Monólogo de um ego

quase três anos, deixei aqui uma “auto-entrevista”, uma brincadeira inconsequente e por isso mesmo “com a qual ou sem a qual o mundo permanece tal e qual”. Passado esse tempo todo, volto com uma nova sessão de entrevista “em que o ego volta-se ao próprio ego”… Argh! Senhoras e senhores, tomem isso como uma grande brincadeira. É disso que se trata. Em vez de me denunciarem ao hospício mais próximo, afrouxem a gravata, o espartilho e o espírito e dêem um desconto a um pobre ser em busca da Grande Consonância com o Cosmos, ou algo parecido. Só tenho a lhes agradecer antecipadamente.

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Nosso entrevistado chega de i-Pod, com uma camiseta do Pink Floyd, calça jeans, de tênis, o olhar meio vago e sonolento, o cabelo meio desgrenhado, os óculos escuros pendurados na gola. Senta-se na poltrona, coloca a perna direita flexionada sobra a esquerda e me olha fixo. Figura que destoa de tudo, não parece muito à vontade no papel de entrevistado. A palidez é acentuada pela camiseta preta. Quando está prestes a falar, movimenta-se um pouco, bebe água mineral, muda de posição. Ele quer falar logo.

Elienai: Bem, estamos aí.

Entrevistador: Tudo bem?

Elienai: Bem. Acho. Tudo bem contigo?

E.: É, se está tudo bem contigo, necessariamente tem que estar comigo, não acha?

Elienai: É, faz sentido.

E.: Como analisa sua vida atualmente?

Elienai: Mas já? Bem, você se refere à vida psíquica, financeira, afetiva, onírica, gástrica, ao quê?

E.: À que você quiser.

Elienai: Sabe, até que estou bem, em termos mentais. Ainda não quis matar ninguém este mês.

E.: Estou falando sério.

Elienai: Eu também! Mas tudo bem: estou bem. Mas que coisa chata, isso!

E.: Anda vendo bons filmes, lendo bons livros, saindo muito, curtindo a vida, comen…, digo, saindo com alguém?

Elienai: [risos]. Mas que entrevistador mais sacana!

E.: Responda, por favor.

Elienai: Ok, ok [se recompondo]. Não, não ando “saindo” com ninguém ultimamente. Quando estiver saindo, estarei te avisando.

E.: Estarei te agradecendo

Elienai: Mas sério: ando lendo bastante, vendo alguns filmes. Na verdade, estou com vários filmes na estante para assistir. Mas estou bem seletivo. Meu tempo é bem escasso e procuro usá-lo da forma mais proveitosa possível.

E.: O que vem a ser proveitoso nesse caso?

Elienai: Tenho procurado ações que me permitam “sair” de mim mesmo e dessa forma me enriquecer mental, cultural e intelectualmente, entende?

E.: Aí a gente entra num assunto que tem um potencial muito grande para gerar controvérsias.

Elienai: É mesmo? Então mande!

E.: O que você tem a dizer àqueles que te acham por demais exibicionista? Certas pessoas sempre te acusam de ser um “autodidata” arrogante, que tem o nível superior incompleto, você,  um ser isolado, fechado, e mesmo assim, supostamente, quer parecer intelectual. Sendo que, segundo ainda essas pessoas,  não é.

Elienai: Vamos por partes. Primeira coisa: não acredito em categorias generalizantes, em grandes grupos de definição: “autodidata”, por exemplo. Eu, exibicionista? Quem não é hoje? Uma pena que essas pessoas que me apontam o dedo não tenham o mínimo de discernimento para ver o seguinte. Com as novas tecnologias de informação, os canais para propagação de opiniões pessoais se difundiram monstruosamente. O que leva a se ter a impressão superficial de que surgiu de uma hora para outra a necessidade de “exibicionismo”, termo muito mais complexo psicologicamente falando do que podemos imaginar. Sim, no ser humano isso existe, potencialmente. O que aconteceu é que esses mecanismos de divulgação de opiniões – e este blog é um exemplo – apenas potencializam esta necessidade, canalizam esta predisposição quase inata. Ou seja: são meros catalisadores para uma urgência interior muito acentuada que já existe potencialmente. O que não quer dizer que não exista muita gente que não extrapole. Estou convicto de que não sou dessas últimas pessoas. Quanto a ser supostamente um “autodidata arrogante”: o que me deixa realmente assombrado é esse tipo de gente que, mal te conhecendo, já lança definições definitivas, frases feitas, estereótipos sobre a sua pessoa. Somos seres cambiantes, cheios de nuances. Somos caleidoscópios, seres multifacetados! Se for assim, se basearmos nossa opinião sobre quem quer que seja em apenas alguns “momentos”, estaremos “fritos”: a cada momento teremos que reorganizar nossa opinião sobre uma dada pessoa.

