O medo de perdê-la e a ter magoado, logo a ela…

O medo de perdê-la o fez agir tolamente. Ele queria mais, tolamente queria mais demonstrações além das que Ela já lhe dara de que enfim, ao conhecê-lo, Ela também poderia lhe entregar as rédeas de seu próprio coração para que Ele, com o dele, o guiasse.

Mas Ele, apressadíssimo em tirar conclusões estapafúrdias, só fez o que não tinha que fazer.

O arrependimento de tê-la magoado o fez perder a noite. Já não queria nem mesmo ir ao trabalho! Mas foi. Cabisbaixo como um condenado rumo ao cadafalso, lá foi Ele.

As mensagens dele a Ela seriam respondidas? Tudo poderia voltar ao que era? Era tudo o que Ele queria. Seria o que Ela queria?

Ela que nem em sonho o magoaria?

Dependeria só dela.

Enquanto isso, Ele não tinha outra coisa na cabeça a não ser a imensa besteira que havia feito. Por excesso de cuidado, Ele tinha visto miragens assombrosas onde havia apenas o mais puro encanto por parte dela.

 

A lenda de Samanta, a cobrinha.

 

Num reino distante, há muitos e muitos anos, vivia numa floresta uma cobrinha chamada Samanta. Cansada de ser deixada de lado pelas amiguinhas cobras – ou amigas cobrinhas – mais extrovertidas, ela decidiu ir embora dali. Não tinha família. Quer dizer, cobras, naquela época, não eram muito sentimentais, não criavam vínculos afetivos, digamos assim, como as de hoje. Por isso, quando já podiam se rastejar, elas iam embora daquele lugar onde pela primeira vez viram a luz do dia.

Lá se foi  Samanta, mudando pela terceira vez então. Encontrou um lugar no qual viveu algum tempo.

Cansou-se, porém, dali. Decidiu ir encontrar o mundo, pela quarta vez. Mas, com grande tristeza, ela percebeu que já não podia ir tão longe. Sua pele já estava ressecada, nada flexível, o que lhe fazia rastejar durante horas sem ir muito longe. Cansada, a cobrinha, quer dizer, a ex-cobrinha, agora uma senhora cobra, teve a sensação nada reconfortante de que não vivera o suficiente. De que seus dias se arrastaram, ou, literalmente falando, ela havia se arrastado e se preocupado apenas com coisas insignificantes que, então, ela achava as mais importantes, como um ratinho aqui, pequenos lagartos ali, umas rãzinhas acolá. “Tudo bem”, pensava ela, “que fossem para a minha subsistência, mas eu deveria ter me preocupado igualmente com coisas mais elevadas, um tratado de filosofia do veneno, a questão da permanência do rastejo perante outros meios de locomoção, a imagem das cobras como seres do mal, falsos, sempre a arquitetar algo de satânico…”.

Que nada! Não fizera nada de valor. Nada!

Samanta, a cobra desiludida, encontrou um precipício, depois de muito se rastejar sem encontrar viv’alma. Agora, o sol inclemente, as aves de rapina ao longe, o abismo à sua frente.

O que faria Samanta? Entregar-se-ia? Não lutaria pelo pouco que restava de sua vida rastejante?

Sem muito pensar, seguindo seu instinto de cobra, empoleirou-se numa árvore. Passadas algumas horas, quando o sol havia se posto e a lua iluminava com um branco cremoso as colinas sem fim, Samanta acordou.

Sons de lobos ao longe. Grilos. Sapos. A orquestra da floresta. Os espíritos noturnos saíam para seu passeio costumeiro.

Um bruxo entediado, sem mais o que fazer, dava tratos à bola embaixo da árvore na qual estava Samanta.

Ela, lá em cima, se mexeu, pois estivera naquela posição por horas.

O bruxo, atento, conhecedor das coisas mundanas e extra-mundo, sabia que ali estava uma cobra envelhecida, sem mais o ardor da juventude ou o vigor da meia-idade.

