Está aí um filme que incomoda e causa engulhos (tal sua eficácia em mostrar o mundo interior em frangalhos e em decomposição de um personagem às voltas com o desejo desenfreado) mas faz pensar. Eu o achei nada redundante. Tudo ali, desde o princípio, é bem dosado, de forma que o espectador, por via, não necessariamente da identificação direta (“Eu também faço essas coisas, caramba!”) mas da indireta (“Uau! Vejam só isso: o cara simplesmente surtou. E é incrível como eu, aqui no conforto da minha sala, consigo me colocar no lugar dele e viver suas degradantes experiências!”), tenha a exata noção do que é a vida quando ela chega ao fundo do poço. Cortes bruscos, elipses narrativas, a música muito bem escolhida como apoio ao que está sendo mostrado, ou em vias de ser mostrado: tudo isso vai num crescendo até seu desfecho que achei, particularmente, bem delineado e verossímil.
Um filme que será, como já está sendo, muito mal-entendido ou entendido de forma superficial.
Ali está exposta, de forma crua, a transformação do prazer em suplício. E os desdobramentos trágicos dessa transformação.
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Notas subjetivas (e errantes, ou “nada a ver”) sobre cinema.
Quem lê meus textos sobre cinema deve achar estranho que não exista por aqui nenhum que realmente seja crítico, que vaie ou que “detone” um filme. Nem um sequer!
“Que crítico é esse, afinal?”, podem perguntar por aí.
Simples, ladies and gentlemen: não sou crítico de cinema, nem de literatura, nem de coisa nenhuma. O que escrevo aqui são apenas minhas impressões sobre obras de arte a que, felizmente, tenho acesso. Nada mais. Para me levar a me sentar em frente do computador e elaborar análises muito das subjetivas e capengas sobre o que quer que seja, só mesmo algo que tenha me arrebatado ou em mim despertado alguma fagulha de inspiração, seja pela via da identificação temática, seja por qualquer outro motivo.
E outra: não faço, diferentemente de muita gente, distinção entre aquilo que alguns provincianos chamam pejorativamente de cinema antigo e o tal do incensado cinema atual. Para mim, falando do ponto de vista de um mero apreciador da arte cinematográfica, e mais amplamente, da arte narrativa, pouco importa que o filme tenha sido feito há alguns meses ou um filme de Eisenstein, da década de 20 do século passado. A impressão que ambos causam em mim, na maioria das vezes, pode ser equivalente. O que acontece é que o cinema feito atualmente, na sua grande parte, não me atrai, seja no que se refere ao tratamento temático, seja por outro qualquer. E esse “na sua grande parte” me impede de cair na vala comum da simplificação excessiva daqueles a que me referi: os que dividem o cinema em grandes blocos temáticos, fronteiras estanques, ou seja, o Passado e o Presente.
Me poupem. Sei reconhecer, com minha intuição, onde há algo que pode arrebatar a minha sensibilidade. E, reconheçamos, muito sintomaticamente esse algo não tenho encontrado muito nos filmes recentes. Não com a intensidade e frequência com que tenho me deparado nos filmes de alguns (ou muitos) anos passados.
E para se ter realmente a noção do que é o cinema (e isso vale para toda arte) hoje, não há outro jeito: tem que se ter uma visão diacrônica, holística desse ramo da arte. Não pense que você é cinéfilo só porque vai toda semana ao Cinemark da vida e acompanha tudo sobre o que “rola” atualmente no cinema e coloca uma venda nos olhos, ficando cego para o cinema antigo, “aquelas velharias, aqueles filmes em preto-e-branco, coisa mais antigona…tá ligado?” Assumindo essa visão, você está sendo um preconceituoso, um jeca que quer ser moderninho, descoladinho, mas cujo círculo de ideias e experiência cinematográfica e cultural são mais estreitos do que o teclado deste notebook que já está me enchendo o saco…
Preciso comprar um teclado, ah, se preciso…
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Este texto foi escrito em 23 de dezembro de 2009 e sua publicação, agendada automaticamente. O autor está viajando e só retorna na segunda semana do novo ano. Um ótimo 2010 a todos.
“A História de Adèle H.” (de François Truffaut, 1975): o colapso da razão sob as lentes de um sensível incorrigível.
1863. Baseado na história verídica de Adèle Hugo, filha de Victor Hugo, o célebre autor de Os Miseráveis, filmada com paixão e narrada com perfeição pelo enfant terrible do cinema francês, François Truffaut – que faz uma ponta à la Hitchcock, seu grande ídolo –, o filme nos faz mergulhar no mundo mental gradativamente em colapso daquela jovem cujo grande “pecado” foi amar demais. Sem pieguices ou concessões a saídas narrativas batidas, o diretor de Os Incompreendidos e Jules et Jim coloca na tela todo o eclipse da razão da protagonista, que vai atrás do homem que ela desesperadamente (e esse não é apenas um advérbio surrado, no caso), o tenente inglês Albert Pinson (Bruce Robinson), que ela segue onde quer que ele se encontre. Ele não a ama mais e vemos que se trata de um sujeito sem o mínimo de sensibilidade para com o drama de Adèle. Ele está mais preocupado com seu status no exército inglês, que manda seu batalhão para Halifax, no Canadá, durante a Guerra Civil norte-americana, e com as mulheres que lhe aparecem pelo caminho. Adèle escreve longas cartas a seus familliares nas quais distorce aos poucos a realidade. Ou seja, as cartas são mais projeções dos seus anseios do que a realidade factual. E a perda gradual da razão de Adèle é extremamente convincente, não tendo como não ficarmos tocados com aquela vida que se esvai aos poucos em nome de algo tão abstrato e tão etéreo, um sentimento que acaba fazendo com a jovem mergulhe em seus devaneios e alucinações, nos quais começa a se identificar com a imagem de uma irmã morta afogada e tenha toda a sua psique erodida e por fim destruída. A cena final: Adèle (a lindíssima Isabelle Adjani), agora uma maltrapilha nos confins da África, com os olhos abertos mas vazios de toda expressão, sinal maior da perda de toda consciência do seu próprio “eu”, passa por Albert, que a chama, e ela não o reconhece, continuando a andar como um zumbi.
Quanto às saídas narrativas, aos macetes que os roteiristas, um deles o próprio Truffaut, usaram para fazer a história andar, dois que me chamaram a atençâo. Ambos usaram de gráficos, no primeiro caso um mapa e no segundo um jornal fixado num lugar de acesso público. No caso do mapa, vemos a imagem de águas, que seriam de um navio em alto mar, tendo ao fundo um mapa, mostrando o deslocamento da correspondência de Adèle aos pais da América para a Europa; no caso do jornal narrando a morte da esposa de Victor Hugo e outra notícia, um pouco mais acima, informando da mudança do local onde estaria baseada a infantaria do qual Albert faz parte, no caso, para a África. Há um corte e ficamos sabendo assim, graças a elementos narrativos simples mas extremamente eficazes, para onde rumaria nossa agora totalmente insana e patética Adèle, uma figura que nos remete à Ofélia, de Hamlet.
A caracterização da protagonista, como disse, é convincente. Adjani nos deixa apaixonados, tontamente enlevados por sua fragilidade e ao mesmo tempo sua ousadia, que logo se torna uma faceta da loucura, da obsessão. Intuímos qual será seu fim. Mas – aqui entra o grande artista, o grande narrador – somos persuadidos de que de fato estamos diante de um ser fictício complexo, cheio da fúria e da ânsia do viver e cujo destino, ainda que possamos prever, ainda assim nos dá a esperança de que terá uma saída para fora do labirinto em que se encontra.
Elogiar Truffaut é muito fácil. Muitos já fizeram. Seus filmes são realmente apaixonantes. Mas o que é fascinante na arte, seja qual for, é a possibilidade justamente de, cada um à sua maneira, sentir as ressonâncias que só os gênios conseguem despertar em nós. Reconhecer o talento do diretor francês, que sabia tudo e mais um pouco de sua arte e ter acesso a ela nestes tempos superficiais que vivemos, é um exercício de sensibilidade que só nos desintoxica dessa épóca de cinema padronizado, de pensamento estandardizado. Sensibilizar-se com seus filmes, hoje em dia, revendo-os ou tendo acesso a eles pela primeira vez, é quase uma questão de sobrevivência mental.
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Este texto foi escrito em 23 de dezembro de 2009 e sua publicação, agendada automaticamente. O autor está viajando e só retorna na segunda semana do novo ano. Um ótimo 2010 a todos.
“Quem tem medo de Virginia Woolf?” (de Mike Nichols, 1966): o potencial destrutivo das palavras exposto de maneira crua.
Há filmes que nos fazem “entrar” neles, ficar colados às personagens, vivenciar seus dramas, sofrer, rir e ter um vislumbre de nós mesmos, sobretudo de
nossas próprias mesquinharias e defeitos mil. Representar um naco da vida, expor os sentimentos extremos, nos fazer olhar dentro de nós mesmos: o teatro grego, lá nas suas origens, já fazia isso, bem sabemos. O conceito de catarse, segundo o ponto de vista da tragédia grega, é a purificação, uma espécie de faxina mental que fazemos ao observarmos nossos conflitos interiores representados num drama. Ao vê-los ali, obtemos uma perspectiva crítica e podemos, assim, repensar nossas atitudes e muito da nossa visão das coisas. Ampliemos a definição e a adaptemos ao cinema, essa arte hoje em dia cada vez mais técnica e cheia de efeitos especiais – o que não vem a ser necessariamente algo negativo, pelo menos no que se refere ao cinema de entretenimento – e que pode, quando realmente assim deseja, expressar o vasto mundo interior do ser humano e iluminar as áreas sombrias de nossa psique. Quando um filme nos coloca face a face com o que há de pior em nós, quando somos forçados a compartilhar o desnudamento frio e sincero de vidas que se pautam pelas aparências; quando uma obra cinematográfica nos coloca em contato direto com diálogos que ferem, palavras que envenenam, gestos que humilham, silêncios interiores que dissecam a alma humana; quando, por fim, ficamos constrangidos com o que há de vil em nós – pela via da representação dramática de outros seres –, quase sempre em estado de potência, temos a certeza, então, que estamos diante de uma obra atemporal e universal.
Quem tem medo de Virginia Woolf, de Mike Nichols (A Primeira Noite de um Homem e Closer -Perto Demais), em duas exatas horas de duração, nos faz ter a impressão que estamos ali, bem próximos de toda aquela ação, que não é exatamente ação, mas mais precisamente às voltas com as palavras e seu potencial devastador. Como naqueles versos de Cecília Meirelles (“Palavras, palavras, que estranha potência, a vossa!”), saímos daquele universo ficcional certos de como as palavras podem revelar o interior de quem as usa e expor o que há de mais sujo nos relacionamentos, desvendando toda a teia de pequenas mentiras e fachadas que estão implícitas em nossa convivência social. Saímos dali exaustos, terrivelmente exaustos. Mas enriquecidos, na mesma proporção.
Um casal de meia-idade, George (Richard Burton) e Martha (Elisabeth Taylor), sai de uma festa às duas da manhã e volta para casa, que fica no campus de uma universidade. Ele, professor, ela, filha do manda-chuva da tal instituição, ambos chegam e começam o que então parece ao espectador um daqueles inofensivos duelos verbais que tantos casais gostam de ter. Ela diz a ele que em instantes chegará um jovem casal. Ele mostra seu desagrado com a notícia. Mas ela diz que seu pai, o chefe de seu marido, pediu a eles para serem simpáticos com os visitantes.
E eles chegam, e já na porta percebem a troca áspera de palavras entre o casal anfitrião. Nick (George Seagal) e Honey (Sandy Dennis) logo percebem o quão exótico e ao mesmo tempo um tanto assustador é aquele casal mais velho. A anfitriã insiste em humilhar o marido na frente dos visitantes e começa a se insinuar ao atraente e educadíssimo – pelo menos no começo – Nick, também professor na universidade. Sua esposa, a tolinha Honey, percebe mas finge que está tudo bem. A ação toda se passa nessa madrugada. E como bebem, aqueles seres! A bebida é um catalisador, uma espécie de mecanismo que dispara e potencializa as falas, que são o que movem a história. Como nas peças e contos de Tchekhov, nada acontece. Pelo menos não no sentido das ações grandiloquentes. Mas muita coisa está acontecendo no mundo interior das personagens, das palavras que são como dardos invisíveis, ah, como está!
E o que vemos é, num crescendo, a luta, o duelo, a carnificina, a guerra total entre aquele casal que recepciona seus visitantes. Estes últimos, também constatamos, tem lá seus podres. E estes, os podres de todos, são expostos impiedosamente ao espectador.
Baseado na peça homônima de Edward Albee, o filme deu o que falar naqueles anos sessenta. A linguagem, vulgar muitas vezes -para a época, frisemos -, a menção à sexualidade, ao adultério, às consequências do alcoolismo, aos vários conflitos humanos, muitos nunca expostos, grosso modo, por Hollywood até então, fez com que o filme alcançasse um sucesso, assim como a peça alguns anos antes, baseado justamente nesse potencial de levantar questões vistas como tabus na sociedade americana daquele tempo. E naquele mesmo ano, Bergman lançava Persona e Antonioni o seu Blow Up, filmes também polêmicos. O do diretor sueco talvez tenha alguns pontos em contato com o filme de Mike Nichols no desnudamento de almas. Desnudamento esse que se dá por meio das palavras.
Quem tem medo de Virginia Woolf está abarrotado de diálogos. Prepare-se, se você ainda não viu, para a charada que está implícita -e cuja resolução só virá na cena final, ainda que haja como “matá-la” um pouco antes- naquele mar de palavras pronunciadas com as mais variadas das entonações. E no quesito “interpretações”, o que vimos é uma briga de titãs: de um lado, uma Elisabeth Taylor que engordou muito para o papel de uma megera envelhecida – e a atriz tinha ainda trinta e poucos anos- e um Richard Burton perfeito, soberbo. Seus papéis demandam muito talento e muita técnica para que aqueles seres complexos, cheio de nuances, críveis, realistas mesmo, possam ganhar força, como de fato fazem, na tela. Foram das mais fascinantes interpretações que já vi na minha vida, com toda certeza. É de se ficar basbaqueado com Taylor, que é magnética, que nos deixa tontos com tantas camadas, com tantas facetas de sua Martha. Não menos surpresos ficamos com as transições sutis, que vão da arrogância ao humor e à ironia mais debochada, à comiseração, à raiva, à admiração, da personagem de Burton, aquele professor, aquele intelectual que, quando começa para valer a responder às provocações de sua esposa, o faz com o empenho, com perdão da expressão e da imagem, como um urubu entre os restos de um animal em putrefação. Não há limites para a violência das palavras que ele despeja, que ele dispara. E nem os visitantes passam incólumes à sua metralhadora verbal, ao seu cinismo e ao seus jogos de palavras engenhosos.
Quanto ao título, muitos podem se perguntar o que a escritora inglesa Virginia Woolf tem a ver com o enredo. Na época em que a peça foi escrita por Edward Albee, havia o desenho animado da Disney “Os Três Porquinhos”, cuja música-tema -baseada numa canção de domínio público muito conhecida – era Who’s afraid of the Bad Big Woolf? Para não entrar em conflito de direitos autorais, trocou-se a letra. O dramaturgo chegou a pedir autorização ao viúvo da escritora. E a canção alterada virou uma brincadeira entre os universitários. E é cantada algumas vezes. No início, é uma brincadeira. No fim do filme, tem ressonâncias dramáticas e existenciais.
A fotografia em preto-e-branco, ousada para a época, é de fato lindíssima.
Há muito mais o que falar. Mas paro por aqui. Se você ainda não assistiu a esse clássico, corra e veja. Você mudará sua concepção do que são personagens de ficção bem elaborados, diálogos certeiros e interpretações mais do que convincentes.