E.: Você se reconhece um exibicionista?

Elienai: Achar que alguém deixa transparecer arrogância por ostentar um conhecimento adquirido às próprias penas, fruto da curiosidade mais genuína, é de uma pobreza de espírito e de um preconceito e de uma canalhice sem tamanho. O saber institucionalizado, a troca de informações com pessoas da academia, tudo aquilo que aprendemos numa instituição de ensino superior, tudo isso é relevantíssimo em termos profissionais. Não há como negar isso! Mas existem, ninguém pode negar, direitos inalienáveis de se buscar outras vias para se chegar ao conhecimento. A maioria das pessoas – com raras exceções, e falo isso com plena convicção – que pensa dessa forma é de gente que não tem o hábito, o amor, o tesão pela leitura. A leitura não-instrumental. A leitura que não se pauta por necessidades profissionais. Quem realmente lê - e não  apenas corre os olhos pelas letras, se empanturrando de livros, mal os “digerindo” durante quatro ou cinco anos em uma faculdade -, enfim: quem realmente sabe que a leitura sempre leva a novos horizontes, sempre nos impulsiona para frente, nunca nos fecha em apenas uma área do saber, pois bem, quem tem esse perfil de leitor sabe, se sabe!, que o autodidatismo, que essa busca constante pelo saber, usando as próprias forças internas, é uma coisa natural, óbvia, que deságua naquele interesse sempre crescente e ousadia total. Ousadia, digo, pois não se contenta em seguir o que meia dúzia de centros acadêmicos determinam.  E deixemos bem claro: no momento em que eu quiser me definir como o “intelectual”, como se isso por si só me colocasse num âmbito superior aos outros, a partir desse momento estarei morto, pelo menos em termos cognitivos. O problema não é se autodefinir como intelectual. E qualquer pessoa pode ser um. Basta que você se preocupe com as coisas do intelecto, do espírito. Que sempre incentive sua massa cinzenta, simples assim. O problema mesmo é quando você assimila um estereótipo reducionista. Agora, se consideram “exibicionismo” um cara com curso superior incompleto falar de Kierkegaard, não posso saber mais o que sejam autoritarismo e preconceito. Mas o que me dá prazer também é rir desses dois últimos. E se Goethe tinha razão quando disse que somos seres coletivos, então sou um reflexo de todos os autores que li, leio e ainda vou ler até o fim dos meus dias.

E.: Como assim, que história é essa de “morto”?

Elienai: “Morto” porque não teria mais o que aprender. Quem se autodefine intelectual, pelo menos de forma autocongratulatória, por pura arrogância pueril, se acha detentor oficial de conhecimentos. O cara pára no tempo. A vaidade o impede de ver que há, que sempre haverá, algo para se aprender. E outra coisa, ainda sobre mim: não busco o conhecimento pelo conhecimento. Lamento se há quem me imagine assim. Nunca quis ser o doutor Pardal, o sabe-tudo. Eu estaria sendo terrivelmente contraditório se o fizesse. O conhecimento, para mim, sempre está vinculado à observação da vida, dos seres ao meu redor, por mais que eu seja, sim, um cara solitário. Mas não isolado. Há uma grande diferença, por sinal. Sempre fui, é natural na minha vida, a solidão. Desde muito pequeno já tinha plena consciência da minha insularidade. Até me lembro de, com a mão dada à da minha mãe, passeando pelas ruas de Pinheiros, “devanear”, me isolando daquela loucura toda e me “perder” em mim mesmo. A solidão… Não a solidão vulgarmente conhecida. Não tenho horror aos meus semelhantes. Não sou uma ilha. Ninguém o é! Aprendo constantemente exatamente no entrechoque com meus semelhantes. De nada adianta ter um tesão pelo conhecimento se não se tem uma vivência humana. E vivência humana já traz embutida a idéia da convivência. O círculo se fecha assim. Só que a convivência humana muito prolongada me cansa. De tempos em tempos preciso voltar ao meu posto de observação, ficar à parte, não refratário aos meus semelhantes, frisemos bem. Não me vejo por causa disso como um ser com neuras. Apenas sublimei muita coisa que antes poderia até me deixar em parafuso. Se bate a solidão, a necessidade de ficar só comigo mesmo, canalizo essa necessidade para algo construtivo, do meu modo, do meu jeito.

