de um cineasta, de um escritor, de um assunto da geopolítica, por exemplo, NECESSARIAMENTE tem que ter um atestado, algo que comprove que ali estamos diante de uma sumidade em tal assunto. Daí, só daí é franqueada a porta para aquele sujeito poder falar sobre o que quiser…
Não sou contra a formação intelectual, já disse isso aqui neste blog. Obviamente que não sou. E manda a sinceridade dizer o seguinte: fiz até o segundo ano de Letras, além de ter feito alguns meses de Jornalismo. Nem por isso um dia deixo de querer voltar à faculdade. Nem por isso minha liberdade intelectual é tolhida por quem quer que seja. Não busco saber mais do que quem estudou um dado assunto numa faculdade. Achar que o saber é uma espécie de contêiner que deve ser abarrotado de forma atabalhoada é de uma cegueira e supercialidade sem tamanho. Mas eis o ponto crucial: isso – o fato de não me ver como uma forma de mártir dos pobres autodidatas sem eira nem beira, longe disso! – não é motivo algum para que eu não saia do meu conforto e não busque, a duras penas, como sempre fiz, ler, me informar, correr atrás de todos aqueles assuntos que tanto me atraem. Sem ter que buscar o aval de quem quer que seja. Sem me sentir inferiorizado, tampouco.
E com aquela gente para quem tanto incômodo eu causo – não que aquelas pessoas percam o sono por mim nem tentem se matar por minha culpa, só pudera! – já tenho um novo approach: finjo-me agora de morto. Perto delas eu me encolho, não como subserviência, mas como tática: ao fazer isso, passo a agir, ao menos num nível superficial, do jeito que elas querem. Dessa forma, me regozijo por dentro: ao constatar o quanto “oca” é aquela pessoa, eu passo a não ter nenhum prazer na sua companhia. Elas vêem em mim a imagem delas refletida. E nem percebem.
Vou dormir. Boa noite, seu João Sebastião Bach. Obrigado pela força!
____
Ao som de Bach: Concerto de Brandenburgo nº5, em ré maior, índice BWV 1050, movimento Affettuoso.
Arquivado em: Alhos e bugalhos