“Ken Park”, 2002, de Larry Clark: não é um pesadelo; a vida pode ser pior.
O filme tem apenas 90 minutos. Mas é o suficiente para o espectador ter a mais das idílicas sensações: a de que sua vida, comparada com aquilo que acabou de ser mostrado ali, é de uma paz só. Uma sensação efêmera, por bem da verdade.
O plano-sequência inicial já dá mostras do que virá pela frente. O adolescente Ken Park passeia com seu skate pelas ruas de Visalia, pequena cidade da Califórnia. Som de rock pesado. Chega até a praça dos skatistas, faz algumas manobras. Senta no alto de uma rampa, tira sua mochila. Dela, saca uma filmadora. Filma a si mesmo. Tira uma arma, olha para os lados. Fica pensativo. Com ar blasé aponta para a cabeça. Dá um sorriso. Câmera lenta. Disparo da arma. O tiro lhe atravessa o crânio. Seu corpo desaba. Tudo ali mesmo, naquela manhã ensolarada, no meio de vários outros jovens distraídos em seus skates. Tudo muito natural.
Shawn, Tate, Claude e Peaches: três garotos e uma garota. Cada um, em seu universo particular, vive sua vida apática.
Shawn transa com a mãe de sua namorada, Tate só sabe se masturbar e viver às turras com os avós, que o criam, Claude tem um pai machista e uma mãe quase omissa e Peaches é surpreendida pelo pai, cristão fundamentalista, transando com o namorado.
Vidas em ciranda, famílias disfuncionais, jovens vidas jogadas no lixo e o sexo sendo o fio condutor, uma espécie de válvula de escape, juntamente com as drogas e a bebida, para as frustrações. E que frustrações!
Depois de assistir a esse verdadeiro torpedo, a essa bomba com efeitos retardados, a gente se dá conta de que a arte, mesmo aquela que busca retratar com realismo assombroso a vida como de fato ela é, pode, por vias tortas, nos colocar num patamar de pura reflexão. Um filme que nos leva inevitavelmente a uma tomada de consciência, ainda que tal expressão soe moralista. Mas não se trata de moralismo. E a tal da tomada de consciência em questão é a constatação de que somos, quando expostos às mais deletérias das condições, meras marionetes da libido, da violência e de todo um rol de condicionantes.
E o pior que, ao contrário de um pesadelo, nem podemos dizer que a realidade é bem diferente do que vemos nesse filme. Não é. Só os ingênuos pensam assim
“A Última Noite de Boris Grushenko” (“Love and Death”, Woody Allen, 1975): o humor fino, mesmo com pastéis.
Um amigo diz que não gosta da fase pastelão do diretor norte-americano, pois em sua opinião seria uma versão gringa de “Didi Mocó”…
Achei graça na coisa.
Mas não concordo. Woody Allen é um artista tão completo que é daqueles que mudaram tanto e se aperfeiçoaram notavelmente em sua arte que com eles só podemos ficar basbaqueados por reunirem tantos talentos. E já estão na estrada há muito tempo. E quem deve ter se inspirado, mas não aprendido muita coisa, foi o tal do eterno trapalhão, constatação só reforçada sobretudo quando se assiste a dois minutos de seu programa atual…
Abrindo parênteses. No caso do diretor de Hannah e suas irmãs, acho que o termo “pastelão” não é pejorativo. Quando se sabe aquilo que ele iria criar, os filmes que ele iria dirigir, é ótimo constatar o quão essa fase de humor escancarado serve de contraponto a seus filmes “sérios”, fazendo com que esses últimos sejam apreciados por sabermos que por trás deles está um artista tão multifacetado e que sabe tudo de seu metiê. Parênteses devidamente fechados.
Bananas e O Dorminhoco, outros de sua fase mais antiga, me fazem rir e gargalhar cada vez que os vejo. É realmente coisa de gênio o humor, as caras, as gags, os diálogos redondos, as saídas visuais que ele bola, as citações a filósofos, escritores, artistas em geral, tudo tão fluido, tão deliciosamente amarrado em roteiros cerebrais, ainda que tenham a intenção de nos divertir, que estão num patamar artístico elevadíssimo. E como nos divertem!
O enredo se passa no início do século XIX, no auge das guerras napoleônicas. Na Rússia czarista, Boris (Allen) é mandado para a guerra para “matar quantos franceses puder”. Diane Keaton está como sempre inspirada. Seus diálogos com Allen são hilários, mas para poder fruí-los na íntegra é bom conhecer uma coisa ou outra de filosofia…
Narrado em voz off, pelo próprio Boris, que foi condenado à morte por tentar assassinar ninguém menos que Napoleão Bonaparte, há citações espalhadas de Sergei Eisenstein (Outubro e O Encouraçado Potemkin) e sobretudo Ingmar Bergman e seu O Sétimo Selo, diretor, aliás, que é um dos ídolos do velho Woody. Para ser mais preciso: a cena inicial e a final são uma piscadela bem humorada a esse filme do mestre sueco.
“Short cuts”, Robert Altman, 1993: instantâneos de vidas que se cruzam.
Baseado em contos de Raymond Carver, o longa que se propôs a ser um painel da vida norte-americana no início da década passada, já se tornou um clássico. E muitos roteiristas e diretores foram por este filme de 3 horas influenciados nestes anos todos. Só para citar um: “Magnólia”, de Paul Thomas Anderson, de 1999.
E a influência se deu naquilo que no jargão de roteiristas ficou conhecido como “multiplot”, ou, em bom português, e simplificando bem as coisas, os enredos múltiplos, que se cruzam. O risco de se perder a mão é grande. Mas, como no caso de Altman, quando se trata de um diretor que conhece do traçado, a coisa ganha proporções de obra de arte.
Vidas que se cruzam, desenvolvimentos simultâneos de conflitos e de perfis de personagens, um verdadeiro mosaico de seres humanos perdidos em suas mesquinharias, patifarias, sonhos, frustrações, medos, fobias, traumas, pequenas felicidades etc: é o que vemos em 180 minutos que mal percebemos passar. O desfecho, apoteótico, no qual deságuam todos os outros núcleos dramáticos, é a assinatura de um mestre. Famílias disfuncionais, pais e mães ausentes, a busca desenfreada pelo prazer, da libido ou não, filhos e filhas mortos em vida, jogos de aparências, o desvelamento da hipocrisia que perpassa os relacionamentos humanos, pequenas maldades, a inveja, o descaso, humor, dissimulações, falsas pistas para desvendar personagens, tudo isso faz com que este filme seja mais do que indicado para todos que querem não apenas conhecer o atual American way of life mas, indo mais longe, ter um vislumbre – sem conceções ao falso moralismo, ao puritanismo e à praga do politicamente correto – da vida em sociedade. Seja ela qual for.
Neste exato instante, pulverizados pelo mundo afora, muitos daqueles dramas estão acontecendo. Robert Altman, revisitando os escritos de Carver, um cara que escrevia de forma seca e que radiografou com precisão o mundo e os “seres pensantes” que nele habitam, nos brinda com um filme merecidamente considerado uma das obras-primas do cinema da década de 90. E das que vêm pela frente também.
“Naked Lunch”, de David Cronenberg, 1991: quando o surreal encontra o existencial.
Escritores em crises de criatividade, os famosos “bloqueios’”, já foram muito retratados em filmes e peças de teatro. Mas o que diretor canadense David Cronenberg faz em “Naked Lunch” (no Brasil: “Mistérios e paixões”, um título bem “nada a ver”), baseado no clássico homônimo do beatnik William Burroughs (1914-1997), é uma metáfora alucinada daquela experiência de encarar a página em branco e simplesmente “travar”. Viagem psicodélica, drama existencial, narrativa empolgante, seres frutos do mais puro desligamento daquilo que poderia ser chamado de “realidade”, surrealismo, figuras fálicas, vício em psicotrópicos, criação de uma atmosfera kafkiana (e Kafka é literalmente citado por uma das personagens), tudo isso com um fundo de jazz acidental (com o sax de Ornette Coleman, criando uma aura onírica e meio decadente na caracterização da atmosfera) que só torna este filme um cult, baseado numa obra cult, de um autor não menos cult, ainda que “maldito” e, para muitos, um verdadeiro pária literário. Lances autobiográficos, como a “brincadeira” à la Guilherme Tell, com consequências trágicas, estão ali.
O escritor Bill Lee (alter ego, obviamente, de Burroughs, interpretado por Peter Weller) em crise, exterminador de insetos, passa por maus momentos no trabalho. Sua esposa (Judy Davis) se torna viciada no produto que ele usa para matar baratas. Ela começa a ter alucinações e leva o marido a experimentar. Ele o faz e vem a conhecer um inseto falando durante aquilo que seria pura alucinação. O ser bizarro tenta o convencer a matar a esposa, que seria uma inimiga infiltrada. Por engano (será mesmo?), ele mata a esposa ao tentar alvejar um copo sobre a cabeça dela. Sua máquina de escrever se transforma num monstro falante. Então, desiludido, passa a viver numa região chamada Interzone e entra em contato com seres de comportamento estranho e meio mafiosos. Ali, naquele universo surreal, ele terá uma chance de rever e resgatar sua esposa. A cena final, no entanto, traz uma surpresa frustrante…
Aí está um resumo do enredo. Ainda que muito superficial.
É aquilo tipo de filme que exige do espectador uma abertura total. Do contrário, dez minutos de projeção farão qualquer Descartes ter acesso de raiva.
Tem um ator que rouba a cena: Ian Holm, no papel de um dos mais bizarros personagens que vi no cinema: Tom Frost. Sua interpretação, apesar de não ser extensa, é intensa, perfeita e digna de um ator. Ator na mais pura acepção da palavra.
Gostei. Entrei na onda do diretor. Apesar de não ter lido o livro do Burroughs, e talvez justamente por isso, uma vez que eu não tinha expectativas no que se refere àquilo que o diretor poderia descartar ou não do romance beatnik, sei que foi uma aproximação do universo literário alucinante de um escritor que tirou, da própria crise criativa, elementos para criar a obra em si. Coisa na qual os grandes criadores são mestres.
P.S.: Dois dos grandes diretores da atualidade, continuadores, a seu modo, daquilo que Buñuel e Dalí fizeram décadas atrás, têm o mesmo prenome: David. O Cronenberg e o Lynch. E muitos momentos desse filme me fizeram lembrar de um longa do diretor norte-americano. Por exemplo: aquelas criaturas bizarras em “Naked Lunch” me remeteram diretamente ao bebê-monstro de Eraserhead. Curiosidades…
Carta aberta a Ingmar Bergman.
Caro Bergman,
Sei que estás pairando por aí em algum lugar da tua querida ilha de Farö.
Falemos, aqui, daquilo em que fostes um mestre: o cinema.
Tu deves ter falado com o grande Michelangelo Antonioni, que partiu no mesmo dia que ti (dizem que vós combinaste e até jogaste uma longa partida de Xadrez), sobre a decadência do cinema que vós tão bem representastes: o cinema de autor, o cinema que nos faz pensar, que nos deslumbra e que é um estímulo ao nosso senso estético e intelectual. E por favor, manda saudações ao inesquecível Tarkovski, outro da tua turma de cineastas pensadores-filósofos-poetas.
Sim, Ingmar, a situação do cinema que vós três fazíeis é deveras triste. Quase nenhum diretor da atualidade tem a intenção de perder os polpudos lucros das bilheterias. Sei, eu sei, caro Mestre, qual é a desculpa que eles constantemente dão: a de que o cinema é uma indústria e precisa de lucros, pois é isso que a move. Como coisa que no teu tempo o cinema era uma indústria beneficente…
O que falta na cabeça destes autores de cinema e roteiristas? Será que não surgirão vossos seguidores? Isso é saudosismo? É falta de maturidade intelectual? É falta de senso de progresso quanto àquilo que o cinema representa hoje?
Quando da morte física de ti e do Antonioni, críticos escreveram que vós fostes os últimos representantes de uma era, pode uma coisa dessas?
Como se ver o cinema não só como uma indústria mas como uma arte que busca atingir o universal, ainda que girando em torno de temas locais, fosse uma ideia datada, algo pertencente a uma outra era distante da nossa.
Caro Ingmar, já assisti praticamente a todos os teus filmes e aos do Antonioni e todos os do Tarkovski. Não quero nem nunca quis ser especialista em vossa obra ou de quem quer que seja. Mas o fascínio que o cinema dos senhores exerce sobre mim só me faz cada dia louvar e divulgar mais e mais o fruto de vosso labor artístico: vossos filmes (que estou sempre revendo, em vez de ir assistir, salvo raras exceções, aos filmes da atualidade que estão em cartaz), tão diferentes, sim, mas unidos que são no propósito de nos enlevar, edificar (não no sentido, perdoa-me pela vulgaridade da palavra, “careta”) e nos trazer questionamentos de nossa própria condição humana. Bergman, Antonioni, Tarkovski e, agora, um diretor que também estou descobrindo: Valerio Zurlini. Eis a tropa de choque dos cineastas-pensadores.
Espero que vossos seguidores ganhem voz e consigam furar esse e$quema que cria em série arremedos de cinema que enchem as bilheterias e que enganam milhões ao redor do mundo ao fazê-los crer que estão consumindo cultura, quando na verdade são apenas correias de transmissão do pensamento padronizado, uniformizado, fútil e imbecilizante.
Descansa na tua paradisíaca Farö, Ingmar Bergman. E não te esqueçe de nós.
De um agnóstico, como tu.
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A primeira de quatro partes de um documentário da BBC sobre o diretor sueco:
Ode à vingança, segundo Quentin Tarantino.
O roteiro notável, próximo da perfeição, de “Bastardos Inglórios” consumiu de Tarantino dez anos. E valeu pela espera. Tudo bem arramado, os quatro capítulos iniciais convergindo para o quinto, o ápice, o desfecho surpreendente.
Brad Pitt com seu personagem com sotaque do Tennessee está já naquela antologia das grandes atuações do cinema. Só que seu antagonista, o ator alemão Christoph Waltz, com seu personagem Caçador de Judeus, consegue a proeza de se fixar de forma mais perene no inconsciente do espectador do que o astro americano. E isso não é nenhum demérito para Pitt, pois o desempenho do ator da terra de Hitler é simplesmente sensacional: nada estereotipado e cheio de nuances que em certos momentos, efêmeros, na verdade, faz com que o espectador nutra por ele uma certa simpatia. Falando no Führer, não podia faltar na imaginação deliciosamente delirante de Tarantino, esse que entrou para o inconsciente coletivo como a encarnação do mal supremo: o líder nazista, numa liberdade poética, digamos, do diretor, e que tem sua aparição e seus trejeitos imitados à perfeição, tem um destino cruel nas mãos do diretor americano. A cena na qual Hitler é metralhado (isso, Quentin, realiza nosso desejo de vingança!) pelos capangas do personagem de Pitt está entre aquelas reinvenções mais geniais que já presenciei. Nosso desejo, nesse momento, ao ver o líder nazi ser metralhado num cinema lotado numa Paris ocupada, é a sensação suprema que o cinema nos proporciona: a liberdade de criar um mundo de ilusão, de fantasia, que só para alguns parece incompreensível ou, o que é pior, um erro factual.
A próposito, havia um casal de idosos ao meu lado. Ao final, o senhor disse, parece que todo orgulhoso, algo como "Não era Hitler, era um sósia!"…
Fazendo parênteses. Acho que o apego excessivo aos fatos é uma coisa que impede muito a fruição de um filme, de um livro, da arte, de forma geral. Acho que aquele senhor esperava um tipo de filme mais para documentário do que para a obra de um diretor polêmico, irrequieto, irreverente e inventivo como é o diretor de Pulp Fiction e Cães de Aluguel. Pobre senhor (que pouco antes da exibição falava frases em inglês para a mulher, provavelmente sua esposa. Ela, por sua vez, passou toda a aparição dos créditos repetindo os nomes!!!), alguém deveria ter lhe ensinado alguma coisa sobre Tarantino…
A violência está lá, tarantinamente inimitável. Estilização da crueldade e brutalidade humanas, para alguns. Para outros, o talento inegável para captar aquela brutalidade toda e filtrá-la de uma forma que só o cinema consegue fazer. Trilha sonora de filme de Tarantino é um lugar-comum elogiar. Sua intuição absurda para casar imagem e som, cena e música, o fato narrado com uma roupagem sonora que em tudo combina, é coisa de gênio: algo que parece tão "no ponto", tão bem dosado, que a gente chega a se espantar se alguém tirasse dali alguns daqueles elementos!
A sequência inicial de tirar o fôlego; as cenas nas quais em questão de minutos vamos do sublime ao horripilante, como a cena da cabine de projeção, durante a qual a personagem proprietária do cinema mata um nazista e (sentimos perfeitamente) sua consciência a acusando: por fim ela demonstra um resquício de comiseração por aquele moribundo que emite um sussurro de quem está nas últimas. Ao se aproximar dele, ela é alvejada mortalmente… Tudo isso em slow motion e com a trilha que parece que estava lá desde a invenção da trilha sonora no cinema!
A cena final é de uma ironia bem de Tarantino. Ele nunca é convencional, mesmo quando parece estar sendo.
Outro dado interessante é a usina de citações cinematográficas que Tarantino conseguiu encaixar no roteiro. Foram tantas as pistas que esse diretor fissurado por cinema nos deixa esparramadas pelo longa…
Um filme de guerra que já foi feito sob o signo da universalidade. Universalidade só acentuada pelo tema que perpassa todo o filme: o da vingança. Segundo o próprio Tarantino tão bem acabou de dizer numa entrevista: o que nos move, mais do que o amor, é a sede de vingança. Seja ela sob a forma impactante de um escalpe, seja mais "amena", sob a forma de um desejo de superação para suplantar, por exemplo, uma grande humilhação.
Além de tudo, Tarantino é filósofo!
Imperdível!
Só espero que você que lê este texto e que ainda não tenha visto esse filme seja mais sortudo do que este pobre mortal e tenha como vizinho de cadeira no cinema senão um André Bazin, ao menos alguém que saiba captar as ironias e a liberdade criativa de um dos grandes diretores da atualidade. Ou, melhor ainda, fique calado durante a sessão.
Me esqueci do Ang Lee!