De súbito, ele teve uma idéia. Riu sozinho. Esfregou as mãos calosas.

Até hoje, ninguém nunca soube em que ele transformou exatamente Samanta. Cada um diz alguma coisa diferente, isso há gerações!

E assim terminou a história daquela cobrinha que crescera e vira a vida passar assim. Rastejando-se.

Uma questão de fé

- Cara, não vem com essa que você é religioso que eu não acredito.

- Mas não tô pedindo pra você acreditar.

- Não acredito mesmo. Nem em você nem em religião alguma. Você sabe bem o que penso: todas as religiões trazem embutida em si uma coisa: todas elas são um mecanismo de defesa, uma forma de se apegar a algo que nos faça perder nossa sensação de desamparo e nosso grande e eterno medo, tá ligado? ”Qual medo?”, vejo estampado no teu rosto. Eu respondo:  o medo de constatarmos nossa finitude, a precarieadede de nossa existência.

- Mas as religiões, diga-se de passagem, têm sido competentes nisso há milênios, você há de convir.

- Competentes em alimentar a paranóia humana, isso sim!

- Tá ok. Não vou discutir. Mas você foi bem apressado. Eu não disse que eu era “religioso”. Eu apenas lhe contei que a Samantha, aquela cujas tatuagens íntimas a cidade toda já viu, e que agora é outra pessoa, totalmente diferente, tá seguindo uma religião e atribuí essa mudança radical a essa busca dela pelo transcendental. Ou à religião, como você quiser.

- Mas não acredito. Ponto final.

- Por que não?

- Mais dia menos dia ela volta à vida de antes.

- Como você pode ter tanta certeza, criatura?

- É científico.

- O que é científico, Einstein?

- O comportamento dela já tá assimilado, entende? É impossível se desvencilhar desses padrões de comportamento de uma hora pra outra. Ninguém muda assim de repente. Além do mais, no caso dela a coisa é hereditária, o que é um agravante.

- Tu andas muito materialista!

- Olha quem fala! Quem te viu…

- Muito mesmo.

- Quem dizia dia desses que Deus é “uma abstração castradora de nossos potenciais”? Voltaire? Freud? Não, você!

- Ando repensando algumas coisas.

- Tô falando! Qualquer dia desses te vejo saindo de uma igreja. Não, pior: te vejo Papa!

- Não fala assim.

- … Tá. Não falo. Não falo mais nada, só lamento.

- Não exagera.

- Vou tentar.

- Isso, tenta.

- Por falar em “tentar”, tô indo agora fazer uma fezinha na loteria. A MegaSena tá acumulada de novo. Vamos? Se a gente ganhar, a gente de muda. É só crer nisso e…

Um desafio ao (à) leitor (a)

Nota do administrador do blog: História inacabada. Para ser completada pela imaginação do leitor. Favor seguir o detalhe imprescindível especificado entre colchetes

 

    Era o dia mais feliz da vida de João. Chegando do trabalho, afobado, não via a hora de mostrar para a esposa o comunicado que dizia que ele iria trabalhar no exterior por dois anos, com um salário suculento. Em suma: uma proposta irrecusável, daquelas que só aparecem uma vez na vida…

 

 [ ... Espaço reservado para a imaginação do leitor...Detalhe importante: a esposa de João era infiel...]

 

 

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Ao som de Bob Dylan, When the deal goes down

"Literatura – e arte de forma geral – é para poucos". Eis um argumento retrabalhado aqui ficcionalmente para melhor ser entendido.

