Confessionário (Solilóquios nada edificantes) – 1

Me sinto impossibilitado de seguir. Meus pés pesam. Meus membros se encolhem. Minha cabeça ferve. No meu cérebro, o centro da tomada de decisões se tornou estéril, sem vida, engrenagem fantasmagórica, coberta por teias de aranha. E sinto esses terríveis aracnídeos com suas patas de veludo a passearem pelo meu crânio! Para onde olho vejo só coisas mortas, ausência de pulsão de vida, ecos distantes de gritos de moribundos. Tanatos me acompanha, eu sei, por isso vejo mortos-vivos. Vejo atos sem explicação onde outros veriam risos. Vejo o medo por toda a parte. Vejo minha persona submergir num oceano de ameaças escondidas, traiçoeiras. Tento a última saída: quem sabe um urro, um urro vindo das profundezas de mim mesmo, quem sabe isso me chacoalhe, me desperte? Pois só posso estar sonhando, isso só pode ser um pesadelo de uma noite mal-dormida, a agonia de uma consciência atribulada, os espasmos da culpa, do arrependimento, algo assim. Mas é em vão: nada que eu faça me tira dessa imobilidade, desse mergulho na matéria mais viscosa do meu ser em putrefação, da minha morte adiada, que agora enfim chega. Tratarei de me resignar. O fim seria a redenção. O esquecimento eterno. A decomposição de átomos que uma vez concentraram meus sonhos, minhas quimeras, meus receios e tudo aquilo que um dia formou o meu eu que agora se desfragmenta, estilhaça, definha e some.

Deixe uma resposta