No post abaixo em que escrevi sobre meus objetos de desejo fílmico (sic!), acabei por esquecer também de mencionar o longa do Ang Lee, “Lust, Caution”, cujo título em português ficou sendo “Desejo e Perigo”. A história da chinesa que se envolve num complô para seduzir e matar um figurão da política durante a Segunda Guerra é filmada, pelo que li, de uma forma competentíssima e envolvente pelo diretor chinês. Cenas de sexo para lá de tórridas entre o ator maduro e a jovem atriz causaram um grande alvoroço na época, dois anos atrás e só agora estreando no Brasil. Está passando no Reserva Cultural, em São Paulo. Me matem mas que eu vou vê-lo antes, ah, se vou.
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Neste fim de semana tem Festival da Mantiqueira – de Literatura – em São Franscisco Xavier. O Veríssimo e o Loyola virão (o verbo “vir” faz todo sentido: S.F.Xavier é um subdistrito de São José dos Campos, para quem não sabe). O primeiro vai falar sobre Poe e a literatura policial. Vou tentar descolar um autógrafo, uhuuu!!! Mas será bizarro: um tímido tentando um autógrafo de outro não menos tímido…
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Começando a ler “A Peste”, do Camus. Em seguida, esperando na prateleira estão: “A Queda”, também dele, e “Novelas nada Exemplares”, do Dalton Trevisan, o Vampiro de Curitiba.
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Revi agora há pouco ”1984″, o filme baseado no Orwell. Estonteante. Quando acabou, respirei aliviado, tratei de arrumar um tempinho e correndo vim escrever aqui neste meu querido blog. Nada como a liberdade de expressão. Vendo aquela distopia, a gente percebe que, apesar de tudo, a liberdade de pensamento é algo valioso demais para ser desperdiçado. Relativizemos: mesmo que “liberdade de pensamento/expressão” seja, como no caso destas mal-traçadas neste post, simplesmente falar de filmes que se deseja ver, livros que está se lendo, etc. Mas vai tentar fazer isso na Coréia do Norte, meu, vai…
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Por falar em Coréia do Norte: aquele louquinho (em vez de ser uma forma carinhosa, o diminutivo é mais para retratar a dimensão diminuta do sujeito) do sátrapa que dirige o país asiático, Kim Jong-il – que é uma sátira grotesca da personagem já satirizada, Dr. Strangelove, do Kubrick -, ainda vai dar um trabalhão para o mundo. Palavra de quem previu a eleição do Obama com quase um ano de antecedência: eu mesmo, feito que tenho que divulgar aos quatro cantos do planeta. Afinal, Kim Jong-ilzinho, tá pensando que só tu tens mania de grandeza, ô tampinha? hehe…
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Hoje é aniversário de dois anos dos meus sobrinhos, Glenda e Nícolas, que está bem resfriado…
Ok, seus dois gêmeos mais diferentes que já vi – ela, tão delicada e cuidadosa, ele, pura energia e impetuoso -, o tio de vocês vai comprar seus presentes de tarde, sim? Calma, calma… Happy birthday!!!
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E vou dormir, já que ouço galos imaginários cantando. Hoje só dou aulas à noite. Para quem fica, adeus!
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Ao som de Buddy Guy, Damn Right I’ve got the blues e Stevie Ray Vaughan, Pride and Joy.
Meus dois objetos do desejo atuais: os novos Lars von Trier e Michael Haneke.
Sei que vai demorar um pouco, mas já fico empolgadíssimo para ver estes dois filmes: “O Anticristo”, do Lars von Trier e o vencedor da Palma de Ouro em Cannes este ano: “Das Weisse Band” (” A Fita Branca”), de Michael Haneke, cujo “A Professora de Piano” é uma síntese do cinema intenso e inconfundível deste diretor.
Bem, “O Anticristo” foi vaiado em Cannes. Isso não diz muito: basta lembrar de “A Aventura”, filme de Michelangelo Antonioni que nos idos de 60 também foi achincalhado (O filme, não o diretor). Hoje é um clássico…
O que o diretor dinamarquês faz neste filme é de uma loucura criativa estonteante, pelo que li nas últimas semanas. É filme para torcer o estômago! Quem já viu outros do mais aclamado diretor da terra de Hamlet sabe que ele não faz concessões. Tudo bem: não falemos nada sobre o ego do dinamarquês, ok? Aguardemos o filme dele. Aliás, seria o título baseado em Nietzsche? Sabe o que ele respondeu? “Procurem o sentido que quiserem. Minha parte é criar”. Foi mais ou menos o que ele tascou numa entrevista em Cannes…
Quanto ao Haneke, perguntaram a ele na coletiva o quão seu vitorioso filme lembrava Bergman, sobretudo o Bergman de “O Ovo da Serpente”. A comparação procede pela semelhança temática: ambos diretores procuraram retratar a gênese do mal. O sueco voltou mais sua câmera para a formação do nazismo, o pano de fundo que estaria na base do totalitarismo e das idéias infames arianas.
Já Haneke, como ele mesmo desconversou, dizendo que fizera um filme hanekiano (simples assim), procurou ir mais fundo e retratou uma vila na Alemanha por volta da Primeira Guerra. Ali, naquele caldeirão, ele mostra a fábrica de intolerância humana. Crianças criadas num ambiente castrador, absolutista, tornam-se seres “sem alma”, prontos para cercear a liberdade alheia. O absoluto, nos ensina Haneke numa entrevista recente, só pode causar asco por tudo que vá de encontro com a ladainha segundo a qual o mundo é de uma forma e tudo tem que se encaixar ali. Não há espaço para contestações relativistas…
A fotografia em PB, ainda segundo o diretor, estaria em consonância com as imagens de arquivo daquela época tão negra da humanidade. Haneke é craque em retratar a violência: neste filme, ele também a mostra, mas num sentido mais profundo, sufocante, sutil, ainda que não menos horripilante: nada mais nada menos do que na alma humana. Onde ela costuma fazer mais estragos.
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“O Anticristo”, de Lars Von Trier: vaias, apupos e muita incompreensão em Cannes.
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“Das Weisse Band”, de Michael Haneke: todos os louros (com uma ajudazinha da Huppert?) e mais um pouco.
David Lynch e sua usina de personagens.
O mais “hermético” dos diretores, segundo alguns; para outros, o mais fascinante; e ainda há quem o ache uma farsa. Independentemente das opiniões, extremas ou não, a verdade é que ninguém fica indiferente ao universo lynchiano. Sempre pronto a nos incomodar, nos tirar do marasmo, e um mago na arte de fazer do cinema mais do que uma convenção narrativa gasta e enfadonha, em seus filmes entramos em contato com o inusitado, o surpreendente na natureza humana. Sem entrar em outros aspectos, claro.
Pois bem. A partir de segunda-feira próxima, 1° de junho, durante exatamente um ano, o diretor americano nos brindará com 121 curtas nos quais entrevistará (e se tratando de David Lynch, tal verbo significa muito mais do que aquilo com que estamos acostumados) pessoas anônimas pela América profunda. Será uma oportunidade única para conhecermos pessoas interessantes, outras, à primeira vista, nem tanto, mas todas com uma riqueza humana surpreendente. Poderemos afinar nossa capacidade de análise e percebermos o quanto o cinema pode nos colocar em contato com dimensões singulares e por isso mesmo reveladoras de nossa condição. Para quem entende bem o inglês e se interessa pela gênese de personagens, e por outros motivos, claro, será imperdível. O projeto se chama Interview Project e o site está aqui.
Palavras do próprio diretor no vídeo de apresentação:
“É um projeto pé na estrada, onde as pessoas foram sendo encontradas e entrevistadas. A equipe achou essas pessoas dirigindo pelas rodovias, indo a bares, em lugares diferentes. É tão fascinante ver e ouvir essas histórias. É uma chance de conhecer essas pessoas, é algo humano, que você não pode deixar passar.”
Mudo, mas como é expressivo! Friedrich Murnau e sua (surpreendente e atualíssima) alegoria da degradação.
O cinema alemão já teve seu auge, bem antes do Novo Cinema de Fassbinder, Werzog e Cia: foi nos anos seguintes à Primeira Guerra Mundial. A Alemanha fora humilhada pelos seus vencedores. Foi uma crise profunda, que propiciou o surgimento de um caldo de ressentimento que deu cria a toda uma geração de pústulas medíocres chamados de “nazistas” e sua ideologia cretina, bem como de seu porta-voz e principal “agitador”: sabem a quem me refiro aqui. Se as ideias de Nietzsche estavam sendo distorcidas então, uma crise galopante correndo solta, o sentimento de desalento atingindo a maior parte dos alemães, pois bem, se tudo isso estava gerando uma ideologia nazi, por outro lado alguns desses ingredientes também estavam ajudando a fermentar aquele “movimento” que ficou conhecido como Expressionismo Alemão. Mais que um movimento, ele foi, na verdade, um estado de espírito e uma reação àquele estado de coisas.
O Expressionismo foi também, por falar em reação, uma “resposta” ao Impressionismo. Começando nas artes plásticas, logo passando para a literatura e chegando ao cinema, aquela visão de mundo calcada no Expressionismo legou a todos nós uma série de obras até hoje provocativas e inigualáveis. No cinema, sobretudo, atravessou as fronteiras germânicas e chegou aos quatro cantos do mundo.
No início da década de 20, enquanto os americanos se esbaldavam nos salões da Era do Jazz, mal pressentindo o pior que estava por ouvir, e os franceses viviam sua belle époque, no país de Goethe a “febre” era outra: a arte buscando retratar a vivência do artista, sua reação ao factual. Em suma: buscava-se uma maneira que expressasse aquilo que se vivia em termos materiais. Longe de ser uma fuga da realidade, era uma forma que os artistas encontraram para subverter, via arte, um estado de ânimo deprê: aquele ritmo desumanizador e febril de vida, que quase “triturava” os seres, que lhes negava a fruição plena do momento e que os “engolia” e por fim os descaracterizava enquanto seres autônomos, seres plenos de uma subjetividade. Subjetividade essa então cerceada em nome de uma realidade que eliminava tudo que fosse genuíno, planificando a tudo e a todos.
O artista levaria seu público àquelas vivências interiores, faria dele seu cúmplice. Aquele público iria se identificar em sua obra; identificando-se, haveria o restabelecimento das vias da emotividade e reconfiguração interna. O mundo interior seria “iluminado”: haveria a fruição plena da arte.
Friedrich Murnau, depois de Fritz Lang, foi o mais competente dos diretores alemães que, se vivesse além dos 42 anos, talvez teria feito outras obras geniais. Ele nos legou este “A Última Gargalhada” (1924), mal suspeitando o quão importante seria na história da Sétima Arte. “Aurora” e “Nosferatu”, ambos também inesquecíveis, foram outros de seus filmes.
Era uma vez um porteiro muito cioso de seu serviço em um hotel de luxo. Em seu uniforme impecável e ostentoso, é respeitado pelos vizinhos e familiares. Um dia, o pior acontece, por puro “azar”: após descer malas pesadas no lobby do hotel, numa noite de chuva torrencial, ele senta-se para descansar um minuto apenas e tomar um refresco. O gerente vê a cena e acha que já está mais do que na hora de aquele antigo funcionário ser descartado, pois ele parecia, ao gerente, exausto, sentado naquele banco. No dia seguinte, o agora ex-porteiro é comunicado de forma arrogante por seu superior que será rebaixado para assistente do banheiro dos hóspedes do hotel. Humilhado, aturdido e fora de si, o homem tenta argumentar com o gerente. Este lhe dá as costas, mal notando sua presença. Desolado, o “rebaixado” funcionário, ao ver uma imensa mala a um canto, e já entendendo o porquê de tudo, tenta provar que está em pleno vigor físico. A cena é lamentável: ele cai com a mala, o gerente se irrita, chama um auxiliar que ajuda a levantar o outrora orgulhoso porteiro. Em seguida, ajuda-o a tirar o há pouco tempo precioso uniforme. Arrasado, mal conseguindo levantar a cabeça, ali fica o ex-porteiro, a imagem do desalento mais acabrunhante. O gerente é chamado por um auxliar para atender um cliente. Sozinho, agora, o homem tem a ideia, ao vir uma funcionária prestes a entrar ali, de roubar a chave do armário em que foi guardado o amado e vistoso uniforme, símbolo faz pouco tempo de seu status roubado.
De noite, ele volta e de fato rouba o uniforme. Agora podendo voltar para casa, devidamente uniformizado, como se nada tivesse acontecido, como sempre fazia ao chegar à sua residência. Justamente naquele dia acontece o casamento de sua filha. Sua dedicação ao trabalho é tal que ele preferiu abrir mão de ir à cerimônia na igreja. Ao chegar, a festa está acontecendo. Bebe a noite toda, tentando esquecer tudo. E de fato esquece: chega a ir ao trabalho uniformizado, ainda bastante embriagado.
Os vizinhos, sem nada saber, cumprimentam-no respeitosamente. Ao chegar à esquina do imenso prédio onde fica o hotel, ele vê o novo porteiro a postos. Ele recua, assustado. A ficha cai. Vem tudo à sua memória. Seu mundo desaba. Decide deixar o uniforme numa estação de trem e passa a usar as roupas humildes que recebeu na véspera e que deixou no hotel. Sua mulher vai lhe levar o almoço e descobre, chocada, toda a verdade. Ela volta para casa e conta à filha. As vizinhas ouvem tudo por trás da porta. A notícia se espalha e a partir de então o outrora vaidoso porteiro, ainda usando o uniforme antigo, para manter as aparências na volta para casa, passa a ser desmascarado e zombado por aqueles que há pouco o admiravam hipocritamente. Escorraçado pela família, o amargurado homem, agora arqueado e subitamente envelhecido, passa a noite, depois de devolver o uniforme a um vigia noturno do hotel que se sensibiliza com sua situação, no banheiro onde agora ele trabalha, praticamente escondido. A câmera deixa o protagonista ali, sentado no fundo daquele lugar escuro, de desalento e solidão esmagadores.
História simples, para alguns inverossímil. Mas justamente aí entram o talento e a genialidade: do diretor e seu câmera e do protagonista, vivido por Emil Jennings. Que, aliás, com 40 anos então, no filme parece ter muito mais, tal a caracterização perfeita.
É a história de um homem que, a partir do momento em que perde sua “persona” social, vê seu mundo particular se desintegrar totalmente. Até onde vai a crueldade de um sistema que insiste em ver os seres apenas de forma superficial e como dependente pode se tornar o homem, o ser humano, de uma fachada, de um verniz de civilidade: é ali que nos leva a câmera desbravadora de Murnau.
Os méritos do diretor e de seu colaborador podem ser vistos na absolutamente então novíssima (estamos em 1924!) técnica da câmera não-fixa a um tripé. Era uma das primeiras vezes em que se via tal audácia criativa: a câmera aqui e ali presa ao corpo do cinegrafista: as consequentes “trepidações” conferem um ritmo febril, uma autenticidade incrível e nos coloca “dentro” da cena. Somos conduzidos por aquela câmera que tudo capta e distorce. O mundo posto às avessas é um reflexo do interior do protagonista, também. Mais um exemplo: Murnau fez uma das primeiras sequencias de devaneio, de delírio, no cinema. É quando, após beber à beça, o ex-porteiro “vê” imagens distorcidas, rostos desfigurados, tudo girando: é a “câmera subjetiva” em ação. É quando o protagonista, em seu devaneio alcóolico, se vê no centro da atenção de um grupo de pessoas no que parece ser o lobby de um hotel. Ele ergue com apenas uma mão uma imensa mala que vários homens, juntos, mal conseguem tirar de um carro. Vale lembrar que os expressionistas beberam na fonte de Freud. Ao ”fazer” aquela proeza, portanto, ele, o sonhador, expressava um desejo. Só essa sequencia já faz desse filme, com seus enquadramentos, movimentos de câmera, ênfase na atmosfera vivenciada, entre outros muitos pontos, um antecipador daquilo que outro gênio, Orson Welles, faria dali a alguns anos com seu “Cidadão Kane”.
Outra aspecto notável é que, diferentemente de outros filmes mudos, como os de D. Griffith (dele vi “Intolerância” e “O Nascimento de uma Nação”) e os de Charles Chaplin - este último muito mais expressivo do que o primeiro -, quase não se vê entretítulos, aqueles letreiros que fazem a narrativa “andar”. Esta última é ”tocada” toda em imagens, numa montagem soberba, com ritmo apropriado, sempre num crescendo, nunca monótono. E, claro, pelas feições, gestos e olhares do estupendo Jennings.
O único momento que vimos letras na tela é quando olhamos por cima dos ombros do ex-porteiro a carta lhe comunicando a tristíssima notícia de sua queda de hierarquia.
Aqui finalizo meus comentários.
Mas… esperem. “A Última Gargalhada” poderia terminar aqui, aos 70 minutos de projeção.
Mas não: por imposição dos produtores que acharam a história muito sombria e barra-pesada, lá veio o epílogo mais piegas e mais decepcionante do cinema. Num aviso na tela, nos informam que o diretor “ficara com pena” do pobre do seu personagem, resolvendo, assim, dar um fim “forçado” de tão feliz para ele. Dito e feito: eis o porquê da “última gargalhada” (o título em inglês e em português): ela só poderia ser daquele que sofrera tanto. Ou seja, ele ganha uma herança de um ricaço que morrera nos seus braços, ao passar mal no banheiro do hotel. Ele tinha deixado em testamento a transferência de toda sua fortuna àquele que lhe desse os últimos cuidados. E fora justamente nosso conhecido e derrubadão protagonista. Este, agora irreconhecível em trajes elegantes e com o indefectível charuto, tem uma lauta refeição ali mesmo, na cozinha do hotel onde passara tanto tempo da sua vida. Ele sobe no carro, dá carona a um mendigo e ali termina o tal do epílogo.
Tudo bem: consideremos esse final alternativo nada além disso: um mero apêndice. Torçamos o nariz para esse Deus ex machina. O que vale mesmo é tudo antes desse infeliz epílogo. Que não tira o brilho, a genialidade e a perfeição daqueles primeiros 70 minutos.
Um filme que praticamente prescinde das palavras para contar uma história. Um filme essencial para se entender a evolução do cinema e se enriquecer artisticamente.
Mudo, mas como é expressivo!