Com a palavra, um Prêmio Nobel de Literatura:

 

    Daqui deste palco da nobre academia sueca, onde tenho a honra grandiosa de receber os louros da minha carreira, lembro que, vasculhando as entranhas de tantos países, achei no Brasil (vejam só: as pessoas “lêem” lá!) uma cidade grande, importante, em cuja periferia uma grande biblioteca pública acabou de ser aberta. E pasmem os senhores: vi garotos maltrapilhos, homens de feições grosseiras, mulheres destituídas de graça, tal a carga de dificuldades em suas vidas sem brilho –  pois bem, eis que vi tais dejetos humanos portando obras de Shakespeare, Dante, Goethe, entre outros. Eu lhes pergunto: o que aqueles pobres coitados e coitadas vão absorver daqueles livros? O que vão assimilar? Sou contra a vulgarização e liberalização da arte. A partir do momento que se liberam livros, especificamente, corremos o risco de diminuir o valor intríseco das obras literárias genuínas, autênticas, incompatíveis com almas grosseiras e destituídas da sensibilidade necessária para fruir as múltiplas camadas de significados de um Hamlet, de um’A Divina Comédia, de um Fausto. Proíbamos as bibliotecas do mundo incivilizado, demos um basta à tal libertinagem para com nossos imortais das letras! A literatura não é para qualquer um! O livro não é para qualquer um. A arte é para poucos, intrisecamente falando.

 

   Palmas e mais palmas. Ovação. Mais um Prêmio Nobel de Literatura é concedido a um grande romancista francês.

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 Tal discurso, obviamente, não existiu. É apenas a recriação  livre e intencionalmente exagerada de um argumento que já ouvi cá por estes trópicos…

 

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Ao som de Bob Dylan, Like a Rolling Stone

História concisa da satrapia de Lisarb, de seu Sátrapa* nada-esclarecido, Laul, e de seu infortunado povo, no ano da (des)graça de 006.

 

  “Há muitos e muitos anos, numa satrapia…

   – Não quero ser incomodado de jeito nenhum. Estou pensando! Não estou nem para o Papa, entenderam?
   – Mas, Excelência…
   - Acordei invocado hoje!
   O Sátrapa se encontrava circunspecto e irritado naquelas semanas que antecediam sua posse. Digamos melhor: sua segunda posse. Sua Excelência estava a refletir profundamente em uma maneira de fazer sua satrapia crescer economicamente e, vejam só, os lisarbianos pararem de lhe incomodar com  as promessas que ele havia lhes feito havia pouco tempo antes. Num de seus discursos diários, o Sátrapa dos sátrapas havia reconhecido humildemente, por fim,  que não sabia a fórmula mágica que faria o reino de Lisarb progredir e, junto com ele, seu povo sofredor e paupérrimo.
   Qual não foi a surpresa quando o Sátrapa, que tinha o carinhoso apelido de Laul, declarou o seguinte alguns dias depois: usando de seus poderes diplomáticos entre os grandes do mundo – e também da sua ‘extraordinária’ biografia, que nunca houvera antes ‘naquele reino’ -, ele, do alto de sua magnitude e da sua surpreendente capacidade de discernimento e total empatia com o povo de Lisarb (pois dele viera), tinha a certeza da data em que ele, mágica e messianicamente, obteria, por artimanhas as mais misteriosas, o conhecimento das medidas para fazer Lisarb finalmente crescer de forma sustentada.
   O pasmo no reino foi enorme: na praça central, houve discussões calorosas, mas muito poucas entre elas eram céticas. Estas foram prontamente neutralizadas pelas competentes e altamente aparelhadas ERCI e CDCP (Esquadra Real de Contra-informações e Central de Divulgação de Cascatas e Patranhas, respectivamente).
   A grande data era o primeiro dia do ano de 007, quando ele, Alul, de forma consagradora, receberia dos lisarbianos mais quatro décadas para gerir os destinos da satrapia.
  (Outros governantes de países com déficit de crescimento econômico também queriam saber como fazer para receber os ensinamentos. Seriam do além?, perguntavam eles.)
   Passados mais alguns dias, Laul disparou: não devia sua condição de soberano a ninguém, algo inimaginável alguns meses atrás, quando ele, então a humildade em pessoa, dizia que precisava dos votos da plebe, alimentada pelo PRDAF (Programa Real de Distribuição de Algibeiras Furadas), para ser, por mais oito longuíssimos lustros, seu guia e benfeitor.
   O dia da posse chegava e, à medida que o tempo passava, todos se admiravam (quer dizer: com exceção dos caçados dia e noite livres-pensadores, prontamente enforcados em praça pública pelo aparelho repressor do regime, pois eram seres críticos o suficiente para não se engabelar pelos disparates de Alul e seu séquito de bajuladores), se admiravam, dizíamos nós, com a sapiência que mostrava o Sátrapa para, num exemplo de sua excepcionalidade, ter o dia e a hora para anunciar, com toda pompa e circunstância, as esperadas, sonhadas e há muito desejadas medidas que tirariam Lisarb da condição de ‘satrapia do futuro’.
   Mas poucos eram aqueles que se perguntavam: por que Laul, que já havia sido governante (se os leitores não tiverem uma concepção muito ortodoxa do termo, obviamente!) nas quatro décadas anteriores, não apresentara antes a tal da fórmula misteriosa, aquela que resgataria Lisarb da ignomínia de patinar nos medíocres 2% e qualquer coisa de crescimento econômico, crescimento esse em muito superado pelo País da Seda, pelo País das Vacas Sagradas e pelo País da Vodka, nações que aproveitavam a calmaria dos mercados?
   E por que aquela data cabalística?
   Ninguém jamais soube.
   Lisarb continuou a Lisarb de sempre pelos quatro decênios restantes. A satrapia teve que se contentar com o fato de ser exímia apenas no jogo de pelota e na dança das ancas desnudas”.
 

