Há quase três anos, deixei aqui uma “auto-entrevista”, uma brincadeira inconsequente e por isso mesmo “com a qual ou sem a qual o mundo permanece tal e qual”. Passado esse tempo todo, volto com uma nova sessão de entrevista “em que o ego volta-se ao próprio ego”… Argh! Senhoras e senhores, tomem isso como uma grande brincadeira. É disso que se trata. Em vez de me denunciarem ao hospício mais próximo, afrouxem a gravata, o espartilho e o espírito e dêem um desconto a um pobre ser em busca da Grande Consonância com o Cosmos, ou algo parecido. Só tenho a lhes agradecer antecipadamente.
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Nosso entrevistado chega de i-Pod, com uma camiseta do Pink Floyd, calça jeans, de tênis, o olhar meio vago e sonolento, o cabelo meio desgrenhado, os óculos escuros pendurados na gola. Senta-se na poltrona, coloca a perna direita flexionada sobra a esquerda e me olha fixo. Figura que destoa de tudo, não parece muito à vontade no papel de entrevistado. A palidez é acentuada pela camiseta preta. Quando está prestes a falar, movimenta-se um pouco, bebe água mineral, muda de posição. Ele quer falar logo.
Elienai: Bem, estamos aí.
Entrevistador: Tudo bem?
Elienai: Bem. Acho. Tudo bem contigo?
E.: É, se está tudo bem contigo, necessariamente tem que estar comigo, não acha?
Elienai: É, faz sentido.
E.: Como analisa sua vida atualmente?
Elienai: Mas já? Bem, você se refere à vida psíquica, financeira, afetiva, onírica, gástrica, ao quê?
E.: À que você quiser.
Elienai: Sabe, até que estou bem, em termos mentais. Ainda não quis matar ninguém este mês.
E.: Estou falando sério.
Elienai: Eu também! Mas tudo bem: estou bem. Mas que coisa chata, isso!
E.: Anda vendo bons filmes, lendo bons livros, saindo muito, curtindo a vida, comen…, digo, saindo com alguém?
Elienai: [risos]. Mas que entrevistador mais sacana!
E.: Responda, por favor.
Elienai: Ok, ok [se recompondo]. Não, não ando “saindo” com ninguém ultimamente. Quando estiver saindo, estarei te avisando.
E.: Estarei te agradecendo…
Elienai: Mas sério: ando lendo bastante, vendo alguns filmes. Na verdade, estou com vários filmes na estante para assistir. Mas estou bem seletivo. Meu tempo é bem escasso e procuro usá-lo da forma mais proveitosa possível.
E.: O que vem a ser proveitoso nesse caso?
Elienai: Tenho procurado ações que me permitam “sair” de mim mesmo e dessa forma me enriquecer mental, cultural e intelectualmente, entende?
E.: Aí a gente entra num assunto que tem um potencial muito grande para gerar controvérsias.
Elienai: É mesmo? Então mande!
E.: O que você tem a dizer àqueles que te acham por demais exibicionista? Certas pessoas sempre te acusam de ser um “autodidata” arrogante, que tem o nível superior incompleto, você, um ser isolado, fechado, e mesmo assim, supostamente, quer parecer intelectual. Sendo que, segundo ainda essas pessoas, não é.
Elienai: Vamos por partes. Primeira coisa: não acredito em categorias generalizantes, em grandes grupos de definição: “autodidata”, por exemplo. Eu, exibicionista? Quem não é hoje? Uma pena que essas pessoas que me apontam o dedo não tenham o mínimo de discernimento para ver o seguinte. Com as novas tecnologias de informação, os canais para propagação de opiniões pessoais se difundiram monstruosamente. O que leva a se ter a impressão superficial de que surgiu de uma hora para outra a necessidade de “exibicionismo”, termo muito mais complexo psicologicamente falando do que podemos imaginar. Sim, no ser humano isso existe, potencialmente. O que aconteceu é que esses mecanismos de divulgação de opiniões – e este blog é um exemplo – apenas potencializam esta necessidade, canalizam esta predisposição quase inata. Ou seja: são meros catalisadores para uma urgência interior muito acentuada que já existe potencialmente. O que não quer dizer que não exista muita gente que não extrapole. Estou convicto de que não sou dessas últimas pessoas. Quanto a ser supostamente um “autodidata arrogante”: o que me deixa realmente assombrado é esse tipo de gente que, mal te conhecendo, já lança definições definitivas, frases feitas, estereótipos sobre a sua pessoa. Somos seres cambiantes, cheios de nuances. Somos caleidoscópios, seres multifacetados! Se for assim, se basearmos nossa opinião sobre quem quer que seja em apenas alguns “momentos”, estaremos “fritos”: a cada momento teremos que reorganizar nossa opinião sobre uma dada pessoa.
