Ode à vingança, segundo Quentin Tarantino.

O roteiro notável, próximo da perfeição, de “Bastardos Inglórios” consumiu de Tarantino dez anos. E valeu pela espera. Tudo bem arramado, os quatro capítulos iniciais convergindo para o quinto, o ápice, o desfecho surpreendente.  
Brad Pitt com seu personagem com sotaque do Tennessee está já naquela antologia das grandes atuações do cinema. Só que seu antagonista, o ator alemão Christoph Waltz, com seu personagem Caçador de Judeus, consegue a proeza de se fixar de forma mais perene no inconsciente do espectador do que o astro americano. E isso não é nenhum demérito para Pitt, pois o desempenho do ator da terra de Hitler é simplesmente sensacional: nada estereotipado e cheio de nuances que em certos momentos, efêmeros, na verdade, faz com que o espectador nutra por ele uma certa simpatia. Falando no Führer, não podia faltar na imaginação deliciosamente delirante de Tarantino, esse que entrou para o inconsciente coletivo como a encarnação do mal supremo: o líder nazista, numa liberdade poética, digamos, do diretor, e que tem sua aparição e seus trejeitos imitados à perfeição, tem um destino cruel nas mãos do diretor americano. A cena na qual Hitler é metralhado (isso, Quentin, realiza nosso desejo de vingança!) pelos capangas do personagem de Pitt está entre aquelas reinvenções mais geniais que já presenciei. Nosso desejo, nesse momento, ao ver o líder nazi ser metralhado num cinema lotado numa Paris ocupada, é a sensação suprema que o cinema nos proporciona: a liberdade de criar um mundo de ilusão, de fantasia, que só para alguns parece incompreensível ou, o que é pior, um erro factual.

A próposito, havia um casal de idosos ao meu lado. Ao final, o senhor disse, parece que todo orgulhoso, algo como "Não era Hitler, era um sósia!"…

Fazendo parênteses. Acho que o apego excessivo aos fatos é uma coisa que impede muito a fruição de um filme, de um livro, da arte, de forma geral. Acho que aquele senhor esperava um tipo de filme mais para documentário do que para a obra de um diretor polêmico, irrequieto, irreverente e inventivo como é o diretor de Pulp Fiction e Cães de Aluguel. Pobre senhor (que pouco antes da exibição falava frases em inglês para a mulher, provavelmente sua esposa. Ela, por sua vez, passou toda a aparição dos créditos repetindo os nomes!!!), alguém deveria ter lhe ensinado alguma coisa sobre Tarantino…

 

A violência está lá, tarantinamente inimitável. Estilização da crueldade e brutalidade humanas, para alguns. Para outros, o talento inegável para captar aquela brutalidade toda e filtrá-la de uma forma que só o cinema consegue fazer. Trilha sonora de filme de Tarantino é um lugar-comum elogiar. Sua intuição absurda para casar imagem e som, cena e música, o fato narrado com uma roupagem sonora que em tudo combina, é coisa de gênio: algo que parece tão "no ponto", tão bem dosado, que a gente chega a se espantar se alguém tirasse dali alguns daqueles elementos!

A sequência inicial de tirar o fôlego; as cenas nas quais em questão de minutos vamos do sublime ao horripilante, como a cena da cabine de projeção, durante a qual a personagem proprietária do cinema mata um nazista e (sentimos perfeitamente) sua consciência a acusando: por fim ela demonstra um resquício de comiseração por aquele moribundo que emite um sussurro de quem está nas últimas. Ao se aproximar dele, ela é alvejada mortalmente… Tudo isso em slow motion e com a trilha que parece que estava lá desde a invenção da trilha sonora no cinema!

A cena final é de uma ironia bem de Tarantino. Ele nunca é convencional, mesmo quando parece estar sendo.

Outro dado interessante é a usina de citações cinematográficas que Tarantino conseguiu encaixar no roteiro. Foram tantas as pistas que esse diretor fissurado por cinema nos deixa esparramadas pelo longa…

Um filme de guerra que já foi feito sob o signo da universalidade. Universalidade só acentuada pelo tema que perpassa todo o filme: o da vingança. Segundo o próprio Tarantino tão bem acabou de dizer numa entrevista: o que nos move, mais do que o amor, é a sede de vingança. Seja ela sob a forma impactante de um escalpe, seja mais "amena", sob a forma de um desejo de superação para suplantar, por exemplo, uma grande humilhação.

Além de tudo, Tarantino é filósofo!

Imperdível!

Só espero que você que lê este texto e que ainda não tenha visto esse filme seja mais sortudo do que este pobre mortal e tenha como vizinho de cadeira no cinema senão um André Bazin, ao menos alguém que saiba captar as ironias e a liberdade criativa de um dos grandes diretores da atualidade. Ou, melhor ainda, fique calado durante a sessão.

3 Respostas

  1. Perfeito, Eli.
    Estava já ficando brava com seu sumiço [:X].
    Oras, como ousa abandonar assim sua filosofa? rsrs
    Beijos, lindão!!

  2. fala, meu caro elienai..
    bem, já faz um tanto que não nos comunicamos, né, não?.
    então, vendo una primeira vez os “bastardos..”, confesso-lhe que sai do cinema – cinesystem – com uma sensação de estranheza.. e ainda agora não saberia dizer ao certo o por quê.. como bem disse meu irmão, “é um típico tarantino”.. um típico tarantino em sua estética “pop-contemporânea-cínica”, “cinema-estética dos ‘nineties’ “, enfim.. “kill bill” pra mim – o 1 e o 2 – tinha vindo como trabalho-síntese da “estética tarantinesca”.. talvez eu tenha criado uma expectativa além sobre esse atual filme de quentin.. talvez não estava mesmo num momento bom para vê-lo.. é um filme-vingança mesmo, anti-nazista.. não gostei de pitt – e gosto dele como ator, dos filmes que já vi.. quanto ao ator alemão, excellent..
    bem, alguns retalhos meus..
    ABRAssU

  3. a maneira de elienai: “saí”..

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