              * * * *

 Sátrapa:             

1 Rubrica: história.
na antiga Pérsia, governador de uma satrapia
2 Derivação: sentido figurado.
indivíduo muito poderoso e arbitrário; déspota
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Fonte: Dicionário Houaiss

Visão do inferno

À   A.R.M.

Naquele dia, Ele acordou cedo. Despediu-se da mulher, beijou a filhinha no berço. Pegou umas bolachas, colocou-as no bolso, tomou um gole de café com leite e foi ao trabalho.

Entrou no ônibus. Sentou-se. Encostou a cabeça na almofada. Fechou os olhos. A viagem seria, como todos os dias, longa. Apesar das vozes, dos solavancos, Ele dormiu. Sonhou. Estava num navio, em alto mar. E era o comandante. Mas não havia mais ninguém. Apenas Ele. Ao leme, tomava o rumo que queria. E seguia. A vastidão oceânica a perder de vista.

Mas acordou. E teve a sensação de que estava indo rumo ao inferno.

Todos, ao seu redor, tinham, para Ele, um aspecto que confirmava suas apreensões . Todos com o semblante de quem sabe que é o fim. Que não adianta espernear, gritar, revoltar-se: nada. Olhou para a rua. As pessoas estavam apressadas. Decerto apertavam, também elas, os passos rumo ao mar de enxofre. Ele lembrou-se da vida atribulada. Dos menores pecados. Das mancadas. Dos pensamentos sujos.

