Chato é tudo que é plano, que não tem níveis, desníveis, planícies, altos nem tampouco baixos. É a planificação da mesmice, que segue numa paisagem a perder de vista em que nada se sobressai. Daí, a palavra passou para a linguagem cotidiana e serve para se referir a tudo que é tedioso, sem vida, sem sobressaltos, sem novidades, sem estímulo etc.
E nunca esteve tão chato viver neste mundo planificado e uniformizado. Não que alguma vez a vida neste planeta tenha sido assim uma experiência permanentemente instigante. Não acho que se deve ter nostalgia por tempos remotos, sobretudo aqueles nos quais não estávamos presentes. Mas ainda acho que, para um homem das savanas, a planície era muito mais escarpada do que para o homem do século 21.
O que acontece é que nos dias que correm, a sensação de mesmice prevalece. Independentemente da sua conta bancária ou do seu cartão do Bolsa Família, a impressão que se tem é que o tédio anda sempre à espreita, pronto para nos prender em seus tentáculos e nos devorar. Para fugir desse monstro onipresente, buscam-se grandes doses de emoções efêmeras, de atitudes que tentam, em vão, nos dar a ilusãozinha nossa de cada dia de que o mundo é um grande barato, de que a vida neste planeta fadado à derrocada é algo que compensa as frustrações e reveses às quais estamos todos inexoravelmente condenados.
Parece que tudo é uma grande corrida em busca da Terra Prometida das emoções baratas. Baratas pois são inevitavelmente transitórias, ilusórias e verdadeiros simulacros de "felicidade".
Tudo chega até nós facilmente. Na ponta dos dedos. Está tudo ali, naquele site, naquela igreja, naquele livro, naquele guru, naquele cargo, naquela faculdade, naquela viagem, naquele carro, naquela casa, naquele apartamento, naquela mulher, naquele homem. Essa sensação de que só nos resta um passo, uma ousadia, nos faz cegos. Nos hipnotiza. Nos arrebata a visão do todo. A rapidez de tudo que acontece, a avalanche de informações inúteis, de ocorrências corriqueiras que acabam potencializadas pela mídia, de seres vazios e rasos que se tornam imbecis celebridades, tudo isso nos faz ter a sensação que estamos sempre aquém. Que estamos incompletos enquanto não nos arremessarmos rumo à obtenção daquilo que supostamente nos traria – ilusoriamente, claro – a sensação de completude.
Só assim para termos uma ilha de fortes emoções cercada pelo tédio. Só assim para esquecermos por um momento a frustração que vem justamente dessa nossa cada vez maior dependência – exatamente como outra dependência, a química – de sucedâneos para aquele grande e almejado estado de regozijo total. Vamos nos trucidando, nos desrespeitando um ao outro, nos fechando em nós mesmos para fugir do tédio. Daí a achar que a vida está, de forma geral, algo cada vez mais tedioso, é um passo. E isso justamente por sabermos, mesmo num nível inconsciente, que aquilo do qual dependemos para nos manter "vivos" está assentado em bases falsas, independentemente daquilo que nos cerca e que constitui nossa fachada social, nossa máscara, nossa persona.
Viver neste mundo célere, de relacionamentos superficiais, de gente robotizada, de eternos insatisfeitos – pois perdemos a noção do geral, aquela que nos proporciona a certeza de que tudo está interligado, e não fragmentado, como somos condicionados a pensar -, de busca desenfreada por emoções fortes, de dependência cada vez maior às exterioridades plenas de significações sociais, é de fato um porre. Tudo está às claras. Mistério? Coisa de místicos e malucos. Preocupação com o espiritual? Coisa de religiosos… O que conta mesmo hoje em dia é, segundo as concepções que nos guiam, criar ilhas da fantasia em série. É nos autoenganarmos ininterruptamente. Uma vez expirado o prazo de validade dessas ilusões, o que resta é só o vazio, o tédio. Como é impossível ter essas ilusões o tempo todo, ou, melhor, como é inviável haver uma contínua equivalência entre nossas quimeras pessoais (infinitas) e aquilo que as fundamente na vida real (finito), o que prevalece são os momentos de pura frustração, de perda do ânimo para a vida. Afinal, ânimo para quê se esta minha vida deixa a desejar? Se apesar de tudo o que tenho, de tudo que ostento por aí, sei, lá no âmago de mim mesmo, que tudo está calcado em coisas contigentes e passíveis de serem de mim surrupiadas?
Eis aí a gênese dessa sensação de tédio absoluto. Que nada mais é, afinal, do que nossa rendição, de nossa capitulação, de nosso processo de falimento. Moral, mas efetivo e desalentador como tudo que já faliu.
O mundo (entenda-se: a experiência humana) está cada vez mais chato. Mais padronizado. Mais superficial. Mais célere. Somos continuamente condicionados. Teleguiados. Cobaias num grande laboratório de lavagem cerebral. Emburrecemos globalmente. Nos deslumbramos com as maravilhas do mundo moderno e nos esquecemos de que interiormente estamos cada vez mais embotados, paupérrimos, fossilizados e tolhidos em nossa potencialidade imensa de seres pensantes.
Feliz chateação para você.