E.: Você se reconhece um exibicionista?
Elienai: Achar que alguém deixa transparecer arrogância por ostentar um conhecimento adquirido às próprias penas, fruto da curiosidade mais genuína, é de uma pobreza de espírito e de um preconceito e de uma canalhice sem tamanho. O saber institucionalizado, a troca de informações com pessoas da academia, tudo aquilo que aprendemos numa instituição de ensino superior, tudo isso é relevantíssimo em termos profissionais. Não há como negar isso! Mas existem, ninguém pode negar, direitos inalienáveis de se buscar outras vias para se chegar ao conhecimento. A maioria das pessoas – com raras exceções, e falo isso com plena convicção – que pensa dessa forma é de gente que não tem o hábito, o amor, o tesão pela leitura. A leitura não-instrumental. A leitura que não se pauta por necessidades profissionais. Quem realmente lê - e não apenas corre os olhos pelas letras, se empanturrando de livros, mal os “digerindo” durante quatro ou cinco anos em uma faculdade -, enfim: quem realmente sabe que a leitura sempre leva a novos horizontes, sempre nos impulsiona para frente, nunca nos fecha em apenas uma área do saber, pois bem, quem tem esse perfil de leitor sabe, se sabe!, que o autodidatismo, que essa busca constante pelo saber, usando as próprias forças internas, é uma coisa natural, óbvia, que deságua naquele interesse sempre crescente e ousadia total. Ousadia, digo, pois não se contenta em seguir o que meia dúzia de centros acadêmicos determinam. E deixemos bem claro: no momento em que eu quiser me definir como o “intelectual”, como se isso por si só me colocasse num âmbito superior aos outros, a partir desse momento estarei morto, pelo menos em termos cognitivos. O problema não é se autodefinir como intelectual. E qualquer pessoa pode ser um. Basta que você se preocupe com as coisas do intelecto, do espírito. Que sempre incentive sua massa cinzenta, simples assim. O problema mesmo é quando você assimila um estereótipo reducionista. Agora, se consideram “exibicionismo” um cara com curso superior incompleto falar de Kierkegaard, não posso saber mais o que sejam autoritarismo e preconceito. Mas o que me dá prazer também é rir desses dois últimos. E se Goethe tinha razão quando disse que somos seres coletivos, então sou um reflexo de todos os autores que li, leio e ainda vou ler até o fim dos meus dias.
E.: Como assim, que história é essa de “morto”?
Elienai: “Morto” porque não teria mais o que aprender. Quem se autodefine intelectual, pelo menos de forma autocongratulatória, por pura arrogância pueril, se acha detentor oficial de conhecimentos. O cara pára no tempo. A vaidade o impede de ver que há, que sempre haverá, algo para se aprender. E outra coisa, ainda sobre mim: não busco o conhecimento pelo conhecimento. Lamento se há quem me imagine assim. Nunca quis ser o doutor Pardal, o sabe-tudo. Eu estaria sendo terrivelmente contraditório se o fizesse. O conhecimento, para mim, sempre está vinculado à observação da vida, dos seres ao meu redor, por mais que eu seja, sim, um cara solitário. Mas não isolado. Há uma grande diferença, por sinal. Sempre fui, é natural na minha vida, a solidão. Desde muito pequeno já tinha plena consciência da minha insularidade. Até me lembro de, com a mão dada à da minha mãe, passeando pelas ruas de Pinheiros, “devanear”, me isolando daquela loucura toda e me “perder” em mim mesmo. A solidão… Não a solidão vulgarmente conhecida. Não tenho horror aos meus semelhantes. Não sou uma ilha. Ninguém o é! Aprendo constantemente exatamente no entrechoque com meus semelhantes. De nada adianta ter um tesão pelo conhecimento se não se tem uma vivência humana. E vivência humana já traz embutida a idéia da convivência. O círculo se fecha assim. Só que a convivência humana muito prolongada me cansa. De tempos em tempos preciso voltar ao meu posto de observação, ficar à parte, não refratário aos meus semelhantes, frisemos bem. Não me vejo por causa disso como um ser com neuras. Apenas sublimei muita coisa que antes poderia até me deixar em parafuso. Se bate a solidão, a necessidade de ficar só comigo mesmo, canalizo essa necessidade para algo construtivo, do meu modo, do meu jeito.