Nisso, vejam bem, entrou um padre. Como fazia todos os dias, naquele mesmo ponto de ônibus, despediu-se de algumas pessoas com uma benção. E entrou. Para pasmo de nosso amigo, o padre o olhou fixo. Cumprimentou-o. Como quem dissesse: boa viagem ao inferno, pecador. O padre foi para o fundo. De lá, era como se o sacerdote olhasse para Ele, que tentava esquecer o padre. Mas não conseguia. Olhou para o lado. Via o sol tornar-se mais forte. A velocidade do ônibus aumentando. E com ela, sua apreensão. Via já como seria sua nova vida no inferno. As amizades novas que teria ali. Sua nova casa. Sua nova família. A eternidade pela frente para se acostumar com o novo. À medida que passava o tempo, tentava se apegar a algo mais forte, mais substancialmente ainda pertencente à vida normal de até pouco tempo atrás. Mas não adiantava, dizia consigo mesmo, se apegar a essa vida que já escoou entre os dedos. Agora, a vida se resume às chamas eternas! E, apesar disso, ou por causa mesmo disso, foi aumentando o nervosismo. O ônibus começava agora a passar sobre uma ponte sobre o Rio Tanatotiaquaia. E então, num movimento tresloucado, fez, aos berros, o motorista parar. Saltou do veículo. E sob o olhar pasmo de todos, num ápice, subiu, a muito custo, na mureta. De lá, olhou para as pessoas estupefatas e após gritar: Prefiro a vida do que o inferno!, jogou-se no rio.

Por causa da queda, morreu instantaneamente.

O padre se benzeu. Bem como a maioria dos passageiros. Um deles disse:

- O inimigo levou esse.

 

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      Ao som de (momento volta à adolescência):

  •   Barão Vermelho, O poeta está vivo
  •   Legião Urbana, Índios, Tempo Perdido e Que país é este?

Sem título. Pois sem sentido.

 

Uma vez, apenas uma vez, eu a vi sozinha. Sempre estivera rodeada de amigas. Puxa-sacos. Admiradores. Baba-ovos. Pretendentes. Baladeiros de todas as tribos. No entanto, daquela vez, milagrosamente, “desnaturalmente” (contra-senso monstruoso!), ela estava só. Ninguém mais a não ser sua sombra a acompanhava. Fiquei a olhá-la de longe. Ela caminhava meio cabisbaixa. Faltava-lhe um elemento. Ela estava destituída de sua essência: os outros. Eles a completavam, a afirmavam, a definiam. Sem eles, ela apenas vagava, perambulava e flanava amorfamente, sem uma identidade certa. Era o vácuo. E nele, e com ele, ela seguia em frente. De vez em quando olhava ao redor, como a implorar que devolvessem, sim!, de-vol-ves-sem o que lhe pertencia! Mas não. Ninguém a conhecia. Era mais uma anônima. Mais um fantasma vagando. Sem personalidade.

Eu a vi só. Tive esse privilégio.

Que não durou muito.

Ela caminhava. Parou em frente a uma loja de espelhos. Mirou-se. Daquele jeito que as mulheres fazem tão bem. E aconteceu: ela riu para si mesma. E mandou um beijo. Para ela mesma. E riu de novo. E sacudiu os cabelos. E os prendeu. De novo daquele jeito femininamente fatal. Transfigurara-se: não podia ser mais a mesma de poucos minutos atrás!

E de certa forma não era mesmo.

Girou nos calcanhares. E se foi. Busto erguido. Impavidamente feminina.

Daquele momento em diante, os outros eram os outros. Era como se ela, epifanicamente, tivesse se conhecido naquele instante único. Aliás, todos os instantes são únicos.

Nunca mais a vi.

Dizem que ela, hoje, está se tratando. Sofre de narcisismo agudo. Falam que mata…

 

Baseado livre e porcamente no conto O Espelho, do Machadão (só para os íntimos).

Ao som de John Matisse Coltrane, A Love Supreme e Countdown

No zoo de Southampton, uma conversa esclarecedora

   ELEFANTES SE RECONHECEM NO ESPELHO

                    

   Os elefantes acabam de ingressar na seleta elite de animais capazes de se reconhecer diante de um espelho. Até então se sabia que, além dos seres humanos, somente grandes primatas e golfinhos tinham essa habilidade.

   (…)

   A experiência, publicada hoje na revista PNAS, consiste em marcar os animais com um X na cabeça. Incomodada, uma das fêmeas usou espontaneamente um espelho para observar onde havia sido marcada. Ao olhar sua imagem, o animal tocava com a tromba a marca, que só podia ser vista pelo reflexo.