Carrière e nosso fascínio pelas histórias.
O gênio humano para inventar e disseminar histórias é fabuloso. De quase todas as épocas, lugares e línguas, as narrativas criadas pela necessidade inadiável de contar, de relatar, estão reunidas neste volume. Roteirista de filmes famosos de Luis Buñuel e Andrej Wajda, o professor de História e escritor eclético, Jean-Claude Carrière, neste CONTOS FILOSÓFICOS DO MUNDO INTEIRO, dá sequência ao projeto que iniciou com O CÍRCULO DOS MENTIROSOS, outra coletânea de contos e narrativas dos quatro cantos do mundo e que ainda não li. Mas os Contos Filosóficos… já me estão proporcionando momentos de puro deleite. Carrière nos reconta, sem literaturatices, aquelas histórias guardadas por gerações, há muitos e muitos anos. Há também outras que ele coletou que são mais atuais. No entanto, antigas ou não, próximas ou não do nosso universo, todas nos levam a uma dimensão especialíssima: não a de simples fuga da realidade. Pelo contrário! Todas têm uma ”pegada” conceitual que extrapola em muito o factual. São relatos dos quais tiramos subsídios para a vida. São, em suma, um lembrete de quão, desde as cavernas quando nossos ancestrais se reuniam ao redor do fogo, dependentes e fascinados somos pela teia de acontecimentos criada pelo gênio humano. Capacidade essa que é universal e atemporal.
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Aqui há uma transcrição de um seminário de Carrière que encontrei no site Roteiro de Cinema. Achei muito interessante a forma com que ele aborda e aprofunda assuntos que na grande parte das vezes não são captados pelo espectador de um filme. O francês entende do traçado!
O ascetismo de Robert Bresson e sua personagem-símbolo da miséria existencial alheia.
Imagine uma história com alto potencial para despertar tristeza, compaixão, senso de justiça, entre outros sentimentos “nobres”. Lembrando que o sentimentalismo, o excesso ou o paroxismo daqueles sentimentos, geral e popularmente conhecido como “pieguice”, é visto com maus olhos em literatura. Com exceção do Romantismo, no qual os arroubos sentimentais dos grandes poetas e prosadores eram a “liga”, a espinha dorsal de um movimento que tinha justamente nos sentimentos nada contidos sua razão de ser, a literatura moderna sempre viu a sentimentalidade como uma persona non grata. Considerado de péssimo gosto, critério certeiro para estigmatizar qualquer prosador que caia no erro imperdoável de cair na fraqueza do piegas, o sentimentalismo é sinônimo de criadores preguiçosos, aqueles que se contentam com o superficial, com o “feijão com arroz” do cardápio temático que tenta retratar a “natureza humana”.
Um poeta como João Cabral de Melo Neto, o típico poeta-pensador, um artista que nunca fez concessões ao sentimentalismo, tem em Robert Bresson, diretor de cinema francês, seu equivalente. Guardadas as devidas diferenças de linguagem, a literatura de Cabral e o cinema de Bresson têm aspectos em comum. A saber: a fuga contínua de qualquer ranço de sentimentalismo; a “frieza” ao retratar seu campo temático; a economia de meios para atingir seus fins; e, claro, o olhar límpido e perspicaz – porque livre das intromissões emotivas – sobre nossa condição.
Voltemos à história acima mencionada. Numa região obscura, pobre e atrasada da França, uma garota “vive” seu inferno em vida. Com a mãe inválida, prestes a morrer, um irmão de apenas alguns dias, um pai e um irmão alcóolatras e contrabandistas de bebidas, que a exploram e não hesitam em humilhá-la, a garota de 16 anos, Mouchette, vê seu destino constantemente a “pisando”. Sempre a colocando num nível de sofrimento que a nós, espectadores, causa mais do que indignação: revolta e o sentimento de justiça.
Sentimento? Sim. Numa história que teria tudo para ser piegas, emotiva, excessivamente condescendente com a canalização de sentimentos que se expressariam à flor da pele, Robert Bresson mostra realmente que é um dos grandes do cinema. Em momento algum ele “perde a mão”. Seus personagens se movimentam num mundo hostil, ninguém ali mostra compaixão com ninguém. Não vemos na reação de Mouchette nada que veríamos num folhetim global: nada de fazer da protagonista um ser dilacerado pela consciência de que é vítima de um mundo hostil ou da ganância alheia. No universo de Bresson, a dinâmica do mundo, com ressonâncias de Kierkegaard, é uma “fábrica” de insensíveis. Os seres que habitam este mundo, esta prisão imensa, seriam inerentemente assim porque as circunstâncias fazem isso deles. A degradação em que vivemos potencializaria em nós nosso lado mesquinho, rude, egoísta e avesso a moralidades, um luxo nas condições precárias deste mundo.
Robert Bresson ficou famoso pelo cinema que a crítica chamou de “minimalista”. Apesar de que ele não gostava muito do termo (basta ler sua obra seminal Notas do Cinematógrafo), com o tempo o termo “pegou”. O diretor, que foi um católico jansenista fervoroso (em que pese a contradição aqui, visto que o jansenismo, com ecos do budismo, prega exatamente uma disciplina do corpo e da mente), apesar desse enfoque religioso, achava que o que vale no cinema são os sentimentos, a reação do espectador, e não o enfoque intelectual(izante).
Daí que “Mouchette, A Virgem Possuída” (de 1967, com o subtítulo ridículo que algum distribuidor tupiniquim achou por “bem” dar) causa em quem o assiste um impacto. Controlador radical de seus conceitos-imagem, o diretor, neste filme especificamente, mostra todo o seu talento quando nos apresenta aquela garota frágil (perdida num mar de brutos), de uma forma equilibrada, sem excessos que teria um diretor demagógico, que faria de tudo para nos chocar, como se a premissa a partir da qual se desenvolve a trama já não fosse por demais “forte”, “pesada”.
A fotografia em preto e branco, a “economia” de cada quadro, de cada ato das personagens, tudo é muito característico de Bresson. Que, aliás, trabalhou muito com atores não profissionais. Quem assistiu O Processo de Joana D’Arc e Pickpocket sabe do que se trata. Ainda que tenha muitos detratores que o consideram por demais frio, cerebral, e que trataria seus atores como se fossem bonecos de corda, uma análise isenta de seus filmes é o suficiente para se desfazer dessa opinião.
Na primeira cena de Mouchette, vemos uma mulher numa igreja, lágrimas nos olhos, como estivesse falando para um confessor: “O que eles farão sem mim? Posso sentir no meu peito. É como se dentro houvesse uma pedra”. Dizendo isso, ela fica de pé e se retira. Ouvimos seus passos se afastando. Som de violino. Num plano fixo, a câmera mostra o lugar onde ela estava sentada. Ouvimos a Magnificat de Claudio Monteverde. Aparecem os créditos iniciais.
(Saberemos dali a pouco que aquela mulher é a mãe de Mouchette. A garota que é humilhada onde quer que vá: na escola, pelas professoras e colegas, pelo pai, pelos vizinhos e que, uma noite em que fugia da tempestade, veio a ser estuprada por Arsène, um ser atormentado e asqueroso. A possibilidade de redenção vem justamente no final).
Em seguida à cena inicial, temos a sequência-metáfora da caça a um pássaro. Um homem (Arsène) prepara uma armadilha. Quando a ave se prende ali, outro homem (Sr Mathieu), o guarda-caças, surpreendentemente caminha até ali e a liberta. Também logo saberemos o porquê da atitude de Mathieu: ele e Arsène disputam o amor de uma mesma mulher, Louise.
A história segue nos mostrando todo tipo de sofrimento imposto à Mouchette (Nadine Nortier). O diretor, por acumulação, nos coloca naquele mundo desagradável para que sintamos o que a protagonista sente.
O único momento em que vemos o sorriso deslumbrante daquela garota é no parque de diversões, mais precisamente quando ela “brinca” num daqueles carros de bate-bate. Num flerte fugaz com um jovem, todos sentimos algo por aquela garota: seu sofrimento já nos arrebatou a todos, naquela altura. Aquele vislumbre de uma felicidade efêmera nos cativa. Mas… eis que, quando estava prestes a iniciar uma conversa com o rapaz, alguém a puxa, ela se vira, e tapas e mais tapas a alcançam: era seu pai, que a estava observando o tempo todo. Tristes parênteses de felicidade. De volta à rotina de sofrimento, Mouchette só faz isso mesmo: padecer.
Mas o que há de mais “curioso” nos filmes do Bresson vem a seguir. Sabe-se que ele era rígido, como diretor. Deixava bem claro aos seus atores para não demonstrar emoções faciais. Não as exageradas e por demais óbvias. Isso mesmo. E assim nós, a platéia, ficamos desconcertados: sabemos que Mouchette sofre, disso não há dúvida. A única vez em que ela se “revolta”, é quando, na saída da escola, joga lama nas colegas. Que, também, não reagem. Sim, ver um filme de Bresson é impactante. Ele não faz estudos de personalidade. Seu cinema não visa psicologismos baratos. Sua lente enxerga o que apenas supomos, por hábito. E assim, nessa dissecação da natureza humana, não de personagens isolados, ele nos enriquece com seu cinema filosófico e que nos chacoalha os conceitos, os lugares-comuns.
Em cortes rápidos, onde vemos a face de Mouchette não esboçando reação alguma, logo em seguida, lá estão as lágrimas rolando. Mas nada de suspiros, choros convulsivos. O que para alguns críticos pode parecer excesso de formalismo, ou personagens quase que autômatos, para um espectador mais atento trata-se de outra coisa totalmente diversa. Esse desconcerto entre aquilo que esperamos e o que o diretor nos passa, essa não equivalência (pelo menos não acentuada) entre a vivência da personagem e nossas expectativas como espectadores, tudo isso exige de nós uma readequação total. É por isso justamente que sentimos cada um daqueles movimentos interiores que não vemos mas pressentimos nas personagens.
O rigor formal e impassível de Robert Bresson aponta para o seguinte: a interpretação das emoções alheias é algo que nos acompanha. O sentimentalismo não está nas situações: está em nós.
A rigidez da narrativa, como disse acima, em outras mãos descuidadas, se tornaria um dramalhão ridículo.
Bresson atinge a todos nós da forma exata que imaginou: de forma seca, incisiva. Exatamente como um poema de João Cabral. Por outras vias, é claro. Mas a analogia procede.
E segundo Godard, Bresson era para o cinema de seu país o que Dostoiévski foi para a literatura russa e Mozart, para a música.
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Mouchette, a Virgem Possuída (França, 1967)
Direção: Robert Bresson
Elenco: Nadine Nortier, Jean-Claude Guilbert, Maria Cardinal, Paul Hebert
78 min
A cisão do “eu”, a questão do “duplo”, a gênese da insanidade e seus desdobramentos: tudo sob as lentes de Roman Polanski.
O Inquilino, de Roman Polanski – França, 1976
“Me diga uma coisa: em que exato momento um indivíduo deixa de ser o que pensa que é?” (Trelkovsky, protagonista)
A questão do duplo sempre rendeu muito na literatura e no cinema. Basta lembrar de Poe e Bergman. Ou Dostoiévski. Ou ainda Kieslowski, polonês como Polanski. Há muito tempo o desdobramento do “eu”, a cisão entre aquilo que somos na sociedade e os impulsos que cá por dentro nos agitam, é um assunto que nos proporciona obras de arte grandiosas.
Um sujeito que aos poucos se desestrutura e “vê” seu “eu” ceder a outras instâncias: eis o tema central desse filme.
A estória é simples: Paris. Um homem, Trelkovsky (o próprio Polanski), consegue alugar a duras penas um apartamento. Muito sugestionável, ele descobre que aquele quarto havia pouco sido palco de um suicídio. Uma jovem se jogara da janela e, depois de agonizar num hospital, acaba morrendo. Trelkovsky a visita no hospital, onde conhece uma amiga (Stella, Isabelle Adjani) da suicida. Eles acabam se envolvendo, no decorrer da trama. Aos poucos, num processo freudiano muito conhecido, o novo inquilino passa a se projetar na figura da jovem morta. Roupas dela, trejeitos, maquiagem, tudo o leva a viver num gradativo processo de alucinação em que acredita estar se tornando outra pessoa, no caso, a suicida. Em sua distorção da realidade, Trelkovski acredita que os vizinhos “caretas” querem que ele cometa o mesmo ato insano. Eles passam a hostilizá-lo quando ele, logo depois de mudar, leva ao seu apartamento alguns amigos barulhentos para uma festa de comemoração.
(Aliás, a questão do incômodo do barulho num microcosmo tão suscetível a ele, barulho, é um subtema que perpassa o roteiro. Claro está que é apenas um elemento desencadeador daquilo que se chama conflito dramático. Mas mesmo assim fica a ponderação: a repulsa ao barulho causado pelo outro seria por si só a exacerbação de uma não-aceitação daquele outro? Até que ponto a convivência humana pode prescindir de uma certa ética própria em prol de um todo mais amplo?)
Aí está, em linhas bem gerais, e tirando as viagens conceituais “meia-boca”, a trama desse filme surpreendente. Quem assistiu Repulsa ao Sexo (1965), do mesmo diretor, vai se lembrar daquela atmosfera claustrofóbica que aos poucos leva a personagem de Catherine Deneuve a se transformar naquela pilha de neuroses, fobias e paranóia. Em suma: de descontrole total da psique. Numa das interpretações mais intensas e representativas da desestruturação psíquica no cinema, Repulsa é uma aula de um mestre acabado nessa arte de mostrar as mudanças internas que desaguam em atitudes patológicas.
Pois em O Inquilino o diretor franco-polonês volta à carga. E à altura do trabalho de onze anos antes. A questão do duplo, agora, é trabalhada com tintas psicanalíticas e sutileza.
A transformação, a derrocada, a incrível mutação gradativa por que passa a personagem é algo mesmerizante.
O mundo ali exposto é por demais hostil? Ou tudo não passou de uma mera conjunção de fatores: de um lado alguém predisposto a alucinações, de outro, a atmosfera por si só propiciadora daquele desencadeamento insano? Ou ainda: os acontecimentos surreais, tais como um dente encontrado envolto num pedaço de algodão e colocado num buraco na parede, não seriam apenas a projeção do mundo interior da personagem? Assim como as figuras estáticas na janela em frente?
O diretor consegue nos fazer crer que há mais nuances na alma humana do que supõe o psicologismo barato dos filmes atuais. Polanski é como um cientista em seu laboratório: seus personagens agem e (as movimentações de câmera peculiares estão em consonância com as “trepidações internas” daqueles seres) são analisados e jogados para todos os lados, sonham, misturam realidade e pesadelo, luz e sombra (muita sombra), silêncio e gritos. A música incidental, os ruídos, as imagens distorcidas, a mistura de características de personagens, de tiques nervosos, de traços de um que se repete em outro, enfim, tudo isso só acentua a sensação de forte desconforto que nos aflige. Sensação mais que necessária para proporcionar a verossimilhança. Esta última nos faz nos perguntar no final das duas horas de projeção: Uau! Então é assim que a mente humana “trabalha” quando atinge um ponto de não-retorno, de derrocada?
No final, todas as pontas se fecham. A projeção interior se acentua. De forma trágica, mas muito bem dosada.
O diretor-ator, ao fim de seu trabalho, nos faz respirar aliviados quando voltamos ao nosso mundo de pequenas preocupações. Comparadas àquelas emoções fortes e que vivemos de forma vicária na pele de um personagem na Paris fria e nada glamourosa da trama, só nos faz reconhecermos o quanto estamos envoltos em amenidades e trivialidades.
Apenas a arte nos proporciona essa vivência “confortável”, esse vislumbre do inferno alheio. Que poderia ser nosso. Afinal, temos nosso duplo em algum lugar do planeta. Ou não?
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Ao som de Ella Fitzgerald, Imagine My Frustration, Cotton Trail, Let´s do it (Let´s Fall in Love), Mr Paganini e How High the Moon
Sobre Benjamin Button, sua (nossa?) singularidade, mensagens e morais reducionistas e um Shakespeare muito do trapalhão.

