ELEFANTES SE RECONHECEM NO ESPELHO

Os elefantes acabam de ingressar na seleta elite de animais capazes de se reconhecer diante de um espelho. Até então se sabia que, além dos seres humanos, somente grandes primatas e golfinhos tinham essa habilidade.
(…)
A experiência, publicada hoje na revista PNAS, consiste em marcar os animais com um X na cabeça. Incomodada, uma das fêmeas usou espontaneamente um espelho para observar onde havia sido marcada. Ao olhar sua imagem, o animal tocava com a tromba a marca, que só podia ser vista pelo reflexo.
Fonte: Estadão, 1º de novembro de 2006
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Zoológico de Southampton. Calor de 36 graus. Hora da ducha mútua. Duas elefantas se refrescam.
- Viu só, Trombina, estamos sendo finalmente reconhecidos!
- Ah, esses humanos…
– Eles sempre se achando os reis da cocada…
– Reis da cocada, Trombilda? Que coisa mais superada!
– Ah, Trombina, eles se acham… Só agora perceberam que nós, elefantes e elefantas, somos capazes de nos reconhecer… no espelho… hihihihi…
– Tolinhos!
– E só no espelho, note bem!
– Sim, isso quer dizer que, segundo eles, eu, Trombina Paquis, não sei quem sou, conceitualmente… Meu aparato psíquico, para os néscios, não é desenvolvido o suficiente para que eu possa me ver como um indivíduo e, conseqüentemente, não sou capaz de fazer uma abstração e, num processo de racionalidade sutil, generalizar e ver em mim um membro de uma dada espécie…
– Esses humanos ainda se regozijam com tal “descoberta” do espelho…
– E nos colocam limites, ao nos atribuir apenas e tão-somente a habilidade de nos reconhecer frente a um reles objeto do qual eles são servos, o espelho.
– E, assim, meu “eu”, meu “self”, vai por água abaixo. Assim, literalmente, veja.
As elefantas mergulham parcialmente na água do riacho natural. Os animais estão estressados com o calor.
– Hahahaha…O meu também.
– Sim, o “nosso”.
Pausa novamente. Água para todo o lado. Os sons emitidos pelos paquidermes são fortes. É um indicativo da satisfação dos animais. Eles parecem, digamos, ”conversar” sobre algo profundo.
– Os “humanóides” são patéticos…
– Sim, Bina, eles só sabem trabalhar, num plano conceitual, com aquilo que a pobre ciência deles dá de barato…
- Dá de barato, Trombilda?
– Sim, amiga, vê como algo certeiro, incontestável, incontornável, pre…
- Entendi, Bilda.
– … é isso. Eles não imaginam há quanto tempo já somos capazes de nos reconhecer, não em termos apenas de imagem, mas de conceito e também universal, racional e sobretudo filogeneticamente falando!
– Exato. E que somos mais do que comedores de amendoim. E que nossa relação com os ratos extrapola o âmbito limitado de supostos medos ancestrais e atávicos. E que não somos apenas animais de carga.
– E que possuímos muito mais do que uma boa memória… Conceito esse que, para eles, quando se refere a nós, é apenas restrito ao âmbito de um behaviorismo ridículo.
– Sem falar que o “medo” que apresentamos de um roedor diminuto NÃO é medo, na verdade. É, isso sim, a vertigem que sentimos, do alto de nossa massa física, da nossa imensidão e superioridade musculares, diante daquele absurdo contraste entre o poderoso e o irrelevante…
– …entre o macro e o micro. Entre o colosso e a mesquinhez, entre a magnitude e o insignificante.
– Somos elevados, ah se somos!, intelectualmente… E como somos! À nossa elevada estatura física, corresponde uma superioridade mental, cognitiva, de intelecção e de concepção. Mas a mediocridade humana, de cujo consentimento não dependemos para ser o que somos, ainda não descobriu, e levará muito tempo para fazê-lo. Enquanto isso, nos oferece apenas e tão-somente essas migalhas de pseudociência.
- Supimpa, Bina!
- Supimpa, mulher?
- Ah, magnífico!
As elefantas, num ato mecânico, fruto de anos e anos de evolução, darwiniamente presas às contingências dos instintos, continuam as abluções. Meia hora depois, comem suas rações e voltam a emitir ruídos que, usando de muita imaginação, poderíamos falar que se trata de uma longa “conversa”. Mas já é demais supor tal disparate. Elefantes são animais toscos, que nos proporcionam apenas diversão. São carismáticos, no máximo.
Assinado: Thomas Elroy McTyre, observador do zoológico de Southampton. Relatório 34bf-JH.