Fonte: Estadão, 1º de novembro de 2006

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   Zoológico de Southampton. Calor de 36 graus. Hora da ducha mútua. Duas elefantas se refrescam.

   - Viu só, Trombina, estamos sendo finalmente reconhecidos!

   - Ah, esses humanos…

   – Eles sempre se achando os reis da cocada…

   – Reis da cocada, Trombilda? Que coisa mais superada!

   – Ah, Trombina, eles se acham… Só agora perceberam que nós, elefantes e elefantas, somos capazes de nos reconhecer… no espelho… hihihihi…

   – Tolinhos!

   – E só no espelho, note bem!

   – Sim, isso quer dizer que, segundo eles, eu, Trombina Paquis, não sei quem sou, conceitualmente… Meu aparato psíquico, para os néscios, não é desenvolvido o suficiente para que eu possa me ver como um indivíduo e, conseqüentemente, não sou capaz de fazer uma abstração e, num processo de racionalidade sutil, generalizar e ver em mim um membro de uma dada espécie…

   – Esses humanos ainda se regozijam com tal “descoberta” do espelho…

   – E nos colocam limites, ao nos atribuir apenas e tão-somente a habilidade de nos reconhecer frente a um reles objeto do qual eles são servos, o espelho.

   – E, assim, meu “eu”, meu “self”, vai por água abaixo. Assim, literalmente, veja.

   As elefantas mergulham parcialmente na água do riacho natural. Os animais estão estressados com o calor.

 

   – Hahahaha…O meu também.

   – Sim, o “nosso”.

   Pausa novamente. Água para todo o lado. Os sons emitidos pelos paquidermes são fortes. É um indicativo da satisfação dos animais. Eles parecem, digamos, ”conversar” sobre algo profundo.

   – Os “humanóides” são patéticos…

   – Sim, Bina, eles só sabem trabalhar, num plano conceitual, com aquilo que a pobre ciência deles dá de barato…

   - Dá de barato, Trombilda?

   – Sim, amiga, vê como algo certeiro, incontestável, incontornável, pre…

   - Entendi, Bilda.

   – … é isso. Eles não imaginam há quanto tempo já somos capazes de nos reconhecer, não em termos apenas de imagem, mas de conceito e também universal, racional e sobretudo filogeneticamente falando! 

   – Exato. E que somos mais do que comedores de amendoim. E que nossa relação com os ratos extrapola o âmbito limitado de supostos medos ancestrais e atávicos. E que não somos apenas animais de carga.

   – E que possuímos muito mais do que uma boa memória… Conceito esse que, para eles, quando se refere a nós, é apenas restrito ao âmbito de um behaviorismo ridículo.

   – Sem falar que o “medo” que apresentamos de um roedor diminuto NÃO é medo, na verdade. É, isso sim, a vertigem que sentimos, do alto de nossa massa física, da nossa imensidão e superioridade musculares, diante daquele absurdo contraste entre o poderoso e o irrelevante…

   – …entre o macro e o micro. Entre o colosso e a mesquinhez, entre a magnitude e o insignificante.

   – Somos elevados, ah se somos!, intelectualmente… E como somos! À nossa elevada estatura física, corresponde uma superioridade mental, cognitiva, de intelecção e de concepção. Mas a mediocridade humana, de cujo consentimento não dependemos para ser o que somos, ainda não descobriu, e levará muito tempo para fazê-lo. Enquanto isso, nos oferece apenas e tão-somente essas migalhas de pseudociência.

   - Supimpa, Bina!

   - Supimpa, mulher?

   - Ah, magnífico!

   As elefantas, num ato mecânico, fruto de anos e anos de evolução, darwiniamente presas às contingências dos instintos, continuam as abluções. Meia hora depois, comem suas rações e voltam a emitir ruídos que, usando de muita imaginação, poderíamos falar que se trata de uma longa “conversa”. Mas já é demais supor tal disparate. Elefantes são animais toscos, que nos proporcionam apenas diversão. São carismáticos, no máximo. 