Saindo do cinema, um casal de namorados, atrás de mim (oh, que indiscrição, a minha!), perguntava um ao outro “qual a mensagem” do filme O CURIOSO CASO DE BENJAMIN BUTTON (com Cate Blanchett, Brad Pitt, Tilda Swinton, Elle Fanning e Julia Ormond, direção de David Fincher). Foi baseado no conto (que não li) de Scott Fitzgerald, o grande beberrão da Era do Jazz que, no final da vida, foi impiedosamente “avacalhado” pelo outrora amigo Hemingway (“Fitzgerald era um bufão inseguro e impotente!“).
No Orkut em uma das várias comunidades abertas para “discussão” do filme, alguém tascou algo lá (Argh!): “Qual a moral do filme?” O texto em azul a seguir foi o que postei lá. Mais abaixo, algumas outras palavrinhas deste blogueiro bissexto sobre o filme:
Procurar “uma moral” do filme, me desculpem, é meio reducionista. Cada um reage de uma certa forma a uma obra de arte. Isso não quer dizer, claro, que a obra em questão não tenha, não “uma moral”, mas uma linha de interpretação que pode, e deve, embasar outras interpretações. Moral é algo meio démodé, soa como aquelas fábulas contadas por nossos avós: algo que tinha uma lição a nos passar etc.
Nada disso há neste filme surpreendente. O que há, sim, é uma ideia básica, mas que, de tão fascinante, a todos, seja de onde forem, toca, incomoda, enleva: a de que o Tempo, essa instância inescapável, molda e determina nossas vidas. Ou seja: vivemos em função dele, do Tempo. E o aproveitamos (ou o desperdiçamos) à nossa maneira.
Um paradoxo: ele nos controla, mas temos uma margem de manobra que é como um grande tesouro: fazemos o que quisermos com ele. Ou, o que pode ser trágico, NÃO fazemos coisa nenhuma. Simples assim.
O filme tem um roteiro (cujo autor é Eric Roth, o mesmo de Forrest Gump) bem elaborado, dentro daquele “esquema”: a suspensão da crença, aquela nossa “mania” de procurar lógica (ou a falta dela) em algumas obras fictícias. Tudo bem: muita gente já imaginou, devaneando, a premissa que sustenta o filme: nascer velho e morrer criança. Pois um filme à altura dessa nossa velha quimera conhecida foi feito. A caracterização do protagonista (Brad Pitt) e dos outros personagens é mais que convincente: é espantosamente bem-feita! Sim, há alguns momentos em que os diálogos escorregam no óbvio, tem um pieguicezinha aqui e outra acolá (o beija-flor, um dos índices que perpassam o roteiro, tem um quê de sentimentalóide), mas nada que tire o brilho desse filme que pede de nós uma entrega. Mais que isso: nos faz refletir, e muito!, sobre a vida que levamos, a que deixamos para trás e do que faremos com o Tempo (sempre ele) que nos resta.
Ainda sobre o roteiro: há uma sequência que mostra o virtuosismo do roteirista. É aquela em que, por conjunções e lances do acaso, tudo desemboca, numa cadeia de sincronismos muito bem “amarrada”, em um lance trágico. Perfeito!
Ainda que inverossímil, o argumento é fascinante, pois dá margem a muita reflexão. É o que vale, muitas vezes…
Entretenimento de ótima qualidade.
O ponto cômico alto do longa (quase três horas de duração) é a fala-índice do homem que vai narrando as sete vezes em que foi atingido por raios. Riso garantido.
A fugacidade do tempo, a voracidade dele, o sentido para o qual “caminhamos” pela vida afora: esses e outros subtemas estão ali, para quem quiser pensar neles e levá-los em consideração.
Algo bem distante de “uma moral”, de “uma” mensagem.
É assistir e a empatia bate. Certeira!
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Cheguei agora há pouco do Sesc-São José, onde fui assistir ao dois clowns, atores de primeira, Andrea Macera e Ésio Magalhães (do Grupo Barracão, de Campinas) de tirar o fôlego: “A Julieta e o Romeu”, um pot-pourri da obra de Shakespeare. Com muito improviso, brincadeiras com a plateia (eu, no gargarejo, fui, juntamente com outras pessoas, “expulso” da poltrona por um dos atores, no auge da “zoação”. Ainda bem que voltamos rapidinho. Sim, paguei esse micaço!), trocadilhos, caras e bocas, numa versão heterodoxa do Bardo, a peça foi diversão do início ao fim: há tempos eu não ria tanto! Ah, a “faxina” mental que o teatro não nos faz…
MADRE JOANA DOS ANJOS. Polônia, 1961.
Numa região isolada da Polônia do século XVII, havia um convento de freiras no mínimo peculiar. Em vez de ser habitado pelo espírito divino, o que havia ali era o demônio e seus asseclas como donos do pedaço. A Madre Superiora, possuída por uma legião de querubins das trevas, a hospedeira-mor de “espíritos imundos”, atrai a atenção de um padre forasteiro que ali chegara justamente para investigar os rumores de possessão demoníaca naquele convento. A missão dele, claro: expulsar aquela pletora de demos que atendiam pelos mimosos nomes de Ballam, Isaacaron, Asmadeus, Gresil, Aman, Leviatã. Mas, no final, surpreendente, ficamos extasiados com seu triste destino. Dele, padre. Uma bela mensagem, dentro do contexto religioso, é o que ele deixa. Mas não entremos nesse campo…
Perfeito esteticamente; lembrando Tarkovski, com pitadas de Dreyer, algo também do Bergman de Luz de Inverno, na temática metafísica e de dúvidas acerca do poder divino; com interpretações mais que convincentes; nos prendendo naquela atmosfera claustrofóbica (há tempos eu não era transportado para dentro da tela…); as cenas de possessão demoníaca realistas (pela primeira vez no cinema); a ambientação sincera, seca, suja, despojada de badulaques de cenários pomposos (lembrando muito a medieval Rússia de Andrei Rublev, do já citado Tarkovski) ou maquiagens inverossímeis; as movimentações de câmera (subjetiva); o coro gregoriano sempre preciso nos momentos em que a dramatização mais pede; as cenas de oração solitária do torturado padre; a discussão metafísica entre um rabino e o tal padre, de alta carga filosófica; a cena final, do sino mudo… São muitos os méritos de MADRE JOANA DOS ANJOS (1961), do diretor Jerzy Kawalerowicz (que no próximo dia 27 faz um ano que morreu, aos 85), conterrâneo dos não menos geniais Kieslowski (cuja Trilogia das Cores reverei ainda nestas férias) e Polanski.
Um filme que foi proibido em certos países, na época, tal a ousadia de botar demônios em pleno convento. A dança das freiras possuídas e sua gesticulação em transe demoníaco, a conversa inicial entre o padre e a Madre Joana dos Anjos (“Devia ser dos diabos“, como disse um personagem, num dos raros momentos de humor), só isso já vale a sessão. Mas tem mais: o roteiro não se perde no final, pelo contrário: é surpreendente, como afirmei acima, o desfecho. É daqueles desenlaces que grudam na memória.
Tem até um subplot (se uso esse termo em inglês é porque o equivalente em português, “subtrama”, não é lá tão preciso): o envolvimento entre uma das freiras e um don Juan meio desengonçado. A gente fica se perguntando se aquilo não seria mais uma das “artes” do Belzebu. Quem assistir verá que o que parecia um príncipe…
Um ponto negativo: a edição das legendas deveria ser mais caprichada. Há momentos em que não há a tradução de certos diálogos. Numa passagem, aparecem algumas frases em inglês. Visivelmente, foi feita desse idioma a tradução. Um certo cochilo, convenhamos, que, ainda que não comprometa a fruição dessa obra-prima, mostra um certo desleixo.
Com toda parafernália de O EXORCISTA (com o grandioso Max von Sydow, o ator-fetiche de Bergman), ele fica atrás em termos de terror para a produção polonesa. Que se não é propriamente um filme de horror, causa sim em nós um certo espanto. Em que pese todo o agnosticismo deste blogueiro. Só me pergunto o que seria de mim se eu assistisse esse filme aos 12 anos…
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Trivia boboca:
- O ajudante de cerimônias que ajuda (vade retro, pleonasmo!) a aspergir água benta nas possessas freiras é a cara e o focinho do Rogério Ceni! Só faltou neste a barba… É idêntico!
- A taberneira é mais sexy que a Madonna de Like a Virgin ou Material Girl. Que olhar, que boca! Agora, pergunto: por que tanta volúpia represada sendo que a personagem não foi em nada desenvolvida nem tampouco é relevante na trama? Seria um daqueles erros que alguns roteiristas distraídos cometem? Por que o excesso de caracterização? Vai-se saber… Que desperdício!
- Cuidado, spoiler: No ritual de exorcismo, a Madre Superiora (também gatíssima, viu? uauuuu), mais abarrotada de demos do que o próprio inferno, faz um movimento de se contorcer para trás que quebraria a espinha de qualquer mortal não habituado com as artes do contorcionismo! Claro que era uma dublê!
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A tempo: acaba de ser lançado no Brasil o roteiro literário do acima mencionado Andrei Rubliev (antes, Rublev), do pela terceira vez aqui citado nest post Andrei Tarkovski. O roteiro literário diferencia-se do roteiro tradicional por ser mais, digamos, poético do que este último. Em breve o adquiro!
Pra tirar o sono, veja O Dorminhoco, de Woody Allen.
Assisti semana passada a essa louquíssima e divertida (ao extremo!) comédia do mestre de Nova York. Há muito tempo eu não ria tanto. A Diane Keaton não fica nada a dever ao talento faraônico de Allen para nos fazer contorcer de tantas risadas. Vi junto com meu pai e o velho chorava de tanto rir, em alguns momentos.
Algumas seqüências são antológicas, como a apresentação para os especialistas em clonagem. A trilha sonora, com muito jazz, como não poderia deixar de ser em um filme dele, é uma delícia.
Um nonsense ultradivertido…
Vi há pouco HANNA E SUAS IRMÃS e MANHATTAN. Ainda tenho para ver aqui comigo CRIMES E PECADOS. Ah, chegando as férias, verei outros desse cineasta apaixonante.
Abaixo, o trailer:
Jim Jarmusch, uma grata surpresa.
Acabei de descobrir esse grande diretor do cinema independente americano. Do cinema underground, marginal, como queiram. Danem-se os rótulos…
Assisti no fim de semana a três filmes dele: justamente os três primeiros de sua filmografia.
Foram eles: “PERMANENT VACATION”, “STRANGER THAN PARADISE” e “DOWN BY LAW”.
Que pauladas! Meu ranking deles está invertido: o “Down…” é de uma sinceridade na caracterização das personagens, na linha narrativa, na intensidade e força com que o diretor e seus atores (Tom Waits… O maluco e genial músico californiano arrebenta como ator ali! Sem falar no Roberto Benigni em começo de carreira e no músico de jazz e ator John Lurie) nos mostram um naco daquelas vidas loucas e errantes no coração paupérrimo do mais rico dos países. A fotografia em p.b. é perfeita!
Os extras, sobretudo a entrevista coletiva em Cannes, em maio de 86, sobre o “Down”, também são altamente esclarecedores…
O “Stranger…” me deixou também mesmerizado com a “realidade” ali exposta: o vazio das personagens em total consonância com o mundo exterior.
Quanto ao “Permanent…”, a “história” do garoto sem rumo na vida, apaixonado por Charlie Parker -ainda que a sinopse informe grosseiramente que se trate de Chet Baker – que vive imerso numa atmosfera blasé (aliás, até onde pude ver, as personagens desse diretor vivem “trancadas” em si, sem uma pulsão que as leve a superar o status quo e assim perdem a vitalidade, aquela que nos manda pra frente, que nos estimula a ter um certo tesão pelas coisas), “vivendo” num lugar paupérrimo, é tudo, menos lírica. O cinema do cara nos chacoalha as concepções!
Isso foi só uma primeira impressão. Tem muito mais pra se falar sobre tais obras perturbadoras de um diretor ousado e visceral. A vida dos que vivem à margem foi retratada com vigor e sem pieguices. Ele não estiliza a pobreza: ele a coloca, isso sim, num parâmetro mais dramático, ainda que contido. Lembra um Robert Bresson (“Pickpocket”) moderno. Jarmusch não faz concessões ao asqueroso politicamente correto. Ele tem um viés todo especial. Seus planos longos, lentos, até que podem espantar os consumidores de (apenas e tão-somente) blockbusters. Mas pra quem “entra” em seu ritmo, a viagem é altamente compensadora.
Que venham mais de seus filmes!