E.: Você escreve ainda, tem o sonho de se tornar um autor célebre?

Elienai: Sou o mesmo garoto que no primário via a escrita como uma possibilidade de redenção. Continuo vendo nas palavras impressas uma necessidade vital. Se fico muito tempo sem escrever algo, me sinto estranho. Sim, sonho com a escrita atrelada a tudo que faço, sendo ela uma ferramenta com a qual eu possa extravasar e recriar tudo o que me vai por dentro. Nada mudou. Apenas fiquei um pouco mais míope.

E.: Poderia falar mais sobre suas veleidades literárias?

Elienai: Minhas veleidades literárias não se pautam por expectativas grandiosas de sucesso. De sonhos de estrelato. De uma obra que influencie a humanidade. Conheço a natureza humana o suficiente para não cair nessa roubada. Não acredito que haja uma idade além da qual já não exista a possibilidade de se criar o que quer que seja, seja em arte, seja na vida profissional. Desde que você disponha de todo seu aparato psíquico intacto, meu caro, você pode sim. É uma questão de canalizar a energia psíquica pra isso. Já ouço me crucificarem por dizer isso… Em termos bem simplórios: prepare-se para aquilo. O talento natural existe, sim. Mas falta muito mais. Não é se masturbando psicologicamente com os louros da vitória, com a “sede de nomeada”, que você vai sair do lugar. Não basta vontade, também, portanto. Escrever é uma ação que só com o tempo você vai afinando, vai se conhecendo, vai encontrando sua “voz”, lendo muito, com os grandes, sobretudo. O talento pode existir. Falta muito mais do que isso. Falta moldá-lo, aparar as arestas.

E.: Por que você não escreve com mais frequência aqui?

Elienai: O meio, meu caro.

E.: Não entendi.

Elienai: Se eu publicasse aqui tudo que tenho no “fundo da gaveta”, eu me sentiria destituído de coisas que para mim, veja bem, para mim, são valiosas. Coisas que precisam de um tempo de maturação, de reflexão. Se eu as publicasse, alguma coisa que lá na frente poderia ser mais trabalhada estaria perdida. A instantaneidade do blog  me dá a sensação de sêmen perdido, com perdão da bizarrice da comparação.

E.: O blog continua então?

Elienai: Bem, se não vierem me buscar com uma camisa-de-força por causa desta auto-entrevista, prometo em breve postar mais impressões sobre filmes e livros.

E.: Viu um passarinho verde?

Elienai: Como assim?

E.: Sei lá. Você fica um bom tempo sem postar nada e de repente “desembesta” a escrever aqui. Daqui a pouco teremos post seu sobre o que você anda fazendo no banheiro!

Elienai: [risos] Nem tanto, nem tanto. Mas, sabe, é apenas quando estou num período ativo, lendo bastante e tal, que me dá mais vontade para escrever aqui. Escrevendo sempre estou. Não necessariamente aqui.

E.: Recados para alguém?

Elienai: Não, hoje não.

E.: Te agradeço…

Elienai: Um momentinho. Tenho sim, um recado. Senhores acadêmicos da área de neurociência, topo qualquer parada: me disponho a ser uma cobaia. Isso mesmo. Afinal, como um cara com superior incompleto consegue se interessar pelo não-trivial, ousa transcender seu mundinho e adentrar o território apenas dos eleitos, os que tiveram acesso ao conhecimento acadêmico, algo inimaginável para um plebeu? Vai ver, meu cérebro tem alguma rota não-conhecida pela ciência, rota essa pela qual meus neurônios criam conexões de uma forma nova, não acha?

E.: Bem, prefiro não opinar.

Elienai: Você não me acha inteligente? Diz a verdade, vai.

E.: Muito obrigado pela entrevista, Elienai.

Elienai: Não, mas me diga que …

[Microfone cortado].

"Eu era. Eu fui".

 

    Fragmentei-me.