   Assinado: Thomas Elroy McTyre, observador do zoológico de Southampton. Relatório 34bf-JH.

O Reino do TudoIgual

Havia, há muitos e muitos anos, um reino chamado TudoIgual. Por decreto real, os tudoiguaisenses tinham que ser parecidos em tudo, obviamente. Nos gostos, nas roupas, na forma de falar! Um dia, vindo de terras distantes, um cavaleiro extraviado foi parar naquele reino da igualdade. Nos trajes, na forma de cavalgar, em tudo ele era diferente! O espanto e o pasmo nos rostos dos tudoiguaisenses foram enormes. Com o tempo, o que era novidade foi-se tornando comum: primeiro um, depois outro, em seguida outros, outras, dentro de pouco tempo quase todos estavam a se portar, a se vestir, a viver de forma diferente, cada um seguindo seus gostos, suas inclinações, suas tendências. A notícia de tal ousadia e infração às leis reais chegou de forma trágica aos ouvidos do rei.

– Alvíssaras, Alteza!

– Como é que é? Neste reino jamais ninguém usou tal expressão. Matem-no!

– Mas…

Decapitaram o mensageiro encarregado de trazer as velharias e que por um lapso trouxe uma novidade, algo inimaginável naquelas terras. O Rei se acomodou no trono, visivelmente preocupado.

– Ouvi dizer que neste reino andam fazendo coisas diferentes das quais estamos acostumados. Ou seja, andam fazendo coisas que nunca aqui foram feitas, fugindo, pois, do que está determinado, do que temos há muitos e muitos anos, geração após geração, ano após ano, graças a meu decreto iluminado.

Os dias passaram. O rei saiu a campo para constatar com seus próprios olhos o que diziam. E ao atravessar uma ponte, algo lhe chamou a atenção. Os trabalhadores que se esfalfavam na construção usavam métodos diferentes (que escândalo!) de engenharia. Curioso, o rei ordenou que parassem a carruagem. Desceu dela. Ao se dirigir ao capataz:

- Ou muito me engano, ou esse método de construção é diferente.

- Sim, Vossa Alteza está certo.

- Exijo uma explicação.

- Sim, Alteza. Quando nosso partido chegou ao poder, tudo era diferente, como todos sabem. Pregávamos a mudança. Críamos em nosso potencial de mudança, em nossa capacidade gigantesca de unir corações e mentes num projeto de mudanças, de revisão dos processos até então vistos como certos, mas que eram de fato ineficazes. Passamos a implementar nossos métodos, que em quase nada diferiam daqueles que nos antecederam. Erramos. Também não fomos bem-sucedidos. Passamos a usar e abusar da regra segundo a qual tudo que diferisse do que acreditávamos era errado, falho, imperfeito e visto como uma infração às regras do reino do TudoIgual. Agora, hoje, temos visto que não estamos condenados a viver sob o manto da mesmice, do previsível, que temos mais, muitas  outras maneiras de fazer as coisas, outros métodos, Alteza.

O Rei, atônito:

-Tragam meu rifle de caças!

No que foi desobedecido. Ao se voltar, viu, em sua frente, uma multidão armada até os dentes e logo atrás uma guilhotina. Dizem que antes de morrer, o rei implorou que não o matassem. Que ele mudaria e baixaria um decreto estabelecendo o livre-pensar. Mas era tarde demais.O reino mudou não apenas de nome. Mudou em todos os aspectos.

E prosperou.

Gênese

   Joãozinho achava que era Deus. Até que um dia sua mãe gritou: 

   - Sai desse armário, peste de uma figa. 

   E ele:

   - Olha lá como fala com Seu Criador!

   Foi nesse dia que a mãe dele adotou o rabo de tatu para as surras. E o espancamento sem dó.     

   Hoje, Joãozinho é candidato a deputado federal.