“Katzelmacher”, de Fassbinder. Ou o paroxismo do que é ser blasé.

Rainer Werner Fassbinder morreu prematuramente. Antes de chegar aos quarenta, mais precisamente. Mas foi o suficiente para deixar sua marca como um Pasolini germânico, guardadas as devidas proporções. Ambos foram “malditos”, um eufemismo meia-boca para dizer que eles vieram para azucrinar, incomodar, sacudir e espicaçar nossa inteligência e convicções.
O diretor alemão que, junto de Werner Herzog e Wim Wenders, formou a trinca do “Cinema Novo” alemão, foi o mais rebelde e nada sutil de todos os três.
Em KATZELMACHER, de 1969, Fassbinder, ainda nos vinte anos, nos presenteia com um filme altamente incômodo. Mas, vejam bem, é o filme em que os personagens, com uma exceção, são o que de mais blasé já vi em todos os longas ou curtas que minhas retinam já presenciaram! Mas aí que está. Ele conseguiu tirar muito daquilo tudo. O que dizer de planos únicos, longas seqüências, tudo em preto em branco, retratando a vida de jovens desocupados de uma Alemanha (pelo menos a que eles representaram tão bem) xenófoba?
A vida pode ser sentido. Já cansamos de ouvir isso. Muitos discordam. Ali temos seres humanos tão “largados”, tão “indiferentes”, tão preocupados apenas com a própria voz (eles quase não se olham quando falam) e com a próxima “transa” que representam muito bem um niilismo exacerbado. Sem movimentações de câmera em quase todo o tempo, com exceção das caminhadas sempre entre pares, pontuadas sempre ao som de um piano, o filme é genial e nada “parado” porque nos coloca frente uma grande questão: o que fazer do nosso tempo, como aproveitá-lo, como dar um significado mais amplo às nossas vidas?

Tudo está normal naquele mundinho anormal quando chega um estrangeiro. Mais precisamente, um grego, interpretado pelo próprio Fassbinder, que foi um grande ator de teatro. Aqueles jovens entediados, encrustados naquelas cercanias do prédio onde vivem, sentem-se, então, ameaçados pelo pacato trabalhador estrangeiro. Aliás, katzelmacher é um termo ofensivo usado na Baviera justamente para esse operário de terras longínquas.
O que era indiferença torna-se “a” diferença. Aqueles seres voltados às fofocas, “transas” (ninguém ali é de ninguém), vivendo naquela “usina” de maledicência e de produção/reprodução de boatos, na qual ninguém se salva, têm medo. Não todos, claro. O estrangeiro desperta o apetite sexual das mulheres. Nos homens, a certeza de que aquele forasteiro tinha que ter uma bela de uma lição para que soubesse que aquele “pedaço” era deles, que a Alemanha não era para qualquer um!
No plano formal, mais elogios ao grande diretor. Os enquadramentos, os cenários, tudo nos deixa a impressão de que aquilo tudo, de que aquele microcosmo, era o tédio em último grau. Para mostrar a clausura interior em que vivia e estava presa por vontade própria aquela turma de desocupados, nada de movimentação de câmera. Esta, aliás, é fixa e fixa justamente o imponderável: o vazio existencial, o supérfluo que nos espreita, a sensação de perda de tempo, a maledicência e, o mais importante no meu ponto de vista, o que o ser humano não é “capaz” de fazer para assegurar seu direito à alienação: abdicar de sua capacidade de dialogar. Sim, em potencial, somos capazes de tanto…
Esse filme pode ser uma alegoria de quão “baixo” pode chegar a incapacidade humana de comunicar-se. Ou de (não) querer entender o outro. O que dá na mesma.
Abaixo, uma amostra desse filme perturbador. Desse filme que, não obstante ser “parado” (intencionalmente), nos sacode um bocado.
"O Alucinado", de Luis Buñuel, 1953.
Assisti ontem a dois filmes do inimitável e grande Luis Buñuel. O primeiro, em torno do qual é este comentário, foi O ALUCINADO. O outro foi NAZARIN, ambos de sua fase mexicana.
Falar de Buñuel, dos filmes de Buñuel, é algo que dá margem a muita, mas muita discussão. Poucos diretores têm o carisma, a “pegada” dele. O cara é apaixonante pois foi autêntico, provocador, hilário, abusado, desbocado, criativo, genial e mais dezenas de adjetivos.
Este O ALUCINADO conta a história de um homem, Francisco Galvan (Arturo de Córdova, um ator poderoso), ricaço, respeitado, freqüentador de igreja, um típico nobre e bem-quisto figurão. Numa celebração de lava-pés, ele, ao lançar os olhos pelos pés (na hora percebemos seu fetiche por essa parte do corpo humano) das pessoas ali presentes, se detém em um par. A câmera, numa simulação do olhar de Francisco, passa por alguns pés e volta, se detém neles, sobe pelas pernas até chegar ao rosto de uma mulher tímida que a muito custo consegue lançar um olhar em resposta àquele homem que, percebemos ali, por ela se apaixonara na hora. Amor à primeira vista. Do plano geral para o particular. Cena perfeita.
A partir dali, vemos tudo se desenrolar: Glória (Delia Garcés), a mulher pela qual Francisco Galvan se apaixonara, era, na verdade, noiva de Raul (Luis Beristáin), um engenheiro conhecido do respeitado e ilustre homem. Pronto: passamos a ver o grande tema do filme colocado em ação. Um tema caro a Buñuel: a obsessão. O manto de normalidade sobre a verdadeira essência dos seres: o que vemos, nas ações de alguns de seus personagens (lembrando das lindas mulheres de A BELA DA TARDE e de ESSE OBSCURO OBJETO DO DESEJO, sobre o qual escrevi aqui, só para citar alguns), é a fachada, a cisão entre a persona social, aquela que vemos por aí, e os anseios, idéias fixas, tormentos de toda a ordem que se passa no interior deles, os seres buñuelianos. No fundo, de nós mesmos.
Francisco, aquele homem tão respeitado, visto como alguém tão cioso de suas incumbências sociais, é, na verdade, um grande fingidor: suas ações, logo no início do roteiro, nos mostram que há algo de errado, há uma grande falha tectônica sob aquela aparência de normalidade toda. Percebemos isso na negação que ele apresenta ao advogado que ele contratara para tentar readquirir o direito de posse de algumas propriedades de família. O advogado apresenta os argumentos mais racionais e ponderados. Franscisco, sacamos ali, apresenta uma negação exagerada, estranha, que começa a nos deixar desconfiados. Sabemos que, para as pessoas com idéia fixa, as paranóicas, a qualquer negação de suas obsessões, o “eu” reage de forma desproporcional. Há uma fonte de energia psíquica há muito armazenada ali. A reação natural é aquela: berros, cegueira conceitual, teimosia, neurastenia e mais outros sintomas de uma alma ameaçada. Ameaçada, frisemos bem, de ficar sem suas miragens.
Ele faz de tudo para tirar Glória de seu homem, Raul. E consegue. Tudo seria normal se não fosse…
Se não fosse aquele apego aos monstros interiores. Algo muito bem trabalhado, como escrevi acima, por Buñuel em outros de seus filmes, até mesmo aqueles mais surrealistas. Para quem não sabe, Surrealismo no cinema é sinônimo de Luis Buñuel, não por acaso o braço direito de Salvador Dalí, no final da década de vinte, na empreitada de traduzir o automatismo psíquico para a tela do cinema.
Mas voltando ao filme. Pontos fracos: o roteiro tem um defeito tosco. Me refiro à artificial cena do encontro entre Raul e Glória (sendo que ela já estava casada e, portanto, separada de Raul), quando ele, numa cidade muito movimentada, quase atropela quem? Glória, sua ex! Ela estava fugindo das crises de ciúme (a cena da torre do campanário, muito parecida com a de UM CORPO QUE CAI, do velho Hitchcock, apresenta-nos um clímax notável) e possessão doentios de seu agora marido, Francisco. Raul lhe dá uma carona e ela passa a narrar todas as suas horas de tormento. O filme passa a ser em flashback quase até o final. Outro ponto fraco: tem momentos em que parece que estamos vendo aqueles dramalhões mexicanos de tantos anos. Me refiro mais à interpretação de alguns atores, nunca à do protagonista. Parece algo meio forçado, exagerado. Mas, contudo, nada que tire o brilho desse filme: o estudo da natureza humana empreendida por Buñuel que, ainda assim, apesar de toda restrição do grande estúdio que estava bancando a empreitada, conseguiu, na medida do possível, imprimir e deixar alguns de seus traços, de suas, claro, obsessões: a crítica ao clero, à hipocrisia daqueles que buscavam apenas reconhecimento ao freqüentarem a Igreja, sendo célebre a frase do grande diretor espanhol que se definia como “Ateu, graças a Deus”; a absoluta competência em nos provocar, nos tirar do marasmo, nos fazer ver todo o arcabouço em que somos criados/educados/treinados/amestrados. Seu ateísmo, seu humor negro, sua total liberdade em não aceitar constrangimentos estético-artísticos, tudo esta ali. Aliás, esse filme é estudado e discutido em cursos de psquiatria e psicanálise pelo mundo afora e serve de exemplo de como a arte pode enxergar as atribulações mentais. Buñuel e os surrealistas, sabemos todos, beberam muito na fonte da psicanálise freudiana.
Francisco surta. Tem delírios na cena final, na igreja. É lá, também, que começa e termina a via-crúcis daquela alma atormentada, cindida, torturada. Ali ele se apaixonara por Glória. Ali ele delira achando que riam dele, que os pacatos cidadãos naquela igreja zombavam da traição de sua mulher.
Um filme ótimo. Apesar dos momentos fracos, é arte pura: é a arte de Luis Buñuel a nos mostrar a distorção da realidade por parte de um homem.
E ver um filme desse diretor é nos depararmos com o insólito em nós. Sempre.
Nele, em Franscisco, nos vemos. Quem não tem suas obsessões, ainda que em grau não patológico, que atire a primeira pedra.