   Minhas partes/partículas se dispersam ao sabor dos ventos errantes que findam acertando em seu propósito. Tento, em vão, desesperadamente, ir juntando, catando, tentando reuní-las. Esta. Aquela. Aquela outra. Todas me humilham em seus volteios. São várias. Que um dia já juntas estiveram e assim constituíram algo parecido com uma unidade. Agora, no presente desalentador do meu “eu” fragmentado, caótico, há apenas a tentativa insana de colar num utópico todo coeso essas peças soltas, desajustadas, órfãs, desgarradas e agora na plenitude de sua selvagem gratuidade, sua fortuita nova configuração.

   E elas vão, aos poucos, se desmaterializando, tal qual as partículas de poeira que dançam no facho da luz solar, entram numa zona de sombra e, uma a uma, ali ficam. Extingue-se a unidade que um dia houve.

   À medida que se dissolvem as outrora essenciais partes de mim mesmo, tudo se torna igualmente indefinido. Este rosto no espelho: decerto é de outro alguém! Esta voz, estes gestos incertos, estes pensamentos recorrentes, estas ânsias, estes receios, estas vozes interiores: sem dúvida algum estranho se alojou em mim!

   E outras ações dispara(ta)das por outro centro nervoso que não o meu de antigamente vão ganhando espaço e prevalecendo e tomando o lugar das outras, que, submissas, cedem lugar.

   As partículas, por fim, se perdem num imenso vácuo. Que tudo traga.

   Eu era. Eu fui.

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Ao som de John Coltrane, Impressions.

Em entrevista comigo mesmo (?!), explico o porquê do orkuticídio

- Elienai, você poderia dizer aqui para nós por que cometeu orkuticídio?

- Você se refere ao fato de eu ter optado por sair daquele mundinho de mediocridades e futilidade (“requinte” esse que dispenso!) descerebrada? Bem, pra começo de conversa eu me cansei daquilo. Tá, tudo bem. Quase dois anos atrás eu fiz a mesma coisa: dissera que havia enjoado daquela atmosfera viciante e entorpecente, os mesmos analfabetos funcionais se passando pelo que não são, uma indigência cultural avassaladora etc e tal e mesmo assim acabei tendo uma recaída. Mas dessa vez é pra valer: não tem volta. Cansei legal. E foi um “castigo” pra mim mesmo: aquela b**** tomava quase todo meu tempo na web. Essa saída atribuo ao meu superego, aquela instância que volta e meia, ou seja, a todo momento, nos dá um “pito” por certas atitudes nossas, por certas asneiras etc… Aquelas comunidades repletas de gente que mal escreve uma frase com coerência… Argh!  Cortei o mal pela raíz. Quero me dedicar com afinco a outras coisas mais intelectualmente enriquecedoras. Só não tive tempo para mandar um e-mail ou recado de despedidas para alguns poucos amigos… Também não quero mais ser um sujeito facilmente alcançável, acessível, e entendam como quiser isso. Quero ficar incógnito, isolado, esquecido (Na medida do possível e do que é permitido a uma pessoa mentalmente saudável, claro. Foi uma opção, frisemos bem). E quanto menos exposto, melhor. A não ser aqui neste blog semi-morto, por quanto tempo não sei, expressarei (algumas das) minhas parcas idéias, dos meus disparates pseudo-literários.

- Mas não era apenas uma questão de você se impor limites, ao invés de eliminar de vez uma ferramenta poderosa para criar novas amizades, estabelecer um intercâmbio cultural e uma possibilidade de aumentar sua network? E outra: você usou e abusou da “ferramenta” Orkut e pode parecer, para alguns, bem hipócrita sua atitude.

- Network o escambau! Reconheço que há sim possibilidades de vir a se conhecer gente interessante (leia-se: gente que leu pelo menos meia dúzia de livros na vida!) ali. Eu mesmo conheci várias pessoas assim. E não creio que eu esteja sendo hipócrita. Ainda bem que tive como acordar a tempo.

E deixo aqui meu e-mail para quem quiser (quem???) entrar em contato comigo: elienaiaraujo@gmail.com. E não estou sendo incoerente. Suponho que quem pode me escrever são uns gatos pingados, exatamente gente com conteúdo cujo nome tive a honra de ter na minha seleta lista de amigos. Mas foi uma questão de foro íntimo, quer dizer, de vontade soberana, ou seja… ah, entendeu, né?

- Não.

- Então vai-te … Bem… O que importa é que o Orkut vai continuar o mesmo sem mim, eu é que vou mudar (para melhor!) sem ele. Aos três ou quatro seres que conheci ali, o meu grande abraço e vamos parando por aqui que está ficando piegas demais.

