Auto-de-fé.

Ele não sabia aonde as palavras o levariam. Ele apenas seguia o impulso incoercível de pôr na tela do computador o que seu inconsciente lhe ditava. Seus personagens nasciam de frases que ficavam a martelar em sua cabeça durante o dia e que só sossegavam quando ele passava a colocá-las sob a forma da palavra escrita. Seus enredos nasciam na hora, do próprio processo de escrita. O tom daquilo que escrevia geralmente, quase sempre, melhor dizendo, nascia também do próprio escrever. Escrever para ele era saltar no escuro, sem medos e receios infantis de ficar evitando os temíveis lugares-comuns. Ela respeitava toda e quaisquer palavras que nasciam de sua mente, sobretudo aquelas que vinham em estado bruto. Ele obtinha um imenso prazer em vê-las brigando, se engalfinhando, procurando a primazia da expressão. Tudo ele usava como água para o moinho da sua escrita. Perfis de pessoas que ele observava, frases ouvidas, trechos de filmes, letras de música, quadros de arte, enfim, TUDO era passível de ser transfigurado, filtrado por sua ótica e aproveitado para a sua arte, que ainda procurava uma voz, um tom. Ele tinha certeza que, enquanto vivesse, ele estaria condenado a lutar com as palavras. Que o tempo seria sempre escasso. Que escrever demandaria o desapego a convenções sociais, muitas vezes. Que escrever não seria sempre uma ação prazerosa, mas, isso sim, na maioria das vezes, algo dolirido, extenuante e que, principalmente, nem sempre, talvez nunca, seria reconhecido. Que no mundo moderno, com todas as suas distrações e engenhocas e “facilidades”, poucos seriam os que têm na palavra escrita, na literatura, mais que uma distração: um alimento do espírito, uma forma de problematização da existência, um parêntese para análise do viver, do estar-no-mundo. Ele queria se expressar. Ele queria fazer da palavra escrita uma ponte entre aquilo que era o profundo solipsismo nos qual a maioria dos seus semelhantes vivia e aquilo que era ao mesmo tempo um lembrete do quão ainda se pode aperfeiçoar a vida humana, a vida do espírito. Ainda que ele não soubesse exatamente onde as palavras o levariam, na verdade ele sabia onde elas NÃO o levariam: ao sentimento de nulidade, a covarde e acomodada nulidade dos que, mesmo respirando, falando, andando, comendo, já estão há muito mortos. Escrever para ele era um salto no escuro. Mas um salto num terreno muito bem conhecido: o do humanamente passível de aperfeiçoamento.

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