Confessionário (Solilóquios nada edificantes – 3)

A gente vai se conhecendo à medida que vive, seu repórter.

Juro que não queria mandá-lo para a puta que pariu. Juro que não tinha intenção de mandá-lo se foder. Até que eu tinha em mente fazer aquele vigarista endireitar na vida, ou ao menos tentar, ainda que isso seja arrogância das grossas: querer fazer alguém mudar seu jeito, sua maneira de ser. Que tosca que eu sou!

Mas pra resumir: ele foi me buscar na faculdade aquele dia. Atrasado. Como sempre, depois de meses de transa, saídas, viagens, muita curtição, carreiras e mais carreiras, baseados e mais baseados. Depois de um certo tempo os homens se tornam tão hostis para nós, as mulheres que caímos na besteira de querer discutir a porra da discussão! Eles vêm, se empaturram da gente, fazem o que bem querem e um belo de um dia começam a ficar apáticos, com cara de bundões, cocozinhos ambulantes, um bando de putos!

Mas aquele dia aquele desgraçado foi me pegar na faculdade. Só fiquei lá eu, no banco do pátio, olhando os olhares nada sutis do vigilante que, volta e meia, me perguntava se tava tudo bem. Tava sim! Se tava! Até que, já não aguentando mais ser comida com aqueles olhos pastosos e nojentos, eis que chegou o pulha.

Entrei no carro, mal nos cumprimentamos. Fui logo o mandando para a casa do caralho. Ele mal me ouvia. Dirigia e de vez em quando passava as mãos nos cabelos, fazia aquela carinha de fresco dele pensando que me assustaria com aquela demonstração de filhinho mimado levemente contrariado. Foi quando tive a ideia: eu o mandei entrar numa espécie de floresta que tem ali nos arredores. Ele não entendeu, o pacóvio; deixei claro que era um dos meus caprichos de pura libido. Fingi que era o que ele pensava. E eu já não pensava nas consequências: só o mandava ir reto, quanto mais isolado e mais escuro, melhor. Só as estrelas nos iluminavam. Foi quando o carro parou. E eu pedi pra ele pegar meu celular que tinha caído aos pés dele. Ele me obedeceu. E então, reunindo todo meu ódio represado e a força por ele gerada, descarreguei o pequeno extintor em sua nuca, uma, duas, três, várias e várias vezes. Ele apenas soltou um gemido, logo abafado pelos meus gritos, que aumentavam de intensidade em mistura com uma risada histérica que a muito custo pude acreditar que vinha de mim. Ele tombou de vez. Ergui sua cabeça. A encostei no banco. Ele ficou idiotamente com aquela cara limpinha parada: não pensei duas vezes e mais uma vez, numa pontaria que até agora me deixa orgulhosa, acertei sua testa com um violento golpe. Ele soltou cuspe pela boca subitamente aberta. Abri a porta. Dei a volta. Abri a outra, pela qual seu corpo caiu. Arrastei-o até a frente do carro. Mirei certinho: dei partida e passei devagarzinho: ouvi um estalo que nunca ouvi na vida. Olhei pelo retrovisor. Deixei o carro ali. Peguei minha bolsa.

Fui pela estradinha que conheço tão bem. Cheguei à rodovia. Uma mulher num Corsa me ofereceu carona. Entrei. Disse a ela que meu namorado havia morrido, que havia sido brutalmente assassinado. Ela quis contactar a polícia. Eu disse que não precisava. Agradeci pela carona. Desci. Fui a pé até em casa.

Morando sozinha, não se tem tantas preocupações. No outro dia, a polícia veio me buscar: tudo havia sido descoberto. Condenada, fui uma péssima presa. Tanto que matei outra por estrangulamento porque um dia ela me chamou de mimadinha burguesa. E aqui estou eu, um dia uma promissora psicóloga, eu, que sempre me autoconheci tão bem.

Que não me venham mais com essa balela de natureza humana, algo imutável. A gente vai se conhecendo à medida que vive. Não ando pra brincadeiras, pois agora sei do que sou capaz. Se sei!

Enfim me conheço, seu repórter.

Uma resposta

  1. Seu repóter = Seu psicólogo

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