Ele só ia até onde lhe haviam permitido. Só via e ouvia e escutava e sentia e compreendia e vivenciava e experimentava e aprendia e apreendia e provava daquilo que estava ao alcance de sua limitada e exígua e estreita e viciada visão de mundo. Nuances, matizes? Ele não os conhecia. Gradações, relativismos de qualquer ordem? Nunca neles ouvira falar! Era-lhe possível ir só até aonde alguém como ele, vindo de onde vinha, era permitido ir. Não mais. Nada de ousadias. Nada de desejos de transcendência. Nem tampouco demonstrações de bravura. Nada. Limite riscado a giz, ai dele se dali escapasse; pobre dele se esboçasse mesmo qualquer intenção, mínima que fosse, de ir além do que a ele estava reservado desde que o mundo é mundo; desde que seu destino fora traçado por um ser magnânimo o suficiente a ponto de lhe conceder aquela “parte que lhe cabia naquele latifúndio”: o espaço no qual devia ele viver.
Um dia, cansado da mesma visão, da repetição ad nauseam de reações, de cadeias de ideias, eis que ele, o circunscrito, o limitado, amanhecera com a tresloucada intenção de mandar às favas todas as recomendações, todas as ameaças divinas, as terrenas e as de todos os tipos. Não se vendo como um bravo, mas tampouco como um resignado, lá foi ele, Sísifo liberto, primeiro com um leve palpitar no coração, depois com a convicção, em seguida a firmeza dos que arrostam monstros imaginários, rumo ao desconhecido. Conseguira passar o até então intransponível. Dali para a frente ele seguiria reto, sem receios, sem algemas mentais, sem apreensões pelo futuro incerto.
Até hoje, quando dele se pergunta, aqueles que ali ficaram só apontam para o horizonte. Em seus olhares, a inveja mastigada. Dele, só isso que restou nos outros.
Dos outros, nele, o que houve foi somente comiseração. Nem isso, talvez.
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Ao som de Chet Baker, I fall in love too easily.
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