Como diria um colega meu, “Buñuel é foda!!!” Este comentário é buñueliano por excelência, não acham?
Ficha técnica: O Alucinado
Título original: El
Ano: 1953
País: México
Duração: 88 min.
Gênero: Drama
Diretor: Luis Buñuel
Trilha Sonora: Luis Hernández Bretón
Elenco: Arturo de Córdova, Delia Garcés, Luis Beristáin, Carlos Martínez Baena, Aurora Walker, Manuel Dondé, Rafael Banquells, Fernando Casanova, José Pidal, Roberto Meyer
Distribuidora do DVD: Versátil Home Video
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Ao som de Charlie Parker e Chet Baker, pela primeira e única vez juntos, numa gravação raríssima de 1952 (por coincidência, exatamente no ano em que este filme do Buñuel estava sendo rodado em algum lugar do México), tocando num bar de Chicago: The Squirrel, Irresistible You, Back Home Again In e Lisa.
UM HOMEM COM UMA CÂMERA, de Dziga Vertov. URSS, 1929.
1929. União Soviética. Dziga Vertov, aos trinta e três anos, era um homem de mente borbulhantemente criativa. Foi contemporâneo de Sergei Eisenstein, o mais aclamado e celebrado dos cineastas russos. Quem viu O ENCOURAÇADO POTEMKIN e OUTUBRO, sabe que ele, Eisenstein, havia estabelecido um parâmetro novo ao cinema. Depois de sua técnica de montagem (que tinha toda uma proposta estético-intelectual por trás), a nascente Sétima Arte estava pronta para ser uma arte autônoma, ainda que pagasse (como ainda o faz) tributo à literatura e ao teatro.
Mas eis que um conterrâneo seu, que participava ativamente das agitações artísticas que fermentavam naquele início de século XX, vindo já de um histórico de trabalho ousado e criativo com o então novato cinema, aparece. Suas experimentações de vanguarda com o som o levaram até a criar um chamado laboratório do ouvido. Ele saía pelas ruas coletando sons para usar até mesmo em seus poemas. Vertov, pelo visto, era um incansável, um cara muito à frente de seu tempo. Neste UM HOMEM COM UMA CÂMERA, do exato ano da Grande Depressão nos EUA, do finalzinho da Era do Jazz, como ficou conhecida a década de vinte passada, ele e mais sua tropa de loucos e geniais coletores de cenas, nos deixaram como legado um simplesmente fascinante mosaico de imagens. A idéia era simples: coletar flagrantes das ruas, becos, rostos, parafernálias, fábricas etc daqueles dias agitados no mundo e, claro, naquela então recém-surgida nação chamada União Soviética. Ele foi um protegido de Lênin, tudo bem. Mas, como artista, não se pode negar ao cara o reconhecimento perene: com aquele amontoado de imagens, de closes, de movimentos de câmera ousados para a época e, sobretudo, pela técnica da montagem, uma montagem, pode-se dizer, que muito devia ao dadaísmo e surrealismo então nascentes, Vertov deve ser estudado, analisado e divulgado aos quatro cantos.

Ele tinha, obviamente, toda uma poética das imagens, toda uma estética por trás daquilo que fazia. Ele ambicionou fazer um cinema puro, um cinema sem a necessidade de relatar necessariamente um drama, um conflito, uma ação narrativamente bem amarrada, uma seqüência bem comportada de acontecimentos. Ele simplesmente queria desvincular aquele cinema recém-nascido de sua íntima dependência da literatura e do teatro. As imagens estão ali, trabalhadas num ritmo alucinante, ainda que não aleatório. Maestro acabado das imagens, Vertov nos hipnotiza neste filme, nesta obra que desafia uma categorização fácil. Em pouco mais de uma hora, vemos aquelas cenas-poemas, aqueles cortes ousados, movimentações atípicas, e por isso mesmo surpreendentes. O passeio que empreendemos à URSS de oitenta anos atrás nos deixa atônitos com o potencial que há por trás da manipulação (não no sentido de falsificação da realidade, mas no de reconfiguração poético-imagética dela, da realidade) das imagens. Acredito que muita gente que hoje se dedica ao cinema ou que por ele tem um interesse mais aprofundado tenha se apaixonado por essa arte após assistir a essa obra mais que seminal para se entender a beleza e riqueza que é o cinema, arte hoje, infelizmente, vista por muitos como apenas e tão-somente um reles entretenimento/fuga da realidade/válvula de escape (“Ah, vamos pegar um cineminha pra relaxar, amor?”) ou um nicho de mercado rentável (do ponto de vista dos grandes produtores, exibidores etc) .
Um homem, digamos, o “personagem” de UM HOMEM COM UMA CÂMERA, sai por aquele mundo caótico à procura dos enquadramentos mais ousados, mais sui generis e, por isso mesmo, mais aptos a nos surpreender. Há um momento em que o clímax se dá quando as imagens se aceleram, se somam, se acumulando, portanto, para nos deixar boquiabertos com a poesia que Vertov conseguiu tirar daquilo tudo. O olho-câmera, literalmente, nos tira da mesmice, nos faz ver o mundo e as coisas e os seres de um prisma novo.
Para alguns, tais cenas, vistas pelo olhar de hoje, tão fatigado pelos efeitos especiais dos blockbusters, são tão naïve, tão destituídas de interesse, pois tão “batidas”… Mas estamos falando de uma empreitada intelectual-estético-artística de oitenta anos atrás, com as parcas e restritas possiblidades técnicas daqueles tempos bicudos, sobretudo numa nação-problema (ou, mais precisamente, um conjunto de nações) como foi a URSS! Tirar o mérito de Vertov, tentar roubar-lhe o reconhecimento apelando para esse critério de uma possível superação técnica, de uma suposta obsolescência, isso é um exercício de mesquinhez e muita falta daquilo que podemos chamar de “olhar diacrônico” sobre uma arte, no caso, a do cinema.
Olhar diacrônico é aquela concepção de ver uma arte sob um olhar, uma perspectiva de “corte”: é vê-la através dos tempos, não apenas de um ponto de vista, mas sim daqueles que nos possibilitam uma panorâmica plena. É, em suma, ver uma arte como uma linha contínua, que se enriquece, quase sempre, com as contribuições daqueles que, lá atrás, exatamente como Sergei Eisenstein, Dziga Vertov e tantos outros, nos deixaram. Contribuições essas que estão aí para serem descobertas, valorizadas e divulgadas por todos aqueles que procuram enxergar além do trivial.
Nota final: a música foi sobreposta há pouco mais de uma década.

Imperdível!
“A Infância de Ivan”, de Andrei Tarkovski.

A presença dos efeitos da guerra, mais do que a guerra em si, pode apresentar em muito mais detalhes todo o sofrimento e as indeléveis conseqüências na vida dos seres que venham a ter a infelicidade de experimentá-la. O artista que consegue sugerir, e não mostrar, a guerra, isolar aqueles efeitos todos, ao invés de se concentrar em bombas, explosões, tanques cuspindo bolas de fogo etc, e apresentar ao espectador toda a monstruosidade e imbecilidade que jaz, em estado de potência, no homem, esse artista é digno de todo o aplauso e terá seu nome para sempre no panteão dos grandes.

Um garoto russo, Ivan, na Segunda Guerra, tem a família trucidada pelos nazistas. Sua infância (há a ironia do titulo do filme em questão), que só guarda a relação com uma infância convencional por meio dos sonhos-lembranças, de uma hora para outra é jogada naquele inferno todo. Aliás, seria tudo aquilo as lembranças mesmo de Ivan, em grande parte, ou simplesmente como teria sido a vida dele se não houvesse a guerra? Se Francis Ford Coppola, em Apocalypse Now, precisou de rolos de filme para mostrar toda aquela insanidade típica de uma guerra, Andrei Tarkovski, no começo exato da década de 60, ainda no calor dos rescaldos do mais tenebroso conflito do século passado, precisou de 90 minutos para nos mostrar, num monocromático deslumbrante, toda a síntese do que é o sofrimento imposto ao homem pelo homem, a mais acabada prova de que podemos ser nossos próprios lobos. Aquele garoto, obcecado pelo desejo de vingança, passa a ser informante do exército russo – por causa da baixa estatura e agilidade – em operações de altíssima periculosidade: adentrar, passando por brejos e pântanos sombrios, o terreno inimigo e de lá trazer informações relevantes aos seus compatriotas. O garoto, ele que, apesar da aparência frágil, apresenta traços de um adulto em tamanho pequeno: às vezes autoritarismo, outras uma segurança inimaginável numa criança, em ainda outras um senso de arrojo notável e por aí afora. Os diálogos nos quais ele fala aos gritos com os altos escalões do exército russo causa-nos um misto de comiseração e compreensão. Aos poucos, vemos seus sonhos (Tarkovski era um gênio em vários aspectos, sobretudo na criação de seqüências oníricas): fiapos de lembranças idílicas. passeio na carroça de maçãs sob a chuva com sua irmã; sua mãe num dia de sol à beira de um poço contando-lhe estórias. Um outro aspecto que me chama a atenção nestes filmes que até agora vi do grande russo, foi a transição, praticamente sem cortes, de um ambiente a outro. A montagem de seus filmes parece se pautar por critérios mais do que subjetivos; parecem seguir uma filosofia toda peculiar: o poético jaz em vários lugares, sobretudo na sábia articulação de imagens: coisa que o maior cineasta russo fez como ninguém: Eisenstein, o poeta por excelência da montagem, que soube tirar sentido das colagens, da junção das cenas. Tarkovski leva essa proposta ao extremo.
A seqüência em que Ivan, numa interpretação digna de um ator calejado, interage, com seus demônios interiores, todos os dramas e sofrimentos que ele tão precocemente já vivenciara, é espantosa. Ele começa a brincar sozinho, de castigo que estava (ironicamente, por ter sido ousado/imprudente demais, ao quase ser pego pelos nazistas) e iria ser mandado para uma escola militar. Mas logo percebemos que aquilo não é uma brincadeira comum, que aquele não é um garoto comum: num trecho notável do roteiro, há um aumento da carga de expectativa, com cortes rápidos: uma inscrição na parede dizendo para vingarem os mortos que um dia viveram naquele lugar, agora um esconderijo; vozes; outros cortes; closes no rosto da mãe de Ivan, já há muito morta: fica patente que aquilo tudo se passa na mente atribulada daquela criança amadurecida à força. Num clímax muito bem desenhado, vemos Ivan “interagir” com um traje pendurado na parede: seria aquilo um nazista feito-refém. O pequeno “militar”, na sua brincadeira-delírio, solta o ódio advindo da necessidade de vingança, ódio esse tão internalizado, tão sedimentado em seu mais profundo eu (o tema do filme, aliás, poderia ser essa devastação interior que a guerra, seja ela qual for, causa nos humanos), a ponto de ele ter todo aquele momento de loucura particular e atípico numa criança. Uma cena impressionante que, se foi realizada, foi muito por causa do talento extraordinário daquele garoto.

Há clarões no roteiro. Clarões, ou pontos de respiração, é como, em jargão de roteiristas, se chamam aqueles momentos em que temos uma pausa na linha central da narrativa. O filme termina e começa com esses clarões. Aliás, o filme termina com o que poderíamos chamar de falso final feliz. No início e no fim, imagens bucólicas, com música agradável e otimista, de um Ivan radiante de felicidade. Ou a brincar sozinho, sorrindo para a mãe em seguida (no começo) e correndo com sua irmã à beira-mar, ambas as cenas em um dia ensolarado e radiante. E são os únicos momentos, esses e outros de sonhos-lembranças-devaneios, em que vemos a luz solar. Na maior parte do filme, o cinza monocromático dá as rédas, acentuando em demasia todo o clima sombrio e pesadão do filme. Pois aquela realidade era sombria. E por falar em algo sombrio, a “ronda” que os militares, junto de Ivan, fazem naquele pântano, praticamente às voltas com a escuridão quase impenetrável da mata fechada, é uma cena que marca a todos que tiverem o privilégio de assistir a tal filme.
Outro clarão, esse mais dramático (no sentido aristotélico do termo: jogo de ações entre personagens): noutra cena famosa, muito lembrada por aí, é a do bosque de arbustos, onde o Capitão Kholin e Masha, a soldado encarregada dos enfermos, têm um affair. Quer dizer, ele a encurrala e a beija à força. E o espectador desatento pode se perguntar: o que faz ali aquele quase-romance no meio daquela brutalidade toda? De novo a fórmula tarkovskiana se fecha: os sentimentos, sobretudo eles, são prejudicados pelo horror, pela insanidade da guerra. Não há como ele frutificar entre seres “destruídos” emocionalmente.
Tem também o uso da câmera subjetiva: a dança dos arbustos fala por si.
Eis um filme belíssimo. Mas para quem está aberto a esse tipo de fruição. Não intelectualizar demais as obras dos grandes cineastas é um favor que fazemos a eles. Ou uma homenagem: um tributo àqueles que souberam sintetizar, em grandes pinceladas, toda a gama de experiências humanas. Entre as quais está, infelizmente, a da guerra.

Esse filme fez bonito no Festival de Veneza de 1962, conseguindo desbancar obras de figurões como Stanley Kubrick, Pier Paolo Pasolini (cujos filmes “Accatone” – Desajuste Social e Mamma Roma, tenho aqui comigo para assistir em breve) e Jean-Luc Godard… Nada mal para um então jovem diretor.
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Ficha Técnica: A INFÂNCIA DE IVAN
Direção: Andrei Tarkovsky, Eduard Abalov
Ano: 1962
País: União Soviética
Duração: 95 min. / p&b
Título Original: Ivanovo Detstvo
Título em inglês: Childhood of Ivan
O velho Allen está de volta.

Hoje, na Ilustrada (para assinantes da FOLHA ou do UOL), a entrevista com Woody Allen é bem esclarecedora sobre o momento específico na vida desse grande diretor, estupendo artista. Algumas revelações: diferentemente da fama de intelectual exótico (com a qual ele não concorda) e recluso que tentam passar dele, Mr. Allen diz: foi só ler um livro depois (e quando o fez, foi só para impressionar as garotas) dos dezoito anos e não é fã de obras “complicadas”. Apesar de se dizer não tão sociável, afirma que ultimamente tem saído mais, muito por causa de sua esposa (trinta e cinco anos mais nova) coreana. Aos 72, mostra já um certo cansaço, apesar de ainda querer continuar na empreitada. Seu novo filme, “O Sonho de Cassandra”, um filme que ainda bebe na fonte de Dostoiévski (sua obsessão, vide “Match Point”), estréia hoje no Brasil. O duro é esperar dos Cinemarks da vida a boa ação de trazer tal pepita. Sim, pepita, pois pelo que andei lendo, o filme é um Allen em grande estilo.
E por falar em estilo. É curioso saber sobre o processo de criação de Allen, esse admirador (para dizer o mínimo) de Bergman, diretor que o autor de “Zelig” (que acabei de assistir, depois de anos de desejo: identifiquei a mim mesmo em certa época pregressa da minha vida…) homenageou em “Interiores”. Ele se mostra um sujeito modesto, sem aquelas frescuras de (pretensos) gênios. Diz que quando começa a ter uma idéia para um roteiro, tem certeza de que um “Cidadão Kane” em potencial está ali. Mas, afirma ele, é só passar para a sala de montagem que ele se frustra…
Os mestres têm isso: dão a falsa impressão de que o que fazem é a coisa mais fácil do mundo.
Ótima entrevista!
"O Rolo Compressor e o Violinista", de Andrei Tarkovski.

