Das mil faces da tragédia.

    

    A ideia de que a tragédia tem que ser necessariamente algo grandioso, épico, está tão impregnada no inconsciente coletivo que, por qualquer motivo besta, usamos a palavra “trágico” e seus familiares semânticos com um misto de espanto compatível com a grandiosidade suposta de um acontecimento que nos deixe meio nocauteados.

    Na verdade, a vida é composta de micro-tragédias, tão pequeninas que, na correria nossa de todo dia, passam quase despercebidas. Uma árvore moribunda é uma tragédia. Assim como um sonho desfeito. Igualmente um amor que se torna um desamor. Outra coisa não é o abandono dos projetos pessoais, nem as mil maneiras de se morrer para aquilo que há pouco nos era valioso, nem o choque entre a realidade brutal com os ideais agora ridicularizados, nem a percepção do efeito deletério do tempo sobre nossas falsas certezas de perenidade, nem a não-equivalência entre o que vivemos interiormente e o que se passa fora de nós, nem a nossa absurda transitoriedade, nem o choque com os outros, nem um rol infindável de outras minúsculas tragédias de que é composta a vida.

    Mas o que mais é fascinante é se dar conta de que, se delas, as tragédias, somos cercados, temos nelas também, potencialmente, uma chance de nos superarmos, de irmos além de nós mesmos, de nos projetarmos para um além de nossa suposta “natureza humana”; é a oportunidade que temos de nos engrandecermos perante o atrito com aquelas tragédias e delas retirarmos não uma lição de vida nem tampouco todo aquele papo clichê de “crescer com as adversidades”.

    Nada disso. Ou não necessariamente.

    É aproveitarmos as brechas que nos são abertas, verdadeiras frestas através das quais há, em cada momento “trágico”, seja de que intensidade for, uma nova janela de vivências repletas de possibilidades. A cada “tragédia” – aqui no sentido multifacetado -, a teia infindável do possível, do acaso, do contingente, do que seja lá o que for que nos recoloca perante o mar do possível. Que nos franqueia um universo de potencialidades, de caminhos que se bifurcam, de paralelas que se cruzam, de linhas tortuosas que se juntam e se tornam por fim um retilíneo caminho. A via das possibilidades infinitas. Caminho esse que pode ter um início lá naquela “tragédia” longínqua no tempo ou no espaço de nossas vidas atribuladas.

    E ainda há quem ache que tragédias só as de Ésquilo, Sófocles e Shakespeare…

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