 

 

Essa saída atribuo ao meu superego, aquela instância que volta e meia, ou seja, a todo momento, nos dá um “pito” por certas atitudes nossas, por certas asneiras etc…

 

 

- Algum momento marcante no Orkut?

- Nenhum.

- Vai ficar com saudades?

- Ah, tenha dó!

- Volta um dia?

- Você tá de brincadeira!

- Em uma semana, aposto: você volta.

- (impublicável). Apaguei meu perfil lá para manter minha paz de espírito intacta.

 

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Ao som de Valsa do Adeus, de Chopin.

Em descompasso com o mundo.

      O planeta girava numa direção; ele, em  outra; as pessoas rumavam a um lugar determinado; já ele insisitia em não ter rumo algum; a vida dos outros era um eterno choque com as circunstâncias; a dele entrava nas correntezas delas e nelas se perdia. E sumia. Vagando assim, sem rumo, à deriva, minúscula poeira no âmago do furacão, ele passou a ver sua errônea jornada como, isso sim, um grito que destoava da toada uníssona, que se sobressaía no diapasão monocórdio de uma mesmice comportada, previsível e fadada, ela sim, a uma uniformização limitadora. Agora, nosso herói passava a ostentar com orgulho e ousadia sua outrora constrangedora tendência a não-uniformização. Nela, e por intermédio dela, vislumbrava o quão néscio havia sido; quanto tempo havia perdido e dispendido na tentativa de amenizar e ocultar sua carência de se conformar com o plano meramente da aparência. Do turbilhão de idéias que saía de sua cabeça agora, passou a se ver como um super-homem, indestrutível na sua essência do vir-a-ser. Com o tempo, ele passou a ver o mundo como algo tacanho, mesquinho, fútil e excessivamente limitado ante sua ilimitada multiplicidade, sua versatilidade absurda, sua concepção absoluta de si próprio em contraposição à relatividade empobrecedora e limitadora dos que o cercavam.   

     Os anos passaram, correram, saltaram.    

     E ele piorando.   

     Como viveu já faz algumas décadas, na ausência de tratamento mais eficaz, prescreveram-lhe várias e várias sessões de eletrochoque.  

     Morreu há quase trinta anos. Enterrado como mendigo. Sua cova era um buraco exíguo que mal comportou seu corpanzil. 

Auto-entrevista – Parte 1


Visto por alguns como “misantropo”; por outros, “não muito sociável”. Para certas pessoas, como “excessivamente fora dos padrões” (não no sentido laudatório do termo), “esquisito”, “singular” (também, e sobretudo, no sentido pejorativo), “meio alienado”, “orgulhoso”, “presunçoso”, “sem noção”, “mitômano”, “pedante”. Tal figura polêmica é o convidado de O IDIOSSINCRÁSICO©.
Chegamos cedo à casa de nosso entrevistado, Elienai Araújo, por determinação dele. Com os cabelos curtos, sem as lentes de contato, como ele mesmo enfatiza (“Sou um Mr. Magoo, repara não. É que não tive tempo de comprar o líquido de limpeza delas.”), usando uma camisa pólo azul-marinho, calça jeans azul-claro, de chinelos amarelos, com uma certa olheira que ressalta os olhos verdes, (“Sou mais branquelo quando acordo”) com um exemplar da Folha de S. Paulo na mão (“Viu só? Agora ninguém segura o Alckmin! Vamos surpreender os petralhas, que estão de salto alto!”). Por quase cinco horas, estivemos frente à frente com tal espécie rara (no sentido humano), professor de inglês e aspirante a escritor, amante, como veremos, de jazz, de Vivaldi, cinema (“não me contento com Spielberg, aliás, pouco me importo com ele, preciso mesmo de Bergman, Fellini, Truffaut etc”), literatura (“sou mais a prosa. Machado é meu deus. Mas sei apreciar um Manuel Bandeira, um Drummond e um Quintana, um Yeats, um Wordsworth, um Baudelaire e um Augusto dos Anjos”) e “tudo que estimule meus neurônios, que os sacuda”.
Eis a entrevista:

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Elienai Araújo: Sabemos que o senhor gosta de “ir além do óbvio”. Poderia nos falar um pouco sobre isso?

Elienai Araújo: Pois não, aceita um capuccino?

E.A.: Sim, obrigado.

E.A.: Perfeito, caro Li. Posso te chamar assim? Já vou abusando da boa vontade, me fazendo de íntimo, veja só.

E.A.: Que nada, senhor Elienai.