Sasha é um garoto que ama seu violino e tem que enfrentar as armadilhas de seus coleguinhas que insistem em tirar-lhe a paciência e humilhá-lo apenas por ele ser um “músico”. Já há aí a concepção do artista como um pária, um ser em descompasso com sua realidade.
Sergei é operador de rolo compressor. Homem rude, é graças a ele que um dia Sasha é “libertado” das garras dos pequenos algozes. Nascia ali, naquele instante, uma amizade que iria, de certa forma, mudar a concepção de ambos…
Em apenas um dia, vemos crescer uma cumplicidade quase improvável entre o aparentemente grosseiro trabalhador braçal e o sensível artista-mirim: dois mundos se contrapondo. O da arte versus a brutalidade (esta última representada principalmente pela atitude quase diabólica daqueles garotos que cresciam sem um lazer apropriado, naquele ambiente de carências); o mundo da poesia e transcendência da música versus o ruído da mais “áspera” das realidades; entre o violino, talvez o mais lírico dos instrumentos musicais, de um lado, e, no outro, a “truculência”, tanto sonora quanto física, massa de peso mesmo que é um rolo compressor.
Naquela, como acima mencionado, improvável junção de mundos tão opostos, vemos desenrolar, no espaço de um dia, uma sucessão de planos, de atmosferas quase expressionistas (muito parecidas com aquelas do neo-realismo italiano, sobretudo o De Sica de “Ladrões de Bicicleta“), de subjetividades muito bem captadas pelo olhar sensível de um artista que estreava ali, aos 28 anos, e seria um dos grandes do cinema. O média-metragem (43 minutos) foi feito como trabalho de conclusão de curso de Andrei Tarkovski. Que TCC!

Vemos ali uma busca pela expressão da atmosfera subjetiva dos personagens principais. A realidade brutal também travestida de conservadorismo sempre presente: a professora de violino, mais preocupada com as regras do que com a expressão lírico-musical do pequeno Sasha (talvez uma das interpretações mirins mais convincentes e tocantes que já vi) e a mãe do garoto que o impede de ir ao cinema com Sergei ou com ele estabelecer qualquer contato – eis dois exemplos acabados desse outro tipo de truculência.
Claro que o filme oferece outras leituras, políticas por exemplo.

Mas não me atenho a elas, aqui. Fico, depois de ver esse filme duas vezes seguidas, com a impressão que a arte, naquela época e hoje também, não é apenas uma válvula de escape. Ela também serve como uma couraça contra a aspereza e hostilidade de uma realidade muitas vezes inflexível. Muitas vezes. Graças à arte, nem sempre.

O jogo de luz, algumas imagens distorcidas, sobretudo quando Sasha pára em frente de uma vitrine e vê pequenos “cacos” da realidade refletida no vidro. O pequeno artista tem ali quase que como uma epifania: a realidade poderia ser adaptada ao seu olhar, a um olhar interno, um olhar refigurador. Com a arte, então, essa possibilidade poderia ser elevada ao paroxismo.
A troca de olhares entre Sasha e sua coleguinha aprendiz de violinista, na sala de espera da professora particular, é de uma sensibilidade incrível, hipnotizadora. O detalhe da maçã a nos brindar com um humor sutil e também como marcador de tempo. Os detalhes, sempre eles…
Tarkovski nesse filme se prende a detalhes tão expressivos, tão seminais na busca de apreender uma realidade mais abstrata, mais transcendental e por isso mesmo mais genuína do ponto de vista das vivências interiores, que o resultado nos deixa aparvalhados com tanta elegância nada intelectualizante. A engenhoca que a professora austera usa para marcar o tempo das apresentações de seus alunos se contrapõe brutalmente à gota d’água que vemos cair numa poça quando Sasha toca para Sergei numa garagem semi-abandonada, um lugar quase improvável (quase, felizmente) para a fruição da arte. Ou seja, aquela gota a fazer aqueles círculos concêntricos na poça serve para marcar o tempo da música ali interpretada pelo garoto. O aparelho para medir música, da professora num primeiro momento, versus a gota na poça, de outro, se contrapoem, pura antítese que são, para mostrar que há outra forma de se mensurar a arte, e, principalmente, as vivências interiores; no lugar do instrumento frio, a passagem do tempo nas pequenas ondas da poça. Algo sutil demais? Basta nos abrirmos para isso.
E é o que temos que fazer ao assistir a essa pequena jóia do cinema mundial.
Imperdível!
Nos próximos dias, hei de ver “A Infância de Ivan”, “Solaris”, “Stalker”, “Nostalgia”, “O Sacrifício” e “Andrei Rublev”, todos já aqui comigo. Todos de Tarkovski.
O rolo compressor e o violinista
Andrei Tarkovski, Katoki i skripka, URSS, 1960. Com: IGOR FOMTCHENKO, V. ZAMANSKI & N. ARKHANGELSKAIA
"O Espelho", de Andrei Tarkovski: um filme para múltiplas sessões.
Um poema feito de luz

Os pequenos momentos de que é feita a vida podem se tornar de uma preciosidade inimaginável. Vivemos num mundo turbulento, hostil e refratário às nossas mais profundas e íntimas descobertas, utopias e vivências. As lembranças daqueles momentos aparentemente pífios que vivemos são permanentes, nos acompanharão pela vida afora, e serão sempre um refúgio quando formos obrigados a elas recorrer toda vez que a realidade nua e crua nos colocar quase num ponto de esmagamento. A vida, obviamente, não é pródiga desses momentos de “abertura”, dessas pequenas epifanias. Seríamos seres muito mais ricos interiormente se isso fosse algo trivial. Mas não é assim. Aí entra a grande arte.
O que falar de um filme que não tem um enredo, pelo menos não no sentido hollywoodiano do termo, mas que mesmo assim nos deixa (desde que saibamos exatamente nos abrir àquele universo) mesmerizados? A descontinuidade da narrativa - trata-se, portanto, de uma narrativa nada convencional - parece algo complexo demais, ou, para alguns, um exercício de puro artificialismo. Nada disso! Os filmes do maior cineasta russo após Sergei Eisenstein, Andrei Tarkovski, têm a “fama” de serem herméticos, para poucos… Pura balela.
Mas nos concentremos numa análise mais terra-a-terra desse filme de meados da década de setenta, sendo o mais autobiográfico de todos do grande diretor.
Num exercício de puro comodismo, diria que é a “história” de um homem que está morrendo e que recorda os momentos-chave de sua vida, ele que não fora necessariamente alguém de comportamento exemplar. Ele estaria, assim, na tentativa de se desculpar aos outros, mostar a eles que sim, ele vivera e pôde sentir aqueles momentos de abertura. E ao relembrá-los, e de certa forma vivenciá-los novamente, ele pudesse mostrar que não fora aquele ‘monstro’ moral que ele dera a impressão de ter sido.
As fusões de tempos idos com os mais recentes, essa mescla entre diferentes pontos temporais, num primeiro momento, pode causar um certo incômodo a quem não tenha entendido a intenção do diretor. Ele como quis mostrar tudo aquilo que é e está isolado pela vida afora (aquelas ilhas de epifania) num todo, num constructo transfigurado pela arte. É como se ali, naquele filme de menos de duas horas, víssemos (como de fato vimos), uma concentração de pontos luminosos, quando sabemos que a vida, infelizmente, não é assim. E isso não tira o mérito, claro, da obra. Muito pelo contrário. Aquela concentração toda de imagens, cores, cheiros, tudo aquilo nos pede uma total abertura sensorial. É o mais sinestésico de todos os filmes que já vi. Assisti-lo é um exercício explícito dos sentidos. De todos os sentidos. As imagens oníricas que o diretor teve a proeza de passar para a tela são de uma poesia, de um lirismo incomum, uma verdadeira ode à nostalgia.

Para muitos, “O Espelho” é um filme extremamente inibidor e nada convidativo. De fato não é, como acima escrevi, uma história com começo, meio e fim. Não necessariamente. Talvez num plano mais abstrato, sim. Na verdade, é uma reunião de cenas, imagens, idéias, idiossincrasias que, a princípio, pouco têm em comum. Não é um filme que tenha uma explicação literal que salta aos olhos. É bem na linha daquilo que Resnais fez em “O Ano Passado em Marienbad“. Só que muito mais liricamente. Muito mais sensorialmente. Tivesse caído em mãos incompetentes, aquele material todo seria de uma insipidez colossal. Mas nas mãos de Tarkovski que lê os poemas do pai, Arseni Tarkovski, em voz over, o resultado é espantosamente notável. Aliás, os poemas que ouvimos e que podemos ler em algumas cenas, não trazem com elas necessariamente uma relação. Essa não-relação óbvia entre imagem e palavras, essa dissociação entre esses elementos, é um outro fator enriquecedor para nós, espectadores: podemos, assim, ir preenchendo aquelas lacunas com nossa própria visão, com nossos próprios insights. O filme todo é estruturado para proporcionar a nós, espectadores, o ritmo que quisermos, de acordo com a intensidade que colocarmos nossos próprios e mais íntimos elementos particulares na narrativa que presenciamos ali. Em nenhum momento percebemos, por parte do diretor, algo parecido com aquela tutela de outros cineastas: a pretensão de nos forçar ver isso, sentir aquilo, pensar de uma forma, pensar de outra. Nada disso em “O Espelho“. Talvez o título possa até mesmo ter essa idéia, entre outras: um estilo reflexivo (no sentido de interpretação, de busca de um sentido ou de um sem-número de sentidos e também no sentido de “refletir” as vivências, ponderações e elaborações interpretativas daquele que o assiste). O filme exige de nós uma resposta emocional. Não podemos fugir disso. Se há essa necessidade imposta, não o foi pelo autor, mas pela própria constituição do filme, algo inerente a ele. A liberdade, portanto, de interpretação, pertence a nós. Apenas grandes artistas podem conceder essa riqueza.
Vemos ali, com os cortes e fusões temporais, o relacionamento do protagonista com sua mãe e sua esposa (as duas interpretadas pela mesma belíssima atriz), com seus filhos, amigos e, sobretudo (num prato cheio para interpretações psicanalíticas), vemos clarões de sua infância. Do menino do passado ainda preponderante no homem que se tornou maduro.
Aqueles que não estão acostumados com todos aqueles cortes narrativos e fusões temporais, com personagens do presente numa mesma tomada com personagens do passado, tudo a exigir muita atenção, portanto, do espectador, pois bem, aqueles apressados, ou acostumados demais com a narrativa hollywoodiana, a esses o filme será sim algo chato, monótono. Pois não corresponderá a suas expectativas. Porque a chave para descortinar e fruir tudo o que esse filme tem a nos oferecer (e nos enriquecer, sobretudo) seria a empatia. Não se trata daquela velha mania do “Então daí… e então… e então…”. Tem-se que se desprender desse hábito para ter acesso a toda a riqueza de um Bergman, Tarkovski, Kieslowski, Kurosawa etc.
É poesia visual. É filosofia também. É tudo isso misturado, trabalhado por um artista visionário, corajoso e hipersensível.

A música, com muito de Bach e Henry Purcell, é deslumbrante, como não poderia deixar de ser. Há muita trilha de suspense, que funciona à perfeição. O diretor combina magistralmente elementos díspares e tira daquilo tudo uma riqueza lírica pungente e poderosa.
Cenas preferidas? Várias, claro. Mas sobretudo aquela em que o garoto (o protagonista no passado) tenta (tudo coerente com a atmosfera onírica e quase mística do filme todo) entrar em casa, após fugir de um vendaval, tudo em câmera lenta, o que acentua à última potência a beleza plástica. As folhas reviradas, o vento poderoso, a umidade.
Sem falar daquela em que o teto desaba, em slow motion, com o barulho de goteira bem acentuado, enquanto a mãe se lava. Seria a memória se apagando? (Será que o diretor Michel Gondry e o roteirista Charlie Kaufman em “Brilho eterno de uma mente sem lembranças” beberam na fonte de Tarkovski ou a ele prestaram uma homenagem naquela seqüência da casa à beira-mar?).. Realmente, fabuloso.
Do ponto de vista filosófico, há semelhanças entre alguns temas com os do maior autor russo de todos os tempos: Dostoiévski, que, aliás, é citado no filme. A questão Homem x Natureza é um leitmotiv poderoso em “O Espelho“. Sempre que ela, a Natureza, se manifesta, é de uma forma altamente desproporcional à fragilidade do ser humano. Os vendavais, constantes no filme, acentuam, e muito, tal idéia.
Há muito simbolismo ali, claro. Mas tudo muito bem dosado e nada gratuito. Surrealismo passa longe. Aliás, Tarkovski, numa célebre entrevista, desancou o movimento de Breton e Dalí…
A cena inicial, de um rapaz com sérias dificuldades de fala, e que é curado, em frente de nossas pasmadas retinas por uma especialista em doenças de fundo nervoso, é uma metáfora da dificuldade de expressão que temos todos ao nos darmos conta de quão hostil e refratário é este mundo aos nossos “universos particulares”?
Uma curiosidade: na época, o filme foi considerado elitista demais pelas autoridades soviéticas, que o acharam não-acessível às massas. O ridículo, o ridículo…


Ficha Técnica: O Espelho
URSS, 1974, Cor e P/B, 100’
Com: Margarita Terekhova, Oleg Jankovski, Philippe Yankovski, Ignat Daniltsev, Nikolai Grinko;
Argumento: Andreï Tarkovski, Alexandre Micharine, com poemas de Arseni Tarkovski lidos por Andreï Tarkovski; Diretor de Fotografia: Georgi Reberg; Direção Artística: Nikolai Dvigubski; Montagem: Ludmila Feiguinova; Música: Eduard Artemiev, com excertos de Bach, Pergolese e Purcell; Produtor: E. Vaisberg; Direção de Produção: Y. Kouchnerev; Produção: MOSFILM
Esse Tarkovski…
Primeiros minutos do sábado. Acabei de ver “O Espelho”, do Tarkovski. E lhes digo: estou sob o impacto de imagens para sempre armazenadas na memória. E o filme é sobre a memória, aliás. Ele despertou em mim um caleidoscópio de impressões… Vou dormir agora ainda sob estado de choque: trata-se de uma das obras mais plenas de poesia do cinema. Em breve elaboro uma resenha meia-boca tentando alinhavar o que em mim despertou tal obra-de-arte.

