Uma tola polêmica

Usuário e ‘fã’ confesso desde a primeira edição, há onze anos, foi com surpresa que vim a saber dessa polêmica tola envolvendo o dicionário HOUAISS.

Tola porque vejamos: dicionários apenas definem o sentido de palavras e fixam os diferentes registros semânticos que elas vão ganhando com o tempo, que estão sendo usados pelo dono do idioma: seu povo. A eles cabe essa hercúlea e essencial tarefa. A controvérsia toda gira em torno da palavra “cigano”, cuja definição dada por aquele dicionário, dizem os acusadores, seria ofensiva àquela etnia. O que se espera de um dicionário? Claro que a explicação e registro dos diferentes níveis semânticos das palavras para que se aprenda a usá-las e também, claro, quando for o caso, a evitá-las. E está bem claro lá que o tal uso é, sim, pejorativo. Não é culpa do dicionário se a tal palavra ganhou uma acepção negativa. Para bom entendedor, aquele que lê nas entrelinhas, está bem claro: se o dicionário alerta para o uso pejorativo das extensões do sentido de uma dada palavra, ainda mais daquela relacionada a uma etnia, a um povo, ele, o dicionário, não está necessariamente sugerindo mas, em muitos casos, entenda-se, deixando subentendido que aquela é uma acepção não recomendada. Cabe ao usuário, levando em conta suas necessidades, usar ou não usar a tal palavra, cabendo a si a responsabilidade do que diz/escreve. E essa conscientização, digamos assim, se encontra no estudo do sentido das palavras: o que vem a ser o papel de um dicionário de definições, oras! E, então, pergunto: e as outras palavras que têm sentidos pejorativos também serão censuradas ou, pior, os dicionários que as trazem serão igualmente banidos? Como isso? Eles não podem ser responsabilizados pelo mau uso das palavras usadas por quem quer que seja. Eles apenas mostram, indicam, analisam, dissecam os diferentes sentidos. Assim como palavras supostamente enaltecedoras – aquelas que servem como elogios, por exemplo, têm suas acepções esclarecidas -, as que ganharam sentido pejorativo também devem ser explicadas, esquadrinhadas, até para que, se for o caso, evitar-se o (mau) uso delas para se ofender alguém, por exemplo.

Em que outro lugar aprender sobre os sentidos das palavras (sejam positivos, negativos, pejorativos etc) que não nos dicionários? Se a moda pega, eles serão apenas um apanhado de elogios e palavras “positivas”: um imenso e tedioso pântano cor-de-rosa. Era só o que faltava. A não ser que, num passe de mágica, todos os preconceitos (abolindo-se as palavras que os carregam e os reforçam e os dicionários que trazem, fixam e explicam aqueles vocábulos) sumam da noite para o dia.

Já imaginaram tolice maior?

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