Do porquê deste blog insistente.

Pra quê mantenho este blog? Será que penso que alguém o lê?

A resposta para a primeira pergunta: escrevo aqui como uma forma de manter uma janela para o mundo. Uma forma de fixar alguma coisa que passa pelas minhas retinas. Um testemunho, mesmo que ligeiro, de coisas que, ainda que pareçam por demais insignificantes aos outros, a mim não o são, visto que as coloco aqui. Uma resposta circular, como se pode ver. Cretina, talvez. Mas de uma cretinice menos deletéria do que as que vemos por aí.

Bem… quanto à segunda pergunta: sim, este blog é lido. Sei que há pessoas que acompanham o que escrevo mas preferem não se manifestar, seja quais forem seus motivos. E outra: vendo os acessos diários, percebo que muita gente vem parar aqui, na sua grande maioria, graças a alguns textos que escrevi sobre filmes. Nota importante: não são críticas, ou resenhas críticas. Trata-se tão-somente de minha opinião, a opinião de um cara que não acredita que para emitir um ponto de vista sobre uma dada arte, sobre um filme, no caso (poderia ser um livro, um quadro, um poema, o que for), seja necessário mostrar credenciais intelectuais. Mas que escreva com a sinceridade, com a franqueza, guiado pela razão e também, por que não, pela emoção. Aquela emoção que nasce da identificação com uma dada obra de arte. Fazendo a devida ressalva, obviamente: aquilo que escrever deve ter um fundamento, um argumento, motivações que respeitem a inteligência daquele que o lê. Coisa que a quase dúzia de textos abordando filmes que aqui escrevi parecem ter, visto que já recebi elogios, muitos, de leitores. O que já diz tudo.

____

Ao som de John Coltrane, Naima

Efeitos perniciosos da lua e das estrelas em almas impressionistas.

Lição 6. Da subliteratura lunar e estelar. E onde condenamos enfaticamente a pseudoliteratura cibernética.

Há muito é sobejamente conhecido o efeito que os astros, sobretudo a lua, exercem sobre pseudopoetas e escritores de quinta categoria, todos eles almas impressionistas ao extremo, na acepção mais pejorativa da palavra: impressão como algo que não passa pela chancela do intelecto, da razão, vindo direto do mais “emotivo”, mais primitivo dos órgãos humanos, a saber: o coração. Neste capítulo de Como Ser Escritor em 37 Lições, edição revista e ampliada, resultado dos mais avançados estudos feitos pelos nossos eruditos da Snobfield University, apresentamos a nossos leitores e alunos um caso exemplar do fenômeno em tela. Veremos, em linhas de péssima qualidade literária, um autor assaz desconhecido e indubitavelmente uma dessas almas pusilânimes e sugestionáveis que grassam por este mundo – sobretudo de alguma região do inóspito e atrasado mundo em desenvolvimento – discorrer sobre os condenáveis efeitos supracitados e sua tentativa ridícula de dourar a pilúla. O que se verá em seguida também é um exemplo cabal da subliteratura que pseudoautores cometem no vasto e caótico mundo cibernético. Pedimos desculpas aos nossos leitores pela baixeza qualitativa e pobreza artístico-conceitual do anônimo autor. Que esse esforço, contudo, sirva como contraexemplo do que deve ser a genuína Literatura. Por vias tortas, é o que lhes desejamos. Caro escritor/a talentoso/a, motivo de orgulho futuro para as letras, oxalá aquinhoado/a com o futuro Nobel ou o vindouro Pulitzer, fuja de tal exemplo de subliteratura, nunca é por demais repetir. Boa leitura, o que vem apenas a ser uma mera formalidade.

*************

Eu queria (quem me dera!) escrever um texto, um conto, um poema, uma crônica, o que fosse, em que conseguisse expressar em palavras – fixar por intermédio delas – toda a gama de matizes e nuances de ideias, pressentimentos e idiossincrasias que me despertam essas estrelas e essa lua.

Ao mesmo tempo, porém, a certeza de que tudo já foi expresso antes, por alguém mais competente, ou menos inseguro, me impede de seguir adiante. É a convicção de que tudo se esvai e de que nada vale a pena mais ser expresso. De que tudo é gasto, visto, superado. E também a de que quem porventura lesse aquilo riria do total de pieguices e sentimentalismos chinfrins.

Mas mesmo assim, apesar do pessimismo, apesar dessa coisa que me tolhe, que me faz imaginar todos esses impedimentos, aquele desejo continua lá, intacto. Algo que grita. Algo que se recusa a ficar apenas e tão-somente no campo daquilo que tem chances (muitas vezes, apenas remotas) de ser expresso. No âmbito das virtualidades. Naquele limbo onde um dia estiveram tantos textos alheios que hoje são conhecidos, discutidos e que já despertaram em tantas pessoas as mais variadas experiências de identificação. Textos que partiram exatamente daquele estranhamento pessoal, anônimo, perdido entre tantos outros estranhamentos cuja grande maioria se esvai justamente nos ralos daquele mesmo pessimismo.

O mundo interior, o das sensações, o dos mais profundos sentimentos, é a todo instante instado, estimulado, provocado pelos mais variados e diversos acontecimentos. Nosso filtro interno não para nunca. Precisamos, a todo momento, nomear, mensurar, analisar, graças a nosso discurso interior, aquilo tudo que nos acontece e que presenciamos e que conosco mexe, desde as coisas mais (supostamente) comezinhas até aquelas que consideramos (não menos supostas) relevantes.

A mesma lua e as mesmíssimas estrelas da nossa infância estão lá, indiferentes a nossas cabeçadas, a nossos triunfos, a nossos pequenos grandes feitos, a nossas mancadas, a nossos momentos de iluminação, àquelas ocasiões de mergulho no mais profundo e escuro poço onde o desalento, a angústia e o medo fazem morada.

Só que somos constituídos, ao mesmo tempo, de mudanças e de permanências. Somos e não somos os mesmos. Camadas e mais camadas de sedimento formado de vivências as mais diversas foram sendo ali colocadas. Fazendo uma prospecção nesse grande campo que representa nosso “eu” que foi se constituindo no decorrer do nosso tempo individual, podemos ver ali nossa essência, independentemente daquilo tudo que vivemos até o momento. E é olhando para essa lua e para essas estrelas que podemos ver o fio que perpassa toda nossa vida. Em outras palavras: vemos ali, no fundo daquele rio, metaforicamente falando, o leito que sempre esteve no mesmo lugar. É vendo as estrelas e a lua, é recebendo as mesmíssimas impressões de finitude e transitoriedade que nos caracteriza, que podemos atar as duas pontas da vida: o que fomos e o que somos.

E eis que o receio do ridículo do lugar-comum se vai. Já aliviado, concluo que na verdade somos um lugar-comum: nossos ancestrais temiam o mesmo que nós e em muitos aspectos não mudamos nada. Não criamos nada de novo, essencialmente e que funcione de forma eficaz para todos nós, com o fim de amenizar essa sensação de finitude que temos, por exemplo, ao fixar nossa atenção nos astros do firmamento. Somos e não somos os mesmos. Graças a esse precedente, todos os textos-chavões estão liberados e justificados. Como este.