Não se faz aniversário como antigamente (Dedicado aos “soi disant” misantropos. Ou àqueles nem tanto).

Foi-se o tempo em que fazer anos era uma coisa assim marcante.
Antes, o aniversariante podia, se não totalmente se isolar do mundo, ao menos ter a certeza de que não ligaria um aparelho chamado computador por meio do qual gente distante, próxima – ou nem uma coisa nem outra – iria [...]

A marcha.

    Perdido, o Homem marcha. Continua sua longa caminhada às mais longínquas e inóspitas regiões. A ele, só resta andar ao léu. De vez em quando, ao lançar olhares para trás, é com um sentimento estranho que revê caminhos já trilhados. Voltando à paisagem que ele tem ao seu redor, descortina supostos novos acidentes geográficos, [...]

Confessionário (Solilóquios nada edificantes – 3)

A gente vai se conhecendo à medida que vive, seu repórter.
Juro que não queria mandá-lo para a puta que pariu. Juro que não tinha intenção de mandá-lo se foder. Até que eu tinha em mente fazer aquele vigarista endireitar na vida, ou ao menos tentar, ainda que isso seja arrogância das grossas: querer fazer alguém [...]

Sísifo liberto.

Ele só ia até onde lhe haviam permitido. Só via e ouvia e escutava e sentia e compreendia e vivenciava e experimentava e aprendia e apreendia e provava daquilo que estava ao alcance de sua limitada e exígua e estreita e viciada visão de mundo. Nuances, matizes? Ele não os conhecia. Gradações, relativismos de [...]

Confessionário (Solilóquios nada edificantes) – 2

É pra eu falar o que me vier à cabeça a partir da sua pergunta? Como se eu tivesse me confessando? Ok: vamos ver o que vai dar. A primeira vez que odiei alguém? Nossa… Agora você me pegou. Olha, seu repórter, faz tempo! Tipo assim: quando eu tento puxar pela memória mais antiga, entende?, [...]

Confessionário (Solilóquios nada edificantes) – 1

Me sinto impossibilitado de seguir. Meus pés pesam. Meus membros se encolhem. Minha cabeça ferve. No meu cérebro, o centro da tomada de decisões se tornou estéril, sem vida, engrenagem fantasmagórica, coberta por teias de aranha. E sinto esses terríveis aracnídeos com suas patas de veludo a passearem pelo meu crânio! Para onde olho vejo só coisas mortas, ausência [...]

O potencial das memórias descartadas.

   O texto que segue – totalmente fictício - foi outra tentativa vã deste humilde escriba incompetente (ainda que incansável) para emplacar no concurso mensal da revista piauí. O mote deste mês foi a frase inicial (em negrito) de José e seus Irmãos, romance de Thomas Mann. Como de costume, todos os textos - independentemente da qualidade ou falta [...]

Das mil faces da tragédia.

    
    A ideia de que a tragédia tem que ser necessariamente algo grandioso, épico, está tão impregnada no inconsciente coletivo que, por qualquer motivo besta, usamos a palavra “trágico” e seus familiares semânticos com um misto de espanto compatível com a grandiosidade suposta de um acontecimento que nos deixe meio nocauteados.
    Na verdade, [...]

Outro texto para o concurso da “piauí” (com minúscula!)

 NOTA DO AUTOR: ATENÇÃO, TALIBÃS DA INTERPRETAÇÃO: POR FAVOR, FAÇAM UM ESFORÇO PARA LER ESTE TEXTO (COMO QUASE TUDO AQUI NESTE BLOG) COM OS ÓCULOS DA IRONIA.
___________
 
NOTAS DE UM PERDEDOR
  Do livro de moralidades: contra-exemplos do bom proceder que devemos incutir em nossos jovens para que eles não façam o mesmo e possam trilhar o caminho [...]

Boa noite, pai.

  Querido pai: você me perguntou recentemente por que eu afirmo ter medo de você.
  Vou me sentar aqui do seu lado e explicar tudinho. Prometo ser breve.
  Sabe, desde muito pequeno aprendi a conviver com este sentimento relacionado a sua pessoa. Mas, apesar desse aprendizado de longos anos, posso lhe dizer que sim, tal [...]