E.A.: Li, por favor. Senhor estava no céu, até o Nietzsche matá-lo [risos].

E.A.: Sim, Li.

[Pausa. Acaricia “Capitu”, sua cadelinha que faz dez anos este mês. “Diz isso na entrevista, por favor”]

E.A.: Como eu ia dizendo, Li, você disse bem: ir além do óbvio. Mas o que seria ir além do óbvio?

E.A.: …

E.A.: Ir além do óbvio é não se contentar com a mesmice, a falta de profundidade, a fatuidade, a pobreza e a preguiça mentais, a incapacidade de se “revoltar” com o já feitinho, redondinho, certinho, o limite imposto (por quem mesmo?), enfim, é ir contra a maré.

E.A.: Mas, sr. Elienai se…

E.A.: Li, please.

E.A.:… Li, se formos pensar assim, não seríamos eternos descontentes, sempre trombando com aquilo que nos incomoda? Ou seja: não podemos moldar tudo e todos de acordo com nosso ponto de vista, nossas idiossincrasias. Estaríamos fadados à eterna frustração, o senhor não concorda?

E.A.: Mas você tomou literalmente o que eu disse. Não estava falando de tudo [escandindo bem as sílabas] na vida, de todas [ênfase oratória] as pessoas e circunstâncias, de toda e qualquer situação, nem tampouco usei o termo “moldar”, entende? Me referi a uma atávica falta de profundidade, de carência de visão julgadora e de discernimento de muitas pessoas que se contentam, veja bem, se contentam, se resignam, se conformam, caro Li, com o superficial, com o perfunctório (sempre quis usar tal palavra, vê se não a omite na edição, hein?), e param por aí. E o que é pior: tentam nos impor, isso mesmo, tentam nos impor o superficial como o paradigma, como o padrão! Isso me irrita, assim como irrita também as pessoas dotadas dessa não-resignação com o aparente, com o tacanho, com a visão difundida pela tradição. Não me refiro à tradição axiomática, dos valores. Mas o medíocre travestido de tradicional.

E.A.: Você pode dar um exemplo dessa adesão ao supérfluo, ao superficial?

E.A.: Claro! Veja aqueles que consideram o rock a música jovem por excelência. Ah, se você se encontra entre os 18 e os 35, você é obrigado a gostar de rock, senão você é visto como ultrapassado, demodé, obsoleto e outros adjetivos simplificadores. Eu, por exemplo, já gostei muito de rock. Ok, eu seguia o mainstream, reconheço. Mas eu mudei, ainda bem, apesar de isso não influir na Bolsa de Valores nem no movimento de translação do planeta (risos). O que importa é que hoje o jazz particularmente e a música erudita em geral são os gêneros musicais que mais ouço, o que seria uma maneira eufemística de dizer que são os que mais me agradam. Só por isso sou jurássico? Se for assim, por volta dos meus 40 serei um sarcófago ambulante. Veja: dia desses, conversando com um colega, ele me viu com um cd na mão, um do Chet (Baker). Ele me perguntou qual era o site do cara, do Chet no caso, o blog, etc… Quando eu disse que ele havia morrido em 88 e que estivera no auge nos anos 50 e parte dos 60 para voltar no fim dos 70, você tinha que ver a cara de espanto dele. Depois do espanto, um riso irônico e de deboche coroado pela frase: “Tu és um museu mesmo, velho!” Bem, na cabeça desse colega, há um limite, uma barreira, uma camisa-de-força que impede que ele se desvencilhe desses conceitos estereotipados e passe a considerar outras realidades, outras nuances, outros conceitos mais arejados, mais livres de uma visão excessivamente tacanha, adestrada, eu diria.

E.A.: E essa, segundo suas palavras, falta de visão mais arejada é algo que podemos encontrar onde mais?

E.A.: Ah, dei apenas um mísero exemplo. Essa falta de visão pode ser encontrada em quase tudo no qual o ser humano deixa sua marca. Eu diria que isso não é o mal do século, sabe, eu diria que isso é o mal do milênio. Essa praga deve, deve não, com certeza foi a responsável por anos de obstrução e/ou falta de progresso no campo das idéias, das artes, enfim, no amplo leque de realizações humanas, ou no caso, de não-realizações. Essa praga seria café pequeno em comparação àquelas [pragas] lá do Egito. E ela se propagou no tempo e no espaço!

(A entrevista continua, caro leitor, gentil leitora, muito em breve. Aguarde).

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