E.: Você escreve ainda, tem o sonho de se tornar um autor célebre?
Elienai: Sou o mesmo garoto que no primário via a escrita como uma possibilidade de redenção. Continuo vendo nas palavras impressas uma necessidade vital. Se fico muito tempo sem escrever algo, me sinto estranho. Sim, sonho com a escrita atrelada a tudo que faço, sendo ela uma ferramenta com a qual eu possa extravasar e recriar tudo o que me vai por dentro. Nada mudou. Apenas fiquei um pouco mais míope.
E.: Poderia falar mais sobre suas veleidades literárias?
Elienai: Minhas veleidades literárias não se pautam por expectativas grandiosas de sucesso. De sonhos de estrelato. De uma obra que influencie a humanidade. Conheço a natureza humana o suficiente para não cair nessa roubada. Não acredito que haja uma idade além da qual já não exista a possibilidade de se criar o que quer que seja, seja em arte, seja na vida profissional. Desde que você disponha de todo seu aparato psíquico intacto, meu caro, você pode sim. É uma questão de canalizar a energia psíquica pra isso. Já ouço me crucificarem por dizer isso… Em termos bem simplórios: prepare-se para aquilo. O talento natural existe, sim. Mas falta muito mais. Não é se masturbando psicologicamente com os louros da vitória, com a “sede de nomeada”, que você vai sair do lugar. Não basta vontade, também, portanto. Escrever é uma ação que só com o tempo você vai afinando, vai se conhecendo, vai encontrando sua “voz”, lendo muito, com os grandes, sobretudo. O talento pode existir. Falta muito mais do que isso. Falta moldá-lo, aparar as arestas.
E.: Por que você não escreve com mais frequência aqui?
Elienai: O meio, meu caro.
E.: Não entendi.
Elienai: Se eu publicasse aqui tudo que tenho no “fundo da gaveta”, eu me sentiria destituído de coisas que para mim, veja bem, para mim, são valiosas. Coisas que precisam de um tempo de maturação, de reflexão. Se eu as publicasse, alguma coisa que lá na frente poderia ser mais trabalhada estaria perdida. A instantaneidade do blog me dá a sensação de sêmen perdido, com perdão da bizarrice da comparação.
E.: O blog continua então?
Elienai: Bem, se não vierem me buscar com uma camisa-de-força por causa desta auto-entrevista, prometo em breve postar mais impressões sobre filmes e livros.
E.: Viu um passarinho verde?
Elienai: Como assim?
E.: Sei lá. Você fica um bom tempo sem postar nada e de repente “desembesta” a escrever aqui. Daqui a pouco teremos post seu sobre o que você anda fazendo no banheiro!
Elienai: [risos] Nem tanto, nem tanto. Mas, sabe, é apenas quando estou num período ativo, lendo bastante e tal, que me dá mais vontade para escrever aqui. Escrevendo sempre estou. Não necessariamente aqui.
E.: Recados para alguém?
Elienai: Não, hoje não.
E.: Te agradeço…
Elienai: Um momentinho. Tenho sim, um recado. Senhores acadêmicos da área de neurociência, topo qualquer parada: me disponho a ser uma cobaia. Isso mesmo. Afinal, como um cara com superior incompleto consegue se interessar pelo não-trivial, ousa transcender seu mundinho e adentrar o território apenas dos eleitos, os que tiveram acesso ao conhecimento acadêmico, algo inimaginável para um plebeu? Vai ver, meu cérebro tem alguma rota não-conhecida pela ciência, rota essa pela qual meus neurônios criam conexões de uma forma nova, não acha?
E.: Bem, prefiro não opinar.
Elienai: Você não me acha inteligente? Diz a verdade, vai.
E.: Muito obrigado pela entrevista, Elienai.
Elienai: Não, mas me diga que …
[Microfone cortado].