Vidas Cruzadas?

   Ela fechou a porta com vagar extremo e se afastou, furtiva, como quem abandona um doente que acaba de adormecer à meia-noite.        
   Livre de qualquer comiseração, desimpedida para fazer o que ela mal conseguia crer que iria fazer e também no que tinha acabado de realizar, tomou o rumo da Estação Edgar Lynch. O [...]

A Mosca e o Presidente (Infelizmente, uma história verídica).

Baseado em notícia do UOL News: Obama mata mosca durante entrevista
____
Naquele dia, comum como os outros, a Mosca saiu de casa e deixou suas mosquinhas vendo tevê: ia buscar algo para alimentar sua cria. O marido, esse ninguém sabia por onde andava com suas asas: diziam que fora visto com uma varejeira ainda menor de [...]

“Retrato da vida moderna em ‘meio’ ato” ou “Ágatha quer namoro”. Sério, hein?, droga!

(Um pardal perdido numa cidade grande busca refúgio nos beirais de um prédio de apartamentos. Ali ele se aconchega do frio que se instala. Deixemos a cansada ave no seu há muito procurado abrigo. Já escureceu faz um bom tempo. Por uma cortina entreaberta numa janela retangular, tem-se uma visão de uma sala de jantar. Numa mesa pequena [...]

A ocasião, os ladrões etc e tal.

- Cara, você tem horas?
- Vinte pras onze.
- Frio, hein?
- Putz, nem fale.
- Foda. O busão demorando pacas!
- Pior. Vai pegar qual?
- O que vai pros lados da Rebouças.
- Eu também tô indo pra lá. O próximo é só daqui a dez minutos.
- Ah, não demora. Mas, meu, você não repara?
- No quê?
- Sabe, cara…
- [...]

Microconto: Um velho morre.

Foi só pouco antes de morrer, de fechar os olhos e se desintegrar no Grande Nada, que o moribundo e envelhecido escritor teve as mais tresloucadas e geniais ideias para contos, os contos que ele sonhara a vida toda escrever. Só naquele instante da Grande Verdade, naquela suprema hora em que uma mera faísca de vida [...]

No semáforo.

O Velho e o semáforo. Daria tempo? Não daria? Apenas o carro e o Velho. A Máquina e o Homem. Os vidros escuros não deixavam ver quem dirigia. A escuridão noturna também não ajudava. Pouquíssimas pessoas nas calçadas. Era aquela hora em que cada um só pensa em si. Só na volta para casa. O atavismo [...]

O Homem Ardiloso.

O sol estava o tempo todo lá. Sempre esteve. Sempre tinha estado. Mas o homem ardiloso só tivera olhos para seus ardis pessoais. Em tudo que fez poderia ser vista a intenção de prejudicar aqueles que lhe cruzassem seu caminho. O homem ardiloso não tivera amigos. Tampouco família. De suas origens nada se sabia. Para [...]

Uma impossibilidade ontológica.

[Texto com as devidas correções]                          
Divagações metafórico-filosóficas de Malvina, uma senhora insone. Mas quem quer saber disso?
___________

- Velho, tá acordado?- …- Tá?- Hum?- Tá me ouvindo?- Ahn?- Escuta. – Ah… – Espia as estrelas no céu, velho. – Ah, o quê?- Não, abre os olhos, vamos. Dá uma olhada nas estrelas que Deus fez.- [...]

Climóstenes e sua Mulher

Climóstenes estava prestes a sair de casa para o trabalho. A mulher, deitada ainda, pois naquele dia fora atacada por uma dor de cabeça “muito da filha da puta”, deixara o café pronto e o sanduíche de mortadela em cima da pia. “E bota água no copo pra não juntar formiga!” Grávida de dois meses, [...]

O (des)encontro.

    Fazia tempo que não nos víamos. Ela estava mudada. E ao mesmo tempo era a mesma. Lá estava o mesmo sorriso. Já as chispas do olhar de outrora, essas já não existiam. O mesmo modo de pronunciar as palavras, que saíam de sua boca como que envoltas em algodão. Do ardor de antes com [...]

Prosa altissonante, realidades prosaicas. (Primeiro Episódio)

   Por mais que eu tentasse, não conseguia ver por entre aquelas sombras. Tateando, trôpego, quase sem ar, mal podia ter uma idéia fraca de onde eu estava, para inde iria, de onde viera. Meus pensamentos, opacos, naquela bruma que estava prestes a se tornar caos, matéria disforme e pântano desorientador, se desintegravam em cadeia, [...]

Do bloquinho de notas: Microcontos.

                   O bocejo.
 
              
      O moribundo bocejou na extrema-unção.
 
_________________
 
                     A ascensão.
 
             
 
     Subindo a rua íngreme, o velho jamais a desceria por vontade própria novamente.
 
____________________
                    
                       Despertando.
 
               
 
    Um dia ele acordou e viu um dodô em cima da cama.

"Eu era. Eu fui".

 
    Fragmentei-me.
   Minhas partes/partículas se dispersam ao sabor dos ventos errantes que findam acertando em seu propósito. Tento, em vão, desesperadamente, ir juntando, catando, tentando reuní-las. Esta. Aquela. Aquela outra. Todas me humilham em seus volteios. São várias. Que um dia já juntas estiveram e assim constituíram algo parecido com uma unidade. [...]

Contrariando os tempos atuais, cultivando a tristeza.

     
         Tristeza. Falar desse sentimento num mundo em que tudo gira em torno de uma constante busca pelas vivências excitantes, pelos risos desenfreados, pelas gargalhadas fáceis; mundo em que a maioria busca o Santo Graal, ou seja, a tal da Grande Felicidade; mundo em que todo e qualquer tipo de não-aceitação das regras e [...]

Do caderninho de exercícios de escrita: a estória de João-Boca-de-Siri.

                                 
           Enterrado como indigente
 
      A verdade é que ninguém o conhecia. Ninguém jamais o conhecera. Pelo menos não a ponto de saber de onde ele era, para onde iria, o que desejava, o que temia. Ele não se dava com ninguém. Pelo que parecia, não por ser um crápula ou algo do tipo. Era de sua índole [...]

Da maledicência e outras finezas.

            
      Sarah Splendour McAlbow
     Uma noite de arraso no mundo da moda
 
 CCCCCCCC                 
 
   Noite de estréia da mais nova top da agência SPLENDOUR. No jantar-desfile, as mesas, por volta das dezenove, já estavam abarrotadas. Uma banda de senhores de smoking tocava de Creedence a Nirvana, de Sinatra a Elvis, de Dylan a Lou Reed. A atmosfera era das mais agradáveis, [...]

Epifania prosaica de Samantha.

Estava eu andando por uma rua movimentada quando vi um rosto entre vários. Um rosto. Milésimos de segundo. Nos olhamos. Minha amiga e eu estávamos voltando do almoço, cansadas, exaustas. Não me lembro do que falávamos. Não importa. O que de fato conta foi ver aquele estranho, que nem era lindo, maravilhoso, [...]

"O Homem-Fiasco": uma estorinha existencialista às avessas.

                           
     Todos lhe previam um grande futuro. Desde pequeno, acostumara-se com o fato de que, em tudo que ele fizesse, sempre haveria alguém a lhe louvar as atitudes e ver nelas o supra-sumo da inteligência, a semente de um futuro gênio da ciência, das artes, ou, se possível, das duas, como um novo [...]

Em honra de Marianita (Trecho de um diário).

   Nota de advertência: o texto a seguir é produto da imaginação do autor, como todos os textos que pertencem à categoria Conto/Crônica ao lado. Portanto, as circunstâncias, as personagens e tudo o mais que nele houver pertencem à ficção. Quanto aos termos de baixo calão, eles foram necessários à verossimilhança na caracterização desse narrador sui generis